É Moóca, belô!

Carioca é bairrista. Não tiro a razão deles. Viver entre montanhas esculpidas caprichosamente por Deus (esmero reconhecido com Sua estátua de braços abertos e tudo) e o beira-mar tropical atlântico – salpicado por encantos do Leme até o Pontal, como gabou Tim Maia – é de deixar qualquer nativo pra lá de pimpão.

Soteropolitanos também são bairristas. Axé seja, São Salvador! Com uma personalidade miscigenada daquelas explodindo em sons e sabores tão pródigos…. E dá-lhe berimbau embalando esse dendê que eu não estou com a menor pressa.

Agora famosos mesmo, pelo bairrismo, são os porteños. Orgulhosos de que, mesmo? Tem o Messi (que nem de Buenos Aires é), o Papa Francisco (este sim, é nato), o tango (ponto para eles, principalmente depois de Astor Piazzola)…. E tem o cemitério da Recoleta (ahhh, sei, o túmulo de Evita…), o Colòn, as parrillas (tá bueno, com aquelas carnes, que arrebitem o nariz os hermanos). Do jeito que estão penando nas eliminatórias para a Copa da Rússia, até que merecem uma compensação onde se agarrar… (Ave, Tite!)

Paulistanos não são lá muito bairristas. Mais comum é ouvi-los amaldiçoando as mazelas da cidade: trânsito, clima, violência…  Sonham com Fortaleza, Florianópolis, Miami…

Mas há exceção. Alguns moradores desdenham qualquer outro endereço, por mais Leblon, Beverly Hills ou Champs Elysées que seja. São os moóquenses.

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Já é zona Leste. Com uma extremidade colada no centro velho, na margem direita do rio Tamanduateí. Na outra ponta, roça a Vila Prudente. De um lado, o Brás e o Belém. Liberdade, Cambuci e Ipiranga do outro. Centro do mundo, no coração dos locais.

O fato é que tem muito sócio-antropólogo que percebe, no bairro, as raízes da paulistanice mais genuína.

Segundo o moóquense professor Pasquale, famoso consultor do bem escrever a nossa língua, Mooca se escreve assim, sem acento. Mas eu e a torcida do Juventus vamos lá cometer tal heresia?

O bairro já foi berço do então distante Jockey Club. Sim, o turfe paulistano nasceu ali, há cento e quarenta anos! E viveu apogeu fabril, vazando indústrias (Crespi, Matarazzo, Cia. União de Refinadores, Antarctica Paulista e mais um monte…) que empregavam as multidões de europeus – sobretudo italianos – que desembarcavam em Sampaulo, via a célebre Hospedaria do Imigrante, no vizinho bairro do Brás.

Rastros dos bombardeios de 1924

Rastros dos bombardeios de 1924

Essa história passou por um momento dramático: a “Revolução Esquecida”, há noventa e poucos anos. Paulistanos golpistas decidiram se rebelar contra o governo nacional de Artur Bernardes. E, estribados em fortuna que lhes permitia bancar algum soldo, amealharam um exército entre os imigrantes sub ou desempregados (a maioria moradora da região da Moóca). A reação das tropas federais foi violenta. A Moóca foi bombardeada sem dó. Mais de quinhentos morreram e a insurreição foi debelada em poucos dias.

Conheci a Moóca em tempos menos atribulados. Mais…. Modorrenta, eu diria.

Nunca morei por ali, mas sabia de cor o caminho.

Recém-chegado em Sampaulo, meu primeiro panettone foi um Di Cunto, comprado na loja em frente à estação de trens da Moóca.

Quantas vezes não me joguei no lhano estádio da rua Javari – menos pelos jogos do Juventus do que pela pândega beira provinciana e pelos doces do tiozinho dos canolli? Até bailes de carnaval já frequentei no Juventus…

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Sem contar as gandaias gastro-etílicas no bar do Elídio – e seu até hoje, mesmo após a morte do fundador, surpreendente balcão de petiscos.

Com o tempo deixei de ir à Moóca com frequência. Até o último inverno, quando voltei lá para descobrir um bairro renovado, apinhado de atrações surpreendentes. Sem abrir mão de sua tradição de mais paulistano dos enclaves da cidade.

Esse reencontro foi imediatamente anterior a uma breve temporada longe de Sampaulo.

