Macarrão de japones

Estamos carecas de saber que a variedade de frutas brasileiras é excepcional. E a excelência não fica atrás. Da rara cambuci à corriqueira banana, o Brasil é pródigo. Em sapotizeiros, goiabeiras, tamarineiros, pitangueiras, jaqueiras, jabuticabeiras, pés de maracujá, de ata, carambola, uvaia, mangueiras… Nativos ou naturalizados.

Com tanta abundância à mão, nossa ancestralidade criou uma rica tradição de compotas. Pelo que sei, única com tal abrangência e popularidade no mundo.

Tá bom que as bisavós europeias já preparavam pêssegos em calda e as chinesas deviam fazer o mesmo com lichia. Movia-as mais a necessidade de preservar ingredientes colhidos nos meses quentes para serem consumidos durante o inverno estéril. Além de focarem mais no prazer, as nossas tinham um cardápio muito, mas muito mais variado de opções. E, como compete às avós, não se esgueiraram da missão de nos adoçar a vida.

As piauienses alcançaram o patamar de mestres-de-ofício. Quem circula pelo aeroporto de Teresina, inevitavelmente sucumbe ao apelo das lojas que exibem a doce sedução de tocentos vidros de compotas em suas prateleiras abarrotadas de glicose colorida. Algumas são saborosíssimas. Caju e bacuri, por exemplo. Mas o primor dos primores, para mim, são as compotas de casca de limão.

Seu preparo é laborioso e exige artesania apurada. Precisa tirar a polpa dos limões e raspar a casca, por dentro, até que fique fininha. Cuidadosamente, para não esfuracar. Daí, vão para o longo cozimento em calda até que fiquem macias… O resultado são instigantes bolinhas verdes, ocas, imersas em doce líquido cítrico. Uma festa de delicadeza, textura e sabor. Surpreendente, para quem não conhece.

Imagino que tenha sido o coroamento de infinita sucessão de tentativas de fazer doce de limão. Aprimorada, melhorada, aperfeiçoada, apurada, até alcançar esse patamar de requinte.

A evolução do macarrão, deve ter sido – mais ou menos – assim. Só que milênio(s) antes.

Quando eu era criança, aprendi que foram os chineses que o inventaram. Assim como a pólvora, o papel (inclusive o higiênico), sorvete, pipas, bússola…. Acho que tinha mais coisa, mas não lembro.

Vamos imaginar o processo:

Primeiro, caiu um pedacinho de massa de trigo numa panela de água fervendo. Um guloso tipo eu, resolveu provar e gostou da textura. Acrescentar sal à água deve ter sido dedução óbvia; nascia o nhoque (precursor do macarrão?).

Para exercitar a paciência artesanal (atributo chinês), devem ter começado a dar formas à massinha (imagina só os dragõezinhos e pandinhas caprichadíssimos…).

Passo seguinte: para variar, passaram a puxar e esticar a massa; logo começou a competição para ver quem alongava mais; eureca! Criaram o macarrão. Detalhe, tudo isso moldado à mão, sem os cilindros que usamos hoje.

Como é que eu sei dessa parte? Eu vi! E olha que é bem legal…

A primeira vez foi num restaurante aqui em Sampaulo, o Golden Plaza, no bairro Real Parque. Era um festival com cozinheiros trazidos de Pequim. E eu fiquei pasmo.

Depois, descobri que essa destreza culinária com jeitão de prestidigitação acontecia sempre, no meu chinês favorito na cidade, o Ton Hoi (já apresentado aqui, no post “Fora de Mão II” publicado em 19 de março de 2016). Mas, até lá, já adotaram as técnicas mecânicas…

Voltemos aos primórdios: um dia, há mais de 700 anos, um aventureiro ocidental abusado – Marco Polo – resolveu viajar até o extremo Oriente atrás de novidades. Voltou carregado delas (lembram? Pólvora, papel, bússola, sorvete, macarrão…. Ah, lembrei agora de outra invenção: a seda, claro).

Marco Polo, de volta da China, carregado de novidades.

Trouxe isso tudo para onde? Para Veneza, Itália. E os italianos, que não são bobos nem nada, trataram de “patentear” as comidas – que sempre rende uma graninha e rende sempre – com o carimbo Prodotto in Italia.

O sorvete virou gelato e o macarrão, bem… O macarrão se multiplicou em spagheti, tagliarini, fettucini, pappardelli, linguini, bucatini, bavette… Só não sei se foram os ancestrais dos marqueteiros que tanto segmentaram o souvenir chinês de Marco Polo ou se foi sequela de briga dos herdeiros pelo legado do viajante.

Enquanto isso, o macarrão continuou a ser preparado na sua terra natal.

