Pizza & Blues

Rolou desventura, infortúnio, vicissitude? Está na merda, chorando revés? Perdeu o emprego? E ainda bateu o carro? Levou chifre, tomou pé na bunda? Faltou dinheiro para pagar o aluguel e não sobrou nem para o pão com ovo?

…..Nessas horas, o jeito é se jogar no Blues.

Tudo o que deixa a gente na pior nos lança no mood para o Blues.

Para versejar a lamentação num Blues, bem entendido. Em letras de uma “indigência” muitas vezes constrangedora, sexistas e violentas, com referências a vinganças sanguinolentas, tiros, facas…

Já a música vai muito além da auto piedade. É como se o ritmo – às vezes dolente, mas que costuma atingir altos remelexos de animação – funcionasse como catarse, destilando o sofrimento em foda-se; tipo um porre de redenção.

Destilar e porre são conceitos que vêm bem a calhar: quando essa extraordinária matriz musical americana nasceu, no final do século XIX, blue era gíria usada para discriminar bêbado.

Se bem que a imagem do desabrochar do Blues que alimenta o imaginário americano não tem relação direta com grogue. O cenário são as plantações de algodão dos estados do sul (escravocratas confederados na guerra da Secessão) – com epicentro no delta do rio Mississipi, arredores de Nova Orleans. Foram os negros da Louisiana, Texas, Arkansas, Missouri, Alabama, Georgia, Tennessee, Carolinas e adjacências (já forros, mas fodidos e mal pagos) que passavam a vida apregoando seu sofrimento em cantilenas intermináveis, enquanto colhiam o algodão de seus senhores, digo, agora, patrões.

À noite, nos bares dos alojamentos (olha o pileque aí), os versos que haviam feito mais sucesso no campo eram repetidos para folgança de todos. E ganhavam ritmos animados para que pudessem, já encharcados no álcool, rir e dançar de seu infortúnio.

Embora o Blues não me fosse completamente desconhecido, nunca havia atentado para a relevância – essencial e imprescindível – do ritmo. Em meu favor, o argumento de que meu talento musical se restringe à plateia. Nem palmas eu consigo bater no ritmo…

Foi depois de uma temporada em New Orleans, caminhando  todas as noites nas imediações da Bourbon Street, pelo French Quarter, batendo ponto no Preservation Hall e no House of Blues – ou ouvindo o que emanava de qualquer biboca por mais espelunca que fosse – que meus pés passaram a bater compulsória e compassadamente, ao reconhecer um good old blues. E olha que foi só uma semaninha, há coisa de vinte anos!

Blues (e Jazz, e Soul) não param em New Orleans.
Seja no House of Blues, no Preservation Hall (à esquerda)
ou nas ruas mesmo, anywhere and everywhere.

Mesmo zero à esquerda que sou, passei a reconhecer a batida bluesística nas canções de algumas de minhas divindades rockeiras, particularmente em Jim Morrissey, digo, The Doors; e – só para citar alguns rock stars com lugar cativo em meu altar – Elvis Presley, ZZ Top, Joe Cocker, The White Stripes (resgatando velhos standards pra a vanguarda da vanguarda), Cream (Eric Clapton sempre foi blueseiro de carteirinha), Stevie Ray Vaughan (dá-lhe gaita afinada!), Credence Clearwater Revival, Santana (Blues for Salvador é guitar in it’s best), Deep Purple, Led Zeppelin (e, clarevidentemente Jimmy Page), Fleetwood Mac, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grateful Dead, Jethro Tull…

E, de repente, agora no final de 2016, ficamos sabendo que ninguém menos do que os Rolling Stones acabaram de lançar um novo disco: o ótimo Blue & Lonesome. Em comemoração aos cinquenta e cinco anos de um encontro fortuito de adolescentes que não se conheciam – Mick Jagger e Keith Richards – numa estação de trens londrina. Um atraindo a atenção do outro pelos discos que levavam: LPs de Blues, de Muddy Waters e Chuck Berry. Naqueles dias, era o que lhes monopolizava a emoção. “Foi essa a razão para montarmos uma banda”, reconhece Jagger; confessando que “sempre fomos devotos do Blues”.

O fato é que o Blues está no DNA do Rock&Roll. E também do Jazz. Embora eu ache que Rock e Blues sejam ritmos musicais (como samba, bolero, fado ou cha-cha-chá…), enquanto Jazz, bem… Jazz é uma categoria de Arte. Tipo a Pintura de Klimt, a Literatura de Guimarães Rosa, a Dança do Grupo Corpo, o cinema de Ken Loach, a Arquitetura de Lina Bo Bardi, o teatro de Shakespeare, a escultura de Ligia Clark, a música de Mozart… E o Jazz (de Miles Davis, Charles Parker, Billie Holliday, John Coltrane, Thelonius Monk, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Nina Simone, Django Reinhardt, Michel Legrand, Stéphane Grappelli …).

Em “Três Músicos”, Picasso retrata os ritmos negros norte-americanos
chegando a Paris, no início do século XX

Sampaulo não é Nova Orleans, com Blues – e Jazz – sendo dedilhado, soprado e solfejado a cada esquina. E isso só não é ruim, porque aqui também rola chorinho, rap, tango, samba, forró, flamenco, xote…
Mas o Brasil já teve – e tem – bons bluezeiros. Do pioneiro Celso Blues Boy aos Blues Etílicos. Passando por André Cristovam, Nuno Mindelis, Igor Prado, a gaita virtuosa de Maurício Einhorn e de seu discípulo Sérgio Duarte, o impagável showman Paulo Meyer e seus inseparáveis Thunderheads…

Alguns deles batem ponto com frequência – além da ótima banda da casa – na surpreendente C. C. Rider, um bar de Blues que, há ano e meio, anima as noites da Moóca.