Por conta desse distanciamento, durante mais de dois meses só tenho republicado posts antigos, aqui no blog. Em agosto, antes de me afastar daqui a trabalho, o último artigo inédito (“Samba de Fé”, de 4 de agosto) falava de uma balada invulgar, uma casa de samba, o Templo, plantada na… Moóca.

Retorno pela mesma porta de saída: a moóquense rua Guaimbé.

Quando a descobri, embasbacou-me a muvuca daqueles poucos quarteirões. Tipo agito mesmo. Decidi fuçar o que arrasta tanta gente para lá, assim que a noite cai. O que descobri, começo a revelar agora.

Saindo da rua do Oratório, na direção da avenida Paes de Barros, a primeira parada ainda é diurna. Mais tardar boca-da-noite (eles ficam abertos até tarde e, se ligar, esperam até tipo oito da noite)…

Guilherme é palmeirense, ou seja, tá com a mão da taça de campeão brasileiro. Recém-chegado aos quarenta, ele sempre viveu de preparar e vender comida. Primeiro em Sampaulo, em lanchonetes “parasitárias” (sabe bromélias, orquídeas e que tais, que crescem nos troncos das tais árvores “hospedeiras”?). Pois Guilherme costumava instalar seus lanches em salão de cabelereiro, academia de ginástica…. Até mudar para o Rio e virar botequeiro na distante e gastronomicamente buchichada Vargem Grande carioca, o Bar do Gui.

De volta aos arredores paulistanos, começou a viajar nas tortas salgadas. Danou-se a experimentar diferentes formulações de massa e a elaborar recheios criativos. E começou a receber as primeiras encomendas. Daí conheceu Fernanda e se encantou com a moóquense que não tardou arrastá-lo para viver na Moóca. Nascia a Lá dá Torta.

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A lojinha de tortas prontas, vendidas congeladas, abriu há poucos meses no número 66 da rua Guaimbé. E o lugar tem a cara dos quitutes preparados por Guilherme – agora animado com a mãozinha estimulante da cara-metade. Simplesinho que só, sem qualquer atavio mais sedutor. Tirando a bem elaborada logo da casa, tudo é radicalmente sem glamour. Embalagens sem appeal, lugar sem qualquer charme. Mas as aparências…. Enganam!

Na cozinha do Lá dá Torta, da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Na cozinha do Lá dá Torta,
da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Fernanda e Guilherme são uma simpatia e o que importa no que eles fazem é o conteúdo. Não falo nem da massa de suas tortas, tão longamente pesquisadas por ele. Mas dos recheios. No geral, são ótimos. Gostei de tudo o que já trouxe para casa. O de carne seca com abóbora e requeijão (ô ménage-a-trois mais delicioso), o de palmito com alho porró (palmito mesmo; e haja alho porró), o de berinjela com mozarela (berinjelice farta, em lascas sem casca, uma festa para quem gosta, como eu) e, sobretudo, minha predileta: shitake com queijo estepe – uma obra-prima. Não sei se esse cogumelão já conhecia o queijo de origem russa. Mas como se deram bem! A textura carnosa de um, cortado em tirinhas, foi feita sob medida para o sabor amendoado, adocicadinho ao longe – e gordo – do outro. E tem torta de bacalhau, de atum, de salmão, de frango com acompanhamentos diferentes, de peito de peru, de carne moída, de ratatouille…

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Bem, a noite está começando e ainda temos dois lugares – hoje – para percorrer pela rua Guaimbé acima.

Arrume seu farnel com tipo dois sabores de torta e um bolo. Sim, a Lá dá Torta vende dois bolos irretocáveis, no que pese a embalagem mais uma vez pra lá de desinteressante deles: um de chocolate belga com cerveja preta e outro de capim santo. Além da conta de bons; simplesinhos na aparência, mas extraordinariamente deliciosos, ambos. E, uma novidade saída do forno, recém lançada pelo casal: as tortas doces. Em três tamanhos diferentes – e com três opções de recheio: chocolate com um toque de pimenta, chocolate meio amargo e limão siciliano. A massa crocante, abiscoitada, pode ser aromatizada com canela ou com chocolate.

