… de sol a sol…

A noite desde sempre me fascina.

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Tanto pela boemia quanto pela tranquilidade para me jogar na leitura ou para juntar sujeitos, verbos e predicados – sou um escrevinhador compulsivo. E, até, porque as atribulações do dia raramente me permitem encarar o prazer do forno & fogão em paz; daí, de madrugada posso me dedicar ao descasca, pica e refoga do cozinhar fora de hora.
Um papo a bordo de um vinho – ou chá, então…. Sou notívago.

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A aurora é a senha para me recolher. Fujo da inclemência cruel do sol cintilando contra meu semblante tresnoitado. Essa cacetada me amiuda de um jeito tão humilhante…. Não há óculos escuros que anuviem o mal-estar, a sensação de vexame. Corro para me cercar de cortinas pesadas, cerradas (por isso as black-out sempre foram artigo de minha primeira necessidade – já tive casa em que as instalei até no banheiro).

can-stock-photo_csp14322425Outra fascinação é a gandaia. Em turba. Sabe carnaval? Rock in Rio? Clássico de final de campeonato com estádio lotado? Parada Gay? Círio de Nazaré (quem pensa que não é balada, Ave Maria, nunca foi e não sabe o que está perdendo)? Reveillon em Copacabana? Por aí….

Ambos, tanto o varar a noite como o me perder na multidão caíram em desuso. A noite ainda me atrai, mas começo a bocejar bem mais cedo.  E, juntou duzentas pessoas, eu já estou catando camarote para segurar meu copo em paz.

Mas abro exceção, uma vez por ano, quando o outono avança e a prefeitura paulistana faz acontecer mais uma Virada Cultural.

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Inspirada em evento europeu semelhante, as “noites brancas”, a versão paulistana foi sucesso já na primeira edição, em 2005 (equivocadamente planejada para a chuvosa primavera). Logo transferiram para o tempo mais firme de maio. Até o friozinho favorecendo o bater de pernas.

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Os palcos, espalhados por todo o centro velho de Sampaulo, concentram as atrações mais badaladas. Alguns desses tablados são gigantescos e distam mais de dois quilômetros entre si. Estou falando dos pontos extremos da festa. Tipo praça da Sé e estação Júlio Prestes. 21jun2015---encerrando-a-virada-cultural-caetano-veloso-atrai-grande-publico-para-o-palco-julio-prestes-na-regiao-central-de-sao-paulo-1434924278962_956x500Entre um e outro, centenas de espetáculos, performances, projeções, arte por toda parte. De mega-shows a apresentações isoladas rolando a cada esquina. Instalações de arte cibernética e bailes populares. Raves eletrônicas e feiras de comida de rua “gourmet”. Abrangendo do forró ao erudito (que emocionante a apresentação da Sinfônica Municipal, coro e solistas, há algumas viradas atrás, entre o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca, tocando Carmina Burana para milhares de pessoas embevecidas). Além das belas artes, do picadeiro circense, do palco do Teatro Municipal do ringue de Luta Livre, do pastel e do cevice. Da parada de cosplay a teatro, dança, cinema e bonecos gigantes. Tem até programação infantil, com shows, oficinas e brincadeiras monitoradas.

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre, feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, "Jack Sparrow", Reginaldo Rossi, trupes performáticas... Rola de um tudo na Virada Cultural

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre,
feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, “Jack Sparrow”,
Reginaldo Rossi, trupes performáticas…
Rola de um tudo na Virada Cultural

Não é à toa que quatro milhões de paulistanos e turistas se joguem, anualmente, nos eventos da Virada. Pega quatro mil pessoas (uma pá de gente) e multiplica por mil. Mil pás de gente!

Mix 1

Com o metro funcionando sem parar.

Começa às seis horas da tarde de sábado (o próximo, dia 21 – este ano). Com os últimos shows começando também às seis da tarde, só que de domingo. Eita que cansa só de descrever.

Com o tempo, os palcos foram se consagrando a determinados ritmos. O da praça da República, faz tempo que é território do samba. De raiz, sambão de matriz carioca, mesmo que interpretado por sambistas de outras paragens, inclusive daqui.

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Aliás, artista de fora é o que não falta na Virada. De perto e de longe. Até da Australia. Um dos ótimos shows que já assisti, numa delas, foi o da estrela norte americana do jazz, Stanley Jordan, estraçalhando uma guitarra que, em alguns momentos, parecia uma banda inteira.

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

E tem o palco brega, sempre no largo do Arouche, que já estremeceu com Sidney Magal, Gretchen, Valeska Popozuda… Já me esbaldei por lá num show de Luís Caldas – “eu queria ser abelha pra pousar na tua flor…. Haja amor”. E este ano o palco abre, no sábado, com a eleição da rainha da Virada. Traveca, claro, porque miss é muito five o’clock tea para um evento destes.

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Tem palco de rock, de reggae, de música Instrumental (em frente ao Copan)…. A praça do Patriarca é do forró, da sanfona, da zabumba e do triângulo.

Um dos mais maiores, mais “nobres”, reservado a grandes estrelas, é o palco da MPB, na praça Júlio Prestes. Os shows de abertura e encerramento costumam acontecer lá. Este ano começa com Ney Matogrosso – e segue com Alcione, Baby do Brasil, Criolo e, até, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (que “mora” ali em frente), para acabar com a apresentação que reúne Nação Zumbi com os suíços da banda Young Gods.

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará
Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

E tem o Teatro Municipal, aberto a noite inteira, com um show atrás do outro, sempre com um mesmo tema: os artistas revisitam um disco clássico de suas carreiras. As filas são enormes e eu já as encarei duas vezes. Numa delas, desisti quando me toquei que não conseguiria entrar e teria que assistir nos telões instalados, do lado de fora. Era Luiz Melodia revivendo o repertório de seu fantástico Pérola Negra (sabe Estácio, Holy Estácio…?).

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Mas não fiquei frustrado porque corri e peguei desde o comecinho o show extraordinário da cabo-verdiana Cesária  Évora, no palco da avenida São João.

Neste mesmo ano ainda vi Gal Costa – de um quarto de hotel, desses bem meia-boca, do centro (que amigos haviam transformado em camarote bem situado diante do palco).

