CGH

Não adianta. Cosméticos não me rejuvenescem. Quando muito, preservam alguma elasticidade da pele. Envelheço com a derme mais de bem com a vida. Já está de bom tamanho para um pote de creme.

O que me mantêm jovem, de fato, são as emoções.Duvidar e correr atrás das respostas, excitar-me com descobertas e aprendizados, tropeçar em afetos e deixar a arte me surpreender. Viver intensamente me faz um bem danado. Isso sim, me leva de volta à meninice.

Rejuvenesço quando rio, me encanto, enterneço…

Aconteceu outro dia, quando topei numa foto da saleta dos fundos do Electra.

Sabe conversa de velho? “No meu tempo”….

Pois saiba que meu tempo melhorou muito com o tempo. Trocaram a maçaneta de abrir e fechar o vidro do carro por press buttons, ligar o liquidificador não dá mais interferência na TV e você só está lendo estas divagações graças ao Word e à internet. Para quem começou numa olivetti lettera 22, foi um salto e tanto.

Tirando pessoas que, ao partir, deixaram buracos negros na minha alma, das coisas não tenho saudades; só lembranças. Vivo na maior expectativa do que o futuro vai aprontar de up-grade na minha vida.

Mas, reconheço: aqui e ali rola uma fuga a essa regra. Bate saudade. O Electra é uma dessas exceções.

Fila de Electras, taxiando para decolagem.

Fila de Electras, taxiando para decolagem.

Era um avião. O avião. Sinônimo da ponte aérea Sampaulo-Rio. Vira e mexe eu voava nele. Durante décadas. Cadê que eu me animei com a troca pelos 737? O Electra me deixou querendo que ficasse. Nunca mais uma ida ao Rio foi a mesma…. Por tudo o que enredava o voo. Inclusive a saleta dos fundos que dava um ar de “reservado da diretoria” à viagem. Eu adorava me aboletar lá. Tipo rede social pré-web. Antes de decolar já nos conhecíamos (os seis passageiros) pelo nome. E o papo corria solto…. Rolava troca de telefones e tudo.

Mix 1

Se a saleta já estava lotada, eu queria,ao menos, sentar nas poltronas vis-a-vis.

Além do avião, a ponte aérea ligava os dois aeroportos mais charmosos do Brasil.  Santos Dumont e Congonhas. Ambos proporcionam pousos muito excitantes. O de lá, beira amerissagem na baía da Guanabara, entre o Corcovado e a ponte Rio-Niterói. No de cá, a gente faz figa para que os prédios abram passagem, pois a sensação é de que voamos abaixo dos andares mais altos dos edifícios que ladeiam a rota. Sampaulo se esparramando a perder de vista e a gente se intrometendo no miolo, sem uma clareirinha que seja ao alcance do olhar cabreiro dos passageiros de primeira viagem.

Pouso em Congonhas

Aproximação para pouso em Congonhas

Muito antes de virar frequent flyer da ponte aérea, Congonhas foi minha primeira impressão de Sampaulo. Ainda menino, nos anos 60, vim conhecer a cidade. Pouco depois, em 71, cheguei de vez, para ficar. Hoje a cidade é minha homeland, meu lar. E minha alma reconhece, no aeroporto, a porta de casa. Sampaulo me acolheu ali. Há quarenta e cinco anos!

Congonhas, no início dos anos 70

Congonhas, no início dos anos 70

Mas o tempo foi cruel com meu saguão de entrada.

Lá em cima,no início do texto, minunciei as boas emoções que me rejuvenescem. Em contrapartida, desencantos me alquebram. E, atualmente, passar por Congonhas me amofina. O pragmatismo insensível de seus gerente, negligentes com nosso valioso patrimônio histórico e cultural, descaracterizou seu encanto, amesquinhou seu aplomb e condenou o belo aeroporto à decrepitude.

Até admito que o mando, em aeroportos, seja confiado a quem entende do riscado. Técnicos em navegação aérea, gente que entende de pista, de fluxo de passageiros e cargas, de logística e coisa e tal. Mas, com Congonhas, tem que saber também de alma.

Não acredito na inexorabilidade da decadência de lugares assim, cujo valor imaterial faça sombra para o contábil . Outros desses símbolos paulistanos passaram por grande aumento de fluxo e foram modernizados e adaptados com sensibilidade e respeito – pelo lugar, suas tradições e seus usuários. Não vê o Mercadão? A Estação da Luz (o fluxo humano é igual ou maior do que o do aeroporto, com seus trens e metrô invariavelmente lotados)…, O Edifício Martinelli, o Caetano de Campos e até aquele estupor estético em que instalaram o Catavento Cultural. Sem contar a Júlio Prestes, o complexo niemeyeriano do Ibirapuera, o Mercado de Pinheiros….

