Macarrão de japones

Estamos carecas de saber que a variedade de frutas brasileiras é excepcional. E a excelência não fica atrás. Da rara cambuci à corriqueira banana, o Brasil é pródigo. Em sapotizeiros, goiabeiras, tamarineiros, pitangueiras, jaqueiras, jabuticabeiras, pés de maracujá, de ata, carambola, uvaia, mangueiras… Nativos ou naturalizados.

Com tanta abundância à mão, nossa ancestralidade criou uma rica tradição de compotas. Pelo que sei, única com tal abrangência e popularidade no mundo.

Tá bom que as bisavós europeias já preparavam pêssegos em calda e as chinesas deviam fazer o mesmo com lichia. Movia-as mais a necessidade de preservar ingredientes colhidos nos meses quentes para serem consumidos durante o inverno estéril. Além de focarem mais no prazer, as nossas tinham um cardápio muito, mas muito mais variado de opções. E, como compete às avós, não se esgueiraram da missão de nos adoçar a vida.

As piauienses alcançaram o patamar de mestres-de-ofício. Quem circula pelo aeroporto de Teresina, inevitavelmente sucumbe ao apelo das lojas que exibem a doce sedução de tocentos vidros de compotas em suas prateleiras abarrotadas de glicose colorida. Algumas são saborosíssimas. Caju e bacuri, por exemplo. Mas o primor dos primores, para mim, são as compotas de casca de limão.

Seu preparo é laborioso e exige artesania apurada. Precisa tirar a polpa dos limões e raspar a casca, por dentro, até que fique fininha. Cuidadosamente, para não esfuracar. Daí, vão para o longo cozimento em calda até que fiquem macias… O resultado são instigantes bolinhas verdes, ocas, imersas em doce líquido cítrico. Uma festa de delicadeza, textura e sabor. Surpreendente, para quem não conhece.

Imagino que tenha sido o coroamento de infinita sucessão de tentativas de fazer doce de limão. Aprimorada, melhorada, aperfeiçoada, apurada, até alcançar esse patamar de requinte.

A evolução do macarrão, deve ter sido – mais ou menos – assim. Só que milênio(s) antes.

Quando eu era criança, aprendi que foram os chineses que o inventaram. Assim como a pólvora, o papel (inclusive o higiênico), sorvete, pipas, bússola…. Acho que tinha mais coisa, mas não lembro.

Vamos imaginar o processo:

Primeiro, caiu um pedacinho de massa de trigo numa panela de água fervendo. Um guloso tipo eu, resolveu provar e gostou da textura. Acrescentar sal à água deve ter sido dedução óbvia; nascia o nhoque (precursor do macarrão?).

Para exercitar a paciência artesanal (atributo chinês), devem ter começado a dar formas à massinha (imagina só os dragõezinhos e pandinhas caprichadíssimos…).

Passo seguinte: para variar, passaram a puxar e esticar a massa; logo começou a competição para ver quem alongava mais; eureca! Criaram o macarrão. Detalhe, tudo isso moldado à mão, sem os cilindros que usamos hoje.

Como é que eu sei dessa parte? Eu vi! E olha que é bem legal…

A primeira vez foi num restaurante aqui em Sampaulo, o Golden Plaza, no bairro Real Parque. Era um festival com cozinheiros trazidos de Pequim. E eu fiquei pasmo.

Depois, descobri que essa destreza culinária com jeitão de prestidigitação acontecia sempre, no meu chinês favorito na cidade, o Ton Hoi (já apresentado aqui, no post “Fora de Mão II” publicado em 19 de março de 2016). Mas, até lá, já adotaram as técnicas mecânicas…

Voltemos aos primórdios: um dia, há mais de 700 anos, um aventureiro ocidental abusado – Marco Polo – resolveu viajar até o extremo Oriente atrás de novidades. Voltou carregado delas (lembram? Pólvora, papel, bússola, sorvete, macarrão…. Ah, lembrei agora de outra invenção: a seda, claro).

Marco Polo, de volta da China, carregado de novidades.

Trouxe isso tudo para onde? Para Veneza, Itália. E os italianos, que não são bobos nem nada, trataram de “patentear” as comidas – que sempre rende uma graninha e rende sempre – com o carimbo Prodotto in Italia.

O sorvete virou gelato e o macarrão, bem… O macarrão se multiplicou em spagheti, tagliarini, fettucini, pappardelli, linguini, bucatini, bavette… Só não sei se foram os ancestrais dos marqueteiros que tanto segmentaram o souvenir chinês de Marco Polo ou se foi sequela de briga dos herdeiros pelo legado do viajante.

Enquanto isso, o macarrão continuou a ser preparado na sua terra natal.

Para chegar ao Japão, foi mais fácil. Bastava atravessas um braço do Pacífico. Não precisava percorrer meio mundo. A uma via Dutra de distância sobre o mar da China, uma canoa mais resistente vai da chinesa Shangai à Nagasaki nipônica. Levaram o macarrão, mas a receita não foi junto. E os japoneses, pragmáticos do jeito que são, decidiram, depois de cozinhar, não desperdiçar a água. Já estava quente mesmo…

Distribuíram tudo em tigelas, temperaram bem com shoyo (estamos no Japão, lembra?), acrescentaram verduras, algas (também não pode faltar, por lá), proteína (geralmente, carne de porco) e mandaram ver. Nascia um dos ícones do cardápio nipônico: o lámen.

E você achando que aquele macarrão em saquinho se chamava miojo. Miojo é marca.

Mas lámen bom é muito mais – e melhor – do que o que o que vem naquelas embalagens de preparo instantâneo que alterna com pão com ovo a dieta de quem está mal de grana.

Só que esse macarrão japonês, digo, lámen, demorou muito para cair no gosto do povo (até porque não era fácil tomar aquela sopa com pauzinhos).

Só pegou, mesmo, depois da segunda guerra mundial, há coisa de setenta anos. Os Estados Unidos decidiram dar uma força na recuperação da devastação que aprontaram por lá. Não por consciência pesada pelas bombas atômicas (que americanos não são chegados nesses atos de contrição, até porque eles é que foram atacados primeiro, em Pearl Harbour), mas para evitar que o antiamericanismo transformasse o país em presa fácil da ideologia comunista.

A ajuda foi tanto financeira, quanto em bens e alimentos. Entre eles, toneladas e mais toneladas de trigo. Para aproveitá-lo, o governo local decidiu, então, promover a disseminação do lámen. Tipo divulgação de receitas, dos benefícios, das vantagens…

Não sei se distribuíram cartazes com fotos do imperador Hiroito atracado numa tigela, outdoors de um lutador de sumô devorando sua bacia de macarrão, filmes de National Kid em dúvida se acabava de comer seu lámen ou ia combater os Incas Venusianos, mangás de Hello Kitty chupando um macarrão com onomatopeia (schlupt)…

Brincadeiras à parte, a propaganda ganhou a parada. Os japas adotaram o lámen como comida tão corriqueira quanto sushi, tempura e doce de feijão azuki.

Ahhh, por falar em Hello Kitty, eles não acham grosseiro comer lámen chupando e fazendo barulho.

Aqui em Sampaulo, não existiam restaurantes de lámen. Até coisa de oito anos atrás, quando as tigelas de macarrão viraram moda na cidade. Foi nessa época que abriu o Lámen Kazu, no bairro da Liberdade. Numa rua curtinha do bairro oriental, coalhada de bares e restaurantes japoneses, a Tomás Gonzaga – vai da avenida da Liberdade até a rua Galvão Bueno (é outro Galvão Bueno, não aquele que você pensou…).

À noite, principalmente nos fins-de-semana, há sempre fila na porta do  Lámen Kazu

O restaurante, dentre os muitos que abriram nesse florescer paulistano do lámen, acenava com o atraente diferencial de uma parceria – que mantém até hoje – com uma rede de bārāmen, restaurante focado em lámen, espalhada pela vizinhança de Tokio. Tipo consultoria gastronômica e suporte operacional (o macarrão e vários outros ingredientes usados no Lámen Kazu são made in Japan!).

Fui lá, logo que abriu. Gostei. Simples, com jeitão de boteco fast food, mas bem simpático. Tem clima amigável, os garçons gritam saudações, em japonês, para quem entra (ようこそ) e quem sai (さようなら).

O salão sempre cheio do Kazu Lámen

Dispensei as mesas e sentei no balcão, diante dos equipamentos modernos de preparo. E fiquei apreciando o lufa-lufa de finalização dos tigelões de lámen. Além do espetáculo culinário pitoresco, diverso do que estou acostumado no dia-a-dia, acaba que foi muito útil.

Diante do balcão, os cozinheiros não param.

Conversei bastante com a rapaziada e, papo vai, papo vem, decidi meu pedido com mais conhecimento de causa e segurança. Embora o cardápio seja bem explicadinho, com fotos ilustrativas de cada prato e tudo.

O cardápio detalhado e ilustrado do Kazu Lámen

E mais: é interativo. O Kazu Lámen oferece cerca de vinte preparos padrão. Mas podemos alterar ou acrescentar ingredientes – há uma lista explicativa deles, logo na primeira página. Incluem, além do macarrão e do caldo (que pode ser à base de shoyo, missô ou shio), carne de porco, lascas de bambu grelhado, broto de feijão, wakame (uma alga marinha que me lembra o espinafre), nori (aquela alga que parece uma folha de papel, é usada em sushi e dizem que ajuda a controlar o colesterol), ovo, milho, alho, gergelim, vieira…

Eu sou louco por vieira e não abro mão de as acrescentar. Só que costumo jogar uma pitadinha de sal sobre elas, porque mergulham-nas insossinhas da silva no caldo.

Meu lámen do Kazu Lámen predileto é o Hokkaido Misso Lamen. Sem milho! E com duas vieiras a mais. Na mesa, acrescento pimenta e óleo de gergelim.

Sem contar que, para quem não gosta de sopas e afins, ainda há a alternativa de uns dois pratos de arroz coberto por picadinho. No Tyashu Don, a carne vem temperada sabiamente com molho agridoce. E ainda vem acompanhados de uma saladinha básica e caldo missoshiru.

Tyashu Dom – Picadinho agridoce sobre arroz. Com saladinha e caldo Missoshiru.

Para beber, O Lamen Kaze oferece opções que vão de destilados de arroz e ameixa a refrigerantes japoneses. Passando pela deliciosa cerveja Amazon aromatizada com bacuri.

Sake, Shōchū, refrigerantes japoneses e a ótima cerveja Amazon – aromatizada com bacuri.

A sobremesa da casa, um sorvete de chá verde niponicamente enfeitado, escoltado por um biscoito de gergelim, é que é de uma sem-gracice capaz de agradar apenas a quem gosta de tofu.

Sorvete de Chá Verde, para quem está a fim de sentir gosto de nada, só que geladinho.
Minto, há um certo amargorzinho do chá…

Da primeira vez, saí de lá achando o lugar – e a comida – interessante, mas dei por visto. Achava que não bateria vontade voltar… Bateu. Logo eu estava com vontade de mergulhar de novo no aconchego saboroso e cheio de sustança daquela sopa. E virei habitué da casa. Vira e mexe estou lá.


De repente, numa noite fria do ano passado, batendo perna pela rua Fradique Coutinho, no bairro de Pinheiros, já chegando à rua dos Pinheiros, tenho meu flanar perturbado por uma turba (será que o conceito de perturbar deriva de turba ou é a palavra turba que emanou da perturbação que gera?).

Muvuca atiça minha curiosidade. Fui fuçar o que motivava aquela aglomeração. Descobri que o povo aguardava para se jogar no lámen de um restaurante novo que já nasceu causando: o TanTan.

Tan Tan – Toda noite é esta muvuca.

Eu ia pegar o metro ali em frente, na estação Fradique Coutinho. Decidi adiar minha volta para casa e aguardar mais de uma hora para conferir a novidade.

O ambiente interno, entrevisto pela porta, era diminuto e sedutor.

O lugar é mínimo. Mas é aconchegante e descontraído.

E uma janela/balcão, dando para a rua, servia bebidas (aí incluídos os ótimos coquetéis da casa) para animar a espera.

Os drinks são tentadores. Destaques:
Gojira (Shōchū – um destilado japones, “primo” do Sake, limão e gingerbeer feita na casa)
Hibiscus G&T (Gin Tônica com hibisco, alecrim e limão siciliano)
Gin & Tonic Tea (Gin Tônica com chá branco, hortelã e grapefruit)
Jamaican Drop G&T (Gin Tônica com pepino e pimenta jamaica)
São todos muito bons. Na dúvida, já deixe o carro em casa…

Valeu a espera! Tenho voltado lá, amiúde. Só que, agora, eu trato de chegar bem cedo, na beirada das sete da noite, para evitar o relento da longa vigília.

Sem contar que, como no Lámen Kazu, prefiro sentar no balcão de meia dúzia de lugares – ainda mais disputados – para ficar observando a azáfama do chef assistente Leandro e de sua brigada de comandados finalizando os pedidos em equipamentos de tecnologia avançada, state-of-the-art, japoneses, of course, que ocupam a parede fronteiriça.

O deleite começa ali.

O chef assistente Leandro (anos e anos de Japão na bagagem)
apresenta o Chicken Rice (que é um Gohan – versão japonesa do risoto,
temperado com algas e servido com frango empanado e ovo mollet). Boommm…

As entradas são todas ótimas, criativas, com destaque para o extraordinário – e beira banal de tão elementar, mas primoroso – Katsu Sando, um sanduiche de barriga de porco. Toucinho carnudo e saboroso, empanado, entremeado por pão de forma. Simples assim e delicioso.

O ótimo Katsu Sando;
embaixo, sendo embrulhado por Guilherme, figuraça que cuida da finalização das entradas.

Sem contar o Hiroshima Okonomiyaki. Tipo um sanduichão redondo entre duas panquecas, maior jeitão de “tem-de-tudo”, recheado com carne de porco desfiada e macarrão. Uma levíssima sort of maionese japonesa, além de um molho à base de ketchup, shoyo, cognac, alho, gengibre… O pior é que funciona! Saboroso que só. Queria ter sempre um à mão quando baixa a larica.

Hiroshima Okonomiyaki, uma panqueca tradicional no Japão.
E nós achando que japones era parcimonioso…

E o Tebá? Sabe as buffalo wings americanas? Essas são as melhores das que tenho comido em Sampaulo. Crocantes e untuosas (banhadas em molho apimentado…) Hummmm…

Tebá

Já os Lámens….

Os tantans conseguiram sofisticar a sopa popular japonesa, sem mexer na sua essência. Não estivesse o adjetivo gourmet tão desgastado, dava para laurear suas tigelas com essa qualificação.

Meu predileto é o Karê Udon. Além do macarrão, vai carne de porco empanada, ovo mollet inteiro (não conhece? Não sabe o que está perdendo… É ovo cozido lentamente a baixa temperatura – por volta de 60 graus – preservando textura gelatinosa, gema cremosa…. Sabe quando a culinária encontra a emoção da arte?), além de cebola caramelizada e fatias tostadas de alho, tudo imerso em caldo de frango com curry.

Karê Udon

O Missô Ramen leva
carne de porco,
ovo ajitama (que é ovo cozido no ponto da gema ficar cremosa – 6 minutos, mais ou menos –
                       e, depois, marinado em caldo de galinha temperado com algumas ervas orientais),
além de broto de bambu e nori.
Tudo isso imerso em caldo de frango; detalhe: temperado com misso, alho assado, mel e manteiga.

Se sobrar caldo, eles fazem recarga de macarrão e ainda acrescentam, se você quiser, ovo e/ou carne de porco e/ou alga e/ou broto de feijão….

E ainda rola uma versão vegana de lámen, o Vegg Ramen, feita em caldo de cogumelos e misso, engrossado com berinjela. O macarrão é coberto com vegetais, nabo e broto de feijão. Um ovo ajitama é opcional..

Para quem não gosta de sopa, o Ankakê Yakisoba é… Um tipo de yakisoba! Preparado na wok, claro. Primeiro tosta levemente o macarrão e, em seguida, acrescenta lula, porco e legumes. E é finalizado com um molho de frango, alho, gengibre e gergelim. E o resultado é leve e saboroso.

Ankakê Yakisoba

Nem precisa se preocupar em guardar muito espaço para a sobremesa, porque o Kakigori é leve, levinho. E é irrecusável.É como se fosse uma montanha íngreme (para quem já leu os desenhos de Asterix, parece um menir), de raspadinha de gelo. Raspadíssima de gelo, eu diria (sabe neve?). Semi-coberta por uma calda feita de chá verde e leite condensado. E ainda vem uma tigelinha da calda extra para ir complementando… Lá no alto, no cume, um suspiro arremata a doçura. Desbastar é uma sweet, sweet brincadeira prazerosa.

O surpreendente – e adorável – Kakigori

Da próxima vez, quando bater vontade de comer japonês, saia do sushi-comum.

Quer saber como é o jeito japonês (correto ?) de comer lámen?

 

 

 

 

 

É privado, mas a alma é pública.

A imigração nordestina deu um tempo, arrefeceu. Se andamos pela rua Prates, entretanto, no bairro do Bom Retiro, o que mais se vê são jovens chegados há alguns meses, no máximo poucos anos, da Coréia. O Glicério ferve de haitianos e africanos que ainda mal falam português. Árabes e europeus do sul continuam desembarcando…

Esse caldeirão de culturas, tudo junto e misturado, é o maior tesouro de Sampaulo. Sonhos em construção, resiliência, arte vicejando em todos os sotaques, diversidade!

Sobretudo por isso, a cidade me inspira o tempo todo.

Embora intolerância mal-humorada e violenta, serviços públicos deficientes e mal direcionados e selvageria concorrencial na luta pela sobrevivência pelejem para me desencantar, acabrunhar, intimidar, reprimir e travar.

Nessas horas, minha terapia é correr para um SESC. Uma das raras instituições paulistanas focadas na valorização do ser – e não do ter. Por isso os SESCs são inspiradores. Alentam, incentivam, estimulam, encorajam, fomentam, açulam o que há de melhor em nós.

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O SErviço Social do Comércio é uma instituição privada, septuagenária, mantida por empreendedores do comércio: vendedores de bens e serviços (inclusive saúde, cultura, turismo e restaurantes). Graças a ela, as lacunas vazias pela omissão do Estado – em cultura, recreação e lazer, cursos e oficinas, equipamentos esportivos e, até, assistência odontológica – são preenchidas com competência e talento. E com desvelo todo especial para com crianças e idosos.

Seu mandachuva regional, há trinta e dois anos, é Danilo Miranda.

Danilo Miranda - ex seminarista, filósofo e sociólogo

Danilo Miranda – ex-seminarista, filósofo e sociólogo

Ele merece essa longevidade no cargo. Tenho para mim que o cara é louco pelo que faz. Não perde o foco, tem talento para sonhar adiante do óbvio e competência para contornar o impossível. Ou seja, nasceu para fazer isso. Não tem porque mudar o comando se o objetivo for renovar, arejar e coisa e tal. Afinal, ele é o próprio abanador da acomodação, inventa moda em modo moto-contínuo…

Comecei a frequentar o SESC, o da rua Dr. Vila Nova, entre a rua Maria Antônia e a rua Major Sertório, na Vila Buarque (hoje se chama SESC Consolação), bem antes de Danilo Miranda assumir o volante, ainda na década de 70. Ia jogar voley, com o pessoal da MPM (meu engatinhar publicitário foi lá, na então maior agência de propaganda do Brasil, situada a dois quarteirões de distância). Tínhamos quadra reservada, na hora do almoço. Vira e mexe rolava uma piscina depois da bola.

Teatro SESC Anchieta, década de 70

Teatro SESC Anchieta, década de 70

 

 

 

E foi no teatro de lá, o Anchieta, que assisti – ainda adolescente – à primeira peça de teatro em Sampaulo: “A Capital Federal” (todo gabola de encontrar, na metrópole, o texto de um conterrâneo maranhense – Artur Azevedo – sendo encenado).

À época, já existiam outras unidades funcionando. Uma no centrão antigo da cidade, ao lado da praça da Sé, o SESC Carmo.  E outra pra lá do distante autódromo, que funcionava como Clube de Campo, o SESC Interlagos. Ahhh, o CineSESC (aquele com um bar envidraçado no fundo da plateia, de onde se pode ficar assistindo o filme e comendo e bebericando tudo ao mesmo tempo), na rua Augusta, também é das antigas.

Bar do CineSESC

Bar do CineSESC

Anos depois, enquanto morei em Curitiba, inauguraram o SESC Pompéia, fruto de projeto abusadamente arrojado de Lina Bo Bardi. Foi um marco na história do SESC – e da cidade. E permanece como referência (até além-fronteiras do Brasil), de adaptação arquitetônica em prédios históricos. No caso, adaptação de antigos galpões fabris em espaços multiuso com pegada cultural e esportiva.

SESC Pompéia - projeto extaordinário de Lina Bo Bardi Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

SESC Pompéia – projeto extaordinário de Lina Bo Bardi
Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

Ou seja, quando Danilo Miranda assumiu o SESC, já havia um ponto de partida consistente. Mas ainda engatinhando, quando comparado com o que isso se transformou passadas três décadas.

Há alguns anos (Três…? Quatro…?), no começo de uma noite fria, eu e um amigo trafegávamos pela rua Bom Pastor, bairro do Ipiranga, no rumo do centro, a caminho de uma Virada Cultural. O sinal vermelho da esquina da rua dos Patriotas nos reteve o tempo suficiente para…. Cacete! À nossa esquerda, uma arquibancada toda ocupada por pessoas de…. Gelo! Enquanto outras, vivinhas e encantadas da silva, de celular em punho, observavam e fotografavam a plateia enregelada.

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O sinal abriu e, já decididos a estacionar e ir descobrir do que se tratava, ao tentarmos dobrar na rua dos Patriotas para catar onde parar, fomos impedidos pelo bloqueio de cavaletes. E…. Cacete de novo! Lá adiante, no meio do quarteirão, no meio do asfalto da rua, uma tela de cinema estava armada e exibia um filme para uma plateia acomodada, no maior conforto, em puffes “pingo” (aqueles grandes sacos de couro no formato de um pingo, com enchimento de bolinhas de isopor, que se moldam ao corpo).

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Foi assim, de surpreendência em surpreendência, que eu descobri o SESC Ipiranga, durante a sua programação – que vara a madrugada – de uma  Virada Cultural.

Como Sampaulo é arrebatadora! E como o SESC dá uma mãozinha nessa aptidão para encantar…

Quais eram minhas expectativas em relação ao bairro do Ipiranga, até então? Não mais do que “ desse mato não sai coelho”, ou seja, nenhuma. Até tropeçar no SESC assentado lá.

Eu já fora ao museu/palácio que celebra o 7 de setembro, apreciara o bem cuidado jardim/esplanada e seu rebuscado monumento. E contemplara o célebre mural do Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo (numa exagerada fantasia épica do brado de Dom Pedro). Além disso, apenas quinquilharias. Eu ficara com a sensação de que tudo não passava de cenografia imponente; muito glacê para pouco recheio. Dera por visto.

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Até o famoso camarão à provençal, que me arrastaram algumas vezes a cruzar a cidade até o restaurante La Paillote, no final da avenida Nazaré, já migrara para os Jardins.

O Ipiranga, rico de histórias para contar e carente de presente para mostrar, virara só passagem – se o Waze assim o determinasse.

Naquela noite de Virada, a vasta programação de shows e tudo o mais no centro da cidade teve que começar sem minha presença. Eu estava ocupado redescobrindo o bairro. E a porta de entrada foi o SESC Ipiranga.

A tal arquibancada de homens de gelo era uma intervenção da artista Néle Azevedo, ocupando a escada de acesso. Entramos. Lá dentro, performances no hall, mais intervenções artísticas na área de convivência e, nos fundos, um grande jardim, apinhado de gente esparramada para todo lado, assistindo vídeos, fazendo música, comendo e bebendo; confraternizando. Em volta de uma grande claraboia envidraçada, elíptica, abaulada (sabe um casco de tartaruga?) – que depois eu descobri ser a cobertura da piscina.

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De lá pra cá, nunca mais deixei de ir ao SESC Ipiranga.

Um de meus primeiros encantamentos foi a localização. Ocupando uma esquina, o prédio, moderno, divide o cruzamento, com três palacetes surpreendentes. E, nos fundos, é vizinho de muro do Parque do Idependência e do palácio/museu. Tipo um entorno que transpira nobreza. Decadente, mas, ainda assim, ostentando priscas fidalguias.

O prédio, moderno, e seu entorno "fidalgo"

O prédio, moderno, e seu entorno “fidalgo”

Descobri, surpreso pois o imaginava mais recente, que ele já existe a beira vinte e cinco anos e que seu bem elaborado projeto foi criado pelo arquiteto Julio Neves (reparando bem, tem o mesmo DNA do supermercado Santa Luzia, na alameda Lorena, também saído de sua prancheta).

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A relevância cultural dos quinze SESCs de Sampaulo começa aí, no projeto. Sempre entregue a arquitetos, se não famosos, selecionados pelo talento em somar beleza, inovação e funcionalidade, com soluções que promovam a integração entre os usuários de seus muitos equipamentos, a socialização, a inclusão e a acessibilidade.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro e, em construção, Paulista.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro                  e, em construção, Paulista.

Em todas as unidades, os equipamentos esportivos atraem, compreensivelmente, sobretudo usuários da vizinhança.

Já a programação cultural, essa arrasta público de bairros distantes e até de outras cidades. Eu mesmo, sou frequentador contumaz de shows, espetáculos teatrais e exposições nos SESCs Pinheiros, Vila Mariana, Consolação, Pompéia, Belenzinho, Bom Retiro e Santo André. Mas o SESC Ipiranga – e talvez por isso eu o não tenha percebido antes – sempre focou a sedução de suas atrações nos moradores da região. Era muito mais provável encontrar alguém do bairro do Ipiranga participando de um evento no SESC Pinheiros do que vice-versa.

Essa escrita começou a ser reescrita a partir do ano passado, com alguns projetos de enorme repercussão. Eles colocaram o SESC Ipiranga no radar da elite cultural da cidade:

Viveiros de Castro” (várias atividades, de shows a exposição fotográfica, numa espécie de tributo a um dos maiores antropólogos brasileiros);

Eduardo Viveiros de Castro - Exposição, Música, Performance... No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo, na abertura do projeto.

Eduardo Viveiros de Castro – Exposição, Música, Performance…
No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo,                 na abertura do projeto.

70 anos sem Mário de Andrade” (com múltiplas atividades, sobretudo teatrais, focadas na obra literária de um dos maiores escritores – e intelectuais – de Sampaulo e do Brasil);

"Manuela" e "O Ó da Viagem", pelo grupo teatral Companhia do Feijão foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

“Manuela” e “O Ó da Viagem”, pelo grupo teatral Companhia do Feijão
foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

ESPANCA! 10 anos” (retrospectiva com a remontagem de quatro peças do premiadíssimo  grupo teatral mineiro);

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos
com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

Lira Paulistana: 30 Anos” (diversos shows que resgataram um movimento cultural divisor de águas, que fez história no teatro improvisado num subsolo, na praça Benedito Calixto, e reuniu a vanguarda artística de Sampaulo da década de 80);

O Projeto "Çira Paulistana: 30 Anos" promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti, Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo... Além de debates e exibição de filmes.

O Projeto “Lira Paulistana: 30 Anos”
promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti,                         Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo…
Além de debates e exibição de filmes.

#ForadeModa” (com curadoria de Fause Haten, estrela maior do universo fashion e multi-artista, está em sua segunda fase e reúne de exposições artísticas a atelier de costura criativa, tudo com o vestir como pano de fundo).

"A Feia Lulú", performance do multiartista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

“A Feia Lulú”, performance do multi-artista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

Um dos segmentos do projeto, batizado por Fause de “Lili Marlene” incluiu o desfile do estilista na última São Paulo Fashion Week, realizado no Parque do Museu do Ipiranga, vizinho ao SESC Ipiranga. Em vez de modelos vivos, Haten usou manequins de vitrine sobre rodinhas, todos com a fisionomia da atriz alemã Marlene Dietrich. Ele definiu assim o que apresentou: “O Desfile Marlene não é moda, mas está à venda e pode ser vestido; não é teatro, mas pode ser assistido e não é obra, mas pode ser contemplado”.

Alguns dos artistas que participam do projeto "#ForadeModa", atelier de costura "inventiva" orientado pelo estilista Renato Dib e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns dos artistas que participam do projeto “#ForadeModa”,                                                    atelier de costura “inventiva” orientado pelo estilista Renato Dib
e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns artistas plásticos e coletivos de artistas foram convidados por Fause Haten para criar obras para exposição durante a realização do projeto.

Trabalhos de Adriana Yazbek

Trabalhos de Adriana Yazbek

e obras de

e obras de Karila Girotto, Laerte Ramos, Casa Juisi, Fernanda Yamamoto…

Antes disso, coisa de um ano antes, durante uma grande reforma no prédio, as atividades do SESC Ipiranga foram transferidas provisoriamente para um casarão antigo. Todo ambientado com surpreendente criatividade.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014, foi extremamente sensível às características do lugar. Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014,                                                                                   foi extremamente sensível às características do lugar.
Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

Na mesma rua, meio quarteirão adiante. Tudo que acontecia lá passou a ser divulgado com a chamada “É logo ali”. E o bordão pegou, conquistou a mídia que passou a divulgar as atividades com uma intensidade até então inédita. A ousadia da iniciativa e de sua programação que se aproveitou com extraordinária sensibilidade curatorial das características cenográficas do local, já haviam despertado a atenção da nata mais antenada da cultura paulistana.

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga não sofreram solu~]ao de continuidade durante o "É Logo Ali". Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local. Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias, shows musicais (inclusive um com a ótima cantora)

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga
não sofreram soluçãoao de continuidade durante o “É Logo Ali”.
Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local.
Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias (Elke Maravilha arrasou), exposições, shows musicais (inclusive um, delicioso, com a surpreendente Flavia Bittencourt)

Uma atividade iniciada na sede interina, no “É logo ali”, foi tão bem-sucedida que, concluída a reforma, continuou a acontecer na sede. É o adorável “A Cozinha da Doidivana”, em que a escritora, socióloga e cozinheira Ivana Arruda Leite recebe escritores para um bate-papo enquanto prepara um jantar. Com direito a audiência – restrita a pouquíssimas pessoas, instaladas em mesas arrumadas para comer. No final todos participam do regabofe.

Não é fácil conseguir ingresso para "A Cozinha da Doidivana". Mas vale o esforço. Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos. Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá: Antonio Prata, Marçal Aquino, e o imprescindível Laerte.

Não é fácil conseguir ingresso para “A Cozinha da Doidivana”. Mas vale o esforço.
Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima
e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade
que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos.
Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá:
Antonio Prata, Marçal Aquino, Reinaldo Moraes. Joca Reiners Terron e o imprescindível Laerte.

Por falar em comida, a única atividade que deixa a desejar no SESC Ipiranga é a Comedoria – que é como chamam a lanchonete. É bem instalada, agradável e confortável, com louças e utensílios transados. Mas a comida não passa do sofrível e, não raro, é intragável.

Comida também é cultura. Não é apenas um detalhe de menor importância, uma obrigação da qual temos que nos desvencilhar para cuidar das questões maiores, mais importantes. Não somos primatas. Durante milênios aprimoramos o comer até transformar essa exigência de sobrevivência em atividade prazerosa, fonte de emoção. Alçada ao patamar de atividade cultural.

Tratar uma comedoria como se fosse um vestiário, um banheiro, cuidando apenas de mantê-lo higienizado, bem equipado e “saudável” não combina com a civilidade que o SESC demonstra em todas as suas outras iniciativas. Ração é racional demais para quem – como Danilo Miranda – percebe que as pessoas são mais do que ferramentas produtivas.

Coisa que me irrita, manda meu humor para as cucuias, é frustrar meu apetite. Escolher um de comer, encher meu paladar de expectativa e, depois, desapontá-lo. Como aconteceu no SESC Ipiranga. E ainda ter que desembolsar por isso! Eu não gosto de ser tratado como panaca…

E não adianta vir com o argumento de que é barato e por isso… Dá para cozinhar decentemente com orçamento baixo. Preparar quitutes interessantes com os mesmos ingredientes que usam para fazer aquelas porcarias! Até concordo que comida boa é comida nutritiva e balanceada. Mas comida boa é, também e sobretudo, comida saborosa. Preparada com talento, desvelo, paciência, carinho…E respeito por quem vai comer.

A elite gastronômica, exigente não frequenta a Comedoria do SESC Ipiranga. O lugar está sempre lotado de gente que não se importa de comer mal. Está habituada e sequer sabe que pode tirar prazer do comer. Mas isso não justifica. Aplaca a má consciência dos administradores, mas não é desculpa. Até porque o cardápio de opções culturais, esportivas e de lazer oferecido pelo SESC também não fazia parte do hábito de consumo de quem passou a se servir dele, desde que passou a frequentar o SESC.

Essa falta de exigência do público em relação a cultura e equipamentos esportivos não impediu que Danilo Miranda e seus comandados nadassem contra a maré e oferecessem qualidade a sua clientela. Pelo contrário. Motivou-os a caprichar. Tacaram Viveiros de Castro, Mario de Andrade, Fause Haten, grupo ESPANCA e que tais na moleira do lugar-comum que o assistencialismo clientelista costuma servir à plebe rude e ignara! Viva o SESC por isso!

Porque, com comida, é diferente?

Fico olhando para os atendentes da Comedoria com dó. Seus colegas que trabalham nas outras atividades do SESC sentem que fazem algo relevante, digno, louvável. Eles, não. Podem até não ter consciência de que sua energia produtiva é dispendida com irrelevâncias. Mas, com certeza, não desfrutam do mesmo sentimento de orgulho funcional que anima os que trabalham no teatro, na piscina, nas oficinas, no jardim… Estes, mesmo que não racionalizem isso, sentem que contribuem para a dignificação da condição humana.

A Comedoria é legal. Simples e comfortável. E a área externa é muito aprazível.

A Comedoria é legal. Simples e confortável.
E a área externa é muito aprazível.

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão intragável como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na "Tigela". Quanto à "refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquina com três queijos é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram...). Salva-se - e olhe lá - a saladinha e o suco de uva de caixinha. é uma massa

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão disgusting                      como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na “Tigela”.
Quanto à refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquinha com três queijos    é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram…).
Salva-se – e olhe lá – a saladinha e o suco de uva de caixinha.
O que dá para encarar, com muita fome, é o Escondidinho de Frango.

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora. O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável. Ahhh, repare da simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas...

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora.
O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável.
Ahhh, repare na simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas…

Ainda no capítulo comida, foi o SESC Ipiranga que lançou em Sampaulo a moda dos jantares “no escuro”, de olhos vendados. Na época do “É logo ali”.

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Os equipamentos esportivos, inclusive a piscina, são de uso restrito de comerciários (na ativa ou aposentados do comércio). Assim como o serviço odontológico e as diversas oficinas de artes, trabalhos manuais e informática. Nesses casos, há a chance de, sobrando vagas, serem admitidos “intrusos”.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal. Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal.
Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes. Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais. Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio...

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes.
Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais.
Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio…

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites. Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas), passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..), E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites.
Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas),
passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..),
E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

Outras atividades de lazer e a programação cultural, entretanto, são abertas a todos. Exposições são de livre e gratuito acesso. A maioria dos espetáculos – teatro e shows, entretanto, é paga (com ingressos super em conta para os trabalhadores do comércio). É que os artistas recebem cachês; independem da bilheteria. Isso faz do SESC um dos grandes investidores na produção cultural de Sampaulo (sem contar as atrações que traz de fora – de outros estados e até do exterior).

Saca só alguns dos eventos que rolaram no SESC Ipiranga desde que eu comecei a frequentar a rua Bom Pastor (é só uma fração diminuta de uma programação intensa e rica, com curadoria que sempre enfatiza qualidade e relevância cultural):

Teatro

São dois espaços: uma sala maior, confortável e bem equipada, com duzentos lugares e um recinto diminuto, para vinte e poucas pessoas – e olhe lá… Mas que tem abrigado ótimos espetáculos intimistas, a maioria monólogos. Assisti lá a emocionante interpretação de “O Porco”, por Henrique Schafer. Brilhantes, ator e texto.

Um monólogo extraordinário: "O Porco", com Henrique Schafer

Um monólogo extraordinário: “O Porco”, com Henrique Schafer

E, no maior, vi um intrigante espetáculo com Débora Falabella sobre adoção, duas ótimas montagens do grupo Espanca, um surpreendente Domingos Montagner fazendo “Mistero Buffo”, os extraordinários “Aldeotas” (com o grande Gero Camilo), “Cais ou A Indiferença das Embarcações” (com a Velha Companhia de Teatro) e Alessandra Negrini – num espetáculo pouco lisonjeiro para com a saga colonizadora dos bandeirantes (esse, confesso, achei bem chatinho) …

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta. Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos...

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta.
Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos…

Shows

Acontecem no teatro, no ginásio, na área externa e, até, no vizinho Parque do Independência… Já, já, rola um show na piscina.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e - saudade... - Naná Vasconcelos. Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e – saudade… – Naná Vasconcelos.
Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Exposições

Não existem fronteiras para a programação de Artes Visuais do SESC Ipiranga. Do grafite aos suportes tradicionais – pintura, gravura… Passando por projeções noturnas (as fisionomias estampadas na vegetação da ocupação “É Logo Ali” faziam muita gente pegar o carro só para passear por lá), pela exposição interativa de Athos Bulcão (até as crianças adoravam), as muitas instalações (inclusive as que usavam os quartos do casarão ocupado em 2014 (como a que contava a história do Grupo Lume)… Quando entrei lá pela primeira vez – naquela Virada Cultural, lembra?, a grande parede curva e a área de convivência estavam ocupadas pela exposição “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi. Fiquei completamente de quatro, a-pai-xo-na-do!

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga. Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação "É Logo Ali" (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora de "Memórias Insulares" da artista Érika Kaminishi.

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga.
Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação “É Logo Ali”                    (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora                               de “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi (nas duas imagens da base).

Deu para sentir porque o SESC aqui em Sampaulo é essencial?

E olha que eu só falei do SESC Ipiranga, que nem é o mais buxixado da cidade…!

Isso tudo estaria acontecendo sem Danilo Miranda à frente do SESC? Com essa qualidade e abrangência de conteúdo, esse primor de produção, essa excelência técnica? Duvide-ó-dó!

Sabe o ditado que credita a engorda do rebanho ao olho do dono?

Pois eu já cruzei algumas vezes com ele em diferentes eventos do SESC. Circulando, assistindo espetáculos, conferindo tudo. Anonimamente, com o seu jeitão de Gepeto acompanhando o passo a passo de Pinocchio.

Inclusive na apresentação de um luthier cearense que usa matérias primas alternativa, no SESC Consolação, num show da extraordinária Luciana de Souza, no SESC Belenzinho, numa encantadora apresentação de “Os Gigantes da Montanha” de Pirandello, pelo grupo mineiro Galpão, num Festival de Teatro de Rua promovido pelo SESC…

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC, no meio do público que assistia ao deslumbrante "Os Gigantes da Montanha, do Grupo Galpão de Belo Horizonte, olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto: o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC,
no meio do público que assistia ao deslumbrante “Os Gigantes da Montanha”,                                  do Grupo Galpão de Belo Horizonte,
olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto:
o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Essas horas, fico de olho nele, num misto de admiração e gratidão pelo que sua gestão proporciona a minha Sampaulo.

Vida longa, Danilo!

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