E perdi, por coincidência de horário, a apresentação – soube que foi emocionante – de Ana Botafogo dançando o Cisne, em palco montado no Vale do Anhangabaú. Aliás, a vasta área sob o viaduto do Chá já virou local dos palcos – os únicos com direito a milhares de cadeiras – de teatro, dança e musicais.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Tom Zé, de máscara, agitou o Teatro Municipal

Tom Zé, de máscara,
agitou o Teatro Municipal

Voltando ao Teatro Municipal (que este ano vai ter Geraldo Azevedo com as músicas de seu disco Bicho de 7 Cabeças), houve um ano em que consegui entrar e assistir a um happening anárquico-musical memorável:

Tom Zé, de máscara e tudo, refazendo o seu antológico Grande Liquidação. Virou baile e tudo, com a plateia e galerias celebrando a vida aos urros sob a batuta do tropicalista essencial.

Todo ano tem novidade. Algumas são incorporadas e voltam nos anos seguintes. Outras ficam como marca daquela edição da Virada. E outras são ajustadas porque derraparam na largada.

Como a Feira Gastronômica. No primeiro ano, aconteceu em cima do Minhocão, comandada pela celebridade maior da culinária brasileira, Alex Atala. Virou tumulto sobre o viaduto sem ponto de fuga. Nada de realmente grave, mas não deu para apreciar a famosa galinhada do chef. Naquele ano eu me toquei para a relevância da alta gastronomia no mundo de hoje. Conheci um casal, juntos há mais de dez anos, tipo classe média baixa, que passa o ano separando dinheiro, coisa de 50 ou 60 reais por mês, para celebrar seu aniversário de casamento num dos endereços gastronômicos top de Sampaulo. Com tudo que o esforço poupador lhes dá direito, da entrada ao vinho especial. Falavam com deleite e grande discernimento crítico de suas experiências com as criações do próprio Alex (no DOM), de Helena Rizzo e Daniel Redondo (do Mani)…. A partir daquela primeira edição atribulada, a Feira muda de lugar, mas acontece todo ano (já passou pela praça Roosevelt, pela Ramos de Azevedo…). A mais tranquila, na minha opinião, rolou na avenida São Luís, só que durante o dia de domingo. Ainda assim, as filas eram longas para conseguir se jogar nas invenções de dezenas de chefs estrelados da cidade.

Alex Atala na primeira Virada. E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Alex Atala na primeira Virada.
E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Duas novidades e um palco vazio marcam a edição 2016.

É que, na programação, havia um show de Ângela Maria e Caubi Peixoto…

Já de inédito, um palco dedicado só às mulheres, Que vai ter de Elza Soares a Maria Rita, passando por Céu, Elba Ramalho e a cubana Yusa, entre outras. Na praça Julio Mesquita.

Esta eu vou querer ver. Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. "Do cóccix até o pescoço..."

Esta eu quero ver.
Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. “Do cóccix até o pescoço…”

E uma invenção polêmica: um tal do Happy Hour. Acontece na sexta, dia 20, entre o fim da tarde e o meio da noite. E pretende ser um como que aperitivo da vasta programação de sábado e domingo. Com destaque para o ótimo e pouco conhecido Samba da Vela que rola na praça Dom José Gaspar e da avant première da nova Casa de Francisca.

O cultuadíssimo (de cult e de vastidão de devotos) e mínimo (de exíguo, diminuto), mas adorável e premiadíssimo cabaré musical da rua José Maria Lisboa está reformando o palacete Tereza Toledo Lara, no miolo do centrão mais centrão de Sampaulo, ao lado da praça da Sé, para se mudar. Com seu elenco de bambas, conceituados, mas de pouca mídia. Ná Ozetti, Arrigo Barnabé, Mônica Salmaso, Luiz Tatit e por aí vai. Eles vão se apresentar na futura nova sede (nem imagino em que pé esteja a reforma) entre cinco da tarde e onze da noite, gratuitamente, nessa pré-virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música vai virar catedral. E a pré-estréia é agora, na Virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música, vai virar catedral.
E a pré-estréia é agora, na Virada.

Agora, na real, um dos grandes baratos é bater perna por toda a região central de Sampaulo ao longo das 24 horas. Cruzar com tribos animadas que circulam nossa diversidade urbana. De punks a idosos, de mauricinhos a skatistas. Alternativos e comportados, dos mais diferentes extratos sociais. Vindos do distante Grajaú, da vizinha Higienópolis, do periférico ABC, dos hypados Jardins, da Mooca tradicional, do modernoso Panambi…. Sem contar os turistas, pois a virada é um dos grandes ímãs de atração de visitantes para a cidade. Tipo ali, na cola da Fórmula 1 e da Parada Gay, que são os campeões. Num congraçamento de diversidades que só se vê na Virada Cultural. O riso, diga-se, é lugar comum. Everywhere. No rosto de everyone.

Virada é para se esbaldar

Virada é para se esbaldar

Este ano, com o circuito “carnavalesco” que vai proporcionar um cortejo ininterrupto de blocos, bandas e cordões carnavalescos – inclusive alas de escola de samba, vai virar folia.

É claro que a mídia, na segunda-feira, vai destacar incidentes, episódios isolados de violência…. Fazer o que? A mídia vive disso mesmo. É que o povo mais comodista, que prefere viver pela TV, precisa se auto justificar a moleza. Eventos isolados até rolam, mas nada que se compare ao estresse de torcidas organizadas se topando em dia de clássico. Sempre que estou na cidade, vou pra lá. E nunca vi nada que me intimidasse. É até bem tranquilo. Até porque, imaginemos o que rolaria numa cidade de 4 milhões de habitantes, num fim-de-semana normal, entre o anoitecer de sábado e o anoitecer de domingo. Com certeza muitas vezes mais ocorrências desagradáveis do que durante a Virada Cultural de Sampaulo. Considerando o mesmo universo humano!

Faltam lugares para sentar e descansar as canelas, mas sempre acaba aparecendo um batente, uma mureta, um degrau ou uma mesa que acabou de vagar num boteco – poucos fechados e todos inflamados, funcionando em pleno vapor.

Houve um ano em que o Teatro Municipal – que fica meio que no miolo geográfico do buchicho –  estava em reforma. Um grupo de artistas ambientalistas transformou suas escadarias num arremedo florestal, plantado em vasto tapete de grama sintética. Com carcaças de carros de onde “brotavam” árvores. Exibindo a resiliência da natureza. Na fachada do teatrão, projetavam pássaros voando. E a trilha sonora reproduzia seus trinados e os ruídos da selva. Me deitei naquele gramado e, embalado pelo pique de oásis, não é que pequei no sono…? Peut être até ronquei, sonhando com o antigo Mappin – ali em frente, lembra? – “aberto até a ½ noite”!

MixA Virada vale por tudo isso. Pelo encantamento das projeções artísticas nas fachadas dos prédios, dos trapezistas e malabaristas em ação para tudo quanto é lado (inclusive atravessando, lá no alto, sobre o Anhangabaú), dos performáticos insólitos (já houve pianista tocando com piano e tudo suspenso por grua acima da galera, jogo de futebol em campo projetado na fachada da prefeitura, com os “jogadores” acrobatas – e a bola – pendurados em cabos…). Sem contar as troupes de performance urbana que surpreendem e arrebatam. Precisa ver o olhar das crianças – e dos adultos – diante das instalações de fogo do grupo francês Carabosse, no Jardim da Luz, na Virada do Ano França/Brasil! E, noutro ano, dos também franceses Generik Vapeur, com bicicletas (ou o que fizeram delas…). E os insetos gigantes e coloridos circulando pelas ruelas do centro velho? O fato é que há sempre surpresas cheias magia quando se circula pela cidade, durante a Virada.

 

 

 

 

 

 

 

 

Que também acontece em pontos avançados, nos bairros de periferia, em centros culturais, bibliotecas, escolas…. Seguindo ao pé da letra a máxima de que todo artista tem que ir onde o povo está. São sobretudo shows, atividades artísticas para crianças e eventos literários que não viram a noite.

As muitas de unidades do SESC, um dos maiores patrimônios culturais da cidade – graças a sua rica, variada e imprescindível programação descentralizada de todas as artes – também participa ativamente da Virada Cultural. Desde sempre.

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Há alguns anos, no SESC Ipiranga, um artista instalou esculturas de gelo, reproduzindo pessoas em tamanho natural, sentadas na escadaria de entrada. Era de fato intrigante ver aquela “gente” derretendo, lentamente, ao longo da noite. Eu ia passear pelo jardim – onde rolavam filmes, apresentações musicais e comidinhas – e voltava para ver o estado das criaturas que formavam um rastro escorrendo degraus abaixo, até virarem como que pontas de icebergs ou cumes de uma cordilheira gelada. IMG_5651

Este ano, por exemplo, não perco a apresentação da extraordinária dupla maranhense Criolina, na noite de sábado, no SESC Consolação.

Tem muita, mas muita coisa mais. Da programação infantil ao que rola de especial nos museus do centro (e mais arredados, como o Museu da Casa Brasileira que este ano elaborou uma programação estilão cabaret). Um post só não cabe. Teria que ser do tamanho de uma edição dominical do Estadão.

logo-viradaMas não posso deixar de falar da Virada Cine Gastronômica, realizada todos os anos no Cine Belas Artes. Ainda não vi a programação deste ano. Mas já assisti uma boa comédia, com Dustin Hoffman, Emma Thompson, Will Farrell e Queen Latiffa, num amanhecer de domingo. Saí de um show de reggae da Tribo de Jah quando começava a clarear. Fui direto para lá. A programação das cinco salas era de filmes em que comida fazia parte do enredo (sabe Festa de Babete, Como Água para Chocolate, Estômago?). Entre as sessões, o público se jogava num bufê, que tinha de massas a café da manhã. Ri muito e ainda matei a larica da noite insone.

Além disso, outros cinemas do centro também mantêm programação a noite toda. No geral, com filmes mais trash, tipo horror e chanchadas.

Minha receita para sobreviver à Virada é: estico a noite de sexta até não mais aguentar (este ano vai ser mais fácil, com o Happy Hour). Só vou dormir quando sábado clareia. Acordo tarde, aí pelas quatro. Depois de um desjejum reforçado, make up e… Virada!

A gente se tromba por lá.

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Quatro vídeos de Viradas passadas.

No primeiro, não não é briga, é rock & roll. Os Raimundos na Virada 2010
(postado por Julio Mesquita)

No segundo, Caetano Veloso na Virada 2015
(postado por douglas Pereira)

No terceiro, a pista eletrônica de Victor Ruiz, na Virada 2013

No quarto, Stanley Jordan tocandoStairway to Heaven, na Virada 2014
(postado por Eder Sambo)

Se joga!

Pulsa uma gandaia em mim que não consegue disfarçar: fui concebido em pleno Carnaval. Para nascer nove meses depois, em novembro.

Ainda de fralda – e ainda em São Luís do Maranhão, felicidade para mim era um arco de serpentina se desenrolando no ar, cortando chuva de confetes coloridos. Os bailes infantis, no clube Jaguarema, foram meu batismo de êxtase, revelando-me a magia da folia.

A pândega de meu pai ganhando a rua, em turma de amigos, todos vestidos de mulher, com roupas iguais, peruca e tudo, engraçadíssimos, ratificou minha vocação para os folguedos momescos. Tio Elir, tio Saldanha, Aldemir, Zé Dourado… Um ano eram melindrosas, noutro wanderléias coreografando o “senhor juiz, pare agora!”.

Migramos para Sampaulo num outubro. Em 1971. Passado dezembro, com o avançar de janeiro, minha inquietação crescia pela ausência de qualquer referência, nas ruas ou na animação das pessoas, ao carnaval que se aproximava… Era assustador. Pegamos a via Dutra e nos mandamos para o Rio de Janeiro.

Foi meu primeiro desfile de Escolas de Samba. Adolescente de deslumbramento na Avenida Presidente Vargas, em arquibancadas de madeira (maiores que as definitivas na Sapucaí de hoje!), assisti o Império Serrano ser campeão cantando Carmem Miranda. “Uma pequena notável cantou muito samba e é motivo de carnaval”… Marília Pera interpretava uma das muitas rainhas dos balangandãs, destaques na avenida. “Cai, cai, cai, cai, quem mandou escorregar; cai, cai, cai, cai, é melhor se levantar”… Leila Diniz foi outra das turbantadas com frutas. Minha paixão pelo espetáculo das escolas de samba nasceu ali, no carnaval de 1972.

Considero os desfiles a mais exuberante manifestação da nossa cultura popular, o melhor espelho de nossa alma brasileira. Com um detalhe que é pura magia: a fugacidade. Cada espetáculo só acontece uma única vez, cintilando e se esvaindo diante da nossa emoção, alguns minutos e báu báu, never more.

Nos anos seguintes, meus fevereiros foram cariocas. Num ou noutro carnaval, eu variava o cardápio. Voltei a São Luís uma vez, fui a Salvador noutro ano, Olinda… Mas, na hora do desfiles de Mangueira, Salgueiro, Beija-Flor, Portela, eu tratava de arranjar uma TV para não as perder.

Com meses de antecedência, me inteiro dos enredos. O que as escolas vão mostrar na avenida, que assunto será interpretado pela imaginação criativa do carnavalesco. Depois, vou atrás de ouvir a trilha do espetáculo, o samba enredo que vai cantar o tema, cuja letra alinhava os destaques da história. O refrão revela se a música tem potencial para empolgar as arquibancadas e alicerçar o sucesso de uma apresentação. Como fez com a Vai Vai, em 1978: “Noel, Noel, Noel, esta linda noite é sua e a Vai Vai está em feste neste carnaval de rua”; com a União da Ilha, e a Império Serrano em 1982: “Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu” e “Bumbum paticumbum prugurundum, o nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí, Bumbum paticumbum prugurundum, contagiando a Marquês de Sapucaí”; em 1988, com a Imperatriz Leopoldinense: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós e que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz”; em 1993, com o Salgueiro: “Explode Coração na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro, contagiando sacudindo essa cidade”; com a Mangueira, em 1994: “Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde-rosa só não vai quem já morreu”

Durante meses, centenas de artistas, artesãos, engenheiros, marceneiros, serralheiros e técnicos de efeitos especiais criam, costuram, colam, pintam, esculpem, soldam… Alegorias, fantasias, adereços… A harmonia planeja, em sintonia com a evolução, a passagem do espetáculo, de cronômetro em punho. Os coreógrafos elaboram e ensaiam seus bailados à exaustão – inclusive o sublime pas-de-deux do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Enquanto a bateria batuca, sem trégua.

Nos barracões, uma multidão de artistas e artesãos produzem o espetáculo

Nos barracões, uma multidão de artistas e artesãos produzem o espetáculo

Tudo, por alguns minutos de deslumbre.

Das arquibancadas deslocadas pelas obras do metrô do Rio para a Avenida Antônio Carlos, assisti à estréia de Joãosinho Trinta, no Salgueiro, cantando meu – e dele – Maranhão natal. Com “O Rei de França na Ilha da Assombração”. Uma emocionante revolução de encantamento. Na forma, no visual e no conteúdo, no enredo do espetáculo. Sucedida pelas “Minas do Rei Salomão”. “Sonhar com Rei dá Leão” (Joãosinho muda de escola, alça a Beija-Flor ao esquadrão de elite e coloca Nilópolis no mapa do samba), “A Criação do Mundo na tradição Nagô” (a revelação de dois ícones, Neguinho e Pinah), “A Grande Constelação das Estrelas Negras” (eu chorava e cantava e sambava enquanto Clementina de Jesus passava, emocionada, acenando do alto de uma alva alegoria-jardim), “A Lapa de Adão e Eva” (Cláudia Raia surgindo, Lafond, de serpente, seduzindo Eva com uma banana), “O Mundo é uma Bola” (sob o dilúvio da maior chuva que um desfile já viu), a catarse de “Ratos e Urubus” enlouquecendo a Sapucaí… “Xepa, de lá pra cá xepei, se na vida sou mendigo, na folia eu sou rei”!foto boa 1

Por essas – e outras, trinta desfiles ao todo no Salgueiro, Beija-Flor, Viradouro e Grande Rio, escrevi um livro, “O Brasil é um Luxo”. Um passeio pelos enredos de João, obras-primas da arte brasileira.

Esta livro me permitiu conhecer melhor as escolas de samba de Sampaulo. Eu não era zero à esquerda no assunto, mas não tinha nem de perto a intimidade que me ligava às cariocas.

Meus janeiros – ou parte deles – eram passados aqui. E me jogar nas quadras, nos ensaios, era inevitável. Já até assistira a um desfile paulistano, ainda na Avenida Tiradentes, no ano em que a Vai Vai enlouqueceu o bairro do Bexiga ao conquistar seu primeiro título cantando Noel Rosa, com o samba de refrão transcrito aí em cima.

Mas foi minha obra sobre os desfiles de Joãosinho Trinta que escancarou as portas de meu coração para o Carnaval de Sampaulo. Por conta de um convite, do Diário Popular, para ser jurado – do quesito enredo – no Sambódromo do Anhembi. O jornal mantinha (mantém, ainda?) uma premiação paralela à oficial, chamado “Troféu Nota 10”, copiado do “Estandarte de Ouro” que O Globo realiza no Rio de Janeiro.

Repeti a dose no ano seguinte, quando fui demitido. E o fui por escolher a Mocidade Alegre como melhor enredo de 2012. Contrariando as regras rígidas do julgamento.

Essas mesmas regras são seguidas no Rio de Janeiro e não concordo com elas. Desfile de Escola de Samba é arte. Ópera Popular de Rua, como Joãosinho definiu. Um espetáculo com libreto (o enredo), música, dança, teatro, artes-plásticas (alegorias esculturais, figurinos), circo…

Como metrificar uma obra de arte?

Como metrificar uma obra de arte?

Não pode ser julgado com a métrica de régua e compasso. Até admito que questões como tempo máximo de apresentação precisam ser impostos; se não, periga, as apresentações invadem a Páscoa. A Mocidade Alegre fizera – de longe – o melhor espetáculo naquele ano. Para mim, representante como jurado do público que assistiu e consagrou o desfile da escola, não importava se uma alegoria emperrara na concentração. O que vimos foi exuberante e emocionante. E o que eu considerei foi o que vi. Até porque não sei como julgar o que não vi. Tanto que escrevi, na justificativa do voto: “faltou uma alegoria, mas não fez a menor falta”. O pessoal do Diário não engoliu…

Desde sempre percebo dois grandes equívocos no desfile de escolas de samba de Sampaulo. O primeiro é o esforço em clonar o que fazem no Rio. Tipo loja de franquia, sem personalidade. Aqui não se cria nada, tudo se copia dos cariocas. Todos os fundamentos, ipsis literis. Qualquer evolução começa lá. Das comissões de frente coreografadas às paradinhas de bateria. As regras de julgamento, tudo, até os detalhes que devem ser observados na apresentação de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Xerox. Submetemo-nos à condição de filial e, como tal, acatamos o desterro à sombra. Abrimos mão da invenção. Admitimos a incompetência para criar. Nosso talento se conforma em sermos cópia.

O segundo equívoco do carnaval de escolas de samba de Sampaulo é a única novidade genuinamente paulistana nos desfiles. Uma cria bastarda, espúria e prejudicial ao vicejar desta manifestação cultural: as escolas constituídas por torcidas organizadas de futebol. Não estou dizendo que não possam criar e produzir ótimos desfiles. Mas não considero saudável. Arte e futebol são paixões distintas. O núcleo de uma escola de samba é um grupo de artistas que, sob o comando de um carnavalesco, se juntam para produzir um espetáculo cênico. Seus seguidores são fãs. O núcleo de um time é um grupo de jogadores que, sob o comando de um técnico, se juntam para jogar bola. Seus seguidores são torcedores. Quando os fãs de um se confundem com os torcedores de outro, vicejam o sectarismo, o fanatismo e a intolerância. Neste caminho, nada impede que surjam escolas de samba Unidos do PT, Mocidade Independente do PSDB, Império de Maomé, Acadêmicos do Vaticano, G.R.E.S Cordão da Universal, Turma dos Hebreus… Por que sectarizar o samba?

Mas o carnaval taí. Já começou e tem hora para acabar.

Para mim, a melhor forma de me jogar na folia pré-carnavalesca são os ensaios de quadra das escolas de samba. São a melhor balada do alto verão em Sampaulo.

Quatorze escolas (outro exagero; não é fácil, para o público, apreciar vinte horas de espetáculo; haja oportunismo polítiqueiro…) disputarão o título de campeã este ano no Sambódromo do Anhembi. Em desfiles que atravessarão a noite de sexta para sábado, 5 de fevereiro. E de sábado para domingo, dia 6.

Suas quadras e ensaios, pela ordem de apresentação na avenida:

A Pérola Negra foi vice-campeã do grupo de acesso em 2015. Por isso volta à elite das escolas de samba em 2016 e abre os desfiles.
Seu enredo visita a tradição festeira da Vila Madalena, seu bairro, epicentro da boemia de Sampaulo.
No ano passado, os ensaios trocaram a diminuta quadra da Rua Girassol (que costumava vazar gente pelas ruas próximas) pelo amplo Tropical Butantã. Que este ano teve que fechar para reforma. Nova mudança, desta feita para um estacionamento a céu aberto, na Avenida Rio Pequeno, ao lado da Avenida Escola Politécnica. Pertinho da USP, cujos alunos costumam frequentar os inflamados ensaios e participar de seus desfiles.
O samba enredo deste ano não é exatamente empolgante. Se for lá – ensaios aos domingos – vá com o refrão na ponta da língua: “É na ginga a dança… que eu vou / Solta o corpo e balança… amor / Vem ver como é que é sambar na ponta do pé / Pérola Negra vem nos passos do balé”.

A Pérola Negra ensaia a céu aberto as danças que escreveram a história da Vila Madalena

A Pérola Negra ensaia a céu aberto as danças que escreveram a história da Vila Madalena

A Unidos da Vila Maria tem uma das melhores e maiores – quadras de Sampaulo, às margens da Via Dutra. Além de amplo, o espaço de ensaios é confortável, com mesas e cadeiras para uma relaxada – carência comum a muitas escolas.
O enredo canta a Ilha Bela, balneário da elite mais descolada da cidade.
Enredos “geográficos” podem surpreender, particularmente quando fogem da exaltação ao óbvio. Mas é raro escapar dos estereótipos.
Currículo, o carnavalesco tem. Alexandre Louzada já foi tetra campeão no Rio (pela Vila Izabel e pela Beija-Flor), sendo que, em 2011, foi campeão lá e aqui, pela Vai Vai.
Os ensaios acontecem às sextas e domingos.
O refrão do samba enredo periga conquistar as arquibancadas: “E no balanço das ondas . . . Mareia / Tem reza forte tem . . . Na aldeia…. / Clareia / Salve o sincretismo na religião: Oxóssi é São Sebastião.

A Ilha Bela é o enredo que anima os ensaios na ótima quadra da Vila Maria

A Ilha Bela é o enredo que anima os ensaios na ótima quadra da Vila Maria

A Águia de Ouro leva para o Sambódromo do Anhembi um enredo-oração a Nossa Senhora.
Não é a primeira vez que uma escola de samba desfila religião. As divindades de matriz africana são, talvez, o maior lugar-comum.Mas o catolicismo já rendeu momentos memoráveis.
Como o protagonizado pela Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio: “Padre Miguel, Padre Miguel / Olhai por nós, olhai por nós / Se liga nessa gente tão sofrida, meu senhor / Tá sempre aguardando a sua voz”.
No caso da Águia de Ouro paulistana, a escola tem motivos para louvar a Virgem Maria: a gratidão. Até pouco tempo atrás, a escola penava num arremedo de quadra, debaixo de um viaduto de seu bairro natal, a Pompéia. Hoje, desfruta da maior quadra da cidade, na Marginal do Tietê.
O samba enredo acaba com um pedido de perdão, mas não esclarece o motivo da contrição.
Os animados ensaios acontecem aos domingos e o refrão reza:O céu se abriu / Mostrou seu luar / Pra ver minha Águia de Ouro passar / Ave Santa Mulher que me guia / O nosso Azul e Branco é de Maria”.

