Nariz feliz

Somos muito influenciados por sensações provocadas pelos sentidos. Eu sou.

Quanto da nossa tranquilidade para encarar com sensatez os desafios da vida são determinados pelo conforto proporcionado pelos sentidos? Ou o contrário: um incômodo produzido pelos sentidos gera ansiedade e pode detonar até nossa capacidade de raciocinar.

É claro que a cultura de cada um de nós, nossos valores lapidados pelas experiências existenciais individuais, moldam gostos diferentes, jeitos distintos de apreciar ou se indispor com o que os cinco sentidos sentem. O que é prazeroso para alguns, a outros por vezes incomoda. Essa diversidade vale, sobretudo, para audição e visão.

audição

O ouvido, que nos informa dos sons ao nosso redor, quando nos invade com o ritmo sincopado da música eletrônica, proporciona deleites ao clubber; para o sertanejo, é um “bate-estacas” insuportável. O mesmo ronco de motores de alta cilindrada pode ser céu ou inferno (a chegada da possante harley-davidson de um vizinho à garagem do prédio, às duas da manhã, é capaz de embalar o sono de um e despertar a decisão indignada de convocar uma reunião de condomínio de outro).

visão

Os efeitos do que a visão nos exibe também é muito influenciada pela estética individual. E varia bastante de pessoa para pessoa. Existe até uma pergunta bem lugar-comum que traduz essa diversidade: “o que seria do azul se todos gostassem do vermelho”? Diante de uma obra-prima de Picasso, por exemplo, há tanto os que se deliciam em êxtase quanto os que desdenham e até a rejeitam com o argumento de que “qualquer criança desenha melhor uma mulher do que isso aí”…

Nos dois casos, som e imagem, meu gosto é muito elástico. Posso achar maravilhoso ou horrendo, não importa se o som é melódico ou dodecafônico, se o visual é harmônico ou caótico.

Já o paladar….

paladar

É um dos sentidos mais sujeitos ao preconceito, tipo “não comi e não gostei”. Mas, no que pese as discrepâncias de gosto, provoca reações mais universais. Comida insossa via de regra desagrada. E o amargo é um sabor rejeitado pela quase unanimidade das gentes.

Talvez seja este o sentido do qual eu seja mais exigente. Não desgosto de nada por princípio, nem do paladar amargoso (mas isso foi uma conquista da evolução de minhas papilas; tirando os gaúchos – que já nascem gostando de chimarrão, são as pessoas mais velhas que costumam apreciar quininos, chocolates com cacau reforçado, cervejas encorpadas, jilós, jurubebas…. Não conheço uma única criança que sequer suporte amargos). Doce, salgado, azedo, apimentado – e amargo – são todos bem-vindo à festa de meus deleites gastronômicos. Desde que preparados com talento e capricho (definir isso é que são elas. Só provando para saber). Por isso é que experimento de um tudo – mas nem sempre engulo!

Chegamos aos dois últimos sentidos. No meu entender de leigo, são os que provocam reações mais unânimes.

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O tato, por exemplo: doeu, não presta! Quem gosta de beliscão, cachuleta e palmada não é normal e precisa ser tratado. Já carícia, afago de brisa fresca numa tarde calorenta ou banho morno neste inverno que mandou abre-alas enregelante, todo mundo gosta que se enrosca.

olfato

E o olfato, finalmente. Cecê, peido, chulé, catinga de peixe com saudade do mar…. Durma-se com um fedor desses! Se alguém curte, é caso para camisa-de-força.

Já cheiro bom é tão gostoso que seus substantivos têm jeitão de adjetivo: aroma, fragrância, perfume…

Nesse tema, faro, Sampaulo se recusa a dar uma mãozinha. Trânsito tacando gases na fuça da gente, poluição, esgotos a céu aberto (tô falando do Tietê, do Pinheiros, do Tamanduateí – que não abrem mão do título de rios) ….

Vamos encarar esses fedidos?

Então, vamos lá! Direto para as ruas Silveira Martins e Tabatinguera, atrás do Corpo de Bombeiros, do lado colado da praça da Sé. Sampaulo existe ali há séculos.A estação Sé do metro tem uma saída que serve ao Poupa Tempo e desemboca direto, bem na frente do nosso destino.

Na rua Silveira Martins, prédio antigo abriga várias lojas de essência. Na rua Tabatinguera, a antiga Tabacaria Central tem artigos para fumantes de todos os fumos e a Capela do Menino Jesus e Santa Luzia esbanja encanto centenário.

Na rua Silveira Martins, prédio antigo abriga várias lojas de essência.
Na rua Tabatinguera, a Tabacaria Central, atulhada de artigos para fumantes de todos os fumos
e a Capela do Menino Jesus e Santa Luzia esbanja encanto centenário.

Em menos de quinhentos metros, num curto percurso que mistura prédios feios e decadentes com outros mais antigos e bem cuidados, na vizinhança da tradicional e diminuta Tabacaria Central e da centenária – e charmosa – Capela do Menino Jesus e Santa Luzia, viceja, há décadas, talvez o maior polo global (com beira vinte lojas) especializado em essências aromáticas.

Mix 3

São lojas antiquadas, que lembram velhas farmácias, sem grandes recursos tecnológicos evidentes. Tudo meio que espalhado sem planejamento marketeiro sedutor. Menos do que um estorvo, para mim este é exatamente o appeal old style do lugar.

Mix 2

É lá que pequenos e médios produtores de perfumaria, cosméticos, produtos de higiene e limpeza se abastecem. Artesãos e fabricantes do Brasil inteiro e de países vizinhos são atraídos pela extraordinária variedade de opções e pelo baixo preço. Sem contar os consumidores de uso doméstico. Tipo eu, que frequento o lugar há muitos anos  – e bota ano nisso.

Casa da Essências. Minha fornecedora de aromas há décadas.

Casa da Essências. Minha fornecedora de aromas há décadas.

Eu vou lá principalmente pelas essências. São centenas. Só na Casa das Essências, minha predileta, são beira setecentos aromas diferentes. Uso-as para perfumar a casa, o carro, lençóis e, eventualmente, a para borrifar em roupas que raramente visto, quando passam um dia fora do armário para “respirar”.

Já tentei fazer até velas. E não é que acendiam e exalavam perfume? Mas, esteticamente, o que imaginei belas frutas, nem para xepa serviam. Não é minha praia.

Mostruários de essências, vidrinhos de provadores para cheirar, semelhantes nas diferentes lojas. Ao lado, têm sempre tijelinhas com grãos de café para "limpar" o olfato entre uma cafungada e outra.

Mostruários de essências, vidrinhos de provadores para cheirar, semelhantes nas diferentes lojas.
Ao lado, tem sempre recipientes com grãos de café para “limpar” o olfato entre cafungadas.

Como é lá que acabo comprando, mesmo batendo perna por toda a região, vou usar a Casa das Essências como referência desse universo perfumado.

Lá, as essências são divididas em três grupos: Perfumaria, Populares e Alimentícias.

O grupo Perfumaria tem mais de 300 aromas! São cópias, digo, contra-tipos (para não parecer pirataria) de marcas famosas. Os melhores produtores dessas essências – não por coincidência – são franceses. Com destaque para a gigante – a caminho do bicentenário – Robertet. Instalada na cidade de Grasse, na Provence (a curta distância do célebre Museu Internacional da Perfumaria). É a fornecedora de algumas das essências de melhor qualidade – e mais caras – da loja.

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Muitas vezes, essas essências não seguem ao pé da letra a denominação original dos perfumes que reproduzem: “Disel”, “Dolce Gab”, “J. Paul Gaulty”, “Pólo” (black, man, blue ou sport), “G. Armangio”, “Carol 212” (em suas várias versões), “J’Adore”, “Poison”, “Kenzzo” e por aí vai. Além de essências com aromas de nossa memória afetiva: “Confort”, “Creme Nivea”, “Phebo”, “Agua Fresca”, “Dove”…

O grupo essências  Populares (também são mais de 300!) reproduz aromas existentes na natureza ou em nosso entorno, tipo “rosas”, “tabaco”, “chá verde”, “vinho”, “manjericão”, “pinho”, “papaya com cassis”, etc, etc.. Ou traduzem imagens e conceitos, tipo “carro novo”, “orvalho”, “banho de pétalas”, “algas marinhas”, “hora do sono”, “emoção”, “energia refrescante”…

Mix

Minha casa, atualmente, cheira “algas marinhas” com um toque de “citrus”. Preparo um aromatizador de ambientes líquido de acordo com as instruções que recebi na Casa das Essências e tanto o borrifo em cortinas, estofados e num potpourri quanto deixo em difusores com varetas espalhados pela sala e pelo escritório. Daí, pode fumar e tudo que a casa está sempre cheirosa.

As exceções são a cozinha (onde já abusei de “baunilha” e agora uso uma mistura de aromas de “alecrim” e “sálvia” – é engraçado que, nos primeiros dias pós mudança, parecia que eu não estava na minha cozinha), a lavanderia e o quarto (onde uso variações de “confort”) e o banheiro (onde estou experimentando “bergamota”, depois de muito tempo usando “dove”).

Detalhe: sugiro que, de tempos em tempos – no máximo de ano em ano, se mude os aromas. O olfato se acostuma, amortece e vai deixando de sentir legal o cheiro. E a tendência é começar a exagerar…

Já o grupo essências Alimentícias – que oferece mais de 50 sabores, ooops, digo, aromas – é bem “divertido”. Tem essência de um tudo. Inclusive “alho”, “bacon”, “jenipapo”, “manteiga”, “mel”, “panetone”, “calabresa”, “pequi”, “queijo”… Sem contar as de bebidas. De “cola” a “tequila”, “rhum”, whisky”, cognac”….

Mix 1

Ao cheirá-las, descobrimos de onde vem o aroma, por exemplo, de um monte de salgadinhos meia-boca que se comem por aí. Mas podem ser usados em gastronomia de melhor qualidade também. Não interferem no paladar, mas mexem na percepção que se tem dele. Até porque parte do sabor é psicologicamente proporcionado pelo aroma. Ou vai tentar beber um café com cheiro de bacon para ver que gosto tem…!

O forte da Casa das Essências são essas essências e óleos essenciais. A diferença entre um e outro é que o óleo essencial é mais natural e concentrado, extraído diretamente do elemento que lhe dá aroma. É mais caro e é usado também em tratamentos de aromaterapia.

Aromaterapia é uma técnica ancestral de tratamento psico-emocional que utiliza óleos essenciais

Aromaterapia é uma técnica ancestral de tratamento psico-emocional que utiliza óleos essenciais

Já as essências são mais diluídas, sentam sem pudor no colo dos ingredientes sintéticos, mas cumprem basicamente a mesma função.

Além disso, outro ponto forte da loja são os ingredientes para o preparo de um sem número de produtos que usam essências aromáticas. Olha só uma listinha básica: perfume, banho de espuma, velas aromáticas, goma síria, sachês, desinfetante, shampoo, desodorante (em líquido, creme, barra…), gel para cabelo, óleo para massagem, água de colônia, licores, aromatizante (de ambiente, de carro, de roupa, de gaveta, de tapete…), amaciante, condicionador, cremes para pele, loção pós barba…. Isso é só uma amostra!

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Cada produto tem sua receita. E a Casa das Essências vende todas elas. De manteiga de cacau a dipropileno glicol (seja lá o que isso for), de fixador a corantes, de nipazol a quartenário de amônia. Inclusive ácido ialurônico, que é o queridinho da vez da indústria cosmética. Alguns tem sua venda restrita. É o caso do álcool de cereais e do formol. Por isso a loja vende bases prontas, às quais precisamos, apenas, acrescentar as essências (é assim que preparo meus aromatizantes de ambiente e de carro).

Uma amostra da grande variedade de utensílios para produção de "cheirosos". E alguns dos centenas de ingredientes usados nessa fabricação.

Uma amostra da grande variedade de utensílios para produção de “cheirosos”.
E alguns dos centenas de ingredientes usados nessa fabricação.

Formas em acetato, silicone ou alumínio, para sabonetes e velas (inclusive com formato erótico),

Em cima, formas de silicone e sabonetes preparados nelas. No centro, formas de acetato, inclusive "eróticas". Embaixo, formas de alumínio, próprias para velas.

