Pode entrar que a mesa é sua

Pense numa cobra enorme, uma sucuri gigantíssimamente avantajada, serpenteando, se esgueirando no meio de troncos. Pronto! Você pensou no edifício Copan.

Planta baixa de um andar tipo do Copan

Planta baixa de um andar tipo do Copan

O prédio é um dos meus ícones prediletos de Sampaulo. O único que é residencial entre os edifícios que são marca registrada da cidade. O Banespa sempre foi comercial. O Martinelli já foi moradia, mas não é mais. E o belíssimo Vitra, no Itaim, ainda não tem tempo de vida suficiente para ser referência paulistana. Eu até acho que o edifício Viadutos, que domina a avenida São Luís a partir da esquina da rua Santo Antônio com o viaduto Maria Paula, obra do hoje cult “arquiteto” autodidata Artaxo Jurado, também é símbolo da minha Sampaulo. E é residencial. Mas, reconheço que está um degrau abaixo no patamar de relevância se comparado com o Copan.

Edifícios Banespa, Martinelli, Vitra e Viadutos - ícones de Sampaulo

Edifícios Banespa, Martinelli, Vitra e Viadutos – ícones de Sampaulo

E não é, apenas, porque o Copan é criação do gênio Oscar Niemeyer. Mas o desenho, simples e cabal (no sentido de pleno, de bastante, de irretocável), é tão brilhante (considerando, inclusive, seu jeito harmonioso de se fincar ali, nos incitando a curiosidade do revela-esconde “onde começa, onde acaba”). Do chão, em lugar algum se consegue vê-lo de ponta a ponta. Só trechos de seu perfil sinuoso.

Rascunho original de Niemeyer

Rascunho original de Niemeyer

Entre duas e quatro mil pessoas moram ali (há quem fale em seis mil !), “perdidas” em suas curvas. Em vastos apartamentos de centenas de metros ou em exíguas kitchenettes. Que reúnem, no mesmo número 200 da avenida Ipiranga, de burgueses conservadores (e abonados) a travestis transgressores. E muitos, muitos artistas de todas as artes. Evangélicos e gays, coxinhas e petralhas, paulistanos e imigrantes dos quatro cantos do mundo, todos convivendo em surpreendente harmonia. Evidente que, de vez em raro, rolam barracos (que vizinhança está vacinada contra quebra-paus e bate-bocas?), mas o estresse não é comum. Façanha também dos muitos blocos sem comunicação interna, servidos por diferentes acessos e portarias, que meio que separam as unidades por tamanho. E de um estatuto comportamental e segurança rigorosos. Afinal, seus mais de dois mil apartamentos ostentam o metro quadrado mais caro da vasta região central e altas taxas de condomínio – que o preservam sempre nos trinques.

O Copan está celebrando 50 anos!

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Cinco décadas do “habite-se”, outorgado em 26 de maio de 1966. Alcançado depois de mais de dez anos de construção atribulada. E festejado, à época, como uma conquista épica pelos milhares de proprietários. Afinal, fora concebido para marcar o quarto centenário da cidade, acontecido doze anos antes. Ou seja, as promessas sempre adiadas de ampliação da malha metroviária de Sampaulo tem para quem puxar…

Anúncio publicado à época da construção. O "Rockfeler Center de São Paulo"

Anúncio publicado à época da construção. O “Rockfeler Center de São Paulo”

Para variar, também está atrasado o restauro do Copan. Que deveria ter sido inaugurado, com toda a sua cobertura de pastilhas recuperada, na celebração do cinquentenário. A um custo de mais de vinte milhões de reais. Mas cadê que existe ao menos previsão de término? O microladrilhado continua banguela. Até a tela de proteção da obra, que vestiu o edifício inteiro de azul real esfuziante, já está desbotada. E nada.

O Copam, vestido para "pástica" restauradora, em foto extraordinária de RenattodSouza. Graças à cor da "roupa" provisória, suas formas sinuosas são valorizada.

O Copam, recém vestido para “pástica” restauradora,
em foto extraordinária de RenattodSousa.
Graças à cor da “roupa” provisória, suas formas sinuosas são valorizada.

A roupa, desvanecida, escode um dos mais encantadores atavios (estrutural?) inventados por Oscar Niemeyer: as “caixas” que resguardam a fachada oeste do sol poente; como que um gradil gigantesco de concreto que funciona como brise-soleil e protege a privacidade sem o recurso de cortinas. É um dos detalhes mais fascinantes do Copan.

Os célebres caixilhos, parapeitos, brise-soleil (ou seja lá que nome tenham). Em visão de perfil da fachada, de dentro de um apartamento com a cidade lá embaixo e, embaixo, em ensaios fotográficos feitos por moradores: à esquerda, do fotógrafo Fábio da Motta; à direita, do estilista e personalidade da vanguarda paulistana Walerio Araújo.

Os célebres caixilhos, parapeitos, brise-soleil (ou seja lá que nome tenham).
Em visão de perfil da fachada e de dentro de um apartamento com a cidade lá embaixo.
Embaixo, ensaios fotográficos feitos por moradores: à esquerda, do fotógrafo Fábio da Motta;
à direita, do estilista e personalidade da vanguarda paulistana Walério Araújo.

Quer outros?

Os elevadores atendem a dois andares ao mesmo tempo. Quando apertamos o botão do 29º, no elevador (são 36 andares), acendem o 29 e o 30 ao mesmo tempo. E ele sobe até um estágio intermediário entre os dois. Do hall, saem duas rampas, leves. Uma sobe ao 30, outra desce para o 29. Ou seja: apenas metade das paradas, mais rapidez e…. Um charme a mais. Além dos corredores curvos…

Rampas de acesso aos andares, a partir do hall dos elevadores e corredores sinuosos do Copan

Rampas de acesso aos andares, a partir do hall dos elevadores
e corredores sinuosos do Copan

O térreo é compartilhado por mais de 70 lojas. De botecos a cabeleireiros. De galerias de arte a uma igreja evangélica. Esta, ocupa o espaço que, durante décadas, foi do Cine Copan. Um dos melhores de Sampaulo. Vi filmes memoráveis lá. O último foi o Dracula de Coppola (Anthony Hopkins, Winona Ryder, Keanu Reeves e a caracterização extraordinária de Gary Oldman como o conde). Era enorme, como os cinemões antigos. E a tela era das maiores que já houve por aqui. Quando penso nele, me vem um vermelhão na cabeça. Do carpete às poltronas de espaldar alto, tudo era rubro. Futurista que só, para a época. E muito confortável.

À esquerda, entrada do Cine Copan e a olatéia vermelha. À direita, vitrine, hoje, no térreo, exibe memorabilia da obra. E uma sedutora maquete de volumetria da região.

À esquerda, entrada do Cine Copan e a olatéia vermelha.
À direita, vitrine, hoje, no térreo, exibe memorabilia da obra.                                                               E uma sedutora maquete de volumetria da região.

Recomendo duas “lojas”, ambas voltadas para a parte externa do prédio.

Uma é o Dona Onça, um dos melhores gastro-bares da cidade (já falei dele no post “Para onde eles forem, eu vou atrás”, publicado em novembro de 2015). A ótima chef Janaina Rueda, casada com o também chef Jefferson Rueda – da Casa do Porco, residentes no Copan, pratica uma adorável cozinha confort food brasileira de raiz.

O ótimo gastro-bar Dona Onça (e o logo ilustração de Paulo Caruso, com referência à fachada do Copan)

O ótimo gastro-bar Dona Onça
(e o logo ilustração de Paulo Caruso, com referência à fachada do Copan)

A outra é a extraordinária galeria de arte fotográfica do provavelmente melhor fotógrafo urbano de Sampaulo, RenattodSousa (assim mesmo, numerologia – ou extravagância – oblige). As fotos que o cara faz da cidade são pura sedução. Eu, por exemplo, nunca havia desejado ter minha home town na parede. Depois que conheci o trabalho de Renatto, virou necessidade. É imprescindível. Como regalo para residentes ou souvenir para visitantes. Se você for lá se deliciar com as imagens expostas, repare no simpático balcão em forma de… Copan!

Galeria do fotógrafo-mor de Sampaulo, o talentoso RenattodSoza. Rebare na bancada, em forma de Copan...

