Vem que tem

Tinha vocação para avô, meu vovô Dedé.

Convivemos muito com ele, na meninice tenra, eu e meu irmão Marcelo. Os primos Adhemarzinho – que lhe herdara o nome, Júnior e Rodrigo vieram depois. E as meninas não nos acompanhavam nesses de lá pra cá.

Com ele, gostávamos de ir a qualquer lugar – até à missa (!), no distante bairro do Anil, em São Luís do Maranhão. Sobretudo por conta do após celebração. Voltávamos para casa nos empanturrando de pão meia lua, macio que só e levemente adocicado, no formato de uma chipa (guloseima do centro-oeste que ganhou Sampaulo há alguns anos, pelas mãos da padaria do supermercado Pão de Açúcar).

Estas são chipas, mas o pão meia lua era escritinho elas.

Estas são chipas,
mas o pão meia lua era escritinho elas.

Vovô encomendava que assassem uma fornada de meias luas para que estivessem quentes e fresquíssimos quando saíssemos da igreja azul de Nossa Senhora da Conceição. O saco de papel, enorme, chegava em casa pela metade. E o carro cheio de farelos. Ele só estimulando a pândega.

Era programa do entardecer de sábado. Depois de um dia que começara cedinho, no quarto dele.

Lá, acompanhávamos sua arrumação matinal. Saído do banho, ainda vestido só com a camiseta regata que usava sob a camisa, ele se encharcava com uma colônia alemã chamada 4711. Até hoje a uso. O aroma traz a lembrança de seu afeto para perto de mim. Ele enchia a mão em concha da água perfumada e a derramava sobre nossas cabeças, afagando-nos. O líquido escorria cheiroso pelas orelhas, pescoço… Na mesa do café, vovó Alina ralhava: “que exagero!”

Dalí, o destino era o Mercado Grande. Para as compras da semana. Devo a vovô Dedé meu gosto por mercados. Íamos das frutas às galinhas, patos e perus – comprados vivos. Agarrados, invariavelmente, a cachos de pitombas. Roendo-as.

Temperos, feijão, milho para canjica, arroz, queijo de São Bento, tudo a granel, enchendo sacolas. Nos boxes de carne, ele nos “convocava” a escolher o pernil que seria posto a marinar em vinha d’alhos para o almoço de domingo.

Vovô conhecia a todos. E todos o festejavam – e aos netos miúdos.

À saída, ele celebrava os amigos mais chegados com um gole de cerveja gelada. Para nós, netos, Cola Jesus. Vovô Dedé amava e era querido por sua cidade. Não estranha a paixão que manteve pulsando – mesmo depois de migrar para o Rio – por nossa São Luís natal.

Essas memórias se dependuram no meu coração durante o bater pernas pelo Mercado de Pinheiros, iniciado no último post, semana passada (veja no final deste artigo).

Mercado de Pinheiros - o eterno retorno

Mercado de Pinheiros – um eterno retorno

Chegamos pela entrada secundária, na rua Manoel Carlos Ferraz de Almeida. Caímos direto no andar de baixo, bem em frente ao restaurante popular da Mazé que ocupa o centro de uma das rampas em espiral, a do lado de cá. Adiante, ocupando todo o miolo central do mercado, as grandes bancas de hortifrútis. À esquerda e à direita, empórios de temperos e secos & molhados em geral. Lá no fundo, na outra extremidade, os novos boxes planejados pelo Institituto ATÁ, do chef estelar Alex Atala.

Mix 3

É este vasto andar térreo do Mercado de Pinheiros que vamos visitar hoje.

No que entramos, se virarmos à esquerda, o primeiro box é do Laticínios d’Oro. Ou melhor, é, mas não é mais. O espaço foi vendido e começa a ser ocupado pelo chef Bruno Alves. Aos poucos, ele o está transformando em oficina de temperos e charcutaria. A mudança vai rolar aos poucos, mas já é possível encontrar blends de especiarias exóticas, ancestrais (até da antiga Pérsia!). Como o “Advieh”, à base de cardamomo, pétalas de rosa, canela, cominho e noz moscada. Ou o “Baharat”, com DNA árabe como o nome denuncia. Ou o marroquino “Rase el Hamout”. São os frutos aromáticos das viagens de pesquisas feitas por Bruno pelo mundo. Abrir os potes que guardam esses temperos é como passear por mercados longínquos, em particular o Grande Bazar de Istambul.

O chef alquimista Bruno Alves em seu laboratório de especiarias e carne de porco, a dëlicat

O chef alquimista Bruno Alves
em seu laboratório de especiarias e carne de porco, a dëlicat

Bruno, que já comandou a cozinha de mais de um restaurante de Sampaulo, está investindo também na transformação da parte dos fundos da loja em charcuteria premium (o trabalho de Edson Navajo – apresentado no post “Resistir, quem há de?”, publicado neste Sampaulo de lá pra cá em 13 de janeiro passado – é uma de suas referências). Além de um recinto para maturação de queijos nobres. Um esforço ousado que conta com o respaldo da gourmetização – e consequente maior exigência – de fatia expressiva dos consumidores. Eu mesmo já me deliciei com alguns experimentos de Bruno (uma tenra, gorda e deliciosa pancetta , de uma feita; e uma bresaola, de outra). O cara tem o dom!