Para chegar ao Japão, foi mais fácil. Bastava atravessas um braço do Pacífico. Não precisava percorrer meio mundo. A uma via Dutra de distância sobre o mar da China, uma canoa mais resistente vai da chinesa Shangai à Nagasaki nipônica. Levaram o macarrão, mas a receita não foi junto. E os japoneses, pragmáticos do jeito que são, decidiram, depois de cozinhar, não desperdiçar a água. Já estava quente mesmo…

Distribuíram tudo em tigelas, temperaram bem com shoyo (estamos no Japão, lembra?), acrescentaram verduras, algas (também não pode faltar, por lá), proteína (geralmente, carne de porco) e mandaram ver. Nascia um dos ícones do cardápio nipônico: o lámen.

E você achando que aquele macarrão em saquinho se chamava miojo. Miojo é marca.

Mas lámen bom é muito mais – e melhor – do que o que o que vem naquelas embalagens de preparo instantâneo que alterna com pão com ovo a dieta de quem está mal de grana.

Só que esse macarrão japonês, digo, lámen, demorou muito para cair no gosto do povo (até porque não era fácil tomar aquela sopa com pauzinhos).

Só pegou, mesmo, depois da segunda guerra mundial, há coisa de setenta anos. Os Estados Unidos decidiram dar uma força na recuperação da devastação que aprontaram por lá. Não por consciência pesada pelas bombas atômicas (que americanos não são chegados nesses atos de contrição, até porque eles é que foram atacados primeiro, em Pearl Harbour), mas para evitar que o antiamericanismo transformasse o país em presa fácil da ideologia comunista.

A ajuda foi tanto financeira, quanto em bens e alimentos. Entre eles, toneladas e mais toneladas de trigo. Para aproveitá-lo, o governo local decidiu, então, promover a disseminação do lámen. Tipo divulgação de receitas, dos benefícios, das vantagens…

Não sei se distribuíram cartazes com fotos do imperador Hiroito atracado numa tigela, outdoors de um lutador de sumô devorando sua bacia de macarrão, filmes de National Kid em dúvida se acabava de comer seu lámen ou ia combater os Incas Venusianos, mangás de Hello Kitty chupando um macarrão com onomatopeia (schlupt)…

Brincadeiras à parte, a propaganda ganhou a parada. Os japas adotaram o lámen como comida tão corriqueira quanto sushi, tempura e doce de feijão azuki.

Ahhh, por falar em Hello Kitty, eles não acham grosseiro comer lámen chupando e fazendo barulho.

Aqui em Sampaulo, não existiam restaurantes de lámen. Até coisa de oito anos atrás, quando as tigelas de macarrão viraram moda na cidade. Foi nessa época que abriu o Lámen Kazu, no bairro da Liberdade. Numa rua curtinha do bairro oriental, coalhada de bares e restaurantes japoneses, a Tomás Gonzaga – vai da avenida da Liberdade até a rua Galvão Bueno (é outro Galvão Bueno, não aquele que você pensou…).

À noite, principalmente nos fins-de-semana, há sempre fila na porta do  Lámen Kazu

O restaurante, dentre os muitos que abriram nesse florescer paulistano do lámen, acenava com o atraente diferencial de uma parceria – que mantém até hoje – com uma rede de bārāmen, restaurante focado em lámen, espalhada pela vizinhança de Tokio. Tipo consultoria gastronômica e suporte operacional (o macarrão e vários outros ingredientes usados no Lámen Kazu são made in Japan!).

Fui lá, logo que abriu. Gostei. Simples, com jeitão de boteco fast food, mas bem simpático. Tem clima amigável, os garçons gritam saudações, em japonês, para quem entra (ようこそ) e quem sai (さようなら).

O salão sempre cheio do Kazu Lámen

Dispensei as mesas e sentei no balcão, diante dos equipamentos modernos de preparo. E fiquei apreciando o lufa-lufa de finalização dos tigelões de lámen. Além do espetáculo culinário pitoresco, diverso do que estou acostumado no dia-a-dia, acaba que foi muito útil.

Diante do balcão, os cozinheiros não param.

Conversei bastante com a rapaziada e, papo vai, papo vem, decidi meu pedido com mais conhecimento de causa e segurança. Embora o cardápio seja bem explicadinho, com fotos ilustrativas de cada prato e tudo.

O cardápio detalhado e ilustrado do Kazu Lámen

E mais: é interativo. O Kazu Lámen oferece cerca de vinte preparos padrão. Mas podemos alterar ou acrescentar ingredientes – há uma lista explicativa deles, logo na primeira página. Incluem, além do macarrão e do caldo (que pode ser à base de shoyo, missô ou shio), carne de porco, lascas de bambu grelhado, broto de feijão, wakame (uma alga marinha que me lembra o espinafre), nori (aquela alga que parece uma folha de papel, é usada em sushi e dizem que ajuda a controlar o colesterol), ovo, milho, alho, gergelim, vieira…

Eu sou louco por vieira e não abro mão de as acrescentar. Só que costumo jogar uma pitadinha de sal sobre elas, porque mergulham-nas insossinhas da silva no caldo.

Meu lámen do Kazu Lámen predileto é o Hokkaido Misso Lamen. Sem milho! E com duas vieiras a mais. Na mesa, acrescento pimenta e óleo de gergelim.

