Quer moleza? Vem que tem.

Você é que nem eu? Tem hora que dá uma vontade danada de comer pudim…? Não serve nem quindim, que é primo de segundo grau. Tem que ser pudim! De leite condensado…

Minha avó Jandira era quituteira de nos repimpar (os descendentes) de orgulho. Famosa para muito além do círculo familiar. Nos salgados também, mas quando o assunto era doce…

Como é que ela conseguia espalhar aquela calda de maracujá sobre o pão-de-ló sem cristalizar os quadradinhos? Alcançar a improvável – de tão delgada – espessura do laminado do bolo-de-rolo? E a textura que encharcava de doces prazeres só o miolo das fatias gostosas?  O bolo Souza Leão, e seus quatrilhões de deleitosas calorias (só de manteiga ia mais de meio quilo!)? E olha que eu nem falei da baba-de-moça dourada e cintilante, da rosca que rescendia fermento…  Além de dois pudins em que atolei de encantamento minha infância: o “pudim Maria” e o “pudim rosado”.

O pior, é que eu falava só na teoria. Agora deu vontade mesmo de comer pudim! Você também?

O jeito é ir ao DETRAN.

DETRAN?

O que é que o DETRAN de Sampaulo tem a ver com pudim? Calma…. Com DETRAN é preciso ter calma. Explico:

Tempos atrás preparei-me para purgar meus pecados, encarando as sempre surreais formalidades de que se ocupam os burocratas de habilitações, IPVAs, DPVATs, licenciamentos e que tais. Me toquei para a avenida do Estado e…. Hosana! Não é que resolvi tudinho no maior vapt-vupt? Com direito a ar condicionado, wi-fi, fila sentada movida a senha e atendentes gentis, quem diria !?!

Resultado: o que durava uma tarde inteira agora coube folgado em meia hora.

Na saída, a caminho da estação Armênia do metrô, percorro uma calçada com longa fieira de ambulantes. De um tudo. Fones de ouvido, carregador de celular, dvds piratas e, sobretudo, comida. Banca de tapioca feita na hora, milho cozido, água de coco…. De repente, um reluzente de tão asseado carrinho de PUDIM!

O mineiro João batista e seu carrinho ambulante de pudins

O mineiro João batista e seu carrinho ambulante de pudins

Seu João Batista trocou a pacatice mineira da cabeceira do rio Pardo pela corre-corre de Sampaulo, há coisa de vinte anos. Há dez, faltou-lhe o emprego e a renda. Aperreado, propôs à cunhada Tuca, pudimzeira elogiada, que fizessem da iguaria sua fonte de subsistência. Ela assaria os pudins e ele ganharia a rua atrás de clientes que os consumissem em fatias. Combinaram tudo e arregaçaram mangas.

Na avenida Celso Garcia, João Batista encontrou quem lhe montasse um carrinho de pipoqueiro adaptado a seu negócio. Embaixo, estrutura de alumínio com isolamento térmico. E vitrine expositora de vidro, em cima. Além de suporte para um ombrelone que resguardasse o todo de sol ou de chuva.

Não deve ter sido fácil. Imagina…. Camelô de pudim!

Pudim não é deleite que se imagine apreciar assim, em pé, no meio da rua. Sem querer ser empata-foda, se alguém me dissesse que planejava se estabelecer, ou melhor, circular com um comércio ambulante destes, eu cataria um termômetro para lhe medir a febre…

Mas, reconheço, das duas uma: ou não conhecia a qualidade do pudim da Tuca ou me falta tino comercial. Pois não é que, passada uma década, os pudins sustentam a família de seu João Batista e Tuca…

João Guilherme, o filho, comanda a filial do negócio.

João Guilherme, o filho, comanda a “filial” do negócio.

Como eu sei? Circulando pela rua Bresser, no Brás, me deparo com um carrinho igualzinho ao dele. No comando, um garotão estilo galã. Mesmo jaleco e mesmo boné brancos. E descubro que o negócio do mineiro já tem filial! Tocada por João Guilherme, um dos filhos do fundador.

Outro filho, Francisco, passa o dia abastecendo restaurantes e lanchonetes da Zona Leste, com pudins.

 

 

 

Ao todo, o forno de Tuca assa mil e quinhentos pudins por mês. Vendidos fatiados ou inteiros (entregues nas formas), nos carrinhos ou atendendo encomendas. Detalhe: quem devolve a forma recebe desconto em nova compra.

Os pudins são mantidos no compartimento térmico do carrinho, até serem desenformados, fatiados e servidos.

Os pudins são mantidos no compartimento térmico do carrinho,
até serem desenformados, fatiados e servidos.

E o pudim? É bom, mesmo?

Dá para matar a vontade de comer pudim, embora seja daqueles mais corriqueiros, com bolhinhas, fruto de massa aerada por intensa bateção – na mão ou no liquidificador. E assado em forno mais quente para ganhar celeridade. Além de calda rala, líquida mesmo. O resultado está mais para flan, se é que você me entende. Levinho, com textura levemente gelatínica, Tipo até alegra o espírito, refresca o paladar, mas cadê sustança?

Enquanto converso com seu João Batista, acompanho o movimento de compradores. É gente que pega uma fatia para levar para casa, como Samanta (“para o namorado”), cliente fiel. Ou motoristas que param junto ao carrinho e suportam buzinas impacientes enquanto recebem seu pedido pela janela. Ou, ainda, o motoboy Roberto, de capacete embaixo do braço, que se atrapalha para proteger os documentos que traz do DETRAN e comer sua fatia de pudim ao mesmo tempo; é sua primeira vez no carrinho de seu João Batista. “Não consigo resistir a um pudim”, reconhece, satisfeito.

Longe dali (daquele bulício de gente apressada, da avenida atulhada de carros, caminhões, motos e o escambáu), do outro lado da cidade, numa das ruas mais aprazíveis de Sampaulo – um quarteirão apenas, de casas estilosas, todas ocupadas por comércio requintado, a rua Normandia, em Moema, uma outra estirpe de pudins se estabeleceu num endereço nobre e inteirinho seu.

Forma de Pudim, na bucólica rua Normandia, em Moema.

Forma de Pudim, na bucólica rua Normandia, em Moema.

Sou cliente – e devoto – do Forma de Pudim, desde que Daniela Aliperti e Fernanda Nader começaram o negócio, num puxadinho de fundos, na rua Silvânia, paralela da avenida Hélio Pellegrino, a alguns metros da avenida Santo Amaro.

Dani é chef de cuisine, diplomada no pra lá de renomado Instituto Paul Bocuse, na França. Com ênfase em pâtisserie, que é como os franceses chamam a arte de fazer doces, sobremesas (açúcares com certeza e glútens eventuais). Já formada, exerceu seus talentos no México e nos Estados Unidos, antes de voltar para Sampaulo.

Aqui, ganhou o prêmio de melhor cheesecake da cidade, elaborado para a filial local do novaiorquino P.J. Clarke’s.

Fernanda Nader e Daniela Aliperti, criadoras do Forma de Pudim

Fernanda Nader e Daniela Aliperti, criadoras do Forma de Pudim

Em suas lides profissionais, topou com a marqueteira Fernanda. E, de pudim de baunilha em riste, jogou por terra o preconceito da nova amiga contra um dos mais brasileiros dos doces. Como a maioria das mulheres, Fernanda torcia o nariz para pudins: “não valem as calorias”, pensava.

De fato, para sucumbir à overdose de glicose, o paladar feminino exige sobremesa mais “elaboradas”. Mais firulas,recheios, coberturas, texturas… Pudim é muito pé no chão pra quem não abre mão de um salto alto.

Para faturar uma graninha extra nas festas de final de ano de 2011, as duas decidiram oferecer os pudins, preparados sob encomenda, para amigas e conhecidas da falante marqueteira (sinônimo cheio de pose de vendedora). Dani preparou algumas amostras de degustação e a expectativa de conquistar algumas clientes nessa empreitada natalina gerou um tour-de-force de noites passadas na beira do forno para conseguir atender tocentos pedidos. Que se estenderam verão de 2012 adentro.

Fava de Baunilha, o básico sofisticado do Forma de Pudim

Fava de Baunilha, o básico sofisticado do Forma de Pudim

Começaram a pensar, seriamente, em largar tudo para viver de pudim. Antes que o outono desse as caras, estavam no tal puxadinho onde as conheci, atendendo, apenas, sob encomenda.

Não sem antes se escorarem numa pesquisa de mercado (pensa que marqueteiro abre mão de suas “ferramentas”?). Que lhes revelou: o singelo pudim é o doce predileto de – pasmem – 80% dos homens de Sampaulo!

Antes de conhecer o pudim da Forma de Pudim, tenho quase certeza que eu estaria entre os 20% restantes. Sempre gostei de pudim, mas daí a doce predileto…

A bem da verdade, eu me encantara com o surpreendente doce de Dani antes de ir à loja, em jantar na casa de minha prima Moni. E tanto gemi prazeres e o louvei – e repeti fatias, sem o menor pudor – que acabei ganhando uma quentinha da sobremesa para me saciar em casa. Detalhe: o regalo foi acomodado na adorável sacola da Forma de Pudim. Com endereço e telefone impressos nela para poder recorrer à fonte.

A extraordinároa textura é um dos trunfos dos pudins de Dani e Fernanda. O outro são os sabores, primorosos.

A extraordinároa textura é um dos trunfos dos pudins de Dani e Fernanda. O outro são os sabores, primorosos.

Como eu, duvido que você já tenha comido pudim igual. São mais cremosos, não tem bolhinhas de ar no meio, consistentes, a um tempo macios como uma indulgência (sabe um beijo, desses com direito a tudo?). Mas firmes, consistentes. E saborosíssimos. Com o brinde adicional da calda espessa.

Difícil era – e é, até hoje – escolher o sabor. Dani não para de inventar novidades. Começaram com seis ou sete. Agora, são bem uns quinze. O mais recente a conquistar espaço no cardápio é limão siciliano.

Já na boca do primeiro inverno, back in 2012, lançaram o sabor paçoca, para as festas juninas. Tão bom que eu sofria só em pensar que, passado São João, ia ter que esperar um ano até cair nele de novo. Mas o sucesso foi tanto que virou permanente.

Paçoca, avelã, pistache... Cada um melhor do que outro.

Paçoca, avelã, pistache… Cada um melhor do que outro.

Parênteses para uma confissão de fraude. Em 2014, houve uma festa caipira em que os convidados tinham que levar, cada um, um prato, típico, de sua lavra. Levei o tal pudim de paçoca! E, até hoje, me perguntam a receita… Só hoje admito: a receita é: tomem o rumo da Rua Normandia. Lá, inclusive, tem um livro, escrito por Dani, ensinando o passo-a-passo.

Mix 3

Há coisa de dois anos, quando mudaram para Moema, os pudins ganharam um simpático salãozinho para a gente se atolar neles lá mesmo. Inclusive no bem sacado pudim brulé. Além de servi-los em fatias, elas assam-nos em forminhas menores, tipo porções individuais. E em micro-forminhas, do tamanho de uma colher de sopa, perfeito para experimentar antes de se decidir por qual levar. Ambos também são vendidos em embalagem com dois, quatro ou seis pudinzinhos. O que permite aos indecisos – tipo eu – levar vários sabores.

Na loja da rua Normandia, vitrine com as opções do dia, embalagem de pudins individuais e o pudim brûlé.

Na loja da rua Normandia, vitrine com as opções do dia,
embalagem de pudins individuais e o pudim brûlé.

Já os maiores, com buraco no meio – comme-il-faut para um pudim digno do nome, são assados em três tamanhos (e olha que eu acho o maior de todos ainda, digamos, menor do que meu olho grande). São todos entregues nas próprias formas, com a marca Forma de Pudim gravada nela e tudo (olha a marqueteira Fernanda aí, gente!). Tudo envolto em celofane, com direito a laçarote de fita e a tal adorável sacola em que levei meu primeiro pedaço para casa.

IMGP1026 a

Obrigado, Moni. Mais do que pela doce quentinha daquela noite, pelo vício de desde então.

Post-it-2

Pelas minhas contas – eu não sou lá muito bom nisso – os pudins do seu João Batista custam cerca de 40% do preço dos pudins do Forma de Pudim. Se considerarmos os custos de manutenção do negócio de Dani e Fernanda (aluguel em local privilegiado, confortável e caro, a folha de pagamentos do pessoal envolvido na produção e atendimento da loja, impostos, etc), além do preço dos ótimos ingredientes importados usados e, of course, a qualidade de sua guloseima, cá pra nós, o pudim ambulante é que custa um pouco caro…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *