Nariz feliz

Somos muito influenciados por sensações provocadas pelos sentidos. Eu sou.

Quanto da nossa tranquilidade para encarar com sensatez os desafios da vida são determinados pelo conforto proporcionado pelos sentidos? Ou o contrário: um incômodo produzido pelos sentidos gera ansiedade e pode detonar até nossa capacidade de raciocinar.

É claro que a cultura de cada um de nós, nossos valores lapidados pelas experiências existenciais individuais, moldam gostos diferentes, jeitos distintos de apreciar ou se indispor com o que os cinco sentidos sentem. O que é prazeroso para alguns, a outros por vezes incomoda. Essa diversidade vale, sobretudo, para audição e visão.

audição

O ouvido, que nos informa dos sons ao nosso redor, quando nos invade com o ritmo sincopado da música eletrônica, proporciona deleites ao clubber; para o sertanejo, é um “bate-estacas” insuportável. O mesmo ronco de motores de alta cilindrada pode ser céu ou inferno (a chegada da possante harley-davidson de um vizinho à garagem do prédio, às duas da manhã, é capaz de embalar o sono de um e despertar a decisão indignada de convocar uma reunião de condomínio de outro).

visão

Os efeitos do que a visão nos exibe também é muito influenciada pela estética individual. E varia bastante de pessoa para pessoa. Existe até uma pergunta bem lugar-comum que traduz essa diversidade: “o que seria do azul se todos gostassem do vermelho”? Diante de uma obra-prima de Picasso, por exemplo, há tanto os que se deliciam em êxtase quanto os que desdenham e até a rejeitam com o argumento de que “qualquer criança desenha melhor uma mulher do que isso aí”…

Nos dois casos, som e imagem, meu gosto é muito elástico. Posso achar maravilhoso ou horrendo, não importa se o som é melódico ou dodecafônico, se o visual é harmônico ou caótico.

Já o paladar….

paladar

É um dos sentidos mais sujeitos ao preconceito, tipo “não comi e não gostei”. Mas, no que pese as discrepâncias de gosto, provoca reações mais universais. Comida insossa via de regra desagrada. E o amargo é um sabor rejeitado pela quase unanimidade das gentes.

Talvez seja este o sentido do qual eu seja mais exigente. Não desgosto de nada por princípio, nem do paladar amargoso (mas isso foi uma conquista da evolução de minhas papilas; tirando os gaúchos – que já nascem gostando de chimarrão, são as pessoas mais velhas que costumam apreciar quininos, chocolates com cacau reforçado, cervejas encorpadas, jilós, jurubebas…. Não conheço uma única criança que sequer suporte amargos). Doce, salgado, azedo, apimentado – e amargo – são todos bem-vindo à festa de meus deleites gastronômicos. Desde que preparados com talento e capricho (definir isso é que são elas. Só provando para saber). Por isso é que experimento de um tudo – mas nem sempre engulo!

Chegamos aos dois últimos sentidos. No meu entender de leigo, são os que provocam reações mais unânimes.

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O tato, por exemplo: doeu, não presta! Quem gosta de beliscão, cachuleta e palmada não é normal e precisa ser tratado. Já carícia, afago de brisa fresca numa tarde calorenta ou banho morno neste inverno que mandou abre-alas enregelante, todo mundo gosta que se enrosca.

olfato

E o olfato, finalmente. Cecê, peido, chulé, catinga de peixe com saudade do mar…. Durma-se com um fedor desses! Se alguém curte, é caso para camisa-de-força.

Já cheiro bom é tão gostoso que seus substantivos têm jeitão de adjetivo: aroma, fragrância, perfume…

Nesse tema, faro, Sampaulo se recusa a dar uma mãozinha. Trânsito tacando gases na fuça da gente, poluição, esgotos a céu aberto (tô falando do Tietê, do Pinheiros, do Tamanduateí – que não abrem mão do título de rios) ….

Vamos encarar esses fedidos?

Então, vamos lá! Direto para as ruas Silveira Martins e Tabatinguera, atrás do Corpo de Bombeiros, do lado colado da praça da Sé. Sampaulo existe ali há séculos.A estação Sé do metro tem uma saída que serve ao Poupa Tempo e desemboca direto, bem na frente do nosso destino.

