Se joga!

Pulsa uma gandaia em mim que não consegue disfarçar: fui concebido em pleno Carnaval. Para nascer nove meses depois, em novembro.

Ainda de fralda – e ainda em São Luís do Maranhão, felicidade para mim era um arco de serpentina se desenrolando no ar, cortando chuva de confetes coloridos. Os bailes infantis, no clube Jaguarema, foram meu batismo de êxtase, revelando-me a magia da folia.

A pândega de meu pai ganhando a rua, em turma de amigos, todos vestidos de mulher, com roupas iguais, peruca e tudo, engraçadíssimos, ratificou minha vocação para os folguedos momescos. Tio Elir, tio Saldanha, Aldemir, Zé Dourado… Um ano eram melindrosas, noutro wanderléias coreografando o “senhor juiz, pare agora!”.

Migramos para Sampaulo num outubro. Em 1971. Passado dezembro, com o avançar de janeiro, minha inquietação crescia pela ausência de qualquer referência, nas ruas ou na animação das pessoas, ao carnaval que se aproximava… Era assustador. Pegamos a via Dutra e nos mandamos para o Rio de Janeiro.

Foi meu primeiro desfile de Escolas de Samba. Adolescente de deslumbramento na Avenida Presidente Vargas, em arquibancadas de madeira (maiores que as definitivas na Sapucaí de hoje!), assisti o Império Serrano ser campeão cantando Carmem Miranda. “Uma pequena notável cantou muito samba e é motivo de carnaval”… Marília Pera interpretava uma das muitas rainhas dos balangandãs, destaques na avenida. “Cai, cai, cai, cai, quem mandou escorregar; cai, cai, cai, cai, é melhor se levantar”… Leila Diniz foi outra das turbantadas com frutas. Minha paixão pelo espetáculo das escolas de samba nasceu ali, no carnaval de 1972.

Considero os desfiles a mais exuberante manifestação da nossa cultura popular, o melhor espelho de nossa alma brasileira. Com um detalhe que é pura magia: a fugacidade. Cada espetáculo só acontece uma única vez, cintilando e se esvaindo diante da nossa emoção, alguns minutos e báu báu, never more.

Nos anos seguintes, meus fevereiros foram cariocas. Num ou noutro carnaval, eu variava o cardápio. Voltei a São Luís uma vez, fui a Salvador noutro ano, Olinda… Mas, na hora do desfiles de Mangueira, Salgueiro, Beija-Flor, Portela, eu tratava de arranjar uma TV para não as perder.

Com meses de antecedência, me inteiro dos enredos. O que as escolas vão mostrar na avenida, que assunto será interpretado pela imaginação criativa do carnavalesco. Depois, vou atrás de ouvir a trilha do espetáculo, o samba enredo que vai cantar o tema, cuja letra alinhava os destaques da história. O refrão revela se a música tem potencial para empolgar as arquibancadas e alicerçar o sucesso de uma apresentação. Como fez com a Vai Vai, em 1978: “Noel, Noel, Noel, esta linda noite é sua e a Vai Vai está em feste neste carnaval de rua”; com a União da Ilha, e a Império Serrano em 1982: “Diga espelho meu, se há na avenida alguém mais feliz que eu” e “Bumbum paticumbum prugurundum, o nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí, Bumbum paticumbum prugurundum, contagiando a Marquês de Sapucaí”; em 1988, com a Imperatriz Leopoldinense: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós e que a voz da liberdade seja sempre a nossa voz”; em 1993, com o Salgueiro: “Explode Coração na maior felicidade, é lindo o meu Salgueiro, contagiando sacudindo essa cidade”; com a Mangueira, em 1994: “Me leva que eu vou, sonho meu, atrás da verde-rosa só não vai quem já morreu”

Durante meses, centenas de artistas, artesãos, engenheiros, marceneiros, serralheiros e técnicos de efeitos especiais criam, costuram, colam, pintam, esculpem, soldam… Alegorias, fantasias, adereços… A harmonia planeja, em sintonia com a evolução, a passagem do espetáculo, de cronômetro em punho. Os coreógrafos elaboram e ensaiam seus bailados à exaustão – inclusive o sublime pas-de-deux do casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Enquanto a bateria batuca, sem trégua.

