Legado bem legado

Qual a diferença entre herança e legado? Sempre os entendi meio como sinônimos, mas devem discrepar nalguns detalhes. Como divergem ver e olhar, escutar e ouvir, futuro e porvir…

Na minha opinião de não filólogo, herança se refere a bens e valores – materiais ou não – deixados a herdeiros. Um lance tipo legal. Herda-se de pais, tios, padrinhos ou de quem quer que houve por bem nos mimosear diretamente. Herança tem destinatário certo. De um bisavô, por exemplo, herdei um relógio que era um tesouro.

Já legado…. Não deixa de ser herança, mas os donatários são mais abrangentes. Quem quiser pode desfrutar, tirar uma lasquinha, aproveitar, beber na fonte do que foi legado. Beneficiando a todos. Favorecendo a sociedade.

Artistas nos legam sua obra que nos sublima a condição humana. Cientistas nos legam (vamos resumir?) qualidade de vida. E empresários de sucesso, empreendedores que amealham fortunas, o que nos legam? Depende do cara.

Algumas vezes nada. E até um saldo negativo, se o moveu a mera ganância da exploração pura e simples dos recursos humanos e naturais sobre os quais se abateu sua sanha.

Felizmente, muitos desses construtores de riqueza aproveitam sua capacidade de fazer dinheiro para fomentar ciência e arte.

Quando inovadores, fazem o amanhã melhor que o ontem. E nos deixam essa conquista como legado. Quando humanistas, incentivam e promovem as artes e a benemerência. Legam-nos emoção e sensibilidade.

Os donos da riqueza desde sempre foram assim.  Movidos ora a cobiça, ora a generosidade. Alternando visionários e mesquinhos.

Já no Egito, antes de Cristo, houve faraó que construiu a Biblioteca de Alexandria com a intenção de disseminar conhecimento (o objetivo – pretensioso que só – era adquirir cópia de todos os manuscritos existentes no mundo!).

Na Pérsia, em plena Idade Média, quando os cristãos do Ocidente mergulhavam em trevas, os muçulmanos – Avicena à frente – investigavam o corpo humano e proporcionavam avanços à medicina sob patrocínio do rei, o Xá.

Na Florença do Renascimento, a vaidade dos Medici nos legou algumas das joias mais preciosas da história da Arte, ao abrigar Michelangelo, da Vinci, Boticelli, Dante… Só para citar alguns.

Desde a Revolução Industrial, sobrenomes de grandes capitalistas tem batizado fundações essenciais ao desenvolvimento artístico e científico.

Em Sampaulo, não é diferente.

Exemplos?

José Mindlin, empreendedor de sucesso, leitor voraz e bibliófilo de publicações cujo tema fosse o Brasil. Legou-nos uma das melhores e maiores bibliotecas já montada sobre nossa terra e nossa gente, com mais de 60 mil volumes. Doada à Universidade de São Paulo e instalada em belíssimo prédio construída para ela, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin está aberta a leitores, estudiosos e pesquisadores.

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

Outro?

Olavo Setúbal, banqueiro e industrial e político (foi prefeito de Sampaulo e chanceler brasileiro), reuniu, ao longo de quase cinquenta anos, uma formidável coleção de arte (também focada no Brasil). Em todos os períodos da história da arte brasileira, desde as missões estrangeiras ao país ainda menino. Hoje exposta para nosso deleite e orgulho – muitíssimo bem exposta, diga-se – na sede do Instituto Itaú da avenida paulista. Chama-se, também e sintomaticamente, Coleção Brasiliana. Aberta ao público há coisa de dois anos, já nasceu como um dos mais importantes acervos museológicos da cidade e do país.

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Coleção Brasiliana Olavo Setúbal

Mais um?

Rodovia dos Imigrantes e bairro do Morumbi (antes do loteamento)

Rodovia dos Imigrantes
e bairro do Morumbi
(antes do loteamento)

Oscar Americano. Descendente de brasileiros ilustres (Tiradentes, Vital Brasil…), empreiteiro, dono de uma das maiores construtoras brasileiras de sua época – a CBPO (sabe a via Anchieta e a rodovia dos Imigrantes, extraordinárias realizações da engenharia brasileira? Tem seu dedo e competência lá). Além disso, atuou com ousadia ne especulação imobiliária: adquiriu a vasta área devastada de uma antiga plantação de chá, a Fazenda Morumbi, na então distante margem de lá do rio Pinheiros, para transformá-la em bairro.