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo
e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Minha dica para quando for comer as tortas salgadas, amanhã ou depois (já que hoje a programação por vir inclui comida): deixe descongelar naturalmente e aqueça com paciência, longamente, em forno a gás ou forninho elétrico. Não cometa o desplante de colocar uma torta dessas no micro-ondas. É crime de lesa textura, lesa sabor, lesa bom senso. Deixe esquentar lentamente, com o fogo reduzido (130 graus), por pelo menos 20 minutos. Se for meia-hora, melhor. Até dourar a cobertura. Só então, caia de boca.

Na próxima quadra, do outro lado da rua, no número 161 da rua Guaimbé, fica a segunda parada: a extremamente popular e invariavelmente lotada Hamburgueria Artesanal.

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Bruno Petrone é um jovem moóquense, empresário tarimbado em área alheia à alimentação. Mas louco por burguers (uma cultura complexa que abrange um tantão de detalhes para além do pão com bife de carne moída). Essa paixão juvenil sempre lhe embalou a vontade de expandir seus negócios até a gastronomia, digo, aos hamburguers. A própria sacada do nome do empreendimento – Artesanal – dá a pista do zelo perfeccionista, do esmero com que pretendia preparar o que seria servido.

Mas faltava o pulo do gato. A singularidade que faria da lanchonete de Bruno um lugar diferenciado das tocentas hamburguerias de Sampaulo. Tudo bem que a qualidade já seria uma distinção que o alçaria a um círculo mais restrito de algumas poucas dezenas de boas casas de cheese-salada. Acontece que o cara queria ser único, oferecer o que ninguém oferecia.

A idéia de rodízio de mini burguers não era inédita. Bruno já a conhecera no interior de São Paulo. Tipo uma bandeja de pequenos burguers circulando pelo salão e eat as many as you can, ou seja, vai fundo. Mas essa ênfase em quantidade não batia com o sonho de qualidade que acalentava para seu negócio.

Por outro lado, empreendedor sensível, ele sabia que a rapaziada da sua Moóca é gulosa.

Esse embate entre a qualidade pretendida por Bruno e a quantidade desejada por seu target (os futuros clientes de sua Hamburgueria Artesanal) começou a se sintonizar com a elaboração de um conceito que junta antagonismos: o rodízio à la carte!

Há dois anos essa receita bomba na rua Guaimbé. E lota os dois simpáticos andares ambientados com cadeiras de casa de vó americana e memorabilia com pegada roqueira. Um sucesso que atrai moradores da Moóca e arrasta apetites distantes para mergulhar nos mini-burguers da Artesanal.

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A gente escolhe até três hamburguerzinhos de cada vez, para evitar desperdícios (mas não há limite para a quantidade de pedidos). O recorde foram vinte e cinco comidos por um único cliente!

Nós mesmos montamos cada sanduichinho a partir de três variáveis: o pão, a carne e o molho.

As orientações do rodízio à la carte

As orientações do rodízio à la carte

São quatro opções de pães, todos redondinhos como exige o sanduba famoso, só que com um diâmetro bem menor do que o habitual. Mais ou menos com a circunferência de uma lata (de refrigerante ou cerveja). Tem o pão tradicional, o vermelhinho (à base de tomate), o preto (colorido por carvão e sutilmente flavorizado com mel) e o pão com a massa mais “grossa” de pão francês.

Carnes, são cinco: mignon (um escalopinho mínimo), picanha (moída, gordinha, a melhor, na minha opinião), tradicional (seja lá o que for, mas a não especificação deixa uma suspeita de carne “qualquer” no ar), toscana (o recheio da linguiça moldado na forma burguer de ser) e frango.

E complemento, que inclui de maionese a bacon, de ovo a vinagrete, de cebola (frita ou crua) a salada, etc.

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

O queijo já faz parte de qualquer opção, mas eu peço para tirar (a não ser que seja um queijo de boa qualidade; prefiro não comprometer minha carne com um puxa-estica emborrachado qualquer). Além de batata e polenta frita que acompanham. Não, onion rings não estão incluídos, mas podem ser pedidos à parte.

Tipo assim: pão francês com burguer de toscana e molho vinagrete, pão preto com filé mignon e bacon e maionese, pão vermelho com burguer de picanha e cebola frita, pão tradicional com burguer de frango e cebola….

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Pode ser uma experiência bem engraçada e animada, particularmente se partilhada em grupo. Aliás, essa é a bola da vez, em marketing: proporcionar experiência agregada ao consumo. Surpreender, oferecer diversão, encantamento, sedução e aprendizado. Tipo vivência prazerosa; ir além do produto que se está vendendo e conquistar pela emoção é o desafio dos marqueteiros. E Bruno resolveu isso com competência.

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Os  mini burguers em si nem estão com essa bola toda, mas tampouco decepcionam. Que são divertidos, isso lá são. Mesmo considerando a quase absoluta similitude entre os diferentes pães (à exceção da massa do pãozinho francês). Falam que um é mais picante, outro é mais adocicado…. Balela. O appeal é a cor, e só. As carnes tampouco brilham além da conta. Idem para os molhos – sendo que o bacon, picado em cubos (em vez de tiras) e exageradamente torrado, deixa a desejar.

Uma experiência divertida apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

Uma experiência divertida
apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

A Hamburgueria Artesanal oferece um vasto cardápio de burguers em tamanho tradicional, fora do rodízio. Pelo jeitão de mais exigentes e a cara prazerosa dos que pediam esses burguerszões, fiquei com a sensação de que eles eram de fato melhores do que a bem-sucedida sacada de rodízio à la carte.

Do que já bebi por lá, o Mojito é frustrante e o milk-shake de nutella, apesar de óbvio, é tudo.

O fato é que, se voce estiver de turma – e com fome, com a Moóca no seu radar, o rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal pode ser uma adorável opção de saciedade festiva. Se tiver adolescente na jogada, então…. Eu mesmo não vejo a hora de levar meus sobrinhos lá.

A última parada rua Guaimbé acima – por hoje, pois vem mais por aí – fica na mesma quadra da Hamburgueria Artesanal, do mesmo lado, só que já na esquina da rua Padre Raposo.

Já abastecemos nosso farnel com tortas e bolo do Lá da Torta. Já nos saciamos no rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal. Eis que, continuando rua Guaimbé acima – se for terça-feira e já passar das 9 da noite – de repente vai bater a sensação de que Nova Orleans é aqui. Um ótimo blues, com solo de gaita, anima a rua com o ritmo encantado, sincopadamente dolente – quase lamento – dos negros da Louisiana americana. Não dá para evitar. Os passos começam a obedecer a cadência da melodia. E o espírito viaja.

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Terça é dia de Sérgio Duarte no Bar do Juca.

Um dos melhores gaitistas brasileiros – mora ali perto, na Moóca mesmo – Sérgio foi aluno e parceiro do mito da gaita Maurício Einhorn. Durante muitos anos, ainda no tempo da fita cassete, as gravações de Maurício eram audição obrigatória quando eu estava ao volante. Na estrada, então…

O gaitista Sérgio Duarte, às terças, no Bar do Juca

O gaitista Sérgio Duarte, se apresenta às terças, no Bar do Juca

Pois a careca luzidia de seu discípulo cintila, todas as terças, no palco acanhado de um boteco moóquense. Desfiando arranjos inspirados para clássicos do rock & roll (do Pink Floyd ao The Doors – sua versão para Light my Fire, de Jim Morrisey, é puro deleite), do blues norte americano (além de composições do próprio Sérgio Duarte) e, até, de adaptações bluesísticas da obra de Luís Gonzaga. Emocionante, no que pese o pouco caso da maior parte dos frequentadores que inflamam cotidianamente o Bar do Juca.

Roberto Junior – o Juca, uma figura cativante – e sua mulher, Iara, abriram seu boteco há quatro anos. Um qualquer nota ordinário, numa esquina com tradição micada. Desses que Sampaulo tem aos milhares. Salva-o a ótima programação musical da casa. Que vai do velho e bom rock progressivo à MPB, passando pelo blues de terça e sexta-feira (a cargo do também ótimo trio Acústriplo). Tinha tudo para ser um lugarzinho à toa. No entanto, é um recanto que emana magia, graças ao condão da boa música. Um privilégio moóquense.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

Além da boa música, se bater larica, outra surpreendencia da casa são os ótimos bolinhos de bacalhau (que deveriam se chamar “dedinhos” de bacalhau). São roliços como indicadores bem torneados, mas a porção é farta e deliciosa. Entre as cervejas servidas por lá, a divertida IPA (Indian Pale Ale), da Baden Baden de Campos de Jordão, é temperada com…. Maracujá!

