Pão e Paixão

Migrei para Sampaulo adolescente, ainda verde, mas já chegado numa gandaia. Um gosto cevado por pai e mãe baladeiros que curtiam me levar para shows, teatro, restaurantes, boites… Para a night life em geral a que eram habitués.

Com quinze, dezesseis anos, eu já frequentava casas noturnas como a lendária Stardust, no largo do Arouche. Era nosso destino mais frequente, madrugada adentro dos fins-de-semana. Lá dentro, pouca gente com menos de dez anos a mais do que eu. Ganhei intimidade com a boa MPB ali (olha a categoria do elenco que se apresentava lá: Elizete Cardoso – a “Divina”, Johnny Alf – o “Pai da Bossa Nova”, Billy Blanco, Dick Farney… E, de quebra, no comando da banda que animava a pista de dança, ninguém menos que Hermeto Pascoal, ora na flauta, ora sax, ora no piano; só fera!).

A evolução do visual de Hermeto Paschoal, no tempo do Stardust,
a caminho da consagração como um dos maiores gênios da música global.

Além de restaurantes (Marcel, La Casserole, Don Curro, Freddy, Roma, Giggeto, Giovanni Bruno…), de shows (o primeiro que eu vi, recém-chegado a Sampaulo, foi de Elis Regina; tinha uma música com um refrão que grudou brabo na minha alma: “quáquáráquáquá, quem riu, quáquáráquáquá, fui eu”) e de espetáculos teatrais abusadíssimos, sempre levado por eles (até porque, sozinho eu não conseguiria entrar).

A montagem de Ruth Escobar para O Balcão, de Jean Genet, vazava tanta ousadia, da cenografia audaciosa à lubricidade atrevida, que eu passei dias, semanas digerindo seu impacto – assombro e dúvidas abalando minhas certezas de ainda menino.

Elis Regina era desse jeitinho aí quando cheguei em Sampaulo;
e a montagem de “O Balcão”, no teatro Ruth Escobar, deu muito pano pra manga…

Até que a curiosidade vencesse a comoção e eu arranjasse outro “adulto” para me levar de volta ao Teatro Ruth Escobar.

A intimidação virou deleite. Ali, parte de minha infância passou o bastão para o jovem adulto. E voltei outras vezes àquela estrutura de metal, à arrojada invenção de plateia em espiral rodeando o palco-picadeiro e suas traquitanas mecânicas.
(um vídeo, lá embaixo, dá uma ideia do que foi esse acontecimento cênico)*

Fui, portanto, muito bem acostumado em surpreendências, pelas mãos de papai e mamãe, desde muito cedo. Não é à toa que eu tenha aversão a lugares-comuns.

Falo das fórmulas prontas a que recorrem as mentes opacas, desprovidas de brilho. Não chega a provocar náusea, como a gerundização da linguagem de atendentes e recepcionistas. Tampouco engulha a paciência e o bom-humor, como trocadilhos. Mas que lugar-comum dá uma fadiga, um abuso impaciente de entojo, isso dá.

Lugares-comuns são também conhecidos como chavões, clichês, manuais de auto-ajuda… E são amiúde encontráveis nas melhores famílias, digo, em textos jornalísticos e publicitários, em roteiros (de cinema, de novelas de TV); nos pratos de cardápios de restaurantes “da moda”, em projetos arquitetônicos, cortes de cabelo, design (fashion, então….), discursos políticos (os populistas são MBA em lugar-comum) e – maldição das maldições – na epidemia de indigência que tomou de assalto a cultura popular brasileira.

Lugares-comuns comprometem a sinceridade. Amortecem impactos emocionais, pasteurizam as sensações. Para contornar o risco de pagar mico, a insegurança cala a manifestação espontânea da alma. Amolda-se a emoção ao já testado, aprovado e consagrado pelo padrão Domingão de qualidade. Arrghhh…! Coloca-se o que se vai dizer, apresentar ou servir na forma. No esforço de não desapontar, tampouco se surpreende. E que graça tem o que não desilude nem encanta? Insosso, chué, parvo, médio, medíocre…

Os Dzi Croquettes foram a negação do lugar-comum.

Ainda “de menor”, mas já começando a decolar em voos solo, o destino de minha vocação baladeira passou a focar no bairro boêmio do Bixiga. Um naco de herança italiana fincado entre o velho Centro e a avenida Paulista.

Foi lá que, no início dos mesmos anos setenta em que a dita ditava duras regras, que um grupo de rapazes tomava de assalto o bom-mocismo paulistano. Essa vertigem moral atendia pelo nome de Dzi Croquettes.

Mais do que um espetáculo, “Dzi Croquettes” foi uma revolução de costumes.
Nasceu carioca, estourou em Sampaulo e ganhou o mundo.
Pela mão de celebridades como Liza Minelli.