Nos barracões, uma multidão de artistas e artesãos produzem o espetáculo

Nos barracões, uma multidão de artistas e artesãos produzem o espetáculo

Tudo, por alguns minutos de deslumbre.

Das arquibancadas deslocadas pelas obras do metrô do Rio para a Avenida Antônio Carlos, assisti à estréia de Joãosinho Trinta, no Salgueiro, cantando meu – e dele – Maranhão natal. Com “O Rei de França na Ilha da Assombração”. Uma emocionante revolução de encantamento. Na forma, no visual e no conteúdo, no enredo do espetáculo. Sucedida pelas “Minas do Rei Salomão”. “Sonhar com Rei dá Leão” (Joãosinho muda de escola, alça a Beija-Flor ao esquadrão de elite e coloca Nilópolis no mapa do samba), “A Criação do Mundo na tradição Nagô” (a revelação de dois ícones, Neguinho e Pinah), “A Grande Constelação das Estrelas Negras” (eu chorava e cantava e sambava enquanto Clementina de Jesus passava, emocionada, acenando do alto de uma alva alegoria-jardim), “A Lapa de Adão e Eva” (Cláudia Raia surgindo, Lafond, de serpente, seduzindo Eva com uma banana), “O Mundo é uma Bola” (sob o dilúvio da maior chuva que um desfile já viu), a catarse de “Ratos e Urubus” enlouquecendo a Sapucaí… “Xepa, de lá pra cá xepei, se na vida sou mendigo, na folia eu sou rei”!foto boa 1

Por essas – e outras, trinta desfiles ao todo no Salgueiro, Beija-Flor, Viradouro e Grande Rio, escrevi um livro, “O Brasil é um Luxo”. Um passeio pelos enredos de João, obras-primas da arte brasileira.

Esta livro me permitiu conhecer melhor as escolas de samba de Sampaulo. Eu não era zero à esquerda no assunto, mas não tinha nem de perto a intimidade que me ligava às cariocas.

Meus janeiros – ou parte deles – eram passados aqui. E me jogar nas quadras, nos ensaios, era inevitável. Já até assistira a um desfile paulistano, ainda na Avenida Tiradentes, no ano em que a Vai Vai enlouqueceu o bairro do Bexiga ao conquistar seu primeiro título cantando Noel Rosa, com o samba de refrão transcrito aí em cima.

Mas foi minha obra sobre os desfiles de Joãosinho Trinta que escancarou as portas de meu coração para o Carnaval de Sampaulo. Por conta de um convite, do Diário Popular, para ser jurado – do quesito enredo – no Sambódromo do Anhembi. O jornal mantinha (mantém, ainda?) uma premiação paralela à oficial, chamado “Troféu Nota 10”, copiado do “Estandarte de Ouro” que O Globo realiza no Rio de Janeiro.

Repeti a dose no ano seguinte, quando fui demitido. E o fui por escolher a Mocidade Alegre como melhor enredo de 2012. Contrariando as regras rígidas do julgamento.

Essas mesmas regras são seguidas no Rio de Janeiro e não concordo com elas. Desfile de Escola de Samba é arte. Ópera Popular de Rua, como Joãosinho definiu. Um espetáculo com libreto (o enredo), música, dança, teatro, artes-plásticas (alegorias esculturais, figurinos), circo…

Como metrificar uma obra de arte?

Como metrificar uma obra de arte?

Não pode ser julgado com a métrica de régua e compasso. Até admito que questões como tempo máximo de apresentação precisam ser impostos; se não, periga, as apresentações invadem a Páscoa. A Mocidade Alegre fizera – de longe – o melhor espetáculo naquele ano. Para mim, representante como jurado do público que assistiu e consagrou o desfile da escola, não importava se uma alegoria emperrara na concentração. O que vimos foi exuberante e emocionante. E o que eu considerei foi o que vi. Até porque não sei como julgar o que não vi. Tanto que escrevi, na justificativa do voto: “faltou uma alegoria, mas não fez a menor falta”. O pessoal do Diário não engoliu…

Desde sempre percebo dois grandes equívocos no desfile de escolas de samba de Sampaulo. O primeiro é o esforço em clonar o que fazem no Rio. Tipo loja de franquia, sem personalidade. Aqui não se cria nada, tudo se copia dos cariocas. Todos os fundamentos, ipsis literis. Qualquer evolução começa lá. Das comissões de frente coreografadas às paradinhas de bateria. As regras de julgamento, tudo, até os detalhes que devem ser observados na apresentação de Mestre-Sala e Porta-Bandeira. Xerox. Submetemo-nos à condição de filial e, como tal, acatamos o desterro à sombra. Abrimos mão da invenção. Admitimos a incompetência para criar. Nosso talento se conforma em sermos cópia.

O segundo equívoco do carnaval de escolas de samba de Sampaulo é a única novidade genuinamente paulistana nos desfiles. Uma cria bastarda, espúria e prejudicial ao vicejar desta manifestação cultural: as escolas constituídas por torcidas organizadas de futebol. Não estou dizendo que não possam criar e produzir ótimos desfiles. Mas não considero saudável. Arte e futebol são paixões distintas. O núcleo de uma escola de samba é um grupo de artistas que, sob o comando de um carnavalesco, se juntam para produzir um espetáculo cênico. Seus seguidores são fãs. O núcleo de um time é um grupo de jogadores que, sob o comando de um técnico, se juntam para jogar bola. Seus seguidores são torcedores. Quando os fãs de um se confundem com os torcedores de outro, vicejam o sectarismo, o fanatismo e a intolerância. Neste caminho, nada impede que surjam escolas de samba Unidos do PT, Mocidade Independente do PSDB, Império de Maomé, Acadêmicos do Vaticano, G.R.E.S Cordão da Universal, Turma dos Hebreus… Por que sectarizar o samba?

Mas o carnaval taí. Já começou e tem hora para acabar.

Para mim, a melhor forma de me jogar na folia pré-carnavalesca são os ensaios de quadra das escolas de samba. São a melhor balada do alto verão em Sampaulo.

Quatorze escolas (outro exagero; não é fácil, para o público, apreciar vinte horas de espetáculo; haja oportunismo polítiqueiro…) disputarão o título de campeã este ano no Sambódromo do Anhembi. Em desfiles que atravessarão a noite de sexta para sábado, 5 de fevereiro. E de sábado para domingo, dia 6.

Suas quadras e ensaios, pela ordem de apresentação na avenida:

A Pérola Negra foi vice-campeã do grupo de acesso em 2015. Por isso volta à elite das escolas de samba em 2016 e abre os desfiles.
Seu enredo visita a tradição festeira da Vila Madalena, seu bairro, epicentro da boemia de Sampaulo.
No ano passado, os ensaios trocaram a diminuta quadra da Rua Girassol (que costumava vazar gente pelas ruas próximas) pelo amplo Tropical Butantã. Que este ano teve que fechar para reforma. Nova mudança, desta feita para um estacionamento a céu aberto, na Avenida Rio Pequeno, ao lado da Avenida Escola Politécnica. Pertinho da USP, cujos alunos costumam frequentar os inflamados ensaios e participar de seus desfiles.
O samba enredo deste ano não é exatamente empolgante. Se for lá – ensaios aos domingos – vá com o refrão na ponta da língua: “É na ginga a dança… que eu vou / Solta o corpo e balança… amor / Vem ver como é que é sambar na ponta do pé / Pérola Negra vem nos passos do balé”.

A Pérola Negra ensaia a céu aberto as danças que escreveram a história da Vila Madalena

A Pérola Negra ensaia a céu aberto as danças que escreveram a história da Vila Madalena

A Unidos da Vila Maria tem uma das melhores e maiores – quadras de Sampaulo, às margens da Via Dutra. Além de amplo, o espaço de ensaios é confortável, com mesas e cadeiras para uma relaxada – carência comum a muitas escolas.
O enredo canta a Ilha Bela, balneário da elite mais descolada da cidade.
Enredos “geográficos” podem surpreender, particularmente quando fogem da exaltação ao óbvio. Mas é raro escapar dos estereótipos.
Currículo, o carnavalesco tem. Alexandre Louzada já foi tetra campeão no Rio (pela Vila Izabel e pela Beija-Flor), sendo que, em 2011, foi campeão lá e aqui, pela Vai Vai.
Os ensaios acontecem às sextas e domingos.
O refrão do samba enredo periga conquistar as arquibancadas: “E no balanço das ondas . . . Mareia / Tem reza forte tem . . . Na aldeia…. / Clareia / Salve o sincretismo na religião: Oxóssi é São Sebastião.

A Ilha Bela é o enredo que anima os ensaios na ótima quadra da Vila Maria

A Ilha Bela é o enredo que anima os ensaios na ótima quadra da Vila Maria

A Águia de Ouro leva para o Sambódromo do Anhembi um enredo-oração a Nossa Senhora.
Não é a primeira vez que uma escola de samba desfila religião. As divindades de matriz africana são, talvez, o maior lugar-comum.Mas o catolicismo já rendeu momentos memoráveis.
Como o protagonizado pela Mocidade Independente de Padre Miguel, do Rio: “Padre Miguel, Padre Miguel / Olhai por nós, olhai por nós / Se liga nessa gente tão sofrida, meu senhor / Tá sempre aguardando a sua voz”.
No caso da Águia de Ouro paulistana, a escola tem motivos para louvar a Virgem Maria: a gratidão. Até pouco tempo atrás, a escola penava num arremedo de quadra, debaixo de um viaduto de seu bairro natal, a Pompéia. Hoje, desfruta da maior quadra da cidade, na Marginal do Tietê.
O samba enredo acaba com um pedido de perdão, mas não esclarece o motivo da contrição.
Os animados ensaios acontecem aos domingos e o refrão reza:O céu se abriu / Mostrou seu luar / Pra ver minha Águia de Ouro passar / Ave Santa Mulher que me guia / O nosso Azul e Branco é de Maria”.

Em oração a Nossa Senhora, a Águia de Ouro ensaia na mega quadra da Marginal do Tietê

Em oração a Nossa Senhora, a Águia de Ouro ensaia na mega quadra da Marginal do Tietê

A Rosas de Ouro escolheu um enredo inusitado pelo ineditismo: as Tatuagens.
A escola reúne uma das maiores legiões de fãs em Sampaulo.
Seu último título foi conquistado com um enredo patrocinado e levava o nome do patrocinador até no título, o Cacau é Show. A Liga das Escolas protestou (dizem que pressionada pela Rede Globo, incomodada pelo merchandising explícito na transmissão) e mudaram para O Cacau Chegou.
Este ano, vai defender a teoria de que as cicatrizes de ferimentos foram as precursoras das tatuagens. Mais mórbidgo foi Joãosinho Trinta que, no enredo de 1986 da Beija-Flor carioca, O Mundo é uma Bola, sobre a história do futebol, delirou; imaginando que tudo começara com guerreiros ancestrais batendo bola com as cabeças de seus adversários vencidos em campo de batalha.
A boa quadra da Rosas, toda pintada em rosa e azul (que são as tradicionalíssimas cores da “Roseira”), fica na vizinhança da cabeceira do lado bairro da Ponte da Freguesia do Ó. Impressionante como a maioria absoluta das competidoras do grupo de elite tem CEP da Zona Norte da Cidade (dez, das quatorze!).
Os ensaios rolam às quartas e sextas e o refrão do samba enredo, fraquinho, canta assim:Eu vou tatuar no seu coração / Pra vida inteira / És  meu amor / Eterna como o tempo, roseira”.

