Monte você mesmo

Não sei se em outros lugares é assim, mas em Sampaulo é de rigor: feira, para ser feira, tem que ter pastel. E, do alvorecer ao sol a pino, as barracas armadas em volta do tacho de óleo quente não param de fritá-los. Recheados com queijo, à guisa de café da manhã; com uma gororoba que pretende ser palmito, como merenda; ou, com carne moída, ovo e azeitona, valendo por um almoço. O caldo de cana, parceiro inseparável, é extraído numa kombi ao lado (o seu, é puro ou com limão?).

Tem sempre uma barraca de pastel na frente de uma feira. Ou é o contrário? Tem sempre uma feira atrás de uma banca de pastel.

Tem sempre uma barraca de pastel na frente de uma feira.
Ou é o contrário?
Tem sempre uma feira atrás de uma banca de pastel.

Como é que eu sei? Já sucumbi muito a essa gulodice…. Aliás, já fui à feira apenas pelo pastel. Sem contar as vezes que, ao passar inopinadamente por uma, deixei o destino esperando por conta de um pastel apressado. Avexado, mas sem abrir mão do caldo de cana…

Essa massa frita que esconde surpreendências ou desapontamentos (eventualmente, até, a tapeação oca), preferencialmente estufado (se bem que ser achatado não é o pior dos defeitos) e com a casca quebradiça, crocante (porque molenga é foda), no Brasil, fala um monte de sotaques.

Neto que sou de avó recifense. minha infância conheceu a delícia dos pasteizinhos muito populares em Pernambuco, principalmente em festas. São atufados de carne moída muito temperada e apimentada. Depois de fritos, são passados no açúcar. Bom que só. Gastronomia que cresce rodeada de engenhos dá nisso…!

Pasteizinhos pernambucanos - doce por fora e apimentadinho por dentro. (imagem gentilmente surrupiada do ótimo blog "crônicas gulosas" do gastro-expert Wair de Paula)

Pasteizinhos pernambucanos – doces por fora e apimentadinhos por dentro.
(foto gentilmente surrupiada do blog “crônicas gulosas” do gastro-expert global Wair de Paula)

Mas, aqui em Sampaulo, pastel é pastel de feira. Preparado por pasteleiro japonês.

Dizem que, antigamente, eram chineses os especialistas em pastelaria na cidade. Mas dizem, também, que já eram japoneses, só que disfarçados de chineses. É que, durante a segunda guerra mundial, para fugir da caça-às-bruxas que perseguiu os nativos dos países do eixo inimigo (alemães, italianos e japas), os caras se diziam da China. Olho puxado por olho puxado, eram todos poupados.

Há meio que um consenso de que os pastéis são invenção daquelas bandas de lá, do outro lado do mundo. Se for verdade, o rolinho da primavera é seu ancestral.

Rolinho da Primavera chines.

Rolinho da Primavera chines.

E, no mundo inteiro, praticam-se variações dessa invenção oriental.

Na Andaluzia espanhola, preparam a pastela. Como quase tudo por lá, a começar pela exuberante arquitetura de alhambras e alcazares, é herança moura. No norte da África, o nome é بسطيلة (bastila). É recheado com aves (galinha ou pombo), amêndoas e, como os pastéis pernambucanos, junta doce e salgado.

A Pastila andaluza é preparada tanto grande, para ser servida em fatias, como pequena, triangular, como as esfihas.

A pastila andaluza é preparada tanto grande, para ser servida em fatias,
como pequena, triangular como as esfihas.

No império Otomano, comia-se o börek, recheado com carne. Preparados com massa folhada, continuam muito populares nos balcãs. Vira e mexe vou à Casa Búlgara, no bairro do Bom Retiro, cair de boca nas burekas que lá têm o formato de donnuts, redondas com um buraco no meio.

Börek, como é preparada na Turquia, Croácia, por alí tudo. E sua prima-irmã, a bureka, como é servida na Casa Búlgara, no bairro do Bom Retiro.

Börek, como é preparada na Turquia, Croácia, por ali tudo.
E sua prima-irmã, a bureka, como é servida na Casa Búlgara, no bairro do Bom Retiro.

E os cannoli sicilianos? Tá certo que eles não fecham as pontas antes de fritar a massa…. É por isso que só recheiam depois. Com doce! O original, com pasta de ricota e frutas cristalizadas, é meu preferido. Sou capaz de encarar um jogo do Juventus na rua Javari, na Moóca, só para ficar me entupindo com os doces (recheados com creme ou chocolate) de seu Antônio, o “tio do cannoli”.

Massa frita, recheada de creme doce, o cannoli é invenção siciliana. Tem jogo do Juventua, na Mooca, está lá seu Antônio vendendo sua produção.

Massa frita, recheada de creme doce, o cannoli é invenção siciliana.
Se tem jogo do Juventua, na Moóca, está lá seu Antônio vendendo sua produção.

Ou seja, o pastel nosso de cada feira tem primos espalhados pelo mundo inteiro. Inclusive aqui ao lado, na vizinhança latino-americana. A salteña (ou empanada), o que é que é, se não um pastel de borda caprichada na trança e assado, em vez de frito? Em Sampaulo eles já são arroz de festa, están por todas las partes, para gáudio dos hermanos.

A salteña (ou empanada) dos hermanos vizinhos

A salteña (ou empanada) dos hermanos vizinhos

Até o taco mexicano, se a gente pensar bem, é um primo rebelde que preferiu ficar escancarado só para ser diferente. E como os descendentes dos maias adoram milho, a matéria prima da massa é fornecida pelas espigas.

Taco mexicano

Taco mexicano

Agora que a gente já sabe que nosso pastel de feira tem pedigree e família grande, vamos tratá-lo com respeito!

Foi o que fez Felipe Kravaski.

Felipe Kravaski danto um trato no pastel

Felipe Kravaski danto um trato no pastel


Felipe é maluco por pastel, desde criança (o que não faz tanto tempo assim…). Ainda no colégio, era capaz de gastar sola em busca do pastel perfeito. Graças a isso, descobriu um pasteleiro distante onde o freguês montava o seu próprio recheio. Essa novidade o encantou a ponto de, em pouco tempo, arrastar colegas e parentes para desfrutarem o deleitoso direito de montar cada um seu cada qual.

Em casa, não parava de inventar receitas. E maneiras de otimizá-las. Insatisfeito com a rodela de tomate, por exemplo, que concentrava sua tomatice num único local, inventou de picá-lo. Concassé, o legume distribui seu sabor por todo o recheio (tem gente que garante que tomate é fruta, mas já o imaginou numa salada de frutas?).

Adulto, ao ter que encarar o batente, Felipe foi trabalhar no hotel Fasano.

Mas a alma era de pasteleiro. Só que ele sonhava alto. Como conciliar seus sonhos de sucesso profissional, de ascensão social, com o cacife profissional de um feirante?

Criar um modelo de negócio – com pastéis, claro – com potencial para virar uma franquia era um caminho. Pastel? Com potencial para virar rede? O produto teria que ser diferenciado o bastante para alavancar uma marca. Fora a bala, a grana, a bufunfa para financiar a empreitada.

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Diferenciada, para ele, era a receita do pasteleiro de sua infância: permitir ao freguês montar o recheio de seu pastel.

hotel_fasano_sao_paulo_luxo_7E o faz-me-rir, o dindin? Olha em volta…. Era no hotel Fasano que Felipe cumpria expediente! Seta 1Dinheiro, ali, vaza…

Levou seu projeto ao patrão, Rogério Fasano. O hoteleiro refugou. Seus negócios focavam no consumo de luxo. Comida que seduz seu investimento é trufa, foie gras, açafrão, caviar e carne Kobe – ingredientes que nem aí pra pastéis.

Com emprego bom, seguro, registrado na carteira de trabalho, só lhe restava empurrar o sonho de empreender com a barriga (sempre abastecida de pastel, diga-se).

Até lhe cair nas mãos o best-seller de autoajuda para visionários arrojados, “Pai rico, Pai pobre”, do havaiano mega motivador de audácias, Robert Kiyosaki*.

Depois de ler conselhos como “os vencedores não tem medo de perder; os perdedores, sim” e “o sucesso exige tanto conhecimento técnico quanto ousadia”, Felipe mandou pastar a covardia e, cheio de valentia empreendedora, abriu A Pastella.

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Motivado pelo conterrâneo de Barak Obama (yes, hawaiians, you can!), Felipe instalou seu sonho, há três anos, na Chácara Santo Antônio (alavancada ao status de novo point corporativo de Sampaulo, desde que a avenida Berrini lotou e o consulado americano decidiu se mudar dos Jardins para os fundos do Shopping Morumbi).

Um dia, impaciente que sou para o “tecle 1 para ir para a fila de espera, 2 para ouvir a musiquinha, 3 para sua ligação é muito importante para nós, 4 para a ligação cair, 5 para…. ou 9 para voltar ao menu principal”, decidi ir pessoalmente resolver questões de assinante na sede da NET, ali ao lado. Fui atendido por uma funcionária descoladaça (é agulha no palheiro, mas existe!). Ela solucionou tudo, rapidinho. Na maior empatia com a moça, confiei-lhe minha orexia (padeço da antítese da inanição que aflige as modelos de moda): onde encarar um lanche decente, não estandardizado, nas redondezas? A resposta foi uma pergunta: “o senhor gosta de pastel”? E me jogou nas mãos de Felipe Kravaski.

Conheci o Pastella pouco tempo depois da abertura. Mas já um sucesso. Voltei um par de vezes, embora a localização não faça parte de meus Wazes rotineiros.

O Pastella da Chácara Santo Antônio

O Pastella da Chácara Santo Antônio

De lá para cá, a loja mudou-se para uma casa maior – na mesma rua, sofisticou o visual e já abriu a primeira filial, na praça de alimentação do Morumbi Shopping.

e no Morumbi Shopping

e no Morumbi Shopping

Basicamente, o modus operandi é o seguinte:

São vinte e oito opções de recheio. Divididos em quatro grupos de preço. Além de seis opções de tempero.

A gente preenche a comanda

A gente preenche a comanda # recheios e 1 twmpero.

Você escolhe três ingredientes e um tempero. E o preço será o do ingrediente mais caro.

Mix Preparo

Num dia em que minha alma estava ouvindo Michael Bublé, juntei queijo brie, damasco e bacon (sem tempero adicional para não interferir nesse ménage à trois de personalidades expressivas, mas delicadas). Hummmm, babo só em lembrar.

