Pão e Paixão

Migrei para Sampaulo adolescente, ainda verde, mas já chegado numa gandaia. Um gosto cevado por pai e mãe baladeiros que curtiam me levar para shows, teatro, restaurantes, boites… Para a night life em geral a que eram habitués.

Com quinze, dezesseis anos, eu já frequentava casas noturnas como a lendária Stardust, no largo do Arouche. Era nosso destino mais frequente, madrugada adentro dos fins-de-semana. Lá dentro, pouca gente com menos de dez anos a mais do que eu. Ganhei intimidade com a boa MPB ali (olha a categoria do elenco que se apresentava lá: Elizete Cardoso – a “Divina”, Johnny Alf – o “Pai da Bossa Nova”, Billy Blanco, Dick Farney… E, de quebra, no comando da banda que animava a pista de dança, ninguém menos que Hermeto Pascoal, ora na flauta, ora sax, ora no piano; só fera!).

A evolução do visual de Hermeto Paschoal, no tempo do Stardust,
a caminho da consagração como um dos maiores gênios da música global.

Além de restaurantes (Marcel, La Casserole, Don Curro, Freddy, Roma, Giggeto, Giovanni Bruno…), de shows (o primeiro que eu vi, recém-chegado a Sampaulo, foi de Elis Regina; tinha uma música com um refrão que grudou brabo na minha alma: “quáquáráquáquá, quem riu, quáquáráquáquá, fui eu”) e de espetáculos teatrais abusadíssimos, sempre levado por eles (até porque, sozinho eu não conseguiria entrar).

A montagem de Ruth Escobar para O Balcão, de Jean Genet, vazava tanta ousadia, da cenografia audaciosa à lubricidade atrevida, que eu passei dias, semanas digerindo seu impacto – assombro e dúvidas abalando minhas certezas de ainda menino.

Elis Regina era desse jeitinho aí quando cheguei em Sampaulo;
e a montagem de “O Balcão”, no teatro Ruth Escobar, deu muito pano pra manga…

Até que a curiosidade vencesse a comoção e eu arranjasse outro “adulto” para me levar de volta ao Teatro Ruth Escobar.

A intimidação virou deleite. Ali, parte de minha infância passou o bastão para o jovem adulto. E voltei outras vezes àquela estrutura de metal, à arrojada invenção de plateia em espiral rodeando o palco-picadeiro e suas traquitanas mecânicas.
(um vídeo, lá embaixo, dá uma ideia do que foi esse acontecimento cênico)*

Fui, portanto, muito bem acostumado em surpreendências, pelas mãos de papai e mamãe, desde muito cedo. Não é à toa que eu tenha aversão a lugares-comuns.

Falo das fórmulas prontas a que recorrem as mentes opacas, desprovidas de brilho. Não chega a provocar náusea, como a gerundização da linguagem de atendentes e recepcionistas. Tampouco engulha a paciência e o bom-humor, como trocadilhos. Mas que lugar-comum dá uma fadiga, um abuso impaciente de entojo, isso dá.

Lugares-comuns são também conhecidos como chavões, clichês, manuais de auto-ajuda… E são amiúde encontráveis nas melhores famílias, digo, em textos jornalísticos e publicitários, em roteiros (de cinema, de novelas de TV); nos pratos de cardápios de restaurantes “da moda”, em projetos arquitetônicos, cortes de cabelo, design (fashion, então….), discursos políticos (os populistas são MBA em lugar-comum) e – maldição das maldições – na epidemia de indigência que tomou de assalto a cultura popular brasileira.

Lugares-comuns comprometem a sinceridade. Amortecem impactos emocionais, pasteurizam as sensações. Para contornar o risco de pagar mico, a insegurança cala a manifestação espontânea da alma. Amolda-se a emoção ao já testado, aprovado e consagrado pelo padrão Domingão de qualidade. Arrghhh…! Coloca-se o que se vai dizer, apresentar ou servir na forma. No esforço de não desapontar, tampouco se surpreende. E que graça tem o que não desilude nem encanta? Insosso, chué, parvo, médio, medíocre…

Os Dzi Croquettes foram a negação do lugar-comum.

Ainda “de menor”, mas já começando a decolar em voos solo, o destino de minha vocação baladeira passou a focar no bairro boêmio do Bixiga. Um naco de herança italiana fincado entre o velho Centro e a avenida Paulista.

Foi lá que, no início dos mesmos anos setenta em que a dita ditava duras regras, que um grupo de rapazes tomava de assalto o bom-mocismo paulistano. Essa vertigem moral atendia pelo nome de Dzi Croquettes.

Mais do que um espetáculo, “Dzi Croquettes” foi uma revolução de costumes.
Nasceu carioca, estourou em Sampaulo e ganhou o mundo.
Pela mão de celebridades como Liza Minelli.

Eu passava a semana artimanhando formas de juntar o dinheiro para o ingresso naquele teatro da rua Treze de Maio. E repetir o gozo de assisti-los. Duvida, umas dez vezes.
(outro vídeo, lá embaixo, documenta com emoção a história do Dzi Croquettes)**

No mesmo palco e momento histórico em que Marília Pera – na pele da professora Margarida – ajudou a esfolar a empáfia da velha paulistice que ainda dava o tom da cidade quando cheguei aqui.

Marília Pera, enlouquecendo o bom-mocismo paulistano em Apareceu a Margarida.

Visto a partir desses e de outros palcos do Bixiga, o bairro é trincheira essencial da revolução paulistana – cultural e de costumes.

