Legado bem legado

Qual a diferença entre herança e legado? Sempre os entendi meio como sinônimos, mas devem discrepar nalguns detalhes. Como divergem ver e olhar, escutar e ouvir, futuro e porvir…

Na minha opinião de não filólogo, herança se refere a bens e valores – materiais ou não – deixados a herdeiros. Um lance tipo legal. Herda-se de pais, tios, padrinhos ou de quem quer que houve por bem nos mimosear diretamente. Herança tem destinatário certo. De um bisavô, por exemplo, herdei um relógio que era um tesouro.

Já legado…. Não deixa de ser herança, mas os donatários são mais abrangentes. Quem quiser pode desfrutar, tirar uma lasquinha, aproveitar, beber na fonte do que foi legado. Beneficiando a todos. Favorecendo a sociedade.

Artistas nos legam sua obra que nos sublima a condição humana. Cientistas nos legam (vamos resumir?) qualidade de vida. E empresários de sucesso, empreendedores que amealham fortunas, o que nos legam? Depende do cara.

Algumas vezes nada. E até um saldo negativo, se o moveu a mera ganância da exploração pura e simples dos recursos humanos e naturais sobre os quais se abateu sua sanha.

Felizmente, muitos desses construtores de riqueza aproveitam sua capacidade de fazer dinheiro para fomentar ciência e arte.

Quando inovadores, fazem o amanhã melhor que o ontem. E nos deixam essa conquista como legado. Quando humanistas, incentivam e promovem as artes e a benemerência. Legam-nos emoção e sensibilidade.

Os donos da riqueza desde sempre foram assim.  Movidos ora a cobiça, ora a generosidade. Alternando visionários e mesquinhos.

Já no Egito, antes de Cristo, houve faraó que construiu a Biblioteca de Alexandria com a intenção de disseminar conhecimento (o objetivo – pretensioso que só – era adquirir cópia de todos os manuscritos existentes no mundo!).

Na Pérsia, em plena Idade Média, quando os cristãos do Ocidente mergulhavam em trevas, os muçulmanos – Avicena à frente – investigavam o corpo humano e proporcionavam avanços à medicina sob patrocínio do rei, o Xá.

Na Florença do Renascimento, a vaidade dos Medici nos legou algumas das joias mais preciosas da história da Arte, ao abrigar Michelangelo, da Vinci, Boticelli, Dante… Só para citar alguns.

Desde a Revolução Industrial, sobrenomes de grandes capitalistas tem batizado fundações essenciais ao desenvolvimento artístico e científico.

Em Sampaulo, não é diferente.

Exemplos?

José Mindlin, empreendedor de sucesso, leitor voraz e bibliófilo de publicações cujo tema fosse o Brasil. Legou-nos uma das melhores e maiores bibliotecas já montada sobre nossa terra e nossa gente, com mais de 60 mil volumes. Doada à Universidade de São Paulo e instalada em belíssimo prédio construída para ela, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin está aberta a leitores, estudiosos e pesquisadores.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Outro?

Olavo Setúbal, banqueiro e industrial e político (foi prefeito de Sampaulo e chanceler brasileiro), reuniu, ao longo de quase cinquenta anos, uma formidável coleção de arte (também focada no Brasil). Em todos os períodos da história da arte brasileira, desde as missões estrangeiras ao país ainda menino. Hoje exposta para nosso deleite e orgulho – muitíssimo bem exposta, diga-se – na sede do Instituto Itaú da avenida paulista. Chama-se, também e sintomaticamente, Coleção Brasiliana. Aberta ao público há coisa de dois anos, já nasceu como um dos mais importantes acervos museológicos da cidade e do país.

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Mais um?

Rodovia dos Imigrantes e bairro do Morumbi (antes do loteamento)

Rodovia dos Imigrantes
e bairro do Morumbi
(antes do loteamento)

Oscar Americano. Descendente de brasileiros ilustres (Tiradentes, Vital Brasil…), empreiteiro, dono de uma das maiores construtoras brasileiras de sua época – a CBPO (sabe a via Anchieta e a rodovia dos Imigrantes, extraordinárias realizações da engenharia brasileira? Tem seu dedo e competência lá). Além disso, atuou com ousadia ne especulação imobiliária: adquiriu a vasta área devastada de uma antiga plantação de chá, a Fazenda Morumbi, na então distante margem de lá do rio Pinheiros, para transformá-la em bairro.