Na quadra azul e rosa, a Rosas de Ouro ensaia tatuar roseiras

Na quadra azul e rosa, a Rosas de Ouro ensaia tatuar roseiras

Chegamos à Nenê da Vila Matilde, uma escola querida por todo o universo do samba paulistano.
A quadra fica no distante – e bota distante nisso, bairro que dá nome à tradicional instituição de pra lá da Penha, na fronteira entre Sampaulo e a Europa (é vizinha do Aeroporto Internacional de Guarulhos).
Isso não tem me impedido de sempre ir até lá, há décadas, em respeitosa visita às raízes do samba paulistano.
Como mudou a Vila Matilde nos últimos anos. De subúrbio beira insalubre, o bairro transformou-se em recanto pitoresco da cidade, com um bem ambientado parque onde crianças brincam de patins e idosos passeiam cachorros. Um dos melhores exemplos que conheço de classe média baixa com dignidade.
E uma das coisas que mais me encanta, lá, são os carros de som – como os de cidades do interior – que circulam nesta época tocando o samba-enredo da Nenê. Por onde passam, as pessoas da rua ensaiam passos.
Se não é a única escola de samba tipicamente de comunidade em Sampaulo, é a mais atavicamente ligada a seu entorno.
E a quadra, então! É uma jóia preciosa, escondida numa ruela. O interior, atualmente, é pura sedução. Um kitsch salão de palácio todo em azulão e dourado, com arremedos de lustres feitos em papel cintilante.
Vale muito a pena participar de um ensaio da Nenê. No que pese o enredo deste ano. Não sou lá muito fã de enredos de exaltação a personagens vivos, a não ser que sejam monstros sagrados.
Por mais que eu aprecie o talento e a determinação de Cláudia Raia, não é este o caso. Acho que as escolas apelam para isso no afã de conquistar mais facilmente as arquibancadas do sambódromo.
Ainda assim, vá até lá.
Os ensaios acontecem aos domingos.
Quanto ao samba enredo, gosto muito da melodia. Mas sabe aquelas canções cantadas numa língua que você não conhece e assim mesmo gosta porque a música é muito boa? A letra é assim, tipo disparatada. Mas o refrão é muito bom e vai pegar na avenida:Quem é da Vila não foge da Raia / Cai na gandaia, samba pra valer / Entra na dança desse Carnaval / Com a Rainha do teatro musical”.

Cláudia Raia é a musa dos ensaios na adorável quadra da Nenê

Cláudia Raia é a musa dos ensaios na adorável quadra da Nenê da Vila Matilde

E entra em campo o time do Corinthians, digo, a Escola de Samba Gaviões da Fiel.
No mundo do samba, quando o enredo não trata de um fato histórico, de uma cidade ou região geográfica, de uma personalidade, ou seja, de um assunto com fronteiras relativamente bem definidas, são chamados de enredos abstratos.
Num tema como magia, mistério ou vaidade, cabe de um tudo.
O enredo deste ano, da Gaviões, é abstrato: “Fantástico”. O samba não revela o que o carnavalesco Zilkson Reis vai mostrar, mas dá uma dica na letra: brincar de Deus.
A quadra da escola também fica ao lado da Marginal do Tietê e os ensaios acontecem às terças e sextas.
Nunca fui lá. Até pretendia, mas depois de um componente se recusar a me levar lá porque eu estava vestido com uma camiseta verde, desisti. Isso para mim é a negação do espírito carnavalesco.
Se você for corinthiano, não se intimide. O samba é bom – embora a letra seja do crioulo doido, a escola tem boa bateria para animar a folia, e não vai ser difícil decorar o refrão: “Sou Gavião no corpo e na alma / Vem da arquibancada a minha raiz / Fantástico é ser Fiel / E nesse meu país / Alvinegro é mais feliz”.

Um enredo abstrato, Fantástico, enlouquece os torcedores do Corinthians nos ensaios da Gaviões

O enredo abstrato, Fantástico, enlouquece os torcedores do Corinthians nos ensaios da Gaviões

A Acadêmicos do Tatuapé escolheu um enredo que promete encerrar com chave de ouro o primeiro dia de desfiles, no amanhecer de sábado, 6 de fevereiro: um tributo a Joãosinho Trinta. “João, valeu! Na avenida brilha um sonho seu…”
A bem da verdade, o enredo é uma exaltação à escola de samba Beija-Flor, do Rio de Janeiro.
Mas fazendo justiça, surpreendentemente rara no mundo do samba carioca, a escola da Zona Leste de Sampaulo destaca no enredo o inventor – de fato – da escola fluminense de Nilópolis. Não é exagero dizer que ninguém sabia que a Beija existia antes do pequeno gênio maranhense a “inventar”, lhe dar personalidade e títulos.
A Tatuapé vai passear por esses desfiles memoráveis. Inclusive pelo célebre carnaval de 1986, O Mundo é uma Bola, quando a Beija encarou a maior tempestade que já desabou sobre a Sapucaí, sem perder o ritmo e a animação: Foi isso que entendi ao ouvir um verso do samba enredo que canta “deixa a chuva cair, deixa a bola rolar”.
É, junto com o da Dragões da Real, na minha opinião, talvez o melhor samba paulistano de 2016, com pegada para acontecer na avenida.
Pena a hora do desfile, seis da manhã, com as arquibancadas já esvaziadas…
Seus ensaios acontecem às terças, quintas e sábados. Adoro quando saem da pequena quadra, sob o viaduto Antônio Abdo, no bairro que batiza a escola, para sambar  pelas ruas em seu entorno.
Vá de refrão na ponta da língua: Bate no peito, diz quem é… Tatuapé / Sua garra, luxo e esplendor / A energia da comunidade / Inspiração na Beija-Flor”.

Na quadra da Tatuapé, Joãosinho Trinta e a Beija-Flor inspiram os ensaios

Na quadra da Tatuapé, Joãosinho Trinta e a Beija-Flor inspiram os ensaios

A Unidos do Peruche, campeã do grupo de acesso em 2015, abre o segundo dia de desfiles, às dez e meia da noite de sábado, 6 de fevereiro.
A escola que tem as cores do Brasil – verde, amarelo, azul e branco – vai cantar os cem anos do samba na avenida.
Eu gosto muito de frequentar a quadra – que não é miúda, mas tem um quê de intimista – sempre lotada. Talvez pela alegria animada de seus componentes apaixonados.
A Peruche vai cantar os cem anos do samba. Com uma boa melodia, mas uma letra confusa…
Os ensaios acontecem aos domingos e o refrão, anota aí: “Firma o pandeiro e o tan tan / Tem samba até de manhã / E a nação perucheana faz a festa / O meu batuque ecoou, um lindo canto de amor / A filial chegou”.

Cem anos de samba inflamam a quadra da Peruche

Cem anos de samba inflamam a quadra da Unidos do Peruche

Detalhe: As quadras da Unidos do Peruche e da Mocidade Alegre são vizinhas, coladas, na cabeceira do lado bairro da Ponte do Limão. Acho que é caso único no universo das escolas em todo o Brasil. Como se não bastasse, o enredo das duas, este ano, canta a história do samba – ambas fazendo referência, por exemplo, à Praça Onze carioca. Nos ensaios, quando uma sai para treinar seus componentes pelas ruas vizinhas, a outra tem que maneirar a bateria. Não é louco?

A Império da Casa Verde também optou por um enredo abstrato: Império dos Mistérios.
Gosto muito da “Caçula do Samba”, como é conhecida a escola da Avenida Engenheiro Caetano Alvares (pontilhada de barzinhos transados que a alçaram a point boêmio da Zona Norte).
Em janeiro de 2005, eu vivia por lá, cantando o Brasil do enredo Se Deus é por Nós, quem será contra Nós: “Sou mais você Brasil / Ó pátria mãe gentil / Esculturada por nosso Senhor / Terra do samba e do amor”. Sou pé quente. A Império foi campeã pela primeira vez. E repetiu o feito em 2006.
Dia desses, encontrei o multi vitorioso (pela Rosas e pela Gaviões) carnavalesco Jorge Freitas, num hot dog em frente à quadra, em noite de ensaio. Ele está estreando na escola da Casa Verde.
Perguntei-lhe o que pretendia contar na avenida com esse enredo abstrato, a que mistérios ele se referia, “À esperança pelo que há de vir”, ele respondeu.
Eu citei o samba enredo, de 1978, da União da Ilha carioca, sucesso retumbante na voz de Simone:Como será o amanhã / Responda quem puder / O que irá me acontecer / O meu destino será como Deus quiser”
E Jorge respondeu: “Exatamente”!
A avenida dirá o que será…
O certo é que a letra fala de Eldorado, de Atlântida…
Os ensaios acontecem às quintas e sábados (começam tarde, lá pra meia noite!).
E o refrão do samba se canta assim: Diga onde andará… nosso jardim / Paraíso a encontrar… riqueza sem fim”.