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca (com o Juca em pessoa, ao fundo)

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca
(com o Juca em pessoa, ao fundo)

Lá dá Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca. Essa é apenas uma das excelentes opções de noitada na rua Guaimbé, na Moóca. Volto a ela, em breve.

Esta é minha Sampaulo, uma cidade onde – parafraseando Gil, surpresas se escondem, revelam e emoção sempre há de pintar por aí. Se for para as bandas da Moóca, então…

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E, de bonus, Sérgio Duarte, no SESC Pompéia

 

Samba de Fé

Não é de hoje que o samba louva a Deus. Vinícius de Morais já cantava que “o bom samba é uma forma de oração”.

A alta hierarquia católica, entretanto, sempre foi reticente. Para ela, sagrado e profano é cada um no seu quadrado. Só muito recentemente, já no papado de Francisco, os cardeais de Sampaulo e do Rio de Janeiro admitiram – e, até, abençoaram – a participação de sua iconografia religiosa em desfiles de Escolas de Samba.

Este ano, a Águia de Ouro paulistana cantou Nossa Senhora no sambódromo, num desfile procissão cujo refrão dizia: “Ave Santa Mulher que me guia… O nosso Azul e Branco é de Maria”.

Nicete Bruno, como a Virgem Maria, participa do desfile cheia de referências católicas da Águia de Ouro.

Nicete Bruno (Virgem Maria), no desfile cheia de referências católicas da Águia de Ouro.

E a Acadêmicos do Tucuruvi cantou, em seu refrão: “ó Círio de Nazaré, ó Senhora Aparecida abençoa quem tem fé”.

Logo Águia de Ouro 2017

Ano que vem,  Nossa Senhora Aparecida volta, absoluta, pelas mãos da Unidos de Vila Maria. Que vai louvar os 300 anos de aparição da imagem no rio Paraíba do Sul.

Não foi sempre assim. Em 1989, quando Joãosinho Trinta tentou colocar o Cristo Redentor na Marques de Sapucaí – abrindo o memorável desfile “Ratos e Urubus, larguem a minha Fantasia”, a Beija-Flor foi ameaçada pelo ultraconservador cardeal Eugênio Sales.

beija-florAinda assim, a alegoria participou do desfile, só que coberta. com uma faixa/oração que desmascarava a hipocrisia eclesial e demonstrava mais Fé na divino do que a cúpula da igreja local (que quis impedir Nosso Senhor de estar no meio do povo). Daí para frente, o carnavalesco mais importante da história e o arcebispado carioca passariam a viver às turras.

beija-flor-cristo-2005-originalEm 2005, a mesma Beija-Flor colocou na avenida uma representação do Cristo ensanguentado (embora a falta de sintonia mais explícita com o enredo tenha sombreado sua repercussão).

Em 2014, a Mocidade Alegre paulistana encarou de frente a cisão e construiu uma ponte vigorosa sobre o fosso que sempre apartou a igreja do samba. E faturou o campeonato com o enredo “Andar com Fé eu vou, que a Fé não Costuma Falhar”. E contagiou o sambódromo do Anhembi com o refrão: “De joelhos eu vou cantar / Tenho fé de verdade, vou além… / Na Mocidade, o samba diz amém”!

Romeiros em procissão no desfile de 2014 da Mocidade Alegre

Romeiros em procissão no desfile de 2014 da Mocidade Alegre

Ainda no universo das igrejas cristãs, os evangélicos, tradicionais ou pentecostais, torcem o nariz para os prazeres profanos. Implicam até com a cervejinha nossa de cada dia… Mas isso não impede que vários sambistas convertidos continuem fazendo samba, só que gospel. Inclusive samba de partido-alto (sabe Martinho da Vila?). Já ouvi uma banda com ótimos ritmistas em que é feito um trocadilho: “partiu do alto”, ou seja, veio de Jesus.