Em cima, formas de silicone e sabonetes preparados nelas.
No centro, formas de acetato, inclusive “eróticas”.
Embaixo, formas de alumínio, próprias para velas.

além de saquinhos com componentes para potpourri também estão à venda por lá.

Exemplos de composições de potpourri aromático. E a variedade de componentes para criar seu próprio potpourri.

Exemplos de composições de potpourri aromático.
E a variedade de componentes para criar seu próprio potpourri.

Sem contar uma grande variedade  de incensos mandingueiros. Eu sempre tomei essas fumaças cheirosas como perfumaria espiritual, usada em louvação a divindades. Mas tenho percebido que avançaram para além do que eu supunha ser apenas zen e contemplativo. Eventualmente, até festivo. Agora, descubro que tomaram o rumo do feitiço. A quantidade deles que se dispõe a tirar olho gordo, ajudar nos negócios, arredar maldições de toda espécie e, até, conquistar amores, é impressionante. E, outros, embarcaram na aromaterapia; tipo o Mamãe & Bebê que acena com acalantos perfumados (embora eu estranhe a ideia de juntar nenéns e fumaça). Sem contar os aromas que nunca imaginei encontrar em incensos, tipo manjericão ou pitanga.

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Aliás, todas as outras lojas do polo de essências também trabalham com esse mix de produtos;.A Casa das Essências é apenas a com que tenho mais intimidade e, pelo que sinto, a que oferece mais opções de essências e ingredientes. Inclusive bases confiáveis para a produção dos sub-produtos dessa indústria artesanal de perfumaria, cosmética, higiene e limpeza.

O ponto fraco da loja é a oferta de frascos e embalagens. Daí, é bater perna, porque nas outras lojas não faltam opções que vão de vidros no formato de Nossa Senhora Aparecida com tampa que remete a uma coroa até frascos em forma de caveira (eu acho mais apropriado para venenos, mas, enfim, está na moda). Muito comuns, também, são difusores. Tanto os de varetas – que hoje em dia são tão corriqueiros – quanto os elétricos. Estes usam resistência e, embora de baixa voltagem, consomem muita energia. Foi por isso que deixei de usá-los desde a crise hídrica (faz tempo que eu não falo dela, com a Graça de Deus).

Milhares de frascos e embalagens, de vidro transparentes, leitosos, opacos ou coloridos, com formas inusitadas como Nossa Senhora, torre Eiffel ou caveira, em design comportado ou arrojado, grandes como garrafões ou pequeninos como amostras grátis, de tubos, potes, bisnagas, garrafas, vaporizadores são oferecidos como recipiente para produtos fabricados com as essências aromáticas em torno das quais cresceu este polo comercial de fornecedores da pequena e média indústria - artesanal, caseira, de fundo de quintar. De perfumaria, cosméticos, velas, higiene pessoal e limpeza.

Milhares de frascos e embalagens, de vidro transparentes, leitosos, opacos ou coloridos,
com formas inusitadas como Nossa Senhora, torre Eiffel ou caveira, em design comportado
ou arrojado, grandes como garrafões ou pequeninos como amostras grátis, de tubos, potes,
bisnagas, garrafas, vaporizadores são oferecidos como recipiente para produtos fabricados
com as essências aromáticas em torno das quais cresceu este polo comercial de fornecedores
da pequena e média indústria – artesanal, caseira, de fundo de quintar.
De perfumaria, cosméticos, velas, higiene pessoal e limpeza.

Para quem está a fim se jogar no “Perfuma Sampaulo” (começando em sua própria casa), a Casa das Essências tem um manual com a receitas de um monte de coisa cheirosa. Mas, se não quiser ficar batendo a cabeça, recomendo os cursos promovidos por outra loja, ali pertinho, na rua do Carmo, a Essência & Companhia.

Vida cheirosa, acredite, é mais bem-disposta e bem-humorada. E isso não tem preço. Ainda assim, aromatizar a casa é muito mais barato do que se imagina.

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Acabou. E não rolou uma fotinho sequer de um prato de comida apetitosa. Desse jeito, a gente vai ficar magrinho… Mas cheiroso!

Bônus

A ótima cantora Rita Benedito
gravou este delicioso Banho Cheiroso
(do compositor popular maranhense Antonio Viera),
no CD Pérolas aos Povos, em 1999.:

Publicado no YouTube por Janko Raikovic´

 

Pode entrar que a mesa é sua

Pense numa cobra enorme, uma sucuri gigantíssimamente avantajada, serpenteando, se esgueirando no meio de troncos. Pronto! Você pensou no edifício Copan.

Planta baixa de um andar tipo do Copan

Planta baixa de um andar tipo do Copan

O prédio é um dos meus ícones prediletos de Sampaulo. O único que é residencial entre os edifícios que são marca registrada da cidade. O Banespa sempre foi comercial. O Martinelli já foi moradia, mas não é mais. E o belíssimo Vitra, no Itaim, ainda não tem tempo de vida suficiente para ser referência paulistana. Eu até acho que o edifício Viadutos, que domina a avenida São Luís a partir da esquina da rua Santo Antônio com o viaduto Maria Paula, obra do hoje cult “arquiteto” autodidata Artaxo Jurado, também é símbolo da minha Sampaulo. E é residencial. Mas, reconheço que está um degrau abaixo no patamar de relevância se comparado com o Copan.

Edifícios Banespa, Martinelli, Vitra e Viadutos - ícones de Sampaulo

Edifícios Banespa, Martinelli, Vitra e Viadutos – ícones de Sampaulo

E não é, apenas, porque o Copan é criação do gênio Oscar Niemeyer. Mas o desenho, simples e cabal (no sentido de pleno, de bastante, de irretocável), é tão brilhante (considerando, inclusive, seu jeito harmonioso de se fincar ali, nos incitando a curiosidade do revela-esconde “onde começa, onde acaba”). Do chão, em lugar algum se consegue vê-lo de ponta a ponta. Só trechos de seu perfil sinuoso.

Rascunho original de Niemeyer

Rascunho original de Niemeyer

Entre duas e quatro mil pessoas moram ali (há quem fale em seis mil !), “perdidas” em suas curvas. Em vastos apartamentos de centenas de metros ou em exíguas kitchenettes. Que reúnem, no mesmo número 200 da avenida Ipiranga, de burgueses conservadores (e abonados) a travestis transgressores. E muitos, muitos artistas de todas as artes. Evangélicos e gays, coxinhas e petralhas, paulistanos e imigrantes dos quatro cantos do mundo, todos convivendo em surpreendente harmonia. Evidente que, de vez em raro, rolam barracos (que vizinhança está vacinada contra quebra-paus e bate-bocas?), mas o estresse não é comum. Façanha também dos muitos blocos sem comunicação interna, servidos por diferentes acessos e portarias, que meio que separam as unidades por tamanho. E de um estatuto comportamental e segurança rigorosos. Afinal, seus mais de dois mil apartamentos ostentam o metro quadrado mais caro da vasta região central e altas taxas de condomínio – que o preservam sempre nos trinques.

O Copan está celebrando 50 anos!

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Cinco décadas do “habite-se”, outorgado em 26 de maio de 1966. Alcançado depois de mais de dez anos de construção atribulada. E festejado, à época, como uma conquista épica pelos milhares de proprietários. Afinal, fora concebido para marcar o quarto centenário da cidade, acontecido doze anos antes. Ou seja, as promessas sempre adiadas de ampliação da malha metroviária de Sampaulo tem para quem puxar…

Anúncio publicado à época da construção. O "Rockfeler Center de São Paulo"

Anúncio publicado à época da construção. O “Rockfeler Center de São Paulo”

Para variar, também está atrasado o restauro do Copan. Que deveria ter sido inaugurado, com toda a sua cobertura de pastilhas recuperada, na celebração do cinquentenário. A um custo de mais de vinte milhões de reais. Mas cadê que existe ao menos previsão de término? O microladrilhado continua banguela. Até a tela de proteção da obra, que vestiu o edifício inteiro de azul real esfuziante, já está desbotada. E nada.

O Copam, vestido para "pástica" restauradora, em foto extraordinária de RenattodSouza. Graças à cor da "roupa" provisória, suas formas sinuosas são valorizada.

O Copam, recém vestido para “pástica” restauradora,
em foto extraordinária de RenattodSousa.
Graças à cor da “roupa” provisória, suas formas sinuosas são valorizada.

A roupa, desvanecida, escode um dos mais encantadores atavios (estrutural?) inventados por Oscar Niemeyer: as “caixas” que resguardam a fachada oeste do sol poente; como que um gradil gigantesco de concreto que funciona como brise-soleil e protege a privacidade sem o recurso de cortinas. É um dos detalhes mais fascinantes do Copan.

Os célebres caixilhos, parapeitos, brise-soleil (ou seja lá que nome tenham). Em visão de perfil da fachada, de dentro de um apartamento com a cidade lá embaixo e, embaixo, em ensaios fotográficos feitos por moradores: à esquerda, do fotógrafo Fábio da Motta; à direita, do estilista e personalidade da vanguarda paulistana Walerio Araújo.

Os célebres caixilhos, parapeitos, brise-soleil (ou seja lá que nome tenham).
Em visão de perfil da fachada e de dentro de um apartamento com a cidade lá embaixo.
Embaixo, ensaios fotográficos feitos por moradores: à esquerda, do fotógrafo Fábio da Motta;
à direita, do estilista e personalidade da vanguarda paulistana Walério Araújo.

Quer outros?

Os elevadores atendem a dois andares ao mesmo tempo. Quando apertamos o botão do 29º, no elevador (são 36 andares), acendem o 29 e o 30 ao mesmo tempo. E ele sobe até um estágio intermediário entre os dois. Do hall, saem duas rampas, leves. Uma sobe ao 30, outra desce para o 29. Ou seja: apenas metade das paradas, mais rapidez e…. Um charme a mais. Além dos corredores curvos…

Rampas de acesso aos andares, a partir do hall dos elevadores e corredores sinuosos do Copan

Rampas de acesso aos andares, a partir do hall dos elevadores
e corredores sinuosos do Copan

O térreo é compartilhado por mais de 70 lojas. De botecos a cabeleireiros. De galerias de arte a uma igreja evangélica. Esta, ocupa o espaço que, durante décadas, foi do Cine Copan. Um dos melhores de Sampaulo. Vi filmes memoráveis lá. O último foi o Dracula de Coppola (Anthony Hopkins, Winona Ryder, Keanu Reeves e a caracterização extraordinária de Gary Oldman como o conde). Era enorme, como os cinemões antigos. E a tela era das maiores que já houve por aqui. Quando penso nele, me vem um vermelhão na cabeça. Do carpete às poltronas de espaldar alto, tudo era rubro. Futurista que só, para a época. E muito confortável.

À esquerda, entrada do Cine Copan e a olatéia vermelha. À direita, vitrine, hoje, no térreo, exibe memorabilia da obra. E uma sedutora maquete de volumetria da região.

À esquerda, entrada do Cine Copan e a olatéia vermelha.
À direita, vitrine, hoje, no térreo, exibe memorabilia da obra.                                                               E uma sedutora maquete de volumetria da região.

Recomendo duas “lojas”, ambas voltadas para a parte externa do prédio.

Uma é o Dona Onça, um dos melhores gastro-bares da cidade (já falei dele no post “Para onde eles forem, eu vou atrás”, publicado em novembro de 2015). A ótima chef Janaina Rueda, casada com o também chef Jefferson Rueda – da Casa do Porco, residentes no Copan, pratica uma adorável cozinha confort food brasileira de raiz.

O ótimo gastro-bar Dona Onça (e o logo ilustração de Paulo Caruso, com referência à fachada do Copan)

O ótimo gastro-bar Dona Onça
(e o logo ilustração de Paulo Caruso, com referência à fachada do Copan)

A outra é a extraordinária galeria de arte fotográfica do provavelmente melhor fotógrafo urbano de Sampaulo, RenattodSousa (assim mesmo, numerologia – ou extravagância – oblige). As fotos que o cara faz da cidade são pura sedução. Eu, por exemplo, nunca havia desejado ter minha home town na parede. Depois que conheci o trabalho de Renatto, virou necessidade. É imprescindível. Como regalo para residentes ou souvenir para visitantes. Se você for lá se deliciar com as imagens expostas, repare no simpático balcão em forma de… Copan!

