A coxa nossa de cada dia

Ainda estou longe da cidade, viajando a trabalho, há mais de um mês.
Por isso, não tenho publicado novos artigos no blog.
Mais alguns dias e estarei de volta, para recuperar este tempo ausente. Para novos bateres de perna por Sampaulo.

Enquanto isso, republico alguns posts antigos.
Como este aí em baixo. Publicado, originalmente, em 2 de novembro de 2015.
Um passeio por algumas das melhores coxinhas preparadas na minha cidade.

Caia de boca por mim. Logo, logo, vou matar pessoalmente a saudade dessas delícias:
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Eu não sabia mais o nome do lugar, embora lembrasse, vagamente, que era um ambiente mais do tipo popular do que refinado. Mas a memória das coxinhas ali servidas me aguçava deleites. Acho até que chegaria lá sem titubeios. Ficava na Praça João Mendes, bem atrás da Catedral da Sé, junto à antiga parada de bondes que já circularam por ali.

Eu ia até lá antes mesmo da chegada da primeira linha do metrô que tangencia o local. Apenas pela coxinha. Da estação Sé, é um pulo. Da estação Liberdade, alguns passos.

Não voltava há décadas. Imaginava já nem existirem, lanchonete e coxinha.

De repente, um artigo de Guta Chaves resgata época e sabores guardados no cofre de memórias apetitosas. A colunista revela que o lugar ainda existe. É uma padaria mais que centenária, a Santa Tereza – que se pretende a mais antiga em atividade na cidade. E, segundo a ela, as coxinhas ainda seriam preparadas do mesmo jeito delicioso de minha recordação (recordar, do latim recordare, voltar ao coração).

Me toquei para a Praça João Mendes. Pelas coxinhas, como antigamente.

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O lugar é mais para vulgar, atulhado de produtos e gente, na fronteira entre higiene e descuido – embora ainda distante da patente insalubridade dos “churrascos gregos” de calçada, comuns no Centro velho. Salvam-no as muitas e curiosas fotos antigas de Sampaulo (no que pese sua distribuição a esmo pelas paredes, sem qualquer identificação, critério estético ou cronológico).

Coxa-creme centenária Padaria Santa Teresa

Coxa-creme centenária Padaria Santa Teresa

Mas a coxinha continua campeã. Não é uma coxinha dessas mais comuns, recheada com frango desfiado. É a tal “coxa-creme”, cuja invenção é reivindicada por eles, logo após a inauguração da padaria, em 1872!

Uma coxa mesmo, inteira, com osso e tudo, que recebe uma leve camada de requeijão antes de ser recoberta por massa. Passam-na pela farinha e ganha a frigideira. A ponta do osso fica exposta e é nele que agarramos para cair de boca.

Se vale a viagem? Vale. Não mais como justificativa exclusiva para uma ida à região. Mas se estiver por lá, eu volto. Só que vou preferir me aboletar no salão do primeiro andar, bem mais agradável do que o bulício do térreo.

Já à coxinha da Doceira Ofner, outra campeã da cidade, volto sempre. A diferença é que tem Ofner para todo lado. Difícil encontrar um shopping de bom padrão sem uma Ofner para chamar de sua. Fora suas lojas de rua, algumas abertas 24 horas. Sou useiro e vezeiro madrugador da que fica na esquina da avenida Nove de Julho com a rua João Cachoeira, no Itaim.

Coxinha simples, da Ofner

Coxinha simples, da Ofner

Difícil é escolher entre a coxa-creme (como a da Santa Tereza), a desfiada simples e a desfiada com catupiry. O que decide, nessas horas, é o tamanho da larica. Diferente da coxinha centenária do Centro, esta é servida em ambiente mais sofisticado, também atulhado, mas de guloseimas requintadas. Paga-se mais, evidentemente.

Coxa-creme - encharcada com o bom molho de pimenta - da Ofner

Coxa-creme – encharcada com o bom molho de pimenta – da Ofner

Uma coxinha paulistana que ajuda a construir sucesso e fama do salgadinho mais popular do Brasil é a do Bar Veloso, na Vila Mariana. É acompanhamento perfeito para as extraordinárias caipirinhas do lugar. O Bar Veloso é onde o barman Souza, um dos mais premiados talentos das coqueteleiras do país, inventa moda com cachaças e outros álcoois. Devo a ele – e a Rodrigo Oliveira (chef do premiado – e ótimo – restaurante Mocotó), outro cachacier emérito – meu apego exigente à boa pinga. Foi Souza quem me apresentou à piauiense Mangueira, obra-prima dos alambiques da cidade de Castelo.

Caipirinhas do Souza, um patrimônio de Sampaulo

Caipirinhas do Souza, um patrimônio de Sampaulo

Antes de me jogar nas coxinhas perfeitas do Bar Veloso, deixe-me indicar-lhe duas de minhas caipirinhas do Souza prediletas – feitas com cachaça, claro: a de limão com gengibre e a de tangerina com pimenta.

Voltando à coxa nossa de cada dia, a do Bar Veloso é servida em porção de meia dúzia. São menores, mas avocam para si o ditado célebre atribuído aos perfumes, o de que os melhores vêm nos menores frascos.

Porção de coxinhas do Bar Veloso

Porção de coxinhas do Bar Veloso

Untuosas na medida, macias de perder a forma, pouco recheio evidente – mas de sabor eloquente; graças, provavelmente, ao bom caldo que compõe a massa. E a casquinha doura-crocante? Merecem até uma camiseta, vendida no local, com a declaração impressa: “soy loco por ti, coxinha”.

Mas não dá para falar de coxinha em Sampaulo sem viajar até um lugar adoravelmente peculiar: o Santa Coxinha. É fora de mão, mas justifica a viagem.
Pelo petisco e pelo entorno, a bucólica Vila Zelina, enclave de descendentes de lituanos, para os lados da Vila Prudente. Parte da antiga União Soviética, ancorada à beira do mar Báltico, a hoje soberana Lietuvos Respublika enriqueceu Sampaulo com o talento de Lasar Segal, de Celso Lafer, dos Klabin, da apresentadora Angélica…

Fachada e salão do Santa Coxinha

Fachada e salão do Santa Coxinha

O Santa Coxinha vale, também, pelo dono do lugar, Matusa. Um figuraça que viajou no lance da coxinha e evoluiu desde um trailer na beira da Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello, há mais de uma década, passando por uma dessas lojas de posto de gasolina, até chegar de coxinha em punho à ampla e confortável esquina da Praça República Lituana.

E até chegar aos sessenta sabores de coxinha preparados lá.

Matusa (uma figura!) e algumas de suas surpreendentes coxinhas

Matusa (uma figura!) e algumas de suas surpreendentes coxinhas

Foi isso mesmo que você ouviu: sessenta sabores, digo, recheios diferentes. Todos no formato acoxalado. E com opções de massa de batata, de mandioca e, até, de arroz. Frita ou assada.

Tem coxinha de cordeiro (com molho de menta à parte), coxinha de couve com aliche, coxinha de bacalhau, coxinha de siri, coxinha mexicana (de carne apimentada), coxinha de rabada com pimentão… Tem até coxinha de feijoada, sem contar as vegetarianas (gosto muito da de berinjela com tomate seco). Na maior parte das vezes, Matusa acerta nas suas variações sobre o tema da coxinha.

Em cima, coxinha de Pato com molho de Laranja Em baixo, coxinha de Atum com massa de Arroz Amabas do Santa Coxinha

Em cima, coxinha de Pato com molho de Laranja
Em baixo, coxinha de Atum com massa de Arroz
Amabas do Santa Coxinha

Ahhh, claro, o Santa Coxinha tem coxinha tradicional de frango também. Com e sem catupiry.

A lanchonete tem ambientação que remete aos dinners americanos. Matusa é rockeiro e uma coleção de fotos do velho e bom rock & roll é um dos detalhes atraentes da decoração.

Além de oferecer uma carta de bebidas que vai do guaraná Jesus – ícone cor-de-rosa do Maranhão, antes impossível de encontrar em Sampaulo, hoje arroz-de-festa até nas gôndolas de supermercados – à cajuína de Teresina.

Dona Alana, no balcão do Delícias Mil

Dona Alana, no balcão do Delícias Mil

E já que fomos tão longe, não deixe de atravessar a rua para fazer um farnel com os acepipes lituanos de Dona Alana, do Delícias Mil. As embalagens de alumínio são próprias para levar e esquentar em casa – mas evite o micro-ondas; são guloseimas muito especiais e merecem forno tradicional, à gás ou elétrico. O Kugelis (torta de batata) é ótimo. O Zukys (bolo de carne) é dos melhores que já comi. E a strudel – de maçã ou banana – envolto em massa folhada é surpreendente.

Coxinha e leste europeu. É… Sampaulo!

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Isenção? Nem pensar!

Sampaulo faz falta ao meu juízo.
Estou longe da cidade, viajando a trabalho, há mais de um mês.
Por isso, não tenho publicado no blog.
Estou devendo novos bateres de pernas por “Sampaulo de lá pra cá”. Aos leitores e a mim mesmo.
Mais alguns dias e estarei de volta.

Enquanto isso, decidi republicar alguns posts antigos.
Começando por este aí em baixo. Tipo uma declaração de amor a minha cidade.
Ao relê-lo, aperta a saudade.

Foi meu primeiro artigo escrito aqui, há quase um ano:

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Ao falar de Sampaulo, vazo paixão.

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A cidade me bota de quatro com sua infinita capacidade de me saciar todas as fomes, de encharcar minhas sedes, de me fartar as taras e estimular meus sonhos.

Adolescente, desembarquei na cidade. E, vapt vupt… Virei daqui.

Por mais de uma vez tomei distância. Vivi, ora por meses, ora por anos, em outros brasis e fora dele. Mas nunca deixei de ter uma cama para chamar de minha, arrumada na cidade. Vira e torna estava aqui, dormindo nela.

Hoje, não mais me imponho tais degredos. Até topo sair para dar uma volta por aí, passar uma chuva acolá, dar um mergulho em outras geografias. É excitante como pulada de cerca.

Mas só Sampaulo é lar doce lar. Aqui, não faço cerimônia, afrouxo a guarda.

Quando estou longe, falta alguma coisa da qual minh’alma é dependente. Aqui, o caldo fica no ponto, a quantidade na medida.

Sei, por senso comum, que lhe cabem sufixos de avantajada – mega, hiper, ultra… Mas, engraçado, não a sinto assim desmesurada. Talvez por percorrê-la sempre – e tanto – todos os quadrantes. Esquadrinho Sampaulo por vício. Me move a certeza de que surpresas sempre renovadas se ocultam para todo lado. E como me encanta desvendá-las!

Minha intenção, aqui, é denunciá-las. Tanto as que se escondem sem jactância, debaixo do nariz de todos, quanto as fora de mão, as periféricas que valem a viagem.

Enraizadas no centro mais central, como a fieira de lojas especializadas em essências, na Rua Silveira Martins, atrás dos bombeiros, do lado colado da Praça da Sé(1).

Região de Essências, no centro de Sampaulo. Em dezenas de endereços, mostruários, vidrinhos de provadores para cheirar, semelhantes nas diferentes lojas. Ao lado, tem sempre recipientes com grãos de café para “limpar” o olfato entre cafungadas.

Região de Essências, no centro de Sampaulo.
Em dezenas de endereços, mostruários, vidrinhos de provadores para cheirar,
semelhantes nas diferentes lojas.
Ao lado, tem sempre recipientes com grãos de café para “limpar” o olfato entre cafungadas.

Ou remotas, como o altar da gastronomia que me arrasta a enfrentar mais de duas horas de descida e contornos da Serra do Mar, até a praia de Camburizinho, para cair de boca nos frutos do mar urdidos por Edinho Engel, no Restaurante Manacá.

Entrada exuberante do restaurante Manacá, em Camburizinho

Entrada exuberante do restaurante Manacá, em Camburizinho

Uma abadia de admirável arquitetura(2) aqui, uma animada celebração acolá, um primoroso artesão de chapéus ali, um velho espanhol fritando espirais de churros em plena madrugada, um novo centro cultural do Sesc(3) distribuindo arte com generosidade, uma loja de miniaturas – a Casinha Pequenina – tocada por irmãs anãs, restaurantes que só abrem com hora marcada, ruas inteiras de lojas especializadas em um só produto, bicas públicas de água pura não muito longe de rios fétidos, atletas praticando esportes inusitados, museus de um tudo – até de mágicas!

Casinha Pequenina - Mila e

Casinha Pequenina – Mila e Adriana

Paulistanos têm vocação para segredos e confidências. Somos tantos que, para não nos perdermos, nos apartamos em grupos, tribos, confrarias… E se há uma coisa que essas irmandades costumam guardar a sete chaves são suas capelas de culto à excelência.

Samba da Vela, às segundas, no bairro de Santo Amaro

Samba da Vela, às segundas, no bairro de Santo Amaro

Quer um exemplo? Os sambistas. Além das vinte duas escolas de samba (só as filiadas à Liga Independente) e suas quadras lotadas nos ensaios de janeiro(8) – sem contar as dezenas de baladas sambeiras (Ó do Borogodó, Templo(4), Traço de União, Bar Mangueira, Vai se Quiser, Samba da Laje…) e botecos que não perdem o ritmo – os amantes da batucada escondem pequenas jóias, na forma de preciosas rodas de samba, onde ecoam acordes inacessíveis ao comum dos mortais. Como o Samba da Vela. Numa pracinha do bairro de Santo Amaro, às segundas, oito e quarenta e cinco em ponto, uma vela é acesa no centro de uma mesa. Em volta dela, músicos talentosos e, em círculos, uma pequena multidão de aficionados fazem samba de responsa até a vela apagar. Apagou, acaba.

Para além das pequenas congregações, Sampaulo também é pública e notória em suas nações futebolísticas exaltadas pela eterna peleja. Semanalmente, suas multidões marcam encontro em arenas de combate – Pacaembu, Allianz Parque, Itaquerão ou Morumbi. Ali, a paixão exacerba, com alvinegros, tricolores e verdões atropelando lucidez e razão.

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Por aqui, sobretudo, prepare o apetite. Pois Sampaulo é banquete.

O que não falta, no cardápio paulistano, é opção. Das emocionantes visitas noturnas ao zoológico(5) à catedral da água na boca, o Mercadão Municipal. De uma rua inteirinha só de lojas de ferragens até a maior celebração gay do universo. De incursões ao extremo oriente – via Estação Liberdade do metrô – a visitas às oficinas dos excelentes artesãos da Vila Madalena e adjacências. Das baladas da hora aos clássicos concertos de uma das melhores orquestras sinfônicas do mundo, na Sala São Paulo. Das monjas licoreiras da Serra da Cantareira(2) aos frades padeiros de São Bento(6). De um museu dedicado à língua portuguesa (atualmente em reforma, após incêndio) ao museu do esporte da Pátria(5). Das babéis do consumo popular até os exclusivos shopping centers freqüentados pelo crème de la crème social – onde a sessão de cinema tem até garçom que serve pipocas trufadas.

Algumas surpreendências da multifacetada Sampaulo: Visita noturna ao zoológico, Mercadão Municipal, rua Paes Leme (dezenas de lojas de ferragens), parada gay, bairro da Liberdade, feira de artesanato na Vila Madalena, hype balada – D-Edge, Sinfônica do Estado de São Paulo, moja licoreira da Abadia de Santa Maria, padaria do Mosteiro de São Bento, Museu da Língua Portuguesa, Museu do Futebol, rua 25 de Março, cinema “de luxo”...

Algumas surpreendências da multifacetada Sampaulo:
Visita noturna ao zoológico, Mercadão Municipal, rua Paes Leme (dezenas de lojas de ferragens),
parada gay, bairro da Liberdade, feira de artesanato na Vila Madalena,
hype balada – D-Edge, Sinfônica do Estado de São Paulo, moja licoreira da Abadia Santa Maria,
padaria do Mosteiro de São Bento, Museu da Língua Portuguesa, Museu do Futebol,
rua 25 de Março, cinema “de luxo”…

Como em qualquer lugar, aqui também se come mcdonaldemente mal. Mas quando se come bem em Sampaulo, sai de perto. É de excelente prá inesquecível. São centenas, talvez milhares de ótimos chefs, numa multiplicidade de deixar zonzo o michelin mais exigente.

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É esse o cardápio de variadas opções que pretendo servir aqui.

Enquanto isso, dá licença que bateu uma fome…. Vou atacar geladeira e despensa. Estou pensando em cortar uma boa fatia do bolo de azeitonas do padeiro Rafael Rosa, da padaria orgânica Pão; cubro com fatias fininhas do salame artesanal do linguiceiro Gijo(7), da Vila Mariana, besunto tudo com a mostarda extraforte do alemão Diethelm Maidlingev*, chef do restaurante Bierquelle, prá lá do autódromo de Interlagos. E mando ver, agradecendo a Baco poder estar em Sampaulo.

Servido?

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(1)Veja o post “Nariz feliz”, de 18 de junho de 2016

(2)Veja o post “Prateleira de Cântaros II”, de 26 de novembro de 2015

(3)Veja o post “É privado, mas a alma é pública”, de 21 de julho de 2016

(4)Veja o post “Samba de Fé”, de 4 de agosto de 2016

(5)Veja o post “Vamos todos cirandar”, de 1º de janeiro de 2016

(6)Veja o post “Ora et Labora”, de 30 de junho de 2016

(7)Veja o post “Resistir, quem há de?”, de 13 de janeiro de 2016

(8)Veja o post “Se joga!”, de 19 de janeiro de 2016

 

*O extraordinário chef Diethelm Maidlingev faleceu. Seu ótimo restaurante alemão Bierquelle continua funcionando, tocado pelas filhas. Ainda não fui lá depois dessa perda…