Sem contar que, para quem não gosta de sopas e afins, ainda há a alternativa de uns dois pratos de arroz coberto por picadinho. No Tyashu Don, a carne vem temperada sabiamente com molho agridoce. E ainda vem acompanhados de uma saladinha básica e caldo missoshiru.

Tyashu Dom – Picadinho agridoce sobre arroz. Com saladinha e caldo Missoshiru.

Para beber, O Lamen Kaze oferece opções que vão de destilados de arroz e ameixa a refrigerantes japoneses. Passando pela deliciosa cerveja Amazon aromatizada com bacuri.

Sake, Shōchū, refrigerantes japoneses e a ótima cerveja Amazon – aromatizada com bacuri.

A sobremesa da casa, um sorvete de chá verde niponicamente enfeitado, escoltado por um biscoito de gergelim, é que é de uma sem-gracice capaz de agradar apenas a quem gosta de tofu.

Sorvete de Chá Verde, para quem está a fim de sentir gosto de nada, só que geladinho.
Minto, há um certo amargorzinho do chá…

Da primeira vez, saí de lá achando o lugar – e a comida – interessante, mas dei por visto. Achava que não bateria vontade voltar… Bateu. Logo eu estava com vontade de mergulhar de novo no aconchego saboroso e cheio de sustança daquela sopa. E virei habitué da casa. Vira e mexe estou lá.


De repente, numa noite fria do ano passado, batendo perna pela rua Fradique Coutinho, no bairro de Pinheiros, já chegando à rua dos Pinheiros, tenho meu flanar perturbado por uma turba (será que o conceito de perturbar deriva de turba ou é a palavra turba que emanou da perturbação que gera?).

Muvuca atiça minha curiosidade. Fui fuçar o que motivava aquela aglomeração. Descobri que o povo aguardava para se jogar no lámen de um restaurante novo que já nasceu causando: o TanTan.

Tan Tan – Toda noite é esta muvuca.

Eu ia pegar o metro ali em frente, na estação Fradique Coutinho. Decidi adiar minha volta para casa e aguardar mais de uma hora para conferir a novidade.

O ambiente interno, entrevisto pela porta, era diminuto e sedutor.

O lugar é mínimo. Mas é aconchegante e descontraído.

E uma janela/balcão, dando para a rua, servia bebidas (aí incluídos os ótimos coquetéis da casa) para animar a espera.

Os drinks são tentadores. Destaques:
Gojira (Shōchū – um destilado japones, “primo” do Sake, limão e gingerbeer feita na casa)
Hibiscus G&T (Gin Tônica com hibisco, alecrim e limão siciliano)
Gin & Tonic Tea (Gin Tônica com chá branco, hortelã e grapefruit)
Jamaican Drop G&T (Gin Tônica com pepino e pimenta jamaica)
São todos muito bons. Na dúvida, já deixe o carro em casa…

Valeu a espera! Tenho voltado lá, amiúde. Só que, agora, eu trato de chegar bem cedo, na beirada das sete da noite, para evitar o relento da longa vigília.

Sem contar que, como no Lámen Kazu, prefiro sentar no balcão de meia dúzia de lugares – ainda mais disputados – para ficar observando a azáfama do chef assistente Leandro e de sua brigada de comandados finalizando os pedidos em equipamentos de tecnologia avançada, state-of-the-art, japoneses, of course, que ocupam a parede fronteiriça.

O deleite começa ali.

O chef assistente Leandro (anos e anos de Japão na bagagem)
apresenta o Chicken Rice (que é um Gohan – versão japonesa do risoto,
temperado com algas e servido com frango empanado e ovo mollet). Boommm…

As entradas são todas ótimas, criativas, com destaque para o extraordinário – e beira banal de tão elementar, mas primoroso – Katsu Sando, um sanduiche de barriga de porco. Toucinho carnudo e saboroso, empanado, entremeado por pão de forma. Simples assim e delicioso.

O ótimo Katsu Sando;
embaixo, sendo embrulhado por Guilherme, figuraça que cuida da finalização das entradas.

Sem contar o Hiroshima Okonomiyaki. Tipo um sanduichão redondo entre duas panquecas, maior jeitão de “tem-de-tudo”, recheado com carne de porco desfiada e macarrão. Uma levíssima sort of maionese japonesa, além de um molho à base de ketchup, shoyo, cognac, alho, gengibre… O pior é que funciona! Saboroso que só. Queria ter sempre um à mão quando baixa a larica.

Hiroshima Okonomiyaki, uma panqueca tradicional no Japão.
E nós achando que japones era parcimonioso…

E o Tebá? Sabe as buffalo wings americanas? Essas são as melhores das que tenho comido em Sampaulo. Crocantes e untuosas (banhadas em molho apimentado…) Hummmm…

Tebá

Já os Lámens….

Os tantans conseguiram sofisticar a sopa popular japonesa, sem mexer na sua essência. Não estivesse o adjetivo gourmet tão desgastado, dava para laurear suas tigelas com essa qualificação.

