Fora de Mão II

O mapa da cidade de Sampaulo é praticamente o mesmo do município inteiro, pois a área urbanizada ocupou todos os espaços e até vazou para as municipalidades vizinhas. Guarulhos, Osasco, Carapicuíba, Taboão, Diadema, o ABC… É uma urbe só, espalhada por vários municípios. Tudo emendado. É o que se convencionou chamar de Grande São Paulo. E põe grande nisso. Se não em território que se compare às vastidões amazônicas, certamente o é em amontoado de gente.

A maioria dos melhores restaurantes da cidade está concentrada numa área cujas fronteiras são o Centro e os bairros Liberdade, Vila Mariana, Moema, Vila Nova Conceição, Itaim, Pinheiros, Vila Madalena e Higienópolis. No miolo, o buchichado olimpo gastronômico: os Jardins.

Mas algumas cozinhas excepcionais se instalaram desgarradas desse eixo. São elas que convido seu apetite a visitar na série Fora de Mão, que já se banqueteou no ótimo Casa Garabed, no bairro de Santana. E, hoje, o leva a conhecer o extraordinário Ton Hoi.

中国菜的乐趣

Sou devoto desse chinês, até pela variedade de ótimas opções, o que me permite descobrir, sempre, novos deleites. Já o frequento a o que, trinta anos? E ainda consegue me surpreender. Como com as recentes tiras de costeleta suína, empanadas, meladas em calda grudenta de caramelo de gengibre. Primorosas. Como as lulas, com alho, thau-si e pimentão. Macias e saborosas, a tal da paciência chinesa expressa nos talhos compondo desenhos nos anéis do pescado. Ou a também recente salada de delicada massa de feijão verde – Fan-Phie, tipo massa de lasanha, só que sem trigo, picada em pedaços irregulares, misturada com legumes e molho avinagrado, tudo mosqueado por camarão seco esfarelado. Puro prazer, apanhando o paladar desprevenido. E o deixando encantado.

Salanda Phan, lulas com thau-si e costeleta de porco em caramelo de gengibre

Salanda Fan-Phie, lulas com thau-si e costeleta de porco em caramelo de gengibre

A cozinha, no que pese o DNA “exótico”, tem jeitão de comida de avó: caseira, caprichada e sábia.

O Ton Hoi nem fica assim tão distante da avenida Paulista. O caminho, inclusive, é um sempre em frente: o corredor (imagem muito usada para percursos preferenciais de trânsito, em Sampaulo) formado pelas avenidas Rebouças, Eusébio Matoso e Francisco Morato. Como essa rota engarrafa com frequência, prefiro ir pela ponte Cidade Jardim, seguir pela avenida São Valério e, no cruzamento com a avenida Francisco Morato, virar à esquerda. Daí, são coisa de três quarteirões. Passou a rua Ladislau Roman, chegou.

Da Faria Lima, então, é um pulo. É a saída para Embú das Artes, o Vale da Ribeira, Curitiba and so on.

O Ton Hoi funciona em uma casa de dois andares, numa fieira de outras casas de um quarteirão improvável para um restaurante, numa avenida de trânsito intenso. Mas não se preocupe. Tem manobrista gratuito.

A fachada grita motivos orientais em grades coloridas com vermelhos enfáticos. E é coroada, no alto, por um portal chinês típico.

Ton Hoi: a fachada chinesa, a entrada "católica" e um recanto do salão

Ton Hoi: a fachada chinesa, a entrada “católica” e um recanto do salão

De uns anos para cá, ficou concorrido e a espera é quase inevitável. Um corredor foi equipado com mesinhas para aguardar acomodado. Ali, chama a atenção um nicho que abriga imagem de Nossa Senhora Aparecida, além de um espelho jateado com a Última Ceia e uma cruz-vitral em tijolos de vidro. Devoção cristã inusitada no extremo oriente!
Inesperada porque, na China, pouca coisa mais do que 1% da população é católica (está certo que 16 milhões de fiéis, em números absolutos, não é pouca gente; mas, diluídos numa população que se aproxima de 1,5 bilhão de chineses…).

A igrejinha da Santa Cruz, Tommy Wong em ação e o preparo artesanal de macarrão

A igrejinha da Santa Cruz, Tommy Wong em ação
e o preparo artesanal de macarrão

Tommy Wong, chef e proprietário, é católico praticante. Encontrei-o mais de uma vez na missa das seis da acolhedora, encantadora e arquitetonicamente atraente capela do Santuário da Santa Cruz. Que fica ali perto, a dois quarteirões de distância.

É brasileiro, filho de migrantes. Herdou a Fé no Cristo de uma avó, convertida quando foi acolhida em um convento de freiras, ainda na China, durante a guerra.

Tommy cresceu na cozinha dos restaurantes do pai, no bairro de Pinheiros. Ainda adolescente, começou a encarar fogões e frigideiras. E a criar suas próprias interpretações das receitas de seus ancestrais.

Culinária é artesanato meticuloso. A chinesa não foge à regra, pelo contrário, confirma-a e acrescenta minúcias próprias. Tommy Wong pratica-a com habilidade e refinamento.

Na cozinha envidraçada do Ton Hoi, é admirável assisti-lo comandar uma dezena de cozinheiros e assistentes. Inclusive na preparação artesanal do macarrão, sempre fresco.

A casa é simples, com salões amplos, bem iluminados e alguns adornos com sotaque mandarim. No comando do atendimento, a mulher de Tommy, Terezinha, também descendente de chineses, nascida no Guarujá, conhece a fundo a culinária do marido. Por isso, está apta a indicar exatamente o que vai satisfazer – e surpreender – o paladar de cada cliente.

Mix 10O Rolinho da Primavera, entrada quase obrigatória em restaurantes orientais, é delicado, a massa é finíssima, recheada com refogado de repolho e carne de porco. Às vezes, entretanto, sobra-lhe óleo da fritura.

A Guioza é mais leve, particularmente a grelhada (não muito comum por aí). Recheada com carne temperada com sabedoria. E acompanhada por molho de gengibre cortado em tirinhas finíssimas.

Ainda à guisa de prólogo, eventualmente até como tira-gosto durante a espera de mesa, o Tofu com cebolinha e gengibre picante é inusitadamente delicioso. Até porque não costumo esperar muito desse queijinho insosso de soja. Este aí reverte com louvor a minha expectativa.

O Vôngole (que eu costumava catar na areia da praia de minha infância como sarnambi) com shimeji apimentado e nirá é primoroso.  É um exemplo de como a China cultivou, ao longo de milênios, um tronco próprio e frondoso da gastronomia mundial.

Como a francesa, a culinária chinesa é feita mais do que de alguns pratos tradicionais, clássicos. Elas definiram técnicas próprias de execução que servem de manual, inclusive, para seus preparos com ingredientes de outras latitudes, preservando suas personalidades.
Como Tommy faz, com fulgurante talento, no Ton Hoi.

As estrelas do restaurante são os peixes inteiros. Tommy os escolhe pessoalmente, todos os dias, no início da madrugada, quando desembarcam no CEAGESP. Se não encontra robalos que atendam sua exigência, troca-os por tainhas. Imprescindível é que sejam fresquíssimos, recém-chegados do mar paulista, catarinense ou do Maranhão.

Mix 11A quantidade de comensais na mesa define o tamanho do pescado que lhes vai ser servido. O preço é definido pelo peso da peça. Podem ser fritos, cozidos ou no vapor, com meia dúzia de opções de tempero.

Experimente a versão preparada com thau-si. Não dá para descrever aroma e sabor desse condimento importado da China, assim como não dá para explicar o paladar da trufa ou do queijo gorgonzola. É peculiar demais.

Popular na culinária chinesa, o thau-si é obtido com a fermentação e salga de grãos de feijão. Fica preto, macio, farelento e tem aroma marcante. No peixe, o condimente é dissolvido no molho, na companhia de uma pitada de alho e filetes de gengibre.

Sob encomenda, já que a preparação exige tempo, Tommy prepara o pato laqueado à moda de Pequim. Mais do que um prato, esse ícone da gastronomia chinesa é um ritual, em quatro etapas. Começa com panquequinhas delicadas que recheamos com a pele crocrante. Continua com a carne propriamente dita, em dois preparos distintos. E finaliza com uma sopa. Só o comi uma vez no Ton Hoi. Estava tudo saboroso, acima de uma expectativa mediana, mas não me encantou como quase tudo que já experimentei lá. Não ombreou um que valeu uma viagem a Nova York, há décadas, num restaurante chamado Aunt Yuan (Tia Yuan). Ainda assim, Tommy Wong surpreendeu pela decência. Ele veio até a mesa, sem que houvéssemos reclamado, para explicar que tivera problemas com o fornecedor da ave e, por isso, nos concedeu um abatimento significativo no preço. E nos desafiou a voltar um dia para que ele pudesse se redimir. O pato laqueado serve quatro pessoas com fartura.

Tommy Wong é um chef e restauranteur assim. Com todas as letras maiúsculas. Um gentleman em ação, sempre sorridente no comando de sua brigada de assistentes. Nunca fui ao Ton Hoi para não o encontrar lá, na ativa.

Não dou por encerrada uma refeição no Ton Hoi sem a Banana Caramelada recheada com Doce de Feijão Azuki. Mas a gelatina de amêndoas, mais leve, também é tentadora. Já o sorvete de tangerina, apesar de gritar o sabor da fruta, é para quem gosta de doces mais doces.

Quer apostar como você vai querer voltar para percorrer outros pratos do cardápio prodigioso do Ton Hoi?

Post-it-2

IMG_4724Ahhh… Adotei o thau-si em casa. Em pescados, aves e carne de porco. É importado da China e só o encontro numa mercearia de produtos orientais, a Towa, na Praça da Liberdade, 113, junto à saída da estação do metrô. Aliás, apesar da impaciência dos atendentes e de uma certa dificuldade de comunicação linguística (talvez por conta da multidão de curiosos que invariavelmente lota os corredores estreitos da loja – o que explica, mas não justifica), a Towa é um dos melhores empórios de ingredientes do extremo oriente na cidade.

Ícones

Sampaulo não é lá muito boa de ícones. De monumentos ou construções que identificam a cidade, como uma assinatura. Tipo olhou, sabe onde fica. Como o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro; ou a Torre Eiffel, em Paris. Londres tem o Big Ben; Brasília, graças a Niemeyer, tem meia dúzia de ícones; Lisboa tem a Torre de Belém…

O Edifício Altino Arantes (mais conhecido como Prédio do Banespa) e o Monumento às Bandeiras – no Ibirapuera – falam mais aos habitantes da cidade do que aos que não a conhecem. A ponte estaiada Octávio Frias tem ensaiado cumprir essa icônica função, mas ainda não chega aos pés do que a Estátua da Liberdade representa na identificação de Nova York (ou do City Center, da Barra, no Rio, hehe).

Ícone que é ícone precisa alardear o nome de sua cidade, inclusive para quem não a conhece. Como o Coliseu faz, em alto e bom som: “Roma é aqui”!

Tô eu nessa busca de ícones paulistanos quando a ideia – que não aceita cabresto – começou a vagar. De ícone em ícone, me leva ao bairro do Brás, aqui em Sampaulo. Mais exatamente, à Rua Bresser, numa curva, logo depois da Rua Santa Clara, uma ou duas quadras antes do cruzamento com a avenida Celso Garcia. O trânsito, ali, em horário comercial, é um nó caótico. Mais gente do que calçada, mais carro do que asfalto e ônibus enviesado para tudo quanto é lado. Barulho, fumaça e o escambáu. Sentiu, né?

Não é à toa que, no sufoco dessa balbúrdia urbana, quase ninguém perceba que bem na curva, espremida entre uma loja de roupas e a entrada de um estacionamento, se estende uma grade de meia dúzia de metros, se tanto. Favorecido pela sinuosidade da via, o terreno atrás do gradil se alarga, como se o portão fosse o vértice de um triângulo. Lá dentro, duas escadarias sobem do nível da rua até um balcão com três portas largas, em arco, no centro. Das laterais, crescem dois campanários. Acima das portas, um frontão branco, triangular. Algumas aberturas na fachada, mais janelas envidraçadas do que propriamente vitrais, e duas azulejarias representando imagens sacras. Um templo!

Quando descobri a igreja (e olha que eu já trafegara por ali uma pá de vezes), fiquei tão curioso que posterguei o que quer que faria em seguida e fui investigar a novidade. Por trás do portão trancado, portas fechadas e nenhum vivente. Pude apenas observar a construção. E uma faixa, amarrada no parapeito do balcão, anunciando uma festa da comunidade grega. Arrematada pelo comentário de um funcionário do estacionamento que observava meu interesse e me sugeriu desistir porque “hora destas não tem ninguém aí na igreja grega”.

Eis uma meia informação que em vez de matar, reaviva a minha curiosidade. Logo eu, que tenho o maior fascínio por tudo o que diga respeito à Grécia. Das divindades do Olimpo ao mussaka (uma espécie de lasanha grega – feita com berinjela fatiada onde os italianos usam massa de trigo; o prato é o arroz com feijão de lá, só que regado com muito azeite de oliva – outra paixão cujo abuso partilho com eles). Sem contar que o beco sem saída da tragédia dramática grega me instiga. E que a tecla start da minha razão são os gregos diálogos de Platão. Por aí vocês tiram minha excitação diante de um templo que insinuava helenismos.

Voltei lá no domingo. Pretendia ser matinal, mas o tradicional exagero do sábado, madrugada de domingo adentro, só me permitiu chegar lá à tarde. Tudo fechado. Mesmo em dia de reza obrigatória?

Mas consegui falar com uma senhora que, lá de dentro, sem mesmo abrir a porta, me informou que o templo reúne devotos da Igreja Ortodoxa Grega de Sampaulo, é consagrado a São Pedro e abre aos domingos, sim, só que apenas das nove da manhã até depois da missa que começa às dez e meia. Durante a semana, salvo na eventualidade de celebrações ou liturgias extraordinárias, sem chance.

Curiosidade, sabe como é… Se a gente virar de costas, logo cata um retrovisor…

No domingo seguinte, cheguei aí pelas nove e meia, junto com os primeiros fiéis.

Sou católico, embora não me considere a ovelha dos sonhos de qualquer pastor. Não que eu seja desgarrado, mas levanto tantas questões em relação à condução vaticana (está certo que Francisco anda iluminando obscurantismos…). Cresci usando a liturgia católica como ponte para minha relação com o divino.

Se houvesse sido criado no mundo islâmico e também tivesse desenvolvido a fé em Deus, eu O reconheceria em Alá. Maomé seria meu Selo dos Profetas e minha escritura sagrada seria o Alcorão – e não a Bíblia. Em Seu nome, desconfiaria dos fundamentalistas radicais tanto quanto, como católico, desconfio da TFP. Meu Alá seria a expressão do bem, do perdão, da justiça e da compaixão. Seria Pai amantíssimo que é como reconheço a Santíssima Trindade cristã.

Ou seja, sou religioso e, para mim, Deus é o mesmo, o que muda é o rito – que é cultural. Até porque não consigo conceber divindade vingativa, colérica e cruel.

Por isso gosto de templos. Apascentam-me o espírito, me fazem bem. É como se, lá dentro, eu me resguarde do mal. Nas igrejas católicas, estou em casa. Mas me sinto bem-vindo em qualquer uma, bem acolhido pelo Deus de qualquer religião, pelo “dono da casa”.

Catedral Ortodoxa

Catedral Ortodoxa

Dos templos ortodoxos, em Sampaulo, só conhecia o interior de sua Catedral, no bairro do Paraíso (tem-se que reconhecer que o bairro foi feito sob medida para sede de uma igreja: Paraíso). É um prédio imponente em que sobressai uma enorme abóbada central, reluzente, acobreada, circundada por meias-abóbadas menores. Todo mundo conhece, embora talvez não junte o nome à pessoa, digo, o templo ao credo.

Foi lá dentro que vi, ainda adolescente, pela primeira vez ao vivo – e em cores, muitas cores, pois as imagens adoradas na Catedral ortodoxa de Sampaulo são coloridíssimas – um ícone religioso.

Abre parênteses: entendeu agora porque a divagação sobre ícones paulistanos vagou até a memória da descoberta do templo ortodoxo grego de São Pedro, no Brás? Um ícone leva ao outro…. Fecha parênteses.

Imagino que existam cristãos ortodoxos espalhados pelo mundo inteiro (até na Rua Bresser…). Mas seu habitat natural, digamos assim e com todo o respeito (apenas em favor do bom entendimento do conceito), é a faixa geográfica do mundo que desce da Rússia gelada, ao norte, até as escarpas mediterrâneas da Grécia, no sul. Não sou especialista em credos. Sei o básico ou pouco menos do que isso. Mas os ortodoxos me parecem professar uma variação do católico, com culto a Nossa Senhora e aos santos.

Trajes clericais suntuosos usados nas celebrações ortodoxas

Trajes clericais suntuosos
usados nas celebrações ortodoxas

Nas celebrações que já assisti, descobri que as diferenças litúrgicas são pontuais – embora eles preservem o fascínio de rituais mais pomposos, adereços clericais mais suntuosos, só adotados entre nós quando oficiados por de cardeais para cima. As imagens reverenciadas por eles é que são diferentes. Em vez de estátuas, são pinturas; como quadros.  Às vezes emolduradas por metal trabalhado em relevos artísticos em profusão. Mais cenografam as imagens do que simplesmente as emolduram. Não raro, o metal cobre quase completamente a pintura, deixando à vista somente o rosto ou o corpo da imagem retratada. E olha que o metal usado pode ser nobre! Prata chega a ser corriqueira. E ouro não é incomum.

Ícones de devoção Ortodoxa. Imagens adoradas por uma religião milenar.

Ícones de devoção Ortodoxa. Imagens adoradas por uma religião milenar.

…المجد لله في الأعالي

Os ícones da Catedral Ortodoxa de Sampaulo são surpreendentemente menos opulentos. O dourado (não sei se ouro de verdade) é usado, apenas, em detalhes da pintura dos ícones. Principalmente em auréolas. Ainda assim, o altar é impressionante. São dezenas de imagens. Tanto que chego a imaginar que o templo seja consagrado a Todos os Santos.

Altar-Mór da Catedral Ortodoxa de Sampaulo

Altar-Mór da Catedral Ortodoxa de Sampaulo

Admirando a beleza do altar, um simpático fiel armênio, Fahac Gabanlian, me professou: “ao adorarmos do nosso Deus, louvamos o Deus de todas as religiões”. Essa é a essência do ecumenismo de que comungo.

Até pela exuberância cromática interna, a Catedral Ortodoxa é vívida, alegre, jubilosa mesmo. É até difícil imaginar uma cerimônia fúnebre ali.

Outro destaque é a profusão de lustres de cristal. São dezenas e o maior deles, central, é enorme, portentoso. O templo só abre, à noite, para celebrações ocasionais, como casamentos. Nunca fui convidado para um, mas imagino o cintilar…. De dia está sempre aberto, fecha apenas na hora do almoço.

Interior da Catedral Ortodoxa. Repare nos ornamentos com pegada árabe. E no grande lustre de cristal.

Interior da Catedral Ortodoxa.
Repare nos ornamentos com pegada árabe.
E no grande lustre de cristal.

A missa, toda cantada e bem cantada, com coro afinado e tudo, só acontece aos domingos, também às dez e meia, como na Igreja de São Pedro, no Brás.

Eu considero um programão, independente da fé que se professe ou a falta dela. Até porque religião também é cultura. E se for um ritual ao qual não estamos acostumados, é turismo cultural. No caso da celebração na Catedral ortodoxa de São Paulo, uma viagem e tanto!

… Και στη γη ειρήνη με τους άνδρες καλής θέλησης .

Das comunidades cristãs Ortodoxas de Sampaulo, uma que não participa das cerimônias litúrgicas no bairro do Paraíso é a grega. Esta vai à missa na igreja mais singela – mas não menos encantadora e surpreendente – da Rua Bresser.

Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro

Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro

Lá, só apreciar a fieira de dez grandes e belos ícones emoldurados em prata já vale o domingo. Pensando bem, em vez de moldura eu devia chamar as quase coberturas das pinturas de “capas”. Uma particularidade intrigante é que cada um desses ícones tem uma reprodução – inclusive da respectiva “capa” – em escala reduzida. As menores estão afixadas, levemente apartadas da parede e inclinadas para cima, abaixo da maior.

Um receptivo imigrante grego, Petrus, nascido nos arredores de Olímpia, no Peloponeso, que participa das missas dominicais da Igreja de São Pedro com a família, me explica que os ícones são duplicados porque os menores podem ser removidos para participar de cerimônias afastadas do altar. Cerimônias fúnebres, por exemplo.

Interior da Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro. A um tempo singela e rica.

Interior da Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro. A um tempo singela e rica.

Outro destaque fica exposto logo na entrada do templo: uma Bíblia, suntuosamente encadernada, que é reverenciada pelos fiéis. Já ouve domingo em que a encadernação era em mosaico colorido. De outra feita, a Bíblia estava com capa de prata trabalhada.

E um hábito dos devotos que também estimula a ida à missa da Igreja Ortodoxa Grega de São Pedro é a partilha comunitária da Koliva. Pense num bolo, ou numa torta, cuidadosamente recoberto com glacê branco, decorado com alvas amêndoas glaçadas e símbolos religiosos prateados… A imagem confeitada da pureza, sem a arquitetura rebuscada de um bolo tradicional de casamento. A Koliva é trazida por uma família e partilhado entre os fiéis no final da missa, em memória de um parente falecido. A homenagem é repetida cinco vezes ao longo do primeiro ano após a morte (quarenta dias, três, seis, nove e doze meses). O que costumava garantir Kolivas nas missas de quase todos os domingos. Já estive em celebrações onde haviam duas. Mas as coisas mudaram…

Exemplos de Koliva, um bolo (ou torta) doce da Igreja Ortodoxa Grega. Preparado em tributo à memória dos mortos.

Exemplos de Koliva, um bolo (ou torta) doce da Igreja Ortodoxa Grega.
Preparado em tributo à memória dos mortos.

Por conta das agruras econômicas por que tem passado a Grécia, talvez, a Igreja de São Pedro anda acabrunhada. Até Kolivas têm rareado, como consequência da baixa frequência.

Imigrante recente, Crisóstomos é um jovem grego de parcas posses – denunciadas pelas roupas surradas em que chega para a celebração dominical. Ele ajuda o sacerdote na missa e culpa também a língua pelos poucos fiéis. A celebração ainda é toda conduzida em grego arcaico. Nem os descendentes de imigrantes conseguem acompanhá-la.

Mas a liturgia preserva o encanto. Graças também aos cantos gregorianos cantados pelo celebrante e seus assistentes. Desde a abertura do templo e durante mais de uma hora até o início do ritual. E o interior da igreja permanece bem cuidado. Os paramentos e adereços eclesiais preservam o fulgor. Até porque a paróquia dribla a penúria com os proveitos angariados na exploração comercial de um prédio vizinho, alugado a uma loja de roupas sintomaticamente chamada Myconos, e do estacionamento que ocupa o terreno do outro lado. Além do comércio acanhado de alguns souvenirs.

Se você é como eu e não abre mão de uma lembrancinha, há uma pequena vitrine com objetos à venda. Entre ícones de gosto duvidoso, algumas versões do célebre Olho Grego. Sempre achei que se tratasse de um amuleto que protege contra inveja e mau olhado, como a figa baiana. Mas lá me informaram que se trata de um símbolo da capacidade espiritual de ver, o que justificaria sua venda em templo de religião “séria”. Gostei de um modelo, adoravelmente brega, na forma de um medalhão, que reproduz os traços de um olho de verdade – lembra aqueles olhos egípcios do tempo dos faraós – com a pupila pintada de azul (esses olhos gregos são azuis mesmo).

Dizem os cristãos ortodoxos que o significado original de ícone é o da imagem sagrada reverenciada por eles. Derivaria do grego eikón.

Para o Aurélio, ícone é também o que evoca fortemente as qualidades ou características de algo. Nesta acepção, voltando ao ponto de partida, um dos ícones paulistanos tem alma grega: Trassyovoulos Petrakis, ou melhor, Seu “Trasso”, um adorável nonagenário que ainda toca, diariamente, na rua da Graça, no bairro do Bom Retiro, seu ótimo restaurante Acrópole. Vira e torna volto lá, para me deleitar com o melhor mussaka (lembra, a lasanha de berinjela…?) servido na cidade. Além de maravilhosas lulas recheadas, pato, cordeiro, vitela… Tudo escolhido pela clientela fiel diretamente das panelas, na cozinha.

Seu Trasso, o Restaurante Acrópoles e o Moussaka

Seu Trasso, o Restaurante Acrópoles e o Moussaka

Και μπορούν να καταχρώνται το ελαιόλαδο !

Fique com Deus.

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