Eu passava a semana artimanhando formas de juntar o dinheiro para o ingresso naquele teatro da rua Treze de Maio. E repetir o gozo de assisti-los. Duvida, umas dez vezes.
(outro vídeo, lá embaixo, documenta com emoção a história do Dzi Croquettes)**

No mesmo palco e momento histórico em que Marília Pera – na pele da professora Margarida – ajudou a esfolar a empáfia da velha paulistice que ainda dava o tom da cidade quando cheguei aqui.

Marília Pera, enlouquecendo o bom-mocismo paulistano em Apareceu a Margarida.

Visto a partir desses e de outros palcos do Bixiga, o bairro é trincheira essencial da revolução paulistana – cultural e de costumes.

Além desses dois espetáculos do teatro Treze de Maio, o mesmo Teatro Ruth Escobar onde eu vira “O Balcão”, vanguardeou com o “Escuta Zé”, de Marilena Ansaldi, com a “Cerimônia para um Negro Assassinado” dirigida por Paulo Betti, com “A Viagem” (uma adaptação de os Lusíadas), com “Castro Alves pede Passagem” de Gianfrancesco Guarnieri…

Sem contar a célebre montagem do “Rei da Vela”, no Teatro Oficina.

E da “Aurora da minha Vida”, no teatro com o nome do bairro. E da “Orquestra de Senhoritas”, num café concerto da Avenida Rui Barbosa. Adiante um pouco do Teatro Sérgio Cardoso, palco mais cheio de recursos que também não deixa barato no quesito boa dramaturgia.

E o Teatro Imprensa, recentemente varrido do mapa pelo tsunami que se abateu há alguns anos sobre o império Sílvio Santos, provocado pelo terremoto financeiro chamado Banco PanAmericano? E o antológico TBC?  E o Teatro Brigadeiro? Sem contar o recente Teatro Raul Cortez, com direito a escadas rolantes de acesso e tudo. E a meca dos musicais “o-primeiro-mundo-é-aqui”, o Teatro Abril.

Tudo isso no Bixiga.

Devo muito, muitíssimo mesmo, aos espetáculos que vivi a partir dessas plateias. Sou graça e culpa deles. Por isso, quando vou ao Bixiga, tomo a bênção.

Mas o Bixiga só é Bixiga porque a revolução permanente divide território com a tradição mais entranhada. São vizinhos de porta. E convivem na maior troca-troca de receitas, quando não sucumbindo às fartas fofocas e maledicências mútuas. Um cortiço!

Aliás, o bairro bem que merecia o título de Capital Mundial do Cortiço; tanto no sentido habitacional quanto no antropológico da corticice barraqueira.

O Bixiga é assim: fachadas coloridas, boemia, cortiço para todo lado
e um barraco entre vizinhos aqui, outro acolá, que o sangue aqui é italiano, capito?

Dizem que é herança italiana, como a festa de Nossa Senhora Achiropita, que lota suas ruas todos os anos, no auge do inverno.

Festa de Nossa Senhora Achiropita, agosto sim e no outro também,
há beira um século, no entorno da igreja consagrada à Madonna calabresa.

É essa a outra vocação do Bixiga, a do eterno lapidar da tradição. Inclusive carnavalesca.

Na dialética do samba, Escola não existe sem Comunidade. É a Comunidade que gera, cultiva, rega, nutre, encorpa e dá vida a sua Escola de Samba. Esta, por sua vez, insufla razão de existir, anima, ilumina o caminho e dá personalidade a sua Comunidade. Uma relação construída com paixão e orgulho.

O Bixiga é a comunidade da Escola de Samba Vai Vai. Não é pouco não! A Vai Vai é antiga a ponto de a velha guarda já ser descendente da não-sei-quantésima geração da guarda original.

Do começo de dezembro até o Carnaval o bairro vive a ansiosa expectativa de como é que o Bixiga vai entrar na avenida. Este ano, a escola “abre a roda pra saudar Mãe Menininha do Gantois”. O apogeu da contagem regressiva é agora. Aos domingos, na boca da noite, cidadãos vaivaienses e turistas de tudo quanto é canto da cidade entopem os ensaios abertos. Escancarados mesmo, no meio da rua, a ceu aberto. Chova ou faça lua.

Ensaio da Vai Vai em sua “quadra” de rua.
Este ano, o sambódromo do Anhembi vai virar Terreiro de Gantois
em louvor à Mãe Menininha.

Para mim, é uma das melhores baladas do verão de Sampaulo.

Agora, seja ensaio da Vai Vai ou teatro, programa completo no Bixiga acaba em massa. Caspita, como tem cantina no Bixiga!

Avisar que vai jantar por ali já basta: é pasta. Massa tradicional, comida de mamma, receita de nonna, raízes que amamentam de sabedoria a atual geração de chefs, de cozinheiros que dão renovado prestígio à cuccina italiana, ousando retoques de inovação pelas bandas dos Jardins.