Meu predileto é o Karê Udon. Além do macarrão, vai carne de porco empanada, ovo mollet inteiro (não conhece? Não sabe o que está perdendo… É ovo cozido lentamente a baixa temperatura – por volta de 60 graus – preservando textura gelatinosa, gema cremosa…. Sabe quando a culinária encontra a emoção da arte?), além de cebola caramelizada e fatias tostadas de alho, tudo imerso em caldo de frango com curry.

Karê Udon

O Missô Ramen leva
carne de porco,
ovo ajitama (que é ovo cozido no ponto da gema ficar cremosa – 6 minutos, mais ou menos –
                       e, depois, marinado em caldo de galinha temperado com algumas ervas orientais),
além de broto de bambu e nori.
Tudo isso imerso em caldo de frango; detalhe: temperado com misso, alho assado, mel e manteiga.

Se sobrar caldo, eles fazem recarga de macarrão e ainda acrescentam, se você quiser, ovo e/ou carne de porco e/ou alga e/ou broto de feijão….

E ainda rola uma versão vegana de lámen, o Vegg Ramen, feita em caldo de cogumelos e misso, engrossado com berinjela. O macarrão é coberto com vegetais, nabo e broto de feijão. Um ovo ajitama é opcional..

Para quem não gosta de sopa, o Ankakê Yakisoba é… Um tipo de yakisoba! Preparado na wok, claro. Primeiro tosta levemente o macarrão e, em seguida, acrescenta lula, porco e legumes. E é finalizado com um molho de frango, alho, gengibre e gergelim. E o resultado é leve e saboroso.

Ankakê Yakisoba

Nem precisa se preocupar em guardar muito espaço para a sobremesa, porque o Kakigori é leve, levinho. E é irrecusável.É como se fosse uma montanha íngreme (para quem já leu os desenhos de Asterix, parece um menir), de raspadinha de gelo. Raspadíssima de gelo, eu diria (sabe neve?). Semi-coberta por uma calda feita de chá verde e leite condensado. E ainda vem uma tigelinha da calda extra para ir complementando… Lá no alto, no cume, um suspiro arremata a doçura. Desbastar é uma sweet, sweet brincadeira prazerosa.

O surpreendente – e adorável – Kakigori

Da próxima vez, quando bater vontade de comer japonês, saia do sushi-comum.

Quer saber como é o jeito japonês (correto ?) de comer lámen?

 

 

 

 

 

Pizza & Blues

Rolou desventura, infortúnio, vicissitude? Está na merda, chorando revés? Perdeu o emprego? E ainda bateu o carro? Levou chifre, tomou pé na bunda? Faltou dinheiro para pagar o aluguel e não sobrou nem para o pão com ovo?

…..Nessas horas, o jeito é se jogar no Blues.

Tudo o que deixa a gente na pior nos lança no mood para o Blues.

Para versejar a lamentação num Blues, bem entendido. Em letras de uma “indigência” muitas vezes constrangedora, sexistas e violentas, com referências a vinganças sanguinolentas, tiros, facas…

Já a música vai muito além da auto piedade. É como se o ritmo – às vezes dolente, mas que costuma atingir altos remelexos de animação – funcionasse como catarse, destilando o sofrimento em foda-se; tipo um porre de redenção.

Destilar e porre são conceitos que vêm bem a calhar: quando essa extraordinária matriz musical americana nasceu, no final do século XIX, blue era gíria usada para discriminar bêbado.

Se bem que a imagem do desabrochar do Blues que alimenta o imaginário americano não tem relação direta com grogue. O cenário são as plantações de algodão dos estados do sul (escravocratas confederados na guerra da Secessão) – com epicentro no delta do rio Mississipi, arredores de Nova Orleans. Foram os negros da Louisiana, Texas, Arkansas, Missouri, Alabama, Georgia, Tennessee, Carolinas e adjacências (já forros, mas fodidos e mal pagos) que passavam a vida apregoando seu sofrimento em cantilenas intermináveis, enquanto colhiam o algodão de seus senhores, digo, agora, patrões.

À noite, nos bares dos alojamentos (olha o pileque aí), os versos que haviam feito mais sucesso no campo eram repetidos para folgança de todos. E ganhavam ritmos animados para que pudessem, já encharcados no álcool, rir e dançar de seu infortúnio.

Embora o Blues não me fosse completamente desconhecido, nunca havia atentado para a relevância – essencial e imprescindível – do ritmo. Em meu favor, o argumento de que meu talento musical se restringe à plateia. Nem palmas eu consigo bater no ritmo…

Foi depois de uma temporada em New Orleans, caminhando  todas as noites nas imediações da Bourbon Street, pelo French Quarter, batendo ponto no Preservation Hall e no House of Blues – ou ouvindo o que emanava de qualquer biboca por mais espelunca que fosse – que meus pés passaram a bater compulsória e compassadamente, ao reconhecer um good old blues. E olha que foi só uma semaninha, há coisa de vinte anos!