Imagino a inculpação de perdulário, visionário e excêntrico que Oscar Americano enfrentou, ainda lá pelas décadas de 40 e 50 do século passado, ao se dedicar com perseverança ao reflorestamento de toda a imensa área. Numa época em que a regra era o inverso. Mesmo considerando sua intenção de valorizar esse “latifúndio” urbano, para posterior loteamento, urbanização e transformação no que viria a ser uma das áreas residenciais mais nobres e disputadas de Sampaulo.

É verdade que seus fornecedores de mudas encararam um cliente duro na queda, já que Oscar Americano só pagava pelo que de fato vingasse e crescesse.

Há quase setenta anos, ele reservou para si uma gleba de três alqueires escolhida a dedo. A joia preciosíssima de seu tesouro imobiliário. No cocuruto, o ponto mais alto dessas terras. Ali, caprichou na seleção de qualidade e variedade das mudas replantadas – com assessoria, inclusive, de botânico paisagista. E contratou um já renomado arquiteto – Oswaldo Bratke – para criar sua futura casa.

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O resultado é uma obra-prima da arquitetura modernista. Uma construção arrojada e atraente. Que interage com a exuberante natureza de seu entorno. Incorporando, até, uma encantadora cascata entre espelhos d’água geométricos no seu jardim que meio que invade simbioticamente a casa.

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke
ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

Mudou-se para lá no início dos anos 50, com sua belíssima esposa carioca, Maria Luisa. E, durante vinte anos, viveram nessa passárgada particular, criaram seus cinco filhos e assistiram, de camarote, o florescer do bairro urdido por ele. Viram, inclusive, a área fronteiriça à sua, onde se construía a Universidade Matarazzo, ser transformada em sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes, em 1964.

Maria Luisa e Oscar Americano

Maria Luisa e Oscar Americano

Em 1972, Oscar Americano perdeu a esposa. Antes de morrer, dois anos depois, criou a Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Para cuidar da propriedade, de seu acervo natural, arquitetônico e das obras de arte e históricas amealhadas pelo casal. E oferecer tudo isso ao desfrute público.

A fundação foi aberta à visitação em 1980. E, desde então, tem recebido figuras ilustres, como a célebre primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher. Além de, como se comenta, ser usada com frequência pelo governadoress de plantão, antes de abrir para o público, às dez da manhã, para suas caminhadas matinais.

Há décadas sou frequentador apaixonado do lugar.

Seduzido pela vivacidade da surpreendente e bem cuidada selva urbana que abriga milhares de aves da urbanidade inóspita.

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Fascinado pelo emocionante e surpreendente projeto arquitetônico da casa sede, aí incluído o belo piso/mosaico do pátio dos fundos (se é que algum lado possa ser definido como fundo) e a cascata interior, ambos criados pelo artista Lívio Abramo.

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Estimulado por uma nova visita ao acervo, que inclui a bela biblioteca dos antigos proprietários. E obras de Franz Post, Portinari, Lasar Segall… Além de tesouros da arte sacra barroca, das duas grandes e extraordinárias tapeçarias centenárias, das belíssimas porcelanas utilitárias, da vitrine farta de prataria de esmerada lavra e da preciosa coleção de memorabilia cortesã do império brasileiro. Sem contar os retratos do casal Maria Luiza e Oscar, diante dos quais sempre paro para agradecer a magnitude do legado.

Biblioteca original de Oscar Americano

Biblioteca original de Oscar Americano

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Obras de Franz Post

Obras de Franz Post

Pintura de Portinari (acima) e Lasar Segall (embaixo)

Pintura de Portinari (acima)
e Lasar Segall (embaixo)

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Memorabilia imperial brasileira

Memorabilia imperial brasileira

Esculturas adornam o parque

Esculturas adornam o parque

Incitado pelo deleite dos recitais e concertos de câmara – mensais, matinais, dominicais – que rolam no confortável auditório da fundação. Que já recebeu, entre outros tantos músicos, o talento fora de série do pianista Marcelo Bratke, neto do arquiteto da casa, Oswaldo Bratke.

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E vou sempre em horário que coincida com os célebres chás da tarde, encantadores, servidos de terça a domingo, na varanda ou no salão britanicamente ambientado para um típico five o’clock tea; um deleite gastronômico cada vez mais raros, a um tempo requintado e singelo.

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Lá, preserva-se o velho e distinto charme europeu. O serviço é primoroso – seja pela sofisticação sem salamaleques de louças, mobília e ambientação, seja pela cortesia das atendentes. Mas que já ofereceu quitutes melhores. A fartura e variedade estão lá. Boas opções de infusões inglesas, café ou chocolate. Sucos naturais, pãezinhos e sanduichinhos caprichados. Mas o capítulo de salgadinhos e doces já conheceu melhores fornecedores, como pude constatar em visita recente. Uma ou outra guloseima de melhor qualidade em meio à profusão de quitutes industriais ou “de padaria”.

Estrutura do "puxadão" de eventos e exuberante decoração de uma festa

Estrutura do “puxadão” de eventos
e exuberante decoração de uma festa

 

E, já que estou falando dos escorregões, registro meu repúdio à grande estrovenga estrutural, instalada como puxadão da bela casa, à guisa de toldo para abrigar eventos. Tem o maior jeitão de provisório, mas perenizou-se pela constante requisição do espaço para realização, principalmente, de casamentos. Um estropício que compromete legal a estética do lugar. Uma pena! Mas inevitável, já que a fundação precisa da receita financeira dessas efemérides para se manter.

Uma célebre festa de bodas que movimentou o grand monde de Sampaulo – e de europas, franças e bahias, há alguns anos, pode não ter sido o primeiro a acontecer ali. Mas o enlace da herdeira Athina Onassis com o cavaleiro Doda Miranda, a coisa de uns dez anos, transformou a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em sonho de consumo de nubentes chiques da cidade.

À inconveniência do tal toldo e à decadência de parte das iguarias do chá, eu ainda acrescentaria a falta de um projeto expositivo mais sedutor, mais charmoso, do acervo.

Mas nada disso diminui o encanto de uma tarde desfrutada nos antigos domínios da bela Maria Luisa e de seu marido, o magnata Oscar Americano.

Tudo isso legado a nós por uma ainda rara, mas louvabilíssima iniciativa de retribuição à sociedade pelo sucesso conquistado em vida. Um jeito honorável com que os conquistadores do passado brindam o futuro que ajudaram a construir.

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Conheci, recentemente, um belo e ousado projeto do também arquiteto Carlos Bratke, filho do criador da casa da fundação, Oswaldo Bratke.

Carlos e o irmão (mais um arquiteto), Roberto, são os autores de oito (!) em cada dez projetos dos prédios que embelezam o polo empresarial que se instalou ao longo da avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini.

Parênteses: sem que fosse essa a intenção, este artigo acabou por se transformar, também, em tributo ao notável clã paulistano Bratke – Oswaldo, Carlos, Roberto, Marcelo…. Fecha parênteses.

Há alguns anos, Carlos elaborou uma reforma para a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano. Que inclui, ao lado de outras pequenas melhorias, a construção de um vasto espaço para exposições e eventos, pasmem, subterrânea, sob a ampla piscina da propriedade. Inclusive com iluminação diurna através de suas águas.

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Projeto de Carlos Bratke para ampliação "subterrânea" do espaço expositivo e de eventos da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Projeto de Carlos Bratke para ampliação “subterrânea”
do espaço expositivo e de eventos
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Pelo que eu soube informalmente, a realização do projeto foi assumida pela Odebrecht. Por enquanto, nadica de nada. Mas que seria um ganho e tanto para a cidade, a isso seria…

 

Todo pouco ajuda

Sabe aquele famoso slogan de salgadinhos: “é impossível  comer um só”?

Aliás, isso me lembra um gaiato par de travestis, na carioca Banda de Ipanema, em mil novecentos e bota tempo nisso, vestidos iguais, levando uma plaquinha escrita de um lado, “as irmãs Elma-Chips”; do outro, “impossível comer uma só”.

Voltando ao livro, quer dizer… Ainda nem falei do livro!

Acabei de devorar um “livro Elma-Chips”. Um livro de crônicas curtas e expressivas sobre facetas recônditas de Sampaulo. Pinçadas da intimidade da cidade. Cada texto ilustrado com uma aquarela ou fotografia. Adoráveis, crônicas e ilustrações. Adequadíssimos, cada um a seu cada qual, como se um legendasse o outro.

De cima para baixo, trabalhos de Alex Senna, Alama, Alto Contraste (que reune o casal Lee e Lou), André Morbeck, B47 (que traduz legal a realidade industrial de sua Santo André), Binho Ribeiro, Chivitz (em parceria com sua parceira recorrente, Minhau, "especialista" em gatos), Crânio (índios críticos, é com ele) e Daniel Melim (autor desta obra de referência do graffiti de Sampaulo, no bairro da Luz).

De cima para baixo, trabalhos de Alex Senna, Alama, Alto Contraste (que reune o casal Lee e Lou), André Morbeck, B47 (que traduz legal a realidade industrial de sua Santo André), Binho Ribeiro, Chivitz (em parceria com sua parceira recorrente, Minhau, “especialista” em gatos), Crânio (índios críticos, é com ele) e Daniel Melim (autor desta obra de referência do graffiti de Sampaulo, no bairro da Luz).

Comecei a folhear o livro com superficial curiosidade. A capa é atraente e sugestiva, mas não pretendia mais do que dedicar-lhe uma vista d’olhos rápida. Não resisti ler a primeira, tampouco passar à segunda… Texto curto e belas imagens, logo meu pacote de salgadinhos estava vazio, digo, li o livro inteiro, trinta e poucas crônicas, meio que sem querer, mas chegando ao final querendo mais. “É impossível comer, ou melhor, ler uma só”.

O título é “São Paulo”. O autor, David Lloyd. Na falta de maiores informações sobre ele, supõe-se – pelo sucinto prefácio – seja um forasteiro. Um visitante sem cerimônia, desses que abre a geladeira, festeja o cachorro e deita no sofá fazendo sua a casa alheia. Sem constrangimento e tão à vontade que não soa abusado, pelo contrário. (Olha quem está falando…! Eu também não sou made in Sampaulo.).

O livro foi editado em 2007. Pela editora Casa 21.

Lá pelas tantas, meio que no meio dele, um texto sobre os grafites e grafiteiros que colorem os muros da cidade. A frase que fecha a crônica: “Todo pouco ajuda, mesmo que seja uma pequena pintura”.

Sampaulo não é uma cidade bonita. Aliás, Sampaulo é feia. Raros detalhes de atraente exceção só confirmam essa regra.

Não sei se é impressão minha ou se de fato o tempo mudou e, hoje em dia, temos mais dias claros, de sol, do que antigamente. A regra aqui era cinza, cor de nuvem baixa e carregada, garoa e frio. Tenho para mim que essa meteorologia hostil dava aos construtores da cidade, tanto os de obras públicas quanto os de edificações privadas, a desculpa para a falta de capricho. A rua era só lugar de passagem, não um destino em si. Para que cuidar de fachadas se todos buscavam os interiores onde abrigar-se do mau humor climático? Ainda assim, quando a vaidade exigia exibição de poder e posses, a ostentação de enfeites resultava em pastiches, por vezes grotescos. De raro em vez se encontra um prédio, um viaduto, um monumento ou uma paisagem que se salve. A regra é um minhocão aqui, acolá um edifício “neoclássico” à la Adolpho Lindenberg, entre a calha de um ex rio – canalizado e poluido – e um caixotting-center com portal metido a besta.

Se ao menos a natureza ajudasse, como faz com os cariocas. Qual o que! Até porque muito verde, aqui, só na torcida do Palmeiras.

Não, não se trata de desencanto com minha cidade. Por trás das fachadas, ao abrigo da feiúra exterior, Sampaulo é encantadora.

Sem contar que as coisas começam a mudar. Tudo bem que não precisava transformar ponte estaiada em uniforme, mas antes isso do que aquele “tobogã” sem eira nem beira que tacaram qual cicatriz no lado que era aberto do charmoso Estádio do Pacaembu.

Começando lá em cima, trabalho do tatuiense Dedablio, de El Tono (no Itaim), de Enivo (no Beco do Batman), de Ethos, as "baratas" de Feik, de Galo (de Mogi das Cruzes (aqui pertinho), de Gustavo Ansia, a logotipia de Ise e o impressionante mega mural de Kobra, dominando a Avenida Paulista.

Começando lá em cima, trabalho do tatuiense Dedablio, de El Tono (no Itaim), de Enivo (no Beco do Batman), a arte intrigante de Ethos, as “baratas” de Feik, um “peixe” de Galo (de Mogi das Cruzes (aqui pertinho), grafismo de Gustavo Ansia, a logotipia de Ise e o impressionante mega mural de Kobra, dominando a Avenida Paulista.

Um dos mais pródigos agentes dessa garibada urbana nasceu clandestino, na calada da noite paulistana. Tipo black-blocs das tintas em spray. E o bairro do Cambuci foi o criadouro mais fecundo do grafite paulistano.

Eu credito à feiúra urbana da cidade (que tange o lúgubre, particularmente nas periferias de DNA industrial) a força irrefreável, revolucionária mesmo, e o extraordinário talento dos nossos grafiteiros.

O grafite atingiu o patamar de Arte Urbana por excelência aqui, em Sampaulo. Los Angeles pode espernear, Berlin que arranque os cabelos, Londres caia em depressão, mas não há metrópole no mundo onde vicejem tantos e tão expressivos talentos.

Nova York pode até avocar pioneirismo na transformação de pichação em grafite, de conspurcação em arte – Keith Haring, Basquiat, Barbara Kruger…

Mas foi aqui que a nova linguagem floresceu, sublimando a manifestação de guerrilha cultural – não mais que sujidia – dos pichadores. Esparramou-se pela cidade inteira, da periferia distante à Avenida Paulista, até chegar, reconhecida, às paredes das novas e celebradas galerias de arte de vanguarda.

A garotada paulistana de pouca ou nenhuma posse foi privada de quase tudo que seja belo, lúdico, animador e salubre. Os grafites vieram suprir essas carências vitais. São como seus jardins que o crescimento urbano não preservou. Não é à toa que não se vêm pichações sobre a obra dos grafiteiros.

Daniel Melim, metalúrgico de formação e do engatinhar profissional (meio que lugar comum para quem nasceu em São Bernardo do Campo), virou grafiteiro dos muros por necessidade existencial, tipo exigência da alma criativa. Não planejava carreira artística, mas cumprir a vocação de botar emoção para fora. E fosse o que Deus quisesse…

Deus quis e Daniel é, hoje, um dos grafiteiros mais bem sucedidos do Brasil, com projeção global e trabalhos executados em todo o mundo.

Mas Daniel acredita que, hoje, parcela da garotada que grafita as ruas da Grande Sampaulo não o faz por considerar os muros da cidade o chegar lá de sua vocação artística. Apenas usa os muros como vitrine, em busca do reconhecimento de galerias e marchands que os conduzam ao mercado formal das artes.

Daniel sabe do que está falando. Como a maioria dos grafiteiros de sua geração, ele não se transplantou da periferia despossuída que o gerou. Vive cercado de uma molecada resgatada de situação de risco. Educando-a para as artes, inclusive.

Para desbravadores como ele, grafite é megafone artístico e ideológico. É ação criativa e política.

Da esquerda para a direita, de cima pra baixo, obras de: Nunca, Onesto, osgêmeos, Paulo Ito, Pierre Loco e Rafael Hayashi.

Da esquerda para a direita, de cima pra baixo, obras de: Nunca, Onesto, osgêmeos, Paulo Ito, Pierre Loco e Rafael Hayashi.

Victor “Monociclo”, entretanto, garoto artista que trocou o bairro do Ipiranga natal por um atelier no vizinho Cambuci, não encara as galerias de arte como destino prioritário. Ele encarna o novo grafiteiro. Ainda guerrilheiro da ocupação de muros, mas menos combatente indignado, mais cidadão em busca de negociar seu espaço na urbe. Na definição de sua atividade, ele lança mão das novas tecnologias virtuais: “grafite é um game que usa a cidade como plataforma”; arrematando que são “como plantas trepadeiras, se disseminando pelas paredes, ocupando os muros que os acolham”. Seu talento foi reconhecido na seleção do elenco retratado no livro “São Paulo em Vinte Artistas”, realizado por Alberto Hiar Junior, com apoio da Cavalera. E publicado pelo Governo do Estado..

Foi ele, Victor, que criou o site/aplicativo “Color+City” que facilita o encontro de donos de muros disponíveis e artistas que os embelezem com sua arte. Quem imaginaria há poucos anos que um mecanismo assim contaria, em pouco tempo, com milhares de ofertas? É a confirmação de que os grafites caíram no gosto da classe média paulistana. O mesmo proprietário que recebia grafiteiros com banhos de água fervente, agora se frustra quando vê seu muro virgem de uma obra de arte para chamar de sua. Muitos estão dispostos a pagar pela intervenção, escolhendo o artista que mais lhe agrada. Já são mais de três mil muros oferecidos no aplicativo de Victor, só em Sampaulo! Além de outros tantos no resto do Brasil, nos Estados Unidos, na Europa…. Entra no site (para se impressionar com o êxito desta iniciativa paulistana que se espalha pelo mundo)! E aproveita para assistir, lá, um vídeo sobre o movimento grafiteiro na cidade. Com depoimento de Gilberto Dimenstein, da galeria Choque Cultural, pioneira na incorporação do grafite ao mercado das artes.

O ativista Gilberto Dimenstein e o interior da Galeria Choque Cultural entre duas fachadas recentes do Instituto

O ativista Gilberto Dimenstein e o interior da Galeria Choque Cultural entre duas de suas fachadas recentes (com direito a carro grafitado e tudo)

O fato é que já parece ir longe o tempo em que o governo Kassab mandava apagar grafites, o que gerou um outro filme obrigatório para quem se interessa pelo fenômeno: “Cidade Cinza”, dos cineastas Marcelo Mesquita e Guilherme Vallengo, com trilha original de Criolo e Daniel Ganjaman.

Dentro desse universo que junta arte e rua – no cenário urbano de Sampaulo, um trabalho que chama a atenção pela originalidade é o 6 e meia. O nome 6 e meia se refere aos ponteiros do relógio, juntos, apontando para baixo.

Uma mostra do trabalho bem-humorado da dupla do 6 e Meia, SÃO e Delafuente, encontrável, sobretudo, no bairro da Barra Funda

Uma mostra do trabalho bem-humorado da dupla do 6 e Meia, os grafiteiros SÃO e Delafuente, encontrável, sobretudo, no bairro da Barra Funda

O foco do trabalho da dupla SÃO e Delafuente é o chão da cidade, Asfalto e calçadas, bocas-de-lobo e tampas de bueiro (embora também interfiram em outras peças do mobiliário urbano que não sejam muros).

im_orion6Outro exemplo de grafitagem inusitada – mas já apagado, foi o inquietante trabalho do artista Órion. Com um pano úmido, ele se manifestou na poluição agarrada às paredes do túnel da Avenida Cidade Jardim, denunciando essa “catacumba urbana”- como definiu, na época, Bruna Malburg na Revista MTV.

Mesmo os grafiteiros mais reconhecidos e incensados de Sampaulo, alguns contratados a peso de ouro para ocupar paredes com obras gigantescas, convidados por bienais e mostras importantes do mundo inteiro para expor seus trabalhos – disputados por colecionadores com pagamentos de dezenas de milhares de reais por uma pintura – não abandonaram as ruas. Seu habitat é lá. Vão auferir ganhos em espaços fechados, mas só ao ar livre esses peixes caem n’água.

As mulheres grafiteiras ainda são poucas. Mas deixam sua marca artística em Sampaulo. Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Waleska, Magrela, Nina Pandolfo, Tikka e Sinhá

As mulheres grafiteiras ainda são poucas. Mas deixam sua marca artística em Sampaulo.
Da esquerda para a direita, de cima para baixo:
Waleska, Magrela, Nina Pandolfo, Tikka e Sinhá

As ruas de Sampaulo inteira, qualquer bairro em qualquer quadrante, conferem à paulicéia o status de museu vivo, em permanente mutação e ampliação. O maior museu da nova arte no mundo inteiro. Há sempre uma nova obra onde menos se espera.

São trabalhos que surpreendem e emocionam sem qualquer restrição que lhe enforme a expressão. Técnica apurada aqui, traço tosco ali; ora alegria, ora angústia; colorido intenso ou preto no branco; figuração e abstração, humor, melancolia, sarcasmo, medo, denúncia, ludicidade, sensualidade… Tem de tudo. Para todos os gostos e para todos os lados.

Em que outro lugar existe um Museu Aberto de Arte Urbana (MAAU) – que usa as pilastras do viaduto que corre sobre a Avenida Cruzeiro do Sul – dividindo a mesma cidadania com as pilastras também grafitadas do Minhocão, com o emaranhado de ruas ocupadas em cada centímetro pelos grafiteiros (Beco do Batman, Beco do Aprendiz e seus entornos, na Vila Madalena) e, ainda, os giga-murais de autoria coletiva do Viaduto Jaceguai se esparramando pelos arcos adjacentes e as laterais da Avenida 23 de Maio? Expondo a obra de centenas de ótimos artistas.

Beco do Batman, Beco do Aprendiz, Museu Aberyo de Arte Urbana, Pilastras do Minhocão, Viaduto Jaceguai e Avenida 23 de Maio. Tudo na mesma Sampaulo. E isso é apenas uma amostra do que se espalha por todos os cantos da cidade.

Beco do Batman, Beco do Aprendiz, Museu Aberyo de Arte Urbana, Pilastras do Minhocão, Viaduto Jaceguai e Avenida 23 de Maio. Tudo na mesma Sampaulo. E isso é apenas uma amostra do que se espalha por todos os cantos da cidade.

Sem contar obras solitárias, isoladas, como os fascinantes trabalhos gráficos de Zezão que iluminam de azul os muros de contenção do deprimente rio Tietê.

Os graffitis de Zelão saem das galerias subterrânea para as margens do rio Tietê e, de lá, para lugares mais acessíveis de Sampaulo

Os graffitis de Zezão saem das galerias subterrânea para as margens do rio Tietê e, de lá, para lugares mais acessíveis de Sampaulo

L7m (luís Seven Martins), famoso por seus pássaros, pintou este olhar instigante no meio de uma trepadeira; o colorido Leiga trabalhou em parceria com Ricardo AKN (estas obras de dois ou mais artistas são muito comuns no graffiti); toda a lateral de uma casa, por Lelo; obra de Markone; muaral do onírico Mateus Bailon (minha mãe quase morou neste prédio, numa travessa da Avenida Giovani Gronchi); o nome do artista, Medo, diz muito sobre sua obra; Muretz lida com o humor e Nove é mestre no colorido vivo e abstrato.

L7m (luís Seven Martins), famoso por seus pássaros, pintou este olhar instigante no meio de uma trepadeira; o colorido Leiga trabalhou em parceria com Ricardo AKN (estas obras de dois ou mais artistas são muito comuns no graffiti); toda a lateral de uma casa, por Lelo; obra de Markone; muaral do onírico Mateus Bailon (minha mãe quase morou neste prédio, numa travessa da Avenida Giovani Gronchi); o nome do artista, Medo, diz muito sobre sua obra; Muretz lida com o humor e Nove é mestre no colorido vivo e abstrato.

Por falar do Beco do Batman, recentemente conheci João Cunha, um artista cuja pintura do personagem clássico de HQ, feita na distante década de oitenta, foi responsável pelo batismo do beco hoje célebre como referência global de arte urbana de rua.

Só para ter uma idéia – e longe de citar todos os grafiteiros em atividade na cidade, sente só a multidão de artistas – e coletivos de artistas – de rua de Sampaulo (em lista alfabética para “enquadrar” a galera. Brincadeirinha… Como se desse para encaixilhar essa moçada! A polícia que o diga…): Alex Senna, Alma, Alto Contraste, André Morbeck, ANX, B47, Binho Ribeiro, Carlos Dias, Chivitz, Ciro, Coió, Cranio, Daniel Melim, Dedabliu, Dem, El Tono, Enivo, Ermãos Monjon, Ethos, Fábio Q, Feik, Galo, Gustavo Ansia, Ise, Jaca, Jana Joana, Justo, Kobra, L7m, Leiga, Lelo, Magrela, Markone, Mateus Bailon, Medo, Minhau, Muretz, Nina Pandolfo, Nove, Nunca, Onesto, Órion, osgemeos, Ota, Paulo Ito, Pierre Loco, Pv, Rafael Hayashi, Rafael Roncato, Ramón Martins, Ricardo AKN, Rodrigo Branco, Rui Amaral, Saci Loves You, Sinhá, Speto, Thiago Alvim, Tikka, Tinho, Tsc, Victor Monociclo, Vitché, Vlok, Walesca, Whip, William Mophos, Zezão… Todos em exposição permanente nas paredes da cidade.

O Cambuci é uma mina de preciosidades que merece ser garimpada com vagar. Os cabeções amarelos de osgêmeos estão “escondidos” para todo lado. Como na cena ferroviária de pivetes da parede lateral do Colégio Maristas, na Rua Lavapés (restauro urgente, please!). A mesma parede exibe trabalhos de Nunca, Justo e Nina Pandolfo.

As travessas da Rua da Glória, na Liberdade, estão cheinhas de obras, um pouco menores – no sentido de menos grandes – e mais delicadas. Algumas são obras-primas. Além de osgêmeos, Nunca e Nina Pandolfo, a região guarda trabalhos preciosos de Whip – aparentados da arte japonesa dos mangás.

Os bairros de Pinheiros e de Vila Madalena, vizinhos na zona Oeste de Sampaulo, compõem talvez a mais abrangente e diversificada galeria a céu aberto da cidade. É por ali, na Rua Medeiros de Albuquerque, que fica a Choque Cultural.

A manifestação – antes marginal e perseguida – está tão institucionalizada, alcançou tamanho reconhecimento internacional que várias empresas de receptivo turístico oferecem tours guiados pelos grafites de Sampaulo.

Um dos mais populares é da Around SP. Dura algumas horas, percorre as regiões já citadas e inclui a visita a uma galeria especializada nisso que os estrangeiros chamam de street art.

Hoje, os construtores de Sampaulo já demonstram maior cuidado com as edificações que estão sendo erguidas na cidade. A administração pública começou a ouvir arquitetos antes de entregar suas obras ao cálculo dos engenheiros. E as incorporadoras imobiliárias ousam até chamar estrelas da arquitetura mundial – como o polonês Daniel Libeskind (autor do projeto que substitui as Torres Gêmeas no Ground Zero de Nova York) que criou o cintilante projeto do Edifício Vitra, no bairro do Itaim.

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, pinturas espalhadas por Sampaulo de Rafael Roncato (na marquise do Ibirapuera), portão de enrolar de Ramon Martins, muro de Rodrigo Branco e Saci Loves You, obra já histórica na descida do túnel Doutor Arnaldo - Paulista (várias vezes restaurada) de Rui Amaral, iconografia nordestina típica de Speto, trabalho de um dos desbravadores do graffiti paulistano - Tinho, pintra onírica de Vitché, trabalho bem humorado de Whip e o desenho apurado de William Mophos

Da esquerda para a direita, de cima para baixo, pinturas espalhadas por Sampaulo de Rafael Roncato (na marquise do Ibirapuera), portão de enrolar de Ramon Martins, muro de Rodrigo Branco e Saci Loves You, obra já histórica na descida do túnel Doutor Arnaldo – Paulista (várias vezes restaurada) de Rui Amaral, iconografia nordestina típica de Speto, trabalho de um dos desbravadores do graffiti paulistano – Tinho, pintra onírica da já clássica parceria Vitché e Jana Joana, trabalho bem humorado de Whip e o desenho apurado de William Mophos

Do fruto do pouco caso histórico com a aparência – que ainda impera e que não dá para ser implodido e refeito – cuidam muito bem os grafiteiros.

Agora, sabe para o que me chamou a atenção Alessandra Trindade? Surpreendentemente não há grafites que usem a paixão popular por futebol como tema, em Sampaulo… Bem, se for para alimentar a intolerância agressiva que move as torcidas uniformizadas locais, antes assim, Alessandra.

Lembra o título deste post? Todo pouco ajuda? Foi tirado de uma obra de menos de uma década atrás. Era o engatinhar dos pioneiros, o tempo de um grafite aqui, outro acolá. Focos esparsos de claridade, ajudando – como vagalumes – a salpicar sensibilidade por Sampaulo.

Hoje, milhares – ou dezenas de milhares – de grafites ocupam a cidade. Um turbilhão de emoções (parece título de novela mexicana…) existenciais que excitam nossas emoções sem trégua. Assim como não consigo mais imaginar minha vida sem um celular conectado, não concebo meu rodar por Sampaulo sem essa arte toda a me conduzir o encantamento.

 

(para ver melhor as fotos, clique sobre elas e, quando abrirem em outra página, clique novamente sobre a que voce quer ver, para ampliá-la)

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Obrigado, Daniel Melim, artista maior da rua, pela força, pela paciência.
Pessoal do 358, logo, logo, me jogo num post sobre essa coisa incrível que voces estão fazendo aí no Cambuci.
Obrigado Maurício Yazbek. Obrigado João Cunha.