Fai da te

Por que um título em italiano?

Porque gosto muito da sonoridade do “faça você mesmo” na língua de origem dos imigrantes que hanno fatto l’America aqui, em Sampaulo. Não são meus ascendentes de sangue, mas descendo de sua alma apaixonada. Forjaram minha cidade, moldaram o paladar sampaulistano, engendraram o sotaque paulistanês, nosso jeito provinciurbano de ser. A partir dos cortiços do Bexiga, dos sobradinhos da Moóca, dos galpões fabris do Brás…

Taí, eu tenho grande afeição pelo bairro do Brás. Isso, no que pese a desfeita de Arnesto pra cima de Adoniram Barbosa (o dito, Ernesto Paulella, falecido dia desses – aos 99, morava no Brás e teria convidado a turma do compositor para um samba; o pessoal do sambista símbolo de Sampaulo compareceu, mas não encontrou ninguém; com justa razão, ficaram com “uma baita de uma raiva” e, escaldados, decidiram que “da outra vez, nós num vai mais; nós não semos tatu!”).

Os personagens são verdadeiros, mas a história foi inventada por Adoniram, no clássico Samba do Arnesto. Quando a música estourou, Ernesto foi tomar satisfação. Cheio de razão, o compositor argumentou: “sem a desfeita não tinha samba”…

O Brás fica colado ao centro antigo de Sampaulo, voltado para a Zona Leste. Como que no quintal do extraordinário Mercadão Municipal. Com vista privilegiada para o arranha-céu do Banespa, abençoado pelas torres e cúpula da Catedral da Sé.

A região tem vocação histórica para o comércio popular ou atacadista, hoje bem traduzido pela Zona Cerealista, pela Feira da Madrugada e, sobretudo, pelo portentoso comércio de confecções que atrai às redondezas do Largo da Concórdia, diariamente, dezenas de milhares – e dependendo da época do ano, centenas de milhares – de sacoleiras e pequenos comerciantes de roupas do país inteiro.

A população residente, majoritariamente italiana na primeira metade do século XX, virou nordestina durante os anos sessenta e, hoje, abriga imigrantes bolivianos. O biótipo inca prolifera e é cada vez mais comum encontrar cholas e cholitas vestidas em fartas, coloridas e belas saias andinas. Algumas não dispensam, sequer, o chapéu típico. E grupos inteiros se reúnem nas calçadas, não distante da estação de trem e metrô. Em torno de vendedores de api com buñelo e de salteñas.

Porque esse meu carinho pelo Brás? Provavelmente por conta dessa vocação para abrigar retirantes apartados de suas raízes… E pela grande quantidade de velhas fábricas desativadas – muitas com fachada em tijolo aparente, adaptadas a novos usos, compartilhados por múltiplas atividades da periferia econômica… E pela tradição que resiste nas poucas cantinas remanescentes e na animada Festa de São Vito, que já se aproxima da centésima edição anual no início do inverno. Sempre pródiga em pasta, vinho e tarantela. Quer saber? O que não faltam são razões para eu gostar do bairro, motivos que me levem até lá.

Em particular ao quarteirão formado pelas ruas Vasco da Gama, Maria Domitila, Monsenhor Anacleto e o vaivém sem trégua da avenida Rangel Pestana.

Em seu entorno se instalou, há décadas, um polo varejista de couro e matéria prima em geral para bolseiros e sapateiros.

Eu o descobri há alguns anos, quando buscava material para compor uma fantasia carnavalesca: um Obelix – personagem da HQ francesa . Lá encontrei o couro “peludo”, tingido de verde, e as ferragens e tecidos com os quais desafiei serralheiro e sapateiro a criarem o cinto de um palmo de largura e o casquete alado do parceiro de Asterix. E me encantei com as possibilidades do lugar.

Mais recentemente, eu lastimava a decadência de uma mochila de uso cotidiano da qual era dependente. E nada de encontrar uma semelhante que a aposentasse, depois de dez anos de ótimos serviços a mim prestados. Quando o estado de minha bolsa atingiu a decrepitude, decidi partir para uma solução radical. E essa empreitada passava pelo Brás, pelo quarteirão coureiro.