Clara Nunes cantou os Orixás

Clara Nunes cantou os Orixás

As religiões de origem africana, até por costumarem apoiar suas celebrações em batidas de tambores, sempre desfrutaram de intimidade com o samba. Olha Clara Nunes que não me deixa mentir… Sem contar que muitos dos fundadores das grandes escolas de samba do Rio – que é a matriz do gênero – eram pais e mães de santo. Sempre que homenageiam um Orixá, entretanto, os sambistas precisam pedir permissão ao santo, cumprindo alguma “obrigação” imposta por um terreiro a ele consagrado. Ainda assim, pelo preconceito vigente até então, foi só na década de sessenta que essas divindades começaram a dar as caras nos desfiles.

Sou entusiasta da comunhão da religião com o samba. A Igreja tem que estar perto do rebanho de Deus, particularmente do desgarrado. Evangelização em território sagrado tem um que de chover no molhado. O próprio Cristo foi exemplar ao se aproximar de Maria Madalena… E, ademais, não há porque confundir diversão com prevaricação. Pecado é o que nasce no desamor, na intolerância, na demonização do diferente – como bem tem demostrado os jihadistas que se pretendem muçulmanos.

Sou devoto do Criador e adoro samba. De roda, de breque, partido-alto ou exaltação.

Por isso, não é de hoje que eu cato redutos de bambas na cidade..

Quando larguei a barra da saia de mamãe e virei de maior, lá nos anos 70, dois dos meus destinos prediletos eram consagrados ao samba.

Mestre Paul Vanzolini

Mestre Paulo Vanzolini

Para cair no passo, o destino era o decadente Paulistano da Glória, no bairro da Liberdade. Uma escola de samba, fuleira que só (para os padrões atuais). As instalações eram para lá de canhestras, mas o samba era bom e rolava um baile semanal durante o ano inteiro. Minha galera da PUC batia ponto e eu me esbaldava. Tipo “passista perde”… Não era raro cruzar com alguns ícones da velha guarda paulistana por lá: Geraldo Filme (“na hora em que eu nasci, mamãe me jogou na pista – se cair deitado é padre, caiu de pé é sambista”), Adoniram Barbosa (“din-de donde nós passemos os dias feliz de nossas vidas”), Paulo Vanzolini (“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”)….

Benito de Paula nos anos 70

Benito de Paula nos anos 70

Já se era só para ouvir o ziriguidum, no máximo marcando o ritmo com o polegar no tampo da mesa, eu esvaziava o bolso para encarar o couvert artístico da exígua Catedral do Samba, no bairro do Bexiga. Mais requintada, decorada com alguns arremedos de vitral para dar clima de igreja (embora diminuta como uma capela), tinha um tablado no fundo com um piano de calda. Era o palco do “samba joia” de Benito di Paula. Hoje o cara é cult, reverenciado, mas na época a intelligentsia torcia o nariz para ele. Por isso eu ia sozinho, meio que à socapa. Gastava o que eu tinha. Mal dava para uma dose de caju amigo (um drink popular na época), para regar a garganta que cantarolava o repertório inteiro que eu sabia de cor: “onde está você, com meu violão? Se você chegar fora de hora, não deixo você desfilar no meu cordão”,Eu chorei na avenida, eu chorei…. Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei”, “Eh! Meu amigo Charlie; Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie Brown”, “ninguém sabe a mágoa que trago no peito, e quem me vê sorrir desse jeito nem sequer sabe a minha solidão… É que meu samba me ajuda na vida, minha dor vai passando esquecida, vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar”…

Dona Inah, lenda viva do samba paulistano

Dona Inah, lenda viva do samba paulistano

Mais recentemente, vira e mexe eu ainda cavuco um bom samba em Sampaulo. Para trautear junto e acompanhar o gingado sem sair do lugar. Nessas horas, as rodas de samba do Ó do Borogodó são meu destino predileto, na fronteira dos bairros de Pinheiros e Vila Madalena, lateral meio escondida do cemitério São Paulo. Se der de topar com a presença luxuosa da octogenária Dona Inah, então, a semana está ganha.

Só muito recentemente decidi ir conhecer o Templo, que de uns tempos para cá caiu no gosto do povo do samba.