Na rua Silveira Martins, prédio antigo abriga várias lojas de essência. Na rua Tabatinguera, a antiga Tabacaria Central tem artigos para fumantes de todos os fumos e a Capela do Menino Jesus e Santa Luzia esbanja encanto centenário.

Na rua Silveira Martins, prédio antigo abriga várias lojas de essência.
Na rua Tabatinguera, a Tabacaria Central, atulhada de artigos para fumantes de todos os fumos
e a Capela do Menino Jesus e Santa Luzia esbanja encanto centenário.

Em menos de quinhentos metros, num curto percurso que mistura prédios feios e decadentes com outros mais antigos e bem cuidados, na vizinhança da tradicional e diminuta Tabacaria Central e da centenária – e charmosa – Capela do Menino Jesus e Santa Luzia, viceja, há décadas, talvez o maior polo global (com beira vinte lojas) especializado em essências aromáticas.

Mix 3

São lojas antiquadas, que lembram velhas farmácias, sem grandes recursos tecnológicos evidentes. Tudo meio que espalhado sem planejamento marketeiro sedutor. Menos do que um estorvo, para mim este é exatamente o appeal old style do lugar.

Mix 2

É lá que pequenos e médios produtores de perfumaria, cosméticos, produtos de higiene e limpeza se abastecem. Artesãos e fabricantes do Brasil inteiro e de países vizinhos são atraídos pela extraordinária variedade de opções e pelo baixo preço. Sem contar os consumidores de uso doméstico. Tipo eu, que frequento o lugar há muitos anos  – e bota ano nisso.

Casa da Essências. Minha fornecedora de aromas há décadas.

Casa da Essências. Minha fornecedora de aromas há décadas.

Eu vou lá principalmente pelas essências. São centenas. Só na Casa das Essências, minha predileta, são beira setecentos aromas diferentes. Uso-as para perfumar a casa, o carro, lençóis e, eventualmente, a para borrifar em roupas que raramente visto, quando passam um dia fora do armário para “respirar”.

Já tentei fazer até velas. E não é que acendiam e exalavam perfume? Mas, esteticamente, o que imaginei belas frutas, nem para xepa serviam. Não é minha praia.

Mostruários de essências, vidrinhos de provadores para cheirar, semelhantes nas diferentes lojas. Ao lado, têm sempre tijelinhas com grãos de café para "limpar" o olfato entre uma cafungada e outra.

Mostruários de essências, vidrinhos de provadores para cheirar, semelhantes nas diferentes lojas.
Ao lado, tem sempre recipientes com grãos de café para “limpar” o olfato entre cafungadas.

Como é lá que acabo comprando, mesmo batendo perna por toda a região, vou usar a Casa das Essências como referência desse universo perfumado.

Lá, as essências são divididas em três grupos: Perfumaria, Populares e Alimentícias.

O grupo Perfumaria tem mais de 300 aromas! São cópias, digo, contra-tipos (para não parecer pirataria) de marcas famosas. Os melhores produtores dessas essências – não por coincidência – são franceses. Com destaque para a gigante – a caminho do bicentenário – Robertet. Instalada na cidade de Grasse, na Provence (a curta distância do célebre Museu Internacional da Perfumaria). É a fornecedora de algumas das essências de melhor qualidade – e mais caras – da loja.

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Muitas vezes, essas essências não seguem ao pé da letra a denominação original dos perfumes que reproduzem: “Disel”, “Dolce Gab”, “J. Paul Gaulty”, “Pólo” (black, man, blue ou sport), “G. Armangio”, “Carol 212” (em suas várias versões), “J’Adore”, “Poison”, “Kenzzo” e por aí vai. Além de essências com aromas de nossa memória afetiva: “Confort”, “Creme Nivea”, “Phebo”, “Agua Fresca”, “Dove”…

O grupo essências  Populares (também são mais de 300!) reproduz aromas existentes na natureza ou em nosso entorno, tipo “rosas”, “tabaco”, “chá verde”, “vinho”, “manjericão”, “pinho”, “papaya com cassis”, etc, etc.. Ou traduzem imagens e conceitos, tipo “carro novo”, “orvalho”, “banho de pétalas”, “algas marinhas”, “hora do sono”, “emoção”, “energia refrescante”…

Mix

Minha casa, atualmente, cheira “algas marinhas” com um toque de “citrus”. Preparo um aromatizador de ambientes líquido de acordo com as instruções que recebi na Casa das Essências e tanto o borrifo em cortinas, estofados e num potpourri quanto deixo em difusores com varetas espalhados pela sala e pelo escritório. Daí, pode fumar e tudo que a casa está sempre cheirosa.

As exceções são a cozinha (onde já abusei de “baunilha” e agora uso uma mistura de aromas de “alecrim” e “sálvia” – é engraçado que, nos primeiros dias pós mudança, parecia que eu não estava na minha cozinha), a lavanderia e o quarto (onde uso variações de “confort”) e o banheiro (onde estou experimentando “bergamota”, depois de muito tempo usando “dove”).

Detalhe: sugiro que, de tempos em tempos – no máximo de ano em ano, se mude os aromas. O olfato se acostuma, amortece e vai deixando de sentir legal o cheiro. E a tendência é começar a exagerar…

Já o grupo essências Alimentícias – que oferece mais de 50 sabores, ooops, digo, aromas – é bem “divertido”. Tem essência de um tudo. Inclusive “alho”, “bacon”, “jenipapo”, “manteiga”, “mel”, “panetone”, “calabresa”, “pequi”, “queijo”… Sem contar as de bebidas. De “cola” a “tequila”, “rhum”, whisky”, cognac”….

Mix 1

Ao cheirá-las, descobrimos de onde vem o aroma, por exemplo, de um monte de salgadinhos meia-boca que se comem por aí. Mas podem ser usados em gastronomia de melhor qualidade também. Não interferem no paladar, mas mexem na percepção que se tem dele. Até porque parte do sabor é psicologicamente proporcionado pelo aroma. Ou vai tentar beber um café com cheiro de bacon para ver que gosto tem…!

O forte da Casa das Essências são essas essências e óleos essenciais. A diferença entre um e outro é que o óleo essencial é mais natural e concentrado, extraído diretamente do elemento que lhe dá aroma. É mais caro e é usado também em tratamentos de aromaterapia.

Aromaterapia é uma técnica ancestral de tratamento psico-emocional que utiliza óleos essenciais

Aromaterapia é uma técnica ancestral de tratamento psico-emocional que utiliza óleos essenciais

Já as essências são mais diluídas, sentam sem pudor no colo dos ingredientes sintéticos, mas cumprem basicamente a mesma função.

Além disso, outro ponto forte da loja são os ingredientes para o preparo de um sem número de produtos que usam essências aromáticas. Olha só uma listinha básica: perfume, banho de espuma, velas aromáticas, goma síria, sachês, desinfetante, shampoo, desodorante (em líquido, creme, barra…), gel para cabelo, óleo para massagem, água de colônia, licores, aromatizante (de ambiente, de carro, de roupa, de gaveta, de tapete…), amaciante, condicionador, cremes para pele, loção pós barba…. Isso é só uma amostra!

Mix 6

Cada produto tem sua receita. E a Casa das Essências vende todas elas. De manteiga de cacau a dipropileno glicol (seja lá o que isso for), de fixador a corantes, de nipazol a quartenário de amônia. Inclusive ácido ialurônico, que é o queridinho da vez da indústria cosmética. Alguns tem sua venda restrita. É o caso do álcool de cereais e do formol. Por isso a loja vende bases prontas, às quais precisamos, apenas, acrescentar as essências (é assim que preparo meus aromatizantes de ambiente e de carro).

Uma amostra da grande variedade de utensílios para produção de "cheirosos". E alguns dos centenas de ingredientes usados nessa fabricação.

Uma amostra da grande variedade de utensílios para produção de “cheirosos”.
E alguns dos centenas de ingredientes usados nessa fabricação.

Formas em acetato, silicone ou alumínio, para sabonetes e velas (inclusive com formato erótico),

Em cima, formas de silicone e sabonetes preparados nelas. No centro, formas de acetato, inclusive "eróticas". Embaixo, formas de alumínio, próprias para velas.

Em cima, formas de silicone e sabonetes preparados nelas.
No centro, formas de acetato, inclusive “eróticas”.
Embaixo, formas de alumínio, próprias para velas.

além de saquinhos com componentes para potpourri também estão à venda por lá.