Congonhas podia ser o Teatro Municipal dos aeroportos, virou Cine Paris. Ou quase.

Isso, no momento em que comemora oitenta anos.

Alguns momentos do Aeroporto de Congonhas. Inclusive o embarque de presos políticos trocados por diplomata japones no início dos anos 70, o desembarque do Papa João Paulo II, dex anos depois(ambos na segunda linha de fotos) e a construção dos fingers (na terceira linha)

Alguns momentos do Aeroporto de Congonhas.
Inclusive o embarque de presos políticos trocados por diplomata japonês no início dos anos 70,
o desembarque do Papa João Paulo II, dez anos depois (ambos na segunda linha de fotos)
e a construção dos fingers (na terceira linha)

Inaugurado em 1936, Congonhas substituiu o Campo de Marte como destino dos voos nacionais – e internacionais. Foi a solução para evitar os alagamentos muito comuns naquela beira de rio Tietê, à época chegado num transbordamento.

Pasmem: área escolhida para o novo aeroporto - olha a pista já traçada - há "apenas" 80 anos!

Pasmem: área escolhida para o novo aeroporto
– olha a pista já traçada – há “apenas” 80 anos!

Escolheram uma área distante, alta e despovoada. Mas Sampaulo cresceu tanto no rumo do novo aeródromo que, ao completar quarenta anos, por pressão dos moradores que já atulhavam as redondezas, o horário de funcionamento foi restrito. Apenas das seis da manhã às onze da noite.

 

 

Antes disso, cheguei a voltar do Rio de madrugada, depois de alguma festa por lá, para dormir em casa. Desde 76, se a estadia carioca inclui balada tardia, tem que pernoitar por lá..

Cumbica foi inaugurado quando Congonhas beirava 50 anos. O aeroporto que já fora o terceiro maior do mundo ficou ocioso. Conexões, escalas e voos de maior distância foram todos transferidos para Guarulhos. O movimento ficou restrito à ponte-aérea e a voos regionais para o interior de São Paulo. Para mim, era uma delícia frequentá-lo nessa época. O restaurante com vista para a pista arrotava elegância e a cozinha, se não cintilava, era muito boa. Circulava-se com tranquilidade e eu aproveitava para ir ao correio, comprar revistas, cortar cabelo…

Matéria de O Estado de São Paulo se debruça sobre a ociosidade de Congonhas, em agosto de 1985

Matéria de O Estado de São Paulo se debruça sobre a ociosidade de Congonhas,
em agosto de 1985

Mas os comerciantes não gostaram da redução da freguesia. E inventaram um projeto de shopping center que nunca saiu do papel. Até porque, sob pressão das companhias aéreas, flexibilizaram as proibições. Aos poucos, mais pousos e decolagens foram autorizados. O movimento voltou a bater recorde. Até que dois acidentes tatuaram trágicas cicatrizes na história de Congonhas. Voltaram as restrições, menores do que as do final dos anos oitenta. Mas, passado o trauma, liberalidade de novo.

Hoje, durante as dezessete horas de funcionamento diário, acontece um novo pouso ou decolagem a cada dois minutos. Quando estou preso em congestionamento na avenida Bandeirantes ou na avenida Washington Luís, chego a contar mais de dez aviões chegando ou partindo. Transportando, ao longo de um ano, beira vinte milhões de passageiros!

Cabeceira da pista vista a partir da alça de acesso à avenida Washington Luís, a partir da avenida Bandeirantes. Com direito a decolagem e tudo (mais dois minutos e lá vem outro...)

Cabeceira da pista vista a partir da alça de acesso à avenida Washington Luís,
a partir da avenida Bandeirantes.
Com direito a decolagem e tudo (mais dois minutos e lá vem outro…)

Uma turba que acelerou a degradação.

Tudo bem que voar deixou de ser um privilégio. Aeroporto é, hoje, o que rodoviária era há alguns anos . Dispensa atavios que o proclamem ambiente nobre.
Mas o prédio já estava lá, esbanjando dignidade. E seu charme era direito adquirido da cidade…!

Bastava aos administradores de plantão serem alertados da importância – e beleza – de seus ícones arquitetônicos que remetem ao glamour dos anos quarenta (o piso “tabuleiro de xadrez” em branco e preto, o teto trabalhado em sancas orgânicas, os corrimões e parapeitos de metal com grandes círculos e tubos de latão brilhante…).

O piso "tabuleiro de xadrez", um ícone.

O piso “tabuleiro de xadrez”, um ícone.

O teto e a iluminação. Sancas compondo formas orgânicas.

O teto e a iluminação. Sancas compondo formas orgânicas.

Corrimões e parabeitos: um paaso adiante do discreto; um passo aquém do ousado.

Corrimões e parapeitos: um passo adiante do discreto; um passo aquém do ousado.

Esses símbolos até que sobrevivem, maltratados e envergonhados, escamoteados pelo amontoado de letreiros coloridos dos fast foods (leia-se gororobas vapt-vupt). Sem que os gestores transitórios tenham demonstrado preocupação, competência e talento para qualquer planejamento, mínimo que fosse, na ocupação dos espaços (há alguns posts falei de um megacentro de alimentação também atulhado, mas agradável aos sentidos, o Eataly).

Um desses comedouros, talvez o mais ostensivo, ocupa o espaço até recentemente usado por uma loja de produtos importados. Um “ japa” que vende yakissoba, kibe, temaki e pão de queijo, na maior crise de identidade. Instalou-se, abusadamente, diante de um belo painel em pedra do mapa mundi, dos artistas Hernani do Val Penteado e Raymond Jehlen. E não estão nem aí para esse adereço nobre; sequer de uma iluminação decente cuidaram. Coisa que deveria ser exigida pela Infraero que é locadora do espaço.

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A mesma dupla de artistas é responsável, também, pela atraente cobertura em mosaico da parede que envolve a antiga escada que leva do saguão principal ao subsolo.

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Abre parênteses: ninguém perguntou, mas já que o assunto é a união de arte e aeroporto, um dos frutos desse casamento que eu mais gosto é um múltiplo do artista maranhense Péricles Rocha, que habita o saguão do Aeroporto Cunha Machado, em São Luís. Lá, também, fico indignado com o pouco caso do povo da Infraero local com a obra. Até caixas eletrônicos colocam em frente à pintura… Fecha parênteses.

Onde é que estávamos? Congonhas! Começando a falar de comida…

Os novosfood trucks seriam uma boa novidade, mas…. Valha-me Deus! Tapioca a quinze reais e pratinho de massa qualquer nota a beira trinta reais é extorsão de ruborizar a Oscar Freire…

mixForam instalados numa das raras intervenções arquitetônicas recentes decentes, a cobertura bem lançada que cobre as escadas rolantes de acesso ao mesmo subsolo ao qual se chega pela escada abraçada pelo mosaico exibido aí em cima.

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Este piso de baixo foi integrado à área útil do aeroporto, com lojas, farmácia, lanchonetes, quiosques, caixas eletrônicos, locadoras de automóveis e o acesso aos terminais de ônibus, taxi e ao novo estacionamento (a outra construção recente decente).

É o melhor lugar para um “mata-fome” rápido.

Tipo pegar uma batata da Baked Potato (um dos raros junk foods capazes de me sobrelevar a resistência – pena que tiraram o recheio de sour cream do cardápio, mas contorno com requeijão com bacon), levar para comer no quiosque de boas cervejas que fica ao lado e, para arrematar, se jogar num ótimo gelato da Bacio di Late (o food truckinho deles é um encanto)…

Baked Potato, boas cervejas e gelato Bacio di Latte As opçõe de alimentação com um mínimo de decoro, no subsolo

Baked Potato, boas cervejas e gelato Bacio di Latte
As opçõe de alimentação com um mínimo de decoro, no subsolo

Duas outras lojas interessantes deste sub-solo são a Sapataria do Futuro (já vi uma aeromoça por lá, aflita beira desespero, pedindo help para um salto alto desconjuntado) e a adorável Engraxataria Aeroporto (desde 1953!). Agora, escondidinha que só, atrás, embaixo, nos fundos de tudo.

Sapataria do Futuro e Engraxataria - solicitude e serviços confiáveis

Sapataria do Futuro e Engraxataria Aeroporto – solicitude e serviços confiáveis

Neste capítulo lojas e serviços, há outras opções lá em cima. No primeiro andar, além dos Correios,tem salão de beleza mais para quebra-galho e lotérica. No térreo, tem a tradicionalíssima – e até razoável Livraria La Selva, no saguão principal. E, a seu lado, no corredor de acesso ao check-in, uma loja de produtos licenciados pelas Olimpíadas Rio 2016 nos lembra a iminência do evento. Está ali desde o ano passado. Camisetas e bonés verdes e amarelos foram campeões disparados de venda durante as manifestações anti-Dilma. Agora, a loja está menos agitada.

