Oásis de Donaire

Meu sobrinho Renato, no rumo de me promover ao patamar de tio-avô, reclama de meu palavreado intricado. Imagina, Rê, gentileza sua. Senão, vejamos…

Dia desses me deparei com uma palavra diferente: donaire. Sabia que não me era inédita. Eu já tropeçara nela, algures (outra palavrinha rara). Acontece que o significado de algures me é intuitivamente óbvio: refere-se a um lugar impreciso.

Donaire era uma incógnita. Não a sabia sequer se desta língua. Aparentava coisa nobre, trejeitos empoados, perfumados, com pedigree afrancesado… Mas tanto podia fazer parte de vocabulário médico – aí valendo seja para patologia, seja para remédio (“estou com uma moleza, uma donaire que não passa…” Ou, “tome dois comprimidos de donaire, um após o almoço e outro após o jantar”) – quanto meteorológico, também aí passível de significar extremos: tormenta ou bonança (“a moça do tempo está prevendo bonaire braba para este fim de semana”; ou “a viagem foi ótima, nenhuma nuvem, bonaire da decolagem ao pouso”).

Donaire podia definir um fundamento de arte marcial, uma manobra náutica, uma ilha distante, uma peça de indumentária islâmica, ou seja, eu não fazia a menor idéia do que expressava. Sequer sabia a pronúncia correta. Se donaire mesmo, com o a agudo, ou se donérre, caso fosse um galicismo.

Fui ao Aurélio aprender que donaire tem genética espanhola. Soube depois que, entre hispânicos, seu uso é corriqueiro. Significa um monte de coisas boas, agradáveis e prazenteiras. Donaire é gentileza, elegância, garbo, graça, adorno, enfeite, atavio.

Resumindo, a vida da gente ganha qualidade quando salpicada de donaire.

Oásis, por sua vez, todo mundo sabe o que é. Pode não conhecer pessoalmente, mas sabe do que se trata.

Sabendo o que significam oásis e donaire, concluí que canteiros floridos são oásis de donaire. Sampaulo mal conhece isso. Não é uma Curitiba, que tem até um Relógio de Flores. Ou a Brasília de quando lá morei, que ostentava um retorno, na saída do aeroporto, que gritava estridente: Bem-vindos à Holanda!

Aqui tem o jardim da Casa das Rosas, na Paulista. Mas apesar do endereço central e nobre, fica meio escondido…

Jardim da Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Jardins protegidos pelos muros altos do Morumbi, Pacaembu ou Jardim Europa também não contam. Não são notórios.

Parque da Independência. Bem legal, mas monocromáticoO Parque da Independência diante do ora interditado Museu do Ipiranga, malgrado o morto e insepulto riacho histórico que flui a seus pés, tem o charme de jardim bem cuidado. Mas lhe falta o colorido das flores. O sempre atulhado Ibirapuera – e os outros – também remetem mais a arremedo florestal do que a jardim floral.

Na falta de canteiros, nossos oásis de donaire são os floristas.

Ambulantes de rosas em sinais de trânsito não contam. Os buquês estão para as flores como a xepa está para as hortaliças em fim de feira.  São moribundas mal maquiadas.

Tampouco me refiro aos setores floristas de supermercados. O ambiente não lhes favorece. O território é das gôndolas. O habitat é das embalagens concebidas por marketeiros. As flores nos encantam pela sinceridade espontânea. Lírios e margaridas não conseguem se por à vontade nesse ambiente da sedução premeditada.

Os oásis paulistanos de donaire são as floriculturas. As vitrines de antúrios, de gérberas, de orquídeas, tulipas, crisântemos… As bancas de girassóis, copos-de-leite, violetas, helicônias, íris, gardênias…

Elas existem de todos os tamanhos. Da colossal Feira de Flores do CEAGESP – com 20 mil metros quadrados e mais de mil produtores, às terças e sextas, antes do sol dar as caras, até as bancas de feirinhas de bairro.

Feaira de Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Feaira das Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Para os não profissionais do ramo – e não madrugadores – que buscam ampla variedade de opções e boa relação custo/benefício, existem dezenas de opções de garden centers. São como hipermercados de plantas e flores. Acho que por uma questão de logística, alguns dos maiores e melhores ficam na região do CEAGESP, na Vila Leopoldina. É o caso do Uemura e do Mil Plantas.

Uemura - varejão de flores - de um tudo e algumas cositas mais

Uemura – varejão de flores – de um tudo e algumas cositas mais

Sem contar os floricultores urbanos que produzem sob as linhas de transmissão de alta-tensão de energia.  Como os que cultivam a lateral da Avenida Morumbi, em seu trecho ainda Jardim Guedala. Atendem ali a clientela que pode circular o pé na terra, entre os canteiros.

Passarela de noiva em casamento by Vic Meireles

Passarela de noiva em casamento by Vic Meireles

Para os exigentes – e abonados – que apostam na sofisticação criativa e no bom-gosto infalível dos melhores floristas, Sampaulo reúne artistas extraordinários na composição floral. Seja de singelos buquês ou de ambientação de grandes efemérides. Meus prediletos são o célebre Vic Meirelles (não pode ser coincidência o fato de que os eventos paulistanos cuja ambientação paisagística e floral me encantam a ponto de eu querer saber quem as criou,  serem, invariavelmente, obra dele) e a talentosa equipe de Rosângela Duarte (que conheci na Rua da Consolação, mas mudou sua adoravelmente surpreendente floricultura Bem Me Quer para a Alameda Lorena). São ambos ótimos, requintados e caros.

Floricultura Bem me Quer - um lugar encantado

Floricultura Bem me Quer – um lugar encantado

Quando, entretanto, me sobra tempo e inspiração, prefiro eu mesmo arriscar combinações. Não domino a técnica e não disponho do arsenal de assessórios dos bons floristas, mas me seduz a ousadia amadora de tentar meus próprios arranjos. Seja para celebrar os amigos, para enviar-lhes em gratidão por uma acolhida agradável em suas casas ou para alegrar minha sala. Fica mais pessoal. Essas horas, recorro aos oásis de donaire móres da cidade: as bancas do Largo do Arouche e os boxes da Avenida Doutor Arnaldo, ao longo do muro do Cemitério do Araçá, na vizinhança da Avenida Paulista. Ambos funcionam 24 horas, embora nem todos os boxes se mantenham abertos durante a madrugada.

O Arouche já viveu dias melhores. Nunca mais comprei lá, mas vira e torna revejo seu colorido como cenário dos meus sempre excelentes repastos no tradicionalíssimo restaurante francês La Casserole.

Os floristas da Avenida Doutor Arnaldo preservam a excelência. Com qualidade e variedade de opções. As bancas com espécies mais exóticas, raras e surpreendentes são a de número 18, das irmãs Ana e Marina, e a de número 11, de Cleide. A exclusividade é tão encantadora quanto dispendiosa. Mini antúrios roxos, lindos, delicados – e importados, custam 20 reais a unidade! Um buquê deles…

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo - dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo – dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Para quem gosta de flores enfeitando o dia-a-dia e não se sente seguro para compor os arranjos, sugiro os cursos rápidos. São prazerosa ocupação para um dia livre em Sampaulo. Na escola Wilma Kovesi, vira e torna Vic Meirelles em pessoa ensina técnica e ajuda os alunos a lapidar talento. A florista Fátima Casarini também oferece cursos disputados em seu galpão atelier do Alto de Pinheiros. É só consultar a programação nos sites e, se der, aproveite.

Por fim, existem épocas em que o clima inviabiliza o cultivo de uma variedade maior de flores. Acima dos trinta graus, até buquês de noiva precisam ser mantidos em geladeira e mal suportam a duração da cerimônia de casamento. Nesses casos, desembarque do preconceito e conheça as maravilhas artificiais importadas do oriente. Só faltam fazer fotossíntese.

Um bom lugar para encontrar variedade e qualidade é a DiBaraldi. Em seu sortidíssimo stand de extraordinários exemplares da floricultura industrial chinesa, em plena Feira de Flores do CEAGESP. Duvida, ao circular por lá, seus sentidos lhe ludibriem ao ponto de sentir os aromas, tão perfeitas são as peças. A DiBaraldi mantem, também, um tosco showroom, na Lapa, pertinho da Marginal do Tietê. É a opção “horário comercial” – ainda que acanhada – para conhecer seu estoque.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

Eu falo, mas reconheço que tenho uma certa implicância com flores artificiais. Talvez porque eu seja do tempo em que as imitações eram grosseiras, de plástico. Na minha memória emocional – e estética – ocupam a mesma gaveta da jarra de Q-suco, da mobília de fórmica, do estofamento em napa e da roupa de tergal. Tudo exibindo afrontoso orgulho de ser sintético.

Mesa posta por Rubi Pereira, com ramalhete de alfazemas da DiBaraldi

Mesa by Rubi Pereira, com  alfazemas da DiBaraldi

A história, agora, é outra.
Deve ser por isso que Baraldi e sua filha
e braço direito Fernanda evitam chamar suas flores de artificias. Embora falsas,
são tão naturalmente delicadas… Mesmo duráveis, fingem com talento a sedutora fragilidade floral.
Os Baraldi preferem chamá-las
de permanentes. Combina com o corre-corre de hoje em dia. Ficar trocando o conteúdo dos vasos exige tempo, não é barato e quer saber? Luxo, mesmo, é estar de bem com a vida e ser feliz.

E já que andamos questionando conceitos de breguice, se estiver de folga em Sampaulo, não titubeie em encarar um programa com fama de popular. Dê uma esticada até Holambra, a menos de duas horas da Avenida Faria Lima. Tá certo que na época do Festival da Primavera a coisa fica meio punk por lá. Mas flor, ali, não é um mero oásis de donaire. É oceano inteiro para se nadar de braçada.

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