Imagino a inculpação de perdulário, visionário e excêntrico que Oscar Americano enfrentou, ainda lá pelas décadas de 40 e 50 do século passado, ao se dedicar com perseverança ao reflorestamento de toda a imensa área. Numa época em que a regra era o inverso. Mesmo considerando sua intenção de valorizar esse “latifúndio” urbano, para posterior loteamento, urbanização e transformação no que viria a ser uma das áreas residenciais mais nobres e disputadas de Sampaulo.

É verdade que seus fornecedores de mudas encararam um cliente duro na queda, já que Oscar Americano só pagava pelo que de fato vingasse e crescesse.

Há quase setenta anos, ele reservou para si uma gleba de três alqueires escolhida a dedo. A joia preciosíssima de seu tesouro imobiliário. No cocuruto, o ponto mais alto dessas terras. Ali, caprichou na seleção de qualidade e variedade das mudas replantadas – com assessoria, inclusive, de botânico paisagista. E contratou um já renomado arquiteto – Oswaldo Bratke – para criar sua futura casa.

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O resultado é uma obra-prima da arquitetura modernista. Uma construção arrojada e atraente. Que interage com a exuberante natureza de seu entorno. Incorporando, até, uma encantadora cascata entre espelhos d’água geométricos no seu jardim que meio que invade simbioticamente a casa.

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

O fascinante projeto de Oswaldo Bratke
ganhou encantadora cascata criada por Lívio Abramo

Mudou-se para lá no início dos anos 50, com sua belíssima esposa carioca, Maria Luisa. E, durante vinte anos, viveram nessa passárgada particular, criaram seus cinco filhos e assistiram, de camarote, o florescer do bairro urdido por ele. Viram, inclusive, a área fronteiriça à sua, onde se construía a Universidade Matarazzo, ser transformada em sede do governo do Estado de São Paulo, o Palácio dos Bandeirantes, em 1964.

Maria Luisa e Oscar Americano

Maria Luisa e Oscar Americano

Em 1972, Oscar Americano perdeu a esposa. Antes de morrer, dois anos depois, criou a Fundação Maria Luísa e Oscar Americano. Para cuidar da propriedade, de seu acervo natural, arquitetônico e das obras de arte e históricas amealhadas pelo casal. E oferecer tudo isso ao desfrute público.

A fundação foi aberta à visitação em 1980. E, desde então, tem recebido figuras ilustres, como a célebre primeira-ministra da Inglaterra, Margareth Tatcher. Além de, como se comenta, ser usada com frequência pelo governadoress de plantão, antes de abrir para o público, às dez da manhã, para suas caminhadas matinais.

Há décadas sou frequentador apaixonado do lugar.

Seduzido pela vivacidade da surpreendente e bem cuidada selva urbana que abriga milhares de aves da urbanidade inóspita.

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Fascinado pelo emocionante e surpreendente projeto arquitetônico da casa sede, aí incluído o belo piso/mosaico do pátio dos fundos (se é que algum lado possa ser definido como fundo) e a cascata interior, ambos criados pelo artista Lívio Abramo.

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Detalhes do belo e vasto mosaico do piso do pátio, criado por Lívio Abramo

Estimulado por uma nova visita ao acervo, que inclui a bela biblioteca dos antigos proprietários. E obras de Franz Post, Portinari, Lasar Segall… Além de tesouros da arte sacra barroca, das duas grandes e extraordinárias tapeçarias centenárias, das belíssimas porcelanas utilitárias, da vitrine farta de prataria de esmerada lavra e da preciosa coleção de memorabilia cortesã do império brasileiro. Sem contar os retratos do casal Maria Luiza e Oscar, diante dos quais sempre paro para agradecer a magnitude do legado.

Biblioteca original de Oscar Americano

Biblioteca original de Oscar Americano

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Obras de Franz Post

Obras de Franz Post

Pintura de Portinari (acima) e Lasar Segall (embaixo)

Pintura de Portinari (acima)
e Lasar Segall (embaixo)

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Oratório barroco, escrivaninha do século XIX e salão central.