Já quando meu mood batia cabelo com Robert Plant, taquei calabresa, bacon e alho no meu pastel, sem medo de ser abusadamente rock & roll pesado. Tem pimenta?

Mais de 4 mil (!!!) opções de recheio diferentes, se considerarmos as possibilidades de combinação de 28 ingredientes, tres de cada vez. (se é que eu ainda sei calcular como aprendi, há tocentos anos, nas aulas de análise combinatória)

Mais de 4 mil (!!!) opções de recheio diferentes,
se considerarmos as possibilidades de combinação de 28 ingredientes, três de cada vez.
(se é que eu ainda sei calcular como aprendi, há tocentos anos, nas aulas de análise combinatória)

Admito que sinto falta de ingredientes menos lugar-comum. Mas entendo os condicionantes do negócio. E me encanta a qualidade do que está no cardápio do Pastella. Que começa no óleo da fritura. Lá, só entra canola (será por isso que o pastel está sempre sequinho como um biscoito de polvilho?).

A calabresa, a carne seca e o tomate seco até surpreendem pela excelência.

E sobram detalhes cativantes: a opção de massa integral, os pastéis veganos, as embalagens para viagem planejadas para não “amolecer” o pastel (eu testei e demorou quase duas horas até começar a perder a crocância), o programa de fidelidade que premia com vidros de “biscoitos” de massa envoltos em açúcar e canela…

Massa branca ou integral, embalagem que preserva a crocância, brinde para cliente fiel e pastel vegano.

Massa branca ou integral, embalagem que preserva a crocância, brinde para cliente fiel
e pastel vegano.

Esse cuidado é estratégico, planejado por Felipe que é um cara em dia com as melhores práticas do ganha-pão suado e honesto.

Proporcionar o deleite de montar o próprio recheio e ingredientes de qualidade fazem parte do mesmo foco: mais do que comida, o que o Pastella oferece é uma experiência gastronômica diferenciada. E, para isso, lança mão do prosaico e popular pastel.

E ele nem estudou na ESPM, a Escola Superior de Propaganda e Marketing. Mas oferecer experiência prazerosa, em vez de apenas vender produtos, é um dos pilares do marketing contemporâneo.

As opções doces seguem o mesmo jeitão do-it-yourself dos salgados. Treze opções de recheio, que vão de doce de banana a chocolate belga, passando por amendoim, coco ralado, morangos e a indefectível Nutella. Com possibilidade de serem servidos com uma bola de sorvete, tipo petit gateau. Ou seria petit pastelau?.

pastella

E ainda tem micro pastel, do tamanho de um ravióli, servido em porções de 24. Eu já vi crianças, no Morumbi Shopping, encantadas com as miniaturas. E, cá entre nós, uma cervejinha desce redonda com uma companhia destas (mesmo que não seja skol)…

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Para quem faz a linha “tanto faz” – conhece o tipo? “Quer ir pescar ou bater bola”? “Tanto faz”… “ “Desfile de Escola de Samba ou concerto lírico?” “Tanto faz”… – para esses que não estão muito dispostos a tomar as rédeas na mão, o Pastella oferece a opção de combinações de recheios já prontos. São mais baratos (já estão prontos, mesmo) e um tiquinho mais rápidos. Por isso foram batizados de Expressos. São oito opções.

São os usados nos Combos – que podem incluir, por exemplo, um pastel salgado, um doce e um caldo de cana.

Por falar em caldo de cana – puro, com limão tahiti ou com limão siciliano, É aí que mora meu dissabor com o Pastella. O caldo é legal, normal. O limãozinho, na medida. Mas o copo…! Primeiro que só tem um tamanho – sempre pequeno para minha sede. Até aí, eu nem reclamaria. Trato logo de pedir dois, três… Mas aquele copo de plástico molenga de bebedouro de sala de espera de consultório? Qualé? A experiência diferenciada tropeça no detalhe. Tá bom, que seja de plástico. Mas que seja daqueles mais firmes, transparentes (acho que chamam cristal, no comércio). É mais decente, confortável de segurar…

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Para encerrar, que tal um cafezinho? Pena que só seja servido na loja da Chácara Santo Antônio. É da Nespresso e vem acompanhado de um mimo: Um micro pastel Romeu & Julieta.

O café da Nespresso traz um mini pastel de goiabada com queijo de brinde.

O café da Nespresso traz um mini pastel de goiabada com queijo de brinde.

É… Pastel chic é outra coisa. Duvida você já está elaborando sua combinação de recheios, né? Viu como é legal…

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* eu sempre me surpreendo com a capacidade pseudo neurolinguística desses alinhavadores de lugares-comuns em fazer a cabeça alheia (embora ainda prefira considerar essa ciência um braço comercial da semiologia – que é menos superficial, mais abrangente e criativa).

Este post foi patrocinado por Cila e Walfredo Dantas, avós de Guilherme (eita menino bom de vô e vó!). Eles me acompanharam, recentemente, em peregrinação pelos pastéis paulistanos.

É privado, mas a alma é pública.

A imigração nordestina deu um tempo, arrefeceu. Se andamos pela rua Prates, entretanto, no bairro do Bom Retiro, o que mais se vê são jovens chegados há alguns meses, no máximo poucos anos, da Coréia. O Glicério ferve de haitianos e africanos que ainda mal falam português. Árabes e europeus do sul continuam desembarcando…

Esse caldeirão de culturas, tudo junto e misturado, é o maior tesouro de Sampaulo. Sonhos em construção, resiliência, arte vicejando em todos os sotaques, diversidade!

Sobretudo por isso, a cidade me inspira o tempo todo.

Embora intolerância mal-humorada e violenta, serviços públicos deficientes e mal direcionados e selvageria concorrencial na luta pela sobrevivência pelejem para me desencantar, acabrunhar, intimidar, reprimir e travar.

Nessas horas, minha terapia é correr para um SESC. Uma das raras instituições paulistanas focadas na valorização do ser – e não do ter. Por isso os SESCs são inspiradores. Alentam, incentivam, estimulam, encorajam, fomentam, açulam o que há de melhor em nós.

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O SErviço Social do Comércio é uma instituição privada, septuagenária, mantida por empreendedores do comércio: vendedores de bens e serviços (inclusive saúde, cultura, turismo e restaurantes). Graças a ela, as lacunas vazias pela omissão do Estado – em cultura, recreação e lazer, cursos e oficinas, equipamentos esportivos e, até, assistência odontológica – são preenchidas com competência e talento. E com desvelo todo especial para com crianças e idosos.

Seu mandachuva regional, há trinta e dois anos, é Danilo Miranda.

Danilo Miranda - ex seminarista, filósofo e sociólogo

Danilo Miranda – ex-seminarista, filósofo e sociólogo

Ele merece essa longevidade no cargo. Tenho para mim que o cara é louco pelo que faz. Não perde o foco, tem talento para sonhar adiante do óbvio e competência para contornar o impossível. Ou seja, nasceu para fazer isso. Não tem porque mudar o comando se o objetivo for renovar, arejar e coisa e tal. Afinal, ele é o próprio abanador da acomodação, inventa moda em modo moto-contínuo…

Comecei a frequentar o SESC, o da rua Dr. Vila Nova, entre a rua Maria Antônia e a rua Major Sertório, na Vila Buarque (hoje se chama SESC Consolação), bem antes de Danilo Miranda assumir o volante, ainda na década de 70. Ia jogar voley, com o pessoal da MPM (meu engatinhar publicitário foi lá, na então maior agência de propaganda do Brasil, situada a dois quarteirões de distância). Tínhamos quadra reservada, na hora do almoço. Vira e mexe rolava uma piscina depois da bola.

Teatro SESC Anchieta, década de 70

Teatro SESC Anchieta, década de 70

 

 

 

E foi no teatro de lá, o Anchieta, que assisti – ainda adolescente – à primeira peça de teatro em Sampaulo: “A Capital Federal” (todo gabola de encontrar, na metrópole, o texto de um conterrâneo maranhense – Artur Azevedo – sendo encenado).

À época, já existiam outras unidades funcionando. Uma no centrão antigo da cidade, ao lado da praça da Sé, o SESC Carmo.  E outra pra lá do distante autódromo, que funcionava como Clube de Campo, o SESC Interlagos. Ahhh, o CineSESC (aquele com um bar envidraçado no fundo da plateia, de onde se pode ficar assistindo o filme e comendo e bebericando tudo ao mesmo tempo), na rua Augusta, também é das antigas.

Bar do CineSESC

Bar do CineSESC

Anos depois, enquanto morei em Curitiba, inauguraram o SESC Pompéia, fruto de projeto abusadamente arrojado de Lina Bo Bardi. Foi um marco na história do SESC – e da cidade. E permanece como referência (até além-fronteiras do Brasil), de adaptação arquitetônica em prédios históricos. No caso, adaptação de antigos galpões fabris em espaços multiuso com pegada cultural e esportiva.

SESC Pompéia - projeto extaordinário de Lina Bo Bardi Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

SESC Pompéia – projeto extaordinário de Lina Bo Bardi
Alameda principal, arquitetura ousada da área de esportes, teatro e área de convivência

Ou seja, quando Danilo Miranda assumiu o SESC, já havia um ponto de partida consistente. Mas ainda engatinhando, quando comparado com o que isso se transformou passadas três décadas.

Há alguns anos (Três…? Quatro…?), no começo de uma noite fria, eu e um amigo trafegávamos pela rua Bom Pastor, bairro do Ipiranga, no rumo do centro, a caminho de uma Virada Cultural. O sinal vermelho da esquina da rua dos Patriotas nos reteve o tempo suficiente para…. Cacete! À nossa esquerda, uma arquibancada toda ocupada por pessoas de…. Gelo! Enquanto outras, vivinhas e encantadas da silva, de celular em punho, observavam e fotografavam a plateia enregelada.

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O sinal abriu e, já decididos a estacionar e ir descobrir do que se tratava, ao tentarmos dobrar na rua dos Patriotas para catar onde parar, fomos impedidos pelo bloqueio de cavaletes. E…. Cacete de novo! Lá adiante, no meio do quarteirão, no meio do asfalto da rua, uma tela de cinema estava armada e exibia um filme para uma plateia acomodada, no maior conforto, em puffes “pingo” (aqueles grandes sacos de couro no formato de um pingo, com enchimento de bolinhas de isopor, que se moldam ao corpo).

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Foi assim, de surpreendência em surpreendência, que eu descobri o SESC Ipiranga, durante a sua programação – que vara a madrugada – de uma  Virada Cultural.

Como Sampaulo é arrebatadora! E como o SESC dá uma mãozinha nessa aptidão para encantar…

Quais eram minhas expectativas em relação ao bairro do Ipiranga, até então? Não mais do que “ desse mato não sai coelho”, ou seja, nenhuma. Até tropeçar no SESC assentado lá.

Eu já fora ao museu/palácio que celebra o 7 de setembro, apreciara o bem cuidado jardim/esplanada e seu rebuscado monumento. E contemplara o célebre mural do Independência ou Morte, pintado por Pedro Américo (numa exagerada fantasia épica do brado de Dom Pedro). Além disso, apenas quinquilharias. Eu ficara com a sensação de que tudo não passava de cenografia imponente; muito glacê para pouco recheio. Dera por visto.

Museu-Paulista

Até o famoso camarão à provençal, que me arrastaram algumas vezes a cruzar a cidade até o restaurante La Paillote, no final da avenida Nazaré, já migrara para os Jardins.

O Ipiranga, rico de histórias para contar e carente de presente para mostrar, virara só passagem – se o Waze assim o determinasse.

Naquela noite de Virada, a vasta programação de shows e tudo o mais no centro da cidade teve que começar sem minha presença. Eu estava ocupado redescobrindo o bairro. E a porta de entrada foi o SESC Ipiranga.

A tal arquibancada de homens de gelo era uma intervenção da artista Néle Azevedo, ocupando a escada de acesso. Entramos. Lá dentro, performances no hall, mais intervenções artísticas na área de convivência e, nos fundos, um grande jardim, apinhado de gente esparramada para todo lado, assistindo vídeos, fazendo música, comendo e bebendo; confraternizando. Em volta de uma grande claraboia envidraçada, elíptica, abaulada (sabe um casco de tartaruga?) – que depois eu descobri ser a cobertura da piscina.

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De lá pra cá, nunca mais deixei de ir ao SESC Ipiranga.

Um de meus primeiros encantamentos foi a localização. Ocupando uma esquina, o prédio, moderno, divide o cruzamento, com três palacetes surpreendentes. E, nos fundos, é vizinho de muro do Parque do Idependência e do palácio/museu. Tipo um entorno que transpira nobreza. Decadente, mas, ainda assim, ostentando priscas fidalguias.

O prédio, moderno, e seu entorno "fidalgo"

O prédio, moderno, e seu entorno “fidalgo”

Descobri, surpreso pois o imaginava mais recente, que ele já existe a beira vinte e cinco anos e que seu bem elaborado projeto foi criado pelo arquiteto Julio Neves (reparando bem, tem o mesmo DNA do supermercado Santa Luzia, na alameda Lorena, também saído de sua prancheta).

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A relevância cultural dos quinze SESCs de Sampaulo começa aí, no projeto. Sempre entregue a arquitetos, se não famosos, selecionados pelo talento em somar beleza, inovação e funcionalidade, com soluções que promovam a integração entre os usuários de seus muitos equipamentos, a socialização, a inclusão e a acessibilidade.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro e, em construção, Paulista.

Alguns SESCs de Sampaulo: Pinheiros, Bom Retiro, Belenzinho, Santana, Santo Amaro                  e, em construção, Paulista.

Em todas as unidades, os equipamentos esportivos atraem, compreensivelmente, sobretudo usuários da vizinhança.

Já a programação cultural, essa arrasta público de bairros distantes e até de outras cidades. Eu mesmo, sou frequentador contumaz de shows, espetáculos teatrais e exposições nos SESCs Pinheiros, Vila Mariana, Consolação, Pompéia, Belenzinho, Bom Retiro e Santo André. Mas o SESC Ipiranga – e talvez por isso eu o não tenha percebido antes – sempre focou a sedução de suas atrações nos moradores da região. Era muito mais provável encontrar alguém do bairro do Ipiranga participando de um evento no SESC Pinheiros do que vice-versa.

Essa escrita começou a ser reescrita a partir do ano passado, com alguns projetos de enorme repercussão. Eles colocaram o SESC Ipiranga no radar da elite cultural da cidade:

Viveiros de Castro” (várias atividades, de shows a exposição fotográfica, numa espécie de tributo a um dos maiores antropólogos brasileiros);

Eduardo Viveiros de Castro - Exposição, Música, Performance... No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo, na abertura do projeto.

Eduardo Viveiros de Castro – Exposição, Música, Performance…
No alto, à direita, José Celso Martinez Correia, Danilo Miranda e o célebre antropólogo,                 na abertura do projeto.

70 anos sem Mário de Andrade” (com múltiplas atividades, sobretudo teatrais, focadas na obra literária de um dos maiores escritores – e intelectuais – de Sampaulo e do Brasil);

"Manuela" e "O Ó da Viagem", pelo grupo teatral Companhia do Feijão foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

“Manuela” e “O Ó da Viagem”, pelo grupo teatral Companhia do Feijão
foram apresentadas durante o Projeto 70 Anos sem Mário de Andrade

ESPANCA! 10 anos” (retrospectiva com a remontagem de quatro peças do premiadíssimo  grupo teatral mineiro);

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

O ótimo grupo de teatro mineiro ESPANCA! celebrou 10 anos
com a apresentação de quatro peças no SESC Ipiranca

Lira Paulistana: 30 Anos” (diversos shows que resgataram um movimento cultural divisor de águas, que fez história no teatro improvisado num subsolo, na praça Benedito Calixto, e reuniu a vanguarda artística de Sampaulo da década de 80);

O Projeto "Çira Paulistana: 30 Anos" promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti, Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo... Além de debates e exibição de filmes.