Blues (e Jazz, e Soul) não param em New Orleans.
Seja no House of Blues, no Preservation Hall (à esquerda)
ou nas ruas mesmo, anywhere and everywhere.

Mesmo zero à esquerda que sou, passei a reconhecer a batida bluesística nas canções de algumas de minhas divindades rockeiras, particularmente em Jim Morrissey, digo, The Doors; e – só para citar alguns rock stars com lugar cativo em meu altar – Elvis Presley, ZZ Top, Joe Cocker, The White Stripes (resgatando velhos standards pra a vanguarda da vanguarda), Cream (Eric Clapton sempre foi blueseiro de carteirinha), Stevie Ray Vaughan (dá-lhe gaita afinada!), Credence Clearwater Revival, Santana (Blues for Salvador é guitar in it’s best), Deep Purple, Led Zeppelin (e, clarevidentemente Jimmy Page), Fleetwood Mac, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grateful Dead, Jethro Tull…

E, de repente, agora no final de 2016, ficamos sabendo que ninguém menos do que os Rolling Stones acabaram de lançar um novo disco: o ótimo Blue & Lonesome. Em comemoração aos cinquenta e cinco anos de um encontro fortuito de adolescentes que não se conheciam – Mick Jagger e Keith Richards – numa estação de trens londrina. Um atraindo a atenção do outro pelos discos que levavam: LPs de Blues, de Muddy Waters e Chuck Berry. Naqueles dias, era o que lhes monopolizava a emoção. “Foi essa a razão para montarmos uma banda”, reconhece Jagger; confessando que “sempre fomos devotos do Blues”.

O fato é que o Blues está no DNA do Rock&Roll. E também do Jazz. Embora eu ache que Rock e Blues sejam ritmos musicais (como samba, bolero, fado ou cha-cha-chá…), enquanto Jazz, bem… Jazz é uma categoria de Arte. Tipo a Pintura de Klimt, a Literatura de Guimarães Rosa, a Dança do Grupo Corpo, o cinema de Ken Loach, a Arquitetura de Lina Bo Bardi, o teatro de Shakespeare, a escultura de Ligia Clark, a música de Mozart… E o Jazz (de Miles Davis, Charles Parker, Billie Holliday, John Coltrane, Thelonius Monk, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Nina Simone, Django Reinhardt, Michel Legrand, Stéphane Grappelli …).

Em “Três Músicos”, Picasso retrata os ritmos negros norte-americanos
chegando a Paris, no início do século XX

Sampaulo não é Nova Orleans, com Blues – e Jazz – sendo dedilhado, soprado e solfejado a cada esquina. E isso só não é ruim, porque aqui também rola chorinho, rap, tango, samba, forró, flamenco, xote…
Mas o Brasil já teve – e tem – bons bluezeiros. Do pioneiro Celso Blues Boy aos Blues Etílicos. Passando por André Cristovam, Nuno Mindelis, Igor Prado, a gaita virtuosa de Maurício Einhorn e de seu discípulo Sérgio Duarte, o impagável showman Paulo Meyer e seus inseparáveis Thunderheads…

Alguns deles batem ponto com frequência – além da ótima banda da casa – na surpreendente C. C. Rider, um bar de Blues que, há ano e meio, anima as noites da Moóca.

(Moóca? De novo, toda hora?).

Mas antes de nos tocarmos para lá, vamos cuidar da pança que a alma se diverte melhor quando o corpo está repimpado.

E vamos de pizza!

Não uma redonda qualquer. Vamos nos jogar em uma das melhores pizzarias de Sampaulo.

A Pizza da Moóca fica no último quarteirão – antes da avenida Paes de Barros – da rua Guaimbé (já palmilhada por este “Sampaulo de Lá pra Cá” em tantos posts recentes que até já perdi a conta).

Antes de largarmos de mão o logradouro, vamos dar uma última e saborosa paradinha para conhecer as ótimas coberturas das massas (preparadas com as finississíssimas farinhas de trigo 00 trazidas de Nápoles (sabe a terra natal da pizza?). Redondas não tão delgadas que pareçam pão pita; mais para grossas, bordas consistentes (mas a qualidade da massa compensa,). Não empanturra nossa compostura .

São assadas no forno que reina, soberano, nos fundos da pequena e acolhedora Pizza da Moóca.

O lugar fica na fronteira do alternativo, mas do lado de cá do charmoso.

O serviço? Bem… Não chega a estragar o bom-humor, mas tropeça na displicência blasé que é um jeito de fazer de conta que não é amador. Para usar uma linguagem mais de acordo com os garçons com jeitão de estudantes fazendo bico para pagar a faculdade, é descolado.

Entre eles, entretanto, chama a atenção o entusiasmo de Elmond, um jovem migrante haitiano que fugiu das catástrofes naturais, sociais, políticas e econômicas de sua ilha caribenha natal para fazer a vida no Brasil. Em poucos anos, já trouxe a mulher e constrói sua família aqui, com uma garra rara de se ver. Até o seu desembaraço com a nova língua, em tão pouco tempo, pasma.

