Oriente-se!

Já falei sobre pães, aqui neste de lá pra cá por Sampaulo. E comecei a tal falação citando a estrofe de uma poesia, ou melhor, o trecho da letra de uma canção de Chico Buarque, Cio da Terra: “debulhar o trigo / recolher cada bago do trigo / forjar do trigo o milagre do pão / e se fartar de pão”…

Hoje, volto às padocas (que é o nosso jeito paulistanês afetuoso e descolado de chamar as padarias).

Começo recorrendo, de novo, a uma citação. Uma, não. Duas. Ambas de um mesmo escritor português que deliciou minha adolescência: Eça de Queirós. As duas frases estão não no Primo Basílio, nem em O Crime do Padre Amaro. Tampouco em Os Maias ou em A Relíquia (só em citar os títulos desses romances me dano a babar…. Preciso relê-los qualquer hora dessas…. Voltar a desfrutar esse deleite). Eça as assentou num livro de reflexões: Notas Contemporâneas.

Uma: “A curiosidade é o que leva, por um lado, a espiar pelo buraco da fechadura; e, por outro, a descobrir a América”.

Outra: “Uma das manifestações que melhor revelam o génio de uma raça é a cozinha!”

Primeiro uma, depois a outra.

Por que meter a curiosidade aqui?

Porque sabe o que quer dizer uma pessoa enxerida? Eu!

Eu deveria ter pudor de reconhecer, assim, publicamente, que sou intrometido. Mas não tenho. Até porque não falo de me imiscuir em assuntos particulares alheios. Isso não. Passo batido. Na moral. De barracos a libidinagens nos quais não estou diretamente envolvido, podem rolar diante do meu nariz que daqui a pouco está arquivado em escaninho de difícil acesso na memória. Esquecidinho da silva. Não por discrição. Apenas por desinteresse. Não sou de ouvir atrás de portas.

Mas me mordo de curiosidade pelo que há no além oceano do que já conheço. Se ouço uma palavra nova, por exemplo, daquelas que não dá para reconhecer o significado pela dedução etimológica, meu juízo não sossega enquanto não pergunto ao Aurélio. Se me falam de um preparo gastronômico ainda não palatado, de uma invenção culinária inovadora, trato de correr atrás como se disso dependesse minha sã sobrevivência.

Lembro de quando, a décadas, ouvi minha mãe tecendo loas a uma massa com molho de café que comera no endereço original do Vechia Cuccina (na então extremidade da avenida Faria Lima, hoje esticada e emendada à avenida Hélio Pellegrino para desimpedir caminho até o Parque do Ibirapuera), preparada por Sérgio Arno. Café e macarrão? Eu morava em Brasília. Na primeira viagem a Sampaulo fui do aeroporto direto para o restaurante. E o café, antes restrito ás xícaras, sempre quente, conquistou novos espaços no meu cardápio. Seja cremoso, banhando carnes, seja gelado, para sugar em canudinho.

Quando Alex Atala inventou o talharim de palmito – hoje já entronizado no panteão dos clássicos, arrombei até cofrinho para juntar cifrões suficientes que me permitissem cair de boca nessa “massa” palmeiral. O DOM o servia com vieiras. Ô noite memorável!

É dessa curiosidade beira patológica que sofro. E que, em seu afã de experimentar, sentir e viver a emoção da descoberta, me leva a percorrer Sampaulo. Do Ó do Borogodó à Sala São Paulo. Da Vila Medeiros a Interlagos. Da Cidade Jardim a Heliópolis. Rolou uma pergunta sem resposta na minha cabeça, adeus sossego até preencher aquele espaço em branco.

Sei bem, portanto, o que padeceu Cristóvão, o Colombo, para convencer Izabel de Castela a financiar a expedição que o lançou Atlântico adentro, no rumo do desconhecido, movido pela curiosidade do que haveria de encontrar além-mar. E que o levou a descobrir a América na constatação de Eça de Queirós.

Quanto à outra citação do romancista lusitano, a que reconhece que os comeres de um povo lhe revelam o gênio, Sampaulo é um lugar afortunado.

Que rasa percepção a de quem acha que a maior riqueza de minha cidade é a grana que ergue – e destrói – coisas belas (salve, sábio Caetano!). Cofres cheios, qualquer sheik atolado em fóssil viscoso tem. E o máximo que gera por lá são exércitos bem armados e uma Dubai ostentação.

O maior patrimônio de Sampaulo é a diversidade desta cidade tão variada.

Quer ver? Pergunta ao Brás e deixa que o bairro lhe mostre a multidão de cholas bolivianas envoltas em grandes saias rodadas, tão pesadas quanto coloridas, vendendo salteñas nas calçadas enquanto as mesmíssimas ruas recordam as levas de italianos que impregnavam a região com o cheiro emanado dos panelões de tomates virando molho. Eles fizeram, fazem e farão a riqueza de minha cidade!

Pergunta à Liberdade. Aliás, basta olhar para aqueles arcos niponicamente vermelhos ao longo de suas ruas…

E o Bom Retiro onde até outro dia só se ouvia ídiche e hoje fala coreano? Sem contar que foi um grego beira centenário, seu Trasso, do restaurante Acrópoles, quem me fez decorar o caminho para chegar lá…!

Numa dessas idas, há coisa de uns dois anos – talvez três, saindo do Centro Cultural Oswald de Andrade, atiçado pela fome do fim da tarde, segui caminhando pela rua Três Rios. O apetite focado nas burekas (um folhado búlgaro/iugoslavo tudo de bom) da Burikita, quarteirão e meio adiante.

Na esquina da rua Prates, fui atraído por uma placa escrita em alfabeto hangeul – tipo assim: 한국 . Maior jeitão de comedouro novo, coisa que, em mim, não admite titubeios. Não que eu seja infiel, mas sabe como é… Burro velho… Capim novo… Mudei de rumo.

A quantidade de orientais, sobretudo adolescentes – mas também crianças, adultos e idosos no maior de lá pra cá já haviam me dado a deixa. Mas o que me deixou com a sensação de ter cruzado fronteiras, de fato, foram as placas que identificavam quase todas as lojas. De salão de beleza a floricultura. Até uma oficina de automóveis era assinalada pela escrita dos coreanos. Inclusive três (!) padarias e duas mercearia focadas nos comeres da longínqua península asiática.

mix 1Fiz a festa. Empanturrei-me e ainda levei sacolas para casa. De lá para cá, vira e torna tomo o rumo da Rua Prates.

Para desfrutar, principalmente, as delícias da panificação oriental. Pão, lá, atende por um nome muito similar ao nosso: pan. Ou bun (in english). Não apenas no Bom Retiro ou na Liberdade. Também do lado de lá do mundo, no Japão, na China, na Coréia… Isso, porque fomos nós, os ocidentais ibéricos, que os ensinamos a fermentar o trigo antes de assá-lo. Os jesuítas, sempre incluídos na tripulação das caravelas dos exploradores nos séculos XV e XVI, não alcançaram sucesso por lá em catequizar os nativos, mas semearam o pão com êxito. Que frutificou pan.

Lá – e entre os imigrados que trocaram o lá por cá – esses panzinhos são via de regra redondos e, sempre, macios. Fofos como almofadinhas de espuma. Raro é encontra-los sem um complemento a multiplicar-lhes a variedade. Preferem-nos doces – ou adocicados. Mas algumas variações salgadas são muito populares. Como o kare pan, que leva curry na massa e no recheio de legumes e, normalmente, alguma proteína (frango, carne de porco ou de gado). Ou o hot dog, com salsicha (bidu!) colocada sobre a massa antes de assar, inteira ou rodelada, o que deixa o todo com jeitão de mini pizza, só que fofa.

Entre as que optam pela doçura – quase sempre discreta – a mais comum é recheada com doce de feijão azuki. Já torci o nariz, mas hoje sou fã. Como em tudo na culinária, há desses preparos mais e menos caprichados. E muitas texturas. Dos processados até virar um creme bem pastoso, passando pelos amassados grosseiramente (como aqueles purês de batata mais pedaçudos) e os que mantêm os grãos do feijão quase íntegros, melados na calda, beira compota.

E há o melon pan (assim batizado porque remete a uma lasca da casca de um melão, não que inclua a fruta em sua composição). Além do de café recheado com requeijão – ou não, as várias receitas com amendoim, os com recheio de creme de baunilha, de geleia (com ou sem cream cheese)…

No geral, meu paladar os classifica como no mínimo bons. Podendo ser deliciosos.

O primeiro pan a ser incluído com frequência no meu cardápio foi o melon pan. Antes, muito antes de eu descobrir as padocas coreanas do Bom Retiro. Faço até hamburger com ele, proporcionando a meu paladar a brincadeira do sweet & salted.

Buscava-os na Itiriki Bakery, na rua dos Estudantes, no bairro da Liberdade. É a padaria oriental mais bem-sucedida – e famosa, inclusive por já ter conquistado o prêmio de melhor entre as cinco mil panificadoras de todas as categorias em atividade na cidade.

Memi, a proprietária, é chinesa. Uma empreendedora devotada a seu negócio, às demandas do mercado, mais do que às lides da cozinha. Ela está à frente do negócio familiar (itiriki significa “todos unidos”, em chinês).Trouxe especialistas da China para desenvolver seu cardápio de pans, mas logo descartou tudo o que pouco vendia. E foi incorporando produtos mais ao gosto da freguesia ocidental. Com ênfase na doceria rebuscada, sedutora ao olhar, que atrai a gula de uma moçada que lota o salão do mezanino para se atirar na fartura de glicose de seus bolos, tortas e taças de sobremesas mirabolantes.

De oriental, mesmo, Memi preserva poucas coisas. Mas o que mantém em oferta é muito bom. A começar pelo melon pan (um dos melhores de Sampaulo). Mas o original, não o que ela inventou de encher de gotas de chocolate – que faz sucesso com a garotada, mas que não me apetece. Além disso, a Itiriki produz também um ótimo kare pan, com pedaços de frango em seu recheio puxado em curry na medida. E pães chineses, cozidos no vapor; são umas trouxinhas com massa grudenta cheias de frango com cogumelos (meu predileto) ou lombo de porco ou legumes com cogumelos ou doce de feijão. São mantidos aquecidos num mostruário apropriado, embrulhados em filme plástico para preservar a umidade. Costumo levá-los para casa e guardá-los na geladeira. Na hora de comer, arrumo-os desembrulhados numa peneira sobre uma panela com água fervendo e deixo o calor da evaporação reaquecê-los. E sempre incremento o tempero com ardores e um bocadinho de sal, além do adocicado de um tanto de grãos de milho cozido.

Meçon Pan, Pão Chinês (assado no vapor) e Kare Pan da Itiriki; Além da atraente doçaria ocidental que atrai hordas de adolescentes para a padoca. E os Biscoitos da Sorte, sempre um palpite para a fezinha na mega-sena.

Melon Pan, Pão Chinês (assado no vapor) e Kare Pan da Itiriki;
Além da atraente doçaria ocidental que atrai hordas de adolescentes para a padoca.
E os Biscoitos da Sorte, sempre um palpite para a fezinha na mega-sena.

A Itiriki vende, ainda, saquinhos com biscoitos da sorte, desses que acompanham as refeições em restaurantes chineses, com tirinhas de papel impresso em seu interior. Com vaticínios e palpites para jogar na mega-sena.

Ainda na Liberdade, só que no último quarteirão da rua da Glória, do lado direito, meio que se esconde a Hawei. Tem o maior jeitão de decadente, só que não. Há dez anos já era exatamente assim, vazia de variedade, em contraste com a Itiriki descrita acima. Deve ter sido assim desde que foi aberta, há vinte anos, pelo taiwanês Lin. Hoje os filhos Aline e Alexandre ajudam-no a tocar o negócio – e não raro os netos, ainda crianças, dão vivacidade à modorra da loja. O foco, alí, não é o negócio. É a qualidade dos pans. A vocação de Lin é ser padeiro, não empreendedor. Embora restrito, o cardápio de opções faz juz ao nome Hawei que, em chinês, significa “bom sabor”. Um dos melhores pans deles é feito sob medida para o paladar brasileiro: é recheado com carne moída e muita cebolinha. Não fazem kare pan; mas usam curry no recheio de pasteizinhos de massa folhada, com frango ou com carne. Agora a pièce de résistance da Hawei – que atrai clientela cativa à loja – são os moon cakes.

Os belos Moon Cakes da Hawei, além de pans de carne moida com cebolinha e recheados com o saudável inhame.

Os belos Moon Cakes da Hawei,
além de pans de carne moida com cebolinha e recheados com o saudável inhame.

No oriente, o bolo da lua é preparado para os festejos que celebram o início do outono e a fartura das colheitas. São como moedas, altas, ou melhor, como empadas. Pensei em moedas porque a “face” superior reproduz belos desenhos das formas. São dizeres em mandarim com votos de fartura e felicidade, desenhos que simbolizam fertilidade e coisa e tal. O original, é recheado com gema de ovos de pata e doce de feijão. Honestidade? Eu não consigo imaginar mistura menos promissora. Mas Lin criou dois recheios mais palatáveis: doce de abacaxi e doce de feijão com nozes.

Saindo dali, se tomamos o rumo da Vila Mariana, quando chegarmos ao lado da estação Ana Rosa do Metro, periga tropeçarmos na Melon Pan, na rua Doutor José de Queirós Aranha, a meia dúzia de passos da Rua Vergueiro. Não mais que uma porta e um balcão farto de pans. Uma nova padoca oriental, com pouco mais de um ano de funcionamento, aberto pelos também taiwaneses Luís e Sandra Lan. Arredada dos bairros onde se concentram os imigrantes do lado de lá do mundo e seus descendentes? Não que esses brasileiros de olhos amendoados não estejam espalhados por toda Sampaulo… Mas isso pode também significar que o bom pan começa a cantar de galo em outras freguesias. O cardápio, lá, é variado e inclui o amplo leque de opções descrito acima. Além de saborosos rocamboles de massa leve, macia.

A fachada da Melon Pan, no Paraíso, seu cardápio de pansinhos e os ótimos rocamboles, expostos na geladeira

A fachada da Melon Pan, no Paraíso,
seu cardápio de pansinhos e os ótimos rocamboles, expostos na geladeira

Como em praticamente todas as outras padarias orientais, cada produto já é exposto embalado, um a um, em saquinhos plásticos.

Mas, vem cá, não estávamos no bairro do Bom Retiro, ainda a pouco?

Um pan leva a outro e olha nós aqui, saindo da Melon Pan, para lá da Paulista.

O jeito é dar meia volta, que nós nem entramos nas padocas de lá.

De volta ao ponto de partida, os dois primeiros quarteirões da rua Prates, saindo do Parque da Luz, valem um dia inteiro de viagem à Coréia sem sair de Sampaulo.

258s Logo no começo, do lado esquerdo, o restaurante New Shin-la Kwan é uma casa simples, mas sedutora, de “churrasco” coreano (assado num braseiro no meio da mesa). As carnes – ou frango, cogumelos e frutos do mar – vêm acompanhadas com uma profusão de pratinhos e tigelinhas de molhos, saladinhas, acompanhamentos. Uma festa farta, divertida e saborosa. Boa opção para o inverno, porque neste verão de calores intensos a experiência pode ser saunática.

Adiante um pouco, do mesmo lado, uma porta com um balcão virado para a rua vende frituras asiáticas para os passantes. Lá dentro, três ou quatro mesas apertadas sob um teto baixo proveem assento para quem prefere não comer de pé. Já me joguei numas lulas empanadas bem razoáveis. Crocantes e sequinhas.

IMG_3788O quarteirão ainda tem uma floricultura, a Chung Na, cuja atração maior não são as flores, mas as plantas suculentas. Aquelas que tem folhas “carnudas”. Eles vendem vasos com arranjos tipo orientais irresistíveis. Tenho, em casa, mini espadas-de-são-jorge trazidas de lá.

Do outro lado da rua, ainda no primeiro quarteirão, a Mercearia Lotte é um mini supermercado e uma de minhas paradas obrigatórias. Sempre encontro curiosidades alimentícias coreanas e orientais em geral a preços tentadores. Inclusive comida já pronta ou semi-pronta. Nem sempre acerto nas minhas escolhas, mas quando acontece… Sabe como é prazerosa uma descoberta? Os chás, as pimentas e os biscoitos, normalmente, não tem erro. Não é muito a minha praia, mas a oferta de cosméticos exóticos também me parece sedutora. Sempre trago de lá um molho de pimenta chamado, pasmem, Mendez. É que é brasileiro, goiano, difícil de encontrar por aí.

O bom sortimento de produtos orientais (inclusive o ótimo molho de pimenta brasileiro Mendez) na Mercearia Lotte

O bom sortimento de produtos orientais
(inclusive o ótimo molho de pimenta brasileiro Mendez)
na Mercearia Lotte

Seguindo em frente, a Se Dek é uma loja de utilidades domésticas importadas com achados bem interessantes. Principalmente no setor de panelas, caçarolas, frigideiras e chaleiras. Em tempos de dólar baixo, os preços eram vantajosos e algumas das minhas experiências culinárias são preparadas em utensílios adquiridos lá.

Chegamos à primeira esquina. A mesma que me fez desviar da rota que me jogaria nas burekas da Burikita, anos atrás. Se virar à direita, trocando a rua Prates pela rua Três Rios, esse salgado folhado é destino certo. Se, em vez disso, virarmos na Tres Rios à esquerda, além do antiquíssimo restaurante Salada Record, topamos com outra mercearia/supermercadinho com mix de produtos muito semelhante ao da Lotte, visitada acima. É a Ottogui.

O mix de produtos orientais da mercearia Ottogui inclui comidas prontas e ótimas geléias e biscoitos coreanos

O mix de produtos orientais da mercearia Ottogui
inclui comidas prontas e ótimas geleias e biscoitos coreanos

Como nosso destino são as padocas, e elas ficam todas no quarteirão seguinte da rua Prates, vamos seguir em frente. Continuando pela calçada do lado direito, a mesma da mercearia Lotte (lembra?) e da loja de utilidades domésticas Se Dek, logo alcançamos uma jóia preciosa e praticamente desconhecida.

É a padaria Amand. No estilão pouco investimento da Hawei, do Lin, na Liberdade. Só que com maior sortimento. Inclusive de bolos confeitados adoráveis, obra da artesania esmerada do padeiro Pedro. Ele é a única pessoa simpática do lugar. Os outros, mais velhos, não falam ou fingem não entender português. Espie pela vidraça que separa a cozinha do salão. Se lá dentro estiver um jovem, chame-o. É Pedro. Outro departamento. Quase surdo, mas simpático que só. Adora explicar – num português arrevesado… – os produtos de sua lavra. Via de regra, ótimos.

O nome original dele não era Pedro. Era Young Gi Lee. Trocou ao batizar-se na Igreja Católica Coreana, não longe dali. “Para ficar mais fácil, né”, ele admite. E converteu-se para “fazer amizades”. Uma figura.

Pedro, o padeiro / confeiteiro da Amand

Pedro, o padeiro / confeiteiro da Amand

Voce não vai resistir levar para casa um bolo dele, de massa tão leve e molhadinha que todos têm uma fita em volta para não “desmanchar”. E com decorações de frutas que são um encanto. Oriental que só. E baratinhos.

Os ótimos produtos da Amanda

Os ótimos produtos da Amand

Além de cada pan…! Diferente das outras padocas, os da Amand são recheados com creme de baunilha, chantilly… Está lá o pan hot dog, o mammosu (que são, na verdade, dois pães, maiores que os outros, unidos por um recheio, como um sanduíche; o de amendoim com chantilly é uma coisa…), uma rosca com maionese oriental, além de um de meus prediletos: um rocambole com massa à base de chá verde, recheado com doce de feijão. E muitos outros.

A Amand não tem mesas. Para comer lá mesmo, tem que ser de pé. Eu prefiro levar para casa. Como a quase totalidade dos clientes, todos coreanos (nunca ouvi um lusófono por lá), que se abastecem ali de seu pan cotidiano. Também diferente das outras padocas do outro lado da rua, a clientela é mais idosa.

Mudou de calçada, começa uma sequência de quatro ótimas lojas de comer e beber como em Seul. Duas padocas, um café e uma casa de sucos e chás.

Pan de café recheado com requeijão, carro-chefe da Bellapan

Pan de café
recheado com requeijão,
carro-chefe da Bellapan

A primeira é a incensada Bellapan, dos irmãos Fabiano (no salão) e Rafael (na cozinha). O grande sucesso da casa é o pan de café adocicado recheado com requeijão. De fato, tudo de bom! Tanto que foi batizado de bom pan. Apesar de relativamente nova, a padoca acaba de passar por recauchutagem total. Trocou a cara de padaria tradicional por um visual hipster de galpãozão de pé direito alto, todo em acabamento que lembra cimento encerado. Está sempre cheio de gente. A maioria jovem e oriental. Ainda assim é aonde mais se vêm ocidentais no pedaço. E é também onde os fornos assam maior opção de produtos não pans, como uma variedade de croissants e umas populares toras de pão de forma grelhadas com manteiga, alho e ervas, além de grossas torradas assadas, besuntadas com leite condensado. Mas os pans tradicionais estão todos lá, do kare pan aos recheados com doce de feijão, abóbora, amendoim…

Fabiano (acima), toca com o irmão Rafael a loja modernizada da Bellapan

Fabiano (acima), toca com o irmão Rafael a loja modernizada da Bellapan

Logo depois da Bellapan, tem um novo café, o TurismoTogether, que funciona em cima de uma agência de viagens. A paixão globe trotter do dono é perceptível nos muitos gadgets trazidos de um mundo de lugares diferentes. O lugar é modernoso e atrente, com uma parede coberta por um jardim vertical e outra em cimento encerado com criativa demonstração dos diferentes cafés servidos lá. Vive invariavelmente cheio de moçada barulhenta, mesmo estando todos conectados em seus celulares ou em grupos de estudo em mesas de muitos notebooks. Nunca vi um ocidental lá dentro, a não ser um garçon. Torça para não ser seu dia de folga porque a outra garçonete não vai conseguir lhe explicar o que servem em português.

No Café Turismo Together, os beberes são mais atraentes do que os comeres.

No Café Turismo Together, os beberes são mais atraentes do que os comeres.

Como há fotos no cardápio, pode até ser que se consiga entender as adoráveis bebidas, iconograficamente. Se estiver quente, experimente o ótimo Ice Yuja. São algumas colheradas de compota de casca de laranja, gelo e soda gasosa. O canudo mistura o doce amarguinho com a água gelada e refrescante. Mas se for inverno, a pedida é chá de graviola. Ou os bons cafés da casa.

Parada seguinte, a Fresh Cake Factory. Uma padoca oriental que dispõe seus ótimos produtos logo na entrada. Antes do salão modernoso e aconchegante. Além dos pans para comer ali mesmo ou levar (inclusive dois excelentes mammosus (lembra, da Amand…) de café com uva passa e de amendoim recheado com geléia, eles preparam pan com recheio de cream cheese e blueberry. A vitrine de bolos confeitados é tentadora. Não resisto a uma fatia do de batata doce. Tem gosto de marron glacê (o que me lembra um doce em massa da minha infância, que vinha em lada redonda, semelhante á de goiabada – da cica, eu acho – que se intitulava marron glacê e que era preparado com batata doce de acordo com o rótulo). E ainda embarco numa deliciosa invenção da Fresh Cake Factory: raspadinha de feijão. Quando olhei pela primeira vez, em mesa alheia, pensei que fosse açaí, Mas é gelo moído, coberto por doce de feijão (não é que a cor é semelhante à cor do açaí?) e uma farta camada de salada de frutas picadas miudinha. Não é que funciona?

Na Fresh Cake Factory, ótimos pans, o cardápio em coreano, o bolo de batata doce e a raspadinha de doce de feijão

Na Fresh Cake Factory,
ótimos pans, o cardápio em coreano, o bolo de batata doce e a raspadinha de doce de feijão

A última parada é a Duco, aberta recentemente. Os donos são chineses, inclusive a adorável Bianca que comanda o balcão. O cardápio é composto de chás. Gelados, flavorizados (até com manga). E, na quase totalidade das receitas, inclui pobá. Pobá, acredite, é viciante. São bolinhas, tipo sagú, gelatinosas, só que maiores e escuras. Por causa delas os canudos são mais largos. Quando se chupa, a boca se enche do líquido e de pobás. É uma delícia divertida para o tato da boca, Tenta-se morde-las, mas elas escorregam goela abaixo.. Tipo distração refrescante. Numa das melhores receitas da Duco, a Matcha Pudim de Azuki, preparada com chá verde, o pobá é substituído por doce de feijão azuki (neste caso inteiro, não amassado) e chantilly. O efeito quando os feijões chegam na boca é semelhante, só que se consegue mordê-los.

A Duco oferece um cardápio de inusitadas receitas à base de chá e pobá

A Duco oferece um cardápio de inusitadas receitas à base de chá e pobá

O lugar também é destino de molecada coreana barulhenta. Nalgumas mesas, jogam cartas, com excitação apaixonada. Não consegui, ainda, descobri qual é o jogo. Lembra truco no jeito de descartar. Só que não. Silêncios e discussões acaloradas se sucedem. Em coreano, claro. Apesar de novinha em folha, a Duco já tem parte das paredes cobertas por post-its coloridos com mensagens e recados.

Desculpaí o vai e volta, mas antes do ponto final, vamos voltar à Liberdade. Só porque lembrei do Tea Station, um barzinho de chás gelados com cardápio semelhante à Duco. Embora bem menor. Na rua da Glória, como s Hawei, só que alguns quarteirões antes. Logo depois da esquina com a rua dos Estudantes. Lá, também, está sempre inflamado de garotada oriental barulhenta. E as paredes já estão completamente cobertas pelos post-its coloridos.

No bairro da Liberdade. a Tea Station também oferece receitas refrescamtes à base de chá e pobá. Sem contar o passatempo de deixar mensagens em post-ts.

No bairro da Liberdade.
a Tea Station também oferece receitas refrescamtes
à base de chá e pobá.
Sem contar o passatempo de deixar mensagens em post-ts.

Tá vendo? Não fosse eu curioso, não teria me metido nesses lugares adoráveis onde não fui chamado. E não poderia, agora, estar recomendando essas viagens pan-ifícias.

E, como dizia o grande Eça português, a culinária é um dos melhores caminhos para entender esses brasileiros por opção que deram meia volta no mundo para vir compartilhar o destino do Brasil conosco.

Os coreanos continuam chegando. E elegeram o bairro do Bom Retiro como seu lar preferencial em Sampaulo, Trocam o tigre asiático bem sucedido pela construção do seu futuro aqui. Pergunto-lhes por que e a resposta é que lá já está tudo pronto e cristalizado. Aqui, o por fazer representa, para eles – e para nós, é claro – oportunidade!

한국어 에 오신 것을 환영합니다

Que sejam, sempre, muito bem-vindos.

post it

Parabéns a voce!

Hoje é dia de festa
Pr’alegrar nossas almas;
Sampaulo faz anos,
Uma salva de palmas!

Lá no meu Maranhão natal, o “parabéns a você” tem esta segunda estrofe. Só aí vem os aplausos, o apagar das velinhas, o “e pra Sampaulo nada? Tudo! Como é que é? É pique”…

Este é o clímax de uma festa de aniversário. Tanto nas comemorações humildes quanto nas celebrações opulentas. Na intimidade cheek to cheek ou em efemérides concorridas.

E o centro da roda que se forma para o momento apicial é… o bolo! É ícone da celebração em toda a cultura ocidental. Birthday cake, torta de cumpleaños, gateu d’anniversaire, geburtstagskuchen, torta di compleanno…Ao aniversariante, cabe apagar as velinhas, simbolizando as etapas vencidas, o zerar do velocímetro. E a prerrogativa de cortar a primeira fatia (enquanto formula, esperançoso, um pedido secreto).  Além do privilégio de homenagear um dos presentes com o afeto do primeiro pedaço.

Hoje, Sampaulo precisa de um grande bolo para comportar 462 velinhas. Uma senhora madura de muitas rugas, mas também assanhadíssima, no maior pique.

Parabéns, minha cidade!

A cada um dos milhões de seus cidadãos, a faculdade dos pedidos. Para mim, reivindico brindar, com a primeira fatia, os boleiros da cidade. Os cake designers como reivindicam ser reconhecidos. Às artesãs e artesãos, da culinária e da escultura, anônimos e notórios, que adornam, encantam – e adoçam – nossas festas de aniversário. E de casamento, de bar mitzvá, de batizado, de formatura, de feitos e conquista alcançados, de onde motivo houver para festejar.

Minha relação com boleiros começou cedo. Menino, eu era colega de classe – e amigo ainda mais chegado de um grupo menor, dentro da classe – do filho, Celso, de uma boleira prendada, dona Gracinha. Moravam na vizinhança do colégio e, à saída das aulas, gozávamos do privilégio de invadir sua cozinha para “raspar” restos de bolo que ficavam nas formas. Enquanto admirávamos sua habilidade no manejo de bicos de confeitar, finalizando as encomendas.

Aqui, em Sampaulo, começo pela minha boleira de décadas, Luiza Ricci. Uma fada, formada em artes plásticas pela FAAP. Luiza já encantou com o condão de seu talento algumas de minhas mais memoráveis celebrações. Minhas e de – dá licença de arrotar em público? – alguns notáveis paulistanos como Rita Lee, a família Ermírio de Moraes, os Safra, Clodovil… Estabelecida na Alameda Campinas desde o início dos anos 90, reconhecida como decana pela nova geração, Luiza ainda cobra preços de antes dos cake boss celebrities. E não lhes fica a dever em qualidade gastronômica de bolos, em arte e em acabamento.

Parte do acervo de mais de cem formas de Luiza Ricci, dois bolos muito antigos feitos para mim, a cake designer quando recebeu sua primeira grande batedeira profissional (há beira trinta anos!) e algumas de suas criações (para Rita Lee, para capa de revista...)

Parte do acervo de mais de cem formas de Luiza Ricci; dois bolos muito antigos feitos para mim; a cake designer quando recebeu sua primeira grande batedeira profissional (há beira trinta anos!) e algumas de suas criações (para Rita Lee, para capa de revista…)

Por falar em celebridades, não dá para falar em design de bolos em Sampaulo sem destacar a rainha coroada da atividade, Isabella Suplicy. De volta ao Brasil, no final dos ainda anos 90, recém formada na prestigiosa Peter Kumps Cooking School de Nova York, Isabella começou a fazer bolos na garagem dos pais. Não tardou conquistar o grand monde paulistano com obras primorosas, luxuosas, de estética clássica, digna de celebrações nobiliárquicas europeias. Seu esmero e a competência de sua equipe fazem por merecer a inabalável permanência no topo da preferência da elite abonada da cidade. A esses clientes de prestígio, atende, para encomendas, apenas com hora marcada, de segunda a quarta feira, na Vila Progredior. Quintas, sextas e sábados são dedicados exclusivamente à confecção dos pedidos. Que vão além dos bolos e podem abranger toda a produção de doces de uma festa. Encomendas que, diga-se de passagem, chegam de todo o Brasil.

Isabella Suplicy, cake designer referência de Sampaulo e algumas de suas criações (inclusive naked, bolos infantis, bolo para Bar Mitzvá... Repare nos detalhes de acabamentos)

Isabella Suplicy, cake designer referência de Sampaulo e algumas de suas criações (inclusive naked, bolos infantis, bolo para Bar Mitzvá… Repare nos detalhes de acabamentos)

Correndo por fora, outro radiante talento de cake designer que encanta com suas lúdicas criações é Glorita Amaral, formada em decoração de bolos no berço da atividade, a Inglaterra. Há dezoito anos no métier, a artesã elabora suas criações na oficina atelier do bairro do Butantã, num condomínio fechado às margens da Raposo Tavares. O endereço transpira arte, pois abriga, também, o atelier de sua cunhada Christiane Bodini, artista maior de cerâmica e vidro. Falando em arte, as flores de açúcar feitas no atelier de Glorita são obras primas da confeitaria. Perfeitas, na delicadeza das texturas. Em seus bolos, só o arame que sustenta as pétalas florais não é comestível. Glorita é defensora de uma postura que lhe granjeia a simpatia dos clientes: não assinar os bolos nem permitir que suas copeiras divulguem a autoria porque, segundo ela, “os protagonistas de uma festa são os donos da festa”.

As flores de açúcar de Glorita Amaral e algumas de suas criações

As flores de açúcar de Glorita Amaral e algumas de suas esmeradas criações

Uma nova geração começa a mostrar serviço. É o caso de Luciana Correia, dona da Sweet Mary. Luciana recebe pedidos via web site, online. Eventualmente, para solicitações mais complexas, recebe clientes em seu atelier do Morumbi, nos arredores do estádio do tricolor paulista. Formada em terapia ocupacional, a simpática cake designer migrou para a arte com açúcar graças ao sucesso de suas talentosas criações (que praticava como hobby!). O elogiado “conteúdo” de seus bolos oferece variações que vão de massa de cenoura a chocolate belga com recheios de geléia de damasco ou marzipã ou creme de pistache ou frutas vermelhas ou nozes com doce de leite…

A terapeuta ocupacional Luciana Correia virou designer de caprichados bolos de festa

A terapeuta ocupacional Luciana Correia virou designer de caprichados bolos de festa

Mas a estrela cintilante entre os novos cake designers de Sampaulo é Nelson Pantano, o King Cake. Para atender exigências da família, Nelson veio para a capital – deixando Fernandópolis, no noroeste extremo paulista – cursar Publicidade e Propaganda na faculdade que é referência de excelência neste setor, a ESPM. Formado, nunca pisou em agência ou que tal. O talento para escultor de doçuras falou mais alto. Sua habilidade, por exemplo, para fazer flores de açúcar é notável. E sua King Cake conquistou o encantamento da elite paulistana = particularmente os mais jovens. A ponto de balançar o reinado de Isabella Suplicy.De fato, algumas de suas esculturas artísticas, digo, bolos, se construídas em metal ou pedra, poderiam adornar jardins e praças da cidade.

Na King Cake, clientes são recebidos com degustação

Na King Cake, clientes são recebidos com degustação

Felizmente, o paladar embevecido agradece que sejam guarnecidas por massa de café e especiarias, ou red velvet, ou limão siciliano com sementes de papoula, ou… Recheada por amêndoas ao mel, ou cocadinha, ou caramelo de noz pecan, ou… Numa variedade de sabores de, hummm, me deixar com a boca cheia d’água.Nélson atende a clientela com hora marcada, no atelier do bairro do Brooklin, com degustação dessas delícias!

Bolos esculturais são a marca de Nelson Pantano, célebre também por suas flores de açucar

Bolos esculturais são a marca de Nelson Pantano, célebre por suas flores de açucar

Outro cake designer que promete acontecer em Sampaulo é o vencedor do reality Batalha dos Confeiteiros, recentemente levado ao ar pela TV Record: Rick Zavala. O programa é franquia de Buddy Valastro, celebridade norte-americana da profissão, protagonista do show Cake Boss, muito popular em todo o mundo. Pelo que se viu na disputa brasileira, Rick é, de fato, fera.

Vencedor da Batalha dos Confeiteiros, o talentoso Rick Zavala, cercado por suas encantadoras criações

Vencedor da Batalha dos Confeiteiros, o talentoso Rick Zavala, cercado por algumas de suas criações. Celebridade, o cake designer já tem até fã clube pra chamar de seu.

Sua vitória lhe garantiu um estágio nos Estados Unidos e o comando da filial brasileira da rede chefiada por Valastro. Sua Carlo’s Bakery estará funcionando, ainda neste primeiro semestre, no Shopping Maia, em Guarulhos.

Alguns dos bolos do catálogo da Carlo's Bakery, de Buddy Valastro, em breve disponíveis na loja brasileira, aqui pertinho, em Guarulhos

Alguns dos bolos do catálogo da Carlo’s Bakery, de Buddy Valastro, em breve disponíveis na loja brasileira, aqui pertinho, em Guarulhos

Alguns dos bolos do catálogo da Carlo's Bakery, de Buddy Valastro, em breve disponíveis na loja brasileira, aqui pertinho, em Guarulhos

Alguns dos bolos do catálogo da Carlo’s Bakery, de Buddy Valastro, em breve disponíveis na loja brasileira, aqui pertinho, em Guarulhos

Agora, lembra aquela moda que virou febre há alguns anos atrás de bolos de aniversários que eram de fato caixas decoradas cheias de pedaços já cortados de bolo, embrulhados um a um. Tinham a vantagem de prescindir de pratos e garfos. Vai na mão mesmo…Pois deixe-me sugerir-lhe a opção de fazer isso, com bocados de um bolo do qual sou fã de carteirinha. De uma das melhores doceiras de Sampaulo. O bolo de coco – molhadinho e gelado – de Carole Crema. Carole se dedica ao resgate de doces caseiros antigos, tipo doce de vó. Pretende lançar, em breve, um dos meus prediletos – e também de Rick Zavala, a gelatina colorida, lembra? A loja dela, La Vie em Douce, na esquina da Alameda Tietê com a Rua da Consolação, nos Jardins, é uma tentação. Carole já entrega os pedaços de bolo de coco acondicionados em caixa de isopor (para mantê-los geladinhos, comme il faut; a você, cabe apenas decorar a caixa como se fosse um bolo (tarefa para qualquer confeiteiro que lide com pasta americana e bico de confeitar). Daí é botar velinha e… Surpresa! Abrir a caixa e distribuir as fatias.

Carole Crema e o seu adorável Bolo de Côco, servido cortado

Carole Crema e o seu adorável Bolo de Côco, servido cortado

Outra opção para quem não quer recorrer a um cake designer, mas não abre mão de sabores requintados e visual encantador – ainda que singelo, recomendo a Leckerhaus, na Rua Melo Alves quase esquina com a Alameda Lorena, nos Jardins. Os doce produtos da loja são preparados no Rio Grande do Sul e voam diariamente para Sampaulo. Também por isso, nem sempre tem todas as opções do catálogo disponíveis para pronta entrega. Trabalham com dois tamanhos (seis e doze fatias). Mas aceitam encomendas, com antecedência de dez dias, de tamanhos maiores. Muitos de suas adoráveis doçuras se prestam à perfeição para celebrações festivas. Sou habitué dessas criações, particularmente de um batizado de Alemanha (recheado com calda pedaçuda de frutas vermelhas). Como vários outros sabores do cardápio, este também é coberto por pasta de marzipã, substituindo a pasta americana tradicional – o que lhes confere um toque – delicioso – de amêndoas. Sou devoto desse doce de origem espanhola (acho que manchego, como Don Quixote). Uma vez, em Toledo, passei mal de tanto marzipã.

Entre as muitas opções da Leckerhaus, o Alemanha e o Festiva fazem bonito em festas menos requintadas

Entre as muitas opções do cardápio de delícias da Leckerhaus, o “Alemanha” e o “Festiva” fazem bonito em festas com o pessoal mais “de casa”

Além destes – com quem tenho mais intimidade, dezenas de outros cake designers desenvolvem sua arte em Sampaulo. Já fui a festas cujos bolos de autorias diferentes das já citadas me seduziram. Seja pela criatividade, pelo acabamento esmerado, pela paixão revelada por seus artesãos em fazerem o que fazem. Como as preciosidades de Alessandra Tosini, estabelecida no Shopping Ibirapuera. Ou de Danielle Andrade, que mantem atelier no bairro de Perdizes. A Make the Cake, no bairro da Lapa, atende estilistas – figurinhas exigentes – como Marcelo Sommer. Manô Andrade, do bairro de Pinheiros, tem artesania elogiada até por seus concorrentes. E Nika Linden, no bairro do Brooklin, cria verdadeiros cenários de sonho. No bairro do Campo Belo, Otávia Sommavilla tem clientela fiel de suas doces criações. As meninas do Piece of Cake, na Vila Madalena, também contam com legião de fãs de seus bolos surpreendentes. E Simone Amaral leva clientes até a distante Granja Viana, arrastados pela excelência de seu trabalho.

Lindas e doces criações de Alessandra Tosini (1), Danielle Andrade (2), Make the Cake (3), Manô Andrade (4), Nika Linden (5), Otávia Sommavilla (6), Piece of Cake (7) e Simone Amaral (8)

Lindas e doces criações de Alessandra Tosini (1), Danielle Andrade (2),
Make the Cake (3), Manô Andrade (4), Nika Linden (5),
Otávia Sommavilla (6), Piece of Cake (7) e Simone Amaral (8)

Reservei para o final uma recomendação para os aniversariantes da geração saúde. Os que fogem de açúcares refinados, de glúten ou que sofram de intolerância à lactose. Para estes, o simpaticíssimo casal Alana e Bruno criaram a La Cakeria, no bairro de Perdizes. Eles só atendem on line e entregam suas criações numa vasta região de Sampaulo. São bolos mais rústicos – como é do agrado da galera preocupada com o bem-estar.

Alana cria bolos saudáveis na cozinha de La Cakeria, mo bairro de Perdizes

Alana cria bolos saudáveis e tentadores na cozinha da La Cakeria, mo bairro de Perdizes

Uma das lembranças mais remotas que guardo no arquivo das memórias prazerosas é um aniversário meu de cinco ou seis anos. Mamãe costumava comemorar os aniversários dos dois filhos mais velhos (eu e meu irmão Marcelo) numa mesma festa. Somos, ambos, do mesmo signo, com três semanas de diferença. A terceira sagitariana, Ilka, acabara de nascer. Naquele tempo, festas infantis temáticas não eram comuns. Mas ganhamos uma, encantadora: um mergulho no universo dos piratas. O bolo tinha o formato de um baú de tesouros, vazando moedas de chocolate (lembra dessas preciosidades? 12107433_1510653605911577_1650985764_nAcho que ainda existem… O que desapareceu – por razões óbvias = foram os cigarros de chocolate) e joias coloridas feitas com jujubas. As crianças convidadas ganhavam tapa-olhos e lenços para amarrar na cabeça, criando um clima de fantasia que permanece tatuado no meu coração. Tudo isso veio à tona quando vi um bolo de Glorita Amaral. Uma linda alegoria que periga provocar recordações assim, deliciosamente saudosas, daqui a cinquenta e tantos anos, numa criança que comemorou com ele seu aniversário recentemente.

Agora, não se esqueça de começar o planejamento de sua próxima comemoração pelo ícone da festa: o bolo.

E… Viva Sampaulo!

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