… de sol a sol…

A noite desde sempre me fascina.

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Tanto pela boemia quanto pela tranquilidade para me jogar na leitura ou para juntar sujeitos, verbos e predicados – sou um escrevinhador compulsivo. E, até, porque as atribulações do dia raramente me permitem encarar o prazer do forno & fogão em paz; daí, de madrugada posso me dedicar ao descasca, pica e refoga do cozinhar fora de hora.
Um papo a bordo de um vinho – ou chá, então…. Sou notívago.

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A aurora é a senha para me recolher. Fujo da inclemência cruel do sol cintilando contra meu semblante tresnoitado. Essa cacetada me amiuda de um jeito tão humilhante…. Não há óculos escuros que anuviem o mal-estar, a sensação de vexame. Corro para me cercar de cortinas pesadas, cerradas (por isso as black-out sempre foram artigo de minha primeira necessidade – já tive casa em que as instalei até no banheiro).

can-stock-photo_csp14322425Outra fascinação é a gandaia. Em turba. Sabe carnaval? Rock in Rio? Clássico de final de campeonato com estádio lotado? Parada Gay? Círio de Nazaré (quem pensa que não é balada, Ave Maria, nunca foi e não sabe o que está perdendo)? Reveillon em Copacabana? Por aí….

Ambos, tanto o varar a noite como o me perder na multidão caíram em desuso. A noite ainda me atrai, mas começo a bocejar bem mais cedo.  E, juntou duzentas pessoas, eu já estou catando camarote para segurar meu copo em paz.

Mas abro exceção, uma vez por ano, quando o outono avança e a prefeitura paulistana faz acontecer mais uma Virada Cultural.

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Inspirada em evento europeu semelhante, as “noites brancas”, a versão paulistana foi sucesso já na primeira edição, em 2005 (equivocadamente planejada para a chuvosa primavera). Logo transferiram para o tempo mais firme de maio. Até o friozinho favorecendo o bater de pernas.

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Os palcos, espalhados por todo o centro velho de Sampaulo, concentram as atrações mais badaladas. Alguns desses tablados são gigantescos e distam mais de dois quilômetros entre si. Estou falando dos pontos extremos da festa. Tipo praça da Sé e estação Júlio Prestes. 21jun2015---encerrando-a-virada-cultural-caetano-veloso-atrai-grande-publico-para-o-palco-julio-prestes-na-regiao-central-de-sao-paulo-1434924278962_956x500Entre um e outro, centenas de espetáculos, performances, projeções, arte por toda parte. De mega-shows a apresentações isoladas rolando a cada esquina. Instalações de arte cibernética e bailes populares. Raves eletrônicas e feiras de comida de rua “gourmet”. Abrangendo do forró ao erudito (que emocionante a apresentação da Sinfônica Municipal, coro e solistas, há algumas viradas atrás, entre o Museu da Língua Portuguesa e a Pinacoteca, tocando Carmina Burana para milhares de pessoas embevecidas). Além das belas artes, do picadeiro circense, do palco do Teatro Municipal do ringue de Luta Livre, do pastel e do cevice. Da parada de cosplay a teatro, dança, cinema e bonecos gigantes. Tem até programação infantil, com shows, oficinas e brincadeiras monitoradas.

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre, feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, "Jack Sparrow", Reginaldo Rossi, trupes performáticas... Rola de um tudo na Virada Cultural

Instalações cibernéticas, gente animada, acrobacias, hip hop, circo, luta livre,
feira de comida gourmet, cosplay, artes cênicas, atrações infantis, “Jack Sparrow”,
Reginaldo Rossi, trupes performáticas…
Rola de um tudo na Virada Cultural

Não é à toa que quatro milhões de paulistanos e turistas se joguem, anualmente, nos eventos da Virada. Pega quatro mil pessoas (uma pá de gente) e multiplica por mil. Mil pás de gente!

Mix 1

Com o metro funcionando sem parar.

Começa às seis horas da tarde de sábado (o próximo, dia 21 – este ano). Com os últimos shows começando também às seis da tarde, só que de domingo. Eita que cansa só de descrever.

Com o tempo, os palcos foram se consagrando a determinados ritmos. O da praça da República, faz tempo que é território do samba. De raiz, sambão de matriz carioca, mesmo que interpretado por sambistas de outras paragens, inclusive daqui.