O Projeto “Lira Paulistana: 30 Anos”
promoveu shows com alguns dos artistas que aconteceram nesse movimento da vanguarda musical paulistana: Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Luiz Tatit, Ná Ozetti,                         Premeditando o Breque, Ratos de Porão, Cida Moreira, Tarancon, Língua de Trapo…
Além de debates e exibição de filmes.

#ForadeModa” (com curadoria de Fause Haten, estrela maior do universo fashion e multi-artista, está em sua segunda fase e reúne de exposições artísticas a atelier de costura criativa, tudo com o vestir como pano de fundo).

"A Feia Lulú", performance do multiartista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

“A Feia Lulú”, performance do multi-artista e curador do Projeto #ForadeModa, Fause Haten

Um dos segmentos do projeto, batizado por Fause de “Lili Marlene” incluiu o desfile do estilista na última São Paulo Fashion Week, realizado no Parque do Museu do Ipiranga, vizinho ao SESC Ipiranga. Em vez de modelos vivos, Haten usou manequins de vitrine sobre rodinhas, todos com a fisionomia da atriz alemã Marlene Dietrich. Ele definiu assim o que apresentou: “O Desfile Marlene não é moda, mas está à venda e pode ser vestido; não é teatro, mas pode ser assistido e não é obra, mas pode ser contemplado”.

Alguns dos artistas que participam do projeto "#ForadeModa", atelier de costura "inventiva" orientado pelo estilista Renato Dib e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns dos artistas que participam do projeto “#ForadeModa”,                                                    atelier de costura “inventiva” orientado pelo estilista Renato Dib
e manequins que participaram do desfile da São Paulo Fashion Week, em exposição no SESC Ipiranga

Alguns artistas plásticos e coletivos de artistas foram convidados por Fause Haten para criar obras para exposição durante a realização do projeto.

Trabalhos de Adriana Yazbek

Trabalhos de Adriana Yazbek

e obras de

e obras de Karila Girotto, Laerte Ramos, Casa Juisi, Fernanda Yamamoto…

Antes disso, coisa de um ano antes, durante uma grande reforma no prédio, as atividades do SESC Ipiranga foram transferidas provisoriamente para um casarão antigo. Todo ambientado com surpreendente criatividade.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014, foi extremamente sensível às características do lugar. Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

A ambientação da ocupação provisória, em 2014,                                                                                   foi extremamente sensível às características do lugar.
Criativa e talentosa. Primorosa, até nos detalhes.

Na mesma rua, meio quarteirão adiante. Tudo que acontecia lá passou a ser divulgado com a chamada “É logo ali”. E o bordão pegou, conquistou a mídia que passou a divulgar as atividades com uma intensidade até então inédita. A ousadia da iniciativa e de sua programação que se aproveitou com extraordinária sensibilidade curatorial das características cenográficas do local, já haviam despertado a atenção da nata mais antenada da cultura paulistana.

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga não sofreram solu~]ao de continuidade durante o "É Logo Ali". Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local. Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias, shows musicais (inclusive um com a ótima cantora)

As atividades artísticas e culturais do SESC Ipiranga
não sofreram soluçãoao de continuidade durante o “É Logo Ali”.
Apenas foram planejadas para melhor aproveitamento da ambientação do local.
Performances, espetáculos teatrais, leituras dramáticas e literárias (Elke Maravilha arrasou), exposições, shows musicais (inclusive um, delicioso, com a surpreendente Flavia Bittencourt)

Uma atividade iniciada na sede interina, no “É logo ali”, foi tão bem-sucedida que, concluída a reforma, continuou a acontecer na sede. É o adorável “A Cozinha da Doidivana”, em que a escritora, socióloga e cozinheira Ivana Arruda Leite recebe escritores para um bate-papo enquanto prepara um jantar. Com direito a audiência – restrita a pouquíssimas pessoas, instaladas em mesas arrumadas para comer. No final todos participam do regabofe.

Não é fácil conseguir ingresso para "A Cozinha da Doidivana". Mas vale o esforço. Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos. Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá: Antonio Prata, Marçal Aquino, e o imprescindível Laerte.

Não é fácil conseguir ingresso para “A Cozinha da Doidivana”. Mas vale o esforço.
Ivana é uma figura, a comida que ela prepara é ótima
e o clima descontraido deixa os convidados tão à vontade
que a conversa rola solta e rica, como se estivéssemos mesmo num jantar entre amigos.
Olha só alguns dos convidados que já passaram por lá:
Antonio Prata, Marçal Aquino, Reinaldo Moraes. Joca Reiners Terron e o imprescindível Laerte.

Por falar em comida, a única atividade que deixa a desejar no SESC Ipiranga é a Comedoria – que é como chamam a lanchonete. É bem instalada, agradável e confortável, com louças e utensílios transados. Mas a comida não passa do sofrível e, não raro, é intragável.