Aqui não. O que ferve solto, no Bixiga, são os alicerces ancestrais trazidos da bota mãe européia: talharines, talhateles, espaguetes, ravioles, canelones, fuziles, capeletes, nhoques, lazanhas… À bolonhesa, à napoletana, à carbonara, à putanesca, ao pesto… Se vier com um polpeta ou brachola, então, é banquete.

Atenção, não estamos falando de alta culinária. Mas a comida das cantinas do Bixiga é decente. E o preço é honesto. Ahhh, vá com fome que as porções são fartas.

O destaque é a experiência gastronômica – beira museológica – da antiquiquíssima “Capuano” (110 anos!), da “Roperto” (dal mille novecento quaranta due) e as ótimas pizzas de grossa borda da “Speranza” (mais jovem, dal 1958). Nesta última, apesar de parecer over, não deixe que a parcimônia lhe prive do ótimo pão de lingüiça da casa.

Entre as muitas cantinas italianas tradicionais do Bixiga, valem citação
a Roperto (no alto), a Capuano (no centro) e a Pizzaria Speranza, (em baixo).

E por falar em pão…

No Bixiga, os fornos não param…

Fora de hora (de jantar, teatro ou balada) sempre vou ao Bixiga pelo filão ou redondo. De uma das quatro padocas (que é o jeito afetuoso e descolado de chamar padaria em paulistanês) que assam os melhores pães italianos de Sampaulo. Suas ótimas fornadas justificam ir até lá para tê-los em casa. Pagam a pena, valem a viagem.

Os ótimos pães das padocas italianas do Bixiga.
De cima para baixo, a produção de:
Padaria 14 de Julho
Padaria Basilicata
Padaria Italianinha
Padaria São Domingos

De quando em vez até visito outros tipos de pão, para variar o cardápio. Do pão francês ao rústico, à brioche, ao bagel. Do adocicado australiano ao português exalando azeite, à broa de milho, ao croissant folhado por fora ou ao maciíssimo ban oriental. No coração do meu paladar tem um cantinho para cada um. Mas são puladas de cerca, porque não abro mão da minha relação amorosa e estável com o azedinho sutil da biga, que é o jeito italiano de fermentar o pão.

Assim que chego em casa com novo estoque trazido do Bixiga, corto fatias de beira dois dedos e… Freezer. Me aperreia quando sei que acabou a reserva congelada e só sossego quando me toco de volta pra lá,  para reabastecer.

Antes de comer, tiro do gelo e só o preparo para uso depois que atinge temperatura ambiente. Normalmente aqueço-o e besunto de manteiga ou azeite para acompanhar qualquer comida. De café com leite a feijoada. De ovos a sopas, de massa a frutos do mar e, até, saladas. Se houver molho ou caldo onde encharcá-lo, então…

No verão, pico o pão italiano bem miúdo e douro na frigideira com gordura e ervas, para salpicar como croutons pelas saladas. No inverno, espeto pedaços um pouco maiores na ponta dos garfos de fondue. O miolo denso e a casca espessa dificilmente se soltam dentro dos queijos derretidos.

Mas o destino mais… glorioso, para um pão italiano, são as bruschettas. As fatias viram o trono do reino das invenções gastronômicas. Assento ali desde criações singelas – e deliciosas – como um concassé miúdo de tomates frescos, apenas temperado com sal, ervas e azeite – ou elaborações mais rebuscadas. São meus “aplaca-a-fome” ou “engana-a-gula” ou ‘distrai-a-goela” prediletos.
(Como eu também sou louco por bolinhos de bacalhau, já viajei numa bruschetta de bolinho de bacalhau amassado sobre a fatia de pão e dá-lhe azeite… Ficou ótimo!)

Outras de minhas bruschettas recorrentes, são:

Funghi di Muschio: O cogumelo de musgo, popular na Itália, é importado já em conserva de azeite. Deixo marinando em azeite trufado (não sou fã de trufados em geral, embora adore trufas. Uma vez, como havia ganho uma lata de azeite trufado, experimentei sobre esses champignons e não é que funcionou legal?).
Umedeço a fatia de pão italiano com o mesmo azeite em que estavam marinando os cogumelos e, sobre ela, uma fatia pequena de queijo gorgonzola doce (falo dele adiante). Forninho por alguns minutos, e, já fora do forno, um punhado desses funghi di muschio.

Caprese Metido a Besta: Uma versão de mozarela de búfalo com tomate e manjericão.
Só que o queijo é tipo Chabichou (de cabra) e o tomate do tipo San Marzano. Azeite, forninho e manjericão antes de cair de boca.

Pancetta de Gala: Fatias fininhas de pancetta enrolada , temperada com ervas, sobre fatia de pão italiano besuntado de manteiga, queijo Taleggio, forninho e um raminho de tomilho. Faço também a versão Prosciutto Crudo de Gala (em que troco a barriga de porco pelo pernil curado, mantenho o queijo e acrescento uma colherada de purê de damasco com fava de baunilha – obra prima da “Compoteira” Fawsia Borralho).

Viva Gijo!: Homenagem ao linguiceiro Gijo (já escrevi sobre ele no post “Resistir, quem há de?”, publicado em 13 de janeiro de 2016). Fatias fininhas de linguiça curada, marinada por alguns dias em vinho branco seco, alho amassado e azeite. Cebolinha picada, fatia de pão italiano amanteigado e basta. Não precisa mais nada.

Italia Mia: Pão italiano besuntado de boa alichela, pimentão vermelho confitado, um filete de azeite e se joga no verde, bianco e rosso.

Melanzani Agliosi:  Berinjela assada em azeite, ervas e sal defumado. Dentes de alho em conserva e mais azeite.

Quase tudo o que uso no preparo dessas bruschettas eu trago das padocas do Bixiga. A começar pelos pães, claro, que são a razão de ser dessas padarias centenárias.. Mas elas são, também, salumeria e empório de um tudo de bom que existe para agradar o paladar, particularmente comeres com sotaque italiano.

Só o capítulo queijo… Coisa boa, nacional ou viajada, com bom preço!

A Basilicata é a mais farta de opções que eu chamo de queijos “de gruta”, trabalhados em fungos, macios, menos curados (taleggio, chabichou, camembert, brie, mozarella fresca…). Embora os queijos “duros” estejam lá…

Queijos na Basilicata

Já a 14 de Julho é pródiga nos queijos curados (grana padano, parmigiano-reggiano, pecorino, caciocavallo…)

Alguns queijos da 14 de Julho.
Inclusive, embaixo, o ótimo Gorgonzola Dolce italiano
(maturado na fronteira lombardo-piemontese)

Embora lá, na 14 de Julho, brilhe o gorgonzola dolce, obra prima da queijaria lombarda e piemontesa, ainda raro de se encontrar por aqui (embora cada vez mais popular na Europa). Esqueça o gorgonzola tradicional, firme e, até, meio farelento, com filetes azulados acentuados. Este é lisinho, untuoso, com marcas mais discretas; tirou da geladeira, derrete (se estiver fazendo calor de subúrbio carioca, fica no ponto de tomar de canudinho…!). E o sabor, bem, os fungos são os mesmos – o penicilium; mais suave, eu diria.

Os antepastos também estão em todas elas. Vendidos no peso. Tem pastas de misturas inusitadas, caprichadas. Só de lembrar, a boca vasa. Na 14 de Julho tem até com bacalhau. E o alho em dentes – só sabor sem ardor – é achado raro. Na Basilicata tem uma Alichella Premium, preparada com azeite e alicci de melhor qualidade, é um primor.

Os balcões de antepasto, de cima para baixo:
14 de Julho, Italianinha e Basilicata

Tem pernil assado na Italianinha (só nos fins de semana)
Na 14 de Julho tem todos os dias. Para ser fatiado sob o comando do freguês. Mas, neste parágrafo, imperdível mesmo é o sanduíche das sobras despedaçadas que ficam nas assadeiras. Preparado no pão fresquinho da casa, claro. Para levar ou ser comido ali mesmo (tem até um banco, na porta, para facilitar o desfrute).

O pernil assado e o sanduiche de “sobras” da 14 de Julho.

E todas costumam ter bons pães de linguiça, além de massa fresca feita lá mesmo, azeites, conservas, doces… Como os “cannoli” da 14 de Julho (peça para rechear o seu na hora, com creme geladinho), os “sfogliatelli” da São Domingos e o “zepolle” da Basilicata (no dia de São José, 19 de março, eles o preparam frito, como recomenda a tradição italiana; no resto do ano, só o preparam assado, mais leve).

Cannoli, da 14 de Julho – Sfpgliatelli, da São Domingos – Zepolle, da Basilicata

Nenhuma delas é muito espaçosa, pelo contrário, são bem exíguas. Mas são atulhadinhas de saciar o apetite só de olhar. Com boas ofertas, a preços muitas vezes mais em conta do que os normalmente praticados nos bons supermercados.

Gosto das quatro. Até porque o pão delas é muito semelhante. Embora, pela intimidade um pouco maior, vá mais à 14 de Julho.

Essa familiaridade nasceu dos papos que, há anos, eu batia com Alexandre Franciulli, il capo da padoca. Ele cresceu ali, mais afeito ao forno do que ao balcão do negócio fundado por seu avô, em 1897. Passou a preparar na casa a maioria dos acepipes antes fornecidos por terceiros. O bom, melhor ficou. E  consagrou seu talento culinário para além do forno de pães. Há alguns anos abriu cantina na porta ao lado. De lá pra cá, ficou mais difícil trocar ideias com ele. Vive assoberbado.