Sou avesso à xenofobia. O acolhimento a migrantes, particularmente aos que lutam com unhas e dentes pela sobrevivência, não é apenas uma ação humanitária moralmente obrigatória. A garra que o padecimento atiça nesses pelejadores faz deles, também, agentes econômicos preciosos. Trabalham, aguerridos, pelo direito à vida. *

Essas horas eu entendo – e apoio – a perspectiva pragmática de Angela Merkel…

Por falar em imigrantes, vamos voltar a eles. Só que aos italianos que fizeram a pujança de Sampaulo nas fábricas que já fervilharam na Moóca (onde estamos), povoaram o bairro e trouxeram para cá a pizza (nas quais estamos em vias de cair de boca).

Antes, que tal abrir o apetite com um dos coquetéis da Pizza da Moóca, à base de Disaronno? É amaretto, um licor italiano que é pura amêndoa e é para lá de clássico – seus fabricantes garantem obedecer uma receita original de quando a língua dominante, por aqui, ainda era o tupi. E tem o condão de me fazer criança. Quando eu me entendi, o nome no rótulo era Amaretto di Saronno, ou seja, da cidade lombarda de Saronno, colada acima de Milão. Não faço a menor ideia se a decisão de mexer no nome foi judicial ou marqueteira. Detalhe: amêndoa, que é bom, não passa nem perto de sua fórmula! Para mim, foi tipo descobrir que papai noel não existe…

O fato é que preparam dois coquetéis com Disaronno na Pizza da Moóca: o Mojito Italiano (com rum, limão e hortelã, como qualquer mojito; só que o limão é siciliano, acrescentam uma lapada de prosecco e temperam com o amaretto; italianizou, è vero!) e o Lila Sour (com suco de laranja, limão, amaretto e uma cereja pra sofisticar). Valem – para mim, at least – pelo aroma sutil de amêndoas que me remete à infância.

Mojito Italiano e Mila Sour
ambos levam o licor Disaronno em sua fórmula

Para acompanhar os drinks, como abre-alas para as pizzas, as opções são:

Corniccione: massa de pizza fininha, assada até ficar crocante, sutil e sabiamente temperada com ervas e um salzinho encantador.

Crocche Napolitano: meia dúzia de bolinhos, de batata, recheado com pancetta (mas que prometem mais do que cumprem).

Tre Foccace: essas sim, três tiras deliciosas. Olha só o que o tal do trigo 00 proporciona na construção da base perfeita, macia, aerada, mas densa, casca crocante e coberturas bem diferentes. Todas três adoráveis: numa, a simplicidade do salgrosso aromatizado com alecrim se valendo da excelência da massa; noutra, a fatia fina de abobrinha com ricota e manjericão cheia de personalidade a um tempo discreta e estilosa; na terceira, os gritos e sussurros do ótimo cardume de alicci em leito de molho de tomates bem apurado. Surpreendente.

Agora surpreendentes, mesmo, são as pizzas. Como são boas!

Dividem-se em duas categorias: as “vermelhas”, onde quem manda no molho é o tomate; e as “brancas”, onde quem dá o tom é o molho bechamel. Qual é a importância desse detalhe? É que, no caso de mezzo una, mezzo altra, não juntam metade branca com metade vermelha…

Entre as rubras, costumo juntar a simplicidade da Margherita (ou sua versão puxada no alho, a Napolitana) e a picância – nem tão ardida assim – da Diavola (com linguiça diavoletta e pimenta jalapeño).

Já entre as alvas, sou fã da invenção do célebre chef inglês Gordon Ramsay (com gorgonzola e cebola caramelizada) e a bem resolvida Carbonara (com pancetta, parmesão e ovo mole).

Para molhar a goela, como virei fã de cerveja com o advento das “artesanais” – já que poucos líquidos são tão intragáveis quanto as “louras” tradicionais industriais (nem a Heikenen se salva mais…), costumo ir de Jupiter 10 Lúpulos, uma Indian Pale Ale extraordinária, encorpada, produzida pela cervejaria paulistana.

A boa cerveja Jupiter e o vinho Aparados são opções de o que beber
para acompanhar as ótimas pizzas

Mas como muita gente não consegue encarar uma pizza sem vinho, a Pizza da Moóca oferece a boa relação custo/benefício do cabernet sauvignon Aparados, da vinícola catarinense Villa Francioni. Mas controle a expectativa…

Dá para encarar sobremesa?

Então não caia na tentação pelos Canolli. A massa é pesada e o recheio é sem graça. De siciliano só tem a pretensão.

Embora tosco, o Calzonino de Nutella (com sorvete de leite e amêndoas) é mais palatável para quem precisa cair na glicose para alcançar a felicidade. Mas que é over, isso é.

