Pizza & Blues

Rolou desventura, infortúnio, vicissitude? Está na merda, chorando revés? Perdeu o emprego? E ainda bateu o carro? Levou chifre, tomou pé na bunda? Faltou dinheiro para pagar o aluguel e não sobrou nem para o pão com ovo?

…..Nessas horas, o jeito é se jogar no Blues.

Tudo o que deixa a gente na pior nos lança no mood para o Blues.

Para versejar a lamentação num Blues, bem entendido. Em letras de uma “indigência” muitas vezes constrangedora, sexistas e violentas, com referências a vinganças sanguinolentas, tiros, facas…

Já a música vai muito além da auto piedade. É como se o ritmo – às vezes dolente, mas que costuma atingir altos remelexos de animação – funcionasse como catarse, destilando o sofrimento em foda-se; tipo um porre de redenção.

Destilar e porre são conceitos que vêm bem a calhar: quando essa extraordinária matriz musical americana nasceu, no final do século XIX, blue era gíria usada para discriminar bêbado.

Se bem que a imagem do desabrochar do Blues que alimenta o imaginário americano não tem relação direta com grogue. O cenário são as plantações de algodão dos estados do sul (escravocratas confederados na guerra da Secessão) – com epicentro no delta do rio Mississipi, arredores de Nova Orleans. Foram os negros da Louisiana, Texas, Arkansas, Missouri, Alabama, Georgia, Tennessee, Carolinas e adjacências (já forros, mas fodidos e mal pagos) que passavam a vida apregoando seu sofrimento em cantilenas intermináveis, enquanto colhiam o algodão de seus senhores, digo, agora, patrões.

À noite, nos bares dos alojamentos (olha o pileque aí), os versos que haviam feito mais sucesso no campo eram repetidos para folgança de todos. E ganhavam ritmos animados para que pudessem, já encharcados no álcool, rir e dançar de seu infortúnio.

Embora o Blues não me fosse completamente desconhecido, nunca havia atentado para a relevância – essencial e imprescindível – do ritmo. Em meu favor, o argumento de que meu talento musical se restringe à plateia. Nem palmas eu consigo bater no ritmo…

Foi depois de uma temporada em New Orleans, caminhando  todas as noites nas imediações da Bourbon Street, pelo French Quarter, batendo ponto no Preservation Hall e no House of Blues – ou ouvindo o que emanava de qualquer biboca por mais espelunca que fosse – que meus pés passaram a bater compulsória e compassadamente, ao reconhecer um good old blues. E olha que foi só uma semaninha, há coisa de vinte anos!

Blues (e Jazz, e Soul) não param em New Orleans.
Seja no House of Blues, no Preservation Hall (à esquerda)
ou nas ruas mesmo, anywhere and everywhere.

Mesmo zero à esquerda que sou, passei a reconhecer a batida bluesística nas canções de algumas de minhas divindades rockeiras, particularmente em Jim Morrissey, digo, The Doors; e – só para citar alguns rock stars com lugar cativo em meu altar – Elvis Presley, ZZ Top, Joe Cocker, The White Stripes (resgatando velhos standards pra a vanguarda da vanguarda), Cream (Eric Clapton sempre foi blueseiro de carteirinha), Stevie Ray Vaughan (dá-lhe gaita afinada!), Credence Clearwater Revival, Santana (Blues for Salvador é guitar in it’s best), Deep Purple, Led Zeppelin (e, clarevidentemente Jimmy Page), Fleetwood Mac, Janis Joplin, Jimi Hendrix, Grateful Dead, Jethro Tull…

E, de repente, agora no final de 2016, ficamos sabendo que ninguém menos do que os Rolling Stones acabaram de lançar um novo disco: o ótimo Blue & Lonesome. Em comemoração aos cinquenta e cinco anos de um encontro fortuito de adolescentes que não se conheciam – Mick Jagger e Keith Richards – numa estação de trens londrina. Um atraindo a atenção do outro pelos discos que levavam: LPs de Blues, de Muddy Waters e Chuck Berry. Naqueles dias, era o que lhes monopolizava a emoção. “Foi essa a razão para montarmos uma banda”, reconhece Jagger; confessando que “sempre fomos devotos do Blues”.

O fato é que o Blues está no DNA do Rock&Roll. E também do Jazz. Embora eu ache que Rock e Blues sejam ritmos musicais (como samba, bolero, fado ou cha-cha-chá…), enquanto Jazz, bem… Jazz é uma categoria de Arte. Tipo a Pintura de Klimt, a Literatura de Guimarães Rosa, a Dança do Grupo Corpo, o cinema de Ken Loach, a Arquitetura de Lina Bo Bardi, o teatro de Shakespeare, a escultura de Ligia Clark, a música de Mozart… E o Jazz (de Miles Davis, Charles Parker, Billie Holliday, John Coltrane, Thelonius Monk, Chet Baker, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Nina Simone, Django Reinhardt, Michel Legrand, Stéphane Grappelli …).