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Admito que temia encontrar um lugar focado no pagode fácil de harmonia pobre e letras indigentes que tem dominado o universo sambeiro. Prefiro não testemunhar essa fase decadente de um ritmo que já nos honrou com gênios da raça como Noel, Nelson Cavaquinho, Cartola, Adoniran, Silas de Oliveira…

Noel Rosa, Silas de Oliveira, Cartola, Nelson Cavaquinho e Adoniram Barbosa

Noel Rosa, Silas de Oliveira, Cartola, Nelson Cavaquinho e Adoniram Barbosa

Quer saber? Que bom que eu subestimava o lugar…  Foi a deixa para o Templo me surpreender! O slogan da casa diz tudo: Bar de Fé.

Murilo Cândido de Oliveira, paulista de Presidente Prudente – mas criado em Sampaulo, apaixonado por samba e religioso praticante – e graduado, largou a diretoria comercial de um importante grupo educacional, há cinco anos. Para abrir essa balada adorável no tradicionalíssimo bairro da Moóca.

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Noite de quinta-feira, no Templo

Noite de quinta-feira, no Templo

A ambientação é admirável. Prodigiosa. Uma descoberta atrás da outra. Encantadora, sem ser luxuosa. Numa certa medida, até pitoresca. De uma singeleza… Formidável. A alma brasileira pulsando em todo esplendor.

São Jorge dá as boas vindas ao Templo

São Jorge dá as boas vindas ao Templo

A cor predominante é a cor de barro, que a iluminação trata de tingir, aqui e ali. Mobília patinada em tons pastel….E detalhes encantadores – como a parede que sustenta a bancada do bar – em taipa.

A ambientação é de uma brasilidade rústica, radical. Na vidraça que separa a cozinha, saudações religiosas no maior ecumenismo.

A ambientação é de uma brasilidade rústica, radical.
Na vidraça que separa a cozinha, saudações religiosas no maior ecumenismo.

Além de painéis com frases sobre a Fé, que lembram as célebres pinturas do “profeta” carioca Gentileza (gera Gentileza).

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E a exaltação ao ecumenismo religioso sobeja, exuberante, em grandes imagens de anjos, santos, orixás, divindades hindus, buda…

Jesus, Ganesh, Nossa Senhora Aparecida, Xangô, Santa Bárbara, Oxun, Oxóssi e até Santo Antônio de cabeça para baixo (como fazem as moças casadoiras)...

Jesus, Ganesh, Nossa Senhora Aparecida, Xangô, Santa Bárbara, Oxum, Oxóssi
e até Santo Antônio de cabeça para baixo (como fazem as moças casadoiras)…

O ecumenismo é minha praia. Sou católico. E mariano. Através da maternidade de Nossa Senhora abracei, reconhecido e reverente, a incondicionalidade do amor de meu Deus criador.

Mas sou católico porque fui criado do seio desta igreja, cresci na sua doutrina, cercado por sua iconografia, ritos e liturgia. Nascido fosse em outra cultura religiosa, talvez fosse tão devoto a Deus quanto sou. Só que O chamaria de Jeová, de Alá, Oxalá, Krishna…

Por isso, confio na possibilidade –  e acredito na necessidade – da convivência harmoniosa entre as religiões. E sonho até com um futuro de sincretismo – como já acontece timidamente, no Brasil, entre catolicismo e candomblé (salve, São Jorge!), embora nem sempre “tranquilo e favorável”. Todas, absolutamente TODAS as religiões, monoteístas ou politeístas, pregam o bem e a fraternidade. Falo do Cristianismo, do Judaísmo, do Islamismo, do Candombé & Umbanda, do Hinduismo, do Budismo, Xintoismo, Taoismo…

Ecumenismo I

Seitas demoníacas que brotam no fundamentalismo religioso (jihadistas, TFPs, Kachs) são exceção. São tumores malignos que devem ser quimioterapizados. Porque crápulas e facínoras existem, independente de vínculos religiosos. Esses aí apenas se escoram numa blasfêmia para sua delinquência sicária.

O que explica a diferença entre as religiões é a história e a cultura. As civilizações foram construídas ao longo de milênios, por uma humanidade apartada por distância até recentemente intransponíveis. Há dois mil anos, a Globo não mantinha enviados especiais na China. Há menos de mil, as árduas excursões ocidentais ao mundo árabe, as Cruzadas, focavam, exclusivamente, na dizimação dos mulçumanos. Há menos de 500 anos, a África só era frequentada para o saque de bens e sequestro de mão de obra escrava.

Intercâmbio é conceito muito recente.

Ecumenismo 3

As religiões vicejaram em cada uma dessas sociedades, isoladas umas das outras, a partir de suas culturas, suas próprias visões do mundo. Todas elas, entretanto, reconhecem a existência do Criador, focam na generosidade, na solidariedade e no amor. E reconhecem no mal, na crueldade e na injustiça, o inimigo a ser vencido. Temos isso em comum, mesmo que nossos deuses atendam por nomes e representações diferentes.

Ecumenismo 2

A comunhão entre nós é possível e desejável. Basta ser tolerante. Entender, aceitar e respeitar o diferente. Em religião, o nome disso é Ecumenismo. Como o que nos acolhe, encantador, no Templo do samba, de Murilo, na Moóca.

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A sensação é a de que entramos no miolo de uma escola de samba, desfilando o enredo FÉ. Ao som da batida do samba mandado ver ao vivo por um elenco de bambas.

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Segunda-feira é dia de Arlindo Cruz. Toda segunda. Assim como toda quinta é dia do Príncipe do Pagode, Reinaldo (pagode das antigas – sabe Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro? Por aí…). Sábado é a vez da jovem dupla Sall e Almirzinho (filho de Almir Guineto).

Mix Artistas 1

Sem contar as atrações especiais que vira e mexe ocupam o palco e lotam o Templo.

Jorge Aragão, Marcelo D2, Elba Ramalho, Diogo Nogueira...

Jorge Aragão, Marcelo D2, Elba Ramalho, Diogo Nogueira…

Para se “soltar”, a cerveja brilha quase absoluta. Mas os destilados mais quentes também brilham nas mesas, aqui e ali. Vendidos, inclusive, em garrafas fechadas (que para grupos maiores pode sair muito mais em conta). Sem contar as boas criações de Roberto, o barman, digo, mixologista que é o jeito contemporâneo de tratar com respeito os alquimistas dos drinks. Caipirinhas criativas, Margueritas, Mojitos e o moderno Aperol Spritz seduzem o olhar e botam os neurônios para festejar.

Mix Bebidas

E se bater uma larica, consulte o bem-humorado cardápio em forma de missal, ilustrado pelo cartunista figuraça Laerte. Agora, se quer um conselho, vá de caldinho de feijão ou acarajés.

Caldinho de feijão e acarajé, para quando bater a larica.

Caldinho de feijão e acarajé, para quando bater a larica.

Lázaro, o chef da casa, é baiano e sabe o que faz.

Falar de comida é a deixa para destacar um dos pontos altos do Templo: a feijoada. É um dos programaços paulistanos para uma tarde de sábado. Escudado por sua assistente Oneida, o Chef Lázaro brilha, enquanto o samba de qualidade rola solto, com repertório de clássicos que, não deixa ninguém calado (de boca cheia e tudo!).

Chef Lázaro e Oneida no comando da Feijoada,

Chef Lázaro e Oneida no comando da Feijoada,

.Sugiro começar a função com uma dose da ótima cachaça com mel Busca Vida, catarinense, envelhecida em barris de umburana.

Mix Feijoada

Além da cumbuca borbulhante e bem temperada, lotada de bons pertences (costelinha, lombinho…) Vem arroz puxado no alho, tigelinhas de farofa, vinagrete e pimenta, além de uma farta travessa com torresmo (dos bons), couve (podia se cortada mais fininha) e dispensáveis rodelas de linguiça e costeleta de porco (por conta do excesso de óleo que escorre deles).

A hora para chegar é a partir das três. Mas faça reserva para garantir que sua mesa vai estar esperando. Porque lota legal.

2016-07-30 15.20.58

De sobremesa, vá de trio de Erê. Brincalhão e, como criança que é, Erê adora doces.

Arroz doce com doce de leite, doce de abóbora e canjica com paçoca - o trio de Erê

Arroz doce com doce de leite, doce de abóbora e canjica com paçoca – o trio de Erê

Balada para quem gosta de samba, o Templo é de se entrar proclamando Aleluia, deixar-se ficar cantando Hosana e sair gratulando Amém.

Post-it-2

Este post foi patrocinado por Walfredo Dantas, espírito iluminado por Graças e Bênçãos, parceiro de gandaias templárias e amigo do meu bem-querer.