Galeria do fotógrafo-mor de Sampaulo, o talentoso RenattodSousa.
Rebare na bancada, em forma de Copan…

Mas, já que estamos aqui, que tal celebrar o cinquentão?

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Vamos comer? Vamos beber? Vamos confraternizar?

E, o que é melhor: aqui, num apartamento no 29º andar do Copan!

Já faz um tempo que uma moda chegou a Sampaulo e, devagarzinho, conquista corações e paladares. São jantares para grupos fechados, preparados por cozinheiros em suas próprias casas. Uma das pioneiras foi a extraordinária chef mexicana Lourdes Hernández. Junto com o marido, o artista plástico Felipe Ehrenberg, ela nos recebia em sua casa adoravelmente colorida, ambientada por ele, para um banquete de surpreendências que iam muito além dos guacamoles da vida. Ela na cozinha e ele no bar. O casal deixou uma multidão de devotos órfãos quando voltou para o Mexico, há coisa de dois anos.

Mas a semente semeada por eles vicejou. Hoje, são mais de dez desses “home-bistrôs” em atividade na cidade. São cozinheiros e cozinheiras recebendo comensais em dia e hora marcados com antecedência, a maioria deles uma vez por semana.

E não é que a gaúcha Cândida Balensiefer, moradora do 29º andar do Copan, é uma delas?

Não resisti.

O apartamento que a chef (formada na Escuela Hoffman, de Barcelona…. Epa! É o terceiro post, todos recentes, dedicados a experiências gastronômicas proporcionadas por graduados na Hoffman: Gabriel Matteuzzi – chef estrelado Michelin do restaurante Tête à Tête, post “Vocação, talento, aptidão, dom…”, publicado no início de maio passado; Ligia Krasawa – chef do restaurante principal do Eataly, o Brace, post “Banquete italiano”, publicado também em maio e, agora, Cândida!).

Rebobina de volta até… O apartamento da chef…

A chef Cândida e o marido, Quentin, na porta do seu apartamento no Copan.

A chef Cândida e o marido, Quentin, na porta do seu apartamento no Copan.

O apartamento de Cândida – e do marido, o francês Quentin Mahé – é um quarto e sala. Voce entra e UAU, Sampaulo a perder de vista, cintilando um esfuziante tapete de luzes a seus pés. A cozinha, mínima, revela atividade intensa. Zilhões de potinhos de temperos e aromas tentadores.

Detalhes sedutores: as cadeiras, cada uma com personalidade própria; mas todas de design instigante; e a composição com flores arrumada do lado de fora da janela, sobre a “bancada” do tal gradil/brise-soleil de concreto, lembra? Posando de primeiro plano para a visão noturna impactante da cidade.

As Cadeiras, o jantar à mesa e a vista. A tela de proteção da reforma do Copan atrapaha mais a foto do que a vista.

As Cadeiras, o jantar à mesa e a vista.
A tela de proteção da reforma do Copan atrapaha mais a foto do que a vista.

Chegamos os três – eu e um casal de queridos. Não demora, mais um jovem casal deu as caras. Apresentações e empatia imediata. Conversa correndo solta, aperitivos e uma caponata picada miúda, servida com torradas de pão sueco.

Caponata

Caponata

Quentin, normando de Le Havre, atravessara o Canal da Mancha para viver e trabalhar como publicitário na Inglaterra. Em Londres, conheceu Cândida. Há mais tempo do que se possa supor pelo viço que ostentam. Barcelona veio depois. E, enquanto durou o curso de gastronomia, ele encarava com frequência os mil-e-tantos quilômetros até a Espanha para estar com ela.

Cândida graduada, decidiram pelo Brasil, por Sampaulo, onde já estão de mala e cuia há três anos. Ela, produzindo programas culinários no GNT (e preparando jantares no Copan). Ele, numa grande agência de propaganda nas abas do Parque do Ibirapuera.

Foi o último a chegar, o dono da casa. Direto de sua corrida pós expediente (apenas 6 quilômetros, por causa do nosso jantar).

Entrou e assumiu com desenvoltura o posto de anfitrião. Como todo publicitário que se preza, o cara é bom de papo, bem informado, sabe de um tudo e fala pelos cotovelos. Mas com pertinência. Um animador de jantares como poucos. Foi dele uma consideração que me tem dado o que pensar: “a diferença entre a gastronomia francesa e a italiana é que, os franceses são mestres na técnica, em realizar preparos magistrais, independente da matéria-prima não ser promissora (rã, escargot, miolo…); enquanto que os italianos fazem questão de ingredientes primorosos e, por isso se dedicam a produzi-los com esmero: funghi porcini, trufas, lardo di colonatta, aceto balsâmico…” É uma teoria a ser considerada…

Brindes e goles de bom vinho siciliano, para animar as conversas

Brindes e goles de bom vinho siciliano, para animar as conversas

Mas não foi só de comida que se falou. A iminência da Eurocopa e a recente visita dos anfitriões ao Jalapão, além de mercado publicitário e o potencial comercial das start-ups (o outro “convidado” toca uma desses empreendimento de tecnologia virtual: promove a locação de carros entre pessoas físicas) foram alguns dos muitos assuntos da pauta de conversas de uma noite muito, muito legal.

O prato principal foi um confit de cannard, deitado sobre um colchão de batatas à la dauphinoise e molho de cogumelos. Tipo a França é aqui. Destaque para as batatas, cortadas fininhas e gratinadas no ponto exato, macias e saborosas. Faltou banha de pato a umedecer e amaciar a coxa. E o molho, bem… Normal. Creme de leite, manteiga e champignon. Tipo vem confort food francesa aí, com certeza. E veio.

Confit de pato, batata dauphinoise e sauce champignon

Confit de pato, batata dauphinoise e sauce champignon

Já a sobremesa…. No que pese a bela apresentação, o naco de brioche coberto com açúcar mascavo brulé e coroado por uma quenelle de sorvete de doce de leite – ornado por uma sempre encantadora physalis…

Brioche com açúcar mascavo brulé e sorvete de doce de leite navegam numa poça de creme ingles

Brioche com açúcar mascavo brulé e sorvete de doce de leite navegam numa poça de creme ingles

Tipo assim: o melhor foi o belo prato de porcelana em que foi servido.

E aí você fica achando que a experiência não vale a pena. Ledo engano. Vale sim, ora se vale…!

Está certo que o eixo de tudo é o jantar. Em torno do qual, giram vários satélites cintilantes que compõem o todo da experiência.

A começar por uma soirée no Copan. Só isso, não tem preço.

A sociabilização com um pequeno grupo de desconhecido agradabilíssimos, além de singular, é muito prazeroso.

Os anfitriões, Cândida e Quentin, são duas figurinhas carimbadas, no sentido de raras, especiais. Daquelas que o “adorei conhece-los”, na despedida, é ditado pelo coração.

A noite foi tão plena que a comida virou detalhe. E eu acredito, pelo que foi proposto como cardápio, que o que falta ali é a tal técnica francesa a que se referiu Quentin – e para conquistar isso, o caminho é muita, muita prática na retaguarda de uma boa cozinha, sob o comando de um chef a um tempo exigente e paciente. E falta (sempre me referindo à teoria quentiniana) o padrão italiano de exigência com os ingredientes.

Não foi pior do que a maioria dos adoráveis jantares em casa de amigos que já fui na vida, onde a comida é só a justificativa para viver o prazer da convivência. Nem foi melhor. Mesmo a comida era absolutamente palatável. Só não foi surpreendente. A única coisa de fato qualquer nota foi a caponata da entrada.

Agora sou amigo dos anfitriões, como me disse Cândida no dia seguinte, quando voltei lá para buscar o chapéu que havia esquecido. Portanto, foi uma memorável noitada em casa de amigos.

E, quer saber, recomendo total a experiência.

E pro aniversariante, nada? Tudo! Copan! Sampaulo! Copan! Sampaulo! Copan….

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Obrigado, Renatto, pela cessão das fotos (as belíssimas, dá para reconhecer pela qualidade – e estão assinadas) que ilustram esta matéria. Deram um up-grade no post.

Este post foi patrocinado pelo querido Mauro Chinchelli, que me convidou para este “jantar no Copan”.

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