Sorvete? Não… Gelato!

O sorvete do antigo Hotel Central não era lá grande coisa. Mas sorvete é sorvete. E eu era menino…

Com sorvete é assim. Até quem não é criança, vira. E só não se lambuza por decoro etário.

Aquele era o lugar mais distinto, na São Luís de minha infância, para se tomar um sorvete. De ameixa (que era chic) e de chocolate (um nescauzinho para lá de desmaiado).

Mas bom, mesmo, era o sorvete de coco dos ambulantes de rua.

Esqueçam carrinhos repletos de picolés embrulhados. Os sorveteiros daquele início dos anos 60 carregavam meu doce desejo – branquinho e cremoso – sobre a cabeça protegida por uma rodilha de pano. Escondiam-no dentro de um tubo de madeira, tipo uma tina. No meio dela, outro cilindro, mais estreito, de metal. O cofre que guardava o cobiçado sorvete de coco. Entre o metal e a madeira, muito gelo coberto por estopa para retardar o derretimento.

E ainda havia uma lata dependurada nessa geladeira primitiva. Cheia de casquinhas pequeninas, artesanais, crocantes como biscoito.

Quando deixei a cidade, no rumo de Sampaulo, em 1971, já começavam a ser substituídas por caixas de isopor.

Desenho português do início do século XX, "tina" antiga, o gelo, modelo atual, casquinhas tradicionais e como é vendido, hoje, o irresistível sorvete de coco de minha infância, em São Luís do Maranhão.

Desenho português do início do século XX, “tina” antiga, o gelo, modelo atual,
casquinhas tradicionais e como é vendido, hoje,
o irresistível sorvete de coco de minha infância, em São Luís do Maranhão.

Anos depois, voltei a encontrar tinas tubulares como aquelas Em Dakar, num Senegal ainda governado pelo poeta Leopold Senghor. Foi quando descobri que eram mais do que depósitos para venda de sorvete. Eram sorveteiras. O doce gelado de coco da minha infância era preparado ali dentro, por pás que eram giradas manualmente dentro do cilindro de metal. Os camelôs maranhenses, há cinquenta anos e tal, não tinham refrigeração em suas casas. Usavam gelo comprado em barra, triturado para fabricar o sorvete. E muque para remexer a massa.

Ora, direis, não há clima para uma conversa dessas…. O calor escaldante até que resistiu bravamente, invadiu o outono, abrasou abril de cabo a rabo, mas entregou os pontos. E só agora, quando o frio retardatário decidiu dar as caras, venho puxar um assunto assim, gelado…

downloadPois saibam que o sorvete nasceu invernal. Há coisa de três mil anos! Inventado pelos chineses quando o ocidente ainda engatinhava, mal começando a construir a civilização grega.

Para se distrair durante os longos meses de frio intenso, os primeiros imperadores da dinastia Zhou decidiram adoçar a modorra com uma mistura de neve, frutas e mel. Bingo! Criaram uma das mais adoráveis guloseimas gastronômicas.

No verão, sem neve, bau bau sorvete.

Milênios mais tarde, o curioso Marco Polo viajou da Itália ao extremo Oriente atrás de novidades. Voltou cheio delas. Inclusive o sorvete. Os italianos levaram a sério a brincadeira dos chineses. Aprimorando-a até as fronteiras da perfeição. Hoje, são os maestri gelatieri do mundo.

E o que não falta, em Sampaulo, é italiano, figlio de italiano, nipote de italiano, pronipote de italiano…. Mas, surpreendentemente, até dia desses não havia uma de fato boa gelateria italiana na cidade.

Chocolamour, do Bambi

Chocolamour, do Bambi

Quando cheguei aqui, minha salvação era uma sorveteria acanhada e sazonal – só abria, sem falta, no verão – numa esquina da praça Marechal Deodoro com a rua São Vicente de Paulo, na fronteira entre Higienópolis e a Barra Funda. E havia o chocolamour (sorvete, calda de chocolate e farofa de castanha de caju) do restaurante Bambi, além do crocante da Brunella, na alameda Gabriel Monteiro da Silva, e dos kibons da vida – que, além de abastecer padarias e supermercados, forneciam matéria prima para sundays, banana-splits e vacas-pretas servidos em qualquer lanchonete da cidade. Laricas juvenis me fizerem cliente cativo dos bem servidos milk-shakes de chocolate do Joakin’s (na rua Joaquim Floriano, no Itaim) e do Oregon (na esquina da rua dos Pinheiros com a avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros).

Num verão do final dos anos 70 – ou início dos 80, uma sorveteria bombou no último quarteirão da rua Padre João Manoel, chegando na rua Estados Unidos. Com direito a filas e congestionamento. Não recordo seu nome, mas lembro de um sorvete apicolezado, com formato e sabor de banana, coberto com calda de chocolate. A novidade não sobreviveu ao primeiro inverno.

Sucesso mais perene só foi conquistado na virada do milênio, pelo cozinheiro e apresentador de televisão Edu Guedes, com sua Stuppendo, no bairro de Moema. Se bem que eu tenho para mim que ele já havia tentado a sorte antes, numa loja no final da Rua Augusta…

De lá pra cá, a boa gelateria italiana tomou conta de Sampaulo.

Com eles aprendi que o bom sorvete, untuosamente cremoso, preparado com ingredientes naturais de qualidade, rico em proteínas, gorduras, açúcares e vitaminas, vai muito além do meramente refrescante. É um alimento completo. Se Danoninho vale por um bifinho, o bom sorvete vale por uma refeição completa. Sem contar o bônus da alegria!

Como se não bastasse, esses sorveteiros da escola italiana costumam ser doceiros talentosos. Seus cremes gelados são deliciosos. E, quando o calor arrefece, aprecia-se muito melhor o sabor.

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Hoje, há dezenas de sorveterias que praticam a técnica dei gelatieri na cidade. Entre eles, meus prediletos são Bacio di Latte, Frida & Mina, CuordiCrema, Casa Elli, Le Botteghe di Leonardo e Marco Polo. Pelos nomes dá para perceber o DNA, né? Tutti com passaporte italiano…

Como Giovanni Pedone.

Tropecei nele há pouco tempo. E olha que eu passava sempre em frente a sua loja, na vizinhança da casa de minha mãe. Num trecho em que se tem que ficar atento, por conta de uma curva mais complicada. Por isso, nunca havia reparado na sorveteria, aberta há dois anos …

Um dia, tive que deixar meu carro na oficina. E fui visitar mamãe de condução. Caminhando do ponto do ônibus até a casa dela, sem me estressar com o trânsito, finalmente atentei para a provocação – “a magia do gelato”, estampada na vidraça da Delícia Delizia. No meio de um quarteirão da avenida Giovanni Gronchi, mais perto do shopping Jardim Sul do que do estádio do tricolor, entre a rua Charles Chaplin e a rua Abdo Ambuba; na Vila Andrade, um dos enclaves que formam o grande Morumbi.1800458_264487303716092_1744361657_n

Não resisti ao anúncio na fachada e ao colorido festivo do interior e fui dar uma espiada. Óbvio que logo estava com um copinho na mão. O sabor? Narancia.

UAU! Que bendito destino o daquelas laranjas, Derreteram meu coração.

Não havia exagero no que alardeava o anúncio que me atraiu. A tal magia me arrebatou, como no tempo do sorvete de coco de São Luís. Só que muito mais requintado, capaz de seduzir não apenas a excitação de uma criança que tateia as sensações da vida, mas também um já idoso sessentão, rodado em zilhões de emoções gastronômicas. Não saí de lá antes de ultrapassar todas as medidas. Me fartei passeando por uma variedade de sabores, todos deliciosos: pistache, manga, chocolate 70%….

Vitrine de tentações do Delícia Delizia

Vitrine de tentações do Delícia Delizia

Cremosamente graxos, pegajosamente elásticos, melífluosamente resinosos… Como descrever essa textura sedutora, capaz, até, de dissimular o “gelor” excessivo para se fazer prazeroso ao tato sensível da língua? Tanto os de fruta como os mais encorpados (os sorveteiros chamem de “cremosos” apenas os que são feitos à base de leite, em contraposição aos “sorbets”, à base de água). Reconheci e cumprimentei o gelatiere (denunciado pelo dólmã com o nome bordado), mas não me apresentei. Só o fiz nos vários retornos subsequentes.

Giovanni, chegando aos cinquenta anos, é italiano de Milão, descendente distante de sicilianos. golden_ice_cream_icecream_cone_trophy_award__89150.1391118120.358.358Quando menino, seus verões eram desfrutados em praia da Ligúria, nos arredores de Nápoles. Lá – como cá – o calor era a senha para o consumo de sorvetes. Seu pai deixava a família veraneando e voltava para a cidade durante a semana. Com uma advertência: se se comportassem enquanto estivesse fora, no sábado levaria os filhos para tomar gelato. Para as crianças, sorvete era prêmio. E, a casquinha equilibrando bolas, o troféu!

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É dessa época uma sua foto caindo de boca num sorvete. Tracejada em auto contraste, quarenta anos depois, a imagem acabou virando a marca da sua sorveteria.

Mas só recentemente, Giovanni virou sorveteiro. Antes, foi corretor de seguros.

Até que, já maduro, começou a fazer “bico” como gelatiere. Um seu amigo abriu uma sorveteria nos arredores da bela Piazza Cavalli, na cidade histórica e turística de Piacenza. A setenta e poucos quilômetros de Milão. No verão, quando o movimento apertava, não dava conta sozinho. Giovanni largava tudo, arregaçava mangas e ia aiutare il suo amico.

Até que, numa noitada milanesa de pizza, conheceu Cristina Giarone. Uma paulistana de ascendência italiana que visitava a cidade.A ragazza veio embora, mas deixou saudade. Muito chat de internet depois, o encontro casual virou namoro, foi ficando sério e Giovanni começou a cogitar atravessas o Atlântico. Vir fare il Brasile.

Quando revelou essa intenção ao amigo sorveteiro, descobriu que o cara também pensava deixar a Itália. “Vengo con te, si aprirà una gelateria lì”! Se estabeleceriam aqui com uma sorveteria.

O amigo afinou. Mas Giovani veio ao encontro de Cristina. E, com ela, abriu a Delícia Delizia.

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Ele cuida da preparação dos sorvetes, a partir de uma antiga receita da bisavó siciliana. Ela, do resto.

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Já percorri quase todo o cardápio. E…. Só alegria. Morango, por exemplo, que nunca foi de meus sabores prediletos, surpreende pelo mergulho na alma da fruta. E cambuci, então? Há muito desaparecida até de feiras e mercados, ameaçada de extinção, a azedinha foi resgatada por Giovanni numa cooperativa de produtores que cuida de salvar essa fruta símbolo da mata atlântica. Abacaxi e limão são dois outros sabores preparados com a própria fruta.

1017717_281093172055505_39349775_nAssim como pera, feito apenas com o tipo Williams e batizado pelo sorveteiro com o apelido do pai, Pucci, que fez desse sabor de sorvete um de seus últimos deleites em vida.

E amarena, um tipo de cereja italiana, miúda, cuja calda (farta em fruta), banha um gelato cremoso batizado com o nome de sua avó. A nonna Lina era louca por amarenas. A ponto do nonno plantá-las em casa para que não lhe faltassem.

É um dos meus prediletos. Tanto que, em cada ida minha à Delícia Delizia que inclui, no mínimo, dois ou três sabores; um deles tem que ser Nonna Lina.

Amarena, batizado em homenagem à Nonna Lina

Amarena, batizado em homenagem à Nonna Lina

Entre os cremosos, é difícil me decidir: Crême Brulée? Ou o clássico dos clássicos italianos, uma das obras-primas de Giovanni, Pistache? Talvez Paçoca (que, como ele diz, não é simplesmente amendoim; é diferente. É… Paçoca!). Caramello? Cheese Cake? Tapioca? Avelã? Crema Delícia?…

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Este último – que exala aromas de baunilha – é par perfeito para as combinações com os doces da patissière Carol Rodrigues, parceira do Delícia Delizia. Uma craque no manejo de doçuras sedutoras. Adoro a bela tartelette de pera, os macarrons (dos melhores que já comi) recheados com sorvete… E, logo, logo, vou cair de boca no finacier (um bolinho lindo de amêndoas e mel, recheado com geléia), nos atraentes entremets (que são tortas em camadas multi-coloridas) e nos mil-folhas também com recheio de gelato.

Carol, que tem loja a alguns quarteirões dali, decidiu ceder seus doces à Delícia Delizia porque: “encontrei em Giovanni a mesma paixão pelo gelateria que tenho pela doçaria”.

Mil-folhas, torta entremet e tartelette de pera de Carol Rodriguea. Tudo servido com sorvete.

Mil-folhas, torta entremet e tartelette de pera de Carol Rodrigues.
Tudo servido com sorvete.

E é aí – eles não me disseram isso, mas eu já percebi – que entra a competência empreendedora e marketeira de Cristina. Ela deixou uma bem sucedida carreira numa empresa financeira, já como manda-chuva do departamento comercial, para se jogar com o marido no seu próprio business. É quem negocia parcerias para ampliar as ofertas da sorveteria, cria alternativas de negócio – como o simpático carrinho para eventos da casa, pesquisa e sugere ao marido a criação de novos produtos – a partir da pièce de resistence da Delícia Delizia: os sorvetes.

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Até o café expresso da marca Unique, graduação 85 (ou seja, ótimo), é servido com uma bolinha do gelato Flor de Latte, propondo um mini affogatto. Que também é oferecido na versão grande, além de milk-shakes, chocolamour, mini cones, minous, cookies e alfajores recheados de sorvete…

O expresso affogattino, preparado com café goumet e sorvete flor de latte

O expresso affogattino, preparado com café gourmet e sorvete flor de latte

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É…. Não é à toa que aumentei minha frequência de visitas a minha mãe, depois que conheci as tentações da Delícia Delizia. Ainda bem que a região é pródiga de boas academias onde suar os excessos.

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Não sei se é comum entre os sorveteiros, mas me encanta o jeito como Giovanni lida com crianças. Ele não observa as reações de um adulto que prova seu gelato como atenta para as expressões dos pequenos. E sorri, discretamente realizado, quando percebe prazer nos miúdos. Mantêm, inclusive, um sabor criado por eles em seu cardápio, batizado de Hello Kitty.

E, vira e torna, organiza aulas de fabricação de sorvetes na loja, só para crianças e pré-adolescentes. Com direito a indumentária de maestro gelatiere e tudo. Pelas fotos, dá para ver que a meninada adora.

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Quer moleza? Vem que tem.

Você é que nem eu? Tem hora que dá uma vontade danada de comer pudim…? Não serve nem quindim, que é primo de segundo grau. Tem que ser pudim! De leite condensado…

Minha avó Jandira era quituteira de nos repimpar (os descendentes) de orgulho. Famosa para muito além do círculo familiar. Nos salgados também, mas quando o assunto era doce…

Como é que ela conseguia espalhar aquela calda de maracujá sobre o pão-de-ló sem cristalizar os quadradinhos? Alcançar a improvável – de tão delgada – espessura do laminado do bolo-de-rolo? E a textura que encharcava de doces prazeres só o miolo das fatias gostosas?  O bolo Souza Leão, e seus quatrilhões de deleitosas calorias (só de manteiga ia mais de meio quilo!)? E olha que eu nem falei da baba-de-moça dourada e cintilante, da rosca que rescendia fermento…  Além de dois pudins em que atolei de encantamento minha infância: o “pudim Maria” e o “pudim rosado”.

O pior, é que eu falava só na teoria. Agora deu vontade mesmo de comer pudim! Você também?

O jeito é ir ao DETRAN.

DETRAN?

O que é que o DETRAN de Sampaulo tem a ver com pudim? Calma…. Com DETRAN é preciso ter calma. Explico:

Tempos atrás preparei-me para purgar meus pecados, encarando as sempre surreais formalidades de que se ocupam os burocratas de habilitações, IPVAs, DPVATs, licenciamentos e que tais. Me toquei para a avenida do Estado e…. Hosana! Não é que resolvi tudinho no maior vapt-vupt? Com direito a ar condicionado, wi-fi, fila sentada movida a senha e atendentes gentis, quem diria !?!

Resultado: o que durava uma tarde inteira agora coube folgado em meia hora.

Na saída, a caminho da estação Armênia do metrô, percorro uma calçada com longa fieira de ambulantes. De um tudo. Fones de ouvido, carregador de celular, dvds piratas e, sobretudo, comida. Banca de tapioca feita na hora, milho cozido, água de coco…. De repente, um reluzente de tão asseado carrinho de PUDIM!

O mineiro João batista e seu carrinho ambulante de pudins

O mineiro João batista e seu carrinho ambulante de pudins

Seu João Batista trocou a pacatice mineira da cabeceira do rio Pardo pela corre-corre de Sampaulo, há coisa de vinte anos. Há dez, faltou-lhe o emprego e a renda. Aperreado, propôs à cunhada Tuca, pudimzeira elogiada, que fizessem da iguaria sua fonte de subsistência. Ela assaria os pudins e ele ganharia a rua atrás de clientes que os consumissem em fatias. Combinaram tudo e arregaçaram mangas.

Na avenida Celso Garcia, João Batista encontrou quem lhe montasse um carrinho de pipoqueiro adaptado a seu negócio. Embaixo, estrutura de alumínio com isolamento térmico. E vitrine expositora de vidro, em cima. Além de suporte para um ombrelone que resguardasse o todo de sol ou de chuva.

Não deve ter sido fácil. Imagina…. Camelô de pudim!

Pudim não é deleite que se imagine apreciar assim, em pé, no meio da rua. Sem querer ser empata-foda, se alguém me dissesse que planejava se estabelecer, ou melhor, circular com um comércio ambulante destes, eu cataria um termômetro para lhe medir a febre…

Mas, reconheço, das duas uma: ou não conhecia a qualidade do pudim da Tuca ou me falta tino comercial. Pois não é que, passada uma década, os pudins sustentam a família de seu João Batista e Tuca…

João Guilherme, o filho, comanda a filial do negócio.

João Guilherme, o filho, comanda a “filial” do negócio.

Como eu sei? Circulando pela rua Bresser, no Brás, me deparo com um carrinho igualzinho ao dele. No comando, um garotão estilo galã. Mesmo jaleco e mesmo boné brancos. E descubro que o negócio do mineiro já tem filial! Tocada por João Guilherme, um dos filhos do fundador.

Outro filho, Francisco, passa o dia abastecendo restaurantes e lanchonetes da Zona Leste, com pudins.

 

 

 

Ao todo, o forno de Tuca assa mil e quinhentos pudins por mês. Vendidos fatiados ou inteiros (entregues nas formas), nos carrinhos ou atendendo encomendas. Detalhe: quem devolve a forma recebe desconto em nova compra.

Os pudins são mantidos no compartimento térmico do carrinho, até serem desenformados, fatiados e servidos.

Os pudins são mantidos no compartimento térmico do carrinho,
até serem desenformados, fatiados e servidos.

E o pudim? É bom, mesmo?

Dá para matar a vontade de comer pudim, embora seja daqueles mais corriqueiros, com bolhinhas, fruto de massa aerada por intensa bateção – na mão ou no liquidificador. E assado em forno mais quente para ganhar celeridade. Além de calda rala, líquida mesmo. O resultado está mais para flan, se é que você me entende. Levinho, com textura levemente gelatínica, Tipo até alegra o espírito, refresca o paladar, mas cadê sustança?

Enquanto converso com seu João Batista, acompanho o movimento de compradores. É gente que pega uma fatia para levar para casa, como Samanta (“para o namorado”), cliente fiel. Ou motoristas que param junto ao carrinho e suportam buzinas impacientes enquanto recebem seu pedido pela janela. Ou, ainda, o motoboy Roberto, de capacete embaixo do braço, que se atrapalha para proteger os documentos que traz do DETRAN e comer sua fatia de pudim ao mesmo tempo; é sua primeira vez no carrinho de seu João Batista. “Não consigo resistir a um pudim”, reconhece, satisfeito.

Longe dali (daquele bulício de gente apressada, da avenida atulhada de carros, caminhões, motos e o escambáu), do outro lado da cidade, numa das ruas mais aprazíveis de Sampaulo – um quarteirão apenas, de casas estilosas, todas ocupadas por comércio requintado, a rua Normandia, em Moema, uma outra estirpe de pudins se estabeleceu num endereço nobre e inteirinho seu.

Forma de Pudim, na bucólica rua Normandia, em Moema.

Forma de Pudim, na bucólica rua Normandia, em Moema.

Sou cliente – e devoto – do Forma de Pudim, desde que Daniela Aliperti e Fernanda Nader começaram o negócio, num puxadinho de fundos, na rua Silvânia, paralela da avenida Hélio Pellegrino, a alguns metros da avenida Santo Amaro.

Dani é chef de cuisine, diplomada no pra lá de renomado Instituto Paul Bocuse, na França. Com ênfase em pâtisserie, que é como os franceses chamam a arte de fazer doces, sobremesas (açúcares com certeza e glútens eventuais). Já formada, exerceu seus talentos no México e nos Estados Unidos, antes de voltar para Sampaulo.

Aqui, ganhou o prêmio de melhor cheesecake da cidade, elaborado para a filial local do novaiorquino P.J. Clarke’s.

Fernanda Nader e Daniela Aliperti, criadoras do Forma de Pudim

Fernanda Nader e Daniela Aliperti, criadoras do Forma de Pudim

Em suas lides profissionais, topou com a marqueteira Fernanda. E, de pudim de baunilha em riste, jogou por terra o preconceito da nova amiga contra um dos mais brasileiros dos doces. Como a maioria das mulheres, Fernanda torcia o nariz para pudins: “não valem as calorias”, pensava.

De fato, para sucumbir à overdose de glicose, o paladar feminino exige sobremesa mais “elaboradas”. Mais firulas,recheios, coberturas, texturas… Pudim é muito pé no chão pra quem não abre mão de um salto alto.

Para faturar uma graninha extra nas festas de final de ano de 2011, as duas decidiram oferecer os pudins, preparados sob encomenda, para amigas e conhecidas da falante marqueteira (sinônimo cheio de pose de vendedora). Dani preparou algumas amostras de degustação e a expectativa de conquistar algumas clientes nessa empreitada natalina gerou um tour-de-force de noites passadas na beira do forno para conseguir atender tocentos pedidos. Que se estenderam verão de 2012 adentro.

Fava de Baunilha, o básico sofisticado do Forma de Pudim

Fava de Baunilha, o básico sofisticado do Forma de Pudim

Começaram a pensar, seriamente, em largar tudo para viver de pudim. Antes que o outono desse as caras, estavam no tal puxadinho onde as conheci, atendendo, apenas, sob encomenda.

Não sem antes se escorarem numa pesquisa de mercado (pensa que marqueteiro abre mão de suas “ferramentas”?). Que lhes revelou: o singelo pudim é o doce predileto de – pasmem – 80% dos homens de Sampaulo!

Antes de conhecer o pudim da Forma de Pudim, tenho quase certeza que eu estaria entre os 20% restantes. Sempre gostei de pudim, mas daí a doce predileto…

A bem da verdade, eu me encantara com o surpreendente doce de Dani antes de ir à loja, em jantar na casa de minha prima Moni. E tanto gemi prazeres e o louvei – e repeti fatias, sem o menor pudor – que acabei ganhando uma quentinha da sobremesa para me saciar em casa. Detalhe: o regalo foi acomodado na adorável sacola da Forma de Pudim. Com endereço e telefone impressos nela para poder recorrer à fonte.

A extraordinároa textura é um dos trunfos dos pudins de Dani e Fernanda. O outro são os sabores, primorosos.

A extraordinároa textura é um dos trunfos dos pudins de Dani e Fernanda. O outro são os sabores, primorosos.

Como eu, duvido que você já tenha comido pudim igual. São mais cremosos, não tem bolhinhas de ar no meio, consistentes, a um tempo macios como uma indulgência (sabe um beijo, desses com direito a tudo?). Mas firmes, consistentes. E saborosíssimos. Com o brinde adicional da calda espessa.

Difícil era – e é, até hoje – escolher o sabor. Dani não para de inventar novidades. Começaram com seis ou sete. Agora, são bem uns quinze. O mais recente a conquistar espaço no cardápio é limão siciliano.

Já na boca do primeiro inverno, back in 2012, lançaram o sabor paçoca, para as festas juninas. Tão bom que eu sofria só em pensar que, passado São João, ia ter que esperar um ano até cair nele de novo. Mas o sucesso foi tanto que virou permanente.

Paçoca, avelã, pistache... Cada um melhor do que outro.

Paçoca, avelã, pistache… Cada um melhor do que outro.

Parênteses para uma confissão de fraude. Em 2014, houve uma festa caipira em que os convidados tinham que levar, cada um, um prato, típico, de sua lavra. Levei o tal pudim de paçoca! E, até hoje, me perguntam a receita… Só hoje admito: a receita é: tomem o rumo da Rua Normandia. Lá, inclusive, tem um livro, escrito por Dani, ensinando o passo-a-passo.

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Há coisa de dois anos, quando mudaram para Moema, os pudins ganharam um simpático salãozinho para a gente se atolar neles lá mesmo. Inclusive no bem sacado pudim brulé. Além de servi-los em fatias, elas assam-nos em forminhas menores, tipo porções individuais. E em micro-forminhas, do tamanho de uma colher de sopa, perfeito para experimentar antes de se decidir por qual levar. Ambos também são vendidos em embalagem com dois, quatro ou seis pudinzinhos. O que permite aos indecisos – tipo eu – levar vários sabores.

Na loja da rua Normandia, vitrine com as opções do dia, embalagem de pudins individuais e o pudim brûlé.

Na loja da rua Normandia, vitrine com as opções do dia,
embalagem de pudins individuais e o pudim brûlé.

Já os maiores, com buraco no meio – comme-il-faut para um pudim digno do nome, são assados em três tamanhos (e olha que eu acho o maior de todos ainda, digamos, menor do que meu olho grande). São todos entregues nas próprias formas, com a marca Forma de Pudim gravada nela e tudo (olha a marqueteira Fernanda aí, gente!). Tudo envolto em celofane, com direito a laçarote de fita e a tal adorável sacola em que levei meu primeiro pedaço para casa.

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Obrigado, Moni. Mais do que pela doce quentinha daquela noite, pelo vício de desde então.

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Pelas minhas contas – eu não sou lá muito bom nisso – os pudins do seu João Batista custam cerca de 40% do preço dos pudins do Forma de Pudim. Se considerarmos os custos de manutenção do negócio de Dani e Fernanda (aluguel em local privilegiado, confortável e caro, a folha de pagamentos do pessoal envolvido na produção e atendimento da loja, impostos, etc), além do preço dos ótimos ingredientes importados usados e, of course, a qualidade de sua guloseima, cá pra nós, o pudim ambulante é que custa um pouco caro…