É privado, mas a alma é pública.

A imigração nordestina deu um tempo, arrefeceu. Se andamos pela rua Prates, entretanto, no bairro do Bom Retiro, o que mais se vê são jovens chegados há alguns meses, no máximo poucos anos, da Coréia. O Glicério ferve de haitianos e africanos que ainda mal falam português. Árabes e europeus do sul continuam desembarcando…

Esse caldeirão de culturas, tudo junto e misturado, é o maior tesouro de Sampaulo. Sonhos em construção, resiliência, arte vicejando em todos os sotaques, diversidade!

Sobretudo por isso, a cidade me inspira o tempo todo.

Embora intolerância mal-humorada e violenta, serviços públicos deficientes e mal direcionados e selvageria concorrencial na luta pela sobrevivência pelejem para me desencantar, acabrunhar, intimidar, reprimir e travar.

Nessas horas, minha terapia é correr para um SESC. Uma das raras instituições paulistanas focadas na valorização do ser – e não do ter. Por isso os SESCs são inspiradores. Alentam, incentivam, estimulam, encorajam, fomentam, açulam o que há de melhor em nós.

sesc-rn-natal-macaiba-processo-seletivo-edital 1

O SErviço Social do Comércio é uma instituição privada, septuagenária, mantida por empreendedores do comércio: vendedores de bens e serviços (inclusive saúde, cultura, turismo e restaurantes). Graças a ela, as lacunas vazias pela omissão do Estado – em cultura, recreação e lazer, cursos e oficinas, equipamentos esportivos e, até, assistência odontológica – são preenchidas com competência e talento. E com desvelo todo especial para com crianças e idosos.

Seu mandachuva regional, há trinta e dois anos, é Danilo Miranda.

Danilo Miranda - ex seminarista, filósofo e sociólogo

Danilo Miranda – ex-seminarista, filósofo e sociólogo

Ele merece essa longevidade no cargo. Tenho para mim que o cara é louco pelo que faz. Não perde o foco, tem talento para sonhar adiante do óbvio e competência para contornar o impossível. Ou seja, nasceu para fazer isso. Não tem porque mudar o comando se o objetivo for renovar, arejar e coisa e tal. Afinal, ele é o próprio abanador da acomodação, inventa moda em modo moto-contínuo…

Comecei a frequentar o SESC, o da rua Dr. Vila Nova, entre a rua Maria Antônia e a rua Major Sertório, na Vila Buarque (hoje se chama SESC Consolação), bem antes de Danilo Miranda assumir o volante, ainda na década de 70. Ia jogar voley, com o pessoal da MPM (meu engatinhar publicitário foi lá, na então maior agência de propaganda do Brasil, situada a dois quarteirões de distância). Tínhamos quadra reservada, na hora do almoço. Vira e mexe rolava uma piscina depois da bola.

Teatro SESC Anchieta, década de 70

Teatro SESC Anchieta, década de 70

 

 

 

E foi no teatro de lá, o Anchieta, que assisti – ainda adolescente – à primeira peça de teatro em Sampaulo: “A Capital Federal” (todo gabola de encontrar, na metrópole, o texto de um conterrâneo maranhense – Artur Azevedo – sendo encenado).

À época, já existiam outras unidades funcionando. Uma no centrão antigo da cidade, ao lado da praça da Sé, o SESC Carmo.  E outra pra lá do distante autódromo, que funcionava como Clube de Campo, o SESC Interlagos. Ahhh, o CineSESC (aquele com um bar envidraçado no fundo da plateia, de onde se pode ficar assistindo o filme e comendo e bebericando tudo ao mesmo tempo), na rua Augusta, também é das antigas.

Bar do CineSESC

Bar do CineSESC

Anos depois, enquanto morei em Curitiba, inauguraram o SESC Pompéia, fruto de projeto abusadamente arrojado de Lina Bo Bardi. Foi um marco na história do SESC – e da cidade. E permanece como referência (até além-fronteiras do Brasil), de adaptação arquitetônica em prédios históricos. No caso, adaptação de antigos galpões fabris em espaços multiuso com pegada cultural e esportiva.

SESC Pompéia - projeto extaordinário de Lina Bo Bardi Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

SESC Pompéia – projeto extaordinário de Lina Bo Bardi
Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

Ou seja, quando Danilo Miranda assumiu o SESC, já havia um ponto de partida consistente. Mas ainda engatinhando, quando comparado com o que isso se transformou passadas três décadas.

Há alguns anos (Três…? Quatro…?), no começo de uma noite fria, eu e um amigo trafegávamos pela rua Bom Pastor, bairro do Ipiranga, no rumo do centro, a caminho de uma Virada Cultural. O sinal vermelho da esquina da rua dos Patriotas nos reteve o tempo suficiente para…. Cacete! À nossa esquerda, uma arquibancada toda ocupada por pessoas de…. Gelo! Enquanto outras, vivinhas e encantadas da silva, de celular em punho, observavam e fotografavam a plateia enregelada.

525479741_1280x720

O sinal abriu e, já decididos a estacionar e ir descobrir do que se tratava, ao tentarmos dobrar na rua dos Patriotas para catar onde parar, fomos impedidos pelo bloqueio de cavaletes. E…. Cacete de novo! Lá adiante, no meio do quarteirão, no meio do asfalto da rua, uma tela de cinema estava armada e exibia um filme para uma plateia acomodada, no maior conforto, em puffes “pingo” (aqueles grandes sacos de couro no formato de um pingo, com enchimento de bolinhas de isopor, que se moldam ao corpo).

10343005_515141198592219_1647014067499202693_n

Foi assim, de surpreendência em surpreendência, que eu descobri o SESC Ipiranga, durante a sua programação – que vara a madrugada – de uma  Virada Cultural.

Como Sampaulo é arrebatadora! E como o SESC dá uma mãozinha nessa aptidão para encantar…

Quais eram minhas expectativas em relação ao bairro do Ipiranga, até então? Não mais do que “ desse mato não sai coelho”, ou seja, nenhuma. Até tropeçar no SESC assentado lá.

Eu já fora ao museu/palácio que celebra o 7 de setembro, apreciara o bem cuidado jardim/esplanada e seu rebuscado monumento. E contemplara o célebre mural do Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo (numa exagerada fantasia épica do brado de Dom Pedro). Além disso, apenas quinquilharias. Eu ficara com a sensação de que tudo não passava de cenografia imponente; muito glacê para pouco recheio. Dera por visto.

Museu-Paulista

Até o famoso camarão à provençal, que me arrastaram algumas vezes a cruzar a cidade até o restaurante La Paillote, no final da avenida Nazaré, já migrara para os Jardins.

O Ipiranga, rico de histórias para contar e carente de presente para mostrar, virara só passagem – se o Waze assim o determinasse.

Naquela noite de Virada, a vasta programação de shows e tudo o mais no centro da cidade teve que começar sem minha presença. Eu estava ocupado redescobrindo o bairro. E a porta de entrada foi o SESC Ipiranga.

A tal arquibancada de homens de gelo era uma intervenção da artista Néle Azevedo, ocupando a escada de acesso. Entramos. Lá dentro, performances no hall, mais intervenções artísticas na área de convivência e, nos fundos, um grande jardim, apinhado de gente esparramada para todo lado, assistindo vídeos, fazendo música, comendo e bebendo; confraternizando. Em volta de uma grande claraboia envidraçada, elíptica, abaulada (sabe um casco de tartaruga?) – que depois eu descobri ser a cobertura da piscina.

1937044_752166848222985_143626409193938656_n

De lá pra cá, nunca mais deixei de ir ao SESC Ipiranga.

Um de meus primeiros encantamentos foi a localização. Ocupando uma esquina, o prédio, moderno, divide o cruzamento, com três palacetes surpreendentes. E, nos fundos, é vizinho de muro do Parque do Idependência e do palácio/museu. Tipo um entorno que transpira nobreza. Decadente, mas, ainda assim, ostentando priscas fidalguias.

O prédio, moderno, e seu entorno "fidalgo"

O prédio, moderno, e seu entorno “fidalgo”

Descobri, surpreso pois o imaginava mais recente, que ele já existe a beira vinte e cinco anos e que seu bem elaborado projeto foi criado pelo arquiteto Julio Neves (reparando bem, tem o mesmo DNA do supermercado Santa Luzia, na alameda Lorena, também saído de sua prancheta).

Mix 1

A relevância cultural dos quinze SESCs de Sampaulo começa aí, no projeto. Sempre entregue a arquitetos, se não famosos, selecionados pelo talento em somar beleza, inovação e funcionalidade, com soluções que promovam a integração entre os usuários de seus muitos equipamentos, a socialização, a inclusão e a acessibilidade.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro e, em construção, Paulista.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro                  e, em construção, Paulista.

Em todas as unidades, os equipamentos esportivos atraem, compreensivelmente, sobretudo usuários da vizinhança.

Já a programação cultural, essa arrasta público de bairros distantes e até de outras cidades. Eu mesmo, sou frequentador contumaz de shows, espetáculos teatrais e exposições nos SESCs Pinheiros, Vila Mariana, Consolação, Pompéia, Belenzinho, Bom Retiro e Santo André. Mas o SESC Ipiranga – e talvez por isso eu o não tenha percebido antes – sempre focou a sedução de suas atrações nos moradores da região. Era muito mais provável encontrar alguém do bairro do Ipiranga participando de um evento no SESC Pinheiros do que vice-versa.

Essa escrita começou a ser reescrita a partir do ano passado, com alguns projetos de enorme repercussão. Eles colocaram o SESC Ipiranga no radar da elite cultural da cidade:

Viveiros de Castro” (várias atividades, de shows a exposição fotográfica, numa espécie de tributo a um dos maiores antropólogos brasileiros);

Eduardo Viveiros de Castro - Exposição, Música, Performance... No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo, na abertura do projeto.

Eduardo Viveiros de Castro – Exposição, Música, Performance…
No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo,                 na abertura do projeto.

70 anos sem Mário de Andrade” (com múltiplas atividades, sobretudo teatrais, focadas na obra literária de um dos maiores escritores – e intelectuais – de Sampaulo e do Brasil);

"Manuela" e "O Ó da Viagem", pelo grupo teatral Companhia do Feijão foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

“Manuela” e “O Ó da Viagem”, pelo grupo teatral Companhia do Feijão
foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

ESPANCA! 10 anos” (retrospectiva com a remontagem de quatro peças do premiadíssimo  grupo teatral mineiro);

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos
com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

Lira Paulistana: 30 Anos” (diversos shows que resgataram um movimento cultural divisor de águas, que fez história no teatro improvisado num subsolo, na praça Benedito Calixto, e reuniu a vanguarda artística de Sampaulo da década de 80);

O Projeto "Çira Paulistana: 30 Anos" promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti, Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo... Além de debates e exibição de filmes.

O Projeto “Lira Paulistana: 30 Anos”
promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti,                         Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo…
Além de debates e exibição de filmes.

#ForadeModa” (com curadoria de Fause Haten, estrela maior do universo fashion e multi-artista, está em sua segunda fase e reúne de exposições artísticas a atelier de costura criativa, tudo com o vestir como pano de fundo).

"A Feia Lulú", performance do multiartista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

“A Feia Lulú”, performance do multi-artista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

Um dos segmentos do projeto, batizado por Fause de “Lili Marlene” incluiu o desfile do estilista na última São Paulo Fashion Week, realizado no Parque do Museu do Ipiranga, vizinho ao SESC Ipiranga. Em vez de modelos vivos, Haten usou manequins de vitrine sobre rodinhas, todos com a fisionomia da atriz alemã Marlene Dietrich. Ele definiu assim o que apresentou: “O Desfile Marlene não é moda, mas está à venda e pode ser vestido; não é teatro, mas pode ser assistido e não é obra, mas pode ser contemplado”.

Alguns dos artistas que participam do projeto "#ForadeModa", atelier de costura "inventiva" orientado pelo estilista Renato Dib e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns dos artistas que participam do projeto “#ForadeModa”,                                                    atelier de costura “inventiva” orientado pelo estilista Renato Dib
e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns artistas plásticos e coletivos de artistas foram convidados por Fause Haten para criar obras para exposição durante a realização do projeto.

Trabalhos de Adriana Yazbek

Trabalhos de Adriana Yazbek

e obras de

e obras de Karila Girotto, Laerte Ramos, Casa Juisi, Fernanda Yamamoto…

Antes disso, coisa de um ano antes, durante uma grande reforma no prédio, as atividades do SESC Ipiranga foram transferidas provisoriamente para um casarão antigo. Todo ambientado com surpreendente criatividade.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014, foi extremamente sensível às características do lugar. Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014,                                                                                   foi extremamente sensível às características do lugar.
Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

Na mesma rua, meio quarteirão adiante. Tudo que acontecia lá passou a ser divulgado com a chamada “É logo ali”. E o bordão pegou, conquistou a mídia que passou a divulgar as atividades com uma intensidade até então inédita. A ousadia da iniciativa e de sua programação que se aproveitou com extraordinária sensibilidade curatorial das características cenográficas do local, já haviam despertado a atenção da nata mais antenada da cultura paulistana.

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga não sofreram solu~]ao de continuidade durante o "É Logo Ali". Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local. Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias, shows musicais (inclusive um com a ótima cantora)

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga
não sofreram soluçãoao de continuidade durante o “É Logo Ali”.
Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local.
Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias (Elke Maravilha arrasou), exposições, shows musicais (inclusive um, delicioso, com a surpreendente Flavia Bittencourt)

Uma atividade iniciada na sede interina, no “É logo ali”, foi tão bem-sucedida que, concluída a reforma, continuou a acontecer na sede. É o adorável “A Cozinha da Doidivana”, em que a escritora, socióloga e cozinheira Ivana Arruda Leite recebe escritores para um bate-papo enquanto prepara um jantar. Com direito a audiência – restrita a pouquíssimas pessoas, instaladas em mesas arrumadas para comer. No final todos participam do regabofe.

Não é fácil conseguir ingresso para "A Cozinha da Doidivana". Mas vale o esforço. Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos. Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá: Antonio Prata, Marçal Aquino, e o imprescindível Laerte.

Não é fácil conseguir ingresso para “A Cozinha da Doidivana”. Mas vale o esforço.
Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima
e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade
que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos.
Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá:
Antonio Prata, Marçal Aquino, Reinaldo Moraes. Joca Reiners Terron e o imprescindível Laerte.

Por falar em comida, a única atividade que deixa a desejar no SESC Ipiranga é a Comedoria – que é como chamam a lanchonete. É bem instalada, agradável e confortável, com louças e utensílios transados. Mas a comida não passa do sofrível e, não raro, é intragável.

Comida também é cultura. Não é apenas um detalhe de menor importância, uma obrigação da qual temos que nos desvencilhar para cuidar das questões maiores, mais importantes. Não somos primatas. Durante milênios aprimoramos o comer até transformar essa exigência de sobrevivência em atividade prazerosa, fonte de emoção. Alçada ao patamar de atividade cultural.

Tratar uma comedoria como se fosse um vestiário, um banheiro, cuidando apenas de mantê-lo higienizado, bem equipado e “saudável” não combina com a civilidade que o SESC demonstra em todas as suas outras iniciativas. Ração é racional demais para quem – como Danilo Miranda – percebe que as pessoas são mais do que ferramentas produtivas.

Coisa que me irrita, manda meu humor para as cucuias, é frustrar meu apetite. Escolher um de comer, encher meu paladar de expectativa e, depois, desapontá-lo. Como aconteceu no SESC Ipiranga. E ainda ter que desembolsar por isso! Eu não gosto de ser tratado como panaca…

E não adianta vir com o argumento de que é barato e por isso… Dá para cozinhar decentemente com orçamento baixo. Preparar quitutes interessantes com os mesmos ingredientes que usam para fazer aquelas porcarias! Até concordo que comida boa é comida nutritiva e balanceada. Mas comida boa é, também e sobretudo, comida saborosa. Preparada com talento, desvelo, paciência, carinho…E respeito por quem vai comer.

A elite gastronômica, exigente não frequenta a Comedoria do SESC Ipiranga. O lugar está sempre lotado de gente que não se importa de comer mal. Está habituada e sequer sabe que pode tirar prazer do comer. Mas isso não justifica. Aplaca a má consciência dos administradores, mas não é desculpa. Até porque o cardápio de opções culturais, esportivas e de lazer oferecido pelo SESC também não fazia parte do hábito de consumo de quem passou a se servir dele, desde que passou a frequentar o SESC.

Essa falta de exigência do público em relação a cultura e equipamentos esportivos não impediu que Danilo Miranda e seus comandados nadassem contra a maré e oferecessem qualidade a sua clientela. Pelo contrário. Motivou-os a caprichar. Tacaram Viveiros de Castro, Mario de Andrade, Fause Haten, grupo ESPANCA e que tais na moleira do lugar-comum que o assistencialismo clientelista costuma servir à plebe rude e ignara! Viva o SESC por isso!

Porque, com comida, é diferente?

Fico olhando para os atendentes da Comedoria com dó. Seus colegas que trabalham nas outras atividades do SESC sentem que fazem algo relevante, digno, louvável. Eles, não. Podem até não ter consciência de que sua energia produtiva é dispendida com irrelevâncias. Mas, com certeza, não desfrutam do mesmo sentimento de orgulho funcional que anima os que trabalham no teatro, na piscina, nas oficinas, no jardim… Estes, mesmo que não racionalizem isso, sentem que contribuem para a dignificação da condição humana.

A Comedoria é legal. Simples e comfortável. E a área externa é muito aprazível.

A Comedoria é legal. Simples e confortável.
E a área externa é muito aprazível.

