Haja sacola…!

Minha alma tem deleites ancestrais. Sou fã de feiras, por exemplo. E não imagino um jeito mais primitivo de organização do comércio do que uma banca de feira. Consigo até vislumbrar pescadores fenícios (devemos a eles o manejo do mar), oferecendo seu catch-of-the-day pelos portos do Mediterrâneo, três milênios atrás.

As feiras da Antiguidade...

As feiras da Antiguidade…

Pouca coisa mudou, nas feiras, da Idade Média para cá. Capas de iphone, quinquilharia chinesa e pirataria de grifes famosas são apenas a atualização de estoque dos mesmos camelôs que apregoavam leitões e galinhas prontos para o abate, novelos de lã toscamente fiados ou cutelaria artesanalmente malhada em bigornas caseiras. Mas a forma quase nada evoluiu, desde o entorno dos castelos feudais até os arredores da ladeira Porto Geral, nas abas do parque Dom Pedro paulistano.

... e algumas feiras Contemporâneas.

… e algumas feiras Contemporâneas.

A novidade maior é a especialização, a segmentação, a tematização das feiras.

Gosto de todas. Das que misturam de um tudo – tipo bazares orientais – e das focadas num único mote. Sampaulo é pródiga delas.

Das feiras livres semanais de hortifrutigranjeiros na vizinhança de casa (e seus imprescindíveis pasteleiros nas extremidades) às feiras de livros (encabeçadas pela monumental Bienal do Livro).

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Sou useiro e vezeiro de feiras de arte e antiguidades (globalmente epitetadas pelos franceses de mercado de pulgas– marché aux puces, flea market, flohmarkt – à exceção de Portugal, onde são chamadas de feiras da ladra); adoro bater pernas pela da praça Dom Orione (no Bixiga), pela do vão do MASP, pela do MUBE.. E, vira e torna, dou uma sapeada nas feiras hippie (que já foram de artesanato alternativo e hoje se jogaram nos braços do stablishment – quer melhor exemplo do que a da praça Benedito Calixto, em Pinheiros?).

Sem contar as quermesses, que são suas primas com pegada baladeira.

Tem Feira da Madrugada, Feirão da Casa Própria, Feiras de Negócios….

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

Esse quesito de grandes feiras, focadas em fragmentos produtivos específicos, é um dos mais poderosos ímãs de hóspedes para a estrutura turística de Sampaulo. Quer ver? Antes mesmo que 2016 pendure a chuteira, acontecem duas grandes feiras de alimentos e bebidas, o salão do automóvel, feira de jóias e bijuteria, feiras de cosmética, de misticismo, de aviação, de tecnologia e nanotecnologia, de cinema e fotografia, de equipamentos para diversos segmentos da indústria… Eventos que reúnem milhares de pessoas vindas do mundo inteiro, exibem e comercializam o fruto do trabalho de milhões de operários, artistas, cientistas e técnicos, fazendo girar a roda da economia.

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Eu mesmo fui convidado – e vou, porque me importa a saúde do planeta e curiosidade é comigo mesmo – para a feira do lixo. Digo, de resíduos sólidos (que é o jeito “bon ton” de tratar do assunto). A Waste Expo Brasil reunirá, entre os dias 22 e 24 de novembro, uma multidão de profissionais e interessados em geral no tema: autoridades, técnicos e ambientalistas, administradores públicos municipais responsáveis pela gestão dos descartes urbanos, produtores globais de equipamentos para coleta, transporte, reciclagem (ou seja, reaproveitamento), compostagem (que é a utilização do potencial energético dos dejetos – ou como adubo orgânico) e aterros sanitários sustentáveis. Além de pequenos e médios empreendedores privados e sociais dessa cadeia produtiva vital para a nossa sobrevivência.

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Antes disso, bem antes, agora no próximo fim-de-semana, o programa será mais saboroso – embora também faça parte do universo da Eco-Responsabilidade. Vou sem falta à segunda edição da feira Sabor Nacional. A primeira aconteceu em julho e o sucesso surpreendeu promotores, feirantes e público: dois dias de Museu da Casa Brasileira lotado.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durande a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durante a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

A ideia é repetir a coisa toda, tim tim por tim tim. Só que ampliado. Com maior número e variedade de barraqueiros, quer dizer, de stands que é um linguajar mais adequado a um lugar distinto como aquele.