Galeria do fotógrafo-mor de Sampaulo, o talentoso RenattodSoza. Rebare na bancada, em forma de Copan...

Galeria do fotógrafo-mor de Sampaulo, o talentoso RenattodSousa.
Rebare na bancada, em forma de Copan…

Mas, já que estamos aqui, que tal celebrar o cinquentão?

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Vamos comer? Vamos beber? Vamos confraternizar?

E, o que é melhor: aqui, num apartamento no 29º andar do Copan!

Já faz um tempo que uma moda chegou a Sampaulo e, devagarzinho, conquista corações e paladares. São jantares para grupos fechados, preparados por cozinheiros em suas próprias casas. Uma das pioneiras foi a extraordinária chef mexicana Lourdes Hernández. Junto com o marido, o artista plástico Felipe Ehrenberg, ela nos recebia em sua casa adoravelmente colorida, ambientada por ele, para um banquete de surpreendências que iam muito além dos guacamoles da vida. Ela na cozinha e ele no bar. O casal deixou uma multidão de devotos órfãos quando voltou para o Mexico, há coisa de dois anos.

Mas a semente semeada por eles vicejou. Hoje, são mais de dez desses “home-bistrôs” em atividade na cidade. São cozinheiros e cozinheiras recebendo comensais em dia e hora marcados com antecedência, a maioria deles uma vez por semana.

E não é que a gaúcha Cândida Balensiefer, moradora do 29º andar do Copan, é uma delas?

Não resisti.

O apartamento que a chef (formada na Escuela Hoffman, de Barcelona…. Epa! É o terceiro post, todos recentes, dedicados a experiências gastronômicas proporcionadas por graduados na Hoffman: Gabriel Matteuzzi – chef estrelado Michelin do restaurante Tête à Tête, post “Vocação, talento, aptidão, dom…”, publicado no início de maio passado; Ligia Krasawa – chef do restaurante principal do Eataly, o Brace, post “Banquete italiano”, publicado também em maio e, agora, Cândida!).

Rebobina de volta até… O apartamento da chef…

A chef Cândida e o marido, Quentin, na porta do seu apartamento no Copan.

A chef Cândida e o marido, Quentin, na porta do seu apartamento no Copan.

O apartamento de Cândida – e do marido, o francês Quentin Mahé – é um quarto e sala. Voce entra e UAU, Sampaulo a perder de vista, cintilando um esfuziante tapete de luzes a seus pés. A cozinha, mínima, revela atividade intensa. Zilhões de potinhos de temperos e aromas tentadores.

Detalhes sedutores: as cadeiras, cada uma com personalidade própria; mas todas de design instigante; e a composição com flores arrumada do lado de fora da janela, sobre a “bancada” do tal gradil/brise-soleil de concreto, lembra? Posando de primeiro plano para a visão noturna impactante da cidade.

As Cadeiras, o jantar à mesa e a vista. A tela de proteção da reforma do Copan atrapaha mais a foto do que a vista.

As Cadeiras, o jantar à mesa e a vista.
A tela de proteção da reforma do Copan atrapaha mais a foto do que a vista.

Chegamos os três – eu e um casal de queridos. Não demora, mais um jovem casal deu as caras. Apresentações e empatia imediata. Conversa correndo solta, aperitivos e uma caponata picada miúda, servida com torradas de pão sueco.

Caponata

Caponata

Quentin, normando de Le Havre, atravessara o Canal da Mancha para viver e trabalhar como publicitário na Inglaterra. Em Londres, conheceu Cândida. Há mais tempo do que se possa supor pelo viço que ostentam. Barcelona veio depois. E, enquanto durou o curso de gastronomia, ele encarava com frequência os mil-e-tantos quilômetros até a Espanha para estar com ela.

Cândida graduada, decidiram pelo Brasil, por Sampaulo, onde já estão de mala e cuia há três anos. Ela, produzindo programas culinários no GNT (e preparando jantares no Copan). Ele, numa grande agência de propaganda nas abas do Parque do Ibirapuera.

Foi o último a chegar, o dono da casa. Direto de sua corrida pós expediente (apenas 6 quilômetros, por causa do nosso jantar).

Entrou e assumiu com desenvoltura o posto de anfitrião. Como todo publicitário que se preza, o cara é bom de papo, bem informado, sabe de um tudo e fala pelos cotovelos. Mas com pertinência. Um animador de jantares como poucos. Foi dele uma consideração que me tem dado o que pensar: “a diferença entre a gastronomia francesa e a italiana é que, os franceses são mestres na técnica, em realizar preparos magistrais, independente da matéria-prima não ser promissora (rã, escargot, miolo…); enquanto que os italianos fazem questão de ingredientes primorosos e, por isso se dedicam a produzi-los com esmero: funghi porcini, trufas, lardo di colonatta, aceto balsâmico…” É uma teoria a ser considerada…

Brindes e goles de bom vinho siciliano, para animar as conversas

Brindes e goles de bom vinho siciliano, para animar as conversas

Mas não foi só de comida que se falou. A iminência da Eurocopa e a recente visita dos anfitriões ao Jalapão, além de mercado publicitário e o potencial comercial das start-ups (o outro “convidado” toca uma desses empreendimento de tecnologia virtual: promove a locação de carros entre pessoas físicas) foram alguns dos muitos assuntos da pauta de conversas de uma noite muito, muito legal.

O prato principal foi um confit de cannard, deitado sobre um colchão de batatas à la dauphinoise e molho de cogumelos. Tipo a França é aqui. Destaque para as batatas, cortadas fininhas e gratinadas no ponto exato, macias e saborosas. Faltou banha de pato a umedecer e amaciar a coxa. E o molho, bem… Normal. Creme de leite, manteiga e champignon. Tipo vem confort food francesa aí, com certeza. E veio.

Confit de pato, batata dauphinoise e sauce champignon

Confit de pato, batata dauphinoise e sauce champignon

Já a sobremesa…. No que pese a bela apresentação, o naco de brioche coberto com açúcar mascavo brulé e coroado por uma quenelle de sorvete de doce de leite – ornado por uma sempre encantadora physalis…

Brioche com açúcar mascavo brulé e sorvete de doce de leite navegam numa poça de creme ingles

Brioche com açúcar mascavo brulé e sorvete de doce de leite navegam numa poça de creme ingles

Tipo assim: o melhor foi o belo prato de porcelana em que foi servido.

E aí você fica achando que a experiência não vale a pena. Ledo engano. Vale sim, ora se vale…!

Está certo que o eixo de tudo é o jantar. Em torno do qual, giram vários satélites cintilantes que compõem o todo da experiência.

A começar por uma soirée no Copan. Só isso, não tem preço.

A sociabilização com um pequeno grupo de desconhecido agradabilíssimos, além de singular, é muito prazeroso.

Os anfitriões, Cândida e Quentin, são duas figurinhas carimbadas, no sentido de raras, especiais. Daquelas que o “adorei conhece-los”, na despedida, é ditado pelo coração.

A noite foi tão plena que a comida virou detalhe. E eu acredito, pelo que foi proposto como cardápio, que o que falta ali é a tal técnica francesa a que se referiu Quentin – e para conquistar isso, o caminho é muita, muita prática na retaguarda de uma boa cozinha, sob o comando de um chef a um tempo exigente e paciente. E falta (sempre me referindo à teoria quentiniana) o padrão italiano de exigência com os ingredientes.

Não foi pior do que a maioria dos adoráveis jantares em casa de amigos que já fui na vida, onde a comida é só a justificativa para viver o prazer da convivência. Nem foi melhor. Mesmo a comida era absolutamente palatável. Só não foi surpreendente. A única coisa de fato qualquer nota foi a caponata da entrada.

Agora sou amigo dos anfitriões, como me disse Cândida no dia seguinte, quando voltei lá para buscar o chapéu que havia esquecido. Portanto, foi uma memorável noitada em casa de amigos.

E, quer saber, recomendo total a experiência.

E pro aniversariante, nada? Tudo! Copan! Sampaulo! Copan! Sampaulo! Copan….

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Obrigado, Renatto, pela cessão das fotos (as belíssimas, dá para reconhecer pela qualidade – e estão assinadas) que ilustram esta matéria. Deram um up-grade no post.

Este post foi patrocinado pelo querido Mauro Chinchelli, que me convidou para este “jantar no Copan”.