Memorabilia imperial brasileira

Memorabilia imperial brasileira

Esculturas adornam o parque

Esculturas adornam o parque

Incitado pelo deleite dos recitais e concertos de câmara – mensais, matinais, dominicais – que rolam no confortável auditório da fundação. Que já recebeu, entre outros tantos músicos, o talento fora de série do pianista Marcelo Bratke, neto do arquiteto da casa, Oswaldo Bratke.

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E vou sempre em horário que coincida com os célebres chás da tarde, encantadores, servidos de terça a domingo, na varanda ou no salão britanicamente ambientado para um típico five o’clock tea; um deleite gastronômico cada vez mais raros, a um tempo requintado e singelo.

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

O charmoso chá da tarde, indulgência tentadora
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Lá, preserva-se o velho e distinto charme europeu. O serviço é primoroso – seja pela sofisticação sem salamaleques de louças, mobília e ambientação, seja pela cortesia das atendentes. Mas que já ofereceu quitutes melhores. A fartura e variedade estão lá. Boas opções de infusões inglesas, café ou chocolate. Sucos naturais, pãezinhos e sanduichinhos caprichados. Mas o capítulo de salgadinhos e doces já conheceu melhores fornecedores, como pude constatar em visita recente. Uma ou outra guloseima de melhor qualidade em meio à profusão de quitutes industriais ou “de padaria”.

Estrutura do "puxadão" de eventos e exuberante decoração de uma festa

Estrutura do “puxadão” de eventos
e exuberante decoração de uma festa

 

E, já que estou falando dos escorregões, registro meu repúdio à grande estrovenga estrutural, instalada como puxadão da bela casa, à guisa de toldo para abrigar eventos. Tem o maior jeitão de provisório, mas perenizou-se pela constante requisição do espaço para realização, principalmente, de casamentos. Um estropício que compromete legal a estética do lugar. Uma pena! Mas inevitável, já que a fundação precisa da receita financeira dessas efemérides para se manter.

Uma célebre festa de bodas que movimentou o grand monde de Sampaulo – e de europas, franças e bahias, há alguns anos, pode não ter sido o primeiro a acontecer ali. Mas o enlace da herdeira Athina Onassis com o cavaleiro Doda Miranda, a coisa de uns dez anos, transformou a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano em sonho de consumo de nubentes chiques da cidade.

À inconveniência do tal toldo e à decadência de parte das iguarias do chá, eu ainda acrescentaria a falta de um projeto expositivo mais sedutor, mais charmoso, do acervo.

Mas nada disso diminui o encanto de uma tarde desfrutada nos antigos domínios da bela Maria Luisa e de seu marido, o magnata Oscar Americano.

Tudo isso legado a nós por uma ainda rara, mas louvabilíssima iniciativa de retribuição à sociedade pelo sucesso conquistado em vida. Um jeito honorável com que os conquistadores do passado brindam o futuro que ajudaram a construir.

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Conheci, recentemente, um belo e ousado projeto do também arquiteto Carlos Bratke, filho do criador da casa da fundação, Oswaldo Bratke.

Carlos e o irmão (mais um arquiteto), Roberto, são os autores de oito (!) em cada dez projetos dos prédios que embelezam o polo empresarial que se instalou ao longo da avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini.

Parênteses: sem que fosse essa a intenção, este artigo acabou por se transformar, também, em tributo ao notável clã paulistano Bratke – Oswaldo, Carlos, Roberto, Marcelo…. Fecha parênteses.

Há alguns anos, Carlos elaborou uma reforma para a Fundação Maria Luisa e Oscar Americano. Que inclui, ao lado de outras pequenas melhorias, a construção de um vasto espaço para exposições e eventos, pasmem, subterrânea, sob a ampla piscina da propriedade. Inclusive com iluminação diurna através de suas águas.

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Projeto de Carlos Bratke para ampliação "subterrânea" do espaço expositivo e de eventos da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Projeto de Carlos Bratke para ampliação “subterrânea”
do espaço expositivo e de eventos
da Fundação Maria Luisa e Oscar Americano

Pelo que eu soube informalmente, a realização do projeto foi assumida pela Odebrecht. Por enquanto, nadica de nada. Mas que seria um ganho e tanto para a cidade, a isso seria…

 

Brasil à mesa

Quem descobriu o Brasil?

De quando é que você está falando?

Se ao ano da graça de 1500, parece haver consenso em relação aos portugueses, Cabral à frente, tudo bem documentado em reportagem assinada por Pero Vaz de Caminha.

Se, entretanto, estivermos falando do último quarto do século XX, a descoberta foi outra. Testemunhada por mim. Ainda sem Instagran para postar as selfies da ocasião, mas asseguro: quem descobriu o Brasil, a partir do final dos anos setenta e nas décadas seguintes foram os franceses. Mais precisamente os cozinheiros franceses – que nos ensinaram a os chamar de chefs. À frente, o desbravador Paul Bocuse.

c57d7235-14cf-491f-bdd4-2952bbb363e4Entalado em paletó emprestado, apertadíssimo (quem, aos vinte e poucos anos, levaria para o Rio de Janeiro um tenue de ville para se exibir num fim de semana?), fui conhecer a sensação gastronômica da época, o restaurant Saint-Honoré, no alto do então hotel Méridien.
O terno era obrigatório.
O programa inteiro era um must. Naqueles meses, o olimpo carioca havia tirado férias da piscina do Copa e tomado o elevador até o trigésimo andar
da esquina da avenida Atlântica com a Princesa Izabel.

E que novas sensações aguardavam nosso paladar? Fruit de la Passion! Ele mesmo, nosso maracujá velho de guerra… Monsieur Bocuse lambuzava il n’importe quoi, de peixes a carne de porco, passando por marrecos, lagostas e sobremesas, com maracujás, pitangas, cajus, mangas….

Les français ont piré...

Les français ont piré…

Seguiram-no, um batalhão de sotaques francófonos: Laurent Saudeau, Claude Troisgros, Emmanuel Bassoleil, Erick Jacquin, Alain Uzan, Yann Corderon…. Que ampliaram as descobertas do Brasil: tucupi, cupuaçu, mandioca, mandioquinha, cachaça, jambú…

E a gente, tal e qual os pataxós do Monte Pascoal abismados com as caravelas, ainda achávamos que sem marron glacé não tinha gastronomia decente…

Os tupi-guaranis já praticavam culinária antes da descoberta lusa. E nos legaram as farinhas de mandioca, por exemplo. Ou os moqueados em folha de bananeira (cauim não, obrigado)…

Os primeiros europeus, com a imprescindível mãozinha dos negros, lançaram mão da flora e da fauna nativas (e outros ingredientes trouxeram, já que os pioneiros logo sacaram que nesta terra em se plantando tudo dá) e começaram a burilar nossas muitas culinárias.

da5701da1b4c21548a25a663f99020e3Por conta da diversidade do território sem fim, as cozinhas se regionalizaram (caju que abunda aqui nem sequer brota acolá, peixe que nada em Floripa, o Maranhão não pesca). Nacional, mesmo, pouco mais do que arroz, feijão, pirão e canja de galinha. Admito que também o churrasco subiu desde os pampas e até no Amapá é assado. Mas para fazer vatapá, sem dendê não dá. E isso, meu rei, só no Recôncavo Baiano e adjacências. Passar a pilando farinha com carne de sol até virar paçoca, é coisa para cearense – que é, antes de tudo, um forte. O barreado exige muita mão de obra, horas e horas de fogo em barro lacrado, e quem gosta de muito trabalho é o povo do Paraná. Mineiros, goianos, pernambucanos e o grande norte, cada qual tem seu jeito de preparar e comer o que o mercado local oferece. Cada um apreciando seu cada qual, enquanto os outros torciam o nariz: “muito exótico esse tal de piqui”….

Daí chegaram os franceses, com a sabedoria de quem inventou os fundamentos de uma das culinárias mais consistentes da raça humana. E escancararam os tesouros gastronômicos que cada uma de nossas tribos separadamente saboreavam. Enxergaram as riquezas não compartilhadas. Pegaram de cá e de lá, pesquisaram, mapearam, usaram e disseminaram nossa própria fortuna.

Graças a eles, toda uma geração de novos chefs nativos começou a pipocar, talentosa que só, alicerçando a Alta Gastronomia Brasileira.

Sampaulo está assim deles.

A começar por Alex Atala. Depois de desabrochar e lapidar seu dom (nem ficou infame, o trocadilho) na Europa, o que o arrastou de volta foi a saudade da mandioca, do palmito, dos aromas da cozinha de casa, no bairro do Ipiranga. Queria voltar a eles. Proporcionar a esses ingredientes de sua memória afetiva o universo de possibilidades que as cozinhas maduras do lado de lá do Atlântico lhe descortinaram. E foi a brasilidade de suas criações que conquistou o encantamento do mundo.

Alex Atala, Mara Salles, Rodrigo Oliveira, Ana Luiz Trajano, Marcos Corrêa, Janaina Rueda. Os construtores paulistanos da Alta Gastronomia com sabor de Brasil;

Alex Atala, Mara Salles, Rodrigo Oliveira, Ana Luiza Trajano, Marcelo Bastos, Janaina Rueda.
Os inventores paulistanos da Alta Gastronomia com sabor de Brasil;

E a cidade tem um monte de alquimistas de nossas raízes gastronômicas servindo suas surpreendentes criações para nosso desfrute. De Mara Salles, no restaurante Tordesilhas, a Rodrigo Oliveira, nos restaurantes Mocotó, Esquina Mocotó e Mocotó Café (já citados neste Sampaulo de Lá pra Cá, no post “Mais do mesmo, só que não”, publicado agora no início de abril). De Ana Luiza Trajano, no restaurante Brasil a Gosto, a Marcelo Correa Bastos, no restaurante Jiquitaia. De Janaina Rueda, no bar Dona Onça, ao caçula de todos, o restaurante Micaela, de Fábio Vieira.

Fábio Vieira, na cozinha do seu Micaela

Fábio Vieira,
na cozinha do seu Micaela

Fábio é paulista de Avaré. Saiu de lá para estudar, na faculdade Metodista de Piracicaba. Formou-se em gastronomia.
E se mandou para cá, para Sampaulo.

Passou por algumas cozinhas premiadas da cidade. Mas determinante, mesmo, foi o polimento de sua vocação pelo gênio apaixonado de Mara Salles, na cozinha extraordinária do antigo Tordesilhas, ainda na rua Bela Cintra. Quantas vezes não comi lá, sem saber que um meu xará cuidava de algum detalhe do que me era servido…

Mara lhe apresentou alguns dos melhores ingredientes que são produzidos nos rincões do Brasil. Orgânica e artesanalmente. Ensinou-lhe técnicas para lidar com eles. Seduziu seu paladar de chef, de inventor de texturas e manipulador de emoções gastronômicas, com os encantos de nossos aromas e sabores ancestrais.

Sem nunca ter ido à Amazônia, passou a lidar com tucupi, jambu, castanhas e raízes de lá. Alheio à influência das técnicas e dos preparos tradicionais. Tudo bem, se há talento para partir apenas do sabor dos ingredientes na composição de sua comida autoral. Para um artista da cozinha, a vida é um esterno experimentar. Como os ingredientes reagem quimicamente ao calor e às combinações com novas possibilidades, por exemplo. Dessa maneira, passa batido pela influência do receituário tradicional e inventa o novo.

Desse jeito curioso, testou fava de Aridan, raiz de patchouli, castanha barú, farinha de Cruzeiro do Sul…

Para começar bem brasileiramente, que tal as adoráveis caipirinhas do Micaela? Com limão, gengibre e melado de cana; com redução de Fava de Aridan; com frutas vermelhas e capim santo; com jambu e xarope de guaraná...

Para começar bem brasileiramente, que tal as adoráveis caipirinhas do Micaela?
Com limão, gengibre e melado de cana; com redução de Fava de Aridan;
com frutas vermelhas e capim santo; com jambu e xarope de guaraná…

Quando abriu o seu próprio restaurante, Micaela (em homenagem à bisa imigrante das Canárias), Fábio Vieira estava tinindo. Tanto que, em pouco tempo, suas criações foram reverenciadas com o prêmio de Chef Revelação de Sampaulo.

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A casa tem jeito de roça. Tijolo aparente, cores fortes e adereços folk. Folk brasileiro, of course. Os três ou quatro degraus de acesso, bem na esquina da alameda Joaquim Eugênio de Lima com a rua José Maria Lisboa justificaram a instalação de um elevador para cadeirantes na lateral, aproveitando um janelão de vidro. É a primeira evidência da preocupação com o bem-estar da clientela. Outro? Os pratos vem sempre ornados com florzinhas comestíveis, um encanto. Sem contar que o chef vira e mexe circula pelo pequeno salão de baixo e pelo maior, em cima. Não raro é ele quem traz os pratos da cozinha. E parece gostar de prosear com a freguesia, de sentar-se aqui e acolá, a suas mesas, auscultando a reação dos comensais.

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Que, como eu, pelo jeito, se deliciam.

Com a aquarela de flans (galinha, gorgonzola com couve e alho, tucupi com jambu e moqueca), com os biscoitões de polvilho e carne seca (uns travesseirinhões, na verdade, com a farinha amolecida e puxa-puxa, um deleite, servidos com creme azedo), os pastéis recheados com farofa de torresmo e ovo perfecto (e bota perfeito nisso, a gema mollet em todo o seu esplendor) …. E as tapiocas recheadas com cogumelos shimeji e seladas com queijo manteiga ? Mas tome tento! Vá com calma que isso são só as entradas.

Aquarela de flans. biscoitões mineiros. pastéis de ovo perfecto e farofa de torresmo, tapioca de shimeji. E isso são só as entradas...

Aquarela de flans. biscoitões mineiros. pastéis de ovo perfecto e farofa de torresmo,
tapioca com shimeji. E isso são só as entradas…

Mas, ainda no capítulo das entradas, passe batido pelos croquetes de peixe. Não surpreende, que pena. Porque o molho de pimentões vermelhos que vem com eles… Esse sim, é um acerto!

Se seu paladar estiver para peixe, vá de costela de tambaqui com risoto de tucupi. Além da carne do pescado amazônico ser uma das minhas favoritas, gorda, macia e cheia de personalidade, o caldo amarelo da mandioca brava (ralada, e espremida no tipiti antes de repousar para que o amido assente e dele apenas o líquido ganhe o fogo, antes da longa fermentação – pensa que é fácil, a vida do povo da floresta?) é um dos condimentos mais peculiares – e deliciosos – que conheço.  E o preparo de Fábio Vieira valoriza o todo, juntando a superfície crocante do peixe frito com a maciez untuosa do risoto. Um californiano, outro dia, em mesa em frente à minha, exibia expressão gozosa enquanto apreciava o prato.

Costela de tambaqui com risoto de tucupi. Ave Nossa Senhora de Nazaré! Salve Belém do Pará!

Costela de tambaqui com risoto de tucupi.
Ave Nossa Senhora de Nazaré! Salve Belém do Pará!

Já o namorado no leite de castanha do pará, na minha opinião, nadou até a praia para exibir seus aromas tentadores, mas morreu na falta de…. Será que foi só sal, ou faltava também uma acidez qualquer que lhe despertasse o potencial – promissor, reconheço.

A canjiquinha com camarão e a galinhada, servidas em cumbuca de barro, são tudo o que se imaginou quando sacou-se a qualificação de confort food, para comida com pegada de casa de avó. Só que perfeitas, adoráveis, de gemer deleites e depois correr atrás do colo, agradecido.

Canjiquinha com camarão e ganinhada. Vovó, cheguei!

Canjiquinha com camarão e ganinhada. Vovó, cheguei!

E tem um adorável arroz de costelinha, e um bife a cavalo tentador (um bifão de bisteca coberto com o mesmo perfeito ovo perfecto do recheio dos pastéis e chips de mandioca)….

Arroz de costelinha e bife a cavalo. Tipo prazer e satisfação garantidos.

Arroz de costelinha e bife a cavalo.
Tipo prazer e satisfação garantidos.

Na hora da sobremesa, meu apego à glicose titubeia. Além da apresentação, linda de não há quem resista a registrar com o celular, o sorvete de cajá com farofa de raspa de brigadeiro (sabe o que fica grudado na panela? Esse mesmo! Raspado e pilado…) e tecos de suspiro… Pronto. Eu estava segurando, mas agora babei.

Sorvete de cajá, farofa de brigadeiro (sabe ovomaltina? Só que muuuuito melhor) e raspas de suspiro. Nem precisava ser tão bonito.

Sorvete de cajá, farofa de brigadeiro (sabe ovomaltina? Só que muuuuito melhor)
e raspas de suspiro.
Nem precisava ser tão bonito.

Mas quando meu pique tá mais para a tal da casa de vovó, a pedida é o bolo de coco queimado. Macio, umidozinho na medida, com direito a calda cremosa, aveludada, de chocolate branco caramelado, aromatizada com o perfume da castanha puxuri…

Bolo de coco queimado. É virar criança e se atolar...

Bolo de coco queimado. É virar criança e se atolar…

Quer saber? Não vejo a hora de voltar ao Micaela… Me aguarde, Fábio Vieira!

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