Vale destacar as boas alcaparras mantidas em sal grosso, o queijo Canastra defumado em casca de catuaba e algumas pastas produzidas pelo box. O homus de lentilha – ao invés de grão de bico – é curioso. Mas bom, mesmo, é o pesto rústico que usa castanha de caju e nozes.

Ahhh, a placa de identificação do local ainda anuncia Laticínios d’Oro, mas o nome do novo empório/oficina do chef é dëlicat. Como está rotulado nas simpáticas latinhas em que são vendidos os temperos.

Adiante, seguindo em frente, fica a Mercearia Grãos Integrais, do casal Márcia e Adalberto Rabelo (há 41 anos lá! Desde a inauguração deste mercado de Pinheiros que substituiu o antigo, deslocado de lugar por conta da abertura da avenida Faria Lima). Apesar de vender uma miríade de produtos, o destaque do box são os cereais vendidos a granel. Vários tipos de arroz, feijão, farinhas e todo o tipo de grãos. Expostos em grandes recipientes de acrílico (no velho Mercado Central de São Luís da minha infância ficavam em seus sacos de origem, cujas beiras iam sendo enroladas à medida que se esvaziavam).

Adalberto vende cereais e farinhas a granel em sua Mercearia Grãos Integrais

Adalberto vende cereais e farinhas a granel em sua Mercearia Grãos Integrais

Entre os feijões, além dos mais comuns, a curiosidade é atiçada pelos vermelhos (de Santa Catarina e da Argentina e que eu costumo preparar com carne seca desfiada, numa adaptação do chili, uma “sopa de pobre” muito popular nos Estados Unidos) e pelos feijões mais usados pelos japoneses: o azuki (muito comum na doçaria oriental) e o moyashi (miudíssimo, não muito maior do que um grão de arroz, menor ainda que o feijão manteiga da Amazônia, só que de surpreendente cor verde intensa). Eu gosto muito de broto de feijão moyashi; ou de usá-lo em salada de três feijões, misturado com feijão branco e feijão de corda.

Já os depósitos de arroz oferecem, claro, o popular agulhinha. Além dos tipos cateto, arbóreo, negro e vermelho. Inclusive em suas versões integrais. Além de blends (como o de arroz agulhinha e arroz vermelho).

Grande, também, é a variedade de farinhas. De arroz, de milho, de rosca e, principalmente, de mandioca. Como a adorável cobioba amarela. A farofinha feita com ela é minha predileta.

Seguindo em frente, o box seguinte é o PipOeste, de Marcos Damin. Antigamente, o box abastecia pipoqueiros e ambulantes de cachorro-quente. Ainda hoje é um dos raros locais em Sampaulo onde é possível comprar daqueles estouradores de milho profissionais que equipam carrinhos de pipoca. Com a pressão da vigilância sanitária e a quase extinção desses vendedores de rua, a loja buscou novo mix de produtos que proporcionasse à loja alguma personalidade comercial e lhe permitisse sobreviver. O box é, na verdade, um longo balcão, cheio de caixas transparentes ocupadas, sobretudo, por frutas desidratadas. Além de amêndoas, castanhas e sementes. Como a hoje requisitada barú, colhida nos cerrados do Centro-Oeste, uma das queridinhas atuais dos chefs de cozinha. Meu vício, lá, é a cranberry desidratada. A frutinha – que, fresca, lembra uma cereja, só que menor – assumiu recentemente o status de fonte da juventude e panaceia contra todos os males. Além de alta concentração de vitamina C, de poderosa ação anti-inflamatória, é de um azedinho delicioso. Com ela, preparo caldas, molhos, sucos… E um coquetel com bourbon e canela que me aquece os invernos. Marcos a vende inteira, picada e misturada com laranja (ótima opção para preparação de um molho e valorizar um assado de pato, por exemplo).

Entre castanhas, amêndoas e frutas desidratadas da PipOeste, as deliciosa e requisitadas cranberries importadas.

Entre castanhas, amêndoas e frutas desidratadas da PipOeste,
as deliciosa e requisitadas cranberries importadas.

A próxima loja lembra um armário de avó, com zilhões de recipientes em prateleiras rendadas. O nome traduz bem esse visual: Truques da Vovó. Tem de um tudo que possa ser acondicionado em seus cubos quadrados de acrílico. De temperos tradicionais a nutrientes funcionais. Passando por vários tipos de farinhas de frutas, ervas para chás (e banhos), tapioca do Pará (rara, em Sampaulo), trigo sarraceno, “farinha de trigo” sem gluten (na verdade um composto que pretente substituí-la, ipsis literis) e, até, diferentes argilas usadas em tratamentos de beleza. A gerente, Beatriz, é uma simpatia. Solícita que só para explicar os usos e benefícios de cada produto..

Na simpática Truques da Vovó, temperos, farinhas de frutas, ingredientes exóticos e funcionais (inclusive sem glúten) e, até, argilas ara tratamento de beleza

Na simpática Truques da Vovó, temperos, farinhas de frutas,
ingredientes exóticos e funcionais (inclusive sem glúten)
e, até, argilas para tratamento de beleza.

Chegamos ao centro do mercado, diante das pias de tonéis, pintadas de vermelho. Um bom exemplo de reciclagem, simpáticas e adequadas ao uso e ao local.

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Vamos supor, agora, que em vez de termos virado à esquerda, quando entramos, tivéssemos virado à direita. Seguindo pelo corredor do outro lado, em frente ao já percorrido.

O primeiro box é um pequeno aviário que anuncia também coelhos. Nunca parei lá. Pode até ser que venda bons produtos, mas o visual não é sedutor. Além de ficar desgarrado. Os grandes açougues, a peixaria e os outros aviários ficam no andar de cima. E oferecem muito maior variedade de opções.

Em seguida, três mercearias de secos e molhados, dessas clássicas.

A primeira é o Empório Guarei, de Sandra e Richard Melenas. Lá, faz sucesso um mix de chips de batata inglesa e de batata doce. E é o lugar para comprar camarão seco – inclusive defumado. Além do extraordinário queijo português da Serra da Estrela. E dos recém-chegados salames artesanais da CP (Charcutaria Paulistana).

Entre os bpns produtos vendidos pelo Emporio Guarei, destacam-se um mix de chips de batata inglesa e batata doce, o queijo de ovelha portugues da Serra da Estrela, os bons salames da Charcuteria Paulistana e camarão seco.

Entre os bpns produtos vendidos pelo Emporio Guarei,
destacam-se um mix de chips de batata inglesa e batata doce,
o queijo de ovelha portugues da Serra da Estrela,
os bons salames da Charcuteria Paulistana e camarão seco.

Sandra e sua mesa de degustação, aos sábados

Sandra e sua mesa
de degustação, aos sábados

Aos sábados, Sandra monta uma mesa de degustação de seus produtos, em frente à loja. Recentemente, entre os produtos oferecidos, surpreendia a presença do caríssimo queijo português. Muito mais surpreendente, entretanto, era o fato de estar rançoso. Das duas, uma: não o experimentaram ou apostaram na falta de paladar da clientela. Mas, com certeza, deram um tiro no pé e arredaram os potenciais compradores. Quem pode desembolsar beira 200 reais por meio quilo dessa preciosidade costuma ser exigente..

 

 

A segunda mercearia é o Empório Camargo, dos mesmos proprietários do SuperBox Lemos, situado no mesmo andar, mais adiante.

Durante meus longos caminhares pelo Mercado de Pinheiro, quando bate sede, é a este mini-supermercado que recorro. Suas geladeiras oferecem águas, chás, sucos e refrigerantes – sempre bem gelados – a preços mais em conta do que os bares. Até porque já desisti da água de coco e do suco de laranja frescos vendidos no hortifrúti. Estão sempre sem gelo… Foi no Lemos que descobri e me deixei conquistar pelo doce/azedinho do novo guaraná Schweppes – novo pelo menos para mim. Lá, também encontro as pipocas doces “gourmet” GoldPop” com as quais costumo mimar minha mãe – que as adora.

Além de vender as pipocas "gourmet" GoldPop, o SuperBox Lemos me apresentou ao doce azedinho do guaraná Schweppes

Além de vender as pipocas “gourmet” GoldPop,
o SuperBox Lemos me apresentou ao doce azedinho do guaraná Schweppes.

Voltando ao Empório Camargo, seu forte são os queijos e as conservas de pimentas. Uma amiga comprou lá, outro dia, uma farofa pronta da marca Santa Rita. E amou. Além disso, é o lugar para comprar o arroz espanhol Bomba, ideal para o preparo de paellas.

Bons queijos são tradição do Empório Camargo. assim como a grande variedade de pimentas em conserva. Além da farofa pronta Santa Rita e do arroz espanhol Bomba.

Bons queijos são tradição do Empório Camargo.
assim como a grande variedade de pimentas em conserva.
Além da farofa pronta Santa Rita e do arroz espanhol Bomba.

A última das três mercearias é o Entreposto das Feijoadas. De Rogério Lopes. Não sei se a loja já foi exclusiva dos pertences suínos para o prato nacional por excelência. Hoje em dia, já não o é. Orelhas, pés, toucinhos e costelinhas defumadas de porco estão por lá. Mas eu vou ao Entreposto por uma de minhas manteigas prediletas, desde a infância: a mineira Real. Cada vez mais rara. E dos doces menos corriqueiros. Como a mangada cascão (de manga, claro; cremosa; ótima para acompanhar assados e como cobertura alternativa do creme árabe malabie); ou do quebra-queixo (coco e caramelo bem viscoso, puxa-puxa) que também me transporta à infância; ou dos bons figos e laranja tipo ramy – no meio do caminho entre o em calda e o seco – da marca Serra Mineira. Além de condimentos menos comuns como o alho negro ou o aromático misky árabe.

O Entreposto das Feijoadas é meu lugar para comprar manteiga Real, doces diferenciados e, eventualmente, alho negro e misky

O Entreposto das Feijoadas é meu lugar para comprar manteiga Real,
doces diferenciados e, eventualmente, alho negro e misky.

Na sequência vem uma loja com jeitão de depósito, onde costumo comprar ovos. E só, embora já tenha visto cebolas bonitas, graúdas,por lá (que deixavam as oferecidas nos hortifrútis no chinelo.

E chegamos de novo ao centro do mercado, só que do lado oposto ao das pias de tonéis (lembra?).  Deste, fica o acesso ao estacionamento. Que é um dos lugares mais quentes que conheço. Abafadaço, pelo menos no verão.

Com todo respeito a Sócrates (do PegPese), a Júlia (do Box 38) e a Chu ( do Box 29), não vou ao Mercado de Pinheiros por seus produtos hortifrútis (eles dividem todo o miolo do térreo). Se estou lá por outro motivo, posso até colher uma banana aqui, um shitake alí ou um pimentão acolá. Mas, no geral, o que vejo por lá é muito acabrunhado para um mercado. Folhas sem viço, tomates beira xepa e parca variedade de opções são comuns. Ainda assim, se calha de eu chegar num dia de bancas recém-abastecidas, gosto das folhas já higienizadas da marca Hamada (vendidas no PegPese), pois oferecem boa relação custo/benefício comparados com as vendidas em meus sacolões prediletos; ou de uma ou outra oferta menos óbvia do Box 29, como as mini morangas, as pimentas marrons (nunca experimentei, mas tenho a maior curiosidade) ou os ainda caros mangostins. O Box 38, da última vez que estive lá, tinha belos shitakes, mini cebolas e uma boa oferta de pimentas…

O vasto PegPese é grande só no tamanho. Falta variedade. Mas trabalha com as boas folhas higienizadas Hamada.

O vasto PegPese é grande só no tamanho. Falta variedade.
Mas trabalha com as boas folhas higienizadas Hamada.

Tem dia que o horti-frutas da Luiza está fraquinho, fraquinho... Alguns coguelos aqui, dois pacotes de mini cebolas ali, pimentas coloridas acolá...

Tem dia que o Horti-Frutas Luiza está fraquinho, fraquinho…
Alguns cogumelos aqui, pimentas coloridas ali, dois pacotes de mini cebolas acolá…

O Chu, do Box 29, pelo menos arrisca o ferecendo oferecendo ora mini morangas, ora mangostins...

O Chu, do Box 29, pelo menos arrisca, oferecendo ora mini morangas, ora mangostins…

Não estou dizendo que os hortifrutis do Mercado de Pinheiro são um horror. É que está assim de sacolão por aí que dá de lavada. O pessoal é atencioso que só, trabalha duro, mas vai ver não há demanda… Por variedade, sobretudo. Frutas, verduras e legumes menos óbvios são raros. E a qualidade do que oferecem nem sempre é campeã. Tá na hora de aproveitar a revitalização do mercado para investir e demonstrar que podemos contar com eles.

Vamos almoçar aqui pelo térreo do mercado mesmo? Neste caso, a opção é o restaurante da Mazé. Um lugar popular. Na aparência, no serviço, no cardápio e no preço. Tudo na mais beira tosca harmonia, com as mesas comunitárias cobertas com toalhas de plástico estampado, floral. Ou seja, há atavios. Ingênuos, singelos. Entendeu, né?

A dona, Mazé, é paraibana, com trinta anos de Sampaulo e mais de dez à frente da casa. Que fica plantada bem no miolo de uma das rampas de acesso ao andar de cima.

Não tenho o menor preconceito com o popular. Nem estética, nem artística, nem gastronomicamente falando. Até porque já comi muitíssimo bem em lugares desprovidos de qualquer sombra de requinte. Particularmente quando o cardápio é mais tradicional. Como o da Mazé.

Segunda, virado à paulista. Terça, dobradinha. Quarta, carne de panela.Dizem que o prato da quinta, espaguete à bolonhesa, é surpreendente. Nunca comi. Mas já me joguei na dobradinha, terça-feira passada.

Gosto muito de dobradinha à moda do Porto, com feijão branco e paio. Preparo-a, inclusive. Amiúde. Com paio mesmo, comme-il-faut, em vez da linguiça industrial usada por Mazé. E assumida sem qualquer pudor. Suas ferramentas são essas, esses seus ingredientes, não há como nem porque escamoteá-los. E depois, se a técnica é boa, se há capricho e devoção no preparo, então meio caminho andado.

Mazé e seu restaurante no térreo do Mercado de Pinheiros. Dobradinha às terças; e o cardápio básico de todos os dias.

Mazé e seu restaurante no térreo do Mercado de Pinheiros.
Dobradinha às terças; e o cardápio básico de todos os dias.

A dobradinha da Mazé não é ruim, dá para comer na boa. Só que sem entusiasmo.. É honesta. Considerando o preço, então…. Particularmente se vier temperada com muita fome e grana curta. É decente, a cumbuca vem acompanhada por uma travessa de arroz, um ovo cozido e uma singela salada básica para ser temperada pelo comensal. Com vinagre, azeite e sal de um dos muitos galheteiros que povoam as mesas junto com um molho de pimenta caseiro e outros industriais. Só estranhei os pedaços de frango mergulhados na dobradinha.

Há sempre uma opção de bife (com ovo frito ou acebolado), arroz, feijão e salada.

Quer saber? Se a opção for um lanche fast food dessas redes globais, big X combo isso ou aquilo, fico com um almoço na Mazé. Pelo precinho semelhante. Seja como opção nutricional de melhor qualidade , seja pelo paladar -,rasteiro, mas decente. E ademais já comi muita, mas muita coisa pior na vida. Vestida a rigor e tudo.

Sobremesa? Uma fatia de bolo. Passei batido. Para beber, algumas opções de refresco de frutas naturais. Meu medo era o açúcar excessivo. Mas não. O de maracujá estava bem temperado.

Um dia ainda experimento o louvado espaguete à bolonhesa.

Para completar esse passeio pelo térreo do Mercado de Pinheiros só ficaram faltando os novos boxes planejados e instalados sob a coordenação do Instituto ATÁ, de Alex Atala (leia, no post anterior, logo abaixo deste, um pouco mais sobre os fundamentos desta iniciativa).

Para começar, dividiu-se o Brasil em cinco macro-regiões gastronômicas: A Amazônia, o Agreste, o Cerrado, a Mata Atlântica e os Pampas. Selecionaram alguns produtos e ingredientes de excelência, icônicos dos comeres e beberes regionais – além de algum artesanato de mesa e cozinha – e os distribuíram em três boxes planejados para colocar essa centena ou centena e meia de ofertas à venda. A preços quase inevitavelmente altos, diga-se. Até pela exclusividade das produções artesanais, logística de transporte (principalmente dos mais perecíveis), pessoal de serviço mais qualificado, etc.

Profissão de Fé do Instituto ATÁ, no Mercado de Pinheiros

Profissão de Fé do Instituto ATÁ, no Mercado de Pinheiros

O resultado é nota oito. A concepção merece dez com louvor. À seleção de produtos, dou um oito provisório (a qualidade parece boa, a escolha evidencia critério rigoroso – gostei muito do que já experimentei – mas a variedade ainda é restrita; ou seja, a nota pode subir com a ampliação do que é oferecido. Já os boxes, em si, não merecem mais do que seis. Estão mais para D & D rústico, clean, do que para mercado.

Um box reúne Cerrado e Caatinga. É o menos atraente. E olha que as duas regiões são pródigos celeiros de ingredientes surpreendentes. Ainda bem que a ótima farinha de baru e o excelente óleo de babaçu extraído a firo estão lá.

Ainda não deu para experimentar muita coisa…. Faz apenas um mês que inauguraram.

E pena que a atendente, Odete, seja meio impaciente com a ignorância (no bom sentido) das pessoas sobre o que está à venda. É natural que se pergunte. Não é um box de bananas e outras obviedades… Se eu já não conhecesse uma coisa ou outra sairia de lá boiando.

No box Cerrado e Caatinga, produtos de Centro Oeste e do Nordeste brasileiros. Como a farinha da castanha de barú e o extraordinário óleo de babaçu, extraido a frio.

No box Cerrado e Caatinga, produtos de Centro Oeste e do Nordeste brasileiros.
Como a farinha da castanha de barú e o extraordinário óleo de babaçu, extraido a frio.

Outro box apresenta os produtos dos Pampas. Aplausos para um ou outro objeto de mobília antiga que decora o espaço, desafiando os praticáveis – nem um pouco sedutores – comuns aos três; e acrescentando charme ao espaço. As peças de cutelaria artesanal gaúcha são atraentes. Tipo olhou, virou objeto de desejo. Gosto muito, também, das boleadeiras de couro trançado. Sem nem ter falado ainda de comida, a loja já ganhou uma senhora personalidade – que o depósito de mate – com direito a canequinha medidora de chifre, no centro de tudo, arremata com brilho. Chega até dá para imaginar-se ouvir a gaita nativista de Renato Borghetti…

Quanto aos alimentos – e bebidas…. Que mel maravilhoso esse de Cambará do Sul (abelhas criadas naqueles cânions tinham que ser pródigas, mesmo!). E os embutidos, os queijos, o charque macio que só, tchê… Além do vinho adocicado Jurupiga da Ilha, produzido no meio da Lagoa dos Patos – de ombrear um bom Porto lusitano. E tem banha de porco – agora resgatada a ponto de já ser considerada por muitos mais saudável de que muito óleo vegetal metido a santo. Além de um vinagre de vinho tinto primoroso, feito pela sabedoria culinária dos italianos de Gramado… Sem contar a simpatia do gaúcho Romeu Fregonese Júnior que administra o espaço. Seu entusiasmo contagia os curiosos pelos produtos expostos.

No box dos Pampas, o gaúcho Júnior promove degustação dos ótimos produtos, cercado por memorabilia do Rio Grande do Sul

No box dos Pampas,
o gaúcho Júnior promove degustação didática dos ótimos produtos,
cercado por memorabilia do Rio Grande do Sul.

O último box do Instituto ATÁ dedica-se à Amazônia e à Mata Atlântica. É o maior de todos (talvez, por isso, pareça tão vazio). Além de uma boa mostra de cerâmica utilitária com pegada indígena, a loja oferece algumas preciosidades. Como as já célebres pimentas Baniwa, o tucupi negro, o açúcar aromatizado com cumaru, o feijão manteiga (já falei dele neste artigo, lembra?), o óleo de pequi produzido pelos índios Kisêdjê, o “macarrão” de palmito pupunha (invenção de Alex Atala), as granolas artesanais (inclusive salgadas!)…. Além das cachaças com infusão de Cambuci – que eu adoro. Por falar em cambuci, o box vende mudas dessa deliciosa fruta azedinha que já esteve ameaçada de extinção. Pelas paredes, o manifesto, profissões de fé e palavras de ordem do Instituto ATÁ.

Senão, mesmo, é a explicação burocrática dos atendentes sobre ingredientes que a maioria das pessoas não conhece.. Vende-se produtos muito exclusivos como se vende roupa na C&A. O máximo que consegui sobre o feijão manteiga foi que “tem muita saída”. Os atendentes deveriam ser apaixonados por gastronomia, ter paladar apurado, conhecer o sabor e as possibilidades culinárias de suas preciosidades, entender que lidam com tesouros culturais.

Produtos excepcionais como o tucupi negro, pimentas e azeites produzidos por comunidades indígenas, o adorável feijão manteiga do extremo Norte brasileiro, "macarrão de pupunha, cachaça com infusão de cambuci (além de mudas de pés deste fruto que andava ameaçado de extinção)... Tudo isso, além de cerâmica com pegada indígena, está à venda no box da Amazônia e Mata Atlântica.

Produtos excepcionais como o tucupi negro,
pimentas e azeites produzidos por comunidades indígenas,
o adorável feijão manteiga do extremo Norte brasileiro,
“macarrão de pupunha,
cachaça com infusão de cambuci (além de mudas de pés deste fruto
que andava ameaçado de extinção)…
Tudo isso, além de cerâmica com pegada indígena,
está à venda no box da Amazônia e Mata Atlântica.

Em pouquíssimo tempo, este projeto já revitalizou o velho Mercado de Pinheiros. Hordas de novos frequentadores lotam todos os espaços aos sábados. Para gáudio dos antigos comerciantes. E dos novos, como o chef Bruno Alves, da Dëlicat – que muitos ali tratam como mago e alquimista.

Seu Zé, da tabacaria, apresenta seu fumo de corda

Seu Zé, da tabacaria, apresenta seu fumo de corda

E do Seu José, da velha tabacaria – meio escondida no mesmo térreo que visitamos inteiro – como meio escondidos andam os fumantes. Ele está no Mercado de Pinheiros desde a sede original. Mudou-se junto, em 1971. E continua vendendo tabaco e acessórios, inclusive cachimbos. A começar pelo fumo de corda. O forte, o médio e o velho (usado como protetor natural contra pulgões de plantas. Seu José andava desanimado e a renovação do mercado lhe deu vida nova.

 

E pensar que este post inteiro nem subiu a rampa para o andar de cima do Mercado de Pinheiros. É lá que ficam os açougues, os aviários, a ótima peixaria Nossa Senhora de Fátima, a adega e os melhores restaurantes.

É…. Não sobra alternativa…

Já que estamos aqui, bobagem ir embora. Porque semana que vem tem mais.
Tem o último post sobre o “meu” primeiro mercado de Sampaulo: o belo e revitalizado Mercado de Pinheiros.

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Nos arredores dos boxes do Instituto ATÁ ainda existem duas lojinhas. Da mais absoluta insignificância para o consumidor “avulso”. Uma venda de linguiça industrial no atacado e um box de laticínios (eu acho). Ambas com jeitão de decadência moribunda, sem a menor relevância. Desinteressantes que só.

Agora então, com a vizinhança de uma iniciativa tão ou mais cultural do que comercial, um conceito tão corajoso de promoção do melhor da produção nativa e/ou artesanal dos “heróis da resistência” gastronômica dos brasis isolados, dos empreendedores das nossas raízes mais profundas, tamanha desimportância vira um estorvo, um incômodo.

Tô em casa

Programa que eu gosto é comprar comida. Comida pronta também, mas, sobretudo, ingredientes para as preparar.

Gosto de quitandas, mercearias, empórios, feiras, padarias, açougues, peixarias, supermercados…. Perco a noção do tempo flagrando novidades, catando qualidade, planejando experimentos.

Seja nos setores de bolachas, biscoitos e pães ou nos laticínios e charcutaria. Frutas, legumes e verduras, então… E nos temperos? Nos cereais? Nas carnes e peixes? Meus futuros deleites gastronômicos começam a ser construídos lá. Belos tomates prometendo molhos encorpados; um pescado diferente desafiando ideias; os ovos prometendo souflês, mousses, omeletes…. Uma fruta seca aqui, belas folhas de rúcula ali, cogumelos acolá, esse queijo, aquela cebola roxa… Olha eu compondo saladas!

Mas nenhum comércio se compara ao bom e velho mercado. Mercadões que vendem de um tudo. De catedrais suntuosas – e caras – como o exuberante Mercadão Municipal de Sampaulo a capelinhas atraentes, como o Sacolão da Vila Sônia.

O singelo Sacolão da Vila Sônia... ...e o majestoso Mercadão Municipal

O singelo Sacolão da Vila Sônia…                                         …e o majestoso Mercadão Municipal

Entre o gigante da beira do que ainda chamam – embora não mereça – de rio Tamanduateí e o acolhedor tem-de-um-tudo da avenida Francisco Morato, fica meu predileto. Meio que no meio mesmo, em tamanho, variedade e geograficamente falando: o Mercado de Pinheiros.

Quando chegamos à cidade, no início dos anos setenta, acabara de ser inaugurado. No local onde está até hoje, já que o antigo – que era conhecido em Sampaulo como Mercado dos Caipiras, tivera que ser remanejado para a abertura da avenida Faria Lima. Foi, durante muitos anos, o destino preferencial de compras de minha mãe, junto com a Casa Santa Luzia, até por uma questão de proximidade de casa. E conquistou, para sempre, meu coração, minha alma e meu apetite.

A arquitetura cheia de charm e beleza do "meu" Mercado

A arquitetura cheia de charm e beleza do “meu” Mercado de Pinheiros

Naquela época, ainda vendiam criações vivas. Galinha – inclusive de angola, patos, marrecos, perus… E lá mesmo os abatian – e extraiam o sangue para o molho pardo. Além de outras boas práticas hoje raras, como ralar o coco seco para extração do leite de coco – muito, mas muito mesmo melhor quando obtido assim do que já engarrafado. Até a manteiga nossa de cada dia, saborosa, saudável e fresca, era vendida no “retalho”. “Um quarto da salgada” eram 250 gramas de manteiga com sal…

Home Sweet Home

Home Sweet Home

Por conta da adoravelmente bela e intrigante arquitetura do lugar (praticamente sem ângulos retos, tudo meio arredondado, orgânico – até as escadas se contorcem em curvas), eu, menino, chamava o Mercado de Pinheiros de “Fita Cassete”. Começa que o grande espaço é entre retangular e oval; e, o melhor de tudo: nas duas extremidades, grandes rampas espiraladas levam de um andar ao outro. Remetiam minha imaginação infantil aos dois furos de uma fita cassete que usávamos para rebobinar com um lápis. Pouca gente vai entender o que estou falando, já que faz tempo que o CD acabou com as fitas cassetes. Se até CD já foi ultrapassado pelo streaming digital…. Por isso a foto explicativa ao lado.  Os adultos achavam a maior graça dessa minha associação inusitada…. Ahhh, eu também “via”, no vasto forro, um espinhaço de peixe….

Dar um rolê no mercado, ao pé da letra

Dar um rolê no mercado, ao pé da letra

A entrada principal, digamos assim, do mercado, para quem chega a pé, é pela rua Pedro Cristi. Uma rua de apenas um quarteirão, paralela à rua Teodoro Sampaio, entre esta e a rua Cardeal Arcoverde, a curtíssima distância da estação Faria Lima (linha amarela do metrô). Por lá, tem-se que encarar uma escada de alguns degraus e entrar diretamente no andar de cima. Quem chega de carro tem a opção do estacionamento pago do próprio mercado. Sempre lotado, sujeito a espera.

Eu entro sempre pelo acesso secundário, da rua Manuel Carlos Ferraz de Almeida. Que dá direto no andar de baixo, o da feira, digo, dos grandes boxes de frutas, legumes e verduras.

E dos empórios, dos armazéns de grãos e temperos, do restaurante da Mazé e dos novos boxes recém-inaugurados, idealizados pelo chef sensação do Brasil, Alex Atala. Através de seu Instituto ATÁ – que se propõe resgatar e valorizar a gastronomia brasileira como manifestação da alma cultural nacional (o que de fato o é). Além de promover a culinária sustentável através de ações socioambientais saudáveis a partir da cozinha.

Com esse discurso moderno e louvável, o mundialmente respeitado chef dos restaurantes DOM e Dalva e Dito se juntou ao também extraordinário chef e militante da causa culinária brasileira Rodrigo Oliveira, do restaurante Mocotó. E conquistaram o entusiasmo, o compromisso e a parceria do prefeito Fernando Haddad (a prefeitura administra o Mercado de Pinheiros). Para a revitalização do velho centro de compras de alimentos, transformando-o num espaço de referência.

"Meu" Mercado ganha valores, princípios!

“Meu” Mercado ganha valores, princípios!

O projeto acabou de inaugurar as mudanças estruturais mais radicais. E coroou transformações encetadas há três anos, capitaneadas pelo chef e agitador gastronômico boliviano Checho Gonzales. Um figuraça.

Chef Checho Gonzales

Chef Checho Gonzales

Checho faz parte de um grupo de cozinheiros que, visualmente, esteticamente, dá pinta de “bad boy”. Muita tatoo, piercing, bonés e que tais. Um grupo que inclui o próprio Alex Atala, André Mifano (que conquistou meu paladar com seus deliciosos suínos no restaurante Vito (deixou a casa órfã há alguns meses e, desconfio, está armando novidades para breve – além de ter tido seu nome popularizado nacionalmente no comando de um reality show culinário), Henrique Fogaça (agora, também, televisivo; mas, sobretudo, chef talentoso do surpreendente restaurante Sal – e roqueiro /dono do ótimo bar Cão Véio), só para citar alguns dos mais tatuados.