Implico um pouco com o atendimento impaciente da Italianinha (mas a Porcheta que eles eventualmente preparam nos fins de semana é campeã).

O surpreendente salame espanhol Casaponsa;
zampone (um embutido, delicioso, enfiado na canela do porco, típico de Modena);
azeite siciliano Paesano, engarrafado logo após a prensagem (não é filtrado),
          aromático, grelho abobrinha, berinjela e pimentão com ele;
bolinho de Bacalhau (se estiver chegando da cozinha, é ótimo)!
Tudo da Italianinha.

Me incomoda, também, a  rudeza do balconista da São Domingos (mas, ainda assim, vira e torna vou lá, já que é dos raros lugares em que encontro a mineira  manteiga Real, que era obrigatória lá em casa, na minha infância).

A manteiga Real que eu vou catar na São Domingos.
Lá no alto da bucólica fachada, uma pequena imagem da Madonna de Achiropita.

Nesse quesito, atendimento, nada se compara ao desvelo atencioso e dedicado de Monique, da Basilicata.

Na Basilicata,
uma prateleira inteira de produtos trufados (azeite, mel, conservas…);
a melhor oferta de vinhos entre as padocas italianas do Bixiga;
panforte italiano em dois tamanhos
e o delicioso pão – que eles chamam de pita, mas não tem nada a ver com o pão árabe
          (a massa é a mesma do italiano, mas ele não é talhado no alto,
          fica macio que só e só não dura muito, como o pão francês).

Se você pensa que eu esgotei o assunto Bixiga, não mesmo!

Olha que eu não falei de Adoniran Barbosa – que é a cara do Bixiga (ou é o Bixiga que é a cara de Adoniran?). Não falei da Gaviões, uma super academia de ginástica que nunca fecha – com uma diversidade surpreendente de freqüentadores. Não falei da Rua Avanhandava/Mancini (se fica prá lá da fronteira do bairro, é Bixiga na alma), da fonte-mais-feia-do-mundo (no jardim de um prédio na Rua dos Ingleses), do estilismo ótico-fashion de Miguel Gianini, das animadas baladas de rock&roll do Café Piu-Piu, da feirinha de antiguidades e quinquilharia, das baladas eletrônicas que colocaram o bairro no roteiro dos mudernos (que há pouco ganharam outro motivo de ir ao Bixiga: o novo restaurante do ótimo chef Henrique Fogaça), das antigas gravações do Perdidos na Noite (que lançaram o estilo desbocado do Faustão – era vanguarda, acredite!), das noitadas na Catedral do Samba – palco do brilhante Benito de Paula…

Que bom! Logo, logo, vou ter que voltar ao Bixiga.

À guisa de melhor explicar
o que foi a célebre montagem de “O Balcão”, de Jean Genet,
encenado em Sampaulo por Ruth Escobar
(e registrado, aqui, pelo cineasta José Agrippino de Paula)

 

Também à guisa de melhor explicar
o que representou, à época, o espetáculo Dzi Croquettes,
obra, sobretudo, da genialidade do bailarino norte americano Lene Dale.
Vi este documentário há coisa de uns cinco anos e me emocionei bastante.
Foi feito pela filha de um dos artistas do elenco.

 

Moóca, ó nóis aqui ‘tra vez

Me seduz, excita e encanta, a capacidade de resiliência. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, como cantou Paulo Vanzolini.

Há pouco, passei mais de dois meses longe de casa. Acaba que a pessoa que costuma vir aqui, durante minhas ausências, para arejar o apartamento e aguar minhas plantas, não veio. Resultado: encontrei vasos e canteiros da horta em petição de miséria. Me agarrei ao alento poético de Fernando Pessoa: “se ainda há vida, ainda não é finda”. Decretei UTI na varanda e me joguei no esforço de salvar o que mal e mal sobrevivia.

Uma parte dessa minha horta/jardim urbano, aparentemente condenada, já me regala com o espetáculo surpreendente e emocionante da resiliência, na forma de novas folhinhas vitoriosamente verdes brotando de galhos secos.

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Com a gente também acontece. Às vezes somos submetidos ao sentimento de que um the end se abate sobre nossas cabeças. E eis que somos acudidos por uma rega redentora que nos resgata ao desfrute da vida. O trombetear funesto de ponto final vira vírgula, solfejando prelúdios.

É o que me parece estar acontecendo com o – para muitos – mais paulistano dos bairros: a Moóca.

Há cem anos, fervia, fabril, com milhares de imigrantes europeus alicerçando o destino robusto de Sampaulo e do Brasil. Dezenas de grandes indústrias desenharam o perfil fundador do bairro.