No mesmo corredor, me chamam sempre a atenção os protetores de pescoço criativos da FOM e as miniaturas da antiquíssima VIP Brinquedos.

Se você não cosegue deixar o cartão quieto, a Livraria La Selva tem estoque bem razoável de títulos, a loja oficial Rio 2016 vende os mascotes da Olimpíadas, a FOM (como é queconseguem ser tão macios?) oferece apoios de pescoço cheios de trique-triques e a VIP Binquedod tem miniaturas bem atraentes.

Se você não consegue deixar o cartão de crédito quieto,
a Livraria La Selva tem estoque bem razoável de títulos,
a loja oficial Rio 2016 vende os mascotes da Olimpíadas,
a FOM oferece apoios de pescoço cheios de trique-triques (como conseguem ser tão macios?)
e a VIP Brinquedos tem miniaturas bem atraentes.

Tirando essas raras exceções, o aeroporto de Congonhas inteirinho virou praça de alimentação abaixo da crítica, cobrando preços de comida estrelada.

Restaurante principal de Congonhas. Taí uma boa foto para retratar a decadência.

Restaurante principal de Congonhas, retrato da decadência.

O tradicionalíssimo restaurante do segundo andar oferece buffet durante todo o dia. Os frios são sedutores à vista, mas decepcionam o paladar. Tem tudo meio que o mesmo sabor pegajoso. Seja berinjela empanada ou tomate recheado. Salva-se um molho interessante, de azeite, queijo gorgonzola e alcaparras. É a salvação. Um prato de salada (a oferta é razoável; inclui folhas, legumes de sempre e, até, ervilha torta que é mais rara), besuntada no tal molho cheio de personalidade, pode ser uma opção para não ficar na inanição.. Mas se prepare: será a salada mais cara que você já comeu na vida.

O buffet de frios do Restaurante Congonhas é pura sedução. Aos olhos, apenas. O sabor deixa - muito - a desejar. A exceção é o molho de salada com azeite, queijo gorgonzola e alcaparras. Um achado!

O buffet de frios do Restaurante Congonhas é pura sedução.
Aos olhos, apenas. O sabor deixa – muito – a desejar.
A exceção é o molho de salada com azeite, queijo gorgonzola e alcaparras. Um achado!

As opções quentes são lamentáveis. Se você fizer questão absoluta, opte pela massa com molho de tomate e um surpreendente queijo parmesão bem ralado. Carnes, frangos e peixes são arrependimento na certa.

O buffet de pratos quentes do Restaurante Congonhas não merece sua atenção. Pura perda de tempo. Mas, se for inevitável, a massa com molho de tomate e o bom queijo parmasão ralado podem, até, ser encarados.

O buffet de pratos quentes do Restaurante Congonhas não merece sua atenção. Perda de tempo.
Mas, se for inevitável, vá de massa com molho de tomate e o bom queijo parmesão ralado.

O melhorzinho são as sobremesas. Dia desses havia um curau até decente.

Buffet de sibremesas do Restaurante Congonhas

Buffet de sobremesas do Restaurante Congonhas

Mas a melhor opção de refeição em Congonha é um segredo bem guardado.
Descobri na leitura de um post recente do radialista Marcelo Duarte, no Blog do Curioso. É o restaurante Santa Luzia, dos empregados do aeroporto (são mais de seis mil, sem contar os funcionários das companhias aérea, das lojas, lanchonetes…!). Fica no subsolo, acessível apenas pelo elevador do saguão. Desconheça a plaquinha que adverte que o acesso ao andar (-1) é exclusivo. É da boca pra fora.

O Restaurante Santa Luzia, no subsolo, é apertadinho. O risco de fila é grande.

O Restaurante Santa Luzia, no subsolo, é apertadinho.
O risco de fila é grande.

O restaurante cobra menos da metade do que é cobrado lá em cima. E, acredite, apesar da oferta ser menor e menos rebuscada, o sabor dá de goleada.Já comi uma rabada com agrião muito saborosa por lá. E um mousse de morando, coberto com geleia da fruta e cheio de pedacinhos de chocolate branco, capaz de surpreender um formigão inveterado como eu. Sem luxos, mas com honestidade.

O buffet do restaurante Santa Luzia não é farto de opções. No expositor frio, legumes, verduras e frutas. O quente, às quintas, oferece ótima rabada com agrião. E essa mousse de morango.... Hummmm...

O buffet do restaurante Santa Luzia não é farto de opções.
No expositor frio, legumes, verduras e frutas.
O quente, às quintas, oferece ótima rabada com agrião.
E essa mousse de morango…. Hummmm…

E olha que, apesar do preço mais em conta, o povo que trabalha em Congonhas ainda acha “salgado”. E prefere encarar a dureza da passarela que cruza a avenida Washington Luís até os restaurantes mais populares do outro lado.

Essa travessia é um vexame. Foi montada, às pressas, depois da antiga ser condenada. Tocentos degraus para subir, outros tantos para descer, piso de tábuas…

A maioria das linhas de ônibus que servem o aeroporto passam pelo lado de lá. Passageiros que usam o transporte público tem que carregar as malas escada acima, sob sol ou sob chuva. Pagam caro por suas passagens aéreas, pagam as taxas da Infraero e recebem esse tipo de tratamento. E nem previsão de solução definitiva.

A passarela é um desforo para quem usa. E os sintomas da decadência estão para todo o lado. É assim que o outrora belo aeroporto de Congonhas apresenta Sampaulo a quem chega.

A passarela é um desaforo para quem usa.
E os sintomas da decadência estão para todo o lado.
É assim que o outrora belo aeroporto de Congonhas apresenta Sampaulo a quem chega.

Essa precariedade estrutural é perceptível em vários locais do aeroporto. Menos no anexo, afastado do bloco central, destinado às autoridades. É lá que embarcam e desembarcam em Sampaulo os detentores do poder. O conforto ali é tamanho que até os banheiros tem sala de relax com poltronas de couro. E um painel pintado em parceria por Di Cavalcanti e Clovis Graciano. Representando trabalhadores (aqueles que usam a passarela tosca).

Mural (mais de 65 m2) de Di Cavalcanti e Clóvis Graciano, no Pavilhão de Autoridades do Aeroporto de Congonhas. E alguns detalhes do local, extraido do Blog do Curioso, de matéria do radialista Marcelo

Mural (mais de 60 m2) de Di Cavalcanti e Clóvis Graciano,
no Pavilhão de Autoridades do Aeroporto de Congonhas.
E alguns detalhes do local (fotos extraídas do Blog do Curioso – matéria de Marcelo Duarte) www.guiadoscuriosos.com.br

Mas o maior prejuízo do declínio, para mim, é sentimental. Fecharam até a “prainha”! Antigamente, os paulistanos frequentavam a extensa varanda (sobre o atual desembarque) para apreciar pousos e decolagens.Interditaram…!

Feacharam nossa "prainha" de paulista...

Feacharam nossa “prainha” de paulista…

Resta rezar pela intercessão de Nossa Senhora de Loreto. É a padroeira da aviação.
Uma imagem dela – que foi abençoada por João Paulo II e tudo – ocupa um simpático altar externo, ao lado da entrada principal, no início da calçada do setor de check-in. Providenciaram um lindo jardim florido, mas trancaram-na atrás de tanta grade e vidro que, desse jeito, Nossa Senhora vai ter dificuldade para ajudar…

Nossa Senhora de Loreto, Padroeira da Aviação. Tão enclausurada que tem-se que achar uma fresta para poder contemplar seu rosto.

Nossa Senhora de Loreto, Padroeira da Aviação.
Tão enclausurada que tem-se que achar uma fresta para poder contemplar seu rosto.

Enquanto a situação não tomar outro rumo, melhor desistir de ir ao velho aeroporto oitentão a passeio (quantas vezes fiz isso…). Passear por sua arquitetura, visitar os bustos dos heróis da aviação… Vai ser preciso aguardar o dia em que os técnicos perceberem que a cultura deve estar na mesa do administrador, ocupando um patamar no mínimo tão importante quanto as planilhas financeiras.

Boa maneira de homenagear Santos Dumont (no centro), Sacadura Cabral (à esquerda) e Gago Coutinho (à direita) é cuidar bem do nosso belo Aeroporto de Congonhas)

Boa maneira de homenagear Santos Dumont (no centro), Sacadura Cabral (à esquerda)
e Gago Coutinho (à direita) é cuidar bem do nosso belo Aeroporto de Congonhas)

Congonhas, atualmente, só de passagem, a caminho de um voo. De preferência, com uma marmita na mão, para o caso da fome me alcançar por lá. Porque com o que servem em sua oferta de alimentação não dá para contar.

Apesar disso,

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Bônus:

Trecho do filme americano “Holiday for Lovers”
com Clifton Webb, Jane Wyman, Jill St John e Carol Lynley
de 1959
com cenas filmadas no Aeroporto de Congonhas
(sem contar um passeio de carro por alguns ícones da cidade – Copan em construção)