Devidamente saciados, vamos desempanturrar numa curta caminhada de menos de três quarteirões (é descida e todo santo dá uma mãozinha) até o C. C. Rider, na rua Jumana. O Blues nos aguarda.

Porque C. C. Rider? É o título de um Blues celebrizado por Elvis Presley. Se você ouvir, vai lembrar. O “C. C.” significa “See See”. Americano sempre abusou dessas onomatopeias com letras. A garotada brasileira – e os nem tão meninos assim – também mergulharam fundo nesse vício de linguagem (que é prático, é) com a internet, particularmente depois do zap, digo, whatsapp.

Ou seja: o nome do bar, o título do blues – e seu refrão – significam “Veja, Veja, Cavaleiro”.

Que, como dá para ver na marca, foca em Blues e cerveja.

Recebe-nos, na esquina da rua Jumana com a rua Bernini Rosário Mônaco, um portentoso lustre de cristal. Mas não se intimide. A casa não é metida e o ambiente é bem informal. Mais pra lotado, com eventual espera na porta e tudo.

Embora role Blues dos bons e ao vivo todas as noites, descobri que a clientela – há exceções – não é exatamente blueseira. Começa que tem de tudo, de criança a idoso. A maioria é jovem, focada na azaração e tal. Mais tem quem leve filho, avô… Por mim, beleza. Não sou mesmo chegado em gueto.

São moóquenses que vão lá porque o lugar é “decente”, classudo, com jeitão de Jardins (ou, at least, Moema) na Moóca. E o Blues, se não é a isca que os arrasta, faz boa trilha sonora para a noitada.
Muitos nem se incomodam de se acomodar no andar de cima, arredado do show e perto das mesas de bilhar.

Embaixo, a cintilância mais esfuziante fica por conta do balcão, prodigioso, sólido em sua combinação de madeira nobre, tampo de granito, muito metal dourado (as torneiras de chope são uma sedução), zilhões de rótulos coloridos, copos luzidios e um ou outro adereço atraente, como a iconografia do Juventus, o time da paixão moóquense.

Se você não comeu antes – e só nesse caso – pense em encarar a cozinha do bar. Comete mais equívocos do que acertos.

O Jambalaya – prato típico créole, muito popular no baixo Mississipi (e, por isso mesmo, tudo a ver com o Blues) – é um mal-entendido sem tamanho. A mistura é abusada: tipo um risoto com camarão, linguiça e frango. O que dá a liga é um tempero peculiar que eles chamam de cajun. Já comi jambalayas de lamber os beiços. O do C. C. Rider é uma gororoba sem eira nem beira. As costelinhas de porco também deixam – muito – a desejar.

Se gostar de ardências – fortes – entre um gole e outro,
eles servem porções de pimenta jalapeño recheadas com cream-cheese antes de empanar. Falta sal, mas é legal. Só que tem de gostar de picâncias intensas.

Quer saber? Vá de burguer. Se, por um lado, não sobem ao pódio dos melhores da cidade, tampouco são eliminados de saída. Sugiro dois: o Monster Truck – que parece maior do que de fato é, embora seja avantajado, com bacon e onion rings (embora eu, se fosse você, pediria sem o molho barbecue meia-boca e o queijo prato de quinta) ou o Tex Mex, o melhor deles, com chili e sour-cream (sem o queijo, lembra? Eu peço para acrescentar bacon). A carne é farta e boa e isso é o que mais importa em se tratando de burguers. Mas, atenção, se você gosta de queijo gorgonzola – blue cheese em lugares americanistas como aqui, nem assim vá de Blues Cheese Burguer. O queijo mandou lembranças, mas o mensageiro não chegou a tempo; e o molho, ó, neca daquele gostinho peculiar de gorgonzola.

Eu recomendei… Passe pela Pizza da Moóca antes…

Já para beber, a história é outra.

Então vamos ao que nos trouxe até aqui: Blues & Beer.

As cervejas são, de fato, a melhor opção etílica do C. C. Rider. O cardápio dedicado a elas é recheado de obras-primas. Engarrafadas ou saídas das torneiras douradas do bar. Brasileiras nativas ou passadas pela alfândega.

Já experimentei dois coquetéis da casa e decidi não arriscar mais. Não pagam a pena. Um deles, leva o nome da casa (feito com tangerina, Jack Daniel’s Honey  – ô bebidinha mais exquisita – e gelo de água de coco). O outro, uma caipirinha de limão siciliano, uva e manjericão. Em ambos, os ingredientes parecem que entraram no copo para uma rinha, não para uma festa. É só desavença.

Já as cervejas… Quanta iguaria…

A começar pelo chope de uma de minhas Indian Pale Ales prediletas, a “Schornstein” – sou devoto das IPAs e esta, produzida aqui no estado de São Paulo, em Holambra, é perfeita. Eles a vendem também em garrafa.

Como outra IPA deliciosa, a Revenge, também paulista, só que da cidade de Socorro e a American IPA (preparada com lúpulos aromáticos norte-americanos) 6 o’Clock, fruto da parceria entre as cervejarias Invicta (outra daqui de São Paulo, mas de Ribeirão Preto – que tem tradição cervejeira) e Sixpoint (dos Estados Unidos).

As IPAs Revenge e 6 o’Clock
são apenas dois rótulos de um vasto cardápio primoroso.
E alguns chopes difíceis de encontrar por aí,
como o ótimo IPA Shornstein, juntam-se ao Blues
para fazer a festa dos frequentadores do C.C.Rider.

As grandes canecas e tulipas (meio litro!) nas mãos do povo, entretanto, incitam ao chope e à pândega.

Para encerrar, back to the beginning: o Blues.

Eu sei, você sabe, todo mundo está careca de saber que a cultura brasileira
é pródiga em grandes músicos. Músicos de Blues, inclusive.

Os melhores entre eles são arroz de festa no C. C. Rider. A começar pela ótima banda da casa; à frente o vocalista Ivan Marcio que também se vira legal na gaita.

C. C. Rider Band

Além de outros gaitistas cantores do primeiro time, como Sérgio Duarte (sempre acompanhado de seu filho – uma revelação extraordinária de guitarrista). E o cativante showman Paulo Meyer com sua animada banda The Thunderhead.

Sérgio Duarte e, à esquerda, seu filho revelação, Leonardo.
Embaixo, Paulo Meyer, o maior showman do Blues brasileiro, com sua banda Thunderhead.

Além do Spitfire Trio (Ricardo Mourão, Je Lima e Caio Dohogne), o guitarrista Marcelo Watanabe, o tecladista Adriano Grineberg, a banda Cosa Nostra, Vasco Faé, o Tritono Blues (Bruno Sant’anna, André Carlini e André Yous), a gaita surpreendente de Nicola Sena…

Só fera!

Mas precisava cuidar melhor da “moldura”, porque a música é sempre primorosa. Não existe palco, os artistas ficam no mesmo nível da mesa (bastava um tablado palmo e meio mais elevado…), escamoteados debaixo da escada e sem iluminação minimamente adequada. A qualidade do som é muito boa, ou seja, cuidaram do essencial, mas há detalhes que não são irrelevantes, pelo contrário.

Que isso justifique a baixa qualidade de minhas fotos dos shows. Até porque só fotógrafos profissionais, munidos de equipamentos de ponta, conseguem bem registrar o performance dos artistas. Câmeras com melhor desempenho do que o provido pela apple a seus iphones (e mais competência do que a que me foi aquinhoada pelo deus da fotografia). Enquanto isso, o salão, as mesas, a plateia iluminadaços. Pode, Arnaldo?

Felizmente, mais recentemente, as noitadas da casa passaram a ser registradas pelo craque Marcelo Crelece, da Emmy Photografia. Muitas fotos deste post são dele (as melhores). Particularmente as dos músicos. São publicadas no facebook do bar. Pela excelência desse trabalho, justificam per se uma visita à página. Quer ver?

* É inspirador visitar a Missão Paz, da Igreja Católica, no bairro do Glicério (pertinho da Praça da Sé, do bairro da Liberdade…). Eles cuidam do acolhimento, socorro e capacitação profissional de imigrantes. Com aulas de português – para árabes, africanos, haitianos… – e de formação para o trabalho. Às quarta-feiras é possível visitar o projeto e, até, conversar com centenas de clientes que frequentam ou estão alojados lá.
Quer conhecer? www.missaonspaz.org

BÔNUS

Lá nos primórdios da TV a cabo nos Estados Unidos, um canal promoveu um encontro de notáveis do Blues, sob o comando de ninguém menos do que B. B. King (a quem eu – thank’s God – vi, ao vivo, várias vezes). Virou programa e foi ao ar no final da década de oitenta. Olha só o elenco: Paul Butterfield, Eric Clapton, Phil Collins, Dr. John (que eu assisti a nem faz tanto tempo assim em Sampaulo), Etta James (vi em New York, pouco tempo depois dessa gravação), Chaka Khan, Albert King, Gladys Knight (esta eu vi em New Orleans, num tipo circo coberto por lona e tudo), Billy Ocean, Stevie Ray Vaughan… É mole?
Reparem na “conversa” entre as guitarras de B. B. King e Eric Clapton. E de B. B. King com Steve Ray Vaughan. No dueto de Etta James e Dr. John em “I’d Rather be Blind”. E Billy Ocean – eu nunca havia atentado para essa voz…(“… whem something is wrong with my baby, something is wrong with me…)! As três ladies cantando a capella. E o encontro de vozes e guitarras de Stevie Ray Vaughan e Albert King, intermediado pela gaita de Paul Butterfield. O elenco inteiro fazendo um “Midnight Hour” memorável. De-MAIS!
Um pitéu delicioso, único!
Um registro extraordinário, produzido e dirigido por Ken Ehrlich, uma lenda estadunidense da TV e dos grandes espetáculos.
“Let the Good Time Roll”…
Para vocês, na íntegra: