Moóca, ó nóis aqui ‘tra vez

Me seduz, excita e encanta, a capacidade de resiliência. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”, como cantou Paulo Vanzolini.

Há pouco, passei mais de dois meses longe de casa. Acaba que a pessoa que costuma vir aqui, durante minhas ausências, para arejar o apartamento e aguar minhas plantas, não veio. Resultado: encontrei vasos e canteiros da horta em petição de miséria. Me agarrei ao alento poético de Fernando Pessoa: “se ainda há vida, ainda não é finda”. Decretei UTI na varanda e me joguei no esforço de salvar o que mal e mal sobrevivia.

Uma parte dessa minha horta/jardim urbano, aparentemente condenada, já me regala com o espetáculo surpreendente e emocionante da resiliência, na forma de novas folhinhas vitoriosamente verdes brotando de galhos secos.

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Com a gente também acontece. Às vezes somos submetidos ao sentimento de que um the end se abate sobre nossas cabeças. E eis que somos acudidos por uma rega redentora que nos resgata ao desfrute da vida. O trombetear funesto de ponto final vira vírgula, solfejando prelúdios.

É o que me parece estar acontecendo com o – para muitos – mais paulistano dos bairros: a Moóca.

Há cem anos, fervia, fabril, com milhares de imigrantes europeus alicerçando o destino robusto de Sampaulo e do Brasil. Dezenas de grandes indústrias desenharam o perfil fundador do bairro.

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Toda essa atividade arrefeceu com o tempo. A Moóca virou residência dos descendentes dos operários. Remediados de baixa classe média com seu linguajar ítalo-brasileiro praticavam – e ainda praticam até hoje – a cuccina povera de sobrevivência (como me lembrou uma leitora, Cristiane Castro, em comentário num artigo moóquense recente). Não abriram mão das raízes (sabe o gnochi al sugo?). Uma cantina aqui, uma pizzaria acolá…. Era o que ainda animava, ao som de tarantelas, a modorra provinciana que acabrunhou o bairro, por décadas. Uma vez por ano, entretanto, junto à igreja consagrada ao santo, a festa de San Gennaro se manteve baluarte das tradições de sua gente.

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O que nunca abandonou a Moóca foi o carinho do paulistano.

Talvez esteja aí a matéria prima emocional que está proporcionando este momento de resiliência do bairro. Está começando a se consolidar, ali, o novo point boêmio de Sampaulo. Com vocação para se transformar no que já foi o Bexiga de quando virei paulistano. Lugar, hoje, ocupado com estardalhaço esfuziante pela Vila Madalena.

Tive certeza disso ao passar pela rua Guaimbé, no último inverno. Sabe muvuca baladeira até durante a semana? Decidi me jogar naquelas poucas quadras para descobrir o que arrasta tanta gente a gandaiar por lá. Esse mergulho já rendeu dois posts: “Samba de Fé”, sobre a casa noturna de samba Templo, publicado em 4 de agosto; e “É Moóca, Belô!”, que juntou três atrações locais – Lá da Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca – publicado em 27 de outubro.

Virei freguês do bairro.

Ó nóis aqui ‘tra vez!

Para bater perna pela mesma rua Guaimbé e, dois passos adiante, já na avenida Paes de Barros (uma das mais importantes do bairro), viver as emoções cênicas de um espaço cultural clássico da cidade, o Teatro Municipal Arthur Azevedo.

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De arquitetura modernista*, cercado por simpático arvoredo, o teatro da Moóca é um sessentão cheio de vitalidade. Por dentro, está novinho em folha, graças à reforma recente, quando foi reequipado e estruturado. Ganhou um prédio anexo com oficina, espaço para ensaios, workshops e o que quer que os artistas inventem para preenche-lo com talento cênico. A plateia perdeu alguns lugares, mas ganhou conforto e acessibilidade. Só o hall –  dominado pelo mural colorido do artista Renato Sottomayor – e a fachada (adoravelmente fifties) permaneceram intactos.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados. A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construida.

A nova Plateia e o Palco, totalmente renovados e equipados.
A Sala Multi-Uso, ótima novidade recém construída.

Além da programação de espetáculos teatrais, de dança e de música (inclusive erudita!), agora o Artur Azevedo virou morada do Clube do Choro de Sampaulo.

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E os chorões paulistanos usam a prerrogativa de residentes para definir parte da programação de espetáculos da casa. Quase sempre gratuita (embora de ótima qualidade musical, já que o chorinho é um dos nossos mais pródigos mananciais de ótimos instrumentistas). Também, para interpretar as composições de compositores geniais como Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Waldir Azevedo, Chiquinha Gonzaga, Paulinho da Viola, Altamiro Carrilho, Hamilton de Holanda, Raphael Rabello, Chico Buarque, Abel Ferreira…. Tem que ser craque!

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Este próximo fim-de-semana, por exemplo (dias 11, 12 e 13 de novembro), vai ser todo por conta do Clube do Choro. Com três noites de espetáculos para lá de sedutores. A começar pelo da sexta-feira, que vai reunir um duo inusitado: Mestrinho (acordeão) e Nicolas Krassik (violino). Com um repertório primoroso, que vai de Jacob do Bandolim aos jazzmen franceses Stephane Grappelli e Django Reinhardt; passando por Dominguinhos, Sivuca, Chico Buarque, João Bosco e Baden Powell. É ou não é promissor?

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Aliás, todo sábado, das 6 da tarde até 8 e meia da noite sem falta, rola um dos programas musicais mais deleitosos de Sampaulo, sempre no hall do Teatro Arthur Azevedo. Para quem gosta de música (e alguém não gosta?) é um manjar. Adoravelmente informal. Um bando de bambas se reúnem para uma Roda de Choro. Tudo improvisado, com instrumentos trocando de mãos, repertório decidido na hora e comentários bem-humorados dos participantes. No maior jeitão varanda de casa. Sempre que posso, eu me dou o desfrute dessas duas horas prazerosas. Saio de lá com o coração enlevado – o chorinho tem esse condão – e a alma bem nutrida para encarar o que vier pela night.

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Se o corpo também estiver pedindo alimento (e a hora, 8 e meia, é condizente com uma boquinha), caminho dois quarteirões até a nossa rua Guaimbé velha de guerra, para cair de boca nos ótimos cachorros quentes da Rod Hot Dog. Com o passo acelerado, animado pela apetitosa volúpia de mergulhar no melhor milk shake de Sampaulo.

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O cachorro quente nasceu germânico. Quando, exatamente, só deus sabe. Até porque sua matéria prima, a salsicha, já era preparada na região de Frankfurt a coisa de oitocentos (!) anos. Enfiá-la no pão é tão óbvio que o hot dog pode ser quase tão antigo quanto seu recheio.

Os alemães e o hot dog: No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt; Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog; Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha; Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Os alemães e o hot dog:
No século XVI, a salsicha já era popular em Frankfurt;
Ilustrações seculares da venda de salsichas e de hot dog;
Museu da Salsicha, em Berlin, e monumento ao hot dog, no interior da Alemanha;
Angela Merkel cai de boca num hot dog.

Mas foi nos Estados Unidos que o sanduiche se popularizou, do jeito que a gente conhece, no pão macio feito sob medida para abarcar direitinho a salsicha. Ganhou o gosto do povo, na esteira do beisebol, um dos esportes mais populares por lá. O sucesso desse casamento do cachorro quente com o jogo é centenário e pode reparar que não existe cena de filme em estádio de taco-e-bolinha em que não apareça protagonista ou figurantes atracado num cachorro quente. É que é assim que acontece na vida real. Que nem pipoca no cinema, panettone no Natal, ovo de chocolate na Páscoa…. Obrigatório.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos. Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Beisebol e Hot Dog, a cara dos Estados Unidos.
Sim, lá no alto, à direita, os ex-presidentes Nixon e Eisenhower, num jogo na década de 50.

Da América para o mundo, foi vapt-vupt. Tirando a pitoresca proibição recente na Malásia. Não por ser um país muçulmano e a salsicha tradicional do hot dog ter matéria prima suína – proibida aos seguidores de Maomé. Até porque, lá, o sanduiche já era feito com salsicha de frango que é comida halal, ou seja, permitida aos islâmicos. Mas porque o cachorro, para eles, é um animal “impuro” e não dá para chamar uma comida com um nome indigno. Pode? E se chamar de roliço quente, pode?

hot-dog-nameAgora, vem cá, você já cismou por que cargas d’água o nome é cachorro quente? Eu já.

Dizem que foi intriga da oposição.

Logo que o hot dog começou a aparecer nos estádios americanos de beisebol, os vendedores de outras gulodices, concorrentes, começaram a espalhar que as salsichas eram feitas com carne de cachorro. Uma acusação que tinha lá sua razão de ser, pois parece que na Alemanha natal do sanduiche acontecia de misturarem as carnes de porco e de cão no preparo do embutido.

Saiu pela culatra. O povo, nem aí, acabou usando a aleivosia para consagrar seu escolhido. E dá-lhe mostarda para afugentar eventual veracidade. E ketchup, of course.

Viu só o tanto de cultura imprescindível existe num pão com salsicha?

Sem contar a história:

Quando criança, na saída da escola, hora do almoço, sol a pino, eu não resistia ao cachorro quente de um ambulante que fazia ponto ali, subvertendo o esforço de mamãe que esperava em casa com a mesa posta. Pouca coisa esse cachorro quente da década de 60 tinha em comum com o hot dog de hoje. Para começar, não havia salsicha. O recheio era uma carne moída refogada no alho, cebola, tomate e pimentão, que ficava fervendo numa assadeira acomodada sobre uma chama. De tempos em tempos, Companheiro (era esse o apelido do vendedor – sem qualquer conotação ideológica, mas de cumplicidade com a transgressão ao cozinhar materno) regava a carne com água para não secar. Ele abria um pão francês, arrumava alface e rodelas de tomate e pepino e carne. Como eu cresci em São Luís do Maranhão, o pra beber era uma garrafa de guaraná Jesus.

Ou seja, o Rod Hot Dog da rua Guaimbé, na Moóca, tem ancestralidade!

O lugar é surpreendente, admirável em seu encantador rigor temático. O dono, Alexandre Brazales, é guia turísticos de excursões rodoviárias aos Estados Unidos. Foi isso mesmo que você leu, embora ainda esteja tentando imaginar uma pessoa que, em vez de voar daqui para fazer compras em outlets da Florida, para andar de montanha russa em Orlando, para assistir musicais na Broadway, para se embasbacar com a cenografia fake-faiscante de Las Vegas ou mesmo para surfar na California, contrate um cicerone para percorrer as american highways. Eu acho até que pode ser um programão, a começar pela icônica Route 66. Mas não imaginei que houvesse, na Moóca, um especialista no assunto.

Mas, quando a gente entra lá, grita a evidência de que demos um salto miles and miles away from Moóca, para cair num american diner de beira de estrada. A bem da verdade, as surpresas começam na calçada, com um banco para fumantes feito com a carroceria de pick-up, uma estilosíssima bicicleta sempre estacionada por ali e, até, a maçaneta da porta de entrada: um bico de bomba de gasolina.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência, maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina e banco abusado para fumantes. Tudo no Rod Hot Dog way.

Bicicleta estilosa, caixa de correspondência,
maçaneta bico-de-bomba-de-gasolina
e banco abusado para fumantes.
Tudo no Rod Hot Dog way.

Hot Rods são carros velhos – ou clássicos – americanos com motores modificados para atingir potência e velocidade que não alcançavam em sua época. Eventualmente – mas não necessariamente – podem ser, também, customizados. E está assim de americano que se joga nesse hobbie, digo, mania, digo, patologia.

Alexandre, Tracy e Monica. O orgulho de ser moóquense e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

Alexandre, Tracy e Monica.
O orgulho de ser moóquense
e detalhes da ambientação do Rod Hot Dog.

A lanchonete de Alexandre e de sua Monica Othani, responsável pela elaboração culinária, é o lugar ideal para visitar esse universo.

2016-10-13-21-05-03As salsichas são preparadas lá mesmo. Inclusive a versão vegana. Mas eles oferecem a opção da versão viena industrial. E o cardápio (também original, na forma de uma prancheta com garra – na verdade uma placa de carro americana) apresenta mais de dez opções.

Já passeei por ele, gostei de todos, mas meus prediletos são o New York Style (com ótima conserva caseira de pepinos e mostarda), o Cheddar Dog (com queijo cheddar, óbvio, farofa de bacon e molho barbecue – que eu dispenso) e TexMex Dog (com chili de carne – carne moida misturada com feijão, guacamole – falta um salzinho para o meu gosto – e molho apimentado Pico de Galo).

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Além dos cachorros quente, o Rod Hot Dog oferece alguns starters (que eles chamam de porções, não fazendo jus ao espírito da casa) – as Buffalo Wings (asas e coxinhas das asas de frango empanadas e encharcadas de molho apimentado) são muito boas. Além de três opções de TexMex Food (para quem nunca se tocou, trata-se do affair gastronômico entre as duas margens do rio Grande: o Texas americano e o México); o Chili com carne vale pelas recordações do tempo em que eu, adolescente fazendo intercâmbio no estado americano de Iowa, comia essa gororoba dia sim e no outro também; o do Rod Hot Dog vem com uma porção – até farta – de nachos; mas, quer saber, Chili com Carne não tem qualquer appeal gastronômico. Caia de boca, direto, nas ardentes Jalapeño Poppers (pimentas recheadas com queijo, empanadas e fritas, servidas com molho blue cheese – quase sem blue cheese – e salsão).

De cima pra baixo: Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

De cima pra baixo:
Buffalo Wings, Chili com Carne e Jalapeño Poppers

Impressionante como talos de salsão, mordidos assim, in natura, funcionam legal como lenitivo do ardor entre as abocanhada de jalapeño.

Para beber, Alexandre providenciou uma carta de opções “exóticas”. De soft-drinks americanos e brasileiros raros a cervejas artesanais. Como o extraordinário e delicado refrigerante Gengi-Birra, produzido na cidade paulista de Santa Bárbara do Oeste. Ou as cervejas da paulistana Cervejaria Urbana – inclusive a ótima belgian golden ale Gordelícia.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia. Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

O refrigerante Gengi-Birra e a cerveja Gordelícia.
Duas gostosuras da geladeira do Rod Hot Dog.

Deixei para o final a obra prima do Rod Hot Dog. Nada menos do que the best milkshake in town. E olha que Sampaulo tem sorvete batido com leite a dar com pau. Alguns deliciosos, como o de chocolate, do Joakin’s (da rua Joaquim Floriano, no Itaim), que foi meu vício por décadas – nem sei se ainda continua tão bom como era. Mas nada se compara à doce alquimia que cinge de magia a mistura de sorvete de creme, biscoito Oreo e rum aromatizado (escocês, quem diria…) Sailor Jerry.

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“O segredo é bater muito, até que o biscoito se mescle completamente ao creme”, ensina Alexandre. A gente chega a ficar mesmo impaciente enquanto o liquidificador troa interminavelmente suas promessas de deleite. Eu fico perguntando para Tracy, a sweet atendente, se ainda não está pronto. Mas ela sabe o ponto. Só merecia uma calda menos óbvia. Mas como serve apenas para lambuzar o copo e não interfere no paladar…

Volto sempre ao Rod Hot Dog. Pelo Sailor Milk Shake.

E aproveito para fazer uma boquinha pois o de comer também é muito bom.

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Ahhhh…. Para os amantes das velhas bolachas de Vinil, Alexandre mantém, à venda, um  estoque de ótimos títulos. Particularmente de bandas clássicas do old’n’good rock’n’roll.

* O Teatro Arthur Azevedo foi criado na prancheta do arquiteto fluminense Roberto Tibau. Imagino que seu desenho (típico da escola “carioca” – Niemeyer, Lucio Costa, Affonso Eduardo Reidy… – que vicejou nas décadas de 40 e 50) tenha caído no gosto dos prefeitos paulistanos então nomeados pelo governador Ademar de Barros, pois várias obras municipais dessa época foram arquitetadas por ele. Inclusive os teatros Paulo Eiró e João Caetano, quase clones do Arthur Azevedo.

Bonus:

Dois vídeos.

No primeiro, uma apresentação do Clube do Choro de São Paulo, com depoimento
de um monte de feras.

No segundo, uma Roda de Choro, das que acontecem todo sábado, às 6 da tarde,
no hall do Teatro Arthur Azevedo.

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