Sorvete? Não… Gelato!

O sorvete do antigo Hotel Central não era lá grande coisa. Mas sorvete é sorvete. E eu era menino…

Com sorvete é assim. Até quem não é criança, vira. E só não se lambuza por decoro etário.

Aquele era o lugar mais distinto, na São Luís de minha infância, para se tomar um sorvete. De ameixa (que era chic) e de chocolate (um nescauzinho para lá de desmaiado).

Mas bom, mesmo, era o sorvete de coco dos ambulantes de rua.

Esqueçam carrinhos repletos de picolés embrulhados. Os sorveteiros daquele início dos anos 60 carregavam meu doce desejo – branquinho e cremoso – sobre a cabeça protegida por uma rodilha de pano. Escondiam-no dentro de um tubo de madeira, tipo uma tina. No meio dela, outro cilindro, mais estreito, de metal. O cofre que guardava o cobiçado sorvete de coco. Entre o metal e a madeira, muito gelo coberto por estopa para retardar o derretimento.

E ainda havia uma lata dependurada nessa geladeira primitiva. Cheia de casquinhas pequeninas, artesanais, crocantes como biscoito.

Quando deixei a cidade, no rumo de Sampaulo, em 1971, já começavam a ser substituídas por caixas de isopor.

Desenho português do início do século XX, "tina" antiga, o gelo, modelo atual, casquinhas tradicionais e como é vendido, hoje, o irresistível sorvete de coco de minha infância, em São Luís do Maranhão.

Desenho português do início do século XX, “tina” antiga, o gelo, modelo atual,
casquinhas tradicionais e como é vendido, hoje,
o irresistível sorvete de coco de minha infância, em São Luís do Maranhão.

Anos depois, voltei a encontrar tinas tubulares como aquelas Em Dakar, num Senegal ainda governado pelo poeta Leopold Senghor. Foi quando descobri que eram mais do que depósitos para venda de sorvete. Eram sorveteiras. O doce gelado de coco da minha infância era preparado ali dentro, por pás que eram giradas manualmente dentro do cilindro de metal. Os camelôs maranhenses, há cinquenta anos e tal, não tinham refrigeração em suas casas. Usavam gelo comprado em barra, triturado para fabricar o sorvete. E muque para remexer a massa.

Ora, direis, não há clima para uma conversa dessas…. O calor escaldante até que resistiu bravamente, invadiu o outono, abrasou abril de cabo a rabo, mas entregou os pontos. E só agora, quando o frio retardatário decidiu dar as caras, venho puxar um assunto assim, gelado…

downloadPois saibam que o sorvete nasceu invernal. Há coisa de três mil anos! Inventado pelos chineses quando o ocidente ainda engatinhava, mal começando a construir a civilização grega.

Para se distrair durante os longos meses de frio intenso, os primeiros imperadores da dinastia Zhou decidiram adoçar a modorra com uma mistura de neve, frutas e mel. Bingo! Criaram uma das mais adoráveis guloseimas gastronômicas.

No verão, sem neve, bau bau sorvete.

Milênios mais tarde, o curioso Marco Polo viajou da Itália ao extremo Oriente atrás de novidades. Voltou cheio delas. Inclusive o sorvete. Os italianos levaram a sério a brincadeira dos chineses. Aprimorando-a até as fronteiras da perfeição. Hoje, são os maestri gelatieri do mundo.

E o que não falta, em Sampaulo, é italiano, figlio de italiano, nipote de italiano, pronipote de italiano…. Mas, surpreendentemente, até dia desses não havia uma de fato boa gelateria italiana na cidade.

Chocolamour, do Bambi

Chocolamour, do Bambi

Quando cheguei aqui, minha salvação era uma sorveteria acanhada e sazonal – só abria, sem falta, no verão – numa esquina da praça Marechal Deodoro com a rua São Vicente de Paulo, na fronteira entre Higienópolis e a Barra Funda. E havia o chocolamour (sorvete, calda de chocolate e farofa de castanha de caju) do restaurante Bambi, além do crocante da Brunella, na alameda Gabriel Monteiro da Silva, e dos kibons da vida – que, além de abastecer padarias e supermercados, forneciam matéria prima para sundays, banana-splits e vacas-pretas servidos em qualquer lanchonete da cidade. Laricas juvenis me fizerem cliente cativo dos bem servidos milk-shakes de chocolate do Joakin’s (na rua Joaquim Floriano, no Itaim) e do Oregon (na esquina da rua dos Pinheiros com a avenida Pedroso de Morais, em Pinheiros).

Num verão do final dos anos 70 – ou início dos 80, uma sorveteria bombou no último quarteirão da rua Padre João Manoel, chegando na rua Estados Unidos. Com direito a filas e congestionamento. Não recordo seu nome, mas lembro de um sorvete apicolezado, com formato e sabor de banana, coberto com calda de chocolate. A novidade não sobreviveu ao primeiro inverno.