Fui lá, buscar um couro de meu gosto, ferragens (fivelas, argolas, zíperes, etc) semelhantes aos da minha companheira de todos os destinos. De posse da matéria prima, eu iria desafiar um bom sapateiro a reproduzir a original. Uma iniciativa de risco. Se bem-sucedida, me libertaria da angústia que virar um “sem-bolsa” significaria para um dependente de tranqueira à mão como eu.

Como sempre, ao chegar, visitei a penumbra portentosa da igreja maior do bairro – desculpa aí, São Vito, mas o Bom Jesus de Matosinhos chegou primeiro – para pedir licença e benção.

E não é que a Divindade atendeu meu rogo? Num zás-traz, encontrei o couro perfeito. E, bênção das bênçãos, ao desfiar minhas intenções para o comerciante da Caio Couros, fui ungido com a indicação de uma professora da arte de fazer bolsas, por nome Fidélica, estabelecida na cobertura de um gasto prédio, bem em frente à loja.

Graças ao Caio, hoje sou o bem servido portador de um clone melhorado da minha mochila-mãe.

Hoje, vou compartilhar a dica: indicar-lhes os caminhos que levam desde o encantamento com essa matéria prima nobre até chegar aos artesãos primorosos, bolseiros e sapateiros da velha e boa escola europeia de calzolai e ciabattini, de shoemakers, de cordonniers, de zapateros e de schusters…. Porque não tem jeito. Ao navegar através desse mar de peles de bichos óbvios (boi, avestruz, porco, carneiro…) e de animais exóticos (arraia, crocodilo, naja, piton, tilápia…), de couros vegetais e sintéticos, de lonas, telas e tecidos excêntricos, de ferragens (sejam clássicas ou abusadas), não dá para frear o impulso de inventar bolsas e sapatos na medida exata do nosso sonho, do nosso gosto, do nosso desejo.

É a oportunidade de ser seu próprio Ferragamo, seu Louis Vuitton particular, seu Gucci privativo, seu personal Jimmy Choo, seu Laboutin, Chanel, Tod’s….

Ou, se quiser ficar no universo dos talentosos designers de couro brasileiros, seu Alexandre Birman pessoal, seu Fernando Pires, sua Sarah Chokafian, Bruna Botti, Franziska Hubener… (engraçado, todos vivem e criam e vendem suas invenções maravilhosas aqui; depois não sabe porque eu sou louco por Sampaulo…).

Tá bom, vou parar de tergiversar e voltar ao Brás. Voltar ao couro!

Couros naturais, vegetais e sintéticos. Em cores, texturas e estampas inacreditáveis.

Couros naturais, vegetais e sintéticos. Em cores, texturas e estampas inacreditáveis.

Não sei quantas lojas se dedicam a esse comércio. Lá pela sétima, perco a conta. São dezenas. Grandes e variadas, pequenas e especializadas, é couro a dar com o pau.

Sugiro que se comece por elas. Fuçando suas ofertas, a gente vai lapidando a invenção.

Vou me ater só às que mais gosto. Começando pela Avenida Rangel Pestana, esquina com a Rua Monsenhor Anacleto, do lado esquerdo de quem sobe.

Lá pelo meio do quarteirão fica a Magma. Muito couro sintético, couro ecológico, lonas, profusão de cores e brilhos. Tem um pique mais matéria prima para bolsa de praia, fantasia, carnaval, bota para escola de samba. Se não for esse seu objetivo, siga em frente. Mas se a curiosidade falar mais alto, entre. A variedade é grande, a loja é enorme e há de haver algo que lhe encante, nem que seja para um detalhe, uma almofada…

Na Magma, o sortimento de couro sintético beira o infinito. Além de muito brilho e colorido.

Na Magma, o sortimento de couro sintético beira o infinito. Além de muito brilho e colorido.

Alguns passos e você vai estar diante da Altero. Ferragens, Milhares de opções. Das mais simples até as mais estrambólicas. Fechos, fivelas, correntes, argolas, rebites, puxadores de zíper (cada um mais alucinado), botões e pingentes de metal, mosquetões…. Discretos e abusados. Brilhantes e foscos. De um tudo para pirar a imaginação mais careta. Meu segredo, lá dentro, é manter a calma e repetir o mantra: “menos é mais”. Não compre nada no impulso. Lembre-se que ferragem é só complemento. Aproveite, apenas, para tomar ciência de que opções não faltarão para arrematar sua bolsa ou seu sapato.

Difícil é não se perder em meio à profusão de ferragens de acabamento da Altero

Difícil é não se perder em meio à profusão de ferragens de acabamento da Altero

Continue em frente até a próxima esquina. Com a rua Vasco da Gama.

Marwal: jeitão de loja de avó - ferragens com pegada vintage

Marwal: jeitão de loja de avó – ferragens com pegada vintage

Vire à esquerda e, dois passos adiante, fica a Marwal. São duas lojas, uma em frente à outra. Prefira as ferragens do lado de lá da rua. É pequenina, maior jeitão de antiga – velha, mesmo – cheinha de metais mais tradicionais, clássicos, além de material estrutural e básico. O que entra numa bolsa vintage, de avó, tem lá. O duro é escalar o alto degrau da porta de entrada. Será medo de enchente?

Adiante, na rua Vasco da Gama, fica a CRZ. É a nossa terceira loja de ferragens. E a última, prometo (embora existam dezenas de outras com estoques menores, menos variedade, talvez um ganho de centavos aqui ou ali na compra de milheiros…. Mas como nem você nem eu estamos dispostos a nos estabelecermos com indústria de sapatos e bolsas, melhor se ater às lojas com maior e melhor variedade de opções). Como a CRZ. Lá, o que me impressionam, são os acabamentos metálicos de design mais arrojado, como os da Altero, só que com muita variedade de opções cintilantes, com incrustações de strass. A mesma recomendação de ir com calma, de repetir o mantra de “menos é mais”, vale para cá. Não queira garantir um monte de peças na gaveta para um dia, quem sabe, encontrar uso para elas. A CRZ está lá há anos e, pela qualidade, variedade e bom preço do que oferece vai permanecer lá, farta de estoque para o dia em que você for fazer os trinta e tantos cintos para os quais não precisa garantir as fivelas desde já.

Metais de acabamento com detalhes cintilantes, na CRZ

Metais de acabamento com detalhes cintilantes, na CRZ

Quase em frente, fica a primeira loja da Caio Couros. O grosso das opções oferecidas

Agnelo, 62 naos lidando com couro - hoje na Caio Couros

Agnelo, 62 naos lidando com couro, hoje na Caio Couros

ali é destinado à decoração. Mas servem também à confecção de bolsas. Só que não vendem retalhos. Apenas peças inteiras, tipo a pele de um boi da cabeça ao rabo do bicho. Em cores, texturas e padronagens mais sóbrias. Mas tudo natural e de boa qualidade. O problema é que com uma peça dessas dá para vestir você, a sua casa e ainda sobra para umas almofadas para o carro. Exagerei, claro. Mas é muito couro para uma bolsa só, por mais sacolão que seja.
Na Caio Couros trabalha o Agnelo, um vendedor experiente, sessenta e dois (!) anos dedicados ao polo coureiro do Brás. Imagina o tanto de couro que já passou por suas mãos, a caminho de virar de um tudo…

Chegamos à esquina com a rua Maria Domitila. Virou à esquerda (estamos dando a volta no quarteirão, lembra?), do outro lado da rua, fica a Dimasol. O estoque é semelhante ao da Magma, só que menor, e um pouco mais sóbrio. Lonas, napas, sintéticos em geral… Os vendedores são mais experientes, ouvem sua ideia, sugerem soluções de materiais apropriados… E quando eu falo de quantidade menor, não estou dizendo que a variedade é pouca, O que tem na Dimasol dá para confeccionar bolsa para os habitantes de uma cidade, enquanto na gigante Magma… Sabe um Estado inteiro, não muito grande…

Bom atendimento, lonas e couro sintético mais sóbrio e mostruário de bolsas prontas na Dimasol

Atendimento, lonas e couro sintético mais sóbrio e mostruário de bolsas prontas na Dimasol

Seguindo em frente pela rua Maria Domitila, há dois grandes estacionamentos. Já que não falei antes, falo agora: são boas opções para deixar seu carro estacionado, se você veio motorizado.

Na Reginato, ferragens nobres com design contemporâneo

Na Reginato, ferragens nobres
com design contemporâneo

A próxima esquina é a da rua Monsenhor Anacleto, o trecho que faltava para fechar o quarteirão. Virando à esquerda, mais duas lojas na mesma calçada. A segunda Caio Couros – com estoque similar à primeira, mas sem o Agnelo – e uma loja pequenina de ferragens, a Reginato. Vem cá, eu não disse que metal era capítulo encerrado? É que esta lojinha foi descoberta recente e vale a pena fuçar seus pouco expositores com criações de belo design…

Agora, c’est fini mesmo, ferragens. Chegamos de volta à esquina de partida: avenida Rangel Pestana com rua Monsenhor Anacleto.