Em “Três Músicos”, Picasso retrata os ritmos negros norte-americanos
chegando a Paris, no início do século XX

Sampaulo não é Nova Orleans, com Blues – e Jazz – sendo dedilhado, soprado e solfejado a cada esquina. E isso só não é ruim, porque aqui também rola chorinho, rap, tango, samba, forró, flamenco, xote…
Mas o Brasil já teve – e tem – bons bluezeiros. Do pioneiro Celso Blues Boy aos Blues Etílicos. Passando por André Cristovam, Nuno Mindelis, Igor Prado, a gaita virtuosa de Maurício Einhorn e de seu discípulo Sérgio Duarte, o impagável showman Paulo Meyer e seus inseparáveis Thunderheads…

Alguns deles batem ponto com frequência – além da ótima banda da casa – na surpreendente C. C. Rider, um bar de Blues que, há ano e meio, anima as noites da Moóca.

(Moóca? De novo, toda hora?).

Mas antes de nos tocarmos para lá, vamos cuidar da pança que a alma se diverte melhor quando o corpo está repimpado.

E vamos de pizza!

Não uma redonda qualquer. Vamos nos jogar em uma das melhores pizzarias de Sampaulo.

A Pizza da Moóca fica no último quarteirão – antes da avenida Paes de Barros – da rua Guaimbé (já palmilhada por este “Sampaulo de Lá pra Cá” em tantos posts recentes que até já perdi a conta).

Antes de largarmos de mão o logradouro, vamos dar uma última e saborosa paradinha para conhecer as ótimas coberturas das massas (preparadas com as finississíssimas farinhas de trigo 00 trazidas de Nápoles (sabe a terra natal da pizza?). Redondas não tão delgadas que pareçam pão pita; mais para grossas, bordas consistentes (mas a qualidade da massa compensa,). Não empanturra nossa compostura .

São assadas no forno que reina, soberano, nos fundos da pequena e acolhedora Pizza da Moóca.

O lugar fica na fronteira do alternativo, mas do lado de cá do charmoso.

O serviço? Bem… Não chega a estragar o bom-humor, mas tropeça na displicência blasé que é um jeito de fazer de conta que não é amador. Para usar uma linguagem mais de acordo com os garçons com jeitão de estudantes fazendo bico para pagar a faculdade, é descolado.

Entre eles, entretanto, chama a atenção o entusiasmo de Elmond, um jovem migrante haitiano que fugiu das catástrofes naturais, sociais, políticas e econômicas de sua ilha caribenha natal para fazer a vida no Brasil. Em poucos anos, já trouxe a mulher e constrói sua família aqui, com uma garra rara de se ver. Até o seu desembaraço com a nova língua, em tão pouco tempo, pasma.

Sou avesso à xenofobia. O acolhimento a migrantes, particularmente aos que lutam com unhas e dentes pela sobrevivência, não é apenas uma ação humanitária moralmente obrigatória. A garra que o padecimento atiça nesses pelejadores faz deles, também, agentes econômicos preciosos. Trabalham, aguerridos, pelo direito à vida. *

Essas horas eu entendo – e apoio – a perspectiva pragmática de Angela Merkel…

Por falar em imigrantes, vamos voltar a eles. Só que aos italianos que fizeram a pujança de Sampaulo nas fábricas que já fervilharam na Moóca (onde estamos), povoaram o bairro e trouxeram para cá a pizza (nas quais estamos em vias de cair de boca).

Antes, que tal abrir o apetite com um dos coquetéis da Pizza da Moóca, à base de Disaronno? É amaretto, um licor italiano que é pura amêndoa e é para lá de clássico – seus fabricantes garantem obedecer uma receita original de quando a língua dominante, por aqui, ainda era o tupi. E tem o condão de me fazer criança. Quando eu me entendi, o nome no rótulo era Amaretto di Saronno, ou seja, da cidade lombarda de Saronno, colada acima de Milão. Não faço a menor ideia se a decisão de mexer no nome foi judicial ou marqueteira. Detalhe: amêndoa, que é bom, não passa nem perto de sua fórmula! Para mim, foi tipo descobrir que papai noel não existe…

O fato é que preparam dois coquetéis com Disaronno na Pizza da Moóca: o Mojito Italiano (com rum, limão e hortelã, como qualquer mojito; só que o limão é siciliano, acrescentam uma lapada de prosecco e temperam com o amaretto; italianizou, è vero!) e o Lila Sour (com suco de laranja, limão, amaretto e uma cereja pra sofisticar). Valem – para mim, at least – pelo aroma sutil de amêndoas que me remete à infância.

Mojito Italiano e Mila Sour
ambos levam o licor Disaronno em sua fórmula

Para acompanhar os drinks, como abre-alas para as pizzas, as opções são:

Corniccione: massa de pizza fininha, assada até ficar crocante, sutil e sabiamente temperada com ervas e um salzinho encantador.

Crocche Napolitano: meia dúzia de bolinhos, de batata, recheado com pancetta (mas que prometem mais do que cumprem).

Tre Foccace: essas sim, três tiras deliciosas. Olha só o que o tal do trigo 00 proporciona na construção da base perfeita, macia, aerada, mas densa, casca crocante e coberturas bem diferentes. Todas três adoráveis: numa, a simplicidade do salgrosso aromatizado com alecrim se valendo da excelência da massa; noutra, a fatia fina de abobrinha com ricota e manjericão cheia de personalidade a um tempo discreta e estilosa; na terceira, os gritos e sussurros do ótimo cardume de alicci em leito de molho de tomates bem apurado. Surpreendente.

Agora surpreendentes, mesmo, são as pizzas. Como são boas!

Dividem-se em duas categorias: as “vermelhas”, onde quem manda no molho é o tomate; e as “brancas”, onde quem dá o tom é o molho bechamel. Qual é a importância desse detalhe? É que, no caso de mezzo una, mezzo altra, não juntam metade branca com metade vermelha…

Entre as rubras, costumo juntar a simplicidade da Margherita (ou sua versão puxada no alho, a Napolitana) e a picância – nem tão ardida assim – da Diavola (com linguiça diavoletta e pimenta jalapeño).

Já entre as alvas, sou fã da invenção do célebre chef inglês Gordon Ramsay (com gorgonzola e cebola caramelizada) e a bem resolvida Carbonara (com pancetta, parmesão e ovo mole).

Para molhar a goela, como virei fã de cerveja com o advento das “artesanais” – já que poucos líquidos são tão intragáveis quanto as “louras” tradicionais industriais (nem a Heikenen se salva mais…), costumo ir de Jupiter 10 Lúpulos, uma Indian Pale Ale extraordinária, encorpada, produzida pela cervejaria paulistana.

A boa cerveja Jupiter e o vinho Aparados são opções de o que beber
para acompanhar as ótimas pizzas

Mas como muita gente não consegue encarar uma pizza sem vinho, a Pizza da Moóca oferece a boa relação custo/benefício do cabernet sauvignon Aparados, da vinícola catarinense Villa Francioni. Mas controle a expectativa…

Dá para encarar sobremesa?

Então não caia na tentação pelos Canolli. A massa é pesada e o recheio é sem graça. De siciliano só tem a pretensão.

Embora tosco, o Calzonino de Nutella (com sorvete de leite e amêndoas) é mais palatável para quem precisa cair na glicose para alcançar a felicidade. Mas que é over, isso é.

Devidamente saciados, vamos desempanturrar numa curta caminhada de menos de três quarteirões (é descida e todo santo dá uma mãozinha) até o C. C. Rider, na rua Jumana. O Blues nos aguarda.

Porque C. C. Rider? É o título de um Blues celebrizado por Elvis Presley. Se você ouvir, vai lembrar. O “C. C.” significa “See See”. Americano sempre abusou dessas onomatopeias com letras. A garotada brasileira – e os nem tão meninos assim – também mergulharam fundo nesse vício de linguagem (que é prático, é) com a internet, particularmente depois do zap, digo, whatsapp.

Ou seja: o nome do bar, o título do blues – e seu refrão – significam “Veja, Veja, Cavaleiro”.

Que, como dá para ver na marca, foca em Blues e cerveja.

Recebe-nos, na esquina da rua Jumana com a rua Bernini Rosário Mônaco, um portentoso lustre de cristal. Mas não se intimide. A casa não é metida e o ambiente é bem informal. Mais pra lotado, com eventual espera na porta e tudo.

Embora role Blues dos bons e ao vivo todas as noites, descobri que a clientela – há exceções – não é exatamente blueseira. Começa que tem de tudo, de criança a idoso. A maioria é jovem, focada na azaração e tal. Mais tem quem leve filho, avô… Por mim, beleza. Não sou mesmo chegado em gueto.

São moóquenses que vão lá porque o lugar é “decente”, classudo, com jeitão de Jardins (ou, at least, Moema) na Moóca. E o Blues, se não é a isca que os arrasta, faz boa trilha sonora para a noitada.
Muitos nem se incomodam de se acomodar no andar de cima, arredado do show e perto das mesas de bilhar.

Embaixo, a cintilância mais esfuziante fica por conta do balcão, prodigioso, sólido em sua combinação de madeira nobre, tampo de granito, muito metal dourado (as torneiras de chope são uma sedução), zilhões de rótulos coloridos, copos luzidios e um ou outro adereço atraente, como a iconografia do Juventus, o time da paixão moóquense.

Se você não comeu antes – e só nesse caso – pense em encarar a cozinha do bar. Comete mais equívocos do que acertos.

O Jambalaya – prato típico créole, muito popular no baixo Mississipi (e, por isso mesmo, tudo a ver com o Blues) – é um mal-entendido sem tamanho. A mistura é abusada: tipo um risoto com camarão, linguiça e frango. O que dá a liga é um tempero peculiar que eles chamam de cajun. Já comi jambalayas de lamber os beiços. O do C. C. Rider é uma gororoba sem eira nem beira. As costelinhas de porco também deixam – muito – a desejar.

Se gostar de ardências – fortes – entre um gole e outro,
eles servem porções de pimenta jalapeño recheadas com cream-cheese antes de empanar. Falta sal, mas é legal. Só que tem de gostar de picâncias intensas.

Quer saber? Vá de burguer. Se, por um lado, não sobem ao pódio dos melhores da cidade, tampouco são eliminados de saída. Sugiro dois: o Monster Truck – que parece maior do que de fato é, embora seja avantajado, com bacon e onion rings (embora eu, se fosse você, pediria sem o molho barbecue meia-boca e o queijo prato de quinta) ou o Tex Mex, o melhor deles, com chili e sour-cream (sem o queijo, lembra? Eu peço para acrescentar bacon). A carne é farta e boa e isso é o que mais importa em se tratando de burguers. Mas, atenção, se você gosta de queijo gorgonzola – blue cheese em lugares americanistas como aqui, nem assim vá de Blues Cheese Burguer. O queijo mandou lembranças, mas o mensageiro não chegou a tempo; e o molho, ó, neca daquele gostinho peculiar de gorgonzola.

Eu recomendei… Passe pela Pizza da Moóca antes…

Já para beber, a história é outra.

Então vamos ao que nos trouxe até aqui: Blues & Beer.

As cervejas são, de fato, a melhor opção etílica do C. C. Rider. O cardápio dedicado a elas é recheado de obras-primas. Engarrafadas ou saídas das torneiras douradas do bar. Brasileiras nativas ou passadas pela alfândega.

Já experimentei dois coquetéis da casa e decidi não arriscar mais. Não pagam a pena. Um deles, leva o nome da casa (feito com tangerina, Jack Daniel’s Honey  – ô bebidinha mais exquisita – e gelo de água de coco). O outro, uma caipirinha de limão siciliano, uva e manjericão. Em ambos, os ingredientes parecem que entraram no copo para uma rinha, não para uma festa. É só desavença.

Já as cervejas… Quanta iguaria…

A começar pelo chope de uma de minhas Indian Pale Ales prediletas, a “Schornstein” – sou devoto das IPAs e esta, produzida aqui no estado de São Paulo, em Holambra, é perfeita. Eles a vendem também em garrafa.

Como outra IPA deliciosa, a Revenge, também paulista, só que da cidade de Socorro e a American IPA (preparada com lúpulos aromáticos norte-americanos) 6 o’Clock, fruto da parceria entre as cervejarias Invicta (outra daqui de São Paulo, mas de Ribeirão Preto – que tem tradição cervejeira) e Sixpoint (dos Estados Unidos).

As IPAs Revenge e 6 o’Clock
são apenas dois rótulos de um vasto cardápio primoroso.
E alguns chopes difíceis de encontrar por aí,
como o ótimo IPA Shornstein, juntam-se ao Blues
para fazer a festa dos frequentadores do C.C.Rider.

As grandes canecas e tulipas (meio litro!) nas mãos do povo, entretanto, incitam ao chope e à pândega.

Para encerrar, back to the beginning: o Blues.

Eu sei, você sabe, todo mundo está careca de saber que a cultura brasileira
é pródiga em grandes músicos. Músicos de Blues, inclusive.

Os melhores entre eles são arroz de festa no C. C. Rider. A começar pela ótima banda da casa; à frente o vocalista Ivan Marcio que também se vira legal na gaita.

C. C. Rider Band

Além de outros gaitistas cantores do primeiro time, como Sérgio Duarte (sempre acompanhado de seu filho – uma revelação extraordinária de guitarrista). E o cativante showman Paulo Meyer com sua animada banda The Thunderhead.

Sérgio Duarte e, à esquerda, seu filho revelação, Leonardo.
Embaixo, Paulo Meyer, o maior showman do Blues brasileiro, com sua banda Thunderhead.

Além do Spitfire Trio (Ricardo Mourão, Je Lima e Caio Dohogne), o guitarrista Marcelo Watanabe, o tecladista Adriano Grineberg, a banda Cosa Nostra, Vasco Faé, o Tritono Blues (Bruno Sant’anna, André Carlini e André Yous), a gaita surpreendente de Nicola Sena…

Só fera!

Mas precisava cuidar melhor da “moldura”, porque a música é sempre primorosa. Não existe palco, os artistas ficam no mesmo nível da mesa (bastava um tablado palmo e meio mais elevado…), escamoteados debaixo da escada e sem iluminação minimamente adequada. A qualidade do som é muito boa, ou seja, cuidaram do essencial, mas há detalhes que não são irrelevantes, pelo contrário.

Que isso justifique a baixa qualidade de minhas fotos dos shows. Até porque só fotógrafos profissionais, munidos de equipamentos de ponta, conseguem bem registrar o performance dos artistas. Câmeras com melhor desempenho do que o provido pela apple a seus iphones (e mais competência do que a que me foi aquinhoada pelo deus da fotografia). Enquanto isso, o salão, as mesas, a plateia iluminadaços. Pode, Arnaldo?

