Legado bem legado

Qual a diferença entre herança e legado? Sempre os entendi meio como sinônimos, mas devem discrepar nalguns detalhes. Como divergem ver e olhar, escutar e ouvir, futuro e porvir…

Na minha opinião de não filólogo, herança se refere a bens e valores – materiais ou não – deixados a herdeiros. Um lance tipo legal. Herda-se de pais, tios, padrinhos ou de quem quer que houve por bem nos mimosear diretamente. Herança tem destinatário certo. De um bisavô, por exemplo, herdei um relógio que era um tesouro.

Já legado…. Não deixa de ser herança, mas os donatários são mais abrangentes. Quem quiser pode desfrutar, tirar uma lasquinha, aproveitar, beber na fonte do que foi legado. Beneficiando a todos. Favorecendo a sociedade.

Artistas nos legam sua obra que nos sublima a condição humana. Cientistas nos legam (vamos resumir?) qualidade de vida. E empresários de sucesso, empreendedores que amealham fortunas, o que nos legam? Depende do cara.

Algumas vezes nada. E até um saldo negativo, se o moveu a mera ganância da exploração pura e simples dos recursos humanos e naturais sobre os quais se abateu sua sanha.

Felizmente, muitos desses construtores de riqueza aproveitam sua capacidade de fazer dinheiro para fomentar ciência e arte.

Quando inovadores, fazem o amanhã melhor que o ontem. E nos deixam essa conquista como legado. Quando humanistas, incentivam e promovem as artes e a benemerência. Legam-nos emoção e sensibilidade.

Os donos da riqueza desde sempre foram assim.  Movidos ora a cobiça, ora a generosidade. Alternando visionários e mesquinhos.

Já no Egito, antes de Cristo, houve faraó que construiu a Biblioteca de Alexandria com a intenção de disseminar conhecimento (o objetivo – pretensioso que só – era adquirir cópia de todos os manuscritos existentes no mundo!).

Na Pérsia, em plena Idade Média, quando os cristãos do Ocidente mergulhavam em trevas, os muçulmanos – Avicena à frente – investigavam o corpo humano e proporcionavam avanços à medicina sob patrocínio do rei, o Xá.

Na Florença do Renascimento, a vaidade dos Medici nos legou algumas das joias mais preciosas da história da Arte, ao abrigar Michelangelo, da Vinci, Boticelli, Dante… Só para citar alguns.

Desde a Revolução Industrial, sobrenomes de grandes capitalistas tem batizado fundações essenciais ao desenvolvimento artístico e científico.

Em Sampaulo, não é diferente.

Exemplos?

José Mindlin, empreendedor de sucesso, leitor voraz e bibliófilo de publicações cujo tema fosse o Brasil. Legou-nos uma das melhores e maiores bibliotecas já montada sobre nossa terra e nossa gente, com mais de 60 mil volumes. Doada à Universidade de São Paulo e instalada em belíssimo prédio construída para ela, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin está aberta a leitores, estudiosos e pesquisadores.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Outro?

Olavo Setúbal, banqueiro e industrial e político (foi prefeito de Sampaulo e chanceler brasileiro), reuniu, ao longo de quase cinquenta anos, uma formidável coleção de arte (também focada no Brasil). Em todos os períodos da história da arte brasileira, desde as missões estrangeiras ao país ainda menino. Hoje exposta para nosso deleite e orgulho – muitíssimo bem exposta, diga-se – na sede do Instituto Itaú da avenida paulista. Chama-se, também e sintomaticamente, Coleção Brasiliana. Aberta ao público há coisa de dois anos, já nasceu como um dos mais importantes acervos museológicos da cidade e do país.

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Mais um?

Rodovia dos Imigrantes e bairro do Morumbi (antes do loteamento)

Rodovia dos Imigrantes
e bairro do Morumbi
(antes do loteamento)

Oscar Americano. Descendente de brasileiros ilustres (Tiradentes, Vital Brasil…), empreiteiro, dono de uma das maiores construtoras brasileiras de sua época – a CBPO (sabe a via Anchieta e a rodovia dos Imigrantes, extraordinárias realizações da engenharia brasileira? Tem seu dedo e competência lá). Além disso, atuou com ousadia ne especulação imobiliária: adquiriu a vasta área devastada de uma antiga plantação de chá, a Fazenda Morumbi, na então distante margem de lá do rio Pinheiros, para transformá-la em bairro.

Imagino a inculpação de perdulário, visionário e excêntrico que Oscar Americano enfrentou, ainda lá pelas décadas de 40 e 50 do século passado, ao se dedicar com perseverança ao reflorestamento de toda a imensa área. Numa época em que a regra era o inverso. Mesmo considerando sua intenção de valorizar esse “latifúndio” urbano, para posterior loteamento, urbanização e transformação no que viria a ser uma das áreas residenciais mais nobres e disputadas de Sampaulo.

É verdade que seus fornecedores de mudas encararam um cliente duro na queda, já que Oscar Americano só pagava pelo que de fato vingasse e crescesse.

Há quase setenta anos, ele reservou para si uma gleba de três alqueires escolhida a dedo. A joia preciosíssima de seu tesouro imobiliário. No cocuruto, o ponto mais alto dessas terras. Ali, caprichou na seleção de qualidade e variedade das mudas replantadas – com assessoria, inclusive, de botânico paisagista. E contratou um já renomado arquiteto – Oswaldo Bratke – para criar sua futura casa.

Blog-Animal-Chic-1

O resultado é uma obra-prima da arquitetura modernista. Uma construção arrojada e atraente. Que interage com a exuberante natureza de seu entorno. Incorporando, até, uma encantadora cascata entre espelhos d’água geométricos no seu jardim que meio que invade simbioticamente a casa.

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke
ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

Mudou-se para lá no início dos anos 50, com sua belíssima esposa carioca, Maria Luisa. E, durante vinte anos, viveram nessa passárgada particular, criaram seus cinco filhos e assistiram, de camarote, o florescer do bairro urdido por ele. Viram, inclusive, a área fronteiriça à sua, onde se construía a Universidade Matarazzo, ser transformada em sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes, em 1964.

Maria Luisa e Oscar Americano

Maria Luisa e Oscar Americano

Em 1972, Oscar Americano perdeu a esposa. Antes de morrer, dois anos depois, criou a Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Para cuidar da propriedade, de seu acervo natural, arquitetônico e das obras de arte e históricas amealhadas pelo casal. E oferecer tudo isso ao desfrute público.

A fundação foi aberta à visitação em 1980. E, desde então, tem recebido figuras ilustres, como a célebre primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher. Além de, como se comenta, ser usada com frequência pelo governadoress de plantão, antes de abrir para o público, às dez da manhã, para suas caminhadas matinais.

Há décadas sou frequentador apaixonado do lugar.

Seduzido pela vivacidade da surpreendente e bem cuidada selva urbana que abriga milhares de aves da urbanidade inóspita.

Mix 2

0,,17137104-EX,00 (1)

Mix 1

Fascinado pelo emocionante e surpreendente projeto arquitetônico da casa sede, aí incluído o belo piso/mosaico do pátio dos fundos (se é que algum lado possa ser definido como fundo) e a cascata interior, ambos criados pelo artista Lívio Abramo.

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Estimulado por uma nova visita ao acervo, que inclui a bela biblioteca dos antigos proprietários. E obras de Franz Post, Portinari, Lasar Segall… Além de tesouros da arte sacra barroca, das duas grandes e extraordinárias tapeçarias centenárias, das belíssimas porcelanas utilitárias, da vitrine farta de prataria de esmerada lavra e da preciosa coleção de memorabilia cortesã do império brasileiro. Sem contar os retratos do casal Maria Luiza e Oscar, diante dos quais sempre paro para agradecer a magnitude do legado.

Biblioteca original de Oscar Americano

Biblioteca original de Oscar Americano

2014-04-22 05.28.25

Obras de Franz Post

Obras de Franz Post

Pintura de Portinari (acima) e Lasar Segall (embaixo)

Pintura de Portinari (acima)
e Lasar Segall (embaixo)

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Memorabilia imperial brasileira

Memorabilia imperial brasileira

Esculturas adornam o parque

Esculturas adornam o parque

Incitado pelo deleite dos recitais e concertos de câmara – mensais, matinais, dominicais – que rolam no confortável auditório da fundação. Que já recebeu, entre outros tantos músicos, o talento fora de série do pianista Marcelo Bratke, neto do arquiteto da casa, Oswaldo Bratke.

Mix

E vou sempre em horário que coincida com os célebres chás da tarde, encantadores, servidos de terça a domingo, na varanda ou no salão britanicamente ambientado para um típico five o’clock tea; um deleite gastronômico cada vez mais raros, a um tempo requintado e singelo.

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Lá, preserva-se o velho e distinto charme europeu. O serviço é primoroso – seja pela sofisticação sem salamaleques de louças, mobília e ambientação, seja pela cortesia das atendentes. Mas que já ofereceu quitutes melhores. A fartura e variedade estão lá. Boas opções de infusões inglesas, café ou chocolate. Sucos naturais, pãezinhos e sanduichinhos caprichados. Mas o capítulo de salgadinhos e doces já conheceu melhores fornecedores, como pude constatar em visita recente. Uma ou outra guloseima de melhor qualidade em meio à profusão de quitutes industriais ou “de padaria”.

Estrutura do "puxadão" de eventos e exuberante decoração de uma festa

Estrutura do “puxadão” de eventos
e exuberante decoração de uma festa

 

E, já que estou falando dos escorregões, registro meu repúdio à grande estrovenga estrutural, instalada como puxadão da bela casa, à guisa de toldo para abrigar eventos. Tem o maior jeitão de provisório, mas perenizou-se pela constante requisição do espaço para realização, principalmente, de casamentos. Um estropício que compromete legal a estética do lugar. Uma pena! Mas inevitável, já que a fundação precisa da receita financeira dessas efemérides para se manter.

Uma célebre festa de bodas que movimentou o grand monde de Sampaulo – e de europas, franças e bahias, há alguns anos, pode não ter sido o primeiro a acontecer ali. Mas o enlace da herdeira Athina Onassis com o cavaleiro Doda Miranda, a coisa de uns dez anos, transformou a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em sonho de consumo de nubentes chiques da cidade.

À inconveniência do tal toldo e à decadência de parte das iguarias do chá, eu ainda acrescentaria a falta de um projeto expositivo mais sedutor, mais charmoso, do acervo.

Mas nada disso diminui o encanto de uma tarde desfrutada nos antigos domínios da bela Maria Luisa e de seu marido, o magnata Oscar Americano.

Tudo isso legado a nós por uma ainda rara, mas louvabilíssima iniciativa de retribuição à sociedade pelo sucesso conquistado em vida. Um jeito honorável com que os conquistadores do passado brindam o futuro que ajudaram a construir.

Post-it-2

Conheci, recentemente, um belo e ousado projeto do também arquiteto Carlos Bratke, filho do criador da casa da fundação, Oswaldo Bratke.

Carlos e o irmão (mais um arquiteto), Roberto, são os autores de oito (!) em cada dez projetos dos prédios que embelezam o polo empresarial que se instalou ao longo da avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini.

Parênteses: sem que fosse essa a intenção, este artigo acabou por se transformar, também, em tributo ao notável clã paulistano Bratke – Oswaldo, Carlos, Roberto, Marcelo…. Fecha parênteses.

Há alguns anos, Carlos elaborou uma reforma para a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano. Que inclui, ao lado de outras pequenas melhorias, a construção de um vasto espaço para exposições e eventos, pasmem, subterrânea, sob a ampla piscina da propriedade. Inclusive com iluminação diurna através de suas águas.

fotop18422g

Projeto de Carlos Bratke para ampliação "subterrânea" do espaço expositivo e de eventos da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Projeto de Carlos Bratke para ampliação “subterrânea”
do espaço expositivo e de eventos
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Pelo que eu soube informalmente, a realização do projeto foi assumida pela Odebrecht. Por enquanto, nadica de nada. Mas que seria um ganho e tanto para a cidade, a isso seria…

 

É Natal?

O calor chegou a Sampaulo para passar o verão. Então, cadê o Natal que não dá o ar de sua adorável graça?

Detalhe da decoração de Natal do Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana

Detalhe da decoração de Natal do Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana

Tem gente que detesta Carnaval, que trata o próprio aniversário como se não lhe dissesse respeito e… Que não gosta de Natal. Pode?

Não é o meu caso. Acho que tem a ver com a memória, com as recordações que se tem destas datas. Na minha infância, esses três eventos concentrados no quarto estival do ano, foram sempre extraordinariamente felizes. E, portanto, muito bem-vindos.

De bailes a desfiles de escolas de samba, o reinado de Momo sempre foi um mergulho na gandaia com direito a muita fantasia. Só quando virei paulistano, percebi que a contagiante alegria carnavalesca não era unanimidade. Lembro de um argumento dessa aversão que me fez refletir: “felicidade com hora marcada é inconcebível”. Mas logo o descartei. Tanto faz, para mim, planejar o regozijo ou ser pego de surpresa por ele. Desde que me alvoroce os sentidos…

Já o meu aniversário era o dia de assumir o protagonismo, de ser festejado independente de feitos ou conquistas. E não tenho o menor pudor de reconhecer que isso me apraz, sobretudo pela constatação de ser querido, de que importo para os que me importam. Quando isso vem com direito a comida farta, profusão de doces, bolo com velinhas (como elas aumentam em número com o tempo!) e gente querida sorrindo em volta… Festa é festa e adoro ser o motivo da celebração.

Não concordo (não ainda, pelo menos), tampouco, com o sentimento contido numa resposta do extraordinário memorialista Pedro Nava (leiam-no!), à jornalista Leda Nagle, num ancestral Jornal Hoje, da Globo, quando o escritor completava oitenta anos. “Feliz de comemorar oito décadas, Pedro? ”, arguiu a entrevistadora. “Só se eu fosse idiota…”, retrucou o entrevistado. Leda não se deu por vencida: “mas… e a experiência acumulada”? “Experiência, minha filha, é um automóvel com os faróis virados para trás”, Pedro lastimou, lapidando com gênio uma dessas máximas definitivas. Mas essa aflição não me assola. O retrovisor me proporciona o conforto e a segurança de boas memórias e aprendizados. Minhas experiências compensam a “fadiga de material” e agregam motivos de celebração à alegria da data natalícia.

Fachada do Colégio Arquidiocesano, uma das mais tradicionais decorações de Natal de Sampaulo

Fachada do Colégio Arquidiocesano, uma das mais tradicionais decorações de Natal de Sampaulo

Quanto ao Natal, podem me chamar de tolo, ingênuo, exageradamente crédulo e otimista. Mas deixo-me de tal forma contaminar pelo tal do espírito natalino que – no matter what (nem Cunhas, nem Lava-Jatos) – aos primeiros acordes de jingle bells baixa um enternecimento em mim e me dano a sorrir diante do passante mais mal-encarado e a repetir votos de Boas Festas indiscriminadamente. Papais noéis, pinheiros decorados, guirlandas, renas & trenós, neve fake, guirlandas e profusão de lampadinhas faiscantes têm o condão de abduzir minha alma para um universo de magia onde os sentimentos determinantes são fraternidade, comunhão, generosidade…

Minha infância já é cinquentenária. Guardo, dela, o encanto do período natalino. Que começava na montagem do presépio e da árvore. Morávamos no Maranhão e, lá, pinheiros só existiam na imaginação e nas toscas imitações daquele tempo. Mamãe cobria os galhos de verde plástico esfiapado com neve de algodão. Em suas pontas, amarrávamos bolas coloridas e cintilantes. Não é por serem bolas que eram todas redondas. Haviam-nas de todos os formatos. Tinham, em comum, a fragilidade do vidro fininho e algumas quebras eram inevitáveis. Os cordões de lampadinhas piscantes vieram depois, junto com as latas de spray que aposentaram os flocos de algodão.

Árvore de Natal do Ibirapuera, ponto de encontro diário de multidões de paulistanos

Árvore de Natal do Ibirapuera, ponto de encontro diário de multidões de paulistanos

Mais adiante, já na segunda quinzena de dezembro, o bulício se transferia para a cozinha. O peru era decapitado no quintal, depois de ser cevado durante algumas semanas. Antes da faca e do escaldar para retirada das penas, era embebedado. Morria chapadaço, trocando as pernas, para que a carne se mantivesse relaxada e macia, antes de mergulhar no vinha d’alhos. Enquanto muita água dessalgava o bacalhau. Durante dois ou três dias, o aroma dos assados nos incendiava o olfato, enquanto mamãe se trancava para caprichar no embrulhar dos presentes e, assim, preservar a surpresa. A noite da véspera de Natal era só alegria e congraçamento familiar. Com direito a trilha sonora de “noite feliz”, “bate o sino”, “deixei meu sapatinho na janela do quintal”, “anoiteceu e o sino gemeu” e que tais.

Avenida Dom Pedro, no Ipiranga

Avenida Dom Pedro, no Ipiranga

O ritual continuou se repetindo em Sampaulo, até a infância de meus sobrinhos. Com pinheiros de verdade e algumas de minhas primeiras embriaguezes. Essas memórias regam o viço do meu deslumbramento com o Natal, até hoje.

Parque do Trianon. Iluminado, mas fechado à noite

Parque do Trianon

E eis que o Natal se avizinha com um jeitão esquisito. A razão desfia argumentos que vão da lama criminosa de Mariana ao Bataclan dantesco dos jihadistas que negam o Profeta ao invocá-lo. Tudo encharcado pela tormenta de corrupção explícita que não dá trégua, alaga a festa de desesperança e, como na canção de Ney Matogrosso, nos sentimos diante do dilema “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A realidade parece conspirar contra o encantamento natalino. Deixaram o Christmas, mas levaram o Merry embora.

No onjunto Nacional, Natal reciclado com sotaque árabe

No Conjunto Nacional, Natal reciclado com sotaque árabe

Minha Sampaulo, normalmente tão pródiga de cintilância natalina, se comporta com abatimento, às vésperas da grande véspera. A cidadania parece envergonhada até para celebrar o Natal. As ruas mal e mal se aprontaram para a celebração. Mesmo os shoppings parecem acuados. Brilham, ainda, o requinte importado do Iguatemi e a originalidade encantada dos balões, com sagaz aproveitamento do círculo central que atravessa todos os andares do Pátio Higienópolis.

Até os shoppings deram uma maneirada na decoração de Natal. Lembro dos tempos áureos do Iguatemi, quando o grande hall de entrada, entre as rampas, recebia ambientação hollywoodiana (a estação de trens de papais e mamães noel marcou época...). Depois, vieram os anos de exuberância do Morumbi... Que este ano está mais tímido, com contos de fada em quadros cenografados na entrada e ambiente de biblioteca onde os miúdos escrevem cartas para Papai Noel. O ênfase, agora, são pegadas mais infantis e interativas. Como os personagens de Toy Story, no Mooca Plaza, ou as figurinhas de Peppa, em tons pastel no Jardim Sul. O Bourbon, além de um trenzinho, montou um disputado Trenó Simulator. O Metrô Itaquera viaja nos transportes do bom velhinho, com avião, barco, asa delta e o manjado trenó, além de um vagão-teatro de trupes mambembes em que se apresentam espetáculos. O Anália Franco mergulha na magia natalina. O Center Norte apostou num carrossel que é pura sedução. O novo Cidade de São Paulo, na Paulista, iluminou os troncos das ainda jovens árvores no exterior do lado Rua Pamplona e caprichou numa cintilante árvore de Natal azul. O conjunto cenográfico do Vila Olímpia, onde pontifica o pinheiro decorado, é... vai lá... correto. O Pátio Higienópolis mais uma vez surpreende. E encanta com balões natalinos. E o JK seduz com presentes e rosas rubras do designer californiano Jeff Leathan. Que também assina a ambientação do Iguatemi (nota 10 no quesito sofisticação).

Até os shoppings deram uma maneirada na decoração de Natal. Lembro dos tempos áureos do Iguatemi, quando o grande hall de entrada, entre as rampas, recebia ambientação hollywoodiana (a estação de trens de papais e mamães noel marcou época…). Depois, vieram os anos de exuberância do Morumbi… Que este ano está mais tímido, com contos de fada em quadros cenografados na entrada e ambiente de biblioteca onde os miúdos escrevem cartas para Papai Noel. O ênfase, agora, são pegadas mais infantis e interativas. Como os personagens de Toy Story, no Mooca Plaza, ou as figurinhas de Peppa, em tons pastel no Jardim Sul. O Bourbon, além de um trenzinho, montou um disputado Trenó Simulator. O Metrô Itaquera viaja nos transportes do bom velhinho, com avião, barco, asa delta e o manjado trenó, além de um vagão-teatro de trupes mambembes em que se apresentam espetáculos. O Anália Franco mergulha na magia natalina. O Center Norte apostou num carrossel que é pura sedução. O novo Cidade de São Paulo, na Paulista, iluminou os troncos das ainda jovens árvores no exterior do lado Rua Pamplona e caprichou numa cintilante árvore de Natal azul. O conjunto cenográfico do Vila Olímpia, onde pontifica o pinheiro decorado, é… vai lá… correto. O Pátio Higienópolis mais uma vez surpreende. E encanta com balões natalinos. E o JK seduz com presentes e rosas rubras do designer californiano Jeff Leathan. Que também assina a ambientação do Iguatemi (nota 10 no quesito sofisticação).

A Avenida Paulista não é nem sombra do fulgor dos últimos muitos anos. Aquele casarão branco, na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo, que durante mais de uma década pareceu flutuar fulgurante de encantamento, está abandonado, apagadinho da silva (até tu, Itaú?) O Top Center, sempre esfuziante – mesmo que de gosto duvidoso – recolheu-se ao anonimato. O extinto Banco Real, que transformava o imenso hall da esquina da Rua Itapeva em parque noel-temático, embarcou num Santander de silêncio. E o Center 3? Você viu? Nem eu…. Sobraram a responsabilidade ambiental reciclada do Conjunto Nacional, mais para blue Sherazade discreta do que para Natal exuberante e uma canhestra iluminação de troncos de árvores aqui e ali,  inclusive no Parque Trianon, vulgo Siqueira Campos (se fecha quando escurece, que sentido faz iluminar-se?).

Na Igreja São Luiz Gonzaga, espetáculo Natal Iluminado

Na Igreja São Luiz Gonzaga, espetáculo Natal Iluminado

Na Paulista, digno de nota, só um surpreendente espetáculo de projeções com conteúdo edificante que acontece no interior da Igreja São Luiz Gonzaga, na esquina com a Rua Bela Cintra. As últimas apresentações deste “Natal Iluminado” – que é um sucesso de público, até pela falta de opções – acontecem dia 20, às nove da noite, e dias 21 e 22, às oito e às nove da noite.

Ônibus iluminados circulam magia em Sampaulo

Ônibus iluminados circulam magia em Sampaulo

Fora isso, por lá, só sobra de encantamento a eventual passagem de um ou outro ônibus iluminado para as festas. Tem gente que não gosta dessa novidade natalina. Que a associa com Haddad e, por isso, é contra. Eu não estou nem aí para quem implantou uma boa medida. Seja ciclovia, corredor exclusivo de ônibus ou coletivos iluminados circulando magia pela cidade.

Caravana Coca-Cola, passeando encantamento natalino pela cidade (foto

Caravana Coca-Cola, passeando encantamento natalino pela cidade (foto do site Viagens Cinematográficas)

Se a Avenida Paulista está assim, apagadinha, coitada, imagina os bairros… Além da Árvore de Natal gigante do Ibirapuera que atrai surpreendente multidão e engarrafamento para a região todas as noites – e que cintila Coca-Cola por todos os poros, meio que exagerando na exibição do patrocinador (até a estrela que coroa o pinheirão é sustentada pelo contorno em neon de uma garrafa do refrigerante), destacam-se a caravana da própria marca que circula pela cidade com uma fileira de caminhões bem iluminados e ambientados com temas natalinos. E a surpreendente e encantadora decoração da fachada do Crefisa, na Rua Canadá (quase esquina com a Avenida Brasil). Além da aleia de troncos iluminados da Avenida Dom Pedro, diante do Museu do Ipiranga e… Só.

Diante do Crefisa, na Rua Canadá, um oásis de encantamento interativo para crianças e adultos. Escorregador que sai de pinheiro de Natal, xícaras dançantes, trenó para fotos, cenários nevados...

Diante do Crefisa, na Rua Canadá, um oásis de encantamento interativo para crianças e adultos. Escorregador que sai de pinheiro de Natal, xícaras dançantes, trenó para fotos, cenários nevados…

Até a Rua Normandia, em Moema, que em anos recentes fez até nevar em pleno verão tropical, este ano mal e mal sussurra Feliz Natal a seus transeuntes.

A Rua Normandia já foi assim... ... agora está assim

A Rua Normandia já foi assim…                                       … agora está assim

Há crise, é fato. Mas o sufoco financeiro não me parece ser o único responsável. Falta ânimo moral para nos engalanar. Estamos envergonhados. E o que é pior: não é desgosto pela falta de decoro alheia, deles, dos outros, particularmente dos que exercitam um indecoroso poder ainda que legítimo. Sentimo-nos intimamente desonrados porque fingimos que era exceção uma regra indecente que desde sempre nos tem moldado o caráter nacional. Parafraseando o Dr. Simão Bacamarte, personagem do conto célebre “O Alienista”, de Machado de Assis, “iludíamo-nos pensando que a corrupção era uma ilha num oceano de honestidade e somos acachapados pela constatação de que a honestidade é que, se houver, é a ilha, perdida num oceano de imoralidade”.

Será que finalmente acordamos para a septicemia ética que nos assola? Eita despertar ansietante…!

Quer saber? Acho que qualquer terapia eficiente depende de um diagnóstico assim, cabal. Se for isso, talvez estejamos, finalmente, trocando o remediar pela cura. Que essa esperança ilumine nosso Natal.

Sobretudo, não se deixe abater. Faça como Mário Quintana: “eles passarão, eu passarinho”…E que o jingle de fim de ano da Globo agora seja para valer: “Hoje, é um novo dia, de um novo tempo…”

Feliz Natal para todos!

post it