Em oração a Nossa Senhora, a Águia de Ouro ensaia na mega quadra da Marginal do Tietê

Em oração a Nossa Senhora, a Águia de Ouro ensaia na mega quadra da Marginal do Tietê

A Rosas de Ouro escolheu um enredo inusitado pelo ineditismo: as Tatuagens.
A escola reúne uma das maiores legiões de fãs em Sampaulo.
Seu último título foi conquistado com um enredo patrocinado e levava o nome do patrocinador até no título, o Cacau é Show. A Liga das Escolas protestou (dizem que pressionada pela Rede Globo, incomodada pelo merchandising explícito na transmissão) e mudaram para O Cacau Chegou.
Este ano, vai defender a teoria de que as cicatrizes de ferimentos foram as precursoras das tatuagens. Mais mórbidgo foi Joãosinho Trinta que, no enredo de 1986 da Beija-Flor carioca, O Mundo é uma Bola, sobre a história do futebol, delirou; imaginando que tudo começara com guerreiros ancestrais batendo bola com as cabeças de seus adversários vencidos em campo de batalha.
A boa quadra da Rosas, toda pintada em rosa e azul (que são as tradicionalíssimas cores da “Roseira”), fica na vizinhança da cabeceira do lado bairro da Ponte da Freguesia do Ó. Impressionante como a maioria absoluta das competidoras do grupo de elite tem CEP da Zona Norte da Cidade (dez, das quatorze!).
Os ensaios rolam às quartas e sextas e o refrão do samba enredo, fraquinho, canta assim:Eu vou tatuar no seu coração / Pra vida inteira / És  meu amor / Eterna como o tempo, roseira”.

Na quadra azul e rosa, a Rosas de Ouro ensaia tatuar roseiras

Na quadra azul e rosa, a Rosas de Ouro ensaia tatuar roseiras

Chegamos à Nenê da Vila Matilde, uma escola querida por todo o universo do samba paulistano.
A quadra fica no distante – e bota distante nisso, bairro que dá nome à tradicional instituição de pra lá da Penha, na fronteira entre Sampaulo e a Europa (é vizinha do Aeroporto Internacional de Guarulhos).
Isso não tem me impedido de sempre ir até lá, há décadas, em respeitosa visita às raízes do samba paulistano.
Como mudou a Vila Matilde nos últimos anos. De subúrbio beira insalubre, o bairro transformou-se em recanto pitoresco da cidade, com um bem ambientado parque onde crianças brincam de patins e idosos passeiam cachorros. Um dos melhores exemplos que conheço de classe média baixa com dignidade.
E uma das coisas que mais me encanta, lá, são os carros de som – como os de cidades do interior – que circulam nesta época tocando o samba-enredo da Nenê. Por onde passam, as pessoas da rua ensaiam passos.
Se não é a única escola de samba tipicamente de comunidade em Sampaulo, é a mais atavicamente ligada a seu entorno.
E a quadra, então! É uma jóia preciosa, escondida numa ruela. O interior, atualmente, é pura sedução. Um kitsch salão de palácio todo em azulão e dourado, com arremedos de lustres feitos em papel cintilante.
Vale muito a pena participar de um ensaio da Nenê. No que pese o enredo deste ano. Não sou lá muito fã de enredos de exaltação a personagens vivos, a não ser que sejam monstros sagrados.
Por mais que eu aprecie o talento e a determinação de Cláudia Raia, não é este o caso. Acho que as escolas apelam para isso no afã de conquistar mais facilmente as arquibancadas do sambódromo.
Ainda assim, vá até lá.
Os ensaios acontecem aos domingos.
Quanto ao samba enredo, gosto muito da melodia. Mas sabe aquelas canções cantadas numa língua que você não conhece e assim mesmo gosta porque a música é muito boa? A letra é assim, tipo disparatada. Mas o refrão é muito bom e vai pegar na avenida:Quem é da Vila não foge da Raia / Cai na gandaia, samba pra valer / Entra na dança desse Carnaval / Com a Rainha do teatro musical”.

Cláudia Raia é a musa dos ensaios na adorável quadra da Nenê

Cláudia Raia é a musa dos ensaios na adorável quadra da Nenê da Vila Matilde

E entra em campo o time do Corinthians, digo, a Escola de Samba Gaviões da Fiel.
No mundo do samba, quando o enredo não trata de um fato histórico, de uma cidade ou região geográfica, de uma personalidade, ou seja, de um assunto com fronteiras relativamente bem definidas, são chamados de enredos abstratos.
Num tema como magia, mistério ou vaidade, cabe de um tudo.
O enredo deste ano, da Gaviões, é abstrato: “Fantástico”. O samba não revela o que o carnavalesco Zilkson Reis vai mostrar, mas dá uma dica na letra: brincar de Deus.
A quadra da escola também fica ao lado da Marginal do Tietê e os ensaios acontecem às terças e sextas.
Nunca fui lá. Até pretendia, mas depois de um componente se recusar a me levar lá porque eu estava vestido com uma camiseta verde, desisti. Isso para mim é a negação do espírito carnavalesco.
Se você for corinthiano, não se intimide. O samba é bom – embora a letra seja do crioulo doido, a escola tem boa bateria para animar a folia, e não vai ser difícil decorar o refrão: “Sou Gavião no corpo e na alma / Vem da arquibancada a minha raiz / Fantástico é ser Fiel / E nesse meu país / Alvinegro é mais feliz”.

Um enredo abstrato, Fantástico, enlouquece os torcedores do Corinthians nos ensaios da Gaviões

O enredo abstrato, Fantástico, enlouquece os torcedores do Corinthians nos ensaios da Gaviões

A Acadêmicos do Tatuapé escolheu um enredo que promete encerrar com chave de ouro o primeiro dia de desfiles, no amanhecer de sábado, 6 de fevereiro: um tributo a Joãosinho Trinta. “João, valeu! Na avenida brilha um sonho seu…”
A bem da verdade, o enredo é uma exaltação à escola de samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro.
Mas fazendo justiça, surpreendentemente rara no mundo do samba carioca, a escola da Zona Leste de Sampaulo destaca no enredo o inventor – de fato – da escola fluminense de Nilópolis. Não é exagero dizer que ninguém sabia que a Beija existia antes do pequeno gênio maranhense a “inventar”, lhe dar personalidade e títulos.
A Tatuapé vai passear por esses desfiles memoráveis. Inclusive pelo célebre carnaval de 1986, O Mundo é uma Bola, quando a Beija encarou a maior tempestade que já desabou sobre a Sapucaí, sem perder o ritmo e a animação: Foi isso que entendi ao ouvir um verso do samba enredo que canta “deixa a chuva cair, deixa a bola rolar”.
É, junto com o da Dragões da Real, na minha opinião, talvez o melhor samba paulistano de 2016, com pegada para acontecer na avenida.
Pena a hora do desfile, seis da manhã, com as arquibancadas já esvaziadas…
Seus ensaios acontecem às terças, quintas e sábados. Adoro quando saem da pequena quadra, sob o viaduto Antônio Abdo, no bairro que batiza a escola, para sambar  pelas ruas em seu entorno.
Vá de refrão na ponta da língua: Bate no peito, diz quem é… Tatuapé / Sua garra, luxo e esplendor / A energia da comunidade / Inspiração na Beija-Flor”.

Na quadra da Tatuapé, Joãosinho Trinta e a Beija-Flor inspiram os ensaios

Na quadra da Tatuapé, Joãosinho Trinta e a Beija-Flor inspiram os ensaios

A Unidos do Peruche, campeã do grupo de acesso em 2015, abre o segundo dia de desfiles, às dez e meia da noite de sábado, 6 de fevereiro.
A escola que tem as cores do Brasil – verde, amarelo, azul e branco – vai cantar os cem anos do samba na avenida.
Eu gosto muito de frequentar a quadra – que não é miúda, mas tem um quê de intimista – sempre lotada. Talvez pela alegria animada de seus componentes apaixonados.
A Peruche vai cantar os cem anos do samba. Com uma boa melodia, mas uma letra confusa…
Os ensaios acontecem aos domingos e o refrão, anota aí: “Firma o pandeiro e o tan tan / Tem samba até de manhã / E a nação perucheana faz a festa / O meu batuque ecoou, um lindo canto de amor / A filial chegou”.

Cem anos de samba inflamam a quadra da Peruche

Cem anos de samba inflamam a quadra da Unidos do Peruche

Detalhe: As quadras da Unidos do Peruche e da Mocidade Alegre são vizinhas, coladas, na cabeceira do lado bairro da Ponte do Limão. Acho que é caso único no universo das escolas em todo o Brasil. Como se não bastasse, o enredo das duas, este ano, canta a história do samba – ambas fazendo referência, por exemplo, à Praça Onze carioca. Nos ensaios, quando uma sai para treinar seus componentes pelas ruas vizinhas, a outra tem que maneirar a bateria. Não é louco?

A Império da Casa Verde também optou por um enredo abstrato: Império dos Mistérios.
Gosto muito da “Caçula do Samba”, como é conhecida a escola da Avenida Engenheiro Caetano Alvares (pontilhada de barzinhos transados que a alçaram a point boêmio da Zona Norte).
Em janeiro de 2005, eu vivia por lá, cantando o Brasil do enredo Se Deus é por Nós, quem será contra Nós: “Sou mais você Brasil / Ó pátria mãe gentil / Esculturada por nosso Senhor / Terra do samba e do amor”. Sou pé quente. A Império foi campeã pela primeira vez. E repetiu o feito em 2006.
Dia desses, encontrei o multi vitorioso (pela Rosas e pela Gaviões) carnavalesco Jorge Freitas, num hot dog em frente à quadra, em noite de ensaio. Ele está estreando na escola da Casa Verde.
Perguntei-lhe o que pretendia contar na avenida com esse enredo abstrato, a que mistérios ele se referia, “À esperança pelo que há de vir”, ele respondeu.
Eu citei o samba enredo, de 1978, da União da Ilha carioca, sucesso retumbante na voz de Simone:Como será o amanhã / Responda quem puder / O que irá me acontecer / O meu destino será como Deus quiser”
E Jorge respondeu: “Exatamente”!
A avenida dirá o que será…
O certo é que a letra fala de Eldorado, de Atlântida…
Os ensaios acontecem às quintas e sábados (começam tarde, lá pra meia noite!).
E o refrão do samba se canta assim: Diga onde andará… nosso jardim / Paraíso a encontrar… riqueza sem fim”.

Os ensaios da Império da Casa Verde tentam decifrar Mistérios

Os ensaios da Império da Casa Verde tentam decifrar Mistérios

A Acadêmicos do Tucuruvi, escola do mítico Seu Jamil (que foi o jeito encontrado para facilitar o nome de seu presidente, Hussein Abdo El Selam) e do carnavalesco maranhense Wagner Santos.
A religião também é enredo, com As Festas de Fé. Um enredo feito sob medida para a escola que, há alguns poucos anos, apresentou um desfile encantador, cantando os festejos de São Luís do Maranhão.
A Tucuruvi jamais conquistou o título, mas se mantem sempre no grupo principal.
A quadra, na distante Vila Mazzei, aos pés da Serra da Cantareira, realiza ensaios aos sábados. Que, por ordem de Seu Jamil, acabam cedo. Pela distância, só fui lá uma vez e mal cheguei, acabou. Portanto, vá cedo e chegue com o refrão decorado: “No caminho “padin ciço”/ O círio de Nazaré / Ó senhora aparecida / Abençoa quem tem fé”.

As Festas da Fé animam os foliões nos ensaios da Tucuruvi

As Festas da Fé animam os foliões nos ensaios da Acadêmicos doTucuruvi

A Mocidade Alegre tem uma história curiosa.
Causou sensação logo que chegou ao grupo especial, no início da década de setenta. Naquela época, sua ala de compositores foi presidida por um mito do samba carioca, o portelense Candeia. E foi tricampeã logo na chegada (antes da Beija-Flor repetir esse feito, no Rio).
Sua quadra passou a ser conhecida como Morada do Samba.
E a Mocidade permaneceu na crista, influenciando o mundo das escolas de Sampaulo, até 1980.
Para cair num relativo ostracismo de onde emergiu, triunfante, no carnaval dos 450 anos de Sampaulo, em 2004.
De lá para cá, nada menos do que seis títulos de campeã – e alguns vice-campeonatos – a alçaram ao panteão das maiores entre as grandes escolas de samba da cidade.
A meu ver, graças à liderança carismática de sua presidente, Solange Bichara. E ao talento – que muitas vezes me lembra Joãosinho Trinta, mais do que qualquer carioca – do carnavalesco Sidnei França.
Desfiles como o que trazia como enredo nada mais do que O Espelho e o que tratava das Ilusões foram obras primas inesquecíveis.

Marília Pera homenageada pela Mocidade em 2015

Marília Pera homenageada em 2015

Ano passado, a escola desfilou uma belíssima homenagem à diva Marília Pera.
Este ano, a Mocidade canta os cem anos do samba, como sua vizinha de quadra Peruche. Só que, para isso – como fazia o gênio Joãosinho, diga-se – lança mão de um personagem mítico, Ayo.
Como time que está ganhando ganha também torcedores, a Morada do Samba é das quadras mais inflamadas nos ensaios – que acontecem às sextas e domingos.
Quanto ao samba, eu gosto, mas não me encanta como melodia. Tem uma pegada mais marchinha, acelerada. Mas a letra tem potencial para pegar no Sambódromo do Anhembi e, se o visual e a evolução da escola ganhar as arquibancadas, vai ter mais troféu para levar pra casa.
Apesar da lotação, vale a muvuca. Mas vá com o refrão do samba de cor e salteado: “Quando cresci fiz escola / Sou raiz, tenho história / E o povo aclamou / Ôôôô… É a força de Ayo / No Ylê da Mocidade o samba chegou!”

A Mocidade Alegre celebra 100 anos de samba sob as bênçãos de Ayo

A Mocidade Alegre celebra 100 anos de samba sob as bênçãos de Ayo

E aproveite, dia 30, sábado – uma semana antes do desfile, acontece a tradicional feijoada da Mocidade Alegre. Com direito a muito batucar da bateria.

A grande icógnita (pelo menos a minha grande dúvida) em relação ao desfile da Vai Vai é se a pegada política do título do enredo sobre Paris – Je suis Vai Vai – chegará à avenida.
O samba não faz referência à ameaça à liberdade perpetrada pelos atentados parisienses, preferindo brindar com champagne, se encharcar de perfumes e se cobrir com a alta moda sob a torre Eiffel.
E o desfile? Vai desperdiçar a oportunidade de citar Charlie Hebdo e os atentados de novembro?
Quanto à quadra da Saracura – apelido da Vai Vai entre seus íntimos, não existe! É lamentável que uma escola de samba tão renomada ainda não tenha tratado de oferecer o conforto e a segurança de uma quadra minimamente decente a seus componentes e fãs, à dignidade de sua história.
Os ensaios rolam na rua, chova ou faça lua. No caso de janeiro, sempre copioso, o risco é grande (se bem que eu estive lá no domingo passado e o tempo estava pra lá de perfeito; torneiras do céu fechadas e temperatura amena, amena…).
Sim, os ensaios acontecem aos domingos. E também às terças e às quintas.
O samba não chega nem perto do acerto do tributo a Elis Regina do ano passado que trilhou uma apresentação emocionante na avenida.  Antes de ir, aprenda o refrão pontuado de galicismos: “Mon Amour / A voz do povo é quem diz / Sou raça sou raiz / Há tantos carnavais / Je Suis Vai Vai”.

Cantando os encantos de Paris, a folia invade as ruas do entorno da Vai Vai

Cantando os encantos de Paris, a folia invade as ruas do entorno da Vai Vai

A penúltima escola de samba de Sampaulo a desfilar este ano é a Dragões da Real, representando a torcida organizada tricolor do São Paulo (a Mancha Verde, dos palmeirenses, foi rebaixada no ano passado).
Numa certa medida, o enredo retoma o tema de mistério da Império da Casa Verde. Só que o mistério, neste caso, é representado pelo ato de presentear. O que é que eu vou ganhar de presente. E olha que tem até presente de grego…!
É abstrato? É…
A quadra também fica na beira da Marginal do Tietê e, que alívio, tem valet.
Não é grande – como a da Águia de Ouro, um pouco adiante. Nem inexistente, como a da Vai Vai. Mas é confortável.
O samba enredo, na minha opinião de desafinado, é muito bom e a bateria está bem afiada.
Os ensaios rolam às quintas e sábados. E o refrão para levar decorado é: “Nossa história o amor revela / A surpresa chegou, é ela! / Um mesmo ideal, brilhar no carnaval / .Dragões da Real”.

Na quadra da Dragões da Real, a gandaia é descobrir o que eu truxe pra voce

Na quadra da Dragões da Real, a gandaia é descobrir o que eu truxe pra voce

X9 Paulistana. Taí uma escola com a qual simpatizo.
Pensando bem, tirando a Imperatriz Leopoldinense carioca – a da fase excessivamente técnica da carnavalesca Rosa Magalhães – e meu desgosto com as escolas futebolísticas – que se refere ao conceito em si, não aos sambistas, todas tem seu appeal particular.
A décima escola da Zona Norte de Sampaulo é a última a desfilar, ufa!
E traz um enredo exaltação ao Açaí. Bem adequado à reposição de energia depois de vinte horas de espetáculo, coincidindo com o amanhecer do domingo de carnaval.
O samba enredo cita – e não teria como ser diferente – os índios da Amazônia, passeia por Belém do Pará e participa do Círio de Nazaré (já vimos esta celebração na Tucuruvi).
O desfile é patrocinado por uma marca muito popular da bebida e, nos ensaios, costuma haver fartura do energético natural.
A ampla quadra – nenhuma Vila Maria, mas também confortável – fica num beco às margens da Avenida Luís Dumont Vilares.
E a folia acontece às quartas, sextas e domingos.
Vá de refrão em punho, digo, na língua para soltar o gogó: “X-9 é amor verdadeiro / Sempre em primeiro lugar / A “energia” do meu samba vem aí / Tá na boca o sabor do açaí.

No embalo do Açaí, o povp se joga na quadra da X9

No embalo do Açaí, o povo se joga na quadra da X9

Como eu disse láááá no início, o carnaval taí. Se jogue nessa gandaia porque depois disso tem um ano inteiro pela frente.

Um ano que promete emoções pouco festivas enquanto aguardamos o retorno de Momo e o que esses artistas maiores da brasilidade irão aprontar em 2017.

Bom carnaval para todos!

 

Resumo dos Ensaios:

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