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Toda essa atividade arrefeceu com o tempo. A Moóca virou residência dos descendentes dos operários. Remediados de baixa classe média com seu linguajar ítalo-brasileiro praticavam – e ainda praticam até hoje – a cuccina povera de sobrevivência (como me lembrou uma leitora, Cristiane Castro, em comentário num artigo moóquense recente). Não abriram mão das raízes (sabe o gnochi al sugo?). Uma cantina aqui, uma pizzaria acolá…. Era o que ainda animava, ao som de tarantelas, a modorra provinciana que acabrunhou o bairro, por décadas. Uma vez por ano, entretanto, junto à igreja consagrada ao santo, a festa de San Gennaro se manteve baluarte das tradições de sua gente.

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O que nunca abandonou a Moóca foi o carinho do paulistano.

Talvez esteja aí a matéria prima emocional que está proporcionando este momento de resiliência do bairro. Está começando a se consolidar, ali, o novo point boêmio de Sampaulo. Com vocação para se transformar no que já foi o Bexiga de quando virei paulistano. Lugar, hoje, ocupado com estardalhaço esfuziante pela Vila Madalena.

Tive certeza disso ao passar pela rua Guaimbé, no último inverno. Sabe muvuca baladeira até durante a semana? Decidi me jogar naquelas poucas quadras para descobrir o que arrasta tanta gente a gandaiar por lá. Esse mergulho já rendeu dois posts: “Samba de Fé”, sobre a casa noturna de samba Templo, publicado em 4 de agosto; e “É Moóca, Belô!”, que juntou três atrações locais – Lá da Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca – publicado em 27 de outubro.

Virei freguês do bairro.

Ó nóis aqui ‘tra vez!

Para bater perna pela mesma rua Guaimbé e, dois passos adiante, já na avenida Paes de Barros (uma das mais importantes do bairro), viver as emoções cênicas de um espaço cultural clássico da cidade, o Teatro Municipal Arthur Azevedo.

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De arquitetura modernista*, cercado por simpático arvoredo, o teatro da Moóca é um sessentão cheio de vitalidade. Por dentro, está novinho em folha, graças à reforma recente, quando foi reequipado e estruturado. Ganhou um prédio anexo com oficina, espaço para ensaios, workshops e o que quer que os artistas inventem para preenche-lo com talento cênico. A plateia perdeu alguns lugares, mas ganhou conforto e acessibilidade. Só o hall –  dominado pelo mural colorido do artista Renato Sottomayor – e a fachada (adoravelmente fifties) permaneceram intactos.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados. A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construida.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados.
A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construída.

Além da programação de espetáculos teatrais, de dança e de música (inclusive erudita!), agora o Artur Azevedo virou morada do Clube do Choro de Sampaulo.

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E os chorões paulistanos usam a prerrogativa de residentes para definir parte da programação de espetáculos da casa. Quase sempre gratuita (embora de ótima qualidade musical, já que o chorinho é um dos nossos mais pródigos mananciais de ótimos instrumentistas). Também, para interpretar as composições de compositores geniais como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho, Hamilton de Holanda, Raphael Rabello, Chico Buarque, Abel Ferreira…. Tem que ser craque!

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Este próximo fim-de-semana, por exemplo (dias 11, 12 e 13 de novembro), vai ser todo por conta do Clube do Choro. Com três noites de espetáculos para lá de sedutores. A começar pelo da sexta-feira, que vai reunir um duo inusitado: Mestrinho (acordeão) e Nicolas Krassik (violino). Com um repertório primoroso, que vai de Jacob do Bandolim aos jazzmen franceses Stephane Grappelli e Django Reinhardt; passando por Dominguinhos, Sivuca, Chico Buarque, João Bosco e Baden Powell. É ou não é promissor?

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Aliás, todo sábado, das 6 da tarde até 8 e meia da noite sem falta, rola um dos programas musicais mais deleitosos de Sampaulo, sempre no hall do Teatro Arthur Azevedo. Para quem gosta de música (e alguém não gosta?) é um manjar. Adoravelmente informal. Um bando de bambas se reúnem para uma Roda de Choro. Tudo improvisado, com instrumentos trocando de mãos, repertório decidido na hora e comentários bem-humorados dos participantes. No maior jeitão varanda de casa. Sempre que posso, eu me dou o desfrute dessas duas horas prazerosas. Saio de lá com o coração enlevado – o chorinho tem esse condão – e a alma bem nutrida para encarar o que vier pela night.

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Se o corpo também estiver pedindo alimento (e a hora, 8 e meia, é condizente com uma boquinha), caminho dois quarteirões até a nossa rua Guaimbé velha de guerra, para cair de boca nos ótimos cachorros quentes da Rod Hot Dog. Com o passo acelerado, animado pela apetitosa volúpia de mergulhar no melhor milk shake de Sampaulo.