Felizmente, mais recentemente, as noitadas da casa passaram a ser registradas pelo craque Marcelo Crelece, da Emmy Photografia. Muitas fotos deste post são dele (as melhores). Particularmente as dos músicos. São publicadas no facebook do bar. Pela excelência desse trabalho, justificam per se uma visita à página. Quer ver?

* É inspirador visitar a Missão Paz, da Igreja Católica, no bairro do Glicério (pertinho da Praça da Sé, do bairro da Liberdade…). Eles cuidam do acolhimento, socorro e capacitação profissional de imigrantes. Com aulas de português – para árabes, africanos, haitianos… – e de formação para o trabalho. Às quarta-feiras é possível visitar o projeto e, até, conversar com centenas de clientes que frequentam ou estão alojados lá.
Quer conhecer? www.missaonspaz.org

BÔNUS

Lá nos primórdios da TV a cabo nos Estados Unidos, um canal promoveu um encontro de notáveis do Blues, sob o comando de ninguém menos do que B. B. King (a quem eu – thank’s God – vi, ao vivo, várias vezes). Virou programa e foi ao ar no final da década de oitenta. Olha só o elenco: Paul Butterfield, Eric Clapton, Phil Collins, Dr. John (que eu assisti a nem faz tanto tempo assim em Sampaulo), Etta James (vi em New York, pouco tempo depois dessa gravação), Chaka Khan, Albert King, Gladys Knight (esta eu vi em New Orleans, num tipo circo coberto por lona e tudo), Billy Ocean, Stevie Ray Vaughan… É mole?
Reparem na “conversa” entre as guitarras de B. B. King e Eric Clapton. E de B. B. King com Steve Ray Vaughan. No dueto de Etta James e Dr. John em “I’d Rather be Blind”. E Billy Ocean – eu nunca havia atentado para essa voz…(“… whem something is wrong with my baby, something is wrong with me…)! As três ladies cantando a capella. E o encontro de vozes e guitarras de Stevie Ray Vaughan e Albert King, intermediado pela gaita de Paul Butterfield. O elenco inteiro fazendo um “Midnight Hour” memorável. De-MAIS!
Um pitéu delicioso, único!
Um registro extraordinário, produzido e dirigido por Ken Ehrlich, uma lenda estadunidense da TV e dos grandes espetáculos.
“Let the Good Time Roll”…
Para vocês, na íntegra:

 

 

É Moóca, belô!

Carioca é bairrista. Não tiro a razão deles. Viver entre montanhas esculpidas caprichosamente por Deus (esmero reconhecido com Sua estátua de braços abertos e tudo) e o beira-mar tropical atlântico – salpicado por encantos do Leme até o Pontal, como gabou Tim Maia – é de deixar qualquer nativo pra lá de pimpão.

Soteropolitanos também são bairristas. Axé seja, São Salvador! Com uma personalidade miscigenada daquelas explodindo em sons e sabores tão pródigos…. E dá-lhe berimbau embalando esse dendê que eu não estou com a menor pressa.

Agora famosos mesmo, pelo bairrismo, são os porteños. Orgulhosos de que, mesmo? Tem o Messi (que nem de Buenos Aires é), o Papa Francisco (este sim, é nato), o tango (ponto para eles, principalmente depois de Astor Piazzola)…. E tem o cemitério da Recoleta (ahhh, sei, o túmulo de Evita…), o Colòn, as parrillas (tá bueno, com aquelas carnes, que arrebitem o nariz os hermanos). Do jeito que estão penando nas eliminatórias para a Copa da Rússia, até que merecem uma compensação onde se agarrar… (Ave, Tite!)

Paulistanos não são lá muito bairristas. Mais comum é ouvi-los amaldiçoando as mazelas da cidade: trânsito, clima, violência…  Sonham com Fortaleza, Florianópolis, Miami…

Mas há exceção. Alguns moradores desdenham qualquer outro endereço, por mais Leblon, Beverly Hills ou Champs Elysées que seja. São os moóquenses.

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Já é zona Leste. Com uma extremidade colada no centro velho, na margem direita do rio Tamanduateí. Na outra ponta, roça a Vila Prudente. De um lado, o Brás e o Belém. Liberdade, Cambuci e Ipiranga do outro. Centro do mundo, no coração dos locais.

O fato é que tem muito sócio-antropólogo que percebe, no bairro, as raízes da paulistanice mais genuína.

Segundo o moóquense professor Pasquale, famoso consultor do bem escrever a nossa língua, Mooca se escreve assim, sem acento. Mas eu e a torcida do Juventus vamos lá cometer tal heresia?

O bairro já foi berço do então distante Jockey Club. Sim, o turfe paulistano nasceu ali, há cento e quarenta anos! E viveu apogeu fabril, vazando indústrias (Crespi, Matarazzo, Cia. União de Refinadores, Antarctica Paulista e mais um monte…) que empregavam as multidões de europeus – sobretudo italianos – que desembarcavam em Sampaulo, via a célebre Hospedaria do Imigrante, no vizinho bairro do Brás.