Além desses dois espetáculos do teatro Treze de Maio, o mesmo Teatro Ruth Escobar onde eu vira “O Balcão”, vanguardeou com o “Escuta Zé”, de Marilena Ansaldi, com a “Cerimônia para um Negro Assassinado” dirigida por Paulo Betti, com “A Viagem” (uma adaptação de os Lusíadas), com “Castro Alves pede Passagem” de Gianfrancesco Guarnieri…

Sem contar a célebre montagem do “Rei da Vela”, no Teatro Oficina.

E da “Aurora da minha Vida”, no teatro com o nome do bairro. E da “Orquestra de Senhoritas”, num café concerto da Avenida Rui Barbosa. Adiante um pouco do Teatro Sérgio Cardoso, palco mais cheio de recursos que também não deixa barato no quesito boa dramaturgia.

E o Teatro Imprensa, recentemente varrido do mapa pelo tsunami que se abateu há alguns anos sobre o império Sílvio Santos, provocado pelo terremoto financeiro chamado Banco PanAmericano? E o antológico TBC?  E o Teatro Brigadeiro? Sem contar o recente Teatro Raul Cortez, com direito a escadas rolantes de acesso e tudo. E a meca dos musicais “o-primeiro-mundo-é-aqui”, o Teatro Abril.

Tudo isso no Bixiga.

Devo muito, muitíssimo mesmo, aos espetáculos que vivi a partir dessas plateias. Sou graça e culpa deles. Por isso, quando vou ao Bixiga, tomo a bênção.

Mas o Bixiga só é Bixiga porque a revolução permanente divide território com a tradição mais entranhada. São vizinhos de porta. E convivem na maior troca-troca de receitas, quando não sucumbindo às fartas fofocas e maledicências mútuas. Um cortiço!

Aliás, o bairro bem que merecia o título de Capital Mundial do Cortiço; tanto no sentido habitacional quanto no antropológico da corticice barraqueira.

O Bixiga é assim: fachadas coloridas, boemia, cortiço para todo lado
e um barraco entre vizinhos aqui, outro acolá, que o sangue aqui é italiano, capito?

Dizem que é herança italiana, como a festa de Nossa Senhora Achiropita, que lota suas ruas todos os anos, no auge do inverno.

Festa de Nossa Senhora Achiropita, agosto sim e no outro também,
há beira um século, no entorno da igreja consagrada à Madonna calabresa.

É essa a outra vocação do Bixiga, a do eterno lapidar da tradição. Inclusive carnavalesca.

Na dialética do samba, Escola não existe sem Comunidade. É a Comunidade que gera, cultiva, rega, nutre, encorpa e dá vida a sua Escola de Samba. Esta, por sua vez, insufla razão de existir, anima, ilumina o caminho e dá personalidade a sua Comunidade. Uma relação construída com paixão e orgulho.

O Bixiga é a comunidade da Escola de Samba Vai Vai. Não é pouco não! A Vai Vai é antiga a ponto de a velha guarda já ser descendente da não-sei-quantésima geração da guarda original.

Do começo de dezembro até o Carnaval o bairro vive a ansiosa expectativa de como é que o Bixiga vai entrar na avenida. Este ano, a escola “abre a roda pra saudar Mãe Menininha do Gantois”. O apogeu da contagem regressiva é agora. Aos domingos, na boca da noite, cidadãos vaivaienses e turistas de tudo quanto é canto da cidade entopem os ensaios abertos. Escancarados mesmo, no meio da rua, a ceu aberto. Chova ou faça lua.

Ensaio da Vai Vai em sua “quadra” de rua.
Este ano, o sambódromo do Anhembi vai virar Terreiro de Gantois
em louvor à Mãe Menininha.

Para mim, é uma das melhores baladas do verão de Sampaulo.

Agora, seja ensaio da Vai Vai ou teatro, programa completo no Bixiga acaba em massa. Caspita, como tem cantina no Bixiga!

Avisar que vai jantar por ali já basta: é pasta. Massa tradicional, comida de mamma, receita de nonna, raízes que amamentam de sabedoria a atual geração de chefs, de cozinheiros que dão renovado prestígio à cuccina italiana, ousando retoques de inovação pelas bandas dos Jardins.

Aqui não. O que ferve solto, no Bixiga, são os alicerces ancestrais trazidos da bota mãe européia: talharines, talhateles, espaguetes, ravioles, canelones, fuziles, capeletes, nhoques, lazanhas… À bolonhesa, à napoletana, à carbonara, à putanesca, ao pesto… Se vier com um polpeta ou brachola, então, é banquete.

Atenção, não estamos falando de alta culinária. Mas a comida das cantinas do Bixiga é decente. E o preço é honesto. Ahhh, vá com fome que as porções são fartas.

O destaque é a experiência gastronômica – beira museológica – da antiquiquíssima “Capuano” (110 anos!), da “Roperto” (dal mille novecento quaranta due) e as ótimas pizzas de grossa borda da “Speranza” (mais jovem, dal 1958). Nesta última, apesar de parecer over, não deixe que a parcimônia lhe prive do ótimo pão de lingüiça da casa.

Entre as muitas cantinas italianas tradicionais do Bixiga, valem citação
a Roperto (no alto), a Capuano (no centro) e a Pizzaria Speranza, (em baixo).

E por falar em pão…

No Bixiga, os fornos não param…

Fora de hora (de jantar, teatro ou balada) sempre vou ao Bixiga pelo filão ou redondo. De uma das quatro padocas (que é o jeito afetuoso e descolado de chamar padaria em paulistanês) que assam os melhores pães italianos de Sampaulo. Suas ótimas fornadas justificam ir até lá para tê-los em casa. Pagam a pena, valem a viagem.

