Samba de Fé

Não é de hoje que o samba louva a Deus. Vinícius de Morais já cantava que “o bom samba é uma forma de oração”.

A alta hierarquia católica, entretanto, sempre foi reticente. Para ela, sagrado e profano é cada um no seu quadrado. Só muito recentemente, já no papado de Francisco, os cardeais de Sampaulo e do Rio de Janeiro admitiram – e, até, abençoaram – a participação de sua iconografia religiosa em desfiles de Escolas de Samba.

Este ano, a Águia de Ouro paulistana cantou Nossa Senhora no sambódromo, num desfile procissão cujo refrão dizia: “Ave Santa Mulher que me guia… O nosso Azul e Branco é de Maria”.

Nicete Bruno, como a Virgem Maria, participa do desfile cheia de referências católicas da Águia de Ouro.

Nicete Bruno (Virgem Maria), no desfile cheia de referências católicas da Águia de Ouro.

E a Acadêmicos do Tucuruvi cantou, em seu refrão: “ó Círio de Nazaré, ó Senhora Aparecida abençoa quem tem fé”.

Logo Águia de Ouro 2017

Ano que vem,  Nossa Senhora Aparecida volta, absoluta, pelas mãos da Unidos de Vila Maria. Que vai louvar os 300 anos de aparição da imagem no rio Paraíba do Sul.

Não foi sempre assim. Em 1989, quando Joãosinho Trinta tentou colocar o Cristo Redentor na Marques de Sapucaí – abrindo o memorável desfile “Ratos e Urubus, larguem a minha Fantasia”, a Beija-Flor foi ameaçada pelo ultraconservador cardeal Eugênio Sales.

beija-florAinda assim, a alegoria participou do desfile, só que coberta. com uma faixa/oração que desmascarava a hipocrisia eclesial e demonstrava mais Fé na divino do que a cúpula da igreja local (que quis impedir Nosso Senhor de estar no meio do povo). Daí para frente, o carnavalesco mais importante da história e o arcebispado carioca passariam a viver às turras.

beija-flor-cristo-2005-originalEm 2005, a mesma Beija-Flor colocou na avenida uma representação do Cristo ensanguentado (embora a falta de sintonia mais explícita com o enredo tenha sombreado sua repercussão).

Em 2014, a Mocidade Alegre paulistana encarou de frente a cisão e construiu uma ponte vigorosa sobre o fosso que sempre apartou a igreja do samba. E faturou o campeonato com o enredo “Andar com Fé eu vou, que a Fé não Costuma Falhar”. E contagiou o sambódromo do Anhembi com o refrão: “De joelhos eu vou cantar / Tenho fé de verdade, vou além… / Na Mocidade, o samba diz amém”!

Romeiros em procissão no desfile de 2014 da Mocidade Alegre

Romeiros em procissão no desfile de 2014 da Mocidade Alegre

Ainda no universo das igrejas cristãs, os evangélicos, tradicionais ou pentecostais, torcem o nariz para os prazeres profanos. Implicam até com a cervejinha nossa de cada dia… Mas isso não impede que vários sambistas convertidos continuem fazendo samba, só que gospel. Inclusive samba de partido-alto (sabe Martinho da Vila?). Já ouvi uma banda com ótimos ritmistas em que é feito um trocadilho: “partiu do alto”, ou seja, veio de Jesus.

Clara Nunes cantou os Orixás

Clara Nunes cantou os Orixás

As religiões de origem africana, até por costumarem apoiar suas celebrações em batidas de tambores, sempre desfrutaram de intimidade com o samba. Olha Clara Nunes que não me deixa mentir… Sem contar que muitos dos fundadores das grandes escolas de samba do Rio – que é a matriz do gênero – eram pais e mães de santo. Sempre que homenageiam um Orixá, entretanto, os sambistas precisam pedir permissão ao santo, cumprindo alguma “obrigação” imposta por um terreiro a ele consagrado. Ainda assim, pelo preconceito vigente até então, foi só na década de sessenta que essas divindades começaram a dar as caras nos desfiles.

Sou entusiasta da comunhão da religião com o samba. A Igreja tem que estar perto do rebanho de Deus, particularmente do desgarrado. Evangelização em território sagrado tem um que de chover no molhado. O próprio Cristo foi exemplar ao se aproximar de Maria Madalena… E, ademais, não há porque confundir diversão com prevaricação. Pecado é o que nasce no desamor, na intolerância, na demonização do diferente – como bem tem demostrado os jihadistas que se pretendem muçulmanos.

Sou devoto do Criador e adoro samba. De roda, de breque, partido-alto ou exaltação.

Por isso, não é de hoje que eu cato redutos de bambas na cidade..

Quando larguei a barra da saia de mamãe e virei de maior, lá nos anos 70, dois dos meus destinos prediletos eram consagrados ao samba.

Mestre Paul Vanzolini

Mestre Paulo Vanzolini

Para cair no passo, o destino era o decadente Paulistano da Glória, no bairro da Liberdade. Uma escola de samba, fuleira que só (para os padrões atuais). As instalações eram para lá de canhestras, mas o samba era bom e rolava um baile semanal durante o ano inteiro. Minha galera da PUC batia ponto e eu me esbaldava. Tipo “passista perde”… Não era raro cruzar com alguns ícones da velha guarda paulistana por lá: Geraldo Filme (“na hora em que eu nasci, mamãe me jogou na pista – se cair deitado é padre, caiu de pé é sambista”), Adoniram Barbosa (“din-de donde nós passemos os dias feliz de nossas vidas”), Paulo Vanzolini (“levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”)….

Benito de Paula nos anos 70

Benito de Paula nos anos 70

Já se era só para ouvir o ziriguidum, no máximo marcando o ritmo com o polegar no tampo da mesa, eu esvaziava o bolso para encarar o couvert artístico da exígua Catedral do Samba, no bairro do Bexiga. Mais requintada, decorada com alguns arremedos de vitral para dar clima de igreja (embora diminuta como uma capela), tinha um tablado no fundo com um piano de calda. Era o palco do “samba joia” de Benito di Paula. Hoje o cara é cult, reverenciado, mas na época a intelligentsia torcia o nariz para ele. Por isso eu ia sozinho, meio que à socapa. Gastava o que eu tinha. Mal dava para uma dose de caju amigo (um drink popular na época), para regar a garganta que cantarolava o repertório inteiro que eu sabia de cor: “onde está você, com meu violão? Se você chegar fora de hora, não deixo você desfilar no meu cordão”,Eu chorei na avenida, eu chorei…. Não pensei que mentia a cabrocha que eu tanto amei”, “Eh! Meu amigo Charlie; Eh! Meu amigo Charlie Brown, Charlie Brown”, “ninguém sabe a mágoa que trago no peito, e quem me vê sorrir desse jeito nem sequer sabe a minha solidão… É que meu samba me ajuda na vida, minha dor vai passando esquecida, vou vivendo essa vida do jeito que ela me levar”…

Dona Inah, lenda viva do samba paulistano

Dona Inah, lenda viva do samba paulistano

Mais recentemente, vira e mexe eu ainda cavuco um bom samba em Sampaulo. Para trautear junto e acompanhar o gingado sem sair do lugar. Nessas horas, as rodas de samba do Ó do Borogodó são meu destino predileto, na fronteira dos bairros de Pinheiros e Vila Madalena, lateral meio escondida do cemitério São Paulo. Se der de topar com a presença luxuosa da octogenária Dona Inah, então, a semana está ganha.

Só muito recentemente decidi ir conhecer o Templo, que de uns tempos para cá caiu no gosto do povo do samba.

Logo RGB

Admito que temia encontrar um lugar focado no pagode fácil de harmonia pobre e letras indigentes que tem dominado o universo sambeiro. Prefiro não testemunhar essa fase decadente de um ritmo que já nos honrou com gênios da raça como Noel, Nelson Cavaquinho, Cartola, Adoniran, Silas de Oliveira…

Noel Rosa, Silas de Oliveira, Cartola, Nelson Cavaquinho e Adoniram Barbosa

Noel Rosa, Silas de Oliveira, Cartola, Nelson Cavaquinho e Adoniram Barbosa

Quer saber? Que bom que eu subestimava o lugar…  Foi a deixa para o Templo me surpreender! O slogan da casa diz tudo: Bar de Fé.

Murilo Cândido de Oliveira, paulista de Presidente Prudente – mas criado em Sampaulo, apaixonado por samba e religioso praticante – e graduado, largou a diretoria comercial de um importante grupo educacional, há cinco anos. Para abrir essa balada adorável no tradicionalíssimo bairro da Moóca.

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Noite de quinta-feira, no Templo

Noite de quinta-feira, no Templo

A ambientação é admirável. Prodigiosa. Uma descoberta atrás da outra. Encantadora, sem ser luxuosa. Numa certa medida, até pitoresca. De uma singeleza… Formidável. A alma brasileira pulsando em todo esplendor.

São Jorge dá as boas vindas ao Templo

São Jorge dá as boas vindas ao Templo

A cor predominante é a cor de barro, que a iluminação trata de tingir, aqui e ali. Mobília patinada em tons pastel….E detalhes encantadores – como a parede que sustenta a bancada do bar – em taipa.

A ambientação é de uma brasilidade rústica, radical. Na vidraça que separa a cozinha, saudações religiosas no maior ecumenismo.

A ambientação é de uma brasilidade rústica, radical.
Na vidraça que separa a cozinha, saudações religiosas no maior ecumenismo.

Além de painéis com frases sobre a Fé, que lembram as célebres pinturas do “profeta” carioca Gentileza (gera Gentileza).

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E a exaltação ao ecumenismo religioso sobeja, exuberante, em grandes imagens de anjos, santos, orixás, divindades hindus, buda…

Jesus, Ganesh, Nossa Senhora Aparecida, Xangô, Santa Bárbara, Oxun, Oxóssi e até Santo Antônio de cabeça para baixo (como fazem as moças casadoiras)...

Jesus, Ganesh, Nossa Senhora Aparecida, Xangô, Santa Bárbara, Oxum, Oxóssi
e até Santo Antônio de cabeça para baixo (como fazem as moças casadoiras)…

O ecumenismo é minha praia. Sou católico. E mariano. Através da maternidade de Nossa Senhora abracei, reconhecido e reverente, a incondicionalidade do amor de meu Deus criador.

Mas sou católico porque fui criado do seio desta igreja, cresci na sua doutrina, cercado por sua iconografia, ritos e liturgia. Nascido fosse em outra cultura religiosa, talvez fosse tão devoto a Deus quanto sou. Só que O chamaria de Jeová, de Alá, Oxalá, Krishna…

Por isso, confio na possibilidade –  e acredito na necessidade – da convivência harmoniosa entre as religiões. E sonho até com um futuro de sincretismo – como já acontece timidamente, no Brasil, entre catolicismo e candomblé (salve, São Jorge!), embora nem sempre “tranquilo e favorável”. Todas, absolutamente TODAS as religiões, monoteístas ou politeístas, pregam o bem e a fraternidade. Falo do Cristianismo, do Judaísmo, do Islamismo, do Candombé & Umbanda, do Hinduismo, do Budismo, Xintoismo, Taoismo…

Ecumenismo I

Seitas demoníacas que brotam no fundamentalismo religioso (jihadistas, TFPs, Kachs) são exceção. São tumores malignos que devem ser quimioterapizados. Porque crápulas e facínoras existem, independente de vínculos religiosos. Esses aí apenas se escoram numa blasfêmia para sua delinquência sicária.

O que explica a diferença entre as religiões é a história e a cultura. As civilizações foram construídas ao longo de milênios, por uma humanidade apartada por distância até recentemente intransponíveis. Há dois mil anos, a Globo não mantinha enviados especiais na China. Há menos de mil, as árduas excursões ocidentais ao mundo árabe, as Cruzadas, focavam, exclusivamente, na dizimação dos mulçumanos. Há menos de 500 anos, a África só era frequentada para o saque de bens e sequestro de mão de obra escrava.

Intercâmbio é conceito muito recente.

Ecumenismo 3

As religiões vicejaram em cada uma dessas sociedades, isoladas umas das outras, a partir de suas culturas, suas próprias visões do mundo. Todas elas, entretanto, reconhecem a existência do Criador, focam na generosidade, na solidariedade e no amor. E reconhecem no mal, na crueldade e na injustiça, o inimigo a ser vencido. Temos isso em comum, mesmo que nossos deuses atendam por nomes e representações diferentes.

Ecumenismo 2

A comunhão entre nós é possível e desejável. Basta ser tolerante. Entender, aceitar e respeitar o diferente. Em religião, o nome disso é Ecumenismo. Como o que nos acolhe, encantador, no Templo do samba, de Murilo, na Moóca.

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A sensação é a de que entramos no miolo de uma escola de samba, desfilando o enredo FÉ. Ao som da batida do samba mandado ver ao vivo por um elenco de bambas.

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Segunda-feira é dia de Arlindo Cruz. Toda segunda. Assim como toda quinta é dia do Príncipe do Pagode, Reinaldo (pagode das antigas – sabe Elizeth Cardoso, Cyro Monteiro? Por aí…). Sábado é a vez da jovem dupla Sall e Almirzinho (filho de Almir Guineto).

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Sem contar as atrações especiais que vira e mexe ocupam o palco e lotam o Templo.

Jorge Aragão, Marcelo D2, Elba Ramalho, Diogo Nogueira...

Jorge Aragão, Marcelo D2, Elba Ramalho, Diogo Nogueira…

Para se “soltar”, a cerveja brilha quase absoluta. Mas os destilados mais quentes também brilham nas mesas, aqui e ali. Vendidos, inclusive, em garrafas fechadas (que para grupos maiores pode sair muito mais em conta). Sem contar as boas criações de Roberto, o barman, digo, mixologista que é o jeito contemporâneo de tratar com respeito os alquimistas dos drinks. Caipirinhas criativas, Margueritas, Mojitos e o moderno Aperol Spritz seduzem o olhar e botam os neurônios para festejar.

Mix Bebidas

E se bater uma larica, consulte o bem-humorado cardápio em forma de missal, ilustrado pelo cartunista figuraça Laerte. Agora, se quer um conselho, vá de caldinho de feijão ou acarajés.

Caldinho de feijão e acarajé, para quando bater a larica.

Caldinho de feijão e acarajé, para quando bater a larica.

Lázaro, o chef da casa, é baiano e sabe o que faz.

Falar de comida é a deixa para destacar um dos pontos altos do Templo: a feijoada. É um dos programaços paulistanos para uma tarde de sábado. Escudado por sua assistente Oneida, o Chef Lázaro brilha, enquanto o samba de qualidade rola solto, com repertório de clássicos que, não deixa ninguém calado (de boca cheia e tudo!).

Chef Lázaro e Oneida no comando da Feijoada,

Chef Lázaro e Oneida no comando da Feijoada,

.Sugiro começar a função com uma dose da ótima cachaça com mel Busca Vida, catarinense, envelhecida em barris de umburana.

Mix Feijoada

Além da cumbuca borbulhante e bem temperada, lotada de bons pertences (costelinha, lombinho…) Vem arroz puxado no alho, tigelinhas de farofa, vinagrete e pimenta, além de uma farta travessa com torresmo (dos bons), couve (podia se cortada mais fininha) e dispensáveis rodelas de linguiça e costeleta de porco (por conta do excesso de óleo que escorre deles).

A hora para chegar é a partir das três. Mas faça reserva para garantir que sua mesa vai estar esperando. Porque lota legal.

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De sobremesa, vá de trio de Erê. Brincalhão e, como criança que é, Erê adora doces.

Arroz doce com doce de leite, doce de abóbora e canjica com paçoca - o trio de Erê

Arroz doce com doce de leite, doce de abóbora e canjica com paçoca – o trio de Erê

Balada para quem gosta de samba, o Templo é de se entrar proclamando Aleluia, deixar-se ficar cantando Hosana e sair gratulando Amém.

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Este post foi patrocinado por Walfredo Dantas, espírito iluminado por Graças e Bênçãos, parceiro de gandaias templárias e amigo do meu bem-querer.