Fora de Mão

No meio da Praça da Sé, bem em frente à escadaria da Catedral de Sampaulo, tem um pedestal pitoresco que sinaliza o Marco Zero da cidade. Em volta dele, no chão, uma grande rosa-dos-ventos. Uma estrela que assinala os pontos cardeais: norte, sul, leste e oeste.

SAO-PAULO-BRAZIL.-December-06-2012-D

 

O marco em si é um pilar sextavado, de um metro de altura. Em cima dele tem uma placa de bronze onde se lê o nome dos lugares para onde fita cada uma das faces da meia coluna: Santos, Rio, Minas, Goiás, Mato Grosso e Paraná.

A princípio, quando se calcula a distância entre Sampaulo e qualquer outra cidade, a conta deve começar aqui. Daí, Marco Zero.

É por isso que, quando se viaja por terra, mal se entra na rodovia a quilometragem da estrada já começa a contar em quatorze, dezenove ou vinte e tantos quilômetros. É a distância entre a Praça da Sé e aquele ponto.

Se o Marco Zero houvesse sido definido no local de fundação da cidade, estaria plantado a poucos passos de onde se encontra, no Pátio do Colégio. É onde Manuel da Nóbrega, José de Anchieta e os colonizadores de Cristo & Portugal ergueram sua cidadela avançada de conquista: uma igreja e uma escola onde catequizar e ensinar os índios. Consagraram a capela a São Paulo Apóstolo. Em 1554.

Há de se reconhecer que escolheram bem nosso guia condutor, protetor e padroeiro. Olha só no que deu. Em torno do altar original se amontoam bem mais de uma dezena de milhão de almas.

Sampaulo se esparramou por um território maior do que o sonho do latifundiário mais ganancioso. Com gente suficiente para lotar mais de quatrocentas mil caravelas semelhantes às que trouxeram a tripulação original da cidade.

Cresceu ao sabor das condições geográficas (relevo, beira de rios…). Ou arrastada pela especulação imobiliária. Tipo, antigamente, os loteadores dos jardins convenceram seus clientes que o sucesso morava longe da Moóca, do outro lado da cidade. A elite urbana adotou a encosta poente do espigão da paulista e seguiu avançando até atravessar o Rio Pinheiros, Morumbi adentro. Hoje, os novos incorporadores convencem a freguesia de que o sucesso tem opção: morar adiante da Moóca: Batizou a Zona Leste como ZêLê, tratou-a como principado da nova classe mádia, e determinou que os limites lestistas são infinitos (taí o Jardim Anália Franco, convencido de que o mundo começa lá).

Com a área urbana paulistana ainda restrita, era natural que os melhores fornecedores se concentrassem perto do miolo da cidade. Para atender consumidores espalhados em seu entorno. Isso facilitava o acesso da freguesia vinda de todos os quadrantes.

Já os que focavam no alto poder de consumo da elite endinheirada, tratou de acompanhar sua migração. Ao longo do tempo, os bons restaurantes que ocupavam o entorno do Marco Zero, atravessaram o Viaduto do Chá, subiram a Avenida Angélica, a Rua da Consolação, a Rua Augusta, a Avenida Brigadeiro Luís Antônio… Se espalharam pela Avenida Paulista, despencaram até a Avenida Faria Lima e continuam avançando.

Alguns poucos, entretanto, se estabeleceram desgarrados. E, à distância, impuseram sua qualidade ao difícil acesso.

A família Deyrmendjian, por exemplo, não permitiu que a localização fora de mão lhe impedisse de proclamar talento culinário a partir do esconderijo onde instalou sua Casa Garabed (diz-se Garabê). Não é exagero, não. Nem a excelência dos acepipes armênios servidos ali, nem a dificuldade para encontrar o lugar e se deleitar com eles. Já no meio do emaranhado de ladeiras de um morro do bairro de Santana, você vai achar que o número duzentos e dezesseis da Rua José Margarido não é um endereço, mas uma senha em código. E o pior é que mesmo quando você chega não encontra, ou melhor, não acredita que é ali.

Acredite, a Casa Garabed é aqui.

Acredite, a Casa Garabed é aqui. Quase um esconderijo em meio aos sobrados de Santana.

Chegou? Prepare-se para proporcionar prazeres raros a seu paladar.

A Armênia é uma nova velha Nação. Só recentemente reconquistou a autonomia, com o fim do império soviético. É antiquíssima, entretanto. Foi uma das pioneiras a se converter ao cristianismo. Por conta disso, sempre padeceu, cercada por muçulmanos, espremida entre a Turquia, o Irã, o Azerbaijão (ele existe, não é apenas um país inventado por HQs) e a Georgia. Com esses últimos, foi submetida à ditadura comunista imposta por Moscou às URSS, durante décadas. Isso, quando acabava de ter seu povo massacrado pelos turcos, num holocausto só comparável ao sofrido pelos judeus (e outras minorias que incomodavam o Reich nazista), durante os anos sombrios do hitlerismo.

Interior da IgrejaApostólica Armênia de São Jorge e painel com doadores de sua construção (sobrenomes "ian")

Interior da Igreja Apostólica Armênia de São Jorge e painel com doadores de sua construção (sobrenomes “ian”)

Para fugir desses martírios, muitos armênios se refugiaram no continente americano. Inclusive aqui, no Brasil. Sobretudo em Sampaulo onde construíram uma igreja de belo interior, consagrada a São Jorge, na avenida Tiradentes.

Apesar de pequena, com não mais do que três milhões de habitantes, a Armênia tem língua própria e um alfabeto pitoresco: կենդանի հայերեն բրազիլական. Quero ver é ler…

E uma característica peculiar: os sobrenomes de origem armênia acabam em “ian”. Quer ver? Aracy Balabanian, Stephan Nercessian, o ex governador – do Mato Grosso – Pedro Pedrossian… Todos brasileiros de origem armênia. Nos Estados Unidos, uma das celebridades maiores da atualidade, Kim Kardashian, também.Agora, quando você encontrar com Fiuk (o nome dele é Felipe Kartalian), já sabe com quem está falando.

Adiante um pouco da sua igreja paulistana, foram homenageados pelo metrô, em sua primeira linha, com a estação Armênia.

Na inauguração, alguém de alma sensível, houve por bem convidar um imigrante que conseguira escapar do genocídio para anunciar a chegada do primeiro trem. Quem nunca circulou no metro de Sampaulo talvez não saiba que no percurso entre estações, auto-falantes internos anunciam a parada seguinte. Coube a um armênio fazê-lo, na viagem inaugural, entre as estações Tiradentes e Armênia: “próxima parada, estação Armênia”. E, conta a lenda, o locutor repetiu o aviso em sua língua natal: “Հաջորդ կանգառը Հայաստանն կայանը” . Fico imaginando a emoção desse sobrevivente de tantos padecimentos. Agora sim, ele estava em casa!

Esta é minha cidade, minha Sampaulo.

Chega de história e vamos cair de boca nos saborosos acepipes desse povo bom de forno e de fogão.

A culinária armênia é prima-irmã da árabe. E, pelas semelhanças íntimas, dir-se-ia que foram criadas juntas. Tanto que a guloseima símbolo da Casa Garabed são as esfihas. Só que maiores, enormes (tipo esfizzas), as servidas lá.

Passo a passo das esfihas na Casa Garabed: preparo, forno a lenha e... Bom apetite!

Passo a passo das esfihas na Casa Garabed: preparo, forno a lenha e… Bom apetite!

Eu sempre fico em dúvida entre a de zahtar (um tempero em pó, feito de ervas e sementes, muito familiar a todo o entorno sudoeste do Mediterrâneo), a de carneiro com snobar e a de carne com alho. Mas há um cardápio inteiro de opções,  algumas meio que adaptados ao paladar local (inclusive de coxinha – ou o que é que significa esfiha de frango com catupiry?).

Mas… Vá com calma. Isso é só uma entradinha. Os pratos do cardápio da Casa Garabed vão muito além das redondinhas.

O bastrmá, por exemplo (este sim, um símbolo gastronômico exclusivo do povo armênio: uma carne seca, prensada com temperos aromáticos picantes). É delicioso. Uma porção fatiada fininha, acompanhada do pão sírio – digo, armênio (o que dá no mesmo, embora o da Casa Garabed seja hors concours), também compõe um ótimo início de banquete.