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O cachorro quente nasceu germânico. Quando, exatamente, só deus sabe. Até porque sua matéria prima, a salsicha, já era preparada na região de Frankfurt a coisa de oitocentos (!) anos. Enfiá-la no pão é tão óbvio que o hot dog pode ser quase tão antigo quanto seu recheio.

Os alemães e o hot dog: No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt; Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog; Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha; Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Os alemães e o hot dog:
No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt;
Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog;
Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha;
Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Mas foi nos Estados Unidos que o sanduiche se popularizou, do jeito que a gente conhece, no pão macio feito sob medida para abarcar direitinho a salsicha. Ganhou o gosto do povo, na esteira do beisebol, um dos esportes mais populares por lá. O sucesso desse casamento do cachorro quente com o jogo é centenário e pode reparar que não existe cena de filme em estádio de taco-e-bolinha em que não apareça protagonista ou figurantes atracado num cachorro quente. É que é assim que acontece na vida real. Que nem pipoca no cinema, panettone no Natal, ovo de chocolate na Páscoa…. Obrigatório.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos. Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos.
Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Da América para o mundo, foi vapt-vupt. Tirando a pitoresca proibição recente na Malásia. Não por ser um país muçulmano e a salsicha tradicional do hot dog ter matéria prima suína – proibida aos seguidores de Maomé. Até porque, lá, o sanduiche já era feito com salsicha de frango que é comida halal, ou seja, permitida aos islâmicos. Mas porque o cachorro, para eles, é um animal “impuro” e não dá para chamar uma comida com um nome indigno. Pode? E se chamar de roliço quente, pode?

hot-dog-nameAgora, vem cá, você já cismou por que cargas d’água o nome é cachorro quente? Eu já.

Dizem que foi intriga da oposição.

Logo que o hot dog começou a aparecer nos estádios americanos de beisebol, os vendedores de outras gulodices, concorrentes, começaram a espalhar que as salsichas eram feitas com carne de cachorro. Uma acusação que tinha lá sua razão de ser, pois parece que na Alemanha natal do sanduiche acontecia de misturarem as carnes de porco e de cão no preparo do embutido.

Saiu pela culatra. O povo, nem aí, acabou usando a aleivosia para consagrar seu escolhido. E dá-lhe mostarda para afugentar eventual veracidade. E ketchup, of course.

Viu só o tanto de cultura imprescindível existe num pão com salsicha?

Sem contar a história:

Quando criança, na saída da escola, hora do almoço, sol a pino, eu não resistia ao cachorro quente de um ambulante que fazia ponto ali, subvertendo o esforço de mamãe que esperava em casa com a mesa posta. Pouca coisa esse cachorro quente da década de 60 tinha em comum com o hot dog de hoje. Para começar, não havia salsicha. O recheio era uma carne moída refogada no alho, cebola, tomate e pimentão, que ficava fervendo numa assadeira acomodada sobre uma chama. De tempos em tempos, Companheiro (era esse o apelido do vendedor – sem qualquer conotação ideológica, mas de cumplicidade com a transgressão ao cozinhar materno) regava a carne com água para não secar. Ele abria um pão francês, arrumava alface e rodelas de tomate e pepino e carne. Como eu cresci em São Luís do Maranhão, o pra beber era uma garrafa de guaraná Jesus.

Ou seja, o Rod Hot Dog da rua Guaimbé, na Moóca, tem ancestralidade!

O lugar é surpreendente, admirável em seu encantador rigor temático. O dono, Alexandre Brazales, é guia turísticos de excursões rodoviárias aos Estados Unidos. Foi isso mesmo que você leu, embora ainda esteja tentando imaginar uma pessoa que, em vez de voar daqui para fazer compras em outlets da Florida, para andar de montanha russa em Orlando, para assistir musicais na Broadway, para se embasbacar com a cenografia fake-faiscante de Las Vegas ou mesmo para surfar na California, contrate um cicerone para percorrer as american highways. Eu acho até que pode ser um programão, a começar pela icônica Route 66. Mas não imaginei que houvesse, na Moóca, um especialista no assunto.

Mas, quando a gente entra lá, grita a evidência de que demos um salto miles and miles away from Moóca, para cair num american diner de beira de estrada. A bem da verdade, as surpresas começam na calçada, com um banco para fumantes feito com a carroceria de pick-up, uma estilosíssima bicicleta sempre estacionada por ali e, até, a maçaneta da porta de entrada: um bico de bomba de gasolina.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência, maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina e banco abusado para fumantes. Tudo no Rod Hot Dog way.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência,
maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina
e banco abusado para fumantes.
Tudo no Rod Hot Dog way.

Hot Rods são carros velhos – ou clássicos – americanos com motores modificados para atingir potência e velocidade que não alcançavam em sua época. Eventualmente – mas não necessariamente – podem ser, também, customizados. E está assim de americano que se joga nesse hobbie, digo, mania, digo, patologia.

Alexandre, Tracy e Monica. O orgulho de ser moóquense e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

Alexandre, Tracy e Monica.
O orgulho de ser moóquense
e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

A lanchonete de Alexandre e de sua Monica Othani, responsável pela elaboração culinária, é o lugar ideal para visitar esse universo.

2016-10-13-21-05-03As salsichas são preparadas lá mesmo. Inclusive a versão vegana. Mas eles oferecem a opção da versão viena industrial. E o cardápio (também original, na forma de uma prancheta com garra – na verdade uma placa de carro americana) apresenta mais de dez opções.

Já passeei por ele, gostei de todos, mas meus prediletos são o New York Style (com ótima conserva caseira de pepinos e mostarda), o Cheddar Dog (com queijo cheddar, óbvio, farofa de bacon e molho barbecue – que eu dispenso) e TexMex Dog (com chili de carne – carne moida misturada com feijão, guacamole – falta um salzinho para o meu gosto – e molho apimentado Pico de Galo).

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Além dos cachorros quente, o Rod Hot Dog oferece alguns starters (que eles chamam de porções, não fazendo jus ao espírito da casa) – as Buffalo Wings (asas e coxinhas das asas de frango empanadas e encharcadas de molho apimentado) são muito boas. Além de três opções de TexMex Food (para quem nunca se tocou, trata-se do affair gastronômico entre as duas margens do rio Grande: o Texas americano e o México); o Chili com carne vale pelas recordações do tempo em que eu, adolescente fazendo intercâmbio no estado americano de Iowa, comia essa gororoba dia sim e no outro também; o do Rod Hot Dog vem com uma porção – até farta – de nachos; mas, quer saber, Chili com Carne não tem qualquer appeal gastronômico. Caia de boca, direto, nas ardentes Jalapeño Poppers (pimentas recheadas com queijo, empanadas e fritas, servidas com molho blue cheese – quase sem blue cheese – e salsão).

De cima pra baixo: Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

De cima pra baixo:
Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

Impressionante como talos de salsão, mordidos assim, in natura, funcionam legal como lenitivo do ardor entre as abocanhada de jalapeño.

Para beber, Alexandre providenciou uma carta de opções “exóticas”. De soft-drinks americanos e brasileiros raros a cervejas artesanais. Como o extraordinário e delicado refrigerante Gengi-Birra, produzido na cidade paulista de Santa Bárbara do Oeste. Ou as cervejas da paulistana Cervejaria Urbana – inclusive a ótima belgian golden ale Gordelícia.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia. Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia.
Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

Deixei para o final a obra prima do Rod Hot Dog. Nada menos do que the best milkshake in town. E olha que Sampaulo tem sorvete batido com leite a dar com pau. Alguns deliciosos, como o de chocolate, do Joakin’s (da rua Joaquim Floriano, no Itaim), que foi meu vício por décadas – nem sei se ainda continua tão bom como era. Mas nada se compara à doce alquimia que cinge de magia a mistura de sorvete de creme, biscoito Oreo e rum aromatizado (escocês, quem diria…) Sailor Jerry.

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“O segredo é bater muito, até que o biscoito se mescle completamente ao creme”, ensina Alexandre. A gente chega a ficar mesmo impaciente enquanto o liquidificador troa interminavelmente suas promessas de deleite. Eu fico perguntando para Tracy, a sweet atendente, se ainda não está pronto. Mas ela sabe o ponto. Só merecia uma calda menos óbvia. Mas como serve apenas para lambuzar o copo e não interfere no paladar…

Volto sempre ao Rod Hot Dog. Pelo Sailor Milk Shake.

E aproveito para fazer uma boquinha pois o de comer também é muito bom.

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Ahhhh…. Para os amantes das velhas bolachas de Vinil, Alexandre mantém, à venda, um  estoque de ótimos títulos. Particularmente de bandas clássicas do old’n’good rock’n’roll.

* O Teatro Arthur Azevedo foi criado na prancheta do arquiteto fluminense Roberto Tibau. Imagino que seu desenho (típico da escola “carioca” – Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy… – que vicejou nas décadas de 40 e 50) tenha caído no gosto dos prefeitos paulistanos então nomeados pelo governador Ademar de Barros, pois várias obras municipais dessa época foram arquitetadas por ele. Inclusive os teatros Paulo Eiró e João Caetano, quase clones do Arthur Azevedo.

Bonus:

Dois vídeos.

No primeiro, uma apresentação do Clube do Choro de São Paulo, com depoimento
de um monte de feras.

No segundo, uma Roda de Choro, das que acontecem todo sábado, às 6 da tarde,
no hall do Teatro Arthur Azevedo.