Rastros dos bombardeios de 1924

Rastros dos bombardeios de 1924

Essa história passou por um momento dramático: a “Revolução Esquecida”, há noventa e poucos anos. Paulistanos golpistas decidiram se rebelar contra o governo nacional de Artur Bernardes. E, estribados em fortuna que lhes permitia bancar algum soldo, amealharam um exército entre os imigrantes sub ou desempregados (a maioria moradora da região da Moóca). A reação das tropas federais foi violenta. A Moóca foi bombardeada sem dó. Mais de quinhentos morreram e a insurreição foi debelada em poucos dias.

Conheci a Moóca em tempos menos atribulados. Mais…. Modorrenta, eu diria.

Nunca morei por ali, mas sabia de cor o caminho.

Recém-chegado em Sampaulo, meu primeiro panettone foi um Di Cunto, comprado na loja em frente à estação de trens da Moóca.

Quantas vezes não me joguei no lhano estádio da rua Javari – menos pelos jogos do Juventus do que pela pândega beira provinciana e pelos doces do tiozinho dos canolli? Até bailes de carnaval já frequentei no Juventus…

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Sem contar as gandaias gastro-etílicas no bar do Elídio – e seu até hoje, mesmo após a morte do fundador, surpreendente balcão de petiscos.

Com o tempo deixei de ir à Moóca com frequência. Até o último inverno, quando voltei lá para descobrir um bairro renovado, apinhado de atrações surpreendentes. Sem abrir mão de sua tradição de mais paulistano dos enclaves da cidade.

Esse reencontro foi imediatamente anterior a uma breve temporada longe de Sampaulo.

Por conta desse distanciamento, durante mais de dois meses só tenho republicado posts antigos, aqui no blog. Em agosto, antes de me afastar daqui a trabalho, o último artigo inédito (“Samba de Fé”, de 4 de agosto) falava de uma balada invulgar, uma casa de samba, o Templo, plantada na… Moóca.

Retorno pela mesma porta de saída: a moóquense rua Guaimbé.

Quando a descobri, embasbacou-me a muvuca daqueles poucos quarteirões. Tipo agito mesmo. Decidi fuçar o que arrasta tanta gente para lá, assim que a noite cai. O que descobri, começo a revelar agora.

Saindo da rua do Oratório, na direção da avenida Paes de Barros, a primeira parada ainda é diurna. Mais tardar boca-da-noite (eles ficam abertos até tarde e, se ligar, esperam até tipo oito da noite)…

Guilherme é palmeirense, ou seja, tá com a mão da taça de campeão brasileiro. Recém-chegado aos quarenta, ele sempre viveu de preparar e vender comida. Primeiro em Sampaulo, em lanchonetes “parasitárias” (sabe bromélias, orquídeas e que tais, que crescem nos troncos das tais árvores “hospedeiras”?). Pois Guilherme costumava instalar seus lanches em salão de cabelereiro, academia de ginástica…. Até mudar para o Rio e virar botequeiro na distante e gastronomicamente buchichada Vargem Grande carioca, o Bar do Gui.

De volta aos arredores paulistanos, começou a viajar nas tortas salgadas. Danou-se a experimentar diferentes formulações de massa e a elaborar recheios criativos. E começou a receber as primeiras encomendas. Daí conheceu Fernanda e se encantou com a moóquense que não tardou arrastá-lo para viver na Moóca. Nascia a Lá dá Torta.

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A lojinha de tortas prontas, vendidas congeladas, abriu há poucos meses no número 66 da rua Guaimbé. E o lugar tem a cara dos quitutes preparados por Guilherme – agora animado com a mãozinha estimulante da cara-metade. Simplesinho que só, sem qualquer atavio mais sedutor. Tirando a bem elaborada logo da casa, tudo é radicalmente sem glamour. Embalagens sem appeal, lugar sem qualquer charme. Mas as aparências…. Enganam!

Na cozinha do Lá dá Torta, da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Na cozinha do Lá dá Torta,
da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Fernanda e Guilherme são uma simpatia e o que importa no que eles fazem é o conteúdo. Não falo nem da massa de suas tortas, tão longamente pesquisadas por ele. Mas dos recheios. No geral, são ótimos. Gostei de tudo o que já trouxe para casa. O de carne seca com abóbora e requeijão (ô ménage-a-trois mais delicioso), o de palmito com alho porró (palmito mesmo; e haja alho porró), o de berinjela com mozarela (berinjelice farta, em lascas sem casca, uma festa para quem gosta, como eu) e, sobretudo, minha predileta: shitake com queijo estepe – uma obra-prima. Não sei se esse cogumelão já conhecia o queijo de origem russa. Mas como se deram bem! A textura carnosa de um, cortado em tirinhas, foi feita sob medida para o sabor amendoado, adocicadinho ao longe – e gordo – do outro. E tem torta de bacalhau, de atum, de salmão, de frango com acompanhamentos diferentes, de peito de peru, de carne moída, de ratatouille…

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Bem, a noite está começando e ainda temos dois lugares – hoje – para percorrer pela rua Guaimbé acima.

Arrume seu farnel com tipo dois sabores de torta e um bolo. Sim, a Lá dá Torta vende dois bolos irretocáveis, no que pese a embalagem mais uma vez pra lá de desinteressante deles: um de chocolate belga com cerveja preta e outro de capim santo. Além da conta de bons; simplesinhos na aparência, mas extraordinariamente deliciosos, ambos. E, uma novidade saída do forno, recém lançada pelo casal: as tortas doces. Em três tamanhos diferentes – e com três opções de recheio: chocolate com um toque de pimenta, chocolate meio amargo e limão siciliano. A massa crocante, abiscoitada, pode ser aromatizada com canela ou com chocolate.

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo
e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Minha dica para quando for comer as tortas salgadas, amanhã ou depois (já que hoje a programação por vir inclui comida): deixe descongelar naturalmente e aqueça com paciência, longamente, em forno a gás ou forninho elétrico. Não cometa o desplante de colocar uma torta dessas no micro-ondas. É crime de lesa textura, lesa sabor, lesa bom senso. Deixe esquentar lentamente, com o fogo reduzido (130 graus), por pelo menos 20 minutos. Se for meia-hora, melhor. Até dourar a cobertura. Só então, caia de boca.

Na próxima quadra, do outro lado da rua, no número 161 da rua Guaimbé, fica a segunda parada: a extremamente popular e invariavelmente lotada Hamburgueria Artesanal.

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Bruno Petrone é um jovem moóquense, empresário tarimbado em área alheia à alimentação. Mas louco por burguers (uma cultura complexa que abrange um tantão de detalhes para além do pão com bife de carne moída). Essa paixão juvenil sempre lhe embalou a vontade de expandir seus negócios até a gastronomia, digo, aos hamburguers. A própria sacada do nome do empreendimento – Artesanal – dá a pista do zelo perfeccionista, do esmero com que pretendia preparar o que seria servido.

Mas faltava o pulo do gato. A singularidade que faria da lanchonete de Bruno um lugar diferenciado das tocentas hamburguerias de Sampaulo. Tudo bem que a qualidade já seria uma distinção que o alçaria a um círculo mais restrito de algumas poucas dezenas de boas casas de cheese-salada. Acontece que o cara queria ser único, oferecer o que ninguém oferecia.

A idéia de rodízio de mini burguers não era inédita. Bruno já a conhecera no interior de São Paulo. Tipo uma bandeja de pequenos burguers circulando pelo salão e eat as many as you can, ou seja, vai fundo. Mas essa ênfase em quantidade não batia com o sonho de qualidade que acalentava para seu negócio.

Por outro lado, empreendedor sensível, ele sabia que a rapaziada da sua Moóca é gulosa.

Esse embate entre a qualidade pretendida por Bruno e a quantidade desejada por seu target (os futuros clientes de sua Hamburgueria Artesanal) começou a se sintonizar com a elaboração de um conceito que junta antagonismos: o rodízio à la carte!

Há dois anos essa receita bomba na rua Guaimbé. E lota os dois simpáticos andares ambientados com cadeiras de casa de vó americana e memorabilia com pegada roqueira. Um sucesso que atrai moradores da Moóca e arrasta apetites distantes para mergulhar nos mini-burguers da Artesanal.

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A gente escolhe até três hamburguerzinhos de cada vez, para evitar desperdícios (mas não há limite para a quantidade de pedidos). O recorde foram vinte e cinco comidos por um único cliente!

Nós mesmos montamos cada sanduichinho a partir de três variáveis: o pão, a carne e o molho.

As orientações do rodízio à la carte

As orientações do rodízio à la carte

São quatro opções de pães, todos redondinhos como exige o sanduba famoso, só que com um diâmetro bem menor do que o habitual. Mais ou menos com a circunferência de uma lata (de refrigerante ou cerveja). Tem o pão tradicional, o vermelhinho (à base de tomate), o preto (colorido por carvão e sutilmente flavorizado com mel) e o pão com a massa mais “grossa” de pão francês.

Carnes, são cinco: mignon (um escalopinho mínimo), picanha (moída, gordinha, a melhor, na minha opinião), tradicional (seja lá o que for, mas a não especificação deixa uma suspeita de carne “qualquer” no ar), toscana (o recheio da linguiça moldado na forma burguer de ser) e frango.

E complemento, que inclui de maionese a bacon, de ovo a vinagrete, de cebola (frita ou crua) a salada, etc.

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

O queijo já faz parte de qualquer opção, mas eu peço para tirar (a não ser que seja um queijo de boa qualidade; prefiro não comprometer minha carne com um puxa-estica emborrachado qualquer). Além de batata e polenta frita que acompanham. Não, onion rings não estão incluídos, mas podem ser pedidos à parte.

Tipo assim: pão francês com burguer de toscana e molho vinagrete, pão preto com filé mignon e bacon e maionese, pão vermelho com burguer de picanha e cebola frita, pão tradicional com burguer de frango e cebola….

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Pode ser uma experiência bem engraçada e animada, particularmente se partilhada em grupo. Aliás, essa é a bola da vez, em marketing: proporcionar experiência agregada ao consumo. Surpreender, oferecer diversão, encantamento, sedução e aprendizado. Tipo vivência prazerosa; ir além do produto que se está vendendo e conquistar pela emoção é o desafio dos marqueteiros. E Bruno resolveu isso com competência.

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Os  mini burguers em si nem estão com essa bola toda, mas tampouco decepcionam. Que são divertidos, isso lá são. Mesmo considerando a quase absoluta similitude entre os diferentes pães (à exceção da massa do pãozinho francês). Falam que um é mais picante, outro é mais adocicado…. Balela. O appeal é a cor, e só. As carnes tampouco brilham além da conta. Idem para os molhos – sendo que o bacon, picado em cubos (em vez de tiras) e exageradamente torrado, deixa a desejar.

Uma experiência divertida apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

Uma experiência divertida
apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

A Hamburgueria Artesanal oferece um vasto cardápio de burguers em tamanho tradicional, fora do rodízio. Pelo jeitão de mais exigentes e a cara prazerosa dos que pediam esses burguerszões, fiquei com a sensação de que eles eram de fato melhores do que a bem-sucedida sacada de rodízio à la carte.

Do que já bebi por lá, o Mojito é frustrante e o milk-shake de nutella, apesar de óbvio, é tudo.

O fato é que, se voce estiver de turma – e com fome, com a Moóca no seu radar, o rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal pode ser uma adorável opção de saciedade festiva. Se tiver adolescente na jogada, então…. Eu mesmo não vejo a hora de levar meus sobrinhos lá.

A última parada rua Guaimbé acima – por hoje, pois vem mais por aí – fica na mesma quadra da Hamburgueria Artesanal, do mesmo lado, só que já na esquina da rua Padre Raposo.

Já abastecemos nosso farnel com tortas e bolo do Lá da Torta. Já nos saciamos no rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal. Eis que, continuando rua Guaimbé acima – se for terça-feira e já passar das 9 da noite – de repente vai bater a sensação de que Nova Orleans é aqui. Um ótimo blues, com solo de gaita, anima a rua com o ritmo encantado, sincopadamente dolente – quase lamento – dos negros da Louisiana americana. Não dá para evitar. Os passos começam a obedecer a cadência da melodia. E o espírito viaja.

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Terça é dia de Sérgio Duarte no Bar do Juca.

Um dos melhores gaitistas brasileiros – mora ali perto, na Moóca mesmo – Sérgio foi aluno e parceiro do mito da gaita Maurício Einhorn. Durante muitos anos, ainda no tempo da fita cassete, as gravações de Maurício eram audição obrigatória quando eu estava ao volante. Na estrada, então…

O gaitista Sérgio Duarte, às terças, no Bar do Juca

O gaitista Sérgio Duarte, se apresenta às terças, no Bar do Juca

Pois a careca luzidia de seu discípulo cintila, todas as terças, no palco acanhado de um boteco moóquense. Desfiando arranjos inspirados para clássicos do rock & roll (do Pink Floyd ao The Doors – sua versão para Light my Fire, de Jim Morrisey, é puro deleite), do blues norte americano (além de composições do próprio Sérgio Duarte) e, até, de adaptações bluesísticas da obra de Luís Gonzaga. Emocionante, no que pese o pouco caso da maior parte dos frequentadores que inflamam cotidianamente o Bar do Juca.

Roberto Junior – o Juca, uma figura cativante – e sua mulher, Iara, abriram seu boteco há quatro anos. Um qualquer nota ordinário, numa esquina com tradição micada. Desses que Sampaulo tem aos milhares. Salva-o a ótima programação musical da casa. Que vai do velho e bom rock progressivo à MPB, passando pelo blues de terça e sexta-feira (a cargo do também ótimo trio Acústriplo). Tinha tudo para ser um lugarzinho à toa. No entanto, é um recanto que emana magia, graças ao condão da boa música. Um privilégio moóquense.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

Além da boa música, se bater larica, outra surpreendencia da casa são os ótimos bolinhos de bacalhau (que deveriam se chamar “dedinhos” de bacalhau). São roliços como indicadores bem torneados, mas a porção é farta e deliciosa. Entre as cervejas servidas por lá, a divertida IPA (Indian Pale Ale), da Baden Baden de Campos de Jordão, é temperada com…. Maracujá!

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca (com o Juca em pessoa, ao fundo)

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca
(com o Juca em pessoa, ao fundo)

Lá dá Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca. Essa é apenas uma das excelentes opções de noitada na rua Guaimbé, na Moóca. Volto a ela, em breve.

Esta é minha Sampaulo, uma cidade onde – parafraseando Gil, surpresas se escondem, revelam e emoção sempre há de pintar por aí. Se for para as bandas da Moóca, então…

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E, de bonus, Sérgio Duarte, no SESC Pompéia