Comida também é cultura. Não é apenas um detalhe de menor importância, uma obrigação da qual temos que nos desvencilhar para cuidar das questões maiores, mais importantes. Não somos primatas. Durante milênios aprimoramos o comer até transformar essa exigência de sobrevivência em atividade prazerosa, fonte de emoção. Alçada ao patamar de atividade cultural.

Tratar uma comedoria como se fosse um vestiário, um banheiro, cuidando apenas de mantê-lo higienizado, bem equipado e “saudável” não combina com a civilidade que o SESC demonstra em todas as suas outras iniciativas. Ração é racional demais para quem – como Danilo Miranda – percebe que as pessoas são mais do que ferramentas produtivas.

Coisa que me irrita, manda meu humor para as cucuias, é frustrar meu apetite. Escolher um de comer, encher meu paladar de expectativa e, depois, desapontá-lo. Como aconteceu no SESC Ipiranga. E ainda ter que desembolsar por isso! Eu não gosto de ser tratado como panaca…

E não adianta vir com o argumento de que é barato e por isso… Dá para cozinhar decentemente com orçamento baixo. Preparar quitutes interessantes com os mesmos ingredientes que usam para fazer aquelas porcarias! Até concordo que comida boa é comida nutritiva e balanceada. Mas comida boa é, também e sobretudo, comida saborosa. Preparada com talento, desvelo, paciência, carinho…E respeito por quem vai comer.

A elite gastronômica, exigente não frequenta a Comedoria do SESC Ipiranga. O lugar está sempre lotado de gente que não se importa de comer mal. Está habituada e sequer sabe que pode tirar prazer do comer. Mas isso não justifica. Aplaca a má consciência dos administradores, mas não é desculpa. Até porque o cardápio de opções culturais, esportivas e de lazer oferecido pelo SESC também não fazia parte do hábito de consumo de quem passou a se servir dele, desde que passou a frequentar o SESC.

Essa falta de exigência do público em relação a cultura e equipamentos esportivos não impediu que Danilo Miranda e seus comandados nadassem contra a maré e oferecessem qualidade a sua clientela. Pelo contrário. Motivou-os a caprichar. Tacaram Viveiros de Castro, Mario de Andrade, Fause Haten, grupo ESPANCA e que tais na moleira do lugar-comum que o assistencialismo clientelista costuma servir à plebe rude e ignara! Viva o SESC por isso!

Porque, com comida, é diferente?

Fico olhando para os atendentes da Comedoria com dó. Seus colegas que trabalham nas outras atividades do SESC sentem que fazem algo relevante, digno, louvável. Eles, não. Podem até não ter consciência de que sua energia produtiva é dispendida com irrelevâncias. Mas, com certeza, não desfrutam do mesmo sentimento de orgulho funcional que anima os que trabalham no teatro, na piscina, nas oficinas, no jardim… Estes, mesmo que não racionalizem isso, sentem que contribuem para a dignificação da condição humana.

A Comedoria é legal. Simples e comfortável. E a área externa é muito aprazível.

A Comedoria é legal. Simples e confortável.
E a área externa é muito aprazível.

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão intragável como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na "Tigela". Quanto à "refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquina com três queijos é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram...). Salva-se - e olhe lá - a saladinha e o suco de uva de caixinha. é uma massa

Mas, entre as opções salgadas, faz tempo que não boto na boca algo tão disgusting                      como os dois equívocos lá de cima: Pastel (?) de Carne Seca com Abóbora e Kibe (?) na “Tigela”.
Quanto à refeição em si, o bife é uma sola salgada, o nhoque de mandioquinha com três queijos    é uma massa pesadaça coberta por um mingau de farinha de trigo (mandioquinha e queijos, ó, deram uma passadinha, mas nem entraram…).
Salva-se – e olhe lá – a saladinha e o suco de uva de caixinha.
O que dá para encarar, com muita fome, é o Escondidinho de Frango.

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora. O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável. Ahhh, repare da simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas...

O capítulo de doces, embora não surpreenda, pelo menos não é dinheiro jogado fora.
O café com uma fatia de bolo de iogurte é bem razoável.
Ahhh, repare na simpatia dos suportes de avisos que povoam as mesas…

Ainda no capítulo comida, foi o SESC Ipiranga que lançou em Sampaulo a moda dos jantares “no escuro”, de olhos vendados. Na época do “É logo ali”.

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Os equipamentos esportivos, inclusive a piscina, são de uso restrito de comerciários (na ativa ou aposentados do comércio). Assim como o serviço odontológico e as diversas oficinas de artes, trabalhos manuais e informática. Nesses casos, há a chance de, sobrando vagas, serem admitidos “intrusos”.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal. Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A piscina do SESC Ipiranga é bem legal.
Com destaque para a grande clarabóia e a estrutura que garante acessibilidade.

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes. Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais. Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio...

A estrutura esportiva e sua programação de atividades, no SESC Ipiranga, são surpreendentes.
Inclusive para idosos, crianças e portadores de necessidades especiais.
Sem contar a sedução de ações como o Dia do Desafio…

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites. Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas), passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..), E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

E a variedade de opções de cursos e oficinas, então? Não tem limites.
Vão de um monte de aplicações para a informática (inclusive artísticas),
passam por atividades artesanais (jardinagem, macramê, machetaria, encadernação..),
E Arte. Já rolou até oficina de grafite e animação cinematográfica em stop-motion.

Outras atividades de lazer e a programação cultural, entretanto, são abertas a todos. Exposições são de livre e gratuito acesso. A maioria dos espetáculos – teatro e shows, entretanto, é paga (com ingressos super em conta para os trabalhadores do comércio). É que os artistas recebem cachês; independem da bilheteria. Isso faz do SESC um dos grandes investidores na produção cultural de Sampaulo (sem contar as atrações que traz de fora – de outros estados e até do exterior).

Saca só alguns dos eventos que rolaram no SESC Ipiranga desde que eu comecei a frequentar a rua Bom Pastor (é só uma fração diminuta de uma programação intensa e rica, com curadoria que sempre enfatiza qualidade e relevância cultural):

Teatro

São dois espaços: uma sala maior, confortável e bem equipada, com duzentos lugares e um recinto diminuto, para vinte e poucas pessoas – e olhe lá… Mas que tem abrigado ótimos espetáculos intimistas, a maioria monólogos. Assisti lá a emocionante interpretação de “O Porco”, por Henrique Schafer. Brilhantes, ator e texto.

Um monólogo extraordinário: "O Porco", com Henrique Schafer

Um monólogo extraordinário: “O Porco”, com Henrique Schafer

E, no maior, vi um intrigante espetáculo com Débora Falabella sobre adoção, duas ótimas montagens do grupo Espanca, um surpreendente Domingos Montagner fazendo “Mistero Buffo”, os extraordinários “Aldeotas” (com o grande Gero Camilo), “Cais ou A Indiferença das Embarcações” (com a Velha Companhia de Teatro) e Alessandra Negrini – num espetáculo pouco lisonjeiro para com a saga colonizadora dos bandeirantes (esse, confesso, achei bem chatinho) …

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta. Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos...

O teatro do SESC Ipiranga mantem programação ininterrupta.
Estas são, apenas, algumas das atrações dos últimos anos…

Shows

Acontecem no teatro, no ginásio, na área externa e, até, no vizinho Parque do Independência… Já, já, rola um show na piscina.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e - saudade... - Naná Vasconcelos. Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Alguns shows inesquecíveis: Jorge Mautner, o surpreendente duo Criolina, Otto, a diva Elza Soares, Dori Caymmi, a adorável Pianorquestra, Marcelo Jeneci e os percussionistas pernambucanos Repolho e – saudade… – Naná Vasconcelos.
Só um aperitivo da programação musical do SESC Ipiranga.

Exposições

Não existem fronteiras para a programação de Artes Visuais do SESC Ipiranga. Do grafite aos suportes tradicionais – pintura, gravura… Passando por projeções noturnas (as fisionomias estampadas na vegetação da ocupação “É Logo Ali” faziam muita gente pegar o carro só para passear por lá), pela exposição interativa de Athos Bulcão (até as crianças adoravam), as muitas instalações (inclusive as que usavam os quartos do casarão ocupado em 2014 (como a que contava a história do Grupo Lume)… Quando entrei lá pela primeira vez – naquela Virada Cultural, lembra?, a grande parede curva e a área de convivência estavam ocupadas pela exposição “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi. Fiquei completamente de quatro, a-pai-xo-na-do!

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga. Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação "É Logo Ali" (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora de "Memórias Insulares" da artista Érika Kaminishi.

Algumas das exposições recentes que ocuparam o SESC Ipiranga.
Inclusive as já citadas: das projeções noturnas na vegetação da ocupação “É Logo Ali”                    (lá em cima), até a intervenção na área de convivência e as obras arrebatadora                               de “Memórias Insulares” da artista Érika Kaminishi (nas duas imagens da base).

Deu para sentir porque o SESC aqui em Sampaulo é essencial?

E olha que eu só falei do SESC Ipiranga, que nem é o mais buxixado da cidade…!

Isso tudo estaria acontecendo sem Danilo Miranda à frente do SESC? Com essa qualidade e abrangência de conteúdo, esse primor de produção, essa excelência técnica? Duvide-ó-dó!

Sabe o ditado que credita a engorda do rebanho ao olho do dono?

Pois eu já cruzei algumas vezes com ele em diferentes eventos do SESC. Circulando, assistindo espetáculos, conferindo tudo. Anonimamente, com o seu jeitão de Gepeto acompanhando o passo a passo de Pinocchio.

Inclusive na apresentação de um luthier cearense que usa matérias primas alternativa, no SESC Consolação, num show da extraordinária Luciana de Souza, no SESC Belenzinho, numa encantadora apresentação de “Os Gigantes da Montanha” de Pirandello, pelo grupo mineiro Galpão, num Festival de Teatro de Rua promovido pelo SESC…

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC, no meio do público que assistia ao deslumbrante "Os Gigantes da Montanha, do Grupo Galpão de Belo Horizonte, olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto: o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Durante uma Mostra Internacional de Teatro de Rua, promovida pelo SESC,
no meio do público que assistia ao deslumbrante “Os Gigantes da Montanha”,                                  do Grupo Galpão de Belo Horizonte,
olha só quem estava lá, ao lado da diretora do SESC Ipiranga, Monica Carnieto:
o responsável por tudo isso, Danilo Miranda.

Essas horas, fico de olho nele, num misto de admiração e gratidão pelo que sua gestão proporciona a minha Sampaulo.

Vida longa, Danilo!

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