Haja sacola…!

Minha alma tem deleites ancestrais. Sou fã de feiras, por exemplo. E não imagino um jeito mais primitivo de organização do comércio do que uma banca de feira. Consigo até vislumbrar pescadores fenícios (devemos a eles o manejo do mar), oferecendo seu catch-of-the-day pelos portos do Mediterrâneo, três milênios atrás.

As feiras da Antiguidade...

As feiras da Antiguidade…

Pouca coisa mudou, nas feiras, da Idade Média para cá. Capas de iphone, quinquilharia chinesa e pirataria de grifes famosas são apenas a atualização de estoque dos mesmos camelôs que apregoavam leitões e galinhas prontos para o abate, novelos de lã toscamente fiados ou cutelaria artesanalmente malhada em bigornas caseiras. Mas a forma quase nada evoluiu, desde o entorno dos castelos feudais até os arredores da ladeira Porto Geral, nas abas do parque Dom Pedro paulistano.

... e algumas feiras Contemporâneas.

… e algumas feiras Contemporâneas.

A novidade maior é a especialização, a segmentação, a tematização das feiras.

Gosto de todas. Das que misturam de um tudo – tipo bazares orientais – e das focadas num único mote. Sampaulo é pródiga delas.

Das feiras livres semanais de hortifrutigranjeiros na vizinhança de casa (e seus imprescindíveis pasteleiros nas extremidades) às feiras de livros (encabeçadas pela monumental Bienal do Livro).

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Bienal do Livro, Feira do MASP e Feira da praça Benedito Calixto

Sou useiro e vezeiro de feiras de arte e antiguidades (globalmente epitetadas pelos franceses de mercado de pulgas– marché aux puces, flea market, flohmarkt – à exceção de Portugal, onde são chamadas de feiras da ladra); adoro bater pernas pela da praça Dom Orione (no Bixiga), pela do vão do MASP, pela do MUBE.. E, vira e torna, dou uma sapeada nas feiras hippie (que já foram de artesanato alternativo e hoje se jogaram nos braços do stablishment – quer melhor exemplo do que a da praça Benedito Calixto, em Pinheiros?).

Sem contar as quermesses, que são suas primas com pegada baladeira.

Tem Feira da Madrugada, Feirão da Casa Própria, Feiras de Negócios….

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

As grandes Feiras de Negócios animam a economia.

Esse quesito de grandes feiras, focadas em fragmentos produtivos específicos, é um dos mais poderosos ímãs de hóspedes para a estrutura turística de Sampaulo. Quer ver? Antes mesmo que 2016 pendure a chuteira, acontecem duas grandes feiras de alimentos e bebidas, o salão do automóvel, feira de jóias e bijuteria, feiras de cosmética, de misticismo, de aviação, de tecnologia e nanotecnologia, de cinema e fotografia, de equipamentos para diversos segmentos da indústria… Eventos que reúnem milhares de pessoas vindas do mundo inteiro, exibem e comercializam o fruto do trabalho de milhões de operários, artistas, cientistas e técnicos, fazendo girar a roda da economia.

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Eu mesmo fui convidado – e vou, porque me importa a saúde do planeta e curiosidade é comigo mesmo – para a feira do lixo. Digo, de resíduos sólidos (que é o jeito “bon ton” de tratar do assunto). A Waste Expo Brasil reunirá, entre os dias 22 e 24 de novembro, uma multidão de profissionais e interessados em geral no tema: autoridades, técnicos e ambientalistas, administradores públicos municipais responsáveis pela gestão dos descartes urbanos, produtores globais de equipamentos para coleta, transporte, reciclagem (ou seja, reaproveitamento), compostagem (que é a utilização do potencial energético dos dejetos – ou como adubo orgânico) e aterros sanitários sustentáveis. Além de pequenos e médios empreendedores privados e sociais dessa cadeia produtiva vital para a nossa sobrevivência.

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Antes disso, bem antes, agora no próximo fim-de-semana, o programa será mais saboroso – embora também faça parte do universo da Eco-Responsabilidade. Vou sem falta à segunda edição da feira Sabor Nacional. A primeira aconteceu em julho e o sucesso surpreendeu promotores, feirantes e público: dois dias de Museu da Casa Brasileira lotado.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durande a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

Museu da Casa Brasileira. Lotado durante a primeira feira Sabor Nacional, em julho.

A ideia é repetir a coisa toda, tim tim por tim tim. Só que ampliado. Com maior número e variedade de barraqueiros, quer dizer, de stands que é um linguajar mais adequado a um lugar distinto como aquele.

Pense num monte de produtores artesanais de ingredientes e quitutes deliciosos. Gente caprichosa e talentosa, apaixonada pelo que faz e que não abre mão de surpreender o paladar da gente.

Fawsia Borralho é uma dessas criaturas prendadas.

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Fawsia Borralho, uma das organizadoras da feira Sabor Nacional

Ela chegou a Sampaulo há beira trinta anos. Para se jogar no glamour suado e sem trégua da produção fashion. Mas nunca abriu mão dos dotes culinários para relaxar do azáfama de cria-corta-costura-produz-fotografa-exibe e trata de vender antes que mude a estação e os ventos da tendência soprem na direção de outro cria-corta-costura….

Com o tempo, seu hobby culinário especializou-se em conservas – melhor dizendo, compotas.  Preparava logo um estoque para abastecer a despensa – já que a moda que lhe garantia o ganha pão não permitia acesso diário ao fogão. Guloseimas deliciosamente criativas para consumo próprio.

Um dia, em vez da indefectível garrafa de vinho, arriscou levar para os anfitriões de um jantar, um desses potes de suas compotas. Nem um Romanée-Conti ensejaria tantas loas dos convivas. A partir daí cada novo convite vinha sempre sublinhado com um pedido de “traz uma compota”…

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Logo vieram as encomendas pagas e, hoje, Fawsia é uma quituteira de compotas que, aqui e ali, faz bicos no mundo da moda. Sou devoto dos produtos de sua A Compoteira já há coisa de dois anos. Da geleia de cebola roxa com vinho tinto aos tomates confitados com ervas e alho, passando por peras em suco de laranja com cardamomo e anis estrelado, damasco com fava de baunilha, morango com lavanda (e muito amor, como ela proclama)… Adoro tudo.

de A Compoteira: Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado, Cebola com vinho tipo e ervas, Tomate confitado com alho.

de A Compoteira:
Pera com suco de laranja, cardamono e anis estrelado,
Cebola com vinho tipo e ervas,
Tomate confitado com alho.

Aqui e ali, ela conhecia um ou outro desses produtores gastronômicos devotados à excelência. E compartilhavam sua angústia comum: colocar seus produtos no mercado sem abrir mão da excelência artesanal.

Até que, um dia, Fawsia topou com jovens empreendedores que se entusiasmaram com a ideia de reunir algumas dezenas desses artesãos abnegados e oferecer a Sampaulo a oportunidade de consumir seus produtos pra lá de especiais. Nascia a feira Sabor Nacional.

Não pouparam arrojo na localização do seu novo negócio. A ampla varanda do palacete do Museu da Casa Brasileira e seu adorável quintal/jardim, no epicentro de uma das regiões mais nobres da cidade, cercado de gourmets exigentes. Ou seja, como professa o best-seller de autoajuda de Lair Ribeiro, o sucesso não ocorre por acaso.

Vejam algumas fotos que fiz na primeira edição, em julho. Não sei quais desses expositores estarão presentes no próximo fim-de-semana. Mas me disseram que a maioria confirmou presença. Sem contar o aumento de cinquenta por cento no número de feirantes. Todos amealhados no mesmo universo de produtores artesanais do bem comer.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Sítio do Alho Negro.

Até geleia de Alho Negro, na banca do Alho Negro do Sítio.

O Alho Negro é alho comum (selecionado, claro!), que passa por um processo de fermentação muito usado no extremo oriente do mundo. Depois de algumas semanas em estufas controladas, a casca fica dourada e os dentes ficam pretinhos da silva, macios, perdem o ardor, ganham aroma mais delicado e um sabor complexo, levemente adocicado. Deixa de ser um ingrediente coadjuvante para assumir o protagonismo na preparação de pratos sofisticados. E, dizem, seus saudáveis benefícios são potencializados. Era raríssimo por aqui, mas virou febre a coisa de uns oito ou dez anos. De cobertura de pizza a composições mais intrincadas, não havia restaurante da moda que não o incluísse em seu cardápio. De lá pra cá, ficou mais fácil encontra-lo. Eu costumo recorrer ao empório Entreposto das Feijoadas, no subsolo do Mercado de Pinheiros. O de lá é produzido pelo mesmo Alho Negro do Sítio que vem, pessoalmente, vende-lo na feira Sabor Nacional. Gosto de imergi-lo em bom azeite morno por alguns minutos, antes de misturá-lo a uma massa recém-escorrida (até com nhoque fica ótimo). É o que basta para compor um prato que me delicia.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

Neka Menna Barreto cintilando com seus quitutes.

A banqueteira Neka Menna Barreto foi uma das estrelas da primeira edição da Feira Sabor Nacional. Saí de lá com um pacote de sua farofa de amêndoas, que eu tentei regrar, suvina, mas que acabei detonando purinha, de colher em punho direto da embalagem, enquanto assistia a abertura das Olimpíadas do Rio. Não é à toa que tanto me encantou o espetáculo…

Já o Cambuci é uma fruta típica da Mata Atlântica. Dizem que era muito comum por aqui. Tem até um bairro, berço do movimento grafiteiro de Sampaulo, que se chama Cambuci. Ácida que só, mas deliciosa na composição de sucos, geleias e nas infusões alcoólicas. Tem uma marca de cachaça, a Angelina série A, envelhecida com concentrado da fruta, que não falta no meu congelador.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto.

O Cambuci, resgatado da extinção, em guloseimas do Instituto Auá.

Pois o cambuci, até pouco tempo, meio que ninguém sabe, ninguém viu. Falavam de extinção. Daí descubro, na feira Sabor Nacional, que existe um Instituto Auá dedicado à recuperação da espécie. Reúne um grupo de pequenos produtores artesanais que preparam bebidas, geleias, chutneys e, até, um delicioso homus (a extraordinária pasta de grão de bico e gergelim cuja invenção é disputada por árabes e judeus) que leva cambuci – quem diria!

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

O surpreendente Naked Cake Bolo de Rolo (horizontal!?!) da Casa do Bolo de Rolo.

Tive uma avó, pernambucana, quituteira de mancheia. Seus bolos Souza Leão e de Rolo eram obras-primas. Meu paladar foi forjado intransigente nesses primores da doçaria recifense. Mas nunca havia visto um bolo de rolo que não fosse como o dela, espiralado, intercalando finíssimas camadas de pão-de-ló amanteigado e goiabada. De repente, na feira Sabor Nacional, descubro novas doceiras de Pernambuco, estabelecidas em Sampaulo com sua Casa do Bolo de Rolo, que ousaram interferir no formato ancestral do doce. Fizeram-no plano, e chamam-no de Naked Cake Bolo de Rolo. Sedutor que só! Produzem-no também do jeitão tradicional, em diferentes tamanhos. Não tem a leveza dos bolos de vovó Jandira, mas, aí, seria querer demais…

Ótimas - e criativas - as geleias da A Senhora das Especiarias.

Ótimas – e criativas – as geleias da A Senhora das Especiarias.

Adorei as geleias da Senhora das Especiarias. Principalmente a de Morango com chá Earl Grey (que é, mais do que meu chá predileto, um vício). A fruta se deu muito bem com o chá preto aromatizado com bergamota. O chutney de cebola, a geléia de manga com maracujá e, sobretudo, a de figo com grappa, também não fazem feio.

Uma tentação, os pães de Thiago, da Santiago Pães.

Uma tentação, os pães de Tiago Saraiva, da Santiago Pães.

De uns anos para cá, a panificação “gourmet” de Sampaulo deu um salto. Muitos padeiros com formação europeia se estabeleceram na cidade (Rafael Rosa, com sua Pão; Julice Vaz e sua Julice – esta, formada na American Bakery School de San Francisco; Izabel Pereira na sua Marie Madeleine; o próprio frei Bernardo, na Padaria do Mosteiro…). Um dos mais recentes deles, Tiago Saraiva estava lá, na feira Sabor Nacional do final de julho. Com algumas das fornadas primorosas de sua Santiago Pães. São tão bons que devorei um redondão apenas com azeite e sal, aquecido para exalar os aromas da fermentação natural. Talento e esmero criam coisas assim, deliciosas.

As surpreendências de Eduardo, da A Queijaria.

As surpreendências de Fernando Oliveira, da A Queijaria.

Hoje nem carece mais tecer loas à A Queijaria, estabelecida há alguns poucos anos na Vila Madalena. Fernando Oliveira, seu criador, antes rodou o Brasil, garimpando queijeiros excepcionais que nós nem desconfiávamos existir. Trouxe suas produções para revelá-los aos paulistanos. Com isso, tem prestado um serviço inestimável à queijaria nacional. E a nós, claro, glutões exigentes que somos. Sempre tem novidade por lá. Algumas delas eu conheci na sua banca da primeira feira Sabor Nacional. Este eu sei que vai estar lá de novo. Que bom, porque ele é imprescindível.

Ainda mais que, desta vez, vai dar um workshop de preparo de queijos.

Haviam ainda outros expositores. Dezenas deles. Inclusive com produtos hortifrutigranjeiros de produção artesanal.

Chocolates Derret (que não tem loja, mas entrega pedidos a domicílio), Charcuteria Cancian (de Tietê, no interior de São Paulo), Amorim Café (produtor mineiro de grãos extraordinários) e, até, um empório do Brás especializado em produtos nordestinos (que tinha massa puba – mandioca fermentada, matéria prima do bolo Souza Leão de minha avó Jandira – e belas mantas de carne de sol).

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Chocolates Derret, Cancian, Amorim Cafés e empório nordestino.

Sem contar o food truck do celebrado chef Rodrigo Oliveira, o Mocotó Aqui (outro que sei que vai estar lá, de novo, no próximo fim-de-semana).

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Entre as novidades, Fawsia Borralho me adiantou que quem for ao Museu da Casa Brasileira, na sexta e no sábado, vai encontrar as pimentas e chutneys Spice Splice, os chocolates da Isidoro, a nova linha de doces da extraordinária chocolateria AMMA, as frutas exóticas da Banca do Juca – do Mercadão (celebrizada numa novela da Globo, lembra?), a Quirós Gourmet – que comercializa cortes especiais de cordeiro, os refrigerantes orgânicos e sem açúcar da Gloops, os cogumelos da Cogushi, o bochichado – e premiadíssimo – azeite brasileiro Borriello, a nova linha de sorvetes do Maní Manioca (cria recente de Helena Rizzo e Daniel Redondo)…

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Sem contar algumas surpresinhas como uma caprichosa bordadeira mineira e sua produção esmerada de panos de prato, uma linha de brinquedos pedagógicos de madeira, cestaria artesanal, banca de flores e o Tabuleiro das Meninas, famoso por preparar caldo de sururu, acarajé e tapioca nos eventos do cabeleireiro Mauro Freire.

Ou seja, eu lá sou louco de não me jogar numa celebração de prazeres dessas?

Nossas sacolas e nosso apetite hão de se cruzar por lá…

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