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão intragável como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na "Tigela". Quanto à "refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquina com três queijos é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram...). Salva-se - e olhe lá - a saladinha e o suco de uva de caixinha. é uma massa

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão disgusting                      como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na “Tigela”.
Quanto à refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquinha com três queijos    é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram…).
Salva-se – e olhe lá – a saladinha e o suco de uva de caixinha.
O que dá para encarar, com muita fome, é o Escondidinho de Frango.

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora. O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável. Ahhh, repare da simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas...

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora.
O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável.
Ahhh, repare na simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas…

Ainda no capítulo comida, foi o SESC Ipiranga que lançou em Sampaulo a moda dos jantares “no escuro”, de olhos vendados. Na época do “É logo ali”.

10403409_522527897853549_6797522022367763007_n

Os equipamentos esportivos, inclusive a piscina, são de uso restrito de comerciários (na ativa ou aposentados do comércio). Assim como o serviço odontológico e as diversas oficinas de artes, trabalhos manuais e informática. Nesses casos, há a chance de, sobrando vagas, serem admitidos “intrusos”.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal. Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal.
Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes. Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais. Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio...

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes.
Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais.
Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio…

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites. Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas), passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..), E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites.
Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas),
passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..),
E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

Outras atividades de lazer e a programação cultural, entretanto, são abertas a todos. Exposições são de livre e gratuito acesso. A maioria dos espetáculos – teatro e shows, entretanto, é paga (com ingressos super em conta para os trabalhadores do comércio). É que os artistas recebem cachês; independem da bilheteria. Isso faz do SESC um dos grandes investidores na produção cultural de Sampaulo (sem contar as atrações que traz de fora – de outros estados e até do exterior).

Saca só alguns dos eventos que rolaram no SESC Ipiranga desde que eu comecei a frequentar a rua Bom Pastor (é só uma fração diminuta de uma programação intensa e rica, com curadoria que sempre enfatiza qualidade e relevância cultural):

Teatro

São dois espaços: uma sala maior, confortável e bem equipada, com duzentos lugares e um recinto diminuto, para vinte e poucas pessoas – e olhe lá… Mas que tem abrigado ótimos espetáculos intimistas, a maioria monólogos. Assisti lá a emocionante interpretação de “O Porco”, por Henrique Schafer. Brilhantes, ator e texto.

Um monólogo extraordinário: "O Porco", com Henrique Schafer

Um monólogo extraordinário: “O Porco”, com Henrique Schafer

E, no maior, vi um intrigante espetáculo com Débora Falabella sobre adoção, duas ótimas montagens do grupo Espanca, um surpreendente Domingos Montagner fazendo “Mistero Buffo”, os extraordinários “Aldeotas” (com o grande Gero Camilo), “Cais ou A Indiferença das Embarcações” (com a Velha Companhia de Teatro) e Alessandra Negrini – num espetáculo pouco lisonjeiro para com a saga colonizadora dos bandeirantes (esse, confesso, achei bem chatinho) …

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta. Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos...

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta.
Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos…

Shows

Acontecem no teatro, no ginásio, na área externa e, até, no vizinho Parque do Independência… Já, já, rola um show na piscina.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e - saudade... - Naná Vasconcelos. Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e – saudade… – Naná Vasconcelos.
Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Exposições

Não existem fronteiras para a programação de Artes Visuais do SESC Ipiranga. Do grafite aos suportes tradicionais – pintura, gravura… Passando por projeções noturnas (as fisionomias estampadas na vegetação da ocupação “É Logo Ali” faziam muita gente pegar o carro só para passear por lá), pela exposição interativa de Athos Bulcão (até as crianças adoravam), as muitas instalações (inclusive as que usavam os quartos do casarão ocupado em 2014 (como a que contava a história do Grupo Lume)… Quando entrei lá pela primeira vez – naquela Virada Cultural, lembra?, a grande parede curva e a área de convivência estavam ocupadas pela exposição “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi. Fiquei completamente de quatro, a-pai-xo-na-do!

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga. Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação "É Logo Ali" (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora de "Memórias Insulares" da artista Érika Kaminishi.

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga.
Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação “É Logo Ali”                    (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora                               de “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi (nas duas imagens da base).

Deu para sentir porque o SESC aqui em Sampaulo é essencial?

E olha que eu só falei do SESC Ipiranga, que nem é o mais buxixado da cidade…!

Isso tudo estaria acontecendo sem Danilo Miranda à frente do SESC? Com essa qualidade e abrangência de conteúdo, esse primor de produção, essa excelência técnica? Duvide-ó-dó!

Sabe o ditado que credita a engorda do rebanho ao olho do dono?

Pois eu já cruzei algumas vezes com ele em diferentes eventos do SESC. Circulando, assistindo espetáculos, conferindo tudo. Anonimamente, com o seu jeitão de Gepeto acompanhando o passo a passo de Pinocchio.

Inclusive na apresentação de um luthier cearense que usa matérias primas alternativa, no SESC Consolação, num show da extraordinária Luciana de Souza, no SESC Belenzinho, numa encantadora apresentação de “Os Gigantes da Montanha” de Pirandello, pelo grupo mineiro Galpão, num Festival de Teatro de Rua promovido pelo SESC…

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC, no meio do público que assistia ao deslumbrante "Os Gigantes da Montanha, do Grupo Galpão de Belo Horizonte, olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto: o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC,
no meio do público que assistia ao deslumbrante “Os Gigantes da Montanha”,                                  do Grupo Galpão de Belo Horizonte,
olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto:
o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Essas horas, fico de olho nele, num misto de admiração e gratidão pelo que sua gestão proporciona a minha Sampaulo.

Vida longa, Danilo!

Post-it-2

 

Legado bem legado

Qual a diferença entre herança e legado? Sempre os entendi meio como sinônimos, mas devem discrepar nalguns detalhes. Como divergem ver e olhar, escutar e ouvir, futuro e porvir…

Na minha opinião de não filólogo, herança se refere a bens e valores – materiais ou não – deixados a herdeiros. Um lance tipo legal. Herda-se de pais, tios, padrinhos ou de quem quer que houve por bem nos mimosear diretamente. Herança tem destinatário certo. De um bisavô, por exemplo, herdei um relógio que era um tesouro.

Já legado…. Não deixa de ser herança, mas os donatários são mais abrangentes. Quem quiser pode desfrutar, tirar uma lasquinha, aproveitar, beber na fonte do que foi legado. Beneficiando a todos. Favorecendo a sociedade.

Artistas nos legam sua obra que nos sublima a condição humana. Cientistas nos legam (vamos resumir?) qualidade de vida. E empresários de sucesso, empreendedores que amealham fortunas, o que nos legam? Depende do cara.

Algumas vezes nada. E até um saldo negativo, se o moveu a mera ganância da exploração pura e simples dos recursos humanos e naturais sobre os quais se abateu sua sanha.

Felizmente, muitos desses construtores de riqueza aproveitam sua capacidade de fazer dinheiro para fomentar ciência e arte.

Quando inovadores, fazem o amanhã melhor que o ontem. E nos deixam essa conquista como legado. Quando humanistas, incentivam e promovem as artes e a benemerência. Legam-nos emoção e sensibilidade.

Os donos da riqueza desde sempre foram assim.  Movidos ora a cobiça, ora a generosidade. Alternando visionários e mesquinhos.

Já no Egito, antes de Cristo, houve faraó que construiu a Biblioteca de Alexandria com a intenção de disseminar conhecimento (o objetivo – pretensioso que só – era adquirir cópia de todos os manuscritos existentes no mundo!).

Na Pérsia, em plena Idade Média, quando os cristãos do Ocidente mergulhavam em trevas, os muçulmanos – Avicena à frente – investigavam o corpo humano e proporcionavam avanços à medicina sob patrocínio do rei, o Xá.

Na Florença do Renascimento, a vaidade dos Medici nos legou algumas das joias mais preciosas da história da Arte, ao abrigar Michelangelo, da Vinci, Boticelli, Dante… Só para citar alguns.

Desde a Revolução Industrial, sobrenomes de grandes capitalistas tem batizado fundações essenciais ao desenvolvimento artístico e científico.

Em Sampaulo, não é diferente.

Exemplos?

José Mindlin, empreendedor de sucesso, leitor voraz e bibliófilo de publicações cujo tema fosse o Brasil. Legou-nos uma das melhores e maiores bibliotecas já montada sobre nossa terra e nossa gente, com mais de 60 mil volumes. Doada à Universidade de São Paulo e instalada em belíssimo prédio construída para ela, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin está aberta a leitores, estudiosos e pesquisadores.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Outro?

Olavo Setúbal, banqueiro e industrial e político (foi prefeito de Sampaulo e chanceler brasileiro), reuniu, ao longo de quase cinquenta anos, uma formidável coleção de arte (também focada no Brasil). Em todos os períodos da história da arte brasileira, desde as missões estrangeiras ao país ainda menino. Hoje exposta para nosso deleite e orgulho – muitíssimo bem exposta, diga-se – na sede do Instituto Itaú da avenida paulista. Chama-se, também e sintomaticamente, Coleção Brasiliana. Aberta ao público há coisa de dois anos, já nasceu como um dos mais importantes acervos museológicos da cidade e do país.

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Mais um?

Rodovia dos Imigrantes e bairro do Morumbi (antes do loteamento)

Rodovia dos Imigrantes
e bairro do Morumbi
(antes do loteamento)

Oscar Americano. Descendente de brasileiros ilustres (Tiradentes, Vital Brasil…), empreiteiro, dono de uma das maiores construtoras brasileiras de sua época – a CBPO (sabe a via Anchieta e a rodovia dos Imigrantes, extraordinárias realizações da engenharia brasileira? Tem seu dedo e competência lá). Além disso, atuou com ousadia ne especulação imobiliária: adquiriu a vasta área devastada de uma antiga plantação de chá, a Fazenda Morumbi, na então distante margem de lá do rio Pinheiros, para transformá-la em bairro.

Imagino a inculpação de perdulário, visionário e excêntrico que Oscar Americano enfrentou, ainda lá pelas décadas de 40 e 50 do século passado, ao se dedicar com perseverança ao reflorestamento de toda a imensa área. Numa época em que a regra era o inverso. Mesmo considerando sua intenção de valorizar esse “latifúndio” urbano, para posterior loteamento, urbanização e transformação no que viria a ser uma das áreas residenciais mais nobres e disputadas de Sampaulo.

É verdade que seus fornecedores de mudas encararam um cliente duro na queda, já que Oscar Americano só pagava pelo que de fato vingasse e crescesse.

Há quase setenta anos, ele reservou para si uma gleba de três alqueires escolhida a dedo. A joia preciosíssima de seu tesouro imobiliário. No cocuruto, o ponto mais alto dessas terras. Ali, caprichou na seleção de qualidade e variedade das mudas replantadas – com assessoria, inclusive, de botânico paisagista. E contratou um já renomado arquiteto – Oswaldo Bratke – para criar sua futura casa.

Blog-Animal-Chic-1

O resultado é uma obra-prima da arquitetura modernista. Uma construção arrojada e atraente. Que interage com a exuberante natureza de seu entorno. Incorporando, até, uma encantadora cascata entre espelhos d’água geométricos no seu jardim que meio que invade simbioticamente a casa.

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke
ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

Mudou-se para lá no início dos anos 50, com sua belíssima esposa carioca, Maria Luisa. E, durante vinte anos, viveram nessa passárgada particular, criaram seus cinco filhos e assistiram, de camarote, o florescer do bairro urdido por ele. Viram, inclusive, a área fronteiriça à sua, onde se construía a Universidade Matarazzo, ser transformada em sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes, em 1964.

Maria Luisa e Oscar Americano

Maria Luisa e Oscar Americano

Em 1972, Oscar Americano perdeu a esposa. Antes de morrer, dois anos depois, criou a Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Para cuidar da propriedade, de seu acervo natural, arquitetônico e das obras de arte e históricas amealhadas pelo casal. E oferecer tudo isso ao desfrute público.

A fundação foi aberta à visitação em 1980. E, desde então, tem recebido figuras ilustres, como a célebre primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher. Além de, como se comenta, ser usada com frequência pelo governadoress de plantão, antes de abrir para o público, às dez da manhã, para suas caminhadas matinais.

Há décadas sou frequentador apaixonado do lugar.

Seduzido pela vivacidade da surpreendente e bem cuidada selva urbana que abriga milhares de aves da urbanidade inóspita.

Mix 2

0,,17137104-EX,00 (1)

Mix 1

Fascinado pelo emocionante e surpreendente projeto arquitetônico da casa sede, aí incluído o belo piso/mosaico do pátio dos fundos (se é que algum lado possa ser definido como fundo) e a cascata interior, ambos criados pelo artista Lívio Abramo.

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Estimulado por uma nova visita ao acervo, que inclui a bela biblioteca dos antigos proprietários. E obras de Franz Post, Portinari, Lasar Segall… Além de tesouros da arte sacra barroca, das duas grandes e extraordinárias tapeçarias centenárias, das belíssimas porcelanas utilitárias, da vitrine farta de prataria de esmerada lavra e da preciosa coleção de memorabilia cortesã do império brasileiro. Sem contar os retratos do casal Maria Luiza e Oscar, diante dos quais sempre paro para agradecer a magnitude do legado.

Biblioteca original de Oscar Americano

Biblioteca original de Oscar Americano

2014-04-22 05.28.25

Obras de Franz Post

Obras de Franz Post

Pintura de Portinari (acima) e Lasar Segall (embaixo)

Pintura de Portinari (acima)
e Lasar Segall (embaixo)

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Memorabilia imperial brasileira

Memorabilia imperial brasileira

Esculturas adornam o parque

Esculturas adornam o parque

Incitado pelo deleite dos recitais e concertos de câmara – mensais, matinais, dominicais – que rolam no confortável auditório da fundação. Que já recebeu, entre outros tantos músicos, o talento fora de série do pianista Marcelo Bratke, neto do arquiteto da casa, Oswaldo Bratke.

Mix

E vou sempre em horário que coincida com os célebres chás da tarde, encantadores, servidos de terça a domingo, na varanda ou no salão britanicamente ambientado para um típico five o’clock tea; um deleite gastronômico cada vez mais raros, a um tempo requintado e singelo.

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Lá, preserva-se o velho e distinto charme europeu. O serviço é primoroso – seja pela sofisticação sem salamaleques de louças, mobília e ambientação, seja pela cortesia das atendentes. Mas que já ofereceu quitutes melhores. A fartura e variedade estão lá. Boas opções de infusões inglesas, café ou chocolate. Sucos naturais, pãezinhos e sanduichinhos caprichados. Mas o capítulo de salgadinhos e doces já conheceu melhores fornecedores, como pude constatar em visita recente. Uma ou outra guloseima de melhor qualidade em meio à profusão de quitutes industriais ou “de padaria”.

Estrutura do "puxadão" de eventos e exuberante decoração de uma festa

Estrutura do “puxadão” de eventos
e exuberante decoração de uma festa

 

E, já que estou falando dos escorregões, registro meu repúdio à grande estrovenga estrutural, instalada como puxadão da bela casa, à guisa de toldo para abrigar eventos. Tem o maior jeitão de provisório, mas perenizou-se pela constante requisição do espaço para realização, principalmente, de casamentos. Um estropício que compromete legal a estética do lugar. Uma pena! Mas inevitável, já que a fundação precisa da receita financeira dessas efemérides para se manter.

Uma célebre festa de bodas que movimentou o grand monde de Sampaulo – e de europas, franças e bahias, há alguns anos, pode não ter sido o primeiro a acontecer ali. Mas o enlace da herdeira Athina Onassis com o cavaleiro Doda Miranda, a coisa de uns dez anos, transformou a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em sonho de consumo de nubentes chiques da cidade.

À inconveniência do tal toldo e à decadência de parte das iguarias do chá, eu ainda acrescentaria a falta de um projeto expositivo mais sedutor, mais charmoso, do acervo.

Mas nada disso diminui o encanto de uma tarde desfrutada nos antigos domínios da bela Maria Luisa e de seu marido, o magnata Oscar Americano.

Tudo isso legado a nós por uma ainda rara, mas louvabilíssima iniciativa de retribuição à sociedade pelo sucesso conquistado em vida. Um jeito honorável com que os conquistadores do passado brindam o futuro que ajudaram a construir.

Post-it-2

Conheci, recentemente, um belo e ousado projeto do também arquiteto Carlos Bratke, filho do criador da casa da fundação, Oswaldo Bratke.

Carlos e o irmão (mais um arquiteto), Roberto, são os autores de oito (!) em cada dez projetos dos prédios que embelezam o polo empresarial que se instalou ao longo da avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini.

Parênteses: sem que fosse essa a intenção, este artigo acabou por se transformar, também, em tributo ao notável clã paulistano Bratke – Oswaldo, Carlos, Roberto, Marcelo…. Fecha parênteses.

Há alguns anos, Carlos elaborou uma reforma para a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano. Que inclui, ao lado de outras pequenas melhorias, a construção de um vasto espaço para exposições e eventos, pasmem, subterrânea, sob a ampla piscina da propriedade. Inclusive com iluminação diurna através de suas águas.

fotop18422g

Projeto de Carlos Bratke para ampliação "subterrânea" do espaço expositivo e de eventos da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Projeto de Carlos Bratke para ampliação “subterrânea”
do espaço expositivo e de eventos
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Pelo que eu soube informalmente, a realização do projeto foi assumida pela Odebrecht. Por enquanto, nadica de nada. Mas que seria um ganho e tanto para a cidade, a isso seria…