Os ótimos pães das padocas italianas do Bixiga.
De cima para baixo, a produção de:
Padaria 14 de Julho
Padaria Basilicata
Padaria Italianinha
Padaria São Domingos

De quando em vez até visito outros tipos de pão, para variar o cardápio. Do pão francês ao rústico, à brioche, ao bagel. Do adocicado australiano ao português exalando azeite, à broa de milho, ao croissant folhado por fora ou ao maciíssimo ban oriental. No coração do meu paladar tem um cantinho para cada um. Mas são puladas de cerca, porque não abro mão da minha relação amorosa e estável com o azedinho sutil da biga, que é o jeito italiano de fermentar o pão.

Assim que chego em casa com novo estoque trazido do Bixiga, corto fatias de beira dois dedos e… Freezer. Me aperreia quando sei que acabou a reserva congelada e só sossego quando me toco de volta pra lá,  para reabastecer.

Antes de comer, tiro do gelo e só o preparo para uso depois que atinge temperatura ambiente. Normalmente aqueço-o e besunto de manteiga ou azeite para acompanhar qualquer comida. De café com leite a feijoada. De ovos a sopas, de massa a frutos do mar e, até, saladas. Se houver molho ou caldo onde encharcá-lo, então…

No verão, pico o pão italiano bem miúdo e douro na frigideira com gordura e ervas, para salpicar como croutons pelas saladas. No inverno, espeto pedaços um pouco maiores na ponta dos garfos de fondue. O miolo denso e a casca espessa dificilmente se soltam dentro dos queijos derretidos.

Mas o destino mais… glorioso, para um pão italiano, são as bruschettas. As fatias viram o trono do reino das invenções gastronômicas. Assento ali desde criações singelas – e deliciosas – como um concassé miúdo de tomates frescos, apenas temperado com sal, ervas e azeite – ou elaborações mais rebuscadas. São meus “aplaca-a-fome” ou “engana-a-gula” ou ‘distrai-a-goela” prediletos.
(Como eu também sou louco por bolinhos de bacalhau, já viajei numa bruschetta de bolinho de bacalhau amassado sobre a fatia de pão e dá-lhe azeite… Ficou ótimo!)

Outras de minhas bruschettas recorrentes, são:

Funghi di Muschio: O cogumelo de musgo, popular na Itália, é importado já em conserva de azeite. Deixo marinando em azeite trufado (não sou fã de trufados em geral, embora adore trufas. Uma vez, como havia ganho uma lata de azeite trufado, experimentei sobre esses champignons e não é que funcionou legal?).
Umedeço a fatia de pão italiano com o mesmo azeite em que estavam marinando os cogumelos e, sobre ela, uma fatia pequena de queijo gorgonzola doce (falo dele adiante). Forninho por alguns minutos, e, já fora do forno, um punhado desses funghi di muschio.

Caprese Metido a Besta: Uma versão de mozarela de búfalo com tomate e manjericão.
Só que o queijo é tipo Chabichou (de cabra) e o tomate do tipo San Marzano. Azeite, forninho e manjericão antes de cair de boca.

Pancetta de Gala: Fatias fininhas de pancetta enrolada , temperada com ervas, sobre fatia de pão italiano besuntado de manteiga, queijo Taleggio, forninho e um raminho de tomilho. Faço também a versão Prosciutto Crudo de Gala (em que troco a barriga de porco pelo pernil curado, mantenho o queijo e acrescento uma colherada de purê de damasco com fava de baunilha – obra prima da “Compoteira” Fawsia Borralho).

Viva Gijo!: Homenagem ao linguiceiro Gijo (já escrevi sobre ele no post “Resistir, quem há de?”, publicado em 13 de janeiro de 2016). Fatias fininhas de linguiça curada, marinada por alguns dias em vinho branco seco, alho amassado e azeite. Cebolinha picada, fatia de pão italiano amanteigado e basta. Não precisa mais nada.

Italia Mia: Pão italiano besuntado de boa alichela, pimentão vermelho confitado, um filete de azeite e se joga no verde, bianco e rosso.

Melanzani Agliosi:  Berinjela assada em azeite, ervas e sal defumado. Dentes de alho em conserva e mais azeite.

Quase tudo o que uso no preparo dessas bruschettas eu trago das padocas do Bixiga. A começar pelos pães, claro, que são a razão de ser dessas padarias centenárias.. Mas elas são, também, salumeria e empório de um tudo de bom que existe para agradar o paladar, particularmente comeres com sotaque italiano.

Só o capítulo queijo… Coisa boa, nacional ou viajada, com bom preço!

A Basilicata é a mais farta de opções que eu chamo de queijos “de gruta”, trabalhados em fungos, macios, menos curados (taleggio, chabichou, camembert, brie, mozarella fresca…). Embora os queijos “duros” estejam lá…

Queijos na Basilicata

Já a 14 de Julho é pródiga nos queijos curados (grana padano, parmigiano-reggiano, pecorino, caciocavallo…)

Alguns queijos da 14 de Julho.
Inclusive, embaixo, o ótimo Gorgonzola Dolce italiano
(maturado na fronteira lombardo-piemontese)

Embora lá, na 14 de Julho, brilhe o gorgonzola dolce, obra prima da queijaria lombarda e piemontesa, ainda raro de se encontrar por aqui (embora cada vez mais popular na Europa). Esqueça o gorgonzola tradicional, firme e, até, meio farelento, com filetes azulados acentuados. Este é lisinho, untuoso, com marcas mais discretas; tirou da geladeira, derrete (se estiver fazendo calor de subúrbio carioca, fica no ponto de tomar de canudinho…!). E o sabor, bem, os fungos são os mesmos – o penicilium; mais suave, eu diria.

Os antepastos também estão em todas elas. Vendidos no peso. Tem pastas de misturas inusitadas, caprichadas. Só de lembrar, a boca vasa. Na 14 de Julho tem até com bacalhau. E o alho em dentes – só sabor sem ardor – é achado raro. Na Basilicata tem uma Alichella Premium, preparada com azeite e alicci de melhor qualidade, é um primor.

Os balcões de antepasto, de cima para baixo:
14 de Julho, Italianinha e Basilicata

Tem pernil assado na Italianinha (só nos fins de semana)
Na 14 de Julho tem todos os dias. Para ser fatiado sob o comando do freguês. Mas, neste parágrafo, imperdível mesmo é o sanduíche das sobras despedaçadas que ficam nas assadeiras. Preparado no pão fresquinho da casa, claro. Para levar ou ser comido ali mesmo (tem até um banco, na porta, para facilitar o desfrute).

O pernil assado e o sanduiche de “sobras” da 14 de Julho.

E todas costumam ter bons pães de linguiça, além de massa fresca feita lá mesmo, azeites, conservas, doces… Como os “cannoli” da 14 de Julho (peça para rechear o seu na hora, com creme geladinho), os “sfogliatelli” da São Domingos e o “zepolle” da Basilicata (no dia de São José, 19 de março, eles o preparam frito, como recomenda a tradição italiana; no resto do ano, só o preparam assado, mais leve).

Cannoli, da 14 de Julho – Sfpgliatelli, da São Domingos – Zepolle, da Basilicata

Nenhuma delas é muito espaçosa, pelo contrário, são bem exíguas. Mas são atulhadinhas de saciar o apetite só de olhar. Com boas ofertas, a preços muitas vezes mais em conta do que os normalmente praticados nos bons supermercados.

Gosto das quatro. Até porque o pão delas é muito semelhante. Embora, pela intimidade um pouco maior, vá mais à 14 de Julho.

Essa familiaridade nasceu dos papos que, há anos, eu batia com Alexandre Franciulli, il capo da padoca. Ele cresceu ali, mais afeito ao forno do que ao balcão do negócio fundado por seu avô, em 1897. Passou a preparar na casa a maioria dos acepipes antes fornecidos por terceiros. O bom, melhor ficou. E  consagrou seu talento culinário para além do forno de pães. Há alguns anos abriu cantina na porta ao lado. De lá pra cá, ficou mais difícil trocar ideias com ele. Vive assoberbado.

Implico um pouco com o atendimento impaciente da Italianinha (mas a Porcheta que eles eventualmente preparam nos fins de semana é campeã).

O surpreendente salame espanhol Casaponsa;
zampone (um embutido, delicioso, enfiado na canela do porco, típico de Modena);
azeite siciliano Paesano, engarrafado logo após a prensagem (não é filtrado),
          aromático, grelho abobrinha, berinjela e pimentão com ele;
bolinho de Bacalhau (se estiver chegando da cozinha, é ótimo)!
Tudo da Italianinha.

Me incomoda, também, a  rudeza do balconista da São Domingos (mas, ainda assim, vira e torna vou lá, já que é dos raros lugares em que encontro a mineira  manteiga Real, que era obrigatória lá em casa, na minha infância).

A manteiga Real que eu vou catar na São Domingos.
Lá no alto da bucólica fachada, uma pequena imagem da Madonna de Achiropita.

Nesse quesito, atendimento, nada se compara ao desvelo atencioso e dedicado de Monique, da Basilicata.

Na Basilicata,
uma prateleira inteira de produtos trufados (azeite, mel, conservas…);
a melhor oferta de vinhos entre as padocas italianas do Bixiga;
panforte italiano em dois tamanhos
e o delicioso pão – que eles chamam de pita, mas não tem nada a ver com o pão árabe
          (a massa é a mesma do italiano, mas ele não é talhado no alto,
          fica macio que só e só não dura muito, como o pão francês).

Se você pensa que eu esgotei o assunto Bixiga, não mesmo!

Olha que eu não falei de Adoniran Barbosa – que é a cara do Bixiga (ou é o Bixiga que é a cara de Adoniran?). Não falei da Gaviões, uma super academia de ginástica que nunca fecha – com uma diversidade surpreendente de freqüentadores. Não falei da Rua Avanhandava/Mancini (se fica prá lá da fronteira do bairro, é Bixiga na alma), da fonte-mais-feia-do-mundo (no jardim de um prédio na Rua dos Ingleses), do estilismo ótico-fashion de Miguel Gianini, das animadas baladas de rock&roll do Café Piu-Piu, da feirinha de antiguidades e quinquilharia, das baladas eletrônicas que colocaram o bairro no roteiro dos mudernos (que há pouco ganharam outro motivo de ir ao Bixiga: o novo restaurante do ótimo chef Henrique Fogaça), das antigas gravações do Perdidos na Noite (que lançaram o estilo desbocado do Faustão – era vanguarda, acredite!), das noitadas na Catedral do Samba – palco do brilhante Benito de Paula…

Que bom! Logo, logo, vou ter que voltar ao Bixiga.

À guisa de melhor explicar
o que foi a célebre montagem de “O Balcão”, de Jean Genet,
encenado em Sampaulo por Ruth Escobar
(e registrado, aqui, pelo cineasta José Agrippino de Paula)

 

Também à guisa de melhor explicar
o que representou, à época, o espetáculo Dzi Croquettes,
obra, sobretudo, da genialidade do bailarino norte americano Lene Dale.
Vi este documentário há coisa de uns cinco anos e me emocionei bastante.
Foi feito pela filha de um dos artistas do elenco.

 

Pizza & Blues

Rolou desventura, infortúnio, vicissitude? Está na merda, chorando revés? Perdeu o emprego? E ainda bateu o carro? Levou chifre, tomou pé na bunda? Faltou dinheiro para pagar o aluguel e não sobrou nem para o pão com ovo?

…..Nessas horas, o jeito é se jogar no Blues.

Tudo o que deixa a gente na pior nos lança no mood para o Blues.

Para versejar a lamentação num Blues, bem entendido. Em letras de uma “indigência” muitas vezes constrangedora, sexistas e violentas, com referências a vinganças sanguinolentas, tiros, facas…

Já a música vai muito além da auto piedade. É como se o ritmo – às vezes dolente, mas que costuma atingir altos remelexos de animação – funcionasse como catarse, destilando o sofrimento em foda-se; tipo um porre de redenção.

Destilar e porre são conceitos que vêm bem a calhar: quando essa extraordinária matriz musical americana nasceu, no final do século XIX, blue era gíria usada para discriminar bêbado.

Se bem que a imagem do desabrochar do Blues que alimenta o imaginário americano não tem relação direta com grogue. O cenário são as plantações de algodão dos estados do sul (escravocratas confederados na guerra da Secessão) – com epicentro no delta do rio Mississipi, arredores de Nova Orleans. Foram os negros da Louisiana, Texas, Arkansas, Missouri, Alabama, Georgia, Tennessee, Carolinas e adjacências (já forros, mas fodidos e mal pagos) que passavam a vida apregoando seu sofrimento em cantilenas intermináveis, enquanto colhiam o algodão de seus senhores, digo, agora, patrões.

À noite, nos bares dos alojamentos (olha o pileque aí), os versos que haviam feito mais sucesso no campo eram repetidos para folgança de todos. E ganhavam ritmos animados para que pudessem, já encharcados no álcool, rir e dançar de seu infortúnio.

Embora o Blues não me fosse completamente desconhecido, nunca havia atentado para a relevância – essencial e imprescindível – do ritmo. Em meu favor, o argumento de que meu talento musical se restringe à plateia. Nem palmas eu consigo bater no ritmo…

Foi depois de uma temporada em New Orleans, caminhando  todas as noites nas imediações da Bourbon Street, pelo French Quarter, batendo ponto no Preservation Hall e no House of Blues – ou ouvindo o que emanava de qualquer biboca por mais espelunca que fosse – que meus pés passaram a bater compulsória e compassadamente, ao reconhecer um good old blues. E olha que foi só uma semaninha, há coisa de vinte anos!

Blues (e Jazz, e Soul) não param em New Orleans.
Seja no House of Blues, no Preservation Hall (à esquerda)
ou nas ruas mesmo, anywhere and everywhere.

Mesmo zero à esquerda que sou, passei a reconhecer a batida bluesística nas canções de algumas de minhas divindades rockeiras, particularmente em Jim Morrissey, digo, The Doors; e – só para citar alguns rock stars com lugar cativo em meu altar – Elvis Presley, ZZ Top, Joe Cocker, The White Stripes (resgatando velhos standards pra a vanguarda da vanguarda), Cream (Eric Clapton sempre foi blueseiro de carteirinha), Stevie Ray Vaughan (dá-lhe gaita afinada!), Credence Clearwater Revival, Santana (Blues for Salvador é guitar in it’s best), Deep Purple, Led Zeppelin (e, clarevidentemente Jimmy Page), Fleetwood Mac, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grateful Dead, Jethro Tull…

E, de repente, agora no final de 2016, ficamos sabendo que ninguém menos do que os Rolling Stones acabaram de lançar um novo disco: o ótimo Blue & Lonesome. Em comemoração aos cinquenta e cinco anos de um encontro fortuito de adolescentes que não se conheciam – Mick Jagger e Keith Richards – numa estação de trens londrina. Um atraindo a atenção do outro pelos discos que levavam: LPs de Blues, de Muddy Waters e Chuck Berry. Naqueles dias, era o que lhes monopolizava a emoção. “Foi essa a razão para montarmos uma banda”, reconhece Jagger; confessando que “sempre fomos devotos do Blues”.

O fato é que o Blues está no DNA do Rock&Roll. E também do Jazz. Embora eu ache que Rock e Blues sejam ritmos musicais (como samba, bolero, fado ou cha-cha-chá…), enquanto Jazz, bem… Jazz é uma categoria de Arte. Tipo a Pintura de Klimt, a Literatura de Guimarães Rosa, a Dança do Grupo Corpo, o cinema de Ken Loach, a Arquitetura de Lina Bo Bardi, o teatro de Shakespeare, a escultura de Ligia Clark, a música de Mozart… E o Jazz (de Miles Davis, Charles Parker, Billie Holliday, John Coltrane, Thelonius Monk, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Nina Simone, Django Reinhardt, Michel Legrand, Stéphane Grappelli …).

Em “Três Músicos”, Picasso retrata os ritmos negros norte-americanos
chegando a Paris, no início do século XX

Sampaulo não é Nova Orleans, com Blues – e Jazz – sendo dedilhado, soprado e solfejado a cada esquina. E isso só não é ruim, porque aqui também rola chorinho, rap, tango, samba, forró, flamenco, xote…
Mas o Brasil já teve – e tem – bons bluezeiros. Do pioneiro Celso Blues Boy aos Blues Etílicos. Passando por André Cristovam, Nuno Mindelis, Igor Prado, a gaita virtuosa de Maurício Einhorn e de seu discípulo Sérgio Duarte, o impagável showman Paulo Meyer e seus inseparáveis Thunderheads…

Alguns deles batem ponto com frequência – além da ótima banda da casa – na surpreendente C. C. Rider, um bar de Blues que, há ano e meio, anima as noites da Moóca.

(Moóca? De novo, toda hora?).

Mas antes de nos tocarmos para lá, vamos cuidar da pança que a alma se diverte melhor quando o corpo está repimpado.

E vamos de pizza!

Não uma redonda qualquer. Vamos nos jogar em uma das melhores pizzarias de Sampaulo.

A Pizza da Moóca fica no último quarteirão – antes da avenida Paes de Barros – da rua Guaimbé (já palmilhada por este “Sampaulo de Lá pra Cá” em tantos posts recentes que até já perdi a conta).

Antes de largarmos de mão o logradouro, vamos dar uma última e saborosa paradinha para conhecer as ótimas coberturas das massas (preparadas com as finississíssimas farinhas de trigo 00 trazidas de Nápoles (sabe a terra natal da pizza?). Redondas não tão delgadas que pareçam pão pita; mais para grossas, bordas consistentes (mas a qualidade da massa compensa,). Não empanturra nossa compostura .

São assadas no forno que reina, soberano, nos fundos da pequena e acolhedora Pizza da Moóca.

O lugar fica na fronteira do alternativo, mas do lado de cá do charmoso.

O serviço? Bem… Não chega a estragar o bom-humor, mas tropeça na displicência blasé que é um jeito de fazer de conta que não é amador. Para usar uma linguagem mais de acordo com os garçons com jeitão de estudantes fazendo bico para pagar a faculdade, é descolado.

Entre eles, entretanto, chama a atenção o entusiasmo de Elmond, um jovem migrante haitiano que fugiu das catástrofes naturais, sociais, políticas e econômicas de sua ilha caribenha natal para fazer a vida no Brasil. Em poucos anos, já trouxe a mulher e constrói sua família aqui, com uma garra rara de se ver. Até o seu desembaraço com a nova língua, em tão pouco tempo, pasma.

Sou avesso à xenofobia. O acolhimento a migrantes, particularmente aos que lutam com unhas e dentes pela sobrevivência, não é apenas uma ação humanitária moralmente obrigatória. A garra que o padecimento atiça nesses pelejadores faz deles, também, agentes econômicos preciosos. Trabalham, aguerridos, pelo direito à vida. *

Essas horas eu entendo – e apoio – a perspectiva pragmática de Angela Merkel…

Por falar em imigrantes, vamos voltar a eles. Só que aos italianos que fizeram a pujança de Sampaulo nas fábricas que já fervilharam na Moóca (onde estamos), povoaram o bairro e trouxeram para cá a pizza (nas quais estamos em vias de cair de boca).

Antes, que tal abrir o apetite com um dos coquetéis da Pizza da Moóca, à base de Disaronno? É amaretto, um licor italiano que é pura amêndoa e é para lá de clássico – seus fabricantes garantem obedecer uma receita original de quando a língua dominante, por aqui, ainda era o tupi. E tem o condão de me fazer criança. Quando eu me entendi, o nome no rótulo era Amaretto di Saronno, ou seja, da cidade lombarda de Saronno, colada acima de Milão. Não faço a menor ideia se a decisão de mexer no nome foi judicial ou marqueteira. Detalhe: amêndoa, que é bom, não passa nem perto de sua fórmula! Para mim, foi tipo descobrir que papai noel não existe…

O fato é que preparam dois coquetéis com Disaronno na Pizza da Moóca: o Mojito Italiano (com rum, limão e hortelã, como qualquer mojito; só que o limão é siciliano, acrescentam uma lapada de prosecco e temperam com o amaretto; italianizou, è vero!) e o Lila Sour (com suco de laranja, limão, amaretto e uma cereja pra sofisticar). Valem – para mim, at least – pelo aroma sutil de amêndoas que me remete à infância.

Mojito Italiano e Mila Sour
ambos levam o licor Disaronno em sua fórmula

Para acompanhar os drinks, como abre-alas para as pizzas, as opções são:

Corniccione: massa de pizza fininha, assada até ficar crocante, sutil e sabiamente temperada com ervas e um salzinho encantador.

Crocche Napolitano: meia dúzia de bolinhos, de batata, recheado com pancetta (mas que prometem mais do que cumprem).

Tre Foccace: essas sim, três tiras deliciosas. Olha só o que o tal do trigo 00 proporciona na construção da base perfeita, macia, aerada, mas densa, casca crocante e coberturas bem diferentes. Todas três adoráveis: numa, a simplicidade do salgrosso aromatizado com alecrim se valendo da excelência da massa; noutra, a fatia fina de abobrinha com ricota e manjericão cheia de personalidade a um tempo discreta e estilosa; na terceira, os gritos e sussurros do ótimo cardume de alicci em leito de molho de tomates bem apurado. Surpreendente.

Agora surpreendentes, mesmo, são as pizzas. Como são boas!

Dividem-se em duas categorias: as “vermelhas”, onde quem manda no molho é o tomate; e as “brancas”, onde quem dá o tom é o molho bechamel. Qual é a importância desse detalhe? É que, no caso de mezzo una, mezzo altra, não juntam metade branca com metade vermelha…

Entre as rubras, costumo juntar a simplicidade da Margherita (ou sua versão puxada no alho, a Napolitana) e a picância – nem tão ardida assim – da Diavola (com linguiça diavoletta e pimenta jalapeño).

Já entre as alvas, sou fã da invenção do célebre chef inglês Gordon Ramsay (com gorgonzola e cebola caramelizada) e a bem resolvida Carbonara (com pancetta, parmesão e ovo mole).

Para molhar a goela, como virei fã de cerveja com o advento das “artesanais” – já que poucos líquidos são tão intragáveis quanto as “louras” tradicionais industriais (nem a Heikenen se salva mais…), costumo ir de Jupiter 10 Lúpulos, uma Indian Pale Ale extraordinária, encorpada, produzida pela cervejaria paulistana.

A boa cerveja Jupiter e o vinho Aparados são opções de o que beber
para acompanhar as ótimas pizzas

Mas como muita gente não consegue encarar uma pizza sem vinho, a Pizza da Moóca oferece a boa relação custo/benefício do cabernet sauvignon Aparados, da vinícola catarinense Villa Francioni. Mas controle a expectativa…

Dá para encarar sobremesa?

Então não caia na tentação pelos Canolli. A massa é pesada e o recheio é sem graça. De siciliano só tem a pretensão.

Embora tosco, o Calzonino de Nutella (com sorvete de leite e amêndoas) é mais palatável para quem precisa cair na glicose para alcançar a felicidade. Mas que é over, isso é.

Devidamente saciados, vamos desempanturrar numa curta caminhada de menos de três quarteirões (é descida e todo santo dá uma mãozinha) até o C. C. Rider, na rua Jumana. O Blues nos aguarda.

Porque C. C. Rider? É o título de um Blues celebrizado por Elvis Presley. Se você ouvir, vai lembrar. O “C. C.” significa “See See”. Americano sempre abusou dessas onomatopeias com letras. A garotada brasileira – e os nem tão meninos assim – também mergulharam fundo nesse vício de linguagem (que é prático, é) com a internet, particularmente depois do zap, digo, whatsapp.

Ou seja: o nome do bar, o título do blues – e seu refrão – significam “Veja, Veja, Cavaleiro”.

Que, como dá para ver na marca, foca em Blues e cerveja.

Recebe-nos, na esquina da rua Jumana com a rua Bernini Rosário Mônaco, um portentoso lustre de cristal. Mas não se intimide. A casa não é metida e o ambiente é bem informal. Mais pra lotado, com eventual espera na porta e tudo.

Embora role Blues dos bons e ao vivo todas as noites, descobri que a clientela – há exceções – não é exatamente blueseira. Começa que tem de tudo, de criança a idoso. A maioria é jovem, focada na azaração e tal. Mais tem quem leve filho, avô… Por mim, beleza. Não sou mesmo chegado em gueto.

São moóquenses que vão lá porque o lugar é “decente”, classudo, com jeitão de Jardins (ou, at least, Moema) na Moóca. E o Blues, se não é a isca que os arrasta, faz boa trilha sonora para a noitada.
Muitos nem se incomodam de se acomodar no andar de cima, arredado do show e perto das mesas de bilhar.

Embaixo, a cintilância mais esfuziante fica por conta do balcão, prodigioso, sólido em sua combinação de madeira nobre, tampo de granito, muito metal dourado (as torneiras de chope são uma sedução), zilhões de rótulos coloridos, copos luzidios e um ou outro adereço atraente, como a iconografia do Juventus, o time da paixão moóquense.

Se você não comeu antes – e só nesse caso – pense em encarar a cozinha do bar. Comete mais equívocos do que acertos.

O Jambalaya – prato típico créole, muito popular no baixo Mississipi (e, por isso mesmo, tudo a ver com o Blues) – é um mal-entendido sem tamanho. A mistura é abusada: tipo um risoto com camarão, linguiça e frango. O que dá a liga é um tempero peculiar que eles chamam de cajun. Já comi jambalayas de lamber os beiços. O do C. C. Rider é uma gororoba sem eira nem beira. As costelinhas de porco também deixam – muito – a desejar.

Se gostar de ardências – fortes – entre um gole e outro,
eles servem porções de pimenta jalapeño recheadas com cream-cheese antes de empanar. Falta sal, mas é legal. Só que tem de gostar de picâncias intensas.

Quer saber? Vá de burguer. Se, por um lado, não sobem ao pódio dos melhores da cidade, tampouco são eliminados de saída. Sugiro dois: o Monster Truck – que parece maior do que de fato é, embora seja avantajado, com bacon e onion rings (embora eu, se fosse você, pediria sem o molho barbecue meia-boca e o queijo prato de quinta) ou o Tex Mex, o melhor deles, com chili e sour-cream (sem o queijo, lembra? Eu peço para acrescentar bacon). A carne é farta e boa e isso é o que mais importa em se tratando de burguers. Mas, atenção, se você gosta de queijo gorgonzola – blue cheese em lugares americanistas como aqui, nem assim vá de Blues Cheese Burguer. O queijo mandou lembranças, mas o mensageiro não chegou a tempo; e o molho, ó, neca daquele gostinho peculiar de gorgonzola.

Eu recomendei… Passe pela Pizza da Moóca antes…

Já para beber, a história é outra.

Então vamos ao que nos trouxe até aqui: Blues & Beer.

As cervejas são, de fato, a melhor opção etílica do C. C. Rider. O cardápio dedicado a elas é recheado de obras-primas. Engarrafadas ou saídas das torneiras douradas do bar. Brasileiras nativas ou passadas pela alfândega.

Já experimentei dois coquetéis da casa e decidi não arriscar mais. Não pagam a pena. Um deles, leva o nome da casa (feito com tangerina, Jack Daniel’s Honey  – ô bebidinha mais exquisita – e gelo de água de coco). O outro, uma caipirinha de limão siciliano, uva e manjericão. Em ambos, os ingredientes parecem que entraram no copo para uma rinha, não para uma festa. É só desavença.

Já as cervejas… Quanta iguaria…

A começar pelo chope de uma de minhas Indian Pale Ales prediletas, a “Schornstein” – sou devoto das IPAs e esta, produzida aqui no estado de São Paulo, em Holambra, é perfeita. Eles a vendem também em garrafa.

Como outra IPA deliciosa, a Revenge, também paulista, só que da cidade de Socorro e a American IPA (preparada com lúpulos aromáticos norte-americanos) 6 o’Clock, fruto da parceria entre as cervejarias Invicta (outra daqui de São Paulo, mas de Ribeirão Preto – que tem tradição cervejeira) e Sixpoint (dos Estados Unidos).

As IPAs Revenge e 6 o’Clock
são apenas dois rótulos de um vasto cardápio primoroso.
E alguns chopes difíceis de encontrar por aí,
como o ótimo IPA Shornstein, juntam-se ao Blues
para fazer a festa dos frequentadores do C.C.Rider.

As grandes canecas e tulipas (meio litro!) nas mãos do povo, entretanto, incitam ao chope e à pândega.

Para encerrar, back to the beginning: o Blues.

Eu sei, você sabe, todo mundo está careca de saber que a cultura brasileira
é pródiga em grandes músicos. Músicos de Blues, inclusive.

Os melhores entre eles são arroz de festa no C. C. Rider. A começar pela ótima banda da casa; à frente o vocalista Ivan Marcio que também se vira legal na gaita.

C. C. Rider Band

Além de outros gaitistas cantores do primeiro time, como Sérgio Duarte (sempre acompanhado de seu filho – uma revelação extraordinária de guitarrista). E o cativante showman Paulo Meyer com sua animada banda The Thunderhead.

Sérgio Duarte e, à esquerda, seu filho revelação, Leonardo.
Embaixo, Paulo Meyer, o maior showman do Blues brasileiro, com sua banda Thunderhead.

Além do Spitfire Trio (Ricardo Mourão, Je Lima e Caio Dohogne), o guitarrista Marcelo Watanabe, o tecladista Adriano Grineberg, a banda Cosa Nostra, Vasco Faé, o Tritono Blues (Bruno Sant’anna, André Carlini e André Yous), a gaita surpreendente de Nicola Sena…

Só fera!

Mas precisava cuidar melhor da “moldura”, porque a música é sempre primorosa. Não existe palco, os artistas ficam no mesmo nível da mesa (bastava um tablado palmo e meio mais elevado…), escamoteados debaixo da escada e sem iluminação minimamente adequada. A qualidade do som é muito boa, ou seja, cuidaram do essencial, mas há detalhes que não são irrelevantes, pelo contrário.

Que isso justifique a baixa qualidade de minhas fotos dos shows. Até porque só fotógrafos profissionais, munidos de equipamentos de ponta, conseguem bem registrar o performance dos artistas. Câmeras com melhor desempenho do que o provido pela apple a seus iphones (e mais competência do que a que me foi aquinhoada pelo deus da fotografia). Enquanto isso, o salão, as mesas, a plateia iluminadaços. Pode, Arnaldo?

Felizmente, mais recentemente, as noitadas da casa passaram a ser registradas pelo craque Marcelo Crelece, da Emmy Photografia. Muitas fotos deste post são dele (as melhores). Particularmente as dos músicos. São publicadas no facebook do bar. Pela excelência desse trabalho, justificam per se uma visita à página. Quer ver?

* É inspirador visitar a Missão Paz, da Igreja Católica, no bairro do Glicério (pertinho da Praça da Sé, do bairro da Liberdade…). Eles cuidam do acolhimento, socorro e capacitação profissional de imigrantes. Com aulas de português – para árabes, africanos, haitianos… – e de formação para o trabalho. Às quarta-feiras é possível visitar o projeto e, até, conversar com centenas de clientes que frequentam ou estão alojados lá.
Quer conhecer? www.missaonspaz.org

BÔNUS

Lá nos primórdios da TV a cabo nos Estados Unidos, um canal promoveu um encontro de notáveis do Blues, sob o comando de ninguém menos do que B. B. King (a quem eu – thank’s God – vi, ao vivo, várias vezes). Virou programa e foi ao ar no final da década de oitenta. Olha só o elenco: Paul Butterfield, Eric Clapton, Phil Collins, Dr. John (que eu assisti a nem faz tanto tempo assim em Sampaulo), Etta James (vi em New York, pouco tempo depois dessa gravação), Chaka Khan, Albert King, Gladys Knight (esta eu vi em New Orleans, num tipo circo coberto por lona e tudo), Billy Ocean, Stevie Ray Vaughan… É mole?
Reparem na “conversa” entre as guitarras de B. B. King e Eric Clapton. E de B. B. King com Steve Ray Vaughan. No dueto de Etta James e Dr. John em “I’d Rather be Blind”. E Billy Ocean – eu nunca havia atentado para essa voz…(“… whem something is wrong with my baby, something is wrong with me…)! As três ladies cantando a capella. E o encontro de vozes e guitarras de Stevie Ray Vaughan e Albert King, intermediado pela gaita de Paul Butterfield. O elenco inteiro fazendo um “Midnight Hour” memorável. De-MAIS!
Um pitéu delicioso, único!
Um registro extraordinário, produzido e dirigido por Ken Ehrlich, uma lenda estadunidense da TV e dos grandes espetáculos.
“Let the Good Time Roll”…
Para vocês, na íntegra: