Tô em casa

Programa que eu gosto é comprar comida. Comida pronta também, mas, sobretudo, ingredientes para as preparar.

Gosto de quitandas, mercearias, empórios, feiras, padarias, açougues, peixarias, supermercados…. Perco a noção do tempo flagrando novidades, catando qualidade, planejando experimentos.

Seja nos setores de bolachas, biscoitos e pães ou nos laticínios e charcutaria. Frutas, legumes e verduras, então… E nos temperos? Nos cereais? Nas carnes e peixes? Meus futuros deleites gastronômicos começam a ser construídos lá. Belos tomates prometendo molhos encorpados; um pescado diferente desafiando ideias; os ovos prometendo souflês, mousses, omeletes…. Uma fruta seca aqui, belas folhas de rúcula ali, cogumelos acolá, esse queijo, aquela cebola roxa… Olha eu compondo saladas!

Mas nenhum comércio se compara ao bom e velho mercado. Mercadões que vendem de um tudo. De catedrais suntuosas – e caras – como o exuberante Mercadão Municipal de Sampaulo a capelinhas atraentes, como o Sacolão da Vila Sônia.

O singelo Sacolão da Vila Sônia... ...e o majestoso Mercadão Municipal

O singelo Sacolão da Vila Sônia…                                         …e o majestoso Mercadão Municipal

Entre o gigante da beira do que ainda chamam – embora não mereça – de rio Tamanduateí e o acolhedor tem-de-um-tudo da avenida Francisco Morato, fica meu predileto. Meio que no meio mesmo, em tamanho, variedade e geograficamente falando: o Mercado de Pinheiros.

Quando chegamos à cidade, no início dos anos setenta, acabara de ser inaugurado. No local onde está até hoje, já que o antigo – que era conhecido em Sampaulo como Mercado dos Caipiras, tivera que ser remanejado para a abertura da avenida Faria Lima. Foi, durante muitos anos, o destino preferencial de compras de minha mãe, junto com a Casa Santa Luzia, até por uma questão de proximidade de casa. E conquistou, para sempre, meu coração, minha alma e meu apetite.

A arquitetura cheia de charm e beleza do "meu" Mercado

A arquitetura cheia de charm e beleza do “meu” Mercado de Pinheiros

Naquela época, ainda vendiam criações vivas. Galinha – inclusive de angola, patos, marrecos, perus… E lá mesmo os abatian – e extraiam o sangue para o molho pardo. Além de outras boas práticas hoje raras, como ralar o coco seco para extração do leite de coco – muito, mas muito mesmo melhor quando obtido assim do que já engarrafado. Até a manteiga nossa de cada dia, saborosa, saudável e fresca, era vendida no “retalho”. “Um quarto da salgada” eram 250 gramas de manteiga com sal…

Home Sweet Home

Home Sweet Home

Por conta da adoravelmente bela e intrigante arquitetura do lugar (praticamente sem ângulos retos, tudo meio arredondado, orgânico – até as escadas se contorcem em curvas), eu, menino, chamava o Mercado de Pinheiros de “Fita Cassete”. Começa que o grande espaço é entre retangular e oval; e, o melhor de tudo: nas duas extremidades, grandes rampas espiraladas levam de um andar ao outro. Remetiam minha imaginação infantil aos dois furos de uma fita cassete que usávamos para rebobinar com um lápis. Pouca gente vai entender o que estou falando, já que faz tempo que o CD acabou com as fitas cassetes. Se até CD já foi ultrapassado pelo streaming digital…. Por isso a foto explicativa ao lado.  Os adultos achavam a maior graça dessa minha associação inusitada…. Ahhh, eu também “via”, no vasto forro, um espinhaço de peixe….

Dar um rolê no mercado, ao pé da letra

Dar um rolê no mercado, ao pé da letra

A entrada principal, digamos assim, do mercado, para quem chega a pé, é pela rua Pedro Cristi. Uma rua de apenas um quarteirão, paralela à rua Teodoro Sampaio, entre esta e a rua Cardeal Arcoverde, a curtíssima distância da estação Faria Lima (linha amarela do metrô). Por lá, tem-se que encarar uma escada de alguns degraus e entrar diretamente no andar de cima. Quem chega de carro tem a opção do estacionamento pago do próprio mercado. Sempre lotado, sujeito a espera.

Eu entro sempre pelo acesso secundário, da rua Manuel Carlos Ferraz de Almeida. Que dá direto no andar de baixo, o da feira, digo, dos grandes boxes de frutas, legumes e verduras.

E dos empórios, dos armazéns de grãos e temperos, do restaurante da Mazé e dos novos boxes recém-inaugurados, idealizados pelo chef sensação do Brasil, Alex Atala. Através de seu Instituto ATÁ – que se propõe resgatar e valorizar a gastronomia brasileira como manifestação da alma cultural nacional (o que de fato o é). Além de promover a culinária sustentável através de ações socioambientais saudáveis a partir da cozinha.

Com esse discurso moderno e louvável, o mundialmente respeitado chef dos restaurantes DOM e Dalva e Dito se juntou ao também extraordinário chef e militante da causa culinária brasileira Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó. E conquistaram o entusiasmo, o compromisso e a parceria do prefeito Fernando Haddad (a prefeitura administra o Mercado de Pinheiros). Para a revitalização do velho centro de compras de alimentos, transformando-o num espaço de referência.

"Meu" Mercado ganha valores, princípios!

“Meu” Mercado ganha valores, princípios!

O projeto acabou de inaugurar as mudanças estruturais mais radicais. E coroou transformações encetadas há três anos, capitaneadas pelo chef e agitador gastronômico boliviano Checho Gonzales. Um figuraça.

Chef Checho Gonzales

Chef Checho Gonzales

Checho faz parte de um grupo de cozinheiros que, visualmente, esteticamente, dá pinta de “bad boy”. Muita tatoo, piercing, bonés e que tais. Um grupo que inclui o próprio Alex Atala, André Mifano (que conquistou meu paladar com seus deliciosos suínos no restaurante Vito (deixou a casa órfã há alguns meses e, desconfio, está armando novidades para breve – além de ter tido seu nome popularizado nacionalmente no comando de um reality show culinário), Henrique Fogaça (agora, também, televisivo; mas, sobretudo, chef talentoso do surpreendente restaurante Sal – e roqueiro /dono do ótimo bar Cão Véio), só para citar alguns dos mais tatuados.

Checho Gonzales, Alex Atala, Henrique Fogaça chefs "bad boys" de Sampaulo

Checho Gonzales, Alex Atala, André Mifano, Henrique Fogaça
chefs “bad boys” de Sampaulo

O boliviano Checho vive em Sampaulo desde criança. No início dos anos setenta – como eu. Ficou mais conhecido quando “inventou” as feiras gastronômicas de rua. A sua chamava Mercado. E teve várias edições. A primeira aconteceu exatamente no estacionamento do Sal, de Henrique Fogaça, já lá se vão alguns anos. E mostrou o potencial do comer na rua, o que desencadeou a febre dos food trucks em Sampaulo. .

No dia, ou melhor, na noite da pioneira edição da Mercado, choveu muito. Ainda assim, mais de duas mil pessoas disputaram, encharcadas, os quitutes ali preparados por chefs consagrados. Eu mesmo, só consegui comer uns cannolli, doces e adoráveis, preparados por um garoto, Alexandre Leggieri – que tocou, durante um tempo, uma cannolleria na rua Frei Caneca e, depois, sumiu. Embora tenha tido notícias não lá muito confiáveis de que pode ser encontrado vendendo seus ótimos cannolli na feirinha do Bixiga…

Voce já se perdeu, né? Eu também. Começo a divagar, um assunto leva a outro… Mercado de Pinheiros, revitalização proposta pelo ATÁ de Alex Atala, já antecipada por Checho Gonzales precursor da comida de rua, chefs tatuados… Já que estamos no Mercado Fita Cassete, rebobina!

Chef Checho Gonzales se encantou com o Mercado de Pinheiros. E encantou ainda mais o lugar com a abertura de sua Comedoria Gonzales.

Chef Checho Gonzales se encantou com o Mercado de Pinheiros.
E encantou ainda mais o lugar com a abertura de sua Comedoria Gonzales.

Voltando ao Mercado de Pinheiros, digo, ao chef Checho, ou melhor, aos dois juntos, algumas das últimas edições da feira de comida de rua dele foram realizadas na área externa do nosso mercado. Checho Gonzales foi seduzido pelo local e decidiu ficar por lá mesmo. Há menos de dois anos, abriu ali sua própria cevicheria, batizada como Comedoria Gonzales. Tá bom, a cozinha produz mais do que o prato nacional do Peru, preparado basicamente com cubos de peixe cru, cebola roxa e caldo à base de limão.

Criações de Checho Gonzales: ceviches, ostras...

Criações de Checho Gonzales: ceviches, ostras…

Seus franguinhos marinados em tempero levemente apimentado – assados até a maciez atingir seu auge, as costelinhas de porco – crocrantes por fora e se desmanchando por dentro a ponto de largar o osso limpinho com facilidade), as salteñas – ou empanadas, nunca sei como diferenciá-los (chego a achar que é só o nome que muda; na Argentina é empanada e na Bolívia é salteña), e um bom sanduiche de pernil.

...e otras cositas más, na Comedoria Gonzales.

…e otras cositas más, na Comedoria Gonzales.

Mas as estrelas do cardápio – uma lousa enorme, na parede – da Comedoria Gonzales, são os ceviches. Em variações criadas pelo chef Checho que podem incluir camarões e outros frutos do mar, milho, farofinha, sagu de coco…. São, de fato, ótimos.

E a única sobremesa da casa, chamada Tres Leches, também é bem legal. Um pão de ló embebido em leite adoçado com baunilha (fica com textura de baba-au-rhum, só que sem álcool) coroado por uma quenelle de doce de leite.

A chegada de Checho ao Mercado de Pinheiros trouxe vida nova ao prédio de belo interior que andava parado no tempo, acabrunhado. A abertura da Comedoria Gonzales trouxe seus muitos amigos culinaristas, chefs e da mídia gastronômica para conhecer e se encantar com o espaço. Inclusive os chefs Alex Atala e Rodrigo Oliveira. Encantados, os dois levaram ao prefeito seu projeto. Os deuses do bem comer abençoaram tudo e, há menos de um mês, a Revitalização foi inaugurada.

E já arrasta multidões para desfrutar este novo velho poind foodie de Sampaulo. Aos sábados, então, haja fila. Até porque o horário é só diurno. Até as 6 da tarde.

As delícias com sotaque latino-americano do boliviano/sampaulistano foram só o começo. O Mercado de Pinheiros é mais. Muito mais. Este é só o primeiro post. Nem pense em ir embora. Ainda nem falei dos temperos exóticos e ancestrais da Dëlika, de outros, mais tradicionais, da Truques da Vovó, da primeira filial do restaurante Mocotó do lado de cá do rio Tietê, dos açougues e dos aviários (e seus animais e cortes raros), da ótima peixaria Nossa Senhora de Fátima, da comida popular e caprichada da Mazé, do imperdível arroz de polvo do Walter e da Izabel, da feira de frutas, legumes e vegetais, dos empórios…. Não falei nem dos novos boxes de produtos difíceis de encontrar do ATÁ…!

Já veio até aqui, aproveita as surpresas e gulodices que vem por aí. Semana que vem!

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