… de sol a sol…

A noite desde sempre me fascina.

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Tanto pela boemia quanto pela tranquilidade para me jogar na leitura ou para juntar sujeitos, verbos e predicados – sou um escrevinhador compulsivo. E, até, porque as atribulações do dia raramente me permitem encarar o prazer do forno & fogão em paz; daí, de madrugada posso me dedicar ao descasca, pica e refoga do cozinhar fora de hora.
Um papo a bordo de um vinho – ou chá, então…. Sou notívago.

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A aurora é a senha para me recolher. Fujo da inclemência cruel do sol cintilando contra meu semblante tresnoitado. Essa cacetada me amiuda de um jeito tão humilhante…. Não há óculos escuros que anuviem o mal-estar, a sensação de vexame. Corro para me cercar de cortinas pesadas, cerradas (por isso as black-out sempre foram artigo de minha primeira necessidade – já tive casa em que as instalei até no banheiro).

can-stock-photo_csp14322425Outra fascinação é a gandaia. Em turba. Sabe carnaval? Rock in Rio? Clássico de final de campeonato com estádio lotado? Parada Gay? Círio de Nazaré (quem pensa que não é balada, Ave Maria, nunca foi e não sabe o que está perdendo)? Reveillon em Copacabana? Por aí….

Ambos, tanto o varar a noite como o me perder na multidão caíram em desuso. A noite ainda me atrai, mas começo a bocejar bem mais cedo.  E, juntou duzentas pessoas, eu já estou catando camarote para segurar meu copo em paz.

Mas abro exceção, uma vez por ano, quando o outono avança e a prefeitura paulistana faz acontecer mais uma Virada Cultural.

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Inspirada em evento europeu semelhante, as “noites brancas”, a versão paulistana foi sucesso já na primeira edição, em 2005 (equivocadamente planejada para a chuvosa primavera). Logo transferiram para o tempo mais firme de maio. Até o friozinho favorecendo o bater de pernas.

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Os palcos, espalhados por todo o centro velho de Sampaulo, concentram as atrações mais badaladas. Alguns desses tablados são gigantescos e distam mais de dois quilômetros entre si. Estou falando dos pontos extremos da festa. Tipo praça da Sé e estação Júlio Prestes. 21jun2015---encerrando-a-virada-cultural-caetano-veloso-atrai-grande-publico-para-o-palco-julio-prestes-na-regiao-central-de-sao-paulo-1434924278962_956x500Entre um e outro, centenas de espetáculos, performances, projeções, arte por toda parte. De mega-shows a apresentações isoladas rolando a cada esquina. Instalações de arte cibernética e bailes populares. Raves eletrônicas e feiras de comida de rua “gourmet”. Abrangendo do forró ao erudito (que emocionante a apresentação da Sinfônica Municipal, coro e solistas, há algumas viradas atrás, entre o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca, tocando Carmina Burana para milhares de pessoas embevecidas). Além das belas artes, do picadeiro circense, do palco do Teatro Municipal do ringue de Luta Livre, do pastel e do cevice. Da parada de cosplay a teatro, dança, cinema e bonecos gigantes. Tem até programação infantil, com shows, oficinas e brincadeiras monitoradas.

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre, feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, "Jack Sparrow", Reginaldo Rossi, trupes performáticas... Rola de um tudo na Virada Cultural

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre,
feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, “Jack Sparrow”,
Reginaldo Rossi, trupes performáticas…
Rola de um tudo na Virada Cultural

Não é à toa que quatro milhões de paulistanos e turistas se joguem, anualmente, nos eventos da Virada. Pega quatro mil pessoas (uma pá de gente) e multiplica por mil. Mil pás de gente!

Mix 1

Com o metro funcionando sem parar.

Começa às seis horas da tarde de sábado (o próximo, dia 21 – este ano). Com os últimos shows começando também às seis da tarde, só que de domingo. Eita que cansa só de descrever.

Com o tempo, os palcos foram se consagrando a determinados ritmos. O da praça da República, faz tempo que é território do samba. De raiz, sambão de matriz carioca, mesmo que interpretado por sambistas de outras paragens, inclusive daqui.

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Aliás, artista de fora é o que não falta na Virada. De perto e de longe. Até da Australia. Um dos ótimos shows que já assisti, numa delas, foi o da estrela norte americana do jazz, Stanley Jordan, estraçalhando uma guitarra que, em alguns momentos, parecia uma banda inteira.

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

E tem o palco brega, sempre no largo do Arouche, que já estremeceu com Sidney Magal, Gretchen, Valeska Popozuda… Já me esbaldei por lá num show de Luís Caldas – “eu queria ser abelha pra pousar na tua flor…. Haja amor”. E este ano o palco abre, no sábado, com a eleição da rainha da Virada. Traveca, claro, porque miss é muito five o’clock tea para um evento destes.

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Tem palco de rock, de reggae, de música Instrumental (em frente ao Copan)…. A praça do Patriarca é do forró, da sanfona, da zabumba e do triângulo.

Um dos mais maiores, mais “nobres”, reservado a grandes estrelas, é o palco da MPB, na praça Júlio Prestes. Os shows de abertura e encerramento costumam acontecer lá. Este ano começa com Ney Matogrosso – e segue com Alcione, Baby do Brasil, Criolo e, até, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (que “mora” ali em frente), para acabar com a apresentação que reúne Nação Zumbi com os suíços da banda Young Gods.

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará
Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

E tem o Teatro Municipal, aberto a noite inteira, com um show atrás do outro, sempre com um mesmo tema: os artistas revisitam um disco clássico de suas carreiras. As filas são enormes e eu já as encarei duas vezes. Numa delas, desisti quando me toquei que não conseguiria entrar e teria que assistir nos telões instalados, do lado de fora. Era Luiz Melodia revivendo o repertório de seu fantástico Pérola Negra (sabe Estácio, Holy Estácio…?).

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Mas não fiquei frustrado porque corri e peguei desde o comecinho o show extraordinário da cabo-verdiana Cesária  Évora, no palco da avenida São João.

Neste mesmo ano ainda vi Gal Costa – de um quarto de hotel, desses bem meia-boca, do centro (que amigos haviam transformado em camarote bem situado diante do palco).

E perdi, por coincidência de horário, a apresentação – soube que foi emocionante – de Ana Botafogo dançando o Cisne, em palco montado no Vale do Anhangabaú. Aliás, a vasta área sob o viaduto do Chá já virou local dos palcos – os únicos com direito a milhares de cadeiras – de teatro, dança e musicais.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Tom Zé, de máscara, agitou o Teatro Municipal

Tom Zé, de máscara,
agitou o Teatro Municipal

Voltando ao Teatro Municipal (que este ano vai ter Geraldo Azevedo com as músicas de seu disco Bicho de 7 Cabeças), houve um ano em que consegui entrar e assistir a um happening anárquico-musical memorável:

Tom Zé, de máscara e tudo, refazendo o seu antológico Grande Liquidação. Virou baile e tudo, com a plateia e galerias celebrando a vida aos urros sob a batuta do tropicalista essencial.

Todo ano tem novidade. Algumas são incorporadas e voltam nos anos seguintes. Outras ficam como marca daquela edição da Virada. E outras são ajustadas porque derraparam na largada.

Como a Feira Gastronômica. No primeiro ano, aconteceu em cima do Minhocão, comandada pela celebridade maior da culinária brasileira, Alex Atala. Virou tumulto sobre o viaduto sem ponto de fuga. Nada de realmente grave, mas não deu para apreciar a famosa galinhada do chef. Naquele ano eu me toquei para a relevância da alta gastronomia no mundo de hoje. Conheci um casal, juntos há mais de dez anos, tipo classe média baixa, que passa o ano separando dinheiro, coisa de 50 ou 60 reais por mês, para celebrar seu aniversário de casamento num dos endereços gastronômicos top de Sampaulo. Com tudo que o esforço poupador lhes dá direito, da entrada ao vinho especial. Falavam com deleite e grande discernimento crítico de suas experiências com as criações do próprio Alex (no DOM), de Helena Rizzo e Daniel Redondo (do Mani)…. A partir daquela primeira edição atribulada, a Feira muda de lugar, mas acontece todo ano (já passou pela praça Roosevelt, pela Ramos de Azevedo…). A mais tranquila, na minha opinião, rolou na avenida São Luís, só que durante o dia de domingo. Ainda assim, as filas eram longas para conseguir se jogar nas invenções de dezenas de chefs estrelados da cidade.

Alex Atala na primeira Virada. E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Alex Atala na primeira Virada.
E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Duas novidades e um palco vazio marcam a edição 2016.

É que, na programação, havia um show de Ângela Maria e Caubi Peixoto…

Já de inédito, um palco dedicado só às mulheres, Que vai ter de Elza Soares a Maria Rita, passando por Céu, Elba Ramalho e a cubana Yusa, entre outras. Na praça Julio Mesquita.

Esta eu vou querer ver. Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. "Do cóccix até o pescoço..."

Esta eu quero ver.
Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. “Do cóccix até o pescoço…”

E uma invenção polêmica: um tal do Happy Hour. Acontece na sexta, dia 20, entre o fim da tarde e o meio da noite. E pretende ser um como que aperitivo da vasta programação de sábado e domingo. Com destaque para o ótimo e pouco conhecido Samba da Vela que rola na praça Dom José Gaspar e da avant première da nova Casa de Francisca.

O cultuadíssimo (de cult e de vastidão de devotos) e mínimo (de exíguo, diminuto), mas adorável e premiadíssimo cabaré musical da rua José Maria Lisboa está reformando o palacete Tereza Toledo Lara, no miolo do centrão mais centrão de Sampaulo, ao lado da praça da Sé, para se mudar. Com seu elenco de bambas, conceituados, mas de pouca mídia. Ná Ozetti, Arrigo Barnabé, Mônica Salmaso, Luiz Tatit e por aí vai. Eles vão se apresentar na futura nova sede (nem imagino em que pé esteja a reforma) entre cinco da tarde e onze da noite, gratuitamente, nessa pré-virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música vai virar catedral. E a pré-estréia é agora, na Virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música, vai virar catedral.
E a pré-estréia é agora, na Virada.

Agora, na real, um dos grandes baratos é bater perna por toda a região central de Sampaulo ao longo das 24 horas. Cruzar com tribos animadas que circulam nossa diversidade urbana. De punks a idosos, de mauricinhos a skatistas. Alternativos e comportados, dos mais diferentes extratos sociais. Vindos do distante Grajaú, da vizinha Higienópolis, do periférico ABC, dos hypados Jardins, da Mooca tradicional, do modernoso Panambi…. Sem contar os turistas, pois a virada é um dos grandes ímãs de atração de visitantes para a cidade. Tipo ali, na cola da Fórmula 1 e da Parada Gay, que são os campeões. Num congraçamento de diversidades que só se vê na Virada Cultural. O riso, diga-se, é lugar comum. Everywhere. No rosto de everyone.

Virada é para se esbaldar

Virada é para se esbaldar

Este ano, com o circuito “carnavalesco” que vai proporcionar um cortejo ininterrupto de blocos, bandas e cordões carnavalescos – inclusive alas de escola de samba, vai virar folia.

É claro que a mídia, na segunda-feira, vai destacar incidentes, episódios isolados de violência…. Fazer o que? A mídia vive disso mesmo. É que o povo mais comodista, que prefere viver pela TV, precisa se auto justificar a moleza. Eventos isolados até rolam, mas nada que se compare ao estresse de torcidas organizadas se topando em dia de clássico. Sempre que estou na cidade, vou pra lá. E nunca vi nada que me intimidasse. É até bem tranquilo. Até porque, imaginemos o que rolaria numa cidade de 4 milhões de habitantes, num fim-de-semana normal, entre o anoitecer de sábado e o anoitecer de domingo. Com certeza muitas vezes mais ocorrências desagradáveis do que durante a Virada Cultural de Sampaulo. Considerando o mesmo universo humano!

Faltam lugares para sentar e descansar as canelas, mas sempre acaba aparecendo um batente, uma mureta, um degrau ou uma mesa que acabou de vagar num boteco – poucos fechados e todos inflamados, funcionando em pleno vapor.

Houve um ano em que o Teatro Municipal – que fica meio que no miolo geográfico do buchicho –  estava em reforma. Um grupo de artistas ambientalistas transformou suas escadarias num arremedo florestal, plantado em vasto tapete de grama sintética. Com carcaças de carros de onde “brotavam” árvores. Exibindo a resiliência da natureza. Na fachada do teatrão, projetavam pássaros voando. E a trilha sonora reproduzia seus trinados e os ruídos da selva. Me deitei naquele gramado e, embalado pelo pique de oásis, não é que pequei no sono…? Peut être até ronquei, sonhando com o antigo Mappin – ali em frente, lembra? – “aberto até a ½ noite”!

MixA Virada vale por tudo isso. Pelo encantamento das projeções artísticas nas fachadas dos prédios, dos trapezistas e malabaristas em ação para tudo quanto é lado (inclusive atravessando, lá no alto, sobre o Anhangabaú), dos performáticos insólitos (já houve pianista tocando com piano e tudo suspenso por grua acima da galera, jogo de futebol em campo projetado na fachada da prefeitura, com os “jogadores” acrobatas – e a bola – pendurados em cabos…). Sem contar as troupes de performance urbana que surpreendem e arrebatam. Precisa ver o olhar das crianças – e dos adultos – diante das instalações de fogo do grupo francês Carabosse, no Jardim da Luz, na Virada do Ano França/Brasil! E, noutro ano, dos também franceses Generik Vapeur, com bicicletas (ou o que fizeram delas…). E os insetos gigantes e coloridos circulando pelas ruelas do centro velho? O fato é que há sempre surpresas cheias magia quando se circula pela cidade, durante a Virada.

 

 

 

 

 

 

 

 

Que também acontece em pontos avançados, nos bairros de periferia, em centros culturais, bibliotecas, escolas…. Seguindo ao pé da letra a máxima de que todo artista tem que ir onde o povo está. São sobretudo shows, atividades artísticas para crianças e eventos literários que não viram a noite.

As muitas de unidades do SESC, um dos maiores patrimônios culturais da cidade – graças a sua rica, variada e imprescindível programação descentralizada de todas as artes – também participa ativamente da Virada Cultural. Desde sempre.

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Há alguns anos, no SESC Ipiranga, um artista instalou esculturas de gelo, reproduzindo pessoas em tamanho natural, sentadas na escadaria de entrada. Era de fato intrigante ver aquela “gente” derretendo, lentamente, ao longo da noite. Eu ia passear pelo jardim – onde rolavam filmes, apresentações musicais e comidinhas – e voltava para ver o estado das criaturas que formavam um rastro escorrendo degraus abaixo, até virarem como que pontas de icebergs ou cumes de uma cordilheira gelada. IMG_5651

Este ano, por exemplo, não perco a apresentação da extraordinária dupla maranhense Criolina, na noite de sábado, no SESC Consolação.

Tem muita, mas muita coisa mais. Da programação infantil ao que rola de especial nos museus do centro (e mais arredados, como o Museu da Casa Brasileira que este ano elaborou uma programação estilão cabaret). Um post só não cabe. Teria que ser do tamanho de uma edição dominical do Estadão.

logo-viradaMas não posso deixar de falar da Virada Cine Gastronômica, realizada todos os anos no Cine Belas Artes. Ainda não vi a programação deste ano. Mas já assisti uma boa comédia, com Dustin Hoffman, Emma Thompson, Will Farrell e Queen Latiffa, num amanhecer de domingo. Saí de um show de reggae da Tribo de Jah quando começava a clarear. Fui direto para lá. A programação das cinco salas era de filmes em que comida fazia parte do enredo (sabe Festa de Babete, Como Água para Chocolate, Estômago?). Entre as sessões, o público se jogava num bufê, que tinha de massas a café da manhã. Ri muito e ainda matei a larica da noite insone.

Além disso, outros cinemas do centro também mantêm programação a noite toda. No geral, com filmes mais trash, tipo horror e chanchadas.

Minha receita para sobreviver à Virada é: estico a noite de sexta até não mais aguentar (este ano vai ser mais fácil, com o Happy Hour). Só vou dormir quando sábado clareia. Acordo tarde, aí pelas quatro. Depois de um desjejum reforçado, make up e… Virada!

A gente se tromba por lá.

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Quatro vídeos de Viradas passadas.

No primeiro, não não é briga, é rock & roll. Os Raimundos na Virada 2010
(postado por Julio Mesquita)

No segundo, Caetano Veloso na Virada 2015
(postado por douglas Pereira)

No terceiro, a pista eletrônica de Victor Ruiz, na Virada 2013

No quarto, Stanley Jordan tocandoStairway to Heaven, na Virada 2014
(postado por Eder Sambo)

Todo pouco ajuda

Sabe aquele famoso slogan de salgadinhos: “é impossível  comer um só”?

Aliás, isso me lembra um gaiato par de travestis, na carioca Banda de Ipanema, em mil novecentos e bota tempo nisso, vestidos iguais, levando uma plaquinha escrita de um lado, “as irmãs Elma-Chips”; do outro, “impossível comer uma só”.

Voltando ao livro, quer dizer… Ainda nem falei do livro!

Acabei de devorar um “livro Elma-Chips”. Um livro de crônicas curtas e expressivas sobre facetas recônditas de Sampaulo. Pinçadas da intimidade da cidade. Cada texto ilustrado com uma aquarela ou fotografia. Adoráveis, crônicas e ilustrações. Adequadíssimos, cada um a seu cada qual, como se um legendasse o outro.

De cima para baixo, trabalhos de Alex Senna, Alama, Alto Contraste (que reune o casal Lee e Lou), André Morbeck, B47 (que traduz legal a realidade industrial de sua Santo André), Binho Ribeiro, Chivitz (em parceria com sua parceira recorrente, Minhau, "especialista" em gatos), Crânio (índios críticos, é com ele) e Daniel Melim (autor desta obra de referência do graffiti de Sampaulo, no bairro da Luz).

De cima para baixo, trabalhos de Alex Senna, Alama, Alto Contraste (que reune o casal Lee e Lou), André Morbeck, B47 (que traduz legal a realidade industrial de sua Santo André), Binho Ribeiro, Chivitz (em parceria com sua parceira recorrente, Minhau, “especialista” em gatos), Crânio (índios críticos, é com ele) e Daniel Melim (autor desta obra de referência do graffiti de Sampaulo, no bairro da Luz).

Comecei a folhear o livro com superficial curiosidade. A capa é atraente e sugestiva, mas não pretendia mais do que dedicar-lhe uma vista d’olhos rápida. Não resisti ler a primeira, tampouco passar à segunda… Texto curto e belas imagens, logo meu pacote de salgadinhos estava vazio, digo, li o livro inteiro, trinta e poucas crônicas, meio que sem querer, mas chegando ao final querendo mais. “É impossível comer, ou melhor, ler uma só”.

O título é “São Paulo”. O autor, David Lloyd. Na falta de maiores informações sobre ele, supõe-se – pelo sucinto prefácio – seja um forasteiro. Um visitante sem cerimônia, desses que abre a geladeira, festeja o cachorro e deita no sofá fazendo sua a casa alheia. Sem constrangimento e tão à vontade que não soa abusado, pelo contrário. (Olha quem está falando…! Eu também não sou made in Sampaulo.).

O livro foi editado em 2007. Pela editora Casa 21.

Lá pelas tantas, meio que no meio dele, um texto sobre os grafites e grafiteiros que colorem os muros da cidade. A frase que fecha a crônica: “Todo pouco ajuda, mesmo que seja uma pequena pintura”.

Sampaulo não é uma cidade bonita. Aliás, Sampaulo é feia. Raros detalhes de atraente exceção só confirmam essa regra.

Não sei se é impressão minha ou se de fato o tempo mudou e, hoje em dia, temos mais dias claros, de sol, do que antigamente. A regra aqui era cinza, cor de nuvem baixa e carregada, garoa e frio. Tenho para mim que essa meteorologia hostil dava aos construtores da cidade, tanto os de obras públicas quanto os de edificações privadas, a desculpa para a falta de capricho. A rua era só lugar de passagem, não um destino em si. Para que cuidar de fachadas se todos buscavam os interiores onde abrigar-se do mau humor climático? Ainda assim, quando a vaidade exigia exibição de poder e posses, a ostentação de enfeites resultava em pastiches, por vezes grotescos. De raro em vez se encontra um prédio, um viaduto, um monumento ou uma paisagem que se salve. A regra é um minhocão aqui, acolá um edifício “neoclássico” à la Adolpho Lindenberg, entre a calha de um ex rio – canalizado e poluido – e um caixotting-center com portal metido a besta.

Se ao menos a natureza ajudasse, como faz com os cariocas. Qual o que! Até porque muito verde, aqui, só na torcida do Palmeiras.

Não, não se trata de desencanto com minha cidade. Por trás das fachadas, ao abrigo da feiúra exterior, Sampaulo é encantadora.

Sem contar que as coisas começam a mudar. Tudo bem que não precisava transformar ponte estaiada em uniforme, mas antes isso do que aquele “tobogã” sem eira nem beira que tacaram qual cicatriz no lado que era aberto do charmoso Estádio do Pacaembu.

Começando lá em cima, trabalho do tatuiense Dedablio, de El Tono (no Itaim), de Enivo (no Beco do Batman), de Ethos, as "baratas" de Feik, de Galo (de Mogi das Cruzes (aqui pertinho), de Gustavo Ansia, a logotipia de Ise e o impressionante mega mural de Kobra, dominando a Avenida Paulista.

Começando lá em cima, trabalho do tatuiense Dedablio, de El Tono (no Itaim), de Enivo (no Beco do Batman), a arte intrigante de Ethos, as “baratas” de Feik, um “peixe” de Galo (de Mogi das Cruzes (aqui pertinho), grafismo de Gustavo Ansia, a logotipia de Ise e o impressionante mega mural de Kobra, dominando a Avenida Paulista.

Um dos mais pródigos agentes dessa garibada urbana nasceu clandestino, na calada da noite paulistana. Tipo black-blocs das tintas em spray. E o bairro do Cambuci foi o criadouro mais fecundo do grafite paulistano.

Eu credito à feiúra urbana da cidade (que tange o lúgubre, particularmente nas periferias de DNA industrial) a força irrefreável, revolucionária mesmo, e o extraordinário talento dos nossos grafiteiros.

O grafite atingiu o patamar de Arte Urbana por excelência aqui, em Sampaulo. Los Angeles pode espernear, Berlin que arranque os cabelos, Londres caia em depressão, mas não há metrópole no mundo onde vicejem tantos e tão expressivos talentos.

Nova York pode até avocar pioneirismo na transformação de pichação em grafite, de conspurcação em arte – Keith Haring, Basquiat, Barbara Kruger…

Mas foi aqui que a nova linguagem floresceu, sublimando a manifestação de guerrilha cultural – não mais que sujidia – dos pichadores. Esparramou-se pela cidade inteira, da periferia distante à Avenida Paulista, até chegar, reconhecida, às paredes das novas e celebradas galerias de arte de vanguarda.

A garotada paulistana de pouca ou nenhuma posse foi privada de quase tudo que seja belo, lúdico, animador e salubre. Os grafites vieram suprir essas carências vitais. São como seus jardins que o crescimento urbano não preservou. Não é à toa que não se vêm pichações sobre a obra dos grafiteiros.

Daniel Melim, metalúrgico de formação e do engatinhar profissional (meio que lugar comum para quem nasceu em São Bernardo do Campo), virou grafiteiro dos muros por necessidade existencial, tipo exigência da alma criativa. Não planejava carreira artística, mas cumprir a vocação de botar emoção para fora. E fosse o que Deus quisesse…

Deus quis e Daniel é, hoje, um dos grafiteiros mais bem sucedidos do Brasil, com projeção global e trabalhos executados em todo o mundo.

Mas Daniel acredita que, hoje, parcela da garotada que grafita as ruas da Grande Sampaulo não o faz por considerar os muros da cidade o chegar lá de sua vocação artística. Apenas usa os muros como vitrine, em busca do reconhecimento de galerias e marchands que os conduzam ao mercado formal das artes.

Daniel sabe do que está falando. Como a maioria dos grafiteiros de sua geração, ele não se transplantou da periferia despossuída que o gerou. Vive cercado de uma molecada resgatada de situação de risco. Educando-a para as artes, inclusive.

Para desbravadores como ele, grafite é megafone artístico e ideológico. É ação criativa e política.

Da esquerda para a direita, de cima pra baixo, obras de: Nunca, Onesto, osgêmeos, Paulo Ito, Pierre Loco e Rafael Hayashi.

Da esquerda para a direita, de cima pra baixo, obras de: Nunca, Onesto, osgêmeos, Paulo Ito, Pierre Loco e Rafael Hayashi.

Victor “Monociclo”, entretanto, garoto artista que trocou o bairro do Ipiranga natal por um atelier no vizinho Cambuci, não encara as galerias de arte como destino prioritário. Ele encarna o novo grafiteiro. Ainda guerrilheiro da ocupação de muros, mas menos combatente indignado, mais cidadão em busca de negociar seu espaço na urbe. Na definição de sua atividade, ele lança mão das novas tecnologias virtuais: “grafite é um game que usa a cidade como plataforma”; arrematando que são “como plantas trepadeiras, se disseminando pelas paredes, ocupando os muros que os acolham”. Seu talento foi reconhecido na seleção do elenco retratado no livro “São Paulo em Vinte Artistas”, realizado por Alberto Hiar Junior, com apoio da Cavalera. E publicado pelo Governo do Estado..

Foi ele, Victor, que criou o site/aplicativo “Color+City” que facilita o encontro de donos de muros disponíveis e artistas que os embelezem com sua arte. Quem imaginaria há poucos anos que um mecanismo assim contaria, em pouco tempo, com milhares de ofertas? É a confirmação de que os grafites caíram no gosto da classe média paulistana. O mesmo proprietário que recebia grafiteiros com banhos de água fervente, agora se frustra quando vê seu muro virgem de uma obra de arte para chamar de sua. Muitos estão dispostos a pagar pela intervenção, escolhendo o artista que mais lhe agrada. Já são mais de três mil muros oferecidos no aplicativo de Victor, só em Sampaulo! Além de outros tantos no resto do Brasil, nos Estados Unidos, na Europa…. Entra no site (para se impressionar com o êxito desta iniciativa paulistana que se espalha pelo mundo)! E aproveita para assistir, lá, um vídeo sobre o movimento grafiteiro na cidade. Com depoimento de Gilberto Dimenstein, da galeria Choque Cultural, pioneira na incorporação do grafite ao mercado das artes.

O ativista Gilberto Dimenstein e o interior da Galeria Choque Cultural entre duas fachadas recentes do Instituto

O ativista Gilberto Dimenstein e o interior da Galeria Choque Cultural entre duas de suas fachadas recentes (com direito a carro grafitado e tudo)

O fato é que já parece ir longe o tempo em que o governo Kassab mandava apagar grafites, o que gerou um outro filme obrigatório para quem se interessa pelo fenômeno: “Cidade Cinza”, dos cineastas Marcelo Mesquita e Guilherme Vallengo, com trilha original de Criolo e Daniel Ganjaman.

Dentro desse universo que junta arte e rua – no cenário urbano de Sampaulo, um trabalho que chama a atenção pela originalidade é o 6 e meia. O nome 6 e meia se refere aos ponteiros do relógio, juntos, apontando para baixo.

Uma mostra do trabalho bem-humorado da dupla do 6 e Meia, SÃO e Delafuente, encontrável, sobretudo, no bairro da Barra Funda

Uma mostra do trabalho bem-humorado da dupla do 6 e Meia, os grafiteiros SÃO e Delafuente, encontrável, sobretudo, no bairro da Barra Funda

O foco do trabalho da dupla SÃO e Delafuente é o chão da cidade, Asfalto e calçadas, bocas-de-lobo e tampas de bueiro (embora também interfiram em outras peças do mobiliário urbano que não sejam muros).

im_orion6Outro exemplo de grafitagem inusitada – mas já apagado, foi o inquietante trabalho do artista Órion. Com um pano úmido, ele se manifestou na poluição agarrada às paredes do túnel da Avenida Cidade Jardim, denunciando essa “catacumba urbana”- como definiu, na época, Bruna Malburg na Revista MTV.

Mesmo os grafiteiros mais reconhecidos e incensados de Sampaulo, alguns contratados a peso de ouro para ocupar paredes com obras gigantescas, convidados por bienais e mostras importantes do mundo inteiro para expor seus trabalhos – disputados por colecionadores com pagamentos de dezenas de milhares de reais por uma pintura – não abandonaram as ruas. Seu habitat é lá. Vão auferir ganhos em espaços fechados, mas só ao ar livre esses peixes caem n’água.

As mulheres grafiteiras ainda são poucas. Mas deixam sua marca artística em Sampaulo. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Waleska, Magrela, Nina Pandolfo, Tikka e Sinhá

As mulheres grafiteiras ainda são poucas. Mas deixam sua marca artística em Sampaulo.
Da esquerda para a direita, de cima para baixo:
Waleska, Magrela, Nina Pandolfo, Tikka e Sinhá

As ruas de Sampaulo inteira, qualquer bairro em qualquer quadrante, conferem à paulicéia o status de museu vivo, em permanente mutação e ampliação. O maior museu da nova arte no mundo inteiro. Há sempre uma nova obra onde menos se espera.

São trabalhos que surpreendem e emocionam sem qualquer restrição que lhe enforme a expressão. Técnica apurada aqui, traço tosco ali; ora alegria, ora angústia; colorido intenso ou preto no branco; figuração e abstração, humor, melancolia, sarcasmo, medo, denúncia, ludicidade, sensualidade… Tem de tudo. Para todos os gostos e para todos os lados.

Em que outro lugar existe um Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU) – que usa as pilastras do viaduto que corre sobre a Avenida Cruzeiro do Sul – dividindo a mesma cidadania com as pilastras também grafitadas do Minhocão, com o emaranhado de ruas ocupadas em cada centímetro pelos grafiteiros (Beco do Batman, Beco do Aprendiz e seus entornos, na Vila Madalena) e, ainda, os giga-murais de autoria coletiva do Viaduto Jaceguai se esparramando pelos arcos adjacentes e as laterais da Avenida 23 de Maio? Expondo a obra de centenas de ótimos artistas.

Beco do Batman, Beco do Aprendiz, Museu Aberyo de Arte Urbana, Pilastras do Minhocão, Viaduto Jaceguai e Avenida 23 de Maio. Tudo na mesma Sampaulo. E isso é apenas uma amostra do que se espalha por todos os cantos da cidade.

Beco do Batman, Beco do Aprendiz, Museu Aberyo de Arte Urbana, Pilastras do Minhocão, Viaduto Jaceguai e Avenida 23 de Maio. Tudo na mesma Sampaulo. E isso é apenas uma amostra do que se espalha por todos os cantos da cidade.

Sem contar obras solitárias, isoladas, como os fascinantes trabalhos gráficos de Zezão que iluminam de azul os muros de contenção do deprimente rio Tietê.

Os graffitis de Zelão saem das galerias subterrânea para as margens do rio Tietê e, de lá, para lugares mais acessíveis de Sampaulo

Os graffitis de Zezão saem das galerias subterrânea para as margens do rio Tietê e, de lá, para lugares mais acessíveis de Sampaulo

L7m (luís Seven Martins), famoso por seus pássaros, pintou este olhar instigante no meio de uma trepadeira; o colorido Leiga trabalhou em parceria com Ricardo AKN (estas obras de dois ou mais artistas são muito comuns no graffiti); toda a lateral de uma casa, por Lelo; obra de Markone; muaral do onírico Mateus Bailon (minha mãe quase morou neste prédio, numa travessa da Avenida Giovani Gronchi); o nome do artista, Medo, diz muito sobre sua obra; Muretz lida com o humor e Nove é mestre no colorido vivo e abstrato.

L7m (luís Seven Martins), famoso por seus pássaros, pintou este olhar instigante no meio de uma trepadeira; o colorido Leiga trabalhou em parceria com Ricardo AKN (estas obras de dois ou mais artistas são muito comuns no graffiti); toda a lateral de uma casa, por Lelo; obra de Markone; muaral do onírico Mateus Bailon (minha mãe quase morou neste prédio, numa travessa da Avenida Giovani Gronchi); o nome do artista, Medo, diz muito sobre sua obra; Muretz lida com o humor e Nove é mestre no colorido vivo e abstrato.

Por falar do Beco do Batman, recentemente conheci João Cunha, um artista cuja pintura do personagem clássico de HQ, feita na distante década de oitenta, foi responsável pelo batismo do beco hoje célebre como referência global de arte urbana de rua.

Só para ter uma idéia – e longe de citar todos os grafiteiros em atividade na cidade, sente só a multidão de artistas – e coletivos de artistas – de rua de Sampaulo (em lista alfabética para “enquadrar” a galera. Brincadeirinha… Como se desse para encaixilhar essa moçada! A polícia que o diga…): Alex Senna, Alma, Alto Contraste, André Morbeck, ANX, B47, Binho Ribeiro, Carlos Dias, Chivitz, Ciro, Coió, Cranio, Daniel Melim, Dedabliu, Dem, El Tono, Enivo, Ermãos Monjon, Ethos, Fábio Q, Feik, Galo, Gustavo Ansia, Ise, Jaca, Jana Joana, Justo, Kobra, L7m, Leiga, Lelo, Magrela, Markone, Mateus Bailon, Medo, Minhau, Muretz, Nina Pandolfo, Nove, Nunca, Onesto, Órion, osgemeos, Ota, Paulo Ito, Pierre Loco, Pv, Rafael Hayashi, Rafael Roncato, Ramón Martins, Ricardo AKN, Rodrigo Branco, Rui Amaral, Saci Loves You, Sinhá, Speto, Thiago Alvim, Tikka, Tinho, Tsc, Victor Monociclo, Vitché, Vlok, Walesca, Whip, William Mophos, Zezão… Todos em exposição permanente nas paredes da cidade.

O Cambuci é uma mina de preciosidades que merece ser garimpada com vagar. Os cabeções amarelos de osgêmeos estão “escondidos” para todo lado. Como na cena ferroviária de pivetes da parede lateral do Colégio Maristas, na Rua Lavapés (restauro urgente, please!). A mesma parede exibe trabalhos de Nunca, Justo e Nina Pandolfo.

As travessas da Rua da Glória, na Liberdade, estão cheinhas de obras, um pouco menores – no sentido de menos grandes – e mais delicadas. Algumas são obras-primas. Além de osgêmeos, Nunca e Nina Pandolfo, a região guarda trabalhos preciosos de Whip – aparentados da arte japonesa dos mangás.

Os bairros de Pinheiros e de Vila Madalena, vizinhos na zona Oeste de Sampaulo, compõem talvez a mais abrangente e diversificada galeria a céu aberto da cidade. É por ali, na Rua Medeiros de Albuquerque, que fica a Choque Cultural.

A manifestação – antes marginal e perseguida – está tão institucionalizada, alcançou tamanho reconhecimento internacional que várias empresas de receptivo turístico oferecem tours guiados pelos grafites de Sampaulo.

Um dos mais populares é da Around SP. Dura algumas horas, percorre as regiões já citadas e inclui a visita a uma galeria especializada nisso que os estrangeiros chamam de street art.

Hoje, os construtores de Sampaulo já demonstram maior cuidado com as edificações que estão sendo erguidas na cidade. A administração pública começou a ouvir arquitetos antes de entregar suas obras ao cálculo dos engenheiros. E as incorporadoras imobiliárias ousam até chamar estrelas da arquitetura mundial – como o polonês Daniel Libeskind (autor do projeto que substitui as Torres Gêmeas no Ground Zero de Nova York) que criou o cintilante projeto do Edifício Vitra, no bairro do Itaim.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, pinturas espalhadas por Sampaulo de Rafael Roncato (na marquise do Ibirapuera), portão de enrolar de Ramon Martins, muro de Rodrigo Branco e Saci Loves You, obra já histórica na descida do túnel Doutor Arnaldo - Paulista (várias vezes restaurada) de Rui Amaral, iconografia nordestina típica de Speto, trabalho de um dos desbravadores do graffiti paulistano - Tinho, pintra onírica de Vitché, trabalho bem humorado de Whip e o desenho apurado de William Mophos

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, pinturas espalhadas por Sampaulo de Rafael Roncato (na marquise do Ibirapuera), portão de enrolar de Ramon Martins, muro de Rodrigo Branco e Saci Loves You, obra já histórica na descida do túnel Doutor Arnaldo – Paulista (várias vezes restaurada) de Rui Amaral, iconografia nordestina típica de Speto, trabalho de um dos desbravadores do graffiti paulistano – Tinho, pintra onírica da já clássica parceria Vitché e Jana Joana, trabalho bem humorado de Whip e o desenho apurado de William Mophos

Do fruto do pouco caso histórico com a aparência – que ainda impera e que não dá para ser implodido e refeito – cuidam muito bem os grafiteiros.

Agora, sabe para o que me chamou a atenção Alessandra Trindade? Surpreendentemente não há grafites que usem a paixão popular por futebol como tema, em Sampaulo… Bem, se for para alimentar a intolerância agressiva que move as torcidas uniformizadas locais, antes assim, Alessandra.

Lembra o título deste post? Todo pouco ajuda? Foi tirado de uma obra de menos de uma década atrás. Era o engatinhar dos pioneiros, o tempo de um grafite aqui, outro acolá. Focos esparsos de claridade, ajudando – como vagalumes – a salpicar sensibilidade por Sampaulo.

Hoje, milhares – ou dezenas de milhares – de grafites ocupam a cidade. Um turbilhão de emoções (parece título de novela mexicana…) existenciais que excitam nossas emoções sem trégua. Assim como não consigo mais imaginar minha vida sem um celular conectado, não concebo meu rodar por Sampaulo sem essa arte toda a me conduzir o encantamento.

 

(para ver melhor as fotos, clique sobre elas e, quando abrirem em outra página, clique novamente sobre a que voce quer ver, para ampliá-la)

post it

Obrigado, Daniel Melim, artista maior da rua, pela força, pela paciência.
Pessoal do 358, logo, logo, me jogo num post sobre essa coisa incrível que voces estão fazendo aí no Cambuci.
Obrigado Maurício Yazbek. Obrigado João Cunha.