Moóca, ó nóis aqui ‘tra vez

Me seduz, excita e encanta, a capacidade de resiliência. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, como cantou Paulo Vanzolini.

Há pouco, passei mais de dois meses longe de casa. Acaba que a pessoa que costuma vir aqui, durante minhas ausências, para arejar o apartamento e aguar minhas plantas, não veio. Resultado: encontrei vasos e canteiros da horta em petição de miséria. Me agarrei ao alento poético de Fernando Pessoa: “se ainda há vida, ainda não é finda”. Decretei UTI na varanda e me joguei no esforço de salvar o que mal e mal sobrevivia.

Uma parte dessa minha horta/jardim urbano, aparentemente condenada, já me regala com o espetáculo surpreendente e emocionante da resiliência, na forma de novas folhinhas vitoriosamente verdes brotando de galhos secos.

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Com a gente também acontece. Às vezes somos submetidos ao sentimento de que um the end se abate sobre nossas cabeças. E eis que somos acudidos por uma rega redentora que nos resgata ao desfrute da vida. O trombetear funesto de ponto final vira vírgula, solfejando prelúdios.

É o que me parece estar acontecendo com o – para muitos – mais paulistano dos bairros: a Moóca.

Há cem anos, fervia, fabril, com milhares de imigrantes europeus alicerçando o destino robusto de Sampaulo e do Brasil. Dezenas de grandes indústrias desenharam o perfil fundador do bairro.

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Toda essa atividade arrefeceu com o tempo. A Moóca virou residência dos descendentes dos operários. Remediados de baixa classe média com seu linguajar ítalo-brasileiro praticavam – e ainda praticam até hoje – a cuccina povera de sobrevivência (como me lembrou uma leitora, Cristiane Castro, em comentário num artigo moóquense recente). Não abriram mão das raízes (sabe o gnochi al sugo?). Uma cantina aqui, uma pizzaria acolá…. Era o que ainda animava, ao som de tarantelas, a modorra provinciana que acabrunhou o bairro, por décadas. Uma vez por ano, entretanto, junto à igreja consagrada ao santo, a festa de San Gennaro se manteve baluarte das tradições de sua gente.

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O que nunca abandonou a Moóca foi o carinho do paulistano.

Talvez esteja aí a matéria prima emocional que está proporcionando este momento de resiliência do bairro. Está começando a se consolidar, ali, o novo point boêmio de Sampaulo. Com vocação para se transformar no que já foi o Bexiga de quando virei paulistano. Lugar, hoje, ocupado com estardalhaço esfuziante pela Vila Madalena.

Tive certeza disso ao passar pela rua Guaimbé, no último inverno. Sabe muvuca baladeira até durante a semana? Decidi me jogar naquelas poucas quadras para descobrir o que arrasta tanta gente a gandaiar por lá. Esse mergulho já rendeu dois posts: “Samba de Fé”, sobre a casa noturna de samba Templo, publicado em 4 de agosto; e “É Moóca, Belô!”, que juntou três atrações locais – Lá da Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca – publicado em 27 de outubro.

Virei freguês do bairro.

Ó nóis aqui ‘tra vez!

Para bater perna pela mesma rua Guaimbé e, dois passos adiante, já na avenida Paes de Barros (uma das mais importantes do bairro), viver as emoções cênicas de um espaço cultural clássico da cidade, o Teatro Municipal Arthur Azevedo.

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De arquitetura modernista*, cercado por simpático arvoredo, o teatro da Moóca é um sessentão cheio de vitalidade. Por dentro, está novinho em folha, graças à reforma recente, quando foi reequipado e estruturado. Ganhou um prédio anexo com oficina, espaço para ensaios, workshops e o que quer que os artistas inventem para preenche-lo com talento cênico. A plateia perdeu alguns lugares, mas ganhou conforto e acessibilidade. Só o hall –  dominado pelo mural colorido do artista Renato Sottomayor – e a fachada (adoravelmente fifties) permaneceram intactos.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados. A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construida.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados.
A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construída.

Além da programação de espetáculos teatrais, de dança e de música (inclusive erudita!), agora o Artur Azevedo virou morada do Clube do Choro de Sampaulo.

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E os chorões paulistanos usam a prerrogativa de residentes para definir parte da programação de espetáculos da casa. Quase sempre gratuita (embora de ótima qualidade musical, já que o chorinho é um dos nossos mais pródigos mananciais de ótimos instrumentistas). Também, para interpretar as composições de compositores geniais como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho, Hamilton de Holanda, Raphael Rabello, Chico Buarque, Abel Ferreira…. Tem que ser craque!

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Este próximo fim-de-semana, por exemplo (dias 11, 12 e 13 de novembro), vai ser todo por conta do Clube do Choro. Com três noites de espetáculos para lá de sedutores. A começar pelo da sexta-feira, que vai reunir um duo inusitado: Mestrinho (acordeão) e Nicolas Krassik (violino). Com um repertório primoroso, que vai de Jacob do Bandolim aos jazzmen franceses Stephane Grappelli e Django Reinhardt; passando por Dominguinhos, Sivuca, Chico Buarque, João Bosco e Baden Powell. É ou não é promissor?

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Aliás, todo sábado, das 6 da tarde até 8 e meia da noite sem falta, rola um dos programas musicais mais deleitosos de Sampaulo, sempre no hall do Teatro Arthur Azevedo. Para quem gosta de música (e alguém não gosta?) é um manjar. Adoravelmente informal. Um bando de bambas se reúnem para uma Roda de Choro. Tudo improvisado, com instrumentos trocando de mãos, repertório decidido na hora e comentários bem-humorados dos participantes. No maior jeitão varanda de casa. Sempre que posso, eu me dou o desfrute dessas duas horas prazerosas. Saio de lá com o coração enlevado – o chorinho tem esse condão – e a alma bem nutrida para encarar o que vier pela night.

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Se o corpo também estiver pedindo alimento (e a hora, 8 e meia, é condizente com uma boquinha), caminho dois quarteirões até a nossa rua Guaimbé velha de guerra, para cair de boca nos ótimos cachorros quentes da Rod Hot Dog. Com o passo acelerado, animado pela apetitosa volúpia de mergulhar no melhor milk shake de Sampaulo.

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O cachorro quente nasceu germânico. Quando, exatamente, só deus sabe. Até porque sua matéria prima, a salsicha, já era preparada na região de Frankfurt a coisa de oitocentos (!) anos. Enfiá-la no pão é tão óbvio que o hot dog pode ser quase tão antigo quanto seu recheio.

Os alemães e o hot dog: No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt; Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog; Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha; Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Os alemães e o hot dog:
No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt;
Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog;
Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha;
Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Mas foi nos Estados Unidos que o sanduiche se popularizou, do jeito que a gente conhece, no pão macio feito sob medida para abarcar direitinho a salsicha. Ganhou o gosto do povo, na esteira do beisebol, um dos esportes mais populares por lá. O sucesso desse casamento do cachorro quente com o jogo é centenário e pode reparar que não existe cena de filme em estádio de taco-e-bolinha em que não apareça protagonista ou figurantes atracado num cachorro quente. É que é assim que acontece na vida real. Que nem pipoca no cinema, panettone no Natal, ovo de chocolate na Páscoa…. Obrigatório.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos. Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos.
Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Da América para o mundo, foi vapt-vupt. Tirando a pitoresca proibição recente na Malásia. Não por ser um país muçulmano e a salsicha tradicional do hot dog ter matéria prima suína – proibida aos seguidores de Maomé. Até porque, lá, o sanduiche já era feito com salsicha de frango que é comida halal, ou seja, permitida aos islâmicos. Mas porque o cachorro, para eles, é um animal “impuro” e não dá para chamar uma comida com um nome indigno. Pode? E se chamar de roliço quente, pode?

hot-dog-nameAgora, vem cá, você já cismou por que cargas d’água o nome é cachorro quente? Eu já.

Dizem que foi intriga da oposição.

Logo que o hot dog começou a aparecer nos estádios americanos de beisebol, os vendedores de outras gulodices, concorrentes, começaram a espalhar que as salsichas eram feitas com carne de cachorro. Uma acusação que tinha lá sua razão de ser, pois parece que na Alemanha natal do sanduiche acontecia de misturarem as carnes de porco e de cão no preparo do embutido.

Saiu pela culatra. O povo, nem aí, acabou usando a aleivosia para consagrar seu escolhido. E dá-lhe mostarda para afugentar eventual veracidade. E ketchup, of course.

Viu só o tanto de cultura imprescindível existe num pão com salsicha?

Sem contar a história:

Quando criança, na saída da escola, hora do almoço, sol a pino, eu não resistia ao cachorro quente de um ambulante que fazia ponto ali, subvertendo o esforço de mamãe que esperava em casa com a mesa posta. Pouca coisa esse cachorro quente da década de 60 tinha em comum com o hot dog de hoje. Para começar, não havia salsicha. O recheio era uma carne moída refogada no alho, cebola, tomate e pimentão, que ficava fervendo numa assadeira acomodada sobre uma chama. De tempos em tempos, Companheiro (era esse o apelido do vendedor – sem qualquer conotação ideológica, mas de cumplicidade com a transgressão ao cozinhar materno) regava a carne com água para não secar. Ele abria um pão francês, arrumava alface e rodelas de tomate e pepino e carne. Como eu cresci em São Luís do Maranhão, o pra beber era uma garrafa de guaraná Jesus.

Ou seja, o Rod Hot Dog da rua Guaimbé, na Moóca, tem ancestralidade!

O lugar é surpreendente, admirável em seu encantador rigor temático. O dono, Alexandre Brazales, é guia turísticos de excursões rodoviárias aos Estados Unidos. Foi isso mesmo que você leu, embora ainda esteja tentando imaginar uma pessoa que, em vez de voar daqui para fazer compras em outlets da Florida, para andar de montanha russa em Orlando, para assistir musicais na Broadway, para se embasbacar com a cenografia fake-faiscante de Las Vegas ou mesmo para surfar na California, contrate um cicerone para percorrer as american highways. Eu acho até que pode ser um programão, a começar pela icônica Route 66. Mas não imaginei que houvesse, na Moóca, um especialista no assunto.

Mas, quando a gente entra lá, grita a evidência de que demos um salto miles and miles away from Moóca, para cair num american diner de beira de estrada. A bem da verdade, as surpresas começam na calçada, com um banco para fumantes feito com a carroceria de pick-up, uma estilosíssima bicicleta sempre estacionada por ali e, até, a maçaneta da porta de entrada: um bico de bomba de gasolina.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência, maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina e banco abusado para fumantes. Tudo no Rod Hot Dog way.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência,
maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina
e banco abusado para fumantes.
Tudo no Rod Hot Dog way.

Hot Rods são carros velhos – ou clássicos – americanos com motores modificados para atingir potência e velocidade que não alcançavam em sua época. Eventualmente – mas não necessariamente – podem ser, também, customizados. E está assim de americano que se joga nesse hobbie, digo, mania, digo, patologia.

Alexandre, Tracy e Monica. O orgulho de ser moóquense e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

Alexandre, Tracy e Monica.
O orgulho de ser moóquense
e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

A lanchonete de Alexandre e de sua Monica Othani, responsável pela elaboração culinária, é o lugar ideal para visitar esse universo.

2016-10-13-21-05-03As salsichas são preparadas lá mesmo. Inclusive a versão vegana. Mas eles oferecem a opção da versão viena industrial. E o cardápio (também original, na forma de uma prancheta com garra – na verdade uma placa de carro americana) apresenta mais de dez opções.

Já passeei por ele, gostei de todos, mas meus prediletos são o New York Style (com ótima conserva caseira de pepinos e mostarda), o Cheddar Dog (com queijo cheddar, óbvio, farofa de bacon e molho barbecue – que eu dispenso) e TexMex Dog (com chili de carne – carne moida misturada com feijão, guacamole – falta um salzinho para o meu gosto – e molho apimentado Pico de Galo).

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Além dos cachorros quente, o Rod Hot Dog oferece alguns starters (que eles chamam de porções, não fazendo jus ao espírito da casa) – as Buffalo Wings (asas e coxinhas das asas de frango empanadas e encharcadas de molho apimentado) são muito boas. Além de três opções de TexMex Food (para quem nunca se tocou, trata-se do affair gastronômico entre as duas margens do rio Grande: o Texas americano e o México); o Chili com carne vale pelas recordações do tempo em que eu, adolescente fazendo intercâmbio no estado americano de Iowa, comia essa gororoba dia sim e no outro também; o do Rod Hot Dog vem com uma porção – até farta – de nachos; mas, quer saber, Chili com Carne não tem qualquer appeal gastronômico. Caia de boca, direto, nas ardentes Jalapeño Poppers (pimentas recheadas com queijo, empanadas e fritas, servidas com molho blue cheese – quase sem blue cheese – e salsão).

De cima pra baixo: Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

De cima pra baixo:
Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

Impressionante como talos de salsão, mordidos assim, in natura, funcionam legal como lenitivo do ardor entre as abocanhada de jalapeño.

Para beber, Alexandre providenciou uma carta de opções “exóticas”. De soft-drinks americanos e brasileiros raros a cervejas artesanais. Como o extraordinário e delicado refrigerante Gengi-Birra, produzido na cidade paulista de Santa Bárbara do Oeste. Ou as cervejas da paulistana Cervejaria Urbana – inclusive a ótima belgian golden ale Gordelícia.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia. Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia.
Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

Deixei para o final a obra prima do Rod Hot Dog. Nada menos do que the best milkshake in town. E olha que Sampaulo tem sorvete batido com leite a dar com pau. Alguns deliciosos, como o de chocolate, do Joakin’s (da rua Joaquim Floriano, no Itaim), que foi meu vício por décadas – nem sei se ainda continua tão bom como era. Mas nada se compara à doce alquimia que cinge de magia a mistura de sorvete de creme, biscoito Oreo e rum aromatizado (escocês, quem diria…) Sailor Jerry.

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“O segredo é bater muito, até que o biscoito se mescle completamente ao creme”, ensina Alexandre. A gente chega a ficar mesmo impaciente enquanto o liquidificador troa interminavelmente suas promessas de deleite. Eu fico perguntando para Tracy, a sweet atendente, se ainda não está pronto. Mas ela sabe o ponto. Só merecia uma calda menos óbvia. Mas como serve apenas para lambuzar o copo e não interfere no paladar…

Volto sempre ao Rod Hot Dog. Pelo Sailor Milk Shake.

E aproveito para fazer uma boquinha pois o de comer também é muito bom.

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Ahhhh…. Para os amantes das velhas bolachas de Vinil, Alexandre mantém, à venda, um  estoque de ótimos títulos. Particularmente de bandas clássicas do old’n’good rock’n’roll.

* O Teatro Arthur Azevedo foi criado na prancheta do arquiteto fluminense Roberto Tibau. Imagino que seu desenho (típico da escola “carioca” – Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy… – que vicejou nas décadas de 40 e 50) tenha caído no gosto dos prefeitos paulistanos então nomeados pelo governador Ademar de Barros, pois várias obras municipais dessa época foram arquitetadas por ele. Inclusive os teatros Paulo Eiró e João Caetano, quase clones do Arthur Azevedo.

Bonus:

Dois vídeos.

No primeiro, uma apresentação do Clube do Choro de São Paulo, com depoimento
de um monte de feras.

No segundo, uma Roda de Choro, das que acontecem todo sábado, às 6 da tarde,
no hall do Teatro Arthur Azevedo.

Haja sacola…!

Minha alma tem deleites ancestrais. Sou fã de feiras, por exemplo. E não imagino um jeito mais primitivo de organização do comércio do que uma banca de feira. Consigo até vislumbrar pescadores fenícios (devemos a eles o manejo do mar), oferecendo seu catch-of-the-day pelos portos do Mediterrâneo, três milênios atrás.

As feiras da Antiguidade...

As feiras da Antiguidade…

Pouca coisa mudou, nas feiras, da Idade Média para cá. Capas de iphone, quinquilharia chinesa e pirataria de grifes famosas são apenas a atualização de estoque dos mesmos camelôs que apregoavam leitões e galinhas prontos para o abate, novelos de lã toscamente fiados ou cutelaria artesanalmente malhada em bigornas caseiras. Mas a forma quase nada evoluiu, desde o entorno dos castelos feudais até os arredores da ladeira Porto Geral, nas abas do parque Dom Pedro paulistano.

... e algumas feiras Contemporâneas.

… e algumas feiras Contemporâneas.

A novidade maior é a especialização, a segmentação, a tematização das feiras.

Gosto de todas. Das que misturam de um tudo – tipo bazares orientais – e das focadas num único mote. Sampaulo é pródiga delas.

Das feiras livres semanais de hortifrutigranjeiros na vizinhança de casa (e seus imprescindíveis pasteleiros nas extremidades) às feiras de livros (encabeçadas pela monumental Bienal do Livro).

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Sou useiro e vezeiro de feiras de arte e antiguidades (globalmente epitetadas pelos franceses de mercado de pulgas– marché aux puces, flea market, flohmarkt – à exceção de Portugal, onde são chamadas de feiras da ladra); adoro bater pernas pela da praça Dom Orione (no Bixiga), pela do vão do MASP, pela do MUBE.. E, vira e torna, dou uma sapeada nas feiras hippie (que já foram de artesanato alternativo e hoje se jogaram nos braços do stablishment – quer melhor exemplo do que a da praça Benedito Calixto, em Pinheiros?).

Sem contar as quermesses, que são suas primas com pegada baladeira.

Tem Feira da Madrugada, Feirão da Casa Própria, Feiras de Negócios….

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

Esse quesito de grandes feiras, focadas em fragmentos produtivos específicos, é um dos mais poderosos ímãs de hóspedes para a estrutura turística de Sampaulo. Quer ver? Antes mesmo que 2016 pendure a chuteira, acontecem duas grandes feiras de alimentos e bebidas, o salão do automóvel, feira de jóias e bijuteria, feiras de cosmética, de misticismo, de aviação, de tecnologia e nanotecnologia, de cinema e fotografia, de equipamentos para diversos segmentos da indústria… Eventos que reúnem milhares de pessoas vindas do mundo inteiro, exibem e comercializam o fruto do trabalho de milhões de operários, artistas, cientistas e técnicos, fazendo girar a roda da economia.

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Eu mesmo fui convidado – e vou, porque me importa a saúde do planeta e curiosidade é comigo mesmo – para a feira do lixo. Digo, de resíduos sólidos (que é o jeito “bon ton” de tratar do assunto). A Waste Expo Brasil reunirá, entre os dias 22 e 24 de novembro, uma multidão de profissionais e interessados em geral no tema: autoridades, técnicos e ambientalistas, administradores públicos municipais responsáveis pela gestão dos descartes urbanos, produtores globais de equipamentos para coleta, transporte, reciclagem (ou seja, reaproveitamento), compostagem (que é a utilização do potencial energético dos dejetos – ou como adubo orgânico) e aterros sanitários sustentáveis. Além de pequenos e médios empreendedores privados e sociais dessa cadeia produtiva vital para a nossa sobrevivência.

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Antes disso, bem antes, agora no próximo fim-de-semana, o programa será mais saboroso – embora também faça parte do universo da Eco-Responsabilidade. Vou sem falta à segunda edição da feira Sabor Nacional. A primeira aconteceu em julho e o sucesso surpreendeu promotores, feirantes e público: dois dias de Museu da Casa Brasileira lotado.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durande a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durante a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

A ideia é repetir a coisa toda, tim tim por tim tim. Só que ampliado. Com maior número e variedade de barraqueiros, quer dizer, de stands que é um linguajar mais adequado a um lugar distinto como aquele.

Pense num monte de produtores artesanais de ingredientes e quitutes deliciosos. Gente caprichosa e talentosa, apaixonada pelo que faz e que não abre mão de surpreender o paladar da gente.

Fawsia Borralho é uma dessas criaturas prendadas.

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Ela chegou a Sampaulo há beira trinta anos. Para se jogar no glamour suado e sem trégua da produção fashion. Mas nunca abriu mão dos dotes culinários para relaxar do azáfama de cria-corta-costura-produz-fotografa-exibe e trata de vender antes que mude a estação e os ventos da tendência soprem na direção de outro cria-corta-costura….

Com o tempo, seu hobby culinário especializou-se em conservas – melhor dizendo, compotas.  Preparava logo um estoque para abastecer a despensa – já que a moda que lhe garantia o ganha pão não permitia acesso diário ao fogão. Guloseimas deliciosamente criativas para consumo próprio.

Um dia, em vez da indefectível garrafa de vinho, arriscou levar para os anfitriões de um jantar, um desses potes de suas compotas. Nem um Romanée-Conti ensejaria tantas loas dos convivas. A partir daí cada novo convite vinha sempre sublinhado com um pedido de “traz uma compota”…

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Logo vieram as encomendas pagas e, hoje, Fawsia é uma quituteira de compotas que, aqui e ali, faz bicos no mundo da moda. Sou devoto dos produtos de sua A Compoteira já há coisa de dois anos. Da geleia de cebola roxa com vinho tinto aos tomates confitados com ervas e alho, passando por peras em suco de laranja com cardamomo e anis estrelado, damasco com fava de baunilha, morango com lavanda (e muito amor, como ela proclama)… Adoro tudo.

de A Compoteira: Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado, Cebola com vinho tipo e ervas, Tomate confitado com alho.

de A Compoteira:
Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado,
Cebola com vinho tipo e ervas,
Tomate confitado com alho.

Aqui e ali, ela conhecia um ou outro desses produtores gastronômicos devotados à excelência. E compartilhavam sua angústia comum: colocar seus produtos no mercado sem abrir mão da excelência artesanal.

Até que, um dia, Fawsia topou com jovens empreendedores que se entusiasmaram com a ideia de reunir algumas dezenas desses artesãos abnegados e oferecer a Sampaulo a oportunidade de consumir seus produtos pra lá de especiais. Nascia a feira Sabor Nacional.

Não pouparam arrojo na localização do seu novo negócio. A ampla varanda do palacete do Museu da Casa Brasileira e seu adorável quintal/jardim, no epicentro de uma das regiões mais nobres da cidade, cercado de gourmets exigentes. Ou seja, como professa o best-seller de autoajuda de Lair Ribeiro, o sucesso não ocorre por acaso.

Vejam algumas fotos que fiz na primeira edição, em julho. Não sei quais desses expositores estarão presentes no próximo fim-de-semana. Mas me disseram que a maioria confirmou presença. Sem contar o aumento de cinquenta por cento no número de feirantes. Todos amealhados no mesmo universo de produtores artesanais do bem comer.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Sítio do Alho Negro.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Alho Negro do Sítio.

O Alho Negro é alho comum (selecionado, claro!), que passa por um processo de fermentação muito usado no extremo oriente do mundo. Depois de algumas semanas em estufas controladas, a casca fica dourada e os dentes ficam pretinhos da silva, macios, perdem o ardor, ganham aroma mais delicado e um sabor complexo, levemente adocicado. Deixa de ser um ingrediente coadjuvante para assumir o protagonismo na preparação de pratos sofisticados. E, dizem, seus saudáveis benefícios são potencializados. Era raríssimo por aqui, mas virou febre a coisa de uns oito ou dez anos. De cobertura de pizza a composições mais intrincadas, não havia restaurante da moda que não o incluísse em seu cardápio. De lá pra cá, ficou mais fácil encontra-lo. Eu costumo recorrer ao empório Entreposto das Feijoadas, no subsolo do Mercado de Pinheiros. O de lá é produzido pelo mesmo Alho Negro do Sítio que vem, pessoalmente, vende-lo na feira Sabor Nacional. Gosto de imergi-lo em bom azeite morno por alguns minutos, antes de misturá-lo a uma massa recém-escorrida (até com nhoque fica ótimo). É o que basta para compor um prato que me delicia.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

A banqueteira Neka Menna Barreto foi uma das estrelas da primeira edição da Feira Sabor Nacional. Saí de lá com um pacote de sua farofa de amêndoas, que eu tentei regrar, suvina, mas que acabei detonando purinha, de colher em punho direto da embalagem, enquanto assistia a abertura das Olimpíadas do Rio. Não é à toa que tanto me encantou o espetáculo…

Já o Cambuci é uma fruta típica da Mata Atlântica. Dizem que era muito comum por aqui. Tem até um bairro, berço do movimento grafiteiro de Sampaulo, que se chama Cambuci. Ácida que só, mas deliciosa na composição de sucos, geleias e nas infusões alcoólicas. Tem uma marca de cachaça, a Angelina série A, envelhecida com concentrado da fruta, que não falta no meu congelador.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto Auá.

Pois o cambuci, até pouco tempo, meio que ninguém sabe, ninguém viu. Falavam de extinção. Daí descubro, na feira Sabor Nacional, que existe um Instituto Auá dedicado à recuperação da espécie. Reúne um grupo de pequenos produtores artesanais que preparam bebidas, geleias, chutneys e, até, um delicioso homus (a extraordinária pasta de grão de bico e gergelim cuja invenção é disputada por árabes e judeus) que leva cambuci – quem diria!

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

Tive uma avó, pernambucana, quituteira de mancheia. Seus bolos Souza Leão e de Rolo eram obras-primas. Meu paladar foi forjado intransigente nesses primores da doçaria recifense. Mas nunca havia visto um bolo de rolo que não fosse como o dela, espiralado, intercalando finíssimas camadas de pão-de-ló amanteigado e goiabada. De repente, na feira Sabor Nacional, descubro novas doceiras de Pernambuco, estabelecidas em Sampaulo com sua Casa do Bolo de Rolo, que ousaram interferir no formato ancestral do doce. Fizeram-no plano, e chamam-no de Naked Cake Bolo de Rolo. Sedutor que só! Produzem-no também do jeitão tradicional, em diferentes tamanhos. Não tem a leveza dos bolos de vovó Jandira, mas, aí, seria querer demais…

Ótimas - e criativas - as geleias da A Senhora das Especiarias.

Ótimas – e criativas – as geleias da A Senhora das Especiarias.

Adorei as geleias da Senhora das Especiarias. Principalmente a de Morango com chá Earl Grey (que é, mais do que meu chá predileto, um vício). A fruta se deu muito bem com o chá preto aromatizado com bergamota. O chutney de cebola, a geléia de manga com maracujá e, sobretudo, a de figo com grappa, também não fazem feio.

Uma tentação, os pães de Thiago, da Santiago Pães.

Uma tentação, os pães de Tiago Saraiva, da Santiago Pães.

De uns anos para cá, a panificação “gourmet” de Sampaulo deu um salto. Muitos padeiros com formação europeia se estabeleceram na cidade (Rafael Rosa, com sua Pão; Julice Vaz e sua Julice – esta, formada na American Bakery School de San Francisco; Izabel Pereira na sua Marie Madeleine; o próprio frei Bernardo, na Padaria do Mosteiro…). Um dos mais recentes deles, Tiago Saraiva estava lá, na feira Sabor Nacional do final de julho. Com algumas das fornadas primorosas de sua Santiago Pães. São tão bons que devorei um redondão apenas com azeite e sal, aquecido para exalar os aromas da fermentação natural. Talento e esmero criam coisas assim, deliciosas.

As surpreendências de Eduardo, da A Queijaria.

As surpreendências de Fernando Oliveira, da A Queijaria.

Hoje nem carece mais tecer loas à A Queijaria, estabelecida há alguns poucos anos na Vila Madalena. Fernando Oliveira, seu criador, antes rodou o Brasil, garimpando queijeiros excepcionais que nós nem desconfiávamos existir. Trouxe suas produções para revelá-los aos paulistanos. Com isso, tem prestado um serviço inestimável à queijaria nacional. E a nós, claro, glutões exigentes que somos. Sempre tem novidade por lá. Algumas delas eu conheci na sua banca da primeira feira Sabor Nacional. Este eu sei que vai estar lá de novo. Que bom, porque ele é imprescindível.

Ainda mais que, desta vez, vai dar um workshop de preparo de queijos.

Haviam ainda outros expositores. Dezenas deles. Inclusive com produtos hortifrutigranjeiros de produção artesanal.

Chocolates Derret (que não tem loja, mas entrega pedidos a domicílio), Charcuteria Cancian (de Tietê, no interior de São Paulo), Amorim Café (produtor mineiro de grãos extraordinários) e, até, um empório do Brás especializado em produtos nordestinos (que tinha massa puba – mandioca fermentada, matéria prima do bolo Souza Leão de minha avó Jandira – e belas mantas de carne de sol).

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Sem contar o food truck do celebrado chef Rodrigo Oliveira, o Mocotó Aqui (outro que sei que vai estar lá, de novo, no próximo fim-de-semana).

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Entre as novidades, Fawsia Borralho me adiantou que quem for ao Museu da Casa Brasileira, na sexta e no sábado, vai encontrar as pimentas e chutneys Spice Splice, os chocolates da Isidoro, a nova linha de doces da extraordinária chocolateria AMMA, as frutas exóticas da Banca do Juca – do Mercadão (celebrizada numa novela da Globo, lembra?), a Quirós Gourmet – que comercializa cortes especiais de cordeiro, os refrigerantes orgânicos e sem açúcar da Gloops, os cogumelos da Cogushi, o bochichado – e premiadíssimo – azeite brasileiro Borriello, a nova linha de sorvetes do Maní Manioca (cria recente de Helena Rizzo e Daniel Redondo)…

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Sem contar algumas surpresinhas como uma caprichosa bordadeira mineira e sua produção esmerada de panos de prato, uma linha de brinquedos pedagógicos de madeira, cestaria artesanal, banca de flores e o Tabuleiro das Meninas, famoso por preparar caldo de sururu, acarajé e tapioca nos eventos do cabeleireiro Mauro Freire.

Ou seja, eu lá sou louco de não me jogar numa celebração de prazeres dessas?

Nossas sacolas e nosso apetite hão de se cruzar por lá…

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