Pense num monte de produtores artesanais de ingredientes e quitutes deliciosos. Gente caprichosa e talentosa, apaixonada pelo que faz e que não abre mão de surpreender o paladar da gente.

Fawsia Borralho é uma dessas criaturas prendadas.

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Ela chegou a Sampaulo há beira trinta anos. Para se jogar no glamour suado e sem trégua da produção fashion. Mas nunca abriu mão dos dotes culinários para relaxar do azáfama de cria-corta-costura-produz-fotografa-exibe e trata de vender antes que mude a estação e os ventos da tendência soprem na direção de outro cria-corta-costura….

Com o tempo, seu hobby culinário especializou-se em conservas – melhor dizendo, compotas.  Preparava logo um estoque para abastecer a despensa – já que a moda que lhe garantia o ganha pão não permitia acesso diário ao fogão. Guloseimas deliciosamente criativas para consumo próprio.

Um dia, em vez da indefectível garrafa de vinho, arriscou levar para os anfitriões de um jantar, um desses potes de suas compotas. Nem um Romanée-Conti ensejaria tantas loas dos convivas. A partir daí cada novo convite vinha sempre sublinhado com um pedido de “traz uma compota”…

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Logo vieram as encomendas pagas e, hoje, Fawsia é uma quituteira de compotas que, aqui e ali, faz bicos no mundo da moda. Sou devoto dos produtos de sua A Compoteira já há coisa de dois anos. Da geleia de cebola roxa com vinho tinto aos tomates confitados com ervas e alho, passando por peras em suco de laranja com cardamomo e anis estrelado, damasco com fava de baunilha, morango com lavanda (e muito amor, como ela proclama)… Adoro tudo.

de A Compoteira: Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado, Cebola com vinho tipo e ervas, Tomate confitado com alho.

de A Compoteira:
Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado,
Cebola com vinho tipo e ervas,
Tomate confitado com alho.

Aqui e ali, ela conhecia um ou outro desses produtores gastronômicos devotados à excelência. E compartilhavam sua angústia comum: colocar seus produtos no mercado sem abrir mão da excelência artesanal.

Até que, um dia, Fawsia topou com jovens empreendedores que se entusiasmaram com a ideia de reunir algumas dezenas desses artesãos abnegados e oferecer a Sampaulo a oportunidade de consumir seus produtos pra lá de especiais. Nascia a feira Sabor Nacional.

Não pouparam arrojo na localização do seu novo negócio. A ampla varanda do palacete do Museu da Casa Brasileira e seu adorável quintal/jardim, no epicentro de uma das regiões mais nobres da cidade, cercado de gourmets exigentes. Ou seja, como professa o best-seller de autoajuda de Lair Ribeiro, o sucesso não ocorre por acaso.

Vejam algumas fotos que fiz na primeira edição, em julho. Não sei quais desses expositores estarão presentes no próximo fim-de-semana. Mas me disseram que a maioria confirmou presença. Sem contar o aumento de cinquenta por cento no número de feirantes. Todos amealhados no mesmo universo de produtores artesanais do bem comer.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Sítio do Alho Negro.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Alho Negro do Sítio.

O Alho Negro é alho comum (selecionado, claro!), que passa por um processo de fermentação muito usado no extremo oriente do mundo. Depois de algumas semanas em estufas controladas, a casca fica dourada e os dentes ficam pretinhos da silva, macios, perdem o ardor, ganham aroma mais delicado e um sabor complexo, levemente adocicado. Deixa de ser um ingrediente coadjuvante para assumir o protagonismo na preparação de pratos sofisticados. E, dizem, seus saudáveis benefícios são potencializados. Era raríssimo por aqui, mas virou febre a coisa de uns oito ou dez anos. De cobertura de pizza a composições mais intrincadas, não havia restaurante da moda que não o incluísse em seu cardápio. De lá pra cá, ficou mais fácil encontra-lo. Eu costumo recorrer ao empório Entreposto das Feijoadas, no subsolo do Mercado de Pinheiros. O de lá é produzido pelo mesmo Alho Negro do Sítio que vem, pessoalmente, vende-lo na feira Sabor Nacional. Gosto de imergi-lo em bom azeite morno por alguns minutos, antes de misturá-lo a uma massa recém-escorrida (até com nhoque fica ótimo). É o que basta para compor um prato que me delicia.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

A banqueteira Neka Menna Barreto foi uma das estrelas da primeira edição da Feira Sabor Nacional. Saí de lá com um pacote de sua farofa de amêndoas, que eu tentei regrar, suvina, mas que acabei detonando purinha, de colher em punho direto da embalagem, enquanto assistia a abertura das Olimpíadas do Rio. Não é à toa que tanto me encantou o espetáculo…

Já o Cambuci é uma fruta típica da Mata Atlântica. Dizem que era muito comum por aqui. Tem até um bairro, berço do movimento grafiteiro de Sampaulo, que se chama Cambuci. Ácida que só, mas deliciosa na composição de sucos, geleias e nas infusões alcoólicas. Tem uma marca de cachaça, a Angelina série A, envelhecida com concentrado da fruta, que não falta no meu congelador.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto Auá.

Pois o cambuci, até pouco tempo, meio que ninguém sabe, ninguém viu. Falavam de extinção. Daí descubro, na feira Sabor Nacional, que existe um Instituto Auá dedicado à recuperação da espécie. Reúne um grupo de pequenos produtores artesanais que preparam bebidas, geleias, chutneys e, até, um delicioso homus (a extraordinária pasta de grão de bico e gergelim cuja invenção é disputada por árabes e judeus) que leva cambuci – quem diria!

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

Tive uma avó, pernambucana, quituteira de mancheia. Seus bolos Souza Leão e de Rolo eram obras-primas. Meu paladar foi forjado intransigente nesses primores da doçaria recifense. Mas nunca havia visto um bolo de rolo que não fosse como o dela, espiralado, intercalando finíssimas camadas de pão-de-ló amanteigado e goiabada. De repente, na feira Sabor Nacional, descubro novas doceiras de Pernambuco, estabelecidas em Sampaulo com sua Casa do Bolo de Rolo, que ousaram interferir no formato ancestral do doce. Fizeram-no plano, e chamam-no de Naked Cake Bolo de Rolo. Sedutor que só! Produzem-no também do jeitão tradicional, em diferentes tamanhos. Não tem a leveza dos bolos de vovó Jandira, mas, aí, seria querer demais…

Ótimas - e criativas - as geleias da A Senhora das Especiarias.

Ótimas – e criativas – as geleias da A Senhora das Especiarias.

Adorei as geleias da Senhora das Especiarias. Principalmente a de Morango com chá Earl Grey (que é, mais do que meu chá predileto, um vício). A fruta se deu muito bem com o chá preto aromatizado com bergamota. O chutney de cebola, a geléia de manga com maracujá e, sobretudo, a de figo com grappa, também não fazem feio.

Uma tentação, os pães de Thiago, da Santiago Pães.

Uma tentação, os pães de Tiago Saraiva, da Santiago Pães.

De uns anos para cá, a panificação “gourmet” de Sampaulo deu um salto. Muitos padeiros com formação europeia se estabeleceram na cidade (Rafael Rosa, com sua Pão; Julice Vaz e sua Julice – esta, formada na American Bakery School de San Francisco; Izabel Pereira na sua Marie Madeleine; o próprio frei Bernardo, na Padaria do Mosteiro…). Um dos mais recentes deles, Tiago Saraiva estava lá, na feira Sabor Nacional do final de julho. Com algumas das fornadas primorosas de sua Santiago Pães. São tão bons que devorei um redondão apenas com azeite e sal, aquecido para exalar os aromas da fermentação natural. Talento e esmero criam coisas assim, deliciosas.

As surpreendências de Eduardo, da A Queijaria.

As surpreendências de Fernando Oliveira, da A Queijaria.

Hoje nem carece mais tecer loas à A Queijaria, estabelecida há alguns poucos anos na Vila Madalena. Fernando Oliveira, seu criador, antes rodou o Brasil, garimpando queijeiros excepcionais que nós nem desconfiávamos existir. Trouxe suas produções para revelá-los aos paulistanos. Com isso, tem prestado um serviço inestimável à queijaria nacional. E a nós, claro, glutões exigentes que somos. Sempre tem novidade por lá. Algumas delas eu conheci na sua banca da primeira feira Sabor Nacional. Este eu sei que vai estar lá de novo. Que bom, porque ele é imprescindível.