Mas vimos muito pouco couro de verdade. Só os mais tradicionais, de boi,  da Caio Couros… Cadê os couros especiais? Camurças, vaquetas, avestruz, cobra, crocodilo, tilápia, nobuk, craquelé, pelica, verniz, cabretija…? Eu falei que se encerrou o capítulo ferragens, acabamentos. Couro que é bom, agora é que vai começar.

E começa atravessando a avenida Rangel Pestana, em frente, na continuação da rua Monsenhor Anacleto. Só que, do lado de lá, muda de nome para rua Carneiro Leão.

No primeiro quarteirão da rua Carneiro Leão, várias lojas de couro vendido em retalho

No primeiro quarteirão da rua Carneiro Leão, várias lojas de couro vendido em retalho

Um quarteirão inteiro de lojas de couro em retalho, na medida para a confecção de uma bolsa – RDG Couros, Fortaleza Couros, Couros Lion, Scarparo Couros, Sul Couros…

E uma das joias do comércio coureiro, a Arte Couros, mais conhecida pelo nome – com jeitão de apelido – do proprietário: Grilo. Não é grande, mais guarda tesouros: os couros exóticos: de arraia, de canela de avestruz, crocodilo, piton, naja…. Além de vaquetas que reproduzem esses e outros couros especiais (inclusive elefante!) e estampados que arremedam peles de animais selvagens (tigre, zebra, onça, girafa…). Eu viro Fred Flintstone! São couros raros e, por isso, mais caros. Mas pensa só a tentação.

Avestruz, arraia, piton, naja, crocodilo, lagarto, imitação de animais selvagens, canela de avestruz... Alguns dos couros exóticos da Arte Couros.

Avestruz, arraia, piton, naja, crocodilo, lagarto, imitação de animais selvagens, canela de avestruz…
Alguns dos couros exóticos da Arte Couros.

Agora não dá para falar de varejo de couros, em Sampaulo, sem falar da Casa Romeu. Se a Arte Couros é o endereço dos couros exóticos, a Casa Romeu é habitat de couros nobres. E, como todo fidalgo que se preza, eles não se misturam. Instalaram-se longe do Brás, na Lapa de Baixo, perto do mercado municipal do bairro, só que do lado de lá dos trilhos.

Mostruário de cromo alemão e outros couros nobres da Casa Romeu

Mostruário de cromo alemão e outros couros nobres da Casa Romeu

Cromo alemão, floater, cremona, verniz, vitral, softbow e mais uma variedade de tratamentos que refinam o couro até o patamar de elevado prestígio têm ali o seus ilustre reduto. São mais caros, of course. E estão cercados de uma parafernália de produtos para manutenção e cuidados com couros que só a Casa Romeu oferece. Ceras, graxas, espumas, líquidos, impermeabilizadores, hidratantes, escovas, flanelas, borrachas para limpeza de nobuk e camurças… Couro fino é outra coisa!

Amostra do sortimento para manutenção de couro da Casa Romeu. Inclusive kit para limpeza de camurça e nobuk.

Amostra do sortimento para manutenção de couro da Casa Romeu.
Inclusive kit para limpeza de camurça e nobuk.

Voltando ao Brás, uma última loja de couros merece a visita. Fica um pouco apartada do quarteirão que esquadrinhamos a pouco, mas também dá para ir à pé. É a NovoCouro, praticamente na esquina da rua Correia de Andrade com a cabeceira do viaduto do Gasômetro. A loja de Alberto oferece boa variedade de opções – inclusive camurças de cores atraentes, com preço bem em conta. A loja fica em x com o novo atelier de Fidélica, minha bolseira de outros carnavais.

Alguns couros finos do grande estoque da Novo Couro, inclusive camurças em cores atraentes. Curiosidade: detalhe dos degraus gastos, após 40 anos de serviços prestados à loja tradicional.

Alguns couros finos do grande estoque da Novo Couro,
inclusive camurças em cores atraentes.
Curiosidade: detalhe dos degraus gastos, após 40 anos de serviços prestados à loja tradicional.

E é para lá que vamos, em seguida, discutir os detalhes e negociar a confecção da bolsa de nossos sonhos. Ou mochila. Ou carteira, clutch, pasta, maleta, baú….

Fidélica Demartini deixou o Paraná para conquistar Sampaulo

Fidélica Demartini deixou o Paraná para conquistar Sampaulo

Fidélica Demartini é paranaense, da região de Londrina. Criada na zona rural, filha de agricultores, a menina ganhou intimidade com couro ainda criança. Quando matava um boi, o pai curtia o couro para aproveitamento doméstico. Fidélica começou raspando a pele curtida para confeccionar de chinelos a cintos e selas. Com pequenas sobras, fazia trançados e roupas para bonecas de palha e sabugo de milho. Além de experimentar tingimentos com tintas obtidas na vegetação à mão – do arrocheado umbigo dos cachos de banana à casca de angico vermelho. Era a incubadora de uma vocação.

Que desabrochou, de fato, aqui em Sampaulo. Nos cursos do SENAI e do Institito Europeu de Design. Fez-se estilista de couro. E professora, para suprir lacunas do curso que apenas formava seus colegas para o domínio de técnicas essenciais, sem promover o desenvolvimento das habilidades individuais de cada um.

Foi quando a conheci, ocupando um espaço acanhado, no prédio em frente à Caio Couros, lembra?

Ela desenvolvia peças piloto de bolsas para estilistas renomados e começava a encarar o mercado consumidor com as primeiras coleções de sua própria marca.

Algumas criações da marca Fidélica Demartini

Algumas criações da marca Fidélica Demartini

Que cresceu, exigindo sua mudança para o novo e mais amplo atelier. E se consolidou.

A escudeira Nanci e o atelier de Fidélica, em plena atividade

A escudeira Nanci e o atelier de Fidélica, em plena atividade

Sempre acompanhada de sua escudeira, a adorável Nanci, piloteira de mancheia. Uma figura adorável cuja rabugice fingida não consegue esconder a doçura. E ágil, tipo competência vapt-vupt.

Hoje Fidélica não mais mantém cursos estáveis para bolseiros. Mas continua a receber profissionais de fora de Sampaulo para aprimorá-los no métier. Administra sua própria marca e, também excepcionalmente, desenvolve modelos especiais, sob encomenda, a partir do sonho ou da fantasia criativa de um cliente.

Tipo a reprodução de uma peça querida e já muito malhada (lembra minha mochila?). Ou a elaboração da cópia de uma imagem fotográfica que despertou desejo incontrolável. Ou mesmo a materialização de um modelo que está, apenas, na imaginação.

Sou fã de Fidélica, de seu talento, de sua capacidade empreendedora, de seu jeito inquieto de motoqueira sempre de lá pra cá, colecionando conquistas profissionais. Ela é a cara de minha Sampaulo.

Outro capítulo são os sapatos sob medida.

Tive muita sorte de descobrir cedo os benefícios de me calçar os pés assim, como quem calça uma luva. Devo, isso, ao tamanho avantajado do meu pisante – 45 e, em alguns modelos, 46. Só a Casa Eurico, em Moema – desde sempre conhecida como a loja dos pés grandes – dispunha de sapatos para mim. Mas a variedade de modelos era pequena…

Batendo perna pela Rua Oscar Freire, ainda no início dos anos 70, descobri a sapataria de Altemio Spinelli. Um mestre de ofício na construção de ótimos sapatos. Orientado por ele, mandei fazer uma forma, de madeira, reproduzindo fielmente cada detalhe dos meus pés.

Ninguém tem os dois pés exatamente iguais. Diferenças de tamanho e pequenos detalhes, mesmo imperceptíveis, podem fazer grande diferença. Um dos pés acaba sobrando, ou faltando, num sapato industrial feito na numeração padrão.

Os modelos montados por Spinelli – ou, depois, pelo também extraordinário mestre-sapateiro Guido, de Buenos Aires – sobre a minha forma, me revelaram o delicioso prazer de esquecer que eu tinha pés. Esse é o segredo. Os pés, como os dentes, só são de fato legais quando a gente esquece que os tem. Se algum incômodo nos faz sentir sua presença, danou.

Sem contar que joanetes, calos ósseos, curvaturas e alturas que fogem do padrão, posição de dedos mais curtos, longos, esparramados, encolhidos, qualquer característica que faz com que qualquer pé seja único, só podem ser acomodados à perfeição em sapatos feitos sob medida.

Falo de sapatos de couro, claro. Os clássicos, elegantes, distintos. Sapatos tênis são outros quinhentos. São ótimos, tecnicamente perfeitos para a prática de exercício. Mas não têm o aplomb de um mocassim, um sapato social ou casual feito com o bom e velho couro.

A escala da produção industrial permitiu o barateamento do preço dos calçados. Mas padronizou os tamanhos. Qualquer pessoa vai ter, sempre, um dos pés comprimido ou resvalando dentro deles. Mesmo que minimamente. E isso provoca o desconforto que estigmatizou os sapatos de couro. Acredite, os feitos sob medidas conseguem ser mais confortáveis do que os nikes da vida.

Hoje já encontro sapatos prontos para o meu tamanho de pé com facilidade. Particularmente em regiões do mundo onde pés grandes são comuns. Mas, acredite, nada se compara ao deleite de um sob medida.

Sampaulo dispõe de alguns poucos ótimos sapateiros mestres de ofício. E outros tanto competentes o suficiente.

O problema são as formas. O último bom formeiro da cidade, Dorival, morreu a alguns meses e deixou uma lacuna. Quem tinha sua forma, está garantido. Para quem não tem, há duas opções.

Bons sapateiros adaptam formas padrões às especificidades individuais dos pés de seus clientes. Acrescentam uma protuberância aqui, aprofundam uma cavidade acolá…. Improvisam, alcançando resultados satisfatórios.

Recentemente, uma empresa de Franca – grande polo calçadista nacional, a Inforplas, adquiriu um equipamento que escaneia e digitaliza pés, em programa CAD. O que lhe permite produzir formas personalizadas. Não mais em madeira, mas em material sintético de alta resistência.

Acontece que se trata de um serviço extraordinário na empresa. E precisa ser negociado com Cleonaldo, que comanda o departamento comercial da Inforplas. Se for caso de pés com problemas ortopédicos mais acentuados, um encaminhamento médico facilita o processo (e o preço).

Além disso, a distância é um outro complicador. Franca fica a mais de quatro horas de distância de Sampaulo – e tem que ir até lá, colocar o pé na máquina. Mas, se é para desfrutar do privilégio de calçar um sapato perfeitamente construído sob medida, vale a pena. Com direito a pernoite em Ribeirão Preto, ao célebre chope do Pinguim e a uma visita ao Museu Casa de Portinari, em Brodowski (entre as duas cidades), que valem a viagem.

Quanto aos sapateiros, Sampaulo dispõe de alguns bons profissionais – inclusive dois extraordinários mestres de ofício.

Renzo Nalon é a terceira geração do fundador da centenária Pellegrini. Seu atelier fica na rua Duilio, na Lapa, entre a rua Guaicurus e a rua Faustolo. É o herdeiro do criador do modelo Maracanã, formulado em 1950 em homenagem ao estádio recém inaugurado para a Copa do Mundo. O sapato, feito em peça única de couro, sem emendas, hoje é copiado no mundo inteiro. Seu acervo de moldes personalizados inclui os pés do falecido  jogador Sócrates e de Fernando Henrique Cardoso.

Renzo Nalon, da Pellegrini, com a forma de Fernando Henrique Cardoso, um a das centenas guardadas em seu ateler onde constroi suas criações

Renzo Nalon, da Pellegrini, com a forma de Fernando Henrique Cardoso,
uma das centenas guardadas em seu atelier onde constrói suas criações

Já o octogenário Mário Carneiro foi funcionário e hoje toca o atelier do não menos célebre Busso, na rua Major Sertório, a poucos metros da rua Amaral Gurgel, no bairro Santa Cecília. A loja ocupa o mesmo espaço há décadas. Walter, artesão que divide o atelier com Mário há 38 anos, monta e costura os sapatos ainda cortados pelo velho sapateiro. Que não é pessoa de trato fácil. Profissionais como ele têm tendência a ficar assim. Sabe aquela frase de Rui Barbosa: “de tanto ver triunfar as nulidades”… Intransigente na opção de só trabalhar com cromo alemão, seu serviço é caro. Mas a fidelidade de sua abonada clientela é prova de que vale a pena. Ele não cita nomes, mas o estilista Clodovil e o político Antônio Carlos Magalhães só calçavam sapatos feitos lá.

Walter, em ação. Construindo sapatos e otas de montaria extraordinários, ao lado de Mário Carneiro, na Busso

Walter, em ação. Construindo sapatos e otas de montaria extraordinários,
ao lado de Mário Carneiro, na Busso

Num patamar menos requintado, outros dois – também já experientes – sapateiros trabalham na construção de sapatos sob medida.

No Brás, na mesma rua Carneiro Leão em que estivemos vendo os couros exóticos da Arte Couros, o gaiato sapateiro Xororó comanda o trabalho dos artesãos Hugo e Milton. Não se deixe impressionar pela aparência muquifo decadente do lugar. O trabalho executado ali é de qualidade e os preços compensam. Não oferecem a chancela de excelência de um Pellegrini ou de um Busso, mas também proporcionam o conforto incomparável de um calçado feito sob medida.

Xororó cria bons sapatos, ao lado de Hugo e Mílton, no Brás

Xororó cria bons sapatos, ao lado de Hugo e Mílton, no Brás

Já na Rua Cincinato Braga, quase na esquina da avenida Brigadeiro Luís Antônio, na Bela Vista, fica a Criações Ribeiro. Lá, seu José coloca o expertise de quarenta anos a serviço da confecção de bons sapatos sob medida. E conta com a assistência do sapateiro Antônio, enquanto prepara o jovem filho Leonardo para o exercício da atividade.

Na loja da rua Cincinato Braga, Antônio trabalha sob a supervisão atenta de Ribeiro

Na loja da rua Cincinato Braga, Antônio trabalha sob a supervisão atenta de Ribeiro

Embora Pellegrini, Xororó e Ribeiro até encarem o desafio de confeccionar calçados femininos, sua especialidade são os sapatos masculinos.

Sapatos de salto alto são outro departamento. E aí, sugiro que as mulheres que quiserem experimentar o prazer – e, no caso de altíssimos saltos, também a segurança – de sapatos feitos sob medida, sugiro dois especialistas.

Vera, da Au Bottier, na rua Augusta a alguns passos da rua Fernando de Albuquerque. Como o nome leva a supor, o que mais se vê, por lá, são botas. Algumas, abusadamente altas. Inclusive  com plataformas para aumentar ainda mais os saltos. Tanto fechadas como no estilo gladiador. Não é de estranhar que a grande maioria de rainhas de bateria e musas de escola de samba do Rio e de Sampaulo desfilem nos sambódromos com criações de Vera. Tanto pela localização da loja quanto por alguns modelos em exposição, acredito que ela atenda clientes drag-queens. O que só confirma a competência da sapateira. Vera diz que quem paga por um sapato feito sob medida exige o conforto que só um calçado assim proporciona. E, pelo intenso movimento de clientes, é isso que ela entrega.

Sandálias, sapatos e botas, algumas altíssimas, são constridos na Au Bottier, sob o comando de Vera

Sandálias, sapatos e botas, algumas altíssimas, são construidos na Au Bottier,
sob o comando de Vera

No bairro de Pinheiros, na rua Fradique Coutinho, entre a rua Cardeal Arcoverde e a rua Teodoro Sampaio, fica a Fascinante. Nilson Oliveira, do alto de seus 25 anos de

Nilson, da Fascinante. Paixão pelo métier de sapateiro feminino.

Nilson, da Fascinante. Paixão pelo métier de sapateiro feminino.

experiência, é um apaixonado por encontrar solução para todo o tipo de desafios. E arrasta clientes do Brasil inteiro para a sua loja/atelier. Mulheres com pés de tamanhos diferentes, altura diferente das pernas, problemas com joanetes, calosidades, tudo isso excita a vocação do sapateiro. Sem contar as clientes que chegam com fotos de revista, querendo a reprodução dos modelos. Ou não mais do que uma ideia na cabeça para que ele ajude a elaborar. Seu talento e competência são responsáveis pelo sucesso do negócio e a fidelidade da clientela.

Bolsas e sapatos são categorizados como acessórios, no universo da moda. Mas deviam ser chamados de “essenciais”. Pelo que representam na composição da estética, da auto-estima, do prazer, do conforto – ou no comprometimento de tudo isso – para quem usa. Mulheres ou homens.

Vá fundo na construção do seu estilo. Invente moda, crie, invista em você. Mergulhe na produção fatto per voi.

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