Exemplos de composições de potpourri aromático. E a variedade de componentes para criar seu próprio potpourri.

Exemplos de composições de potpourri aromático.
E a variedade de componentes para criar seu próprio potpourri.

Sem contar uma grande variedade  de incensos mandingueiros. Eu sempre tomei essas fumaças cheirosas como perfumaria espiritual, usada em louvação a divindades. Mas tenho percebido que avançaram para além do que eu supunha ser apenas zen e contemplativo. Eventualmente, até festivo. Agora, descubro que tomaram o rumo do feitiço. A quantidade deles que se dispõe a tirar olho gordo, ajudar nos negócios, arredar maldições de toda espécie e, até, conquistar amores, é impressionante. E, outros, embarcaram na aromaterapia; tipo o Mamãe & Bebê que acena com acalantos perfumados (embora eu estranhe a ideia de juntar nenéns e fumaça). Sem contar os aromas que nunca imaginei encontrar em incensos, tipo manjericão ou pitanga.

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Aliás, todas as outras lojas do polo de essências também trabalham com esse mix de produtos;.A Casa das Essências é apenas a com que tenho mais intimidade e, pelo que sinto, a que oferece mais opções de essências e ingredientes. Inclusive bases confiáveis para a produção dos sub-produtos dessa indústria artesanal de perfumaria, cosmética, higiene e limpeza.

O ponto fraco da loja é a oferta de frascos e embalagens. Daí, é bater perna, porque nas outras lojas não faltam opções que vão de vidros no formato de Nossa Senhora Aparecida com tampa que remete a uma coroa até frascos em forma de caveira (eu acho mais apropriado para venenos, mas, enfim, está na moda). Muito comuns, também, são difusores. Tanto os de varetas – que hoje em dia são tão corriqueiros – quanto os elétricos. Estes usam resistência e, embora de baixa voltagem, consomem muita energia. Foi por isso que deixei de usá-los desde a crise hídrica (faz tempo que eu não falo dela, com a Graça de Deus).

Milhares de frascos e embalagens, de vidro transparentes, leitosos, opacos ou coloridos, com formas inusitadas como Nossa Senhora, torre Eiffel ou caveira, em design comportado ou arrojado, grandes como garrafões ou pequeninos como amostras grátis, de tubos, potes, bisnagas, garrafas, vaporizadores são oferecidos como recipiente para produtos fabricados com as essências aromáticas em torno das quais cresceu este polo comercial de fornecedores da pequena e média indústria - artesanal, caseira, de fundo de quintar. De perfumaria, cosméticos, velas, higiene pessoal e limpeza.

Milhares de frascos e embalagens, de vidro transparentes, leitosos, opacos ou coloridos,
com formas inusitadas como Nossa Senhora, torre Eiffel ou caveira, em design comportado
ou arrojado, grandes como garrafões ou pequeninos como amostras grátis, de tubos, potes,
bisnagas, garrafas, vaporizadores são oferecidos como recipiente para produtos fabricados
com as essências aromáticas em torno das quais cresceu este polo comercial de fornecedores
da pequena e média indústria – artesanal, caseira, de fundo de quintar.
De perfumaria, cosméticos, velas, higiene pessoal e limpeza.

Para quem está a fim se jogar no “Perfuma Sampaulo” (começando em sua própria casa), a Casa das Essências tem um manual com a receitas de um monte de coisa cheirosa. Mas, se não quiser ficar batendo a cabeça, recomendo os cursos promovidos por outra loja, ali pertinho, na rua do Carmo, a Essência & Companhia.

Vida cheirosa, acredite, é mais bem-disposta e bem-humorada. E isso não tem preço. Ainda assim, aromatizar a casa é muito mais barato do que se imagina.

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Acabou. E não rolou uma fotinho sequer de um prato de comida apetitosa. Desse jeito, a gente vai ficar magrinho… Mas cheiroso!

Bônus

A ótima cantora Rita Benedito
gravou este delicioso Banho Cheiroso
(do compositor popular maranhense Antonio Viera),
no CD Pérolas aos Povos, em 1999.:

Publicado no YouTube por Janko Raikovic´

 

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