É Moóca, belô!

Carioca é bairrista. Não tiro a razão deles. Viver entre montanhas esculpidas caprichosamente por Deus (esmero reconhecido com Sua estátua de braços abertos e tudo) e o beira-mar tropical atlântico – salpicado por encantos do Leme até o Pontal, como gabou Tim Maia – é de deixar qualquer nativo pra lá de pimpão.

Soteropolitanos também são bairristas. Axé seja, São Salvador! Com uma personalidade miscigenada daquelas explodindo em sons e sabores tão pródigos…. E dá-lhe berimbau embalando esse dendê que eu não estou com a menor pressa.

Agora famosos mesmo, pelo bairrismo, são os porteños. Orgulhosos de que, mesmo? Tem o Messi (que nem de Buenos Aires é), o Papa Francisco (este sim, é nato), o tango (ponto para eles, principalmente depois de Astor Piazzola)…. E tem o cemitério da Recoleta (ahhh, sei, o túmulo de Evita…), o Colòn, as parrillas (tá bueno, com aquelas carnes, que arrebitem o nariz os hermanos). Do jeito que estão penando nas eliminatórias para a Copa da Rússia, até que merecem uma compensação onde se agarrar… (Ave, Tite!)

Paulistanos não são lá muito bairristas. Mais comum é ouvi-los amaldiçoando as mazelas da cidade: trânsito, clima, violência…  Sonham com Fortaleza, Florianópolis, Miami…

Mas há exceção. Alguns moradores desdenham qualquer outro endereço, por mais Leblon, Beverly Hills ou Champs Elysées que seja. São os moóquenses.

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Ôrra, meu, consideração! Aqui é Moóca, tá ligado?

Já é zona Leste. Com uma extremidade colada no centro velho, na margem direita do rio Tamanduateí. Na outra ponta, roça a Vila Prudente. De um lado, o Brás e o Belém. Liberdade, Cambuci e Ipiranga do outro. Centro do mundo, no coração dos locais.

O fato é que tem muito sócio-antropólogo que percebe, no bairro, as raízes da paulistanice mais genuína.

Segundo o moóquense professor Pasquale, famoso consultor do bem escrever a nossa língua, Mooca se escreve assim, sem acento. Mas eu e a torcida do Juventus vamos lá cometer tal heresia?

O bairro já foi berço do então distante Jockey Club. Sim, o turfe paulistano nasceu ali, há cento e quarenta anos! E viveu apogeu fabril, vazando indústrias (Crespi, Matarazzo, Cia. União de Refinadores, Antarctica Paulista e mais um monte…) que empregavam as multidões de europeus – sobretudo italianos – que desembarcavam em Sampaulo, via a célebre Hospedaria do Imigrante, no vizinho bairro do Brás.

Rastros dos bombardeios de 1924

Rastros dos bombardeios de 1924

Essa história passou por um momento dramático: a “Revolução Esquecida”, há noventa e poucos anos. Paulistanos golpistas decidiram se rebelar contra o governo nacional de Artur Bernardes. E, estribados em fortuna que lhes permitia bancar algum soldo, amealharam um exército entre os imigrantes sub ou desempregados (a maioria moradora da região da Moóca). A reação das tropas federais foi violenta. A Moóca foi bombardeada sem dó. Mais de quinhentos morreram e a insurreição foi debelada em poucos dias.

Conheci a Moóca em tempos menos atribulados. Mais…. Modorrenta, eu diria.

Nunca morei por ali, mas sabia de cor o caminho.

Recém-chegado em Sampaulo, meu primeiro panettone foi um Di Cunto, comprado na loja em frente à estação de trens da Moóca.

Quantas vezes não me joguei no lhano estádio da rua Javari – menos pelos jogos do Juventus do que pela pândega beira provinciana e pelos doces do tiozinho dos canolli? Até bailes de carnaval já frequentei no Juventus…

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Panettone da Di Cunto, Estádio do Juventos e seu Egídio diante do célebre balcão de petiscos

Sem contar as gandaias gastro-etílicas no bar do Elídio – e seu até hoje, mesmo após a morte do fundador, surpreendente balcão de petiscos.

Com o tempo deixei de ir à Moóca com frequência. Até o último inverno, quando voltei lá para descobrir um bairro renovado, apinhado de atrações surpreendentes. Sem abrir mão de sua tradição de mais paulistano dos enclaves da cidade.

Esse reencontro foi imediatamente anterior a uma breve temporada longe de Sampaulo.

Por conta desse distanciamento, durante mais de dois meses só tenho republicado posts antigos, aqui no blog. Em agosto, antes de me afastar daqui a trabalho, o último artigo inédito (“Samba de Fé”, de 4 de agosto) falava de uma balada invulgar, uma casa de samba, o Templo, plantada na… Moóca.

Retorno pela mesma porta de saída: a moóquense rua Guaimbé.

Quando a descobri, embasbacou-me a muvuca daqueles poucos quarteirões. Tipo agito mesmo. Decidi fuçar o que arrasta tanta gente para lá, assim que a noite cai. O que descobri, começo a revelar agora.

Saindo da rua do Oratório, na direção da avenida Paes de Barros, a primeira parada ainda é diurna. Mais tardar boca-da-noite (eles ficam abertos até tarde e, se ligar, esperam até tipo oito da noite)…

Guilherme é palmeirense, ou seja, tá com a mão da taça de campeão brasileiro. Recém-chegado aos quarenta, ele sempre viveu de preparar e vender comida. Primeiro em Sampaulo, em lanchonetes “parasitárias” (sabe bromélias, orquídeas e que tais, que crescem nos troncos das tais árvores “hospedeiras”?). Pois Guilherme costumava instalar seus lanches em salão de cabelereiro, academia de ginástica…. Até mudar para o Rio e virar botequeiro na distante e gastronomicamente buchichada Vargem Grande carioca, o Bar do Gui.

De volta aos arredores paulistanos, começou a viajar nas tortas salgadas. Danou-se a experimentar diferentes formulações de massa e a elaborar recheios criativos. E começou a receber as primeiras encomendas. Daí conheceu Fernanda e se encantou com a moóquense que não tardou arrastá-lo para viver na Moóca. Nascia a Lá dá Torta.

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A lojinha de tortas prontas, vendidas congeladas, abriu há poucos meses no número 66 da rua Guaimbé. E o lugar tem a cara dos quitutes preparados por Guilherme – agora animado com a mãozinha estimulante da cara-metade. Simplesinho que só, sem qualquer atavio mais sedutor. Tirando a bem elaborada logo da casa, tudo é radicalmente sem glamour. Embalagens sem appeal, lugar sem qualquer charme. Mas as aparências…. Enganam!

Na cozinha do Lá dá Torta, da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Na cozinha do Lá dá Torta,
da preparação dos recheios às tortas prontas, embaladas e congeladas

Fernanda e Guilherme são uma simpatia e o que importa no que eles fazem é o conteúdo. Não falo nem da massa de suas tortas, tão longamente pesquisadas por ele. Mas dos recheios. No geral, são ótimos. Gostei de tudo o que já trouxe para casa. O de carne seca com abóbora e requeijão (ô ménage-a-trois mais delicioso), o de palmito com alho porró (palmito mesmo; e haja alho porró), o de berinjela com mozarela (berinjelice farta, em lascas sem casca, uma festa para quem gosta, como eu) e, sobretudo, minha predileta: shitake com queijo estepe – uma obra-prima. Não sei se esse cogumelão já conhecia o queijo de origem russa. Mas como se deram bem! A textura carnosa de um, cortado em tirinhas, foi feita sob medida para o sabor amendoado, adocicadinho ao longe – e gordo – do outro. E tem torta de bacalhau, de atum, de salmão, de frango com acompanhamentos diferentes, de peito de peru, de carne moída, de ratatouille…

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Bem, a noite está começando e ainda temos dois lugares – hoje – para percorrer pela rua Guaimbé acima.

Arrume seu farnel com tipo dois sabores de torta e um bolo. Sim, a Lá dá Torta vende dois bolos irretocáveis, no que pese a embalagem mais uma vez pra lá de desinteressante deles: um de chocolate belga com cerveja preta e outro de capim santo. Além da conta de bons; simplesinhos na aparência, mas extraordinariamente deliciosos, ambos. E, uma novidade saída do forno, recém lançada pelo casal: as tortas doces. Em três tamanhos diferentes – e com três opções de recheio: chocolate com um toque de pimenta, chocolate meio amargo e limão siciliano. A massa crocante, abiscoitada, pode ser aromatizada com canela ou com chocolate.

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Os ótimos bolos de Chocolate Belga com Cerveja Preta e de Capim Santo
e as novas Tortas Doces da Lá dá Torta

Minha dica para quando for comer as tortas salgadas, amanhã ou depois (já que hoje a programação por vir inclui comida): deixe descongelar naturalmente e aqueça com paciência, longamente, em forno a gás ou forninho elétrico. Não cometa o desplante de colocar uma torta dessas no micro-ondas. É crime de lesa textura, lesa sabor, lesa bom senso. Deixe esquentar lentamente, com o fogo reduzido (130 graus), por pelo menos 20 minutos. Se for meia-hora, melhor. Até dourar a cobertura. Só então, caia de boca.

Na próxima quadra, do outro lado da rua, no número 161 da rua Guaimbé, fica a segunda parada: a extremamente popular e invariavelmente lotada Hamburgueria Artesanal.

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Bruno Petrone é um jovem moóquense, empresário tarimbado em área alheia à alimentação. Mas louco por burguers (uma cultura complexa que abrange um tantão de detalhes para além do pão com bife de carne moída). Essa paixão juvenil sempre lhe embalou a vontade de expandir seus negócios até a gastronomia, digo, aos hamburguers. A própria sacada do nome do empreendimento – Artesanal – dá a pista do zelo perfeccionista, do esmero com que pretendia preparar o que seria servido.

Mas faltava o pulo do gato. A singularidade que faria da lanchonete de Bruno um lugar diferenciado das tocentas hamburguerias de Sampaulo. Tudo bem que a qualidade já seria uma distinção que o alçaria a um círculo mais restrito de algumas poucas dezenas de boas casas de cheese-salada. Acontece que o cara queria ser único, oferecer o que ninguém oferecia.

A idéia de rodízio de mini burguers não era inédita. Bruno já a conhecera no interior de São Paulo. Tipo uma bandeja de pequenos burguers circulando pelo salão e eat as many as you can, ou seja, vai fundo. Mas essa ênfase em quantidade não batia com o sonho de qualidade que acalentava para seu negócio.

Por outro lado, empreendedor sensível, ele sabia que a rapaziada da sua Moóca é gulosa.

Esse embate entre a qualidade pretendida por Bruno e a quantidade desejada por seu target (os futuros clientes de sua Hamburgueria Artesanal) começou a se sintonizar com a elaboração de um conceito que junta antagonismos: o rodízio à la carte!

Há dois anos essa receita bomba na rua Guaimbé. E lota os dois simpáticos andares ambientados com cadeiras de casa de vó americana e memorabilia com pegada roqueira. Um sucesso que atrai moradores da Moóca e arrasta apetites distantes para mergulhar nos mini-burguers da Artesanal.

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A gente escolhe até três hamburguerzinhos de cada vez, para evitar desperdícios (mas não há limite para a quantidade de pedidos). O recorde foram vinte e cinco comidos por um único cliente!

Nós mesmos montamos cada sanduichinho a partir de três variáveis: o pão, a carne e o molho.

As orientações do rodízio à la carte

As orientações do rodízio à la carte

São quatro opções de pães, todos redondinhos como exige o sanduba famoso, só que com um diâmetro bem menor do que o habitual. Mais ou menos com a circunferência de uma lata (de refrigerante ou cerveja). Tem o pão tradicional, o vermelhinho (à base de tomate), o preto (colorido por carvão e sutilmente flavorizado com mel) e o pão com a massa mais “grossa” de pão francês.

Carnes, são cinco: mignon (um escalopinho mínimo), picanha (moída, gordinha, a melhor, na minha opinião), tradicional (seja lá o que for, mas a não especificação deixa uma suspeita de carne “qualquer” no ar), toscana (o recheio da linguiça moldado na forma burguer de ser) e frango.

E complemento, que inclui de maionese a bacon, de ovo a vinagrete, de cebola (frita ou crua) a salada, etc.

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

Batata e Polenta fritas estão incluidas no rodízio

O queijo já faz parte de qualquer opção, mas eu peço para tirar (a não ser que seja um queijo de boa qualidade; prefiro não comprometer minha carne com um puxa-estica emborrachado qualquer). Além de batata e polenta frita que acompanham. Não, onion rings não estão incluídos, mas podem ser pedidos à parte.

Tipo assim: pão francês com burguer de toscana e molho vinagrete, pão preto com filé mignon e bacon e maionese, pão vermelho com burguer de picanha e cebola frita, pão tradicional com burguer de frango e cebola….

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Pode ser uma experiência bem engraçada e animada, particularmente se partilhada em grupo. Aliás, essa é a bola da vez, em marketing: proporcionar experiência agregada ao consumo. Surpreender, oferecer diversão, encantamento, sedução e aprendizado. Tipo vivência prazerosa; ir além do produto que se está vendendo e conquistar pela emoção é o desafio dos marqueteiros. E Bruno resolveu isso com competência.

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Os  mini burguers em si nem estão com essa bola toda, mas tampouco decepcionam. Que são divertidos, isso lá são. Mesmo considerando a quase absoluta similitude entre os diferentes pães (à exceção da massa do pãozinho francês). Falam que um é mais picante, outro é mais adocicado…. Balela. O appeal é a cor, e só. As carnes tampouco brilham além da conta. Idem para os molhos – sendo que o bacon, picado em cubos (em vez de tiras) e exageradamente torrado, deixa a desejar.

Uma experiência divertida apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

Uma experiência divertida
apesar de detalhes como o bacon demasiado torrado

A Hamburgueria Artesanal oferece um vasto cardápio de burguers em tamanho tradicional, fora do rodízio. Pelo jeitão de mais exigentes e a cara prazerosa dos que pediam esses burguerszões, fiquei com a sensação de que eles eram de fato melhores do que a bem-sucedida sacada de rodízio à la carte.

Do que já bebi por lá, o Mojito é frustrante e o milk-shake de nutella, apesar de óbvio, é tudo.

O fato é que, se voce estiver de turma – e com fome, com a Moóca no seu radar, o rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal pode ser uma adorável opção de saciedade festiva. Se tiver adolescente na jogada, então…. Eu mesmo não vejo a hora de levar meus sobrinhos lá.

A última parada rua Guaimbé acima – por hoje, pois vem mais por aí – fica na mesma quadra da Hamburgueria Artesanal, do mesmo lado, só que já na esquina da rua Padre Raposo.

Já abastecemos nosso farnel com tortas e bolo do Lá da Torta. Já nos saciamos no rodízio de mini-burguers da Hamburgueria Artesanal. Eis que, continuando rua Guaimbé acima – se for terça-feira e já passar das 9 da noite – de repente vai bater a sensação de que Nova Orleans é aqui. Um ótimo blues, com solo de gaita, anima a rua com o ritmo encantado, sincopadamente dolente – quase lamento – dos negros da Louisiana americana. Não dá para evitar. Os passos começam a obedecer a cadência da melodia. E o espírito viaja.

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Terça é dia de Sérgio Duarte no Bar do Juca.

Um dos melhores gaitistas brasileiros – mora ali perto, na Moóca mesmo – Sérgio foi aluno e parceiro do mito da gaita Maurício Einhorn. Durante muitos anos, ainda no tempo da fita cassete, as gravações de Maurício eram audição obrigatória quando eu estava ao volante. Na estrada, então…

O gaitista Sérgio Duarte, às terças, no Bar do Juca

O gaitista Sérgio Duarte, se apresenta às terças, no Bar do Juca

Pois a careca luzidia de seu discípulo cintila, todas as terças, no palco acanhado de um boteco moóquense. Desfiando arranjos inspirados para clássicos do rock & roll (do Pink Floyd ao The Doors – sua versão para Light my Fire, de Jim Morrisey, é puro deleite), do blues norte americano (além de composições do próprio Sérgio Duarte) e, até, de adaptações bluesísticas da obra de Luís Gonzaga. Emocionante, no que pese o pouco caso da maior parte dos frequentadores que inflamam cotidianamente o Bar do Juca.

Roberto Junior – o Juca, uma figura cativante – e sua mulher, Iara, abriram seu boteco há quatro anos. Um qualquer nota ordinário, numa esquina com tradição micada. Desses que Sampaulo tem aos milhares. Salva-o a ótima programação musical da casa. Que vai do velho e bom rock progressivo à MPB, passando pelo blues de terça e sexta-feira (a cargo do também ótimo trio Acústriplo). Tinha tudo para ser um lugarzinho à toa. No entanto, é um recanto que emana magia, graças ao condão da boa música. Um privilégio moóquense.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

O ambiente basicão do Bar do Juca e Iara, a anfitriã.

Além da boa música, se bater larica, outra surpreendencia da casa são os ótimos bolinhos de bacalhau (que deveriam se chamar “dedinhos” de bacalhau). São roliços como indicadores bem torneados, mas a porção é farta e deliciosa. Entre as cervejas servidas por lá, a divertida IPA (Indian Pale Ale), da Baden Baden de Campos de Jordão, é temperada com…. Maracujá!

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca (com o Juca em pessoa, ao fundo)

Os ótimos bolinhos de bacalhau e a IPA com maracujá, da Baden Baden, no Bar do Juca
(com o Juca em pessoa, ao fundo)

Lá dá Torta, Hamburgueria Artesanal e Bar do Juca. Essa é apenas uma das excelentes opções de noitada na rua Guaimbé, na Moóca. Volto a ela, em breve.

Esta é minha Sampaulo, uma cidade onde – parafraseando Gil, surpresas se escondem, revelam e emoção sempre há de pintar por aí. Se for para as bandas da Moóca, então…

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E, de bonus, Sérgio Duarte, no SESC Pompéia

 

Oásis de Donaire

Estou desembarcando em Sampaulo. Depois de dois – longos – meses ausente.
Já, já, retomo a publicação de posts inéditos no blog.
Com novas revelações das surpreendencias de minha cidade.
Enquanto isso, republico a matéria postada em 8 de novembro de 2015.

Para celebrar a Primavera, eu trago flores pra vocês, leitores:

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Dia desses me deparei com uma palavra diferente: donaire. Sabia que não me era inédita. Eu já tropeçara nela, algures (outra palavrinha rara). Acontece que o significado de algures me é intuitivamente óbvio: refere-se a um lugar impreciso.

Donaire era uma incógnita. Não a sabia sequer se desta língua. Aparentava coisa nobre, trejeitos empoados, perfumados, com pedigree afrancesado… Mas tanto podia fazer parte de vocabulário médico – aí valendo seja para patologia, seja para remédio (“estou com uma moleza, uma donaire que não passa…” Ou, “tome dois comprimidos de donaire, um após o almoço e outro após o jantar”) – quanto meteorológico, também aí passível de significar extremos: tormenta ou bonança (“a moça do tempo está prevendo donaire braba para este fim de semana”; ou “a viagem foi ótima, nenhuma nuvem, donaire da decolagem ao pouso”).

Donaire podia definir um fundamento de arte marcial, uma manobra náutica, uma ilha distante, uma peça de indumentária islâmica, ou seja, eu não fazia a menor ideia do que expressava. Sequer sabia a pronúncia correta. Se donaire mesmo, com á agudo, ou se donérre, caso fosse um galicismo.

Fui ao Aurélio aprender que donaire tem genética espanhola. Soube depois que, entre hispânicos, seu uso é corriqueiro. Significa um monte de coisas boas, agradáveis e prazenteiras. Donaire é gentileza, elegância, garbo, graça, adorno, enfeite, atavio.

Resumindo, a vida da gente ganha qualidade quando salpicada de donaire.

Oásis, por sua vez, todo mundo sabe o que é. Pode não conhecer pessoalmente, mas sabe do que se trata.

Sabendo o que significam oásis e donaire, concluí que canteiros floridos são oásis de donaire. Sampaulo mal conhece isso. Não é uma Curitiba, que tem até um Relógio de Flores. Ou a Brasília de quando lá morei, que ostentava um retorno, na saída do aeroporto, que gritava estridente: Bem-vindos à Holanda!

Aqui tem o jardim da Casa das Rosas, na Paulista. Mas apesar do endereço central e nobre, fica meio escondido…

Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Casa das Rosas, na Avenida Paulista. Nem todo o tempo assim, exuberante. Mas sempre alívio para a incessantez que o cerca.

Jardins protegidos pelos muros altos do Morumbi, Pacaembu ou Jardim Europa também não contam. Não são notórios.

parque-do-ipirangaO Parque da Independência diante do ora interditado Museu do Ipiranga, malgrado o morto e insepulto riacho histórico que flui a seus pés, tem o charme de jardim bem cuidado (Versailles paulistano é exagero!). Mas lhe falta o colorido das flores.

 

O sempre atulhado e ainda assim belo Ibirapuera – e os outros – também remetem mais a arremedo florestal do que a jardim floral.

Parque do Ibirapuera

Parque do Ibirapuera

Na falta de canteiros, nossos oásis de donaire são os floristas.

Ambulantes de rosas em sinais de trânsito não contam. Os buquês estão para as flores como a xepa está para as hortaliças em fim de feira.  São moribundas mal maquiadas.

Tampouco me refiro aos setores floristas de supermercados. O ambiente não lhes favorece. O território é das gôndolas. O habitat é das embalagens concebidas por marketeiros. As flores nos encantam pela sinceridade espontânea. Lírios e margaridas não conseguem se sentir à vontade nesse ambiente da sedução premeditada.

Os oásis paulistanos de donaire são as floriculturas. As vitrines de antúrios, de gérberas, de orquídeas, tulipas, crisântemos… As bancas de girassóis, copos-de-leite, violetas, helicônias, íris, gardênias…

Elas existem de todos os tamanhos. Da colossal Feira de Flores do CEAGESP – com 20 mil metros quadrados e mais de mil produtores, às terças e sextas, antes do sol dar as caras – até as bancas de feirinhas de bairro.

Feira das Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Feira das Flores do CEAGESP: uma babel floral em plena madrugada

Para os não profissionais do ramo – ou não madrugadores – que buscam ampla variedade de opções e boa relação custo/benefício, existem dezenas de opções de garden centers. São como hipermercados de plantas e flores. Acho que por uma questão de logística, alguns dos maiores e melhores ficam na região do CEAGESP, na Vila Leopoldina. É o caso do Uemura e do Mil Plantas.

Uemura (acima) e MilPlantas (abaixo) Hipermercados de flores - inclusive raras e exóticas. De um tudo e algumas cositas mais

Uemura (acima) e MilPlantas (abaixo).
Hipermercados de flores – inclusive raras e exóticas. Além de vasos, insumos e ferramentas…
De um tudo e algumas cositas mais.

Sem contar os floricultores urbanos que produzem sob as linhas de transmissão de alta-tensão de energia.  Como os que cultivam a lateral da Avenida Morumbi, em seu trecho ainda Jardim Guedala. Atendem ali a clientela que pode circular com o pé na terra, entre os vasos e canteiros.

Para os exigentes – e abonados – que apostam na sofisticação criativa e no bom-gosto infalível dos melhores floristas, Sampaulo reúne artistas extraordinários na composição floral. Seja de singelos buquês ou de ambientação de grandes efemérides. Meus prediletos são o célebre Vic Meirelles (não pode ser coincidência o fato de que os eventos paulistanos cuja ambientação paisagística e floral me encantam a ponto de eu querer saber quem as criou, serem, invariavelmente, obra dele)…

Casamentos, buffet de festa e arranjos de mesa by Vi Meirelles

Casamentos, buffet de festa e arranjos de mesa esplendorosos. Tudo by Vi Meirelles

… e a talentosa equipe de Rosângela Duarte (que conheci na Rua da Consolação, mas mudou sua adoravelmente surpreendente floricultura Bem Me Quer para a Alameda Lorena). São ambos ótimos, requintados e caros.

 Floricultura Bem me Quer - um lugar encantado

Floricultura Bem me Quer – um lugar encantado.

Quando, entretanto, me sobra tempo e inspiração, prefiro eu mesmo arriscar combinações. Não domino a técnica e não disponho do arsenal de assessórios dos bons floristas, mas me seduz a ousadia amadora de tentar meus próprios arranjos. Seja para celebrar os amigos, para enviar-lhes em gratidão por uma acolhida agradável em suas casas ou para alegrar minha sala. Fica mais pessoal.

Essas horas, recorro às bancas de flores de rua, os oásis de donaire móres da cidade: as bancas do Largo do Arouche e os boxes da Avenida Doutor Arnaldo, ao longo do muro do Cemitério do Araçá, na vizinhança da Avenida Paulista. Ambos funcionam 24 horas, embora nem todos os boxes se mantenham abertos durante a madrugada.

O Arouche já viveu dias melhores. Nunca mais comprei lá, mas vira e torna revejo seu colorido como cenário dos meus sempre excelentes repastos no tradicionalíssimo restaurante francês La Casserole.

Os floristas da Avenida Doutor Arnaldo preservam a excelência. Com qualidade e variedade de opções. As bancas com espécies mais exóticas, raras e surpreendentes são a de número 18, das irmãs Ana e Marina, e a de número 11, de Cleide. A exclusividade é tão encantadora quanto dispendiosa. Mini antúrios roxos, lindos, delicados – e importados, custam 20 reais a unidade! Um buquê deles, faz as contas… Mas o preço das flores mais corriqueiras são bem em conta.

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo - dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Bancas de Flores da Avenida Dr. Arnaldo – dia e noite adornando o vai-e-vem paulistano

Para quem gosta de flores enfeitando o dia-a-dia e não se sente seguro para compor os arranjos, sugiro os cursos rápidos. São prazerosa ocupação para um dia livre em Sampaulo. Na escola Wilma Kovesi, vira e torna Vic Meirelles em pessoa ensina técnica e ajuda os alunos a lapidar talento. A florista Fátima Casarini também oferece cursos em seu galpão atelier Ramo_Urbano, no Alto de Pinheiros. É só consultar a programação nos sites e, se der, aproveite.

Aulas de arranjos no atelier de Fátima Casarini

Aulas de arranjos no atelier de Fátima Casarini

Por fim, existem épocas em que o clima inviabiliza o cultivo de uma variedade maior de flores. Acima dos trinta graus, até buquês de noiva precisam ser mantidos em geladeira e mal suportam a duração da cerimônia de casamento. Nesses casos, desembarque do preconceito e conheça as maravilhas artificiais importadas do oriente. Só faltam fazer fotossíntese.

Um bom lugar para encontrar variedade e qualidade é a D’Baraldi. Em seu sortidíssimo stand de extraordinários exemplares da floricultura industrial chinesa, em plena Feira de Flores do CEAGESP. Ao circular por lá, duvida seus sentidos lhe ludibriem ao ponto de sentir os aromas, tão perfeitas são as peças.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

Talento não rima com preconceito. Nosso artista maior das composições florais, Vic Meireles, negocia a compra de artificiais com Baraldi.

A D’Baraldi mantém, também, um tosco showroom, na Lapa, pertinho da Marginal do Tietê. É a opção “horário comercial” – ainda que acanhada – para conhecer seu estoque.

Produtos da D’Baraldi

Produtos da D’Baraldi

Eu falo, mas reconheço que tenho uma certa implicância com flores artificiais. Talvez porque eu seja do tempo em que as imitações eram grosseiras, de plástico. Na minha memória emocional – e estética – ocupam a mesma gaveta da jarra de Q-suco, da mobília de fórmica, do estofamento em napa e da roupa de tergal. Tudo exibindo afrontoso orgulho de ser sintético.

 Mesa by Rubi Pereira, com alfazemas da D'Baraldi

Mesa by Rubi Pereira, com alfazemas da D’Baraldi

A história, agora,
é outra. Deve ser por isso que Baraldi e sua filha e braço direito Fernanda evitam chamar suas flores
de artificias. Embora falsas, são tão naturalmente delicadas…. Mesmo duráveis, fingem com talento a sedutora fragilidade floral.

Os Baraldi preferem chamá-las de “permanentes”. Combina com o corre-corre de hoje em dia. Ficar trocando o conteúdo dos vasos exige tempo, não é barato e quer saber? Luxo, mesmo, é estar de bem com a vida e ser feliz.

E já que andamos questionando conceitos de breguice, se estiver de folga em Sampaulo, não titubeie em encarar um programa com fama de popular. Dê uma esticada até Holambra, a menos de duas horas da Avenida Faria Lima. Tá certo que na época do Festival da Primavera a coisa fica meio punk por lá. Mas flor, ali, não é um mero oásis de donaire. É oceano inteiro para se nadar de braçada.

Holanda? Não, Holambra!

Holanda? Não, Holambra!

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