No capítulo das pastas frias, saladas e que tais, tudo é primoroso. Delicado. Preparado com esmero de avó. Do homus ao quibe cru. Mas se der licença de algumas sugestões, não deixe de visitar o tabule. A salada com trigo hidratado é única, diferente, com os ingredientes picados no patamar de processador, temperada com condimentos adoravelmente surpreendentes. Chega como que desenformada de uma daquelas antigas latas redondas e baixinhas de goiabada (ainda existem?). Apresentada – como quase tudo, lá) no good old estilo dos restaurantes de antanho: deitada sobre folhas de alface com decoração de legumes compondo enfeites singelos. Um primor!

Porção de bastrmá, o pãp fora-de-série, "sopa" fria de coalhada com pepino e tabule.

Porção de bastrmá, o pãp fora-de-série, “sopa” fria de coalhada com pepino e tabule.

E a salada que leva berinjela defumada (a passagem pelo forno a lenha tem esse condão), a soirlmé – uma pasta, na verdade – também é fora de série. Além da “sopa” fria, com direito a pedras de gelo e tudo, de coalhada fresca com pepino macerado, salpicada de zahtar, puxada no alho e no hortelã? Eu costumo acrescentar um pouco de sal e um muito de azeite. E a colher não para, até secar a tigelinha.

A essas alturas, adianta advertir, de novo, a ir com calma?  Eu mesmo fico me repetindo isso, mas não me controlo. É tudo tão bom. Desconfiados de que não vamos dar conta de passear pelo cardápio que até aí só nos surpreendeu, é nesse momento, entre as entradas e o que há de vir, que a gente começa a planejar um breve retorno à Casa Garabed.

Cabe mais um pouquinho?

Tem charutinho de folha de uva (sarmá), enroladio com cuidado artesanal, azedinho de longe, acompanhado de um molho (sarmaçah) semelhante ao da sopa fria, só que sem pepino. E tem um kafta – que é aquela carne moída armeniamente temperada e amassada como um hambúrguer, só que no formato de uma linguiça grossa… Hummm. Vem com arroz com pedacinhos de macarrão cabelo de anjo e snobar (que eu chamo de pignoli). Ou com homus, farto em grão-de-bico.

Kafta com homus e charutinhos com molho de coalhada.

Kafta com homus e charutinhos com molho de coalhada.

Neste capítulo central, do prato principal, não consigo passar ao largo do Madzunôv Kiofté. Sabe o tradicional quibe na coalhada? Só que perfeito. Beiram mimosos, os quibes, de tão delicados. Preparados com virtuosismo de sutilezas. Bolinhas de carne, casca fina, recheada com carne moída soltinha, canela e pignole. Mergulhadas em creme consistente de fresquíssima coalhada. Tudo rodeado por triângulos de torradas de pão.

Mugtal, na interpretação extraordinária da Casa Garabed

Madzunôv Kiofté, o quibe na coalhada na interpretação magistral da Casa Garabed

Estava segurando, mas agora babei, só de pensar…

Ovos mexidos com bastrmá

Ovos mexidos com bastrmá

Não estou dizendo para você preferí-lo aos ovos mexidos com bastrmá. É uma dúvida deleitosa, porque esse omelete, não obstante a simplicidade, é obra prima. Como tudo. Nos dois sentidos de como tudo. Tanto no sentido de como tudo ali é ótimo, quanto no sentido de que eu como tudo, tudinho.

É raro eu abrir mão de sobremesa. Não costumo prescindir do doce arremate. O banquete farto da Casa Garabed, entretanto, não costuma deixar espaço. Só raramente consigo chegar até o Creme do Céu, antes de começar a decifrar os códigos do caminho de volta, planejando retorno a esse esconderijo excepcional.

Folhados árabes ou Creme do Céu, na sobremesa?

Folhados árabes ou Creme do Céu, na sobremesa?

Agora, por mais excepcional que seja, nenhum lugar está imune a senões. Qual é o defeito da Casa Garabed? Ser afastado do eixo gastronômico de prestígio de Sampaulo? Vai desculpando, mas isso não é nenhum pecado. É até bom que seja assim, arredado. Dificilmente um restaurante conseguiria ser tão despojado e ao mesmo tempo agradável, assim, nos Jardins.

O serviço, também, não comete escorregões. Nenhum maître refinado, nem sommelier, nem brigadas de garçons aptos a servir a casa de Windsor. E daí? O pessoal é experiente, conhece o que está servindo (isso, para mim, é essencial) e é gentil, simpático. Precisa mais? Melhor do que pose de nariz arrebitado e arrogância.

O lugar é simples? Um misto – sem atavios – de terraço dos fundos, porão e garagem, com reluzente assepsia de lavanderia. A área de serviço de uma casa, com um  grande e sedutor forno de lenha da década de 40, nos fundos.

Com um piso encantador destes, o resto são detalhes...

Com um piso encantador destes, o resto são detalhes…

Tudo ladrilhado em atraente cerâmica hidráulica amarela e vermelha. Franciscano que só…

Talvez a iluminação pudesse quebrar um pouco a frieza da luz branca, trocando-as por lâmpadas menos fluorescente. Algum ganho em aconchego, quem sabe. Paredes menos nuas de adereços atraentes (nem que fossem belas fotos das montanhas armênias). E maquininhas de cartões que viessem às mesas.

Mas, aí, não teríamos que ir até o caixa e descobrir que, em seu entorno, há um pequeno empório com venda de bastrmá, de esfihas congeladas para levar, de algumas guloseimas – inclusive uma ótima goma, doce até onde consegue uma goma caber em si de tão doce, coberta de pistache.

Quer saber, salve a simplicidade de um lugar focado, acima de tudo, em praticar com gênio a arte do bem preparar o que se vai comer.

Post-it-2

Este post é dedicado a Violeta Kubrusly, fã – como eu – da Casa Garabed. Mas com quem não consigo conciliar agenda para irmos juntos.

Tributos à Memória

É recente, historicamente falando, a inquietação com os métodos de conquista que consumaram a ocupação de territórios ao longo do tempo.

Hoje, o movimento da história do Brasil conhecido como Entradas e Bandeiras é polemizado. Pela sanha com que impuseram a civilização ocidental aos indígenas. Mas os bandeirantes já foram heróis unânimes da brasilidade. Graças a eles, os europeus (nós – ou o que, no fim das contas e a grosso modo somos) se impuseram. Fincaram, mata adentro, as estacas da cerca que definiu as fronteiras do continente Brasil. Dizimar bugres era missão heroica. Borba Gato, Raposo Tavares, Fernão Dias e Bartolomeu Bueno – o Anhanguera (não por coincidência, as grandes rodovias que partem de Sampaulo, interior adentro, foram batizadas em seu tributo), entre muitos outros, foram e ainda são personagens maiores do panteão de fundadores da pátria.

Eu acho fora de propósito julgar o passado com valores contemporâneos. Considero que os bandeirantes mereceram esses louvores, se considerarmos a cultura do tempo em que viveram. Já imaginou se nos arvorarmos a enviar os césares, Alexandre da Macedônia, Gengis Khan ou Átila ao Tribunal de Haia?

O Brasil sempre associou os bandeirantes a Sampaulo. Até porque daqui saiu a quase totalidade das campanhas de desbravamento e conquista. E Sampaulo sempre se orgulhou muito desses antepassados que se embrenharam desconhecido adentro para nos garantir a unidade territorial do quinto maior país do mundo.

Nosso palácio do governo é Palácio dos Bandeirantes. O hino do estado canta “a terra sem fronteiras, o São Paulo das Bandeiras”!  E não lhes faltam tributos espalhados pela capital. Entre os quais, pelo menos dois monumentos notáveis: a extraordinária escultura às Bandeiras – na extremidade norte do Parque do Ibirapuera – e a, digamos, “inusitada” estátua de Borba Gato – no final da Avenida Santo Amaro.

victor brecheret, monumento às bandeiras-003

A primeira é obra de um dos grandes artistas paulistanos – naturais ou adotivos. Italiano emigrado ainda criança, Victor Brecheret tem muitas belíssimas obras espalhadas por Sampaulo.  Os túmulos emocionantes de Olívia Penteado (no Cemitério da Consolação) e da Família Scuracchio (no Cemitério São Paulo) estão entre elas. Além das duas Graças (I e II) na Galeria Prestes Maia e da Diana, no hall do Teatro Municipal, do lado oposto à bilheteria, na entrada do café decorado pelos irmãos Campana..

Túmulo de Olívia Penteado, da família Scuracchio, as duas Graças e Diana. Tesouros de Sampaulo

Túmulo de Olívia Penteado, da família Scuracchio, as duas Graças e Diana. Tesouros de Sampaulo

O Monumento às Bandeiras, mais conhecido por aqui como Empurra-Empurra – ou Vai Levando, é o mais vigoroso deles. Merece um lugar entre os monumentos mais expressivos do mundo. E vale a volta completa, para desfrute de todos os ângulos, em torno da praça elíptica que o abriga. Para adolescentes, é quase irresistível galgá-lo. Fiz isso mais de uma vez, até alcançar o interior do barco de pedra que compõe o conjunto. Não sei se é permitido ou mesmo recomendável em função da preservação de sua integridade. Mas que era um desafio sedutor, isso lá era. Ainda está por merecer iluminação decente (se bem que isso aumentava a excitação da sua escalada noturna, tirando proveito das sombras para “fazer o que não deve”…). De dia, entretanto – e se houver sol, então – o Empurra-Empurra exubera.

Detalhes do Monumento às Bandeiras

Detalhes do Monumento às Bandeiras

Já a estátua de Borba Gato…

Sem palavras...

Sem palavras…

zzzzzborba2Usa-se traduzir kitsch do inglês como brega em português. O Aurélio incorpora a palavra a nossa língua e a define como o que “apela para o gosto popular”. Pois pense numa imagem tosca, enorme, do bandeirante ilustre apoiado numa espingarda, recoberto por mosaico de pastilhas. Sem contar um cubo complementar que fica um pouco arredado, atrás do bandeirante. Um estupor! Em tamanho reduzido, num canto mais sombrio, ninguém estranharia encontrar essa estátua no mesmo jardim em que reinassem estatuetas coloridas de anões e cogumelos.

Volto a Victor Brecheret para louvar um segundo monumento de que gosto muito em Sampaulo. É a estátua equestre ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel, no muito antigamente requintado bairro dos Campos Elísios, região central da cidade, hoje celebrizado pela deprimente Cracolândia.

O Duque de Caxias, cavalgando a uma altura de doze andares

O Duque de Caxias, cavalgando a uma altura de doze andares

No que pese as árvores serem sempre muito bem-vindas, não o são no entorno do altíssimo monumento a Caxias. Elas nos impedem de admirá-lo decentemente; as copas não deixam, principalmente se estivermos passando de carro no entorno da praça. Tem-se que estar a pé, chegar muito perto e, como o conjunto todo equivale

Almoço com o governador Ademar de Barros, na barriga do cavalo recém fundido

Almoço com o governador Ademar de Barros, na barriga do cavalo recém fundido

a um prédio de doze andares (!), o que se consegue ver é a barriga do cavalo.

É tão alto que perdemos a dimensão do tamanhão. Para se ter uma ideia, quando ficou pronto, usaram o interior do torso, a barriga do cavalão, para montar uma mesa de banquete onde cinquenta autoridades e artesãos confraternizaram. Tenho um amigo cujo avô participou da fundição da estátua, no Liceu de Artes e Ofícios.

Detalhes da base do pedestal

Detalhes da base do pedestal

Mas o que gosto mesmo nesse monumento é do pedestal, ou melhor, das quatro cenas escultóricas que cercam sua base – também mal e parcamente visíveis à distância. Reproduzem passagens da vida do general do Império: Pacificação (Caxias fala às mulheres do Rio Grande do Sul), Reconhecimento do Humaitá (Caxias e seus generais), Batalha de Itororó (Caxias declara: “que me sigam os que são brasileiros”) e Enterro de Caxias. Nessas cenas, brilha a arte genial de Victor Brecheret.

Que pena o monumento estar tão escondidamente mal localizado. Quando o artista venceu o concurso internacional para confecção da obra, a promessa era instalá-la no Vale do Anhangabaú. Tudo a ver. Se bem que eu soube que existe a intenção (do candidato a candidato a prefeito, Andrea Matarazzo) de transferi-lo para a Avenida Dom Pedro, no trecho descampado da extremidade oposta ao Museu do Ipiranga, iniciando larga alameda que se chamaria Esplanada da Pátria. Pelo menos no que diz respeito à visibilidade, seria um ganho e tanto para a obra.

Na outra extremidade dessa esplanada, ainda aqui em baixo, antes do Parque e do Museu da Independência, fica o exagerado “bolo de noiva” repleto de atavios do Monumento ao grito do Ipiranga, túmulo de Dom Pedro. Muita gente gosta de coisas assim, desencontradamente rebuscadas. Não eu. Mas, desaire por desaire, também não me aprazem alguns monumentos icônicos como a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade. Embora reconheça que impuseram sua fealdade ao ponto de se fazerem imprescindíveis. A gente se acostuma com tudo, mesmo. Até a comer farofa (e chega a sentir falta de sua farinhice empirãozando um feijão caldento).

É natural que uma Sampaulo tenha centenas, milhares de marcos que intentem trazer à memória fatos ou personagens notáveis. Ou apenas espalhar beleza por aí. Em parques, praças, cantos e, até, n’alguns retornos da cidade. De bustos a desvarios arquitetônicos. As estações de metrô, por exemplo, são pródigas em presentear a cidade com obras de arte.. Isso, desde a Praça da Sé pioneira. A maioria é bem legal e louvável é o esforço – e a sensibilidade – dos que decidiram salpicar nossa vida com essas pitadas de emoção, em pleno corre-corre urbano. Nos ilustram e instigam as multidões de passantes.

Arremato minha seleção de prediletos com um terceiro monumento. Desta feita, uma obra desafetada, mas expressiva, de outra grande artista adotada pela cidade: o Monumento à Imigração Japonesa, de Tomie Ohtake.

O mar oceano de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.

O mar oceano de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.

Fica adequadamente localizado, no canteiro central da Avenida 23 de Maio, quase embaixo do Centro Cultural Vergueiro e do bairro oriental da Liberdade. É passagem e se presta para ser visto de passagem. Melhor ainda se for no sentido do centro para o bairro. O grande mar oceano, de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.Diferente dos outros já mencionados, este é abstrato. Mas lembra ondas que trazem de longe. Pena que esteja sempre tão maltratado, descuidado e com a pintura descascada, comprometendo a beleza. As formas são tão niponicamente elegantes, entretanto, que dá para perceber que não se trata de um monturo de concreto curvo. Só não vá conhecê-lo à noite, pois a iluminação elétrica ainda não chegou ali de maneira conveniente.

Tomie Ohtake tem outras obras em exposição pública na cidade. Uma singela homenagem a Pietro Maria Bardi, no Memorial da América Latina, lembra um trampolim com pirueta (tanto que caberia também como preito a atletas de saltos ornamentais). Na Cidade Universitária tem outro trabalho dela que também remete a esportistas olímpicos, os velejadores (ou a uma pequena capela; como não tem título…). E o boas vindas que nos acolhe, em vermelho dramático, no hall do Auditório Ibirapuera.

mix 4

Não longe do monumento à imigração japonesa, a meio caminho entre ele e o monumento às Bandeiras de Brecheret, o desgosto me instiga a falar da homenagem a Airton Sena, sobre a entrada do túnel batizado com o nome do corredor. O que é aquilo? Tá certo, eu sei que pretendia ser um carro de corrida. Depois do acidente, né?

Ahhh, é claro que aprecio o imponente Obelisco (quando visto do alto da Avenida 23 de Maio, então…) e a expressiva – embora discreta – homenagem aos Mortos da Ditadura, do filho de Tomie Othake, Ricardo, ambos também no Parque do Ibirapuera.

blog-da-alice-ferraz-exposicao-portinari-1De volta ao Memorial da América Latina, gosto da Mão, de Oscar Niemeyer, que sempre me traz à ideia o título de um livro do uruguaio Eduardo Galeano, “As Veias Abertas…”. Fica pertinho do trampolim em homenagem a Bardi, no meio das sempre impactantes e belas obras esculturais com que Niemeyer embelezou Sampaulo. Como o icônico edifício Copan e as construções espalhadas pelo parque do Ibirapuera (eita, virou um de lá pra cá entre o parque que exubera verde e o memorial descampado, estorricantemente despido de qualquer vestígio de vegetação…).

E tem um banco de bronze, OLYMPUS DIGITAL CAMERAbanco mesmo, destes de sentar, na frente do Centro Cultural Banco do Brasil, no lado Rua da Quitanda, que me lembra uma cama e faz de conta que está apoiado numa pilha de livros.
Não chega a ser um monumento no sentido monumental da palavra. Mas é de uma graça (e tão oportuno naquele emaranhado de ruas sem sequer uma beira de calçada onde tomar assento para descansar) …

post it