Checho Gonzales, Alex Atala, Henrique Fogaça chefs "bad boys" de Sampaulo

Checho Gonzales, Alex Atala, André Mifano, Henrique Fogaça
chefs “bad boys” de Sampaulo

O boliviano Checho vive em Sampaulo desde criança. No início dos anos setenta – como eu. Ficou mais conhecido quando “inventou” as feiras gastronômicas de rua. A sua chamava Mercado. E teve várias edições. A primeira aconteceu exatamente no estacionamento do Sal, de Henrique Fogaça, já lá se vão alguns anos. E mostrou o potencial do comer na rua, o que desencadeou a febre dos food trucks em Sampaulo. .

No dia, ou melhor, na noite da pioneira edição da Mercado, choveu muito. Ainda assim, mais de duas mil pessoas disputaram, encharcadas, os quitutes ali preparados por chefs consagrados. Eu mesmo, só consegui comer uns cannolli, doces e adoráveis, preparados por um garoto, Alexandre Leggieri – que tocou, durante um tempo, uma cannolleria na rua Frei Caneca e, depois, sumiu. Embora tenha tido notícias não lá muito confiáveis de que pode ser encontrado vendendo seus ótimos cannolli na feirinha do Bixiga…

Voce já se perdeu, né? Eu também. Começo a divagar, um assunto leva a outro… Mercado de Pinheiros, revitalização proposta pelo ATÁ de Alex Atala, já antecipada por Checho Gonzales precursor da comida de rua, chefs tatuados… Já que estamos no Mercado Fita Cassete, rebobina!

Chef Checho Gonzales se encantou com o Mercado de Pinheiros. E encantou ainda mais o lugar com a abertura de sua Comedoria Gonzales.

Chef Checho Gonzales se encantou com o Mercado de Pinheiros.
E encantou ainda mais o lugar com a abertura de sua Comedoria Gonzales.

Voltando ao Mercado de Pinheiros, digo, ao chef Checho, ou melhor, aos dois juntos, algumas das últimas edições da feira de comida de rua dele foram realizadas na área externa do nosso mercado. Checho Gonzales foi seduzido pelo local e decidiu ficar por lá mesmo. Há menos de dois anos, abriu ali sua própria cevicheria, batizada como Comedoria Gonzales. Tá bom, a cozinha produz mais do que o prato nacional do Peru, preparado basicamente com cubos de peixe cru, cebola roxa e caldo à base de limão.

Criações de Checho Gonzales: ceviches, ostras...

Criações de Checho Gonzales: ceviches, ostras…

Seus franguinhos marinados em tempero levemente apimentado – assados até a maciez atingir seu auge, as costelinhas de porco – crocrantes por fora e se desmanchando por dentro a ponto de largar o osso limpinho com facilidade), as salteñas – ou empanadas, nunca sei como diferenciá-los (chego a achar que é só o nome que muda; na Argentina é empanada e na Bolívia é salteña), e um bom sanduiche de pernil.

...e otras cositas más, na Comedoria Gonzales.

…e otras cositas más, na Comedoria Gonzales.

Mas as estrelas do cardápio – uma lousa enorme, na parede – da Comedoria Gonzales, são os ceviches. Em variações criadas pelo chef Checho que podem incluir camarões e outros frutos do mar, milho, farofinha, sagu de coco…. São, de fato, ótimos.

E a única sobremesa da casa, chamada Tres Leches, também é bem legal. Um pão de ló embebido em leite adoçado com baunilha (fica com textura de baba-au-rhum, só que sem álcool) coroado por uma quenelle de doce de leite.

A chegada de Checho ao Mercado de Pinheiros trouxe vida nova ao prédio de belo interior que andava parado no tempo, acabrunhado. A abertura da Comedoria Gonzales trouxe seus muitos amigos culinaristas, chefs e da mídia gastronômica para conhecer e se encantar com o espaço. Inclusive os chefs Alex Atala e Rodrigo Oliveira. Encantados, os dois levaram ao prefeito seu projeto. Os deuses do bem comer abençoaram tudo e, há menos de um mês, a Revitalização foi inaugurada.

E já arrasta multidões para desfrutar este novo velho poind foodie de Sampaulo. Aos sábados, então, haja fila. Até porque o horário é só diurno. Até as 6 da tarde.

As delícias com sotaque latino-americano do boliviano/sampaulistano foram só o começo. O Mercado de Pinheiros é mais. Muito mais. Este é só o primeiro post. Nem pense em ir embora. Ainda nem falei dos temperos exóticos e ancestrais da Dëlika, de outros, mais tradicionais, da Truques da Vovó, da primeira filial do restaurante Mocotó do lado de cá do rio Tietê, dos açougues e dos aviários (e seus animais e cortes raros), da ótima peixaria Nossa Senhora de Fátima, da comida popular e caprichada da Mazé, do imperdível arroz de polvo do Walter e da Izabel, da feira de frutas, legumes e vegetais, dos empórios…. Não falei nem dos novos boxes de produtos difíceis de encontrar do ATÁ…!

Já veio até aqui, aproveita as surpresas e gulodices que vem por aí. Semana que vem!

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