(Moóca? De novo, toda hora?).

Mas antes de nos tocarmos para lá, vamos cuidar da pança que a alma se diverte melhor quando o corpo está repimpado.

E vamos de pizza!

Não uma redonda qualquer. Vamos nos jogar em uma das melhores pizzarias de Sampaulo.

A Pizza da Moóca fica no último quarteirão – antes da avenida Paes de Barros – da rua Guaimbé (já palmilhada por este “Sampaulo de Lá pra Cá” em tantos posts recentes que até já perdi a conta).

Antes de largarmos de mão o logradouro, vamos dar uma última e saborosa paradinha para conhecer as ótimas coberturas das massas (preparadas com as finississíssimas farinhas de trigo 00 trazidas de Nápoles (sabe a terra natal da pizza?). Redondas não tão delgadas que pareçam pão pita; mais para grossas, bordas consistentes (mas a qualidade da massa compensa,). Não empanturra nossa compostura .

São assadas no forno que reina, soberano, nos fundos da pequena e acolhedora Pizza da Moóca.

O lugar fica na fronteira do alternativo, mas do lado de cá do charmoso.

O serviço? Bem… Não chega a estragar o bom-humor, mas tropeça na displicência blasé que é um jeito de fazer de conta que não é amador. Para usar uma linguagem mais de acordo com os garçons com jeitão de estudantes fazendo bico para pagar a faculdade, é descolado.

Entre eles, entretanto, chama a atenção o entusiasmo de Elmond, um jovem migrante haitiano que fugiu das catástrofes naturais, sociais, políticas e econômicas de sua ilha caribenha natal para fazer a vida no Brasil. Em poucos anos, já trouxe a mulher e constrói sua família aqui, com uma garra rara de se ver. Até o seu desembaraço com a nova língua, em tão pouco tempo, pasma.

Sou avesso à xenofobia. O acolhimento a migrantes, particularmente aos que lutam com unhas e dentes pela sobrevivência, não é apenas uma ação humanitária moralmente obrigatória. A garra que o padecimento atiça nesses pelejadores faz deles, também, agentes econômicos preciosos. Trabalham, aguerridos, pelo direito à vida. *

Essas horas eu entendo – e apoio – a perspectiva pragmática de Angela Merkel…

Por falar em imigrantes, vamos voltar a eles. Só que aos italianos que fizeram a pujança de Sampaulo nas fábricas que já fervilharam na Moóca (onde estamos), povoaram o bairro e trouxeram para cá a pizza (nas quais estamos em vias de cair de boca).

Antes, que tal abrir o apetite com um dos coquetéis da Pizza da Moóca, à base de Disaronno? É amaretto, um licor italiano que é pura amêndoa e é para lá de clássico – seus fabricantes garantem obedecer uma receita original de quando a língua dominante, por aqui, ainda era o tupi. E tem o condão de me fazer criança. Quando eu me entendi, o nome no rótulo era Amaretto di Saronno, ou seja, da cidade lombarda de Saronno, colada acima de Milão. Não faço a menor ideia se a decisão de mexer no nome foi judicial ou marqueteira. Detalhe: amêndoa, que é bom, não passa nem perto de sua fórmula! Para mim, foi tipo descobrir que papai noel não existe…

O fato é que preparam dois coquetéis com Disaronno na Pizza da Moóca: o Mojito Italiano (com rum, limão e hortelã, como qualquer mojito; só que o limão é siciliano, acrescentam uma lapada de prosecco e temperam com o amaretto; italianizou, è vero!) e o Lila Sour (com suco de laranja, limão, amaretto e uma cereja pra sofisticar). Valem – para mim, at least – pelo aroma sutil de amêndoas que me remete à infância.

Mojito Italiano e Mila Sour
ambos levam o licor Disaronno em sua fórmula

Para acompanhar os drinks, como abre-alas para as pizzas, as opções são:

Corniccione: massa de pizza fininha, assada até ficar crocante, sutil e sabiamente temperada com ervas e um salzinho encantador.

Crocche Napolitano: meia dúzia de bolinhos, de batata, recheado com pancetta (mas que prometem mais do que cumprem).

Tre Foccace: essas sim, três tiras deliciosas. Olha só o que o tal do trigo 00 proporciona na construção da base perfeita, macia, aerada, mas densa, casca crocante e coberturas bem diferentes. Todas três adoráveis: numa, a simplicidade do salgrosso aromatizado com alecrim se valendo da excelência da massa; noutra, a fatia fina de abobrinha com ricota e manjericão cheia de personalidade a um tempo discreta e estilosa; na terceira, os gritos e sussurros do ótimo cardume de alicci em leito de molho de tomates bem apurado. Surpreendente.

Agora surpreendentes, mesmo, são as pizzas. Como são boas!

Dividem-se em duas categorias: as “vermelhas”, onde quem manda no molho é o tomate; e as “brancas”, onde quem dá o tom é o molho bechamel. Qual é a importância desse detalhe? É que, no caso de mezzo una, mezzo altra, não juntam metade branca com metade vermelha…

Entre as rubras, costumo juntar a simplicidade da Margherita (ou sua versão puxada no alho, a Napolitana) e a picância – nem tão ardida assim – da Diavola (com linguiça diavoletta e pimenta jalapeño).

Já entre as alvas, sou fã da invenção do célebre chef inglês Gordon Ramsay (com gorgonzola e cebola caramelizada) e a bem resolvida Carbonara (com pancetta, parmesão e ovo mole).

Para molhar a goela, como virei fã de cerveja com o advento das “artesanais” – já que poucos líquidos são tão intragáveis quanto as “louras” tradicionais industriais (nem a Heikenen se salva mais…), costumo ir de Jupiter 10 Lúpulos, uma Indian Pale Ale extraordinária, encorpada, produzida pela cervejaria paulistana.

A boa cerveja Jupiter e o vinho Aparados são opções de o que beber
para acompanhar as ótimas pizzas

Mas como muita gente não consegue encarar uma pizza sem vinho, a Pizza da Moóca oferece a boa relação custo/benefício do cabernet sauvignon Aparados, da vinícola catarinense Villa Francioni. Mas controle a expectativa…

Dá para encarar sobremesa?

Então não caia na tentação pelos Canolli. A massa é pesada e o recheio é sem graça. De siciliano só tem a pretensão.

Embora tosco, o Calzonino de Nutella (com sorvete de leite e amêndoas) é mais palatável para quem precisa cair na glicose para alcançar a felicidade. Mas que é over, isso é.

Devidamente saciados, vamos desempanturrar numa curta caminhada de menos de três quarteirões (é descida e todo santo dá uma mãozinha) até o C. C. Rider, na rua Jumana. O Blues nos aguarda.

Porque C. C. Rider? É o título de um Blues celebrizado por Elvis Presley. Se você ouvir, vai lembrar. O “C. C.” significa “See See”. Americano sempre abusou dessas onomatopeias com letras. A garotada brasileira – e os nem tão meninos assim – também mergulharam fundo nesse vício de linguagem (que é prático, é) com a internet, particularmente depois do zap, digo, whatsapp.

Ou seja: o nome do bar, o título do blues – e seu refrão – significam “Veja, Veja, Cavaleiro”.

Que, como dá para ver na marca, foca em Blues e cerveja.

Recebe-nos, na esquina da rua Jumana com a rua Bernini Rosário Mônaco, um portentoso lustre de cristal. Mas não se intimide. A casa não é metida e o ambiente é bem informal. Mais pra lotado, com eventual espera na porta e tudo.

Embora role Blues dos bons e ao vivo todas as noites, descobri que a clientela – há exceções – não é exatamente blueseira. Começa que tem de tudo, de criança a idoso. A maioria é jovem, focada na azaração e tal. Mais tem quem leve filho, avô… Por mim, beleza. Não sou mesmo chegado em gueto.

São moóquenses que vão lá porque o lugar é “decente”, classudo, com jeitão de Jardins (ou, at least, Moema) na Moóca. E o Blues, se não é a isca que os arrasta, faz boa trilha sonora para a noitada.
Muitos nem se incomodam de se acomodar no andar de cima, arredado do show e perto das mesas de bilhar.

Embaixo, a cintilância mais esfuziante fica por conta do balcão, prodigioso, sólido em sua combinação de madeira nobre, tampo de granito, muito metal dourado (as torneiras de chope são uma sedução), zilhões de rótulos coloridos, copos luzidios e um ou outro adereço atraente, como a iconografia do Juventus, o time da paixão moóquense.

Se você não comeu antes – e só nesse caso – pense em encarar a cozinha do bar. Comete mais equívocos do que acertos.

O Jambalaya – prato típico créole, muito popular no baixo Mississipi (e, por isso mesmo, tudo a ver com o Blues) – é um mal-entendido sem tamanho. A mistura é abusada: tipo um risoto com camarão, linguiça e frango. O que dá a liga é um tempero peculiar que eles chamam de cajun. Já comi jambalayas de lamber os beiços. O do C. C. Rider é uma gororoba sem eira nem beira. As costelinhas de porco também deixam – muito – a desejar.

Se gostar de ardências – fortes – entre um gole e outro,
eles servem porções de pimenta jalapeño recheadas com cream-cheese antes de empanar. Falta sal, mas é legal. Só que tem de gostar de picâncias intensas.

Quer saber? Vá de burguer. Se, por um lado, não sobem ao pódio dos melhores da cidade, tampouco são eliminados de saída. Sugiro dois: o Monster Truck – que parece maior do que de fato é, embora seja avantajado, com bacon e onion rings (embora eu, se fosse você, pediria sem o molho barbecue meia-boca e o queijo prato de quinta) ou o Tex Mex, o melhor deles, com chili e sour-cream (sem o queijo, lembra? Eu peço para acrescentar bacon). A carne é farta e boa e isso é o que mais importa em se tratando de burguers. Mas, atenção, se você gosta de queijo gorgonzola – blue cheese em lugares americanistas como aqui, nem assim vá de Blues Cheese Burguer. O queijo mandou lembranças, mas o mensageiro não chegou a tempo; e o molho, ó, neca daquele gostinho peculiar de gorgonzola.

Eu recomendei… Passe pela Pizza da Moóca antes…

Já para beber, a história é outra.

Então vamos ao que nos trouxe até aqui: Blues & Beer.

As cervejas são, de fato, a melhor opção etílica do C. C. Rider. O cardápio dedicado a elas é recheado de obras-primas. Engarrafadas ou saídas das torneiras douradas do bar. Brasileiras nativas ou passadas pela alfândega.

Já experimentei dois coquetéis da casa e decidi não arriscar mais. Não pagam a pena. Um deles, leva o nome da casa (feito com tangerina, Jack Daniel’s Honey  – ô bebidinha mais exquisita – e gelo de água de coco). O outro, uma caipirinha de limão siciliano, uva e manjericão. Em ambos, os ingredientes parecem que entraram no copo para uma rinha, não para uma festa. É só desavença.

Já as cervejas… Quanta iguaria…

A começar pelo chope de uma de minhas Indian Pale Ales prediletas, a “Schornstein” – sou devoto das IPAs e esta, produzida aqui no estado de São Paulo, em Holambra, é perfeita. Eles a vendem também em garrafa.

Como outra IPA deliciosa, a Revenge, também paulista, só que da cidade de Socorro e a American IPA (preparada com lúpulos aromáticos norte-americanos) 6 o’Clock, fruto da parceria entre as cervejarias Invicta (outra daqui de São Paulo, mas de Ribeirão Preto – que tem tradição cervejeira) e Sixpoint (dos Estados Unidos).

As IPAs Revenge e 6 o’Clock
são apenas dois rótulos de um vasto cardápio primoroso.
E alguns chopes difíceis de encontrar por aí,
como o ótimo IPA Shornstein, juntam-se ao Blues
para fazer a festa dos frequentadores do C.C.Rider.

As grandes canecas e tulipas (meio litro!) nas mãos do povo, entretanto, incitam ao chope e à pândega.

Para encerrar, back to the beginning: o Blues.

Eu sei, você sabe, todo mundo está careca de saber que a cultura brasileira
é pródiga em grandes músicos. Músicos de Blues, inclusive.

Os melhores entre eles são arroz de festa no C. C. Rider. A começar pela ótima banda da casa; à frente o vocalista Ivan Marcio que também se vira legal na gaita.

C. C. Rider Band

Além de outros gaitistas cantores do primeiro time, como Sérgio Duarte (sempre acompanhado de seu filho – uma revelação extraordinária de guitarrista). E o cativante showman Paulo Meyer com sua animada banda The Thunderhead.

Sérgio Duarte e, à esquerda, seu filho revelação, Leonardo.
Embaixo, Paulo Meyer, o maior showman do Blues brasileiro, com sua banda Thunderhead.

Além do Spitfire Trio (Ricardo Mourão, Je Lima e Caio Dohogne), o guitarrista Marcelo Watanabe, o tecladista Adriano Grineberg, a banda Cosa Nostra, Vasco Faé, o Tritono Blues (Bruno Sant’anna, André Carlini e André Yous), a gaita surpreendente de Nicola Sena…

Só fera!

Mas precisava cuidar melhor da “moldura”, porque a música é sempre primorosa. Não existe palco, os artistas ficam no mesmo nível da mesa (bastava um tablado palmo e meio mais elevado…), escamoteados debaixo da escada e sem iluminação minimamente adequada. A qualidade do som é muito boa, ou seja, cuidaram do essencial, mas há detalhes que não são irrelevantes, pelo contrário.

Que isso justifique a baixa qualidade de minhas fotos dos shows. Até porque só fotógrafos profissionais, munidos de equipamentos de ponta, conseguem bem registrar o performance dos artistas. Câmeras com melhor desempenho do que o provido pela apple a seus iphones (e mais competência do que a que me foi aquinhoada pelo deus da fotografia). Enquanto isso, o salão, as mesas, a plateia iluminadaços. Pode, Arnaldo?

Felizmente, mais recentemente, as noitadas da casa passaram a ser registradas pelo craque Marcelo Crelece, da Emmy Photografia. Muitas fotos deste post são dele (as melhores). Particularmente as dos músicos. São publicadas no facebook do bar. Pela excelência desse trabalho, justificam per se uma visita à página. Quer ver?

* É inspirador visitar a Missão Paz, da Igreja Católica, no bairro do Glicério (pertinho da Praça da Sé, do bairro da Liberdade…). Eles cuidam do acolhimento, socorro e capacitação profissional de imigrantes. Com aulas de português – para árabes, africanos, haitianos… – e de formação para o trabalho. Às quarta-feiras é possível visitar o projeto e, até, conversar com centenas de clientes que frequentam ou estão alojados lá.
Quer conhecer? www.missaonspaz.org

BÔNUS

Lá nos primórdios da TV a cabo nos Estados Unidos, um canal promoveu um encontro de notáveis do Blues, sob o comando de ninguém menos do que B. B. King (a quem eu – thank’s God – vi, ao vivo, várias vezes). Virou programa e foi ao ar no final da década de oitenta. Olha só o elenco: Paul Butterfield, Eric Clapton, Phil Collins, Dr. John (que eu assisti a nem faz tanto tempo assim em Sampaulo), Etta James (vi em New York, pouco tempo depois dessa gravação), Chaka Khan, Albert King, Gladys Knight (esta eu vi em New Orleans, num tipo circo coberto por lona e tudo), Billy Ocean, Stevie Ray Vaughan… É mole?
Reparem na “conversa” entre as guitarras de B. B. King e Eric Clapton. E de B. B. King com Steve Ray Vaughan. No dueto de Etta James e Dr. John em “I’d Rather be Blind”. E Billy Ocean – eu nunca havia atentado para essa voz…(“… whem something is wrong with my baby, something is wrong with me…)! As três ladies cantando a capella. E o encontro de vozes e guitarras de Stevie Ray Vaughan e Albert King, intermediado pela gaita de Paul Butterfield. O elenco inteiro fazendo um “Midnight Hour” memorável. De-MAIS!
Um pitéu delicioso, único!
Um registro extraordinário, produzido e dirigido por Ken Ehrlich, uma lenda estadunidense da TV e dos grandes espetáculos.
“Let the Good Time Roll”…
Para vocês, na íntegra:

 

 

Banquete italiano

Tem gente que adora trocadilhos. Não eu.

Ler e escrever são minhas grandes paixões. Desde menino. Me deleita navegar pelos igarapés da linguagem. Percorrer sua riqueza (como é pródiga, minha língua) e desafiar os dogmas que o academicismo senilizado lhe impõe. Mas sem lhe faltar com o respeito. Sem amesquinhar ou afrontar a língua a ponto de lhe embargar a missão de vaso comunicante, seu mister de passar adiante. Fatos, ideias, emoções ou sentimentos. Com fluidez e acuidade.

É como que uma religião. Sou devoto da língua. Me inspiram seus sacerdotes: Guimarães Rosa (“eu quase que não sei nada, mas desconfio de muita coisa”), Paulo Leminski (“repara bem no que não digo”), Machado de Assis (“há coisas que melhor se dizem calando”), Noel Rosa (“quem acha vive se perdendo”), Clarice Lispector (‘já que sou, o jeito é ser”), Manoel de Barros (“aonde eu não estou as palavras me acham”) …

E o trocadilho, via de regra – há exceções – é uma imprecação contra a língua, uma heresia. Tanto que trocadilho infame, para mim, é pleonasmo.

Quer ver?

“O caixa dá o saldo, o tomate dá o extrato”, “foice o tempo em que eu usava machado”, “você não é boné, mas não sai da minha cabeça”, “eu gosto de uva, a Camila Pitanga”, “se eu sou bom partido, imagina inteiro!”…

Alguns, de tão tolos descambam para a comicidade dos parvos. Tipo filmes abusadamente trash que viram cult.mix 4

Como marqueteiro, considero trocadilho em propaganda de uma ineficiência exemplar.

FONTE: DESENBLOGUE.COM

FONTE: DESENBLOGUE.COM

Ou vocês acham que este slogan, de uma padaria aqui de Sampaulo, trabalha a favor do negócio: “tudo do pão e do melhor”? Ou este outro, de uma imobiliária: “a hora é Esser”? O dono – o Sr. Esser – só pode ser estrangeiro. É comum considerarmos os trocadilhos em língua alheia melhor do que de fato são.

Como o nome de uma lanchonete pertinho da casa em que estive hospedado, nos Estados Unidos, cujo nome era “Lettuce Eat Toguether”. E, quando morava em Genebra, ri muito de um diálogo em que uma mulher diz a um homem: “Il me faut 5.000 francs”! Ele retruca: “Par mois?” E ela: “Par vous ou par un autre”…

Raros, raríssimos são os de fato trocadalhos (trocadilhos que, de tão bons, são “do caralho!”).

Como marca, então, só lembro de um: EATALY.

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Um trocadilho em inglês, que é a língua cada vez mais universal, como bem sacou Oscar Farinetti. Mas, vem cá, quem é Oscar Farinetti?

Primeiro o trocadilho Depois falamos do cara.

Eataly se pronuncia, em inglês, exatamente como Italy (que é como chamam a Itália, in english). E eat quer dizer comer. Ou seja: somos induzidos a “comer a Itália”. Ô coisa boa!

festa_achiropita aJá faz tempo que o mundo aprendeu a se jogar com apetite na comida italiana. Macarrão (e seus molhos, do bolonhesa ao putanesca, do carbonara ao pesto, sugo, matriciana, ragu de tudo quanto é tipo…), pizza, nhoque, lasanha, risoto, bruscheta, salada caprese, almôndega (elas chamam de polpeta), salame, caponata, peixe escabeche, braciola, bresaola, parmesão, gorgonzola, escalope a la saltimboca, cotechino, porcheta, bife à parmeggiana, panettone….
E as sobremesas? Pastiera, zabaglione, canollo, tiramissù…
Os vinhos, valha-me Deus…. Do prosaico Chianti aos Brunellos mais exclusivos. E o limoncello, o amaretto, a grappa? Sem contar o café expresso e os ingredientes, do aceto balsâmico às trufas. Eu falei do jeito italiano de assar ótimos pães?

A Itália é de comer! Essa foi a sacada de Oscar Farinetti.

Italiano de Alba (ahhh, as trufas…), sua famiglia havia vendido, por uma boa grana (em libras esterlinas!), a rede de supermercados fundada por seu pai. Havia dinheiro em caixa. O cara, esperto, juntou a vontade global de comer a Itália com sua fome por acertar na mosca, digo, por investir e multiplicar.

Deu no que deu. E onde é que deu? Deu no New York Times, na Forbes… Só elogios. O cara acertou aquele gol que Pelé errou na Copa de 70. Chutou lá do outro lado do campo. E saiu goleando, emplacando shopping centers de comida italiana pelo mundo. Já beiram trinta. Metade em casa. Nove no Japão! E o restante nos Estados Unidos, Emirados Árabes, Turquia…. Londres, Paris, Munique e Moscou estão a caminho. Vai chegar lá depois de se aboletar na avenida Juscelino Kubtschek, aqui em Sampaulo, onde está celebrando seu primeiro aniversário esta semana. Tudo isso, pasmem, aconteceu em menos de dez anos!

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Mas o que, catso, tem o EATALY de tão especial (além daquele impacto, quando a gente entra, de mercadão requintado – tem seu preço…, farto de atrações gastronômicas, confortável e bem ambientado)?

Para começar, tem qualidade de produtos.

Chocolates piemonteses (onde se colhem as melhores avelãs do mundo). Temperos. Azeite em belas embalagem de cerâmica, Geleias orgânicas ou adoçadas com açúcares da própria fruta, Creme de Pistache e de Avelã, lindas latinhas das populares balas Leone (esta, da foto, promete “aliviar a sede”, Aceto Balsâmico envelhecido.... Alguns dos milhares de produtos à venda nas gôndolas do EATALY.

Chocolates piemonteses (onde se colhem as melhores avelãs do mundo).
Temperos.
Azeite em belas embalagem de cerâmica,
Geleias orgânicas ou adoçadas com açúcares da própria fruta,
Creme de Pistache e de Avelã,
lindas latinhas das populares (na Itália) balas Leone – esta, da foto, promete “aliviar a sede”,
Aceto Balsâmico envelhecido….
Alguns dos milhares de produtos à venda nas gôndolas do EATALY.

Focado na produção gastronômica italiana, mas com uma colher de chá para alguns achados nativos muito especiais. Como os lindos paneirinhos da ótima farinha d’água do Pará – distribuídos pela Bombay, os arrozes extraordinários colhidos pela Ruzene no Vale do Paraíba e os queijos da Fazenda Santa Luzia (do Alto-Paranapanema paulista) e do Capril do Bosque (da Serra da Mantiqueira).

Alguns - poucos - produtos brasileiros de excelência dividem as gôndolas com os italianos

Alguns – poucos – produtos brasileiros de excelência dividem as gôndolas com os italianos

E tem marketing. Particularmente no quesito saber auscultar a expectativa do consumidor na formação do estoque à venda e do que é servido nas lanchonetes e restaurantes.

Funciona muito bem no que oferecem as gôndolas da mercearia, as bancas de frutas e verduras…

Frutas, legumes e verduras são selecionados. Com boa oferta de folhas já higienizados. Repare que a sinalização é feita, quase sempre, em belos letreiros e em italiano.

Frutas, legumes e verduras são selecionados. Com boa oferta de folhas já higienizados.
Repare que a sinalização é feita, quase sempre, em belos letreiros e em italiano.

… da padaria, cujos padeiros trabalham à vista dos compradores, preparando um bom pão rústico (adoro o que é feito com figo e castanhas) e foccacias surpreendentes. Gosto das cobertas com julienne de pimentões coloridos e uvas passa. E também da de linguiça em rodelas e cebola caramelada; são como que pizzas toscas, preparadas sobre massa de pão que lembra o ciabatta, vendidas cortadas em quadrados que podem ser aquecidos e comidos lá mesmo, Ou levados para casa. Quando as trago comigo, esquento o forninho no máximo, coloco a foccacia lá dentro e abaixo o forno até o mínimo. E exercito a paciência por uns dez, doze minutos antes de me jogar nelas.Nem pense em usar micro-ondas (emborracha a massa). Atualmente, são minha companhia preferencial para uma cerveja….

Os padeiros amassam, cortam e assam - diante da gente - bons pães e foccacias.

Os padeiros amassam, cortam e assam – diante da gente – bons pães e foccacias.

… da extraordinária variedade de massas (o macarrão, claro, não podia faltar, farto – ou eu não me chamo Itália); tanto as de algumas das melhores indústrias italianas…

Macarrão tradicional, integral, sem glúten... Flavorizado com nero de sépia, com azeitona, com funghi porcini, com açafrão... Especial para este ou aquele molho... Formatos exóticos...

Macarrão tradicional, integral, sem glúten…
Flavorizado com nero de sépia, com azeitona, com funghi porcini, com açafrão…
Especial para este ou aquele molho… Formatos exóticos…

… quanto as artesanais, frescas, preparadas no pastifício da própria EATALY…

Massa fresca, feita em casa, digo, em pastifício próprio

Massa fresca, feita em casa, digo, em pastifício próprio

… dos atraentes açougue, peixaria e charcuteria…

Qualidade e variedade nos bem ambientados nichos de carnes, peixes e embutidos

Qualidade e variedade nos bem ambientados nichos de carnes, peixes e embutidos

… da queijaria, onde brilham as estrelas italianas (parmesão, pecorino, gorgonzola, burrata…) e, até, uma pequena produção artesanal de mozzarella…

Queijeiros preparam mozzarella fresquina. Que vai se juntar, na loja, aos excelentes queijos italianos do EATALY

Queijeiros preparam mozzarella fresquinha. Que vai se juntar, na loja, aos excelentes queijos italianos do EATALY

… da área de bebidas alcoólicas, com grande variedade de rótulos – de cervejas de variada procedência e de ótimos vinhos italianos, além de licores e dos aguardentes destilados nacionais (o italiano, de uva -a grappa – e o brasileiro, de cana, a cachaça, entre os quais a excelente Serra Limpa)…

O setor de álcoois oferece um lounge para apreciar, ali mesmo, cervejas e vinhos.

O setor de álcoois oferece um lounge para apreciar, ali mesmo, cervejas e vinhos.

… e nos nichos de águas e soft-drinks, sucos, sorvetes, confeitaria, café… E, até, um espaço dedicado à Nutella!

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A confeitaria é, de tudo, o que fica de fato devendo…. Doces atraentes aos olhos, mas de paladar meia boca que só. A exceção, de tudo o que já provei lá (inclusive zabaglione, tiramissù, tortinhas e chocolatices) foram os ótimos cannoli.

Além de tudo isso, a EATALY vende equipamentos e utensílios de cozinha de marcas italianas que capricham no design, livros de cozinha e artigos de toucador (tipo sabonetes, cremes, colônias…).