Sucesso mais perene só foi conquistado na virada do milênio, pelo cozinheiro e apresentador de televisão Edu Guedes, com sua Stuppendo, no bairro de Moema. Se bem que eu tenho para mim que ele já havia tentado a sorte antes, numa loja no final da Rua Augusta…

De lá pra cá, a boa gelateria italiana tomou conta de Sampaulo.

Com eles aprendi que o bom sorvete, untuosamente cremoso, preparado com ingredientes naturais de qualidade, rico em proteínas, gorduras, açúcares e vitaminas, vai muito além do meramente refrescante. É um alimento completo. Se Danoninho vale por um bifinho, o bom sorvete vale por uma refeição completa. Sem contar o bônus da alegria!

Como se não bastasse, esses sorveteiros da escola italiana costumam ser doceiros talentosos. Seus cremes gelados são deliciosos. E, quando o calor arrefece, aprecia-se muito melhor o sabor.

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Hoje, há dezenas de sorveterias que praticam a técnica dei gelatieri na cidade. Entre eles, meus prediletos são Bacio di Latte, Frida & Mina, CuordiCrema, Casa Elli, Le Botteghe di Leonardo e Marco Polo. Pelos nomes dá para perceber o DNA, né? Tutti com passaporte italiano…

Como Giovanni Pedone.

Tropecei nele há pouco tempo. E olha que eu passava sempre em frente a sua loja, na vizinhança da casa de minha mãe. Num trecho em que se tem que ficar atento, por conta de uma curva mais complicada. Por isso, nunca havia reparado na sorveteria, aberta há dois anos …

Um dia, tive que deixar meu carro na oficina. E fui visitar mamãe de condução. Caminhando do ponto do ônibus até a casa dela, sem me estressar com o trânsito, finalmente atentei para a provocação – “a magia do gelato”, estampada na vidraça da Delícia Delizia. No meio de um quarteirão da avenida Giovanni Gronchi, mais perto do shopping Jardim Sul do que do estádio do tricolor, entre a rua Charles Chaplin e a rua Abdo Ambuba; na Vila Andrade, um dos enclaves que formam o grande Morumbi.1800458_264487303716092_1744361657_n

Não resisti ao anúncio na fachada e ao colorido festivo do interior e fui dar uma espiada. Óbvio que logo estava com um copinho na mão. O sabor? Narancia.

UAU! Que bendito destino o daquelas laranjas, Derreteram meu coração.

Não havia exagero no que alardeava o anúncio que me atraiu. A tal magia me arrebatou, como no tempo do sorvete de coco de São Luís. Só que muito mais requintado, capaz de seduzir não apenas a excitação de uma criança que tateia as sensações da vida, mas também um já idoso sessentão, rodado em zilhões de emoções gastronômicas. Não saí de lá antes de ultrapassar todas as medidas. Me fartei passeando por uma variedade de sabores, todos deliciosos: pistache, manga, chocolate 70%….

Vitrine de tentações do Delícia Delizia

Vitrine de tentações do Delícia Delizia

Cremosamente graxos, pegajosamente elásticos, melífluosamente resinosos… Como descrever essa textura sedutora, capaz, até, de dissimular o “gelor” excessivo para se fazer prazeroso ao tato sensível da língua? Tanto os de fruta como os mais encorpados (os sorveteiros chamem de “cremosos” apenas os que são feitos à base de leite, em contraposição aos “sorbets”, à base de água). Reconheci e cumprimentei o gelatiere (denunciado pelo dólmã com o nome bordado), mas não me apresentei. Só o fiz nos vários retornos subsequentes.

Giovanni, chegando aos cinquenta anos, é italiano de Milão, descendente distante de sicilianos. golden_ice_cream_icecream_cone_trophy_award__89150.1391118120.358.358Quando menino, seus verões eram desfrutados em praia da Ligúria, nos arredores de Nápoles. Lá – como cá – o calor era a senha para o consumo de sorvetes. Seu pai deixava a família veraneando e voltava para a cidade durante a semana. Com uma advertência: se se comportassem enquanto estivesse fora, no sábado levaria os filhos para tomar gelato. Para as crianças, sorvete era prêmio. E, a casquinha equilibrando bolas, o troféu!

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É dessa época uma sua foto caindo de boca num sorvete. Tracejada em auto contraste, quarenta anos depois, a imagem acabou virando a marca da sua sorveteria.

Mas só recentemente, Giovanni virou sorveteiro. Antes, foi corretor de seguros.

Até que, já maduro, começou a fazer “bico” como gelatiere. Um seu amigo abriu uma sorveteria nos arredores da bela Piazza Cavalli, na cidade histórica e turística de Piacenza. A setenta e poucos quilômetros de Milão. No verão, quando o movimento apertava, não dava conta sozinho. Giovanni largava tudo, arregaçava mangas e ia aiutare il suo amico.

Até que, numa noitada milanesa de pizza, conheceu Cristina Giarone. Uma paulistana de ascendência italiana que visitava a cidade.A ragazza veio embora, mas deixou saudade. Muito chat de internet depois, o encontro casual virou namoro, foi ficando sério e Giovanni começou a cogitar atravessas o Atlântico. Vir fare il Brasile.