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Destaques do samba, este ano, na Virada: Dona Ivone Lara, Arlindo Cruz e Alcione

Aliás, artista de fora é o que não falta na Virada. De perto e de longe. Até da Australia. Um dos ótimos shows que já assisti, numa delas, foi o da estrela norte americana do jazz, Stanley Jordan, estraçalhando uma guitarra que, em alguns momentos, parecia uma banda inteira.

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

Stanley Jordan , em memorável apresentação numa Virada passada

E tem o palco brega, sempre no largo do Arouche, que já estremeceu com Sidney Magal, Gretchen, Valeska Popozuda… Já me esbaldei por lá num show de Luís Caldas – “eu queria ser abelha pra pousar na tua flor…. Haja amor”. E este ano o palco abre, no sábado, com a eleição da rainha da Virada. Traveca, claro, porque miss é muito five o’clock tea para um evento destes.

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Luís Caldas, Valesca Popozuda e Sidney Magal já fizeram tremer o largo do Arouche

Tem palco de rock, de reggae, de música Instrumental (em frente ao Copan)…. A praça do Patriarca é do forró, da sanfona, da zabumba e do triângulo.

Um dos mais maiores, mais “nobres”, reservado a grandes estrelas, é o palco da MPB, na praça Júlio Prestes. Os shows de abertura e encerramento costumam acontecer lá. Este ano começa com Ney Matogrosso – e segue com Alcione, Baby do Brasil, Criolo e, até, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (que “mora” ali em frente), para acabar com a apresentação que reúne Nação Zumbi com os suíços da banda Young Gods.

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

Ney Matogrosso abre o palco onde também se apresentará
Isaac Karabitchewsky pilotando a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo

E tem o Teatro Municipal, aberto a noite inteira, com um show atrás do outro, sempre com um mesmo tema: os artistas revisitam um disco clássico de suas carreiras. As filas são enormes e eu já as encarei duas vezes. Numa delas, desisti quando me toquei que não conseguiria entrar e teria que assistir nos telões instalados, do lado de fora. Era Luiz Melodia revivendo o repertório de seu fantástico Pérola Negra (sabe Estácio, Holy Estácio…?).

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Cesária Évora, numa Virada, anos atrás

Mas não fiquei frustrado porque corri e peguei desde o comecinho o show extraordinário da cabo-verdiana Cesária  Évora, no palco da avenida São João.

Neste mesmo ano ainda vi Gal Costa – de um quarto de hotel, desses bem meia-boca, do centro (que amigos haviam transformado em camarote bem situado diante do palco).

E perdi, por coincidência de horário, a apresentação – soube que foi emocionante – de Ana Botafogo dançando o Cisne, em palco montado no Vale do Anhangabaú. Aliás, a vasta área sob o viaduto do Chá já virou local dos palcos – os únicos com direito a milhares de cadeiras – de teatro, dança e musicais.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Ana Botafogo se apresentou no palco de Dança, sob o viaduto do Chá. E arrebatou a multidão.

Tom Zé, de máscara, agitou o Teatro Municipal

Tom Zé, de máscara,
agitou o Teatro Municipal

Voltando ao Teatro Municipal (que este ano vai ter Geraldo Azevedo com as músicas de seu disco Bicho de 7 Cabeças), houve um ano em que consegui entrar e assistir a um happening anárquico-musical memorável:

Tom Zé, de máscara e tudo, refazendo o seu antológico Grande Liquidação. Virou baile e tudo, com a plateia e galerias celebrando a vida aos urros sob a batuta do tropicalista essencial.

Todo ano tem novidade. Algumas são incorporadas e voltam nos anos seguintes. Outras ficam como marca daquela edição da Virada. E outras são ajustadas porque derraparam na largada.

Como a Feira Gastronômica. No primeiro ano, aconteceu em cima do Minhocão, comandada pela celebridade maior da culinária brasileira, Alex Atala. Virou tumulto sobre o viaduto sem ponto de fuga. Nada de realmente grave, mas não deu para apreciar a famosa galinhada do chef. Naquele ano eu me toquei para a relevância da alta gastronomia no mundo de hoje. Conheci um casal, juntos há mais de dez anos, tipo classe média baixa, que passa o ano separando dinheiro, coisa de 50 ou 60 reais por mês, para celebrar seu aniversário de casamento num dos endereços gastronômicos top de Sampaulo. Com tudo que o esforço poupador lhes dá direito, da entrada ao vinho especial. Falavam com deleite e grande discernimento crítico de suas experiências com as criações do próprio Alex (no DOM), de Helena Rizzo e Daniel Redondo (do Mani)…. A partir daquela primeira edição atribulada, a Feira muda de lugar, mas acontece todo ano (já passou pela praça Roosevelt, pela Ramos de Azevedo…). A mais tranquila, na minha opinião, rolou na avenida São Luís, só que durante o dia de domingo. Ainda assim, as filas eram longas para conseguir se jogar nas invenções de dezenas de chefs estrelados da cidade.

Alex Atala na primeira Virada. E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Alex Atala na primeira Virada.
E algumas comidinhas que podem rolar por lá.

Duas novidades e um palco vazio marcam a edição 2016.

É que, na programação, havia um show de Ângela Maria e Caubi Peixoto…

Já de inédito, um palco dedicado só às mulheres, Que vai ter de Elza Soares a Maria Rita, passando por Céu, Elba Ramalho e a cubana Yusa, entre outras. Na praça Julio Mesquita.

Esta eu vou querer ver. Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. "Do cóccix até o pescoço..."

Esta eu quero ver.
Elza Soares sempre me deixa com a lma à flor da pele. “Do cóccix até o pescoço…”

E uma invenção polêmica: um tal do Happy Hour. Acontece na sexta, dia 20, entre o fim da tarde e o meio da noite. E pretende ser um como que aperitivo da vasta programação de sábado e domingo. Com destaque para o ótimo e pouco conhecido Samba da Vela que rola na praça Dom José Gaspar e da avant première da nova Casa de Francisca.

O cultuadíssimo (de cult e de vastidão de devotos) e mínimo (de exíguo, diminuto), mas adorável e premiadíssimo cabaré musical da rua José Maria Lisboa está reformando o palacete Tereza Toledo Lara, no miolo do centrão mais centrão de Sampaulo, ao lado da praça da Sé, para se mudar. Com seu elenco de bambas, conceituados, mas de pouca mídia. Ná Ozetti, Arrigo Barnabé, Mônica Salmaso, Luiz Tatit e por aí vai. Eles vão se apresentar na futura nova sede (nem imagino em que pé esteja a reforma) entre cinco da tarde e onze da noite, gratuitamente, nessa pré-virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música vai virar catedral. E a pré-estréia é agora, na Virada.

A Casa de Francisca, capelinha sagrada da boa música, vai virar catedral.
E a pré-estréia é agora, na Virada.

Agora, na real, um dos grandes baratos é bater perna por toda a região central de Sampaulo ao longo das 24 horas. Cruzar com tribos animadas que circulam nossa diversidade urbana. De punks a idosos, de mauricinhos a skatistas. Alternativos e comportados, dos mais diferentes extratos sociais. Vindos do distante Grajaú, da vizinha Higienópolis, do periférico ABC, dos hypados Jardins, da Mooca tradicional, do modernoso Panambi…. Sem contar os turistas, pois a virada é um dos grandes ímãs de atração de visitantes para a cidade. Tipo ali, na cola da Fórmula 1 e da Parada Gay, que são os campeões. Num congraçamento de diversidades que só se vê na Virada Cultural. O riso, diga-se, é lugar comum. Everywhere. No rosto de everyone.

Virada é para se esbaldar

Virada é para se esbaldar

Este ano, com o circuito “carnavalesco” que vai proporcionar um cortejo ininterrupto de blocos, bandas e cordões carnavalescos – inclusive alas de escola de samba, vai virar folia.

É claro que a mídia, na segunda-feira, vai destacar incidentes, episódios isolados de violência…. Fazer o que? A mídia vive disso mesmo. É que o povo mais comodista, que prefere viver pela TV, precisa se auto justificar a moleza. Eventos isolados até rolam, mas nada que se compare ao estresse de torcidas organizadas se topando em dia de clássico. Sempre que estou na cidade, vou pra lá. E nunca vi nada que me intimidasse. É até bem tranquilo. Até porque, imaginemos o que rolaria numa cidade de 4 milhões de habitantes, num fim-de-semana normal, entre o anoitecer de sábado e o anoitecer de domingo. Com certeza muitas vezes mais ocorrências desagradáveis do que durante a Virada Cultural de Sampaulo. Considerando o mesmo universo humano!

Faltam lugares para sentar e descansar as canelas, mas sempre acaba aparecendo um batente, uma mureta, um degrau ou uma mesa que acabou de vagar num boteco – poucos fechados e todos inflamados, funcionando em pleno vapor.

Houve um ano em que o Teatro Municipal – que fica meio que no miolo geográfico do buchicho –  estava em reforma. Um grupo de artistas ambientalistas transformou suas escadarias num arremedo florestal, plantado em vasto tapete de grama sintética. Com carcaças de carros de onde “brotavam” árvores. Exibindo a resiliência da natureza. Na fachada do teatrão, projetavam pássaros voando. E a trilha sonora reproduzia seus trinados e os ruídos da selva. Me deitei naquele gramado e, embalado pelo pique de oásis, não é que pequei no sono…? Peut être até ronquei, sonhando com o antigo Mappin – ali em frente, lembra? – “aberto até a ½ noite”!

MixA Virada vale por tudo isso. Pelo encantamento das projeções artísticas nas fachadas dos prédios, dos trapezistas e malabaristas em ação para tudo quanto é lado (inclusive atravessando, lá no alto, sobre o Anhangabaú), dos performáticos insólitos (já houve pianista tocando com piano e tudo suspenso por grua acima da galera, jogo de futebol em campo projetado na fachada da prefeitura, com os “jogadores” acrobatas – e a bola – pendurados em cabos…). Sem contar as troupes de performance urbana que surpreendem e arrebatam. Precisa ver o olhar das crianças – e dos adultos – diante das instalações de fogo do grupo francês Carabosse, no Jardim da Luz, na Virada do Ano França/Brasil! E, noutro ano, dos também franceses Generik Vapeur, com bicicletas (ou o que fizeram delas…). E os insetos gigantes e coloridos circulando pelas ruelas do centro velho? O fato é que há sempre surpresas cheias magia quando se circula pela cidade, durante a Virada.

 

 

 

 

 

 

 

 

Que também acontece em pontos avançados, nos bairros de periferia, em centros culturais, bibliotecas, escolas…. Seguindo ao pé da letra a máxima de que todo artista tem que ir onde o povo está. São sobretudo shows, atividades artísticas para crianças e eventos literários que não viram a noite.

As muitas de unidades do SESC, um dos maiores patrimônios culturais da cidade – graças a sua rica, variada e imprescindível programação descentralizada de todas as artes – também participa ativamente da Virada Cultural. Desde sempre.

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Há alguns anos, no SESC Ipiranga, um artista instalou esculturas de gelo, reproduzindo pessoas em tamanho natural, sentadas na escadaria de entrada. Era de fato intrigante ver aquela “gente” derretendo, lentamente, ao longo da noite. Eu ia passear pelo jardim – onde rolavam filmes, apresentações musicais e comidinhas – e voltava para ver o estado das criaturas que formavam um rastro escorrendo degraus abaixo, até virarem como que pontas de icebergs ou cumes de uma cordilheira gelada. IMG_5651

Este ano, por exemplo, não perco a apresentação da extraordinária dupla maranhense Criolina, na noite de sábado, no SESC Consolação.

Tem muita, mas muita coisa mais. Da programação infantil ao que rola de especial nos museus do centro (e mais arredados, como o Museu da Casa Brasileira que este ano elaborou uma programação estilão cabaret). Um post só não cabe. Teria que ser do tamanho de uma edição dominical do Estadão.

logo-viradaMas não posso deixar de falar da Virada Cine Gastronômica, realizada todos os anos no Cine Belas Artes. Ainda não vi a programação deste ano. Mas já assisti uma boa comédia, com Dustin Hoffman, Emma Thompson, Will Farrell e Queen Latiffa, num amanhecer de domingo. Saí de um show de reggae da Tribo de Jah quando começava a clarear. Fui direto para lá. A programação das cinco salas era de filmes em que comida fazia parte do enredo (sabe Festa de Babete, Como Água para Chocolate, Estômago?). Entre as sessões, o público se jogava num bufê, que tinha de massas a café da manhã. Ri muito e ainda matei a larica da noite insone.

Além disso, outros cinemas do centro também mantêm programação a noite toda. No geral, com filmes mais trash, tipo horror e chanchadas.

Minha receita para sobreviver à Virada é: estico a noite de sexta até não mais aguentar (este ano vai ser mais fácil, com o Happy Hour). Só vou dormir quando sábado clareia. Acordo tarde, aí pelas quatro. Depois de um desjejum reforçado, make up e… Virada!

A gente se tromba por lá.

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Quatro vídeos de Viradas passadas.

No primeiro, não não é briga, é rock & roll. Os Raimundos na Virada 2010
(postado por Julio Mesquita)

No segundo, Caetano Veloso na Virada 2015
(postado por douglas Pereira)

No terceiro, a pista eletrônica de Victor Ruiz, na Virada 2013

No quarto, Stanley Jordan tocandoStairway to Heaven, na Virada 2014
(postado por Eder Sambo)

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