E tem a Scuola…

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Uma salinha de aula que oferece uma agenda variada de cursos de gastronomia. Embora diminuta (com capacidade para dezoito alunos), alguns são bem interessantes. Neste mês de maio, por exemplo, acontece – entre muitos outros – um curso sobre comida típica de boteco (empadinhas, croquetes…), com a ótima chef Ana Luiza Trajano, do restaurante Brasil a Gosto. Há algum tempo, o filho de um casal de queridos amigos cariocas de bota décadas nisso, que está bombando no Rio de Janeiro com um atelier de brownies que já deu até capa de jornal – tamanho o sucesso, veio dar uma aula sobre sua deliciosa guloseima, o Brownie do Luiz.

Assim como os doces da confeitaria, tampouco me encantaram os restaurantes especializados, um para cada segmento: Carnes (sabe fast food? Muito volume para permitir capricho…), Massa (aqui, prefira as pizzas, bem acima da média dos outros pratos de massa), Peixes, Risoto, Saladas, Lanches e Petiscos…. Mas qualidade duvidosa é normal, para quem se orienta  pela expectativa dos consumidores. O “mercado” brasileiro de comida pronta não é exigente. Se não, como explicar o sucesso não só de intragáveis Macs e Subways, mas de muitos restaurantes metidos a besta com panca de fino e nome francês na porta?

Nem comi muita coisa nesses não mais que fast-foods bem ambientados. Mas já deu para sentir qual é…

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O especializado em carnes já me serviu, de entrada, um Vitello Tonnato que, fosse a primeira vez que eu tivesse experimentado essa carne com atum, não entenderia porque o prato é tão popular na Itália. A vitela assada, cortada fininho como um carpaccio, chegou “decorada” por um molho de atum meia boca que só. Compondo um todo absolutamente sem graça. Um pouco melhor, a linguiça com compota de maçãs… E a saladinha valeu pelo sempre bom queijo de cabra.

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De principal, o Ossobuco estava macio, vá lá, mas envolto em molho “qualquer nota” que lhe roubava qualquer relevância. Não bastasse, jogaram umas alcaparras por cima. Sei que usam alcaparra, na Itália, para preparar esta carne que cerca o osso da canela traseira do bovino. Mas preparar não é espalhar meia dúzia delas sobre o prato pronto! Nem as folhas que cobrem o prato se salvam. Tão sem gosto o agriãozinho miúdo… Logo ele, normalmente tão cheio de ardida personalidade. Salvou-se o tutano, escondido e resguardado da falta de expertise culinário da cozinha. Espalhei sua gordura no pão, salpiquei sal e aliviei um tiquinho a contrariedade.

Tampouco me satisfez o Agnello. Prometeram um carneiro marinado com tomilho e assado lentamente. Serviram algumas lascas de carne, também macia, vá lá, mas que marinada é essa que não lhe proporciona o menor appeal? Aqui, em vez de alcaparras, rodelas de azeitona e, no lugar de agrião, rúcula.

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Salvou-se a polenta, que pedi como complemento. Ahhhh…. E o interessante guaraná IMG_5664 aorgânico Wewí, com zero sódio e sem conservantes. Os refrigerantes vendidos no EATALY são todos assim, alternativos.

 

Já o restaurante de Massas e Pizza…

O pizzaiolo usa farina e pomodoro de Napoli para preparar as pizzas do restaurante de Massas

O pizzaiolo usa farina e pomodoro de Napoli para preparar as pizzas do restaurante de Massas

Vale pelas entradas, a boa Burrata  e a esfuziante La Stella – triângulos de massa de pizza assada, besuntados com molho de tomate, cobertos por salada de rúcula, tomate cereja e parmesão, compondo uma que alegoria de escola de samba.

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A pizza (com cobertura de mozzarella de búfala e prosciutto crudo) e a massa (medaglioni – que é um tipo de ravioli, só que no formato de moeda – recheado com queijo fonduto e coberto por figo, avelãs e muita manteiga) não me entusiasmaram. Até muito pelo contrário, já que a expectativa era grande. Por conta do serviço desatento, a redonda pagou o preço de ter chegado à mesa junto com a entrada e foi comida quase fria. Mas não mais do que passável, anyway. A massa, coitada, tão sem pegada…

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Bom mesmo foi a descoberta das cervejas artesanais Schornstein, produzidas aqui Cervejano Estado de São Paulo, em Holambra. A Indian Pale Ale – IPA – é surpreendente, Aromática que só. Amarguinha, mas leve. A Weiss também não decepciona, embora não brilhe tanto.

Neste quesito, “comer lá mesmo”, salva-se, com louvor, o bom restaurante de grelhados do último andar do EATALY, o Brace.

Em comida, os europeus são muito mais exigentes. Diferente daqui, por lá come-se bem em qualquer baiuca. O EATALY de Milão (do lado colado da Porta Garibaldi), por exemplo, tem até um restaurante estrelado pelo guia Michelin, o Alice, comandado pela chef Viviana Varese. Que vem a ser assim, ó, amigona de Lígia Karasawa. E quem é Lígia, na voz do Brasil? É a chef do Brace, o restaurante que vale um almoço ou um jantar prazeroso no nosso EATALY paulistano.

A chef Lígia Karasawa, do restaurante Brace. Com sua amiga e também chef Viviana Varese (no detalhe)

A chef Lígia Karasawa, do restaurante Brace.
Com sua amiga e também chef Viviana Varese (no detalhe)

Lígia nasceu em Sampaulo. Mas criou-se no interior, em Presidente Prudente, onde a família tinha terras e nelas criava. Bois, porcos, aves…. Ou seja, churrasquear lhe vem de berço.

Mas não foi focada em carvão & grelha que Lígia enveredou pela gastronomia. Na falta, à época, de bons cursos por aqui, sobrevoou o Atlântico. Pousou em Barcelona e se matriculou na Escuela Hoffman. Epa! Já falamos desta prestigiosa academia espanhola de culinária, aqui no Sampaulo de Lá pra Cá. Há pouco tempo! É que foi onde também se formou o chef Gabriel Matteuzzi, do restaurante Tête à Tête (post “Vocação, talento, aptidão, dom…”, publicado no último dia 12)…

De diploma em punho, a nova chef permaneceu por mais de dez anos encarando fornos e fogões no velho continente. Passou por cozinhas de prestígio da Espanha e da França. Chegou à Itália, sempre se aproxegando das brasas (brace, em italiano). Elas incandesceram seu coração. A infância prudentina resgatada, especializou-se. Como tal, chegou ao Alice. E, com as bênçãos da chef Viviana, voltou para o Brasil para assumir sua própria cozinha. No Brace, no EATALY, em sua Sampaulo natal.

O restaurante divide o último andar com a cervejaria artesanal da casa, que produz diferentes tipos – de acordo com a estação do ano – e as comercializa com a marca Barbante. Vacilante. Já lhe dei duas chances e desisti.

Cerveja Barbante

Aliás, uma facilidade bem legal do EATALY é. a gente poder escolher o vinho (italiano) ou a cerveja (de diversas procedências) na adega da loja – a variedade é farta. E levá-la para acompanhar nossa refeição em qualquer um dos restaurantes.

Inclusive no Brace.

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Um lugar agradável, amplo, de altíssimo pé direito, cercado por vidraças (até no teto). Um pormenor (menor?) que chama a atenção são as mesas digamos, intrigantes. São construídas com madeirame semidestruído por…. Cupins! Mas, calma. Como me explicou a hostess, na tentativa de aliviar meu estranhamento, não foram cupins quaisquer que perpetraram o estrago. Foram insetos ve-ne-zi-a-nos. Subaquáticos. As madeiras costumavam compor a estrutura de sustentação da cidade italiana. Passaram muito tempo submersas, até serem trocadas. E vendidas para um designer audacioso que o transformou em mobília de um restaurante sofisticado. Ahhhh, tá! Tipo decadence, mas avec elegance…. Se fossem cupins cearenses, virava lenha. Mas já que moravam em Veneza…

A mobília esculpida por cupins venezianos. Esquisito nas messas, interessante nos armários.

A mobília esculpida por cupins venezianos. Esquisito nas mesas, interessante nos armários.

Na cozinha, aberta para o salão, mandam as grelhas. Mas nem pense em churrasqueirinhas amadoras. São equipamentos cheios de trique-triques, com um monte de traquitanas tecnológicas que as elevam e abaixam, atiçam ou esvanecem as brasas e deixam qualquer gaúcho babando. É o território de Lígia Karasawa.

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De lá saem entradas encantadoras. Como os crocantes aspargos semicobertos por lençóis fininhos de prosciutto de Parma. Ou a deliciosa polenta aveludada, com um ovo mollet (cozido durante horas, em baixa temperatura, mantendo-se adoravelmente pastoso) aninhado no centro, rodeado por rosáceas de fatias de ótima pancetta.

Chef Lígia finaliza os aspargos e, ao lado, a polenta vazando delícia e calorias

Chef Lígia finaliza os aspargos e, ao lado, a polenta vazando delícia e calorias

Detalhe para instigar os amadores de cozinha: praticamente todos os ingredientes usados nas muitas cozinhas do EATALY estão à venda na loja.

Nos pratos principais do Brace, Lígia não baixa a bola. O polvo, macio e saboroso, vem acompanhado de bom purê roxinho da silva de batata doce. Um visual meio…. Halloween no fundo do mar.

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A picanha (insista no ponto vermelhinho por dentro) vem com salada e tomate assado. O bom sal, à mesa, não é mero enfeite. Para atender a bula médica alimentar em voga, tudo vai para a grelha meio insosso. Cabe ao comensal corrigir isso.

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Extraordinária, mesmo, é a barriga de porco. Tostada beira torresmo por fora, na superfície. E macia, fondante, no interior. E o complemento é obra-prima: uma lasca grossa de repolho, grelada, banhada em delicioso vinagrete de romã.

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Eu abro mão dos pêssegos grelhados de sobremesa e desço para adoçar a boca com os bons gelati da sorveteria e/ou os canolli da confeitaria (perfeitamente crocantes e recheados com um ótimo creme de ricota – aromatizado, digo, aroma/atiçado com cristais de casca de laranja. E finalizado com castanha triturada.

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Recentemente, durante o mês de abril, o EATALY montou uma horta bem variada em IMG_5443frente ao prédio. Taí uma iniciativa legal. Até pelo didatismo. Crianças – e adultos – se divertiam – e aprendiam – sobre os efeitos olfativos das ervas nos alimentos. Era um tal de esfregar folhinhas nos dedos e cheirar…

Como definiu a bíblia, digo, o New York Times, o EATALY é “uma Megastore que combina elementos de um mercadão popular europeu, um supermercado sofisticado, uma praça de alimentação gourmet e um centro de aprendizagem gastronômico”. E isso tudo é por demais excitante.

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Este post é co-patrocinado pelos queridos Felix e Adriana Lima, que me convidaram para um adorável almoço no Brace e por minha sorella mezzo emiliano-romagnola Ilvana (useira e vezeira dos EATALYs in tutto il mondo).