Ainda mais que, desta vez, vai dar um workshop de preparo de queijos.

Haviam ainda outros expositores. Dezenas deles. Inclusive com produtos hortifrutigranjeiros de produção artesanal.

Chocolates Derret (que não tem loja, mas entrega pedidos a domicílio), Charcuteria Cancian (de Tietê, no interior de São Paulo), Amorim Café (produtor mineiro de grãos extraordinários) e, até, um empório do Brás especializado em produtos nordestinos (que tinha massa puba – mandioca fermentada, matéria prima do bolo Souza Leão de minha avó Jandira – e belas mantas de carne de sol).

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Sem contar o food truck do celebrado chef Rodrigo Oliveira, o Mocotó Aqui (outro que sei que vai estar lá, de novo, no próximo fim-de-semana).

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Entre as novidades, Fawsia Borralho me adiantou que quem for ao Museu da Casa Brasileira, na sexta e no sábado, vai encontrar as pimentas e chutneys Spice Splice, os chocolates da Isidoro, a nova linha de doces da extraordinária chocolateria AMMA, as frutas exóticas da Banca do Juca – do Mercadão (celebrizada numa novela da Globo, lembra?), a Quirós Gourmet – que comercializa cortes especiais de cordeiro, os refrigerantes orgânicos e sem açúcar da Gloops, os cogumelos da Cogushi, o bochichado – e premiadíssimo – azeite brasileiro Borriello, a nova linha de sorvetes do Maní Manioca (cria recente de Helena Rizzo e Daniel Redondo)…

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Sem contar algumas surpresinhas como uma caprichosa bordadeira mineira e sua produção esmerada de panos de prato, uma linha de brinquedos pedagógicos de madeira, cestaria artesanal, banca de flores e o Tabuleiro das Meninas, famoso por preparar caldo de sururu, acarajé e tapioca nos eventos do cabeleireiro Mauro Freire.

Ou seja, eu lá sou louco de não me jogar numa celebração de prazeres dessas?

Nossas sacolas e nosso apetite hão de se cruzar por lá…

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Oásis de Donaire

Estou desembarcando em Sampaulo. Depois de dois – longos – meses ausente.
Já, já, retomo a publicação de posts inéditos no blog.
Com novas revelações das surpreendencias de minha cidade.
Enquanto isso, republico a matéria postada em 8 de novembro de 2015.

Para celebrar a Primavera, eu trago flores pra vocês, leitores:

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Dia desses me deparei com uma palavra diferente: donaire. Sabia que não me era inédita. Eu já tropeçara nela, algures (outra palavrinha rara). Acontece que o significado de algures me é intuitivamente óbvio: refere-se a um lugar impreciso.

Donaire era uma incógnita. Não a sabia sequer se desta língua. Aparentava coisa nobre, trejeitos empoados, perfumados, com pedigree afrancesado… Mas tanto podia fazer parte de vocabulário médico – aí valendo seja para patologia, seja para remédio (“estou com uma moleza, uma donaire que não passa…” Ou, “tome dois comprimidos de donaire, um após o almoço e outro após o jantar”) – quanto meteorológico, também aí passível de significar extremos: tormenta ou bonança (“a moça do tempo está prevendo donaire braba para este fim de semana”; ou “a viagem foi ótima, nenhuma nuvem, donaire da decolagem ao pouso”).

Donaire podia definir um fundamento de arte marcial, uma manobra náutica, uma ilha distante, uma peça de indumentária islâmica, ou seja, eu não fazia a menor ideia do que expressava. Sequer sabia a pronúncia correta. Se donaire mesmo, com á agudo, ou se donérre, caso fosse um galicismo.

Fui ao Aurélio aprender que donaire tem genética espanhola. Soube depois que, entre hispânicos, seu uso é corriqueiro. Significa um monte de coisas boas, agradáveis e prazenteiras. Donaire é gentileza, elegância, garbo, graça, adorno, enfeite, atavio.

Resumindo, a vida da gente ganha qualidade quando salpicada de donaire.

Oásis, por sua vez, todo mundo sabe o que é. Pode não conhecer pessoalmente, mas sabe do que se trata.

Sabendo o que significam oásis e donaire, concluí que canteiros floridos são oásis de donaire. Sampaulo mal conhece isso. Não é uma Curitiba, que tem até um Relógio de Flores. Ou a Brasília de quando lá morei, que ostentava um retorno, na saída do aeroporto, que gritava estridente: Bem-vindos à Holanda!

Aqui tem o jardim da Casa das Rosas, na Paulista. Mas apesar do endereço central e nobre, fica meio escondido…

Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Jardins protegidos pelos muros altos do Morumbi, Pacaembu ou Jardim Europa também não contam. Não são notórios.

parque-do-ipirangaO Parque da Independência diante do ora interditado Museu do Ipiranga, malgrado o morto e insepulto riacho histórico que flui a seus pés, tem o charme de jardim bem cuidado (Versailles paulistano é exagero!). Mas lhe falta o colorido das flores.

 

O sempre atulhado e ainda assim belo Ibirapuera – e os outros – também remetem mais a arremedo florestal do que a jardim floral.

Parque do Ibirapuera

Parque do Ibirapuera

Na falta de canteiros, nossos oásis de donaire são os floristas.

Ambulantes de rosas em sinais de trânsito não contam. Os buquês estão para as flores como a xepa está para as hortaliças em fim de feira.  São moribundas mal maquiadas.

Tampouco me refiro aos setores floristas de supermercados. O ambiente não lhes favorece. O território é das gôndolas. O habitat é das embalagens concebidas por marketeiros. As flores nos encantam pela sinceridade espontânea. Lírios e margaridas não conseguem se sentir à vontade nesse ambiente da sedução premeditada.

Os oásis paulistanos de donaire são as floriculturas. As vitrines de antúrios, de gérberas, de orquídeas, tulipas, crisântemos… As bancas de girassóis, copos-de-leite, violetas, helicônias, íris, gardênias…

Elas existem de todos os tamanhos. Da colossal Feira de Flores do CEAGESP – com 20 mil metros quadrados e mais de mil produtores, às terças e sextas, antes do sol dar as caras – até as bancas de feirinhas de bairro.

Feira das Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Feira das Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Para os não profissionais do ramo – ou não madrugadores – que buscam ampla variedade de opções e boa relação custo/benefício, existem dezenas de opções de garden centers. São como hipermercados de plantas e flores. Acho que por uma questão de logística, alguns dos maiores e melhores ficam na região do CEAGESP, na Vila Leopoldina. É o caso do Uemura e do Mil Plantas.

Uemura (acima) e MilPlantas (abaixo) Hipermercados de flores - inclusive raras e exóticas. De um tudo e algumas cositas mais

Uemura (acima) e MilPlantas (abaixo).
Hipermercados de flores – inclusive raras e exóticas. Além de vasos, insumos e ferramentas…
De um tudo e algumas cositas mais.

Sem contar os floricultores urbanos que produzem sob as linhas de transmissão de alta-tensão de energia.  Como os que cultivam a lateral da Avenida Morumbi, em seu trecho ainda Jardim Guedala. Atendem ali a clientela que pode circular com o pé na terra, entre os vasos e canteiros.

Para os exigentes – e abonados – que apostam na sofisticação criativa e no bom-gosto infalível dos melhores floristas, Sampaulo reúne artistas extraordinários na composição floral. Seja de singelos buquês ou de ambientação de grandes efemérides. Meus prediletos são o célebre Vic Meirelles (não pode ser coincidência o fato de que os eventos paulistanos cuja ambientação paisagística e floral me encantam a ponto de eu querer saber quem as criou, serem, invariavelmente, obra dele)…

Casamentos, buffet de festa e arranjos de mesa by Vi Meirelles

Casamentos, buffet de festa e arranjos de mesa esplendorosos. Tudo by Vi Meirelles

… e a talentosa equipe de Rosângela Duarte (que conheci na Rua da Consolação, mas mudou sua adoravelmente surpreendente floricultura Bem Me Quer para a Alameda Lorena). São ambos ótimos, requintados e caros.

 Floricultura Bem me Quer - um lugar encantado

Floricultura Bem me Quer – um lugar encantado.

Quando, entretanto, me sobra tempo e inspiração, prefiro eu mesmo arriscar combinações. Não domino a técnica e não disponho do arsenal de assessórios dos bons floristas, mas me seduz a ousadia amadora de tentar meus próprios arranjos. Seja para celebrar os amigos, para enviar-lhes em gratidão por uma acolhida agradável em suas casas ou para alegrar minha sala. Fica mais pessoal.

Essas horas, recorro às bancas de flores de rua, os oásis de donaire móres da cidade: as bancas do Largo do Arouche e os boxes da Avenida Doutor Arnaldo, ao longo do muro do Cemitério do Araçá, na vizinhança da Avenida Paulista. Ambos funcionam 24 horas, embora nem todos os boxes se mantenham abertos durante a madrugada.

O Arouche já viveu dias melhores. Nunca mais comprei lá, mas vira e torna revejo seu colorido como cenário dos meus sempre excelentes repastos no tradicionalíssimo restaurante francês La Casserole.

Os floristas da Avenida Doutor Arnaldo preservam a excelência. Com qualidade e variedade de opções. As bancas com espécies mais exóticas, raras e surpreendentes são a de número 18, das irmãs Ana e Marina, e a de número 11, de Cleide. A exclusividade é tão encantadora quanto dispendiosa. Mini antúrios roxos, lindos, delicados – e importados, custam 20 reais a unidade! Um buquê deles, faz as contas… Mas o preço das flores mais corriqueiras são bem em conta.

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo - dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo – dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Para quem gosta de flores enfeitando o dia-a-dia e não se sente seguro para compor os arranjos, sugiro os cursos rápidos. São prazerosa ocupação para um dia livre em Sampaulo. Na escola Wilma Kovesi, vira e torna Vic Meirelles em pessoa ensina técnica e ajuda os alunos a lapidar talento. A florista Fátima Casarini também oferece cursos em seu galpão atelier Ramo_Urbano, no Alto de Pinheiros. É só consultar a programação nos sites e, se der, aproveite.

Aulas de arranjos no atelier de Fátima Casarini

Aulas de arranjos no atelier de Fátima Casarini

Por fim, existem épocas em que o clima inviabiliza o cultivo de uma variedade maior de flores. Acima dos trinta graus, até buquês de noiva precisam ser mantidos em geladeira e mal suportam a duração da cerimônia de casamento. Nesses casos, desembarque do preconceito e conheça as maravilhas artificiais importadas do oriente. Só faltam fazer fotossíntese.

Um bom lugar para encontrar variedade e qualidade é a D’Baraldi. Em seu sortidíssimo stand de extraordinários exemplares da floricultura industrial chinesa, em plena Feira de Flores do CEAGESP. Ao circular por lá, duvida seus sentidos lhe ludibriem ao ponto de sentir os aromas, tão perfeitas são as peças.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

A D’Baraldi mantém, também, um tosco showroom, na Lapa, pertinho da Marginal do Tietê. É a opção “horário comercial” – ainda que acanhada – para conhecer seu estoque.

Produtos da D’Baraldi

Produtos da D’Baraldi

Eu falo, mas reconheço que tenho uma certa implicância com flores artificiais. Talvez porque eu seja do tempo em que as imitações eram grosseiras, de plástico. Na minha memória emocional – e estética – ocupam a mesma gaveta da jarra de Q-suco, da mobília de fórmica, do estofamento em napa e da roupa de tergal. Tudo exibindo afrontoso orgulho de ser sintético.

 Mesa by Rubi Pereira, com alfazemas da D'Baraldi

Mesa by Rubi Pereira, com alfazemas da D’Baraldi

A história, agora,
é outra. Deve ser por isso que Baraldi e sua filha e braço direito Fernanda evitam chamar suas flores
de artificias. Embora falsas, são tão naturalmente delicadas…. Mesmo duráveis, fingem com talento a sedutora fragilidade floral.

Os Baraldi preferem chamá-las de “permanentes”. Combina com o corre-corre de hoje em dia. Ficar trocando o conteúdo dos vasos exige tempo, não é barato e quer saber? Luxo, mesmo, é estar de bem com a vida e ser feliz.

E já que andamos questionando conceitos de breguice, se estiver de folga em Sampaulo, não titubeie em encarar um programa com fama de popular. Dê uma esticada até Holambra, a menos de duas horas da Avenida Faria Lima. Tá certo que na época do Festival da Primavera a coisa fica meio punk por lá. Mas flor, ali, não é um mero oásis de donaire. É oceano inteiro para se nadar de braçada.

Holanda? Não, Holambra!

Holanda? Não, Holambra!

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