Quando revelou essa intenção ao amigo sorveteiro, descobriu que o cara também pensava deixar a Itália. “Vengo con te, si aprirà una gelateria lì”! Se estabeleceriam aqui com uma sorveteria.

O amigo afinou. Mas Giovani veio ao encontro de Cristina. E, com ela, abriu a Delícia Delizia.

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Ele cuida da preparação dos sorvetes, a partir de uma antiga receita da bisavó siciliana. Ela, do resto.

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Já percorri quase todo o cardápio. E…. Só alegria. Morango, por exemplo, que nunca foi de meus sabores prediletos, surpreende pelo mergulho na alma da fruta. E cambuci, então? Há muito desaparecida até de feiras e mercados, ameaçada de extinção, a azedinha foi resgatada por Giovanni numa cooperativa de produtores que cuida de salvar essa fruta símbolo da mata atlântica. Abacaxi e limão são dois outros sabores preparados com a própria fruta.

1017717_281093172055505_39349775_nAssim como pera, feito apenas com o tipo Williams e batizado pelo sorveteiro com o apelido do pai, Pucci, que fez desse sabor de sorvete um de seus últimos deleites em vida.

E amarena, um tipo de cereja italiana, miúda, cuja calda (farta em fruta), banha um gelato cremoso batizado com o nome de sua avó. A nonna Lina era louca por amarenas. A ponto do nonno plantá-las em casa para que não lhe faltassem.

É um dos meus prediletos. Tanto que, em cada ida minha à Delícia Delizia que inclui, no mínimo, dois ou três sabores; um deles tem que ser Nonna Lina.

Amarena, batizado em homenagem à Nonna Lina

Amarena, batizado em homenagem à Nonna Lina

Entre os cremosos, é difícil me decidir: Crême Brulée? Ou o clássico dos clássicos italianos, uma das obras-primas de Giovanni, Pistache? Talvez Paçoca (que, como ele diz, não é simplesmente amendoim; é diferente. É… Paçoca!). Caramello? Cheese Cake? Tapioca? Avelã? Crema Delícia?…

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Este último – que exala aromas de baunilha – é par perfeito para as combinações com os doces da patissière Carol Rodrigues, parceira do Delícia Delizia. Uma craque no manejo de doçuras sedutoras. Adoro a bela tartelette de pera, os macarrons (dos melhores que já comi) recheados com sorvete… E, logo, logo, vou cair de boca no finacier (um bolinho lindo de amêndoas e mel, recheado com geléia), nos atraentes entremets (que são tortas em camadas multi-coloridas) e nos mil-folhas também com recheio de gelato.

Carol, que tem loja a alguns quarteirões dali, decidiu ceder seus doces à Delícia Delizia porque: “encontrei em Giovanni a mesma paixão pelo gelateria que tenho pela doçaria”.

Mil-folhas, torta entremet e tartelette de pera de Carol Rodriguea. Tudo servido com sorvete.

Mil-folhas, torta entremet e tartelette de pera de Carol Rodrigues.
Tudo servido com sorvete.

E é aí – eles não me disseram isso, mas eu já percebi – que entra a competência empreendedora e marketeira de Cristina. Ela deixou uma bem sucedida carreira numa empresa financeira, já como manda-chuva do departamento comercial, para se jogar com o marido no seu próprio business. É quem negocia parcerias para ampliar as ofertas da sorveteria, cria alternativas de negócio – como o simpático carrinho para eventos da casa, pesquisa e sugere ao marido a criação de novos produtos – a partir da pièce de resistence da Delícia Delizia: os sorvetes.

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Até o café expresso da marca Unique, graduação 85 (ou seja, ótimo), é servido com uma bolinha do gelato Flor de Latte, propondo um mini affogatto. Que também é oferecido na versão grande, além de milk-shakes, chocolamour, mini cones, minous, cookies e alfajores recheados de sorvete…

O expresso affogattino, preparado com café goumet e sorvete flor de latte

O expresso affogattino, preparado com café gourmet e sorvete flor de latte

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É…. Não é à toa que aumentei minha frequência de visitas a minha mãe, depois que conheci as tentações da Delícia Delizia. Ainda bem que a região é pródiga de boas academias onde suar os excessos.

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Não sei se é comum entre os sorveteiros, mas me encanta o jeito como Giovanni lida com crianças. Ele não observa as reações de um adulto que prova seu gelato como atenta para as expressões dos pequenos. E sorri, discretamente realizado, quando percebe prazer nos miúdos. Mantêm, inclusive, um sabor criado por eles em seu cardápio, batizado de Hello Kitty.

E, vira e torna, organiza aulas de fabricação de sorvetes na loja, só para crianças e pré-adolescentes. Com direito a indumentária de maestro gelatiere e tudo. Pelas fotos, dá para ver que a meninada adora.

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