Os ensaios da Império da Casa Verde tentam decifrar Mistérios

Os ensaios da Império da Casa Verde tentam decifrar Mistérios

A Acadêmicos do Tucuruvi, escola do mítico Seu Jamil (que foi o jeito encontrado para facilitar o nome de seu presidente, Hussein Abdo El Selam) e do carnavalesco maranhense Wagner Santos.
A religião também é enredo, com As Festas de Fé. Um enredo feito sob medida para a escola que, há alguns poucos anos, apresentou um desfile encantador, cantando os festejos de São Luís do Maranhão.
A Tucuruvi jamais conquistou o título, mas se mantem sempre no grupo principal.
A quadra, na distante Vila Mazzei, aos pés da Serra da Cantareira, realiza ensaios aos sábados. Que, por ordem de Seu Jamil, acabam cedo. Pela distância, só fui lá uma vez e mal cheguei, acabou. Portanto, vá cedo e chegue com o refrão decorado: “No caminho “padin ciço”/ O círio de Nazaré / Ó senhora aparecida / Abençoa quem tem fé”.

As Festas da Fé animam os foliões nos ensaios da Tucuruvi

As Festas da Fé animam os foliões nos ensaios da Acadêmicos doTucuruvi

A Mocidade Alegre tem uma história curiosa.
Causou sensação logo que chegou ao grupo especial, no início da década de setenta. Naquela época, sua ala de compositores foi presidida por um mito do samba carioca, o portelense Candeia. E foi tricampeã logo na chegada (antes da Beija-Flor repetir esse feito, no Rio).
Sua quadra passou a ser conhecida como Morada do Samba.
E a Mocidade permaneceu na crista, influenciando o mundo das escolas de Sampaulo, até 1980.
Para cair num relativo ostracismo de onde emergiu, triunfante, no carnaval dos 450 anos de Sampaulo, em 2004.
De lá para cá, nada menos do que seis títulos de campeã – e alguns vice-campeonatos – a alçaram ao panteão das maiores entre as grandes escolas de samba da cidade.
A meu ver, graças à liderança carismática de sua presidente, Solange Bichara. E ao talento – que muitas vezes me lembra Joãosinho Trinta, mais do que qualquer carioca – do carnavalesco Sidnei França.
Desfiles como o que trazia como enredo nada mais do que O Espelho e o que tratava das Ilusões foram obras primas inesquecíveis.

Marília Pera homenageada pela Mocidade em 2015

Marília Pera homenageada em 2015

Ano passado, a escola desfilou uma belíssima homenagem à diva Marília Pera.
Este ano, a Mocidade canta os cem anos do samba, como sua vizinha de quadra Peruche. Só que, para isso – como fazia o gênio Joãosinho, diga-se – lança mão de um personagem mítico, Ayo.
Como time que está ganhando ganha também torcedores, a Morada do Samba é das quadras mais inflamadas nos ensaios – que acontecem às sextas e domingos.
Quanto ao samba, eu gosto, mas não me encanta como melodia. Tem uma pegada mais marchinha, acelerada. Mas a letra tem potencial para pegar no Sambódromo do Anhembi e, se o visual e a evolução da escola ganhar as arquibancadas, vai ter mais troféu para levar pra casa.
Apesar da lotação, vale a muvuca. Mas vá com o refrão do samba de cor e salteado: “Quando cresci fiz escola / Sou raiz, tenho história / E o povo aclamou / Ôôôô… É a força de Ayo / No Ylê da Mocidade o samba chegou!”

A Mocidade Alegre celebra 100 anos de samba sob as bênçãos de Ayo

A Mocidade Alegre celebra 100 anos de samba sob as bênçãos de Ayo

E aproveite, dia 30, sábado – uma semana antes do desfile, acontece a tradicional feijoada da Mocidade Alegre. Com direito a muito batucar da bateria.

A grande icógnita (pelo menos a minha grande dúvida) em relação ao desfile da Vai Vai é se a pegada política do título do enredo sobre Paris – Je suis Vai Vai – chegará à avenida.
O samba não faz referência à ameaça à liberdade perpetrada pelos atentados parisienses, preferindo brindar com champagne, se encharcar de perfumes e se cobrir com a alta moda sob a torre Eiffel.
E o desfile? Vai desperdiçar a oportunidade de citar Charlie Hebdo e os atentados de novembro?
Quanto à quadra da Saracura – apelido da Vai Vai entre seus íntimos, não existe! É lamentável que uma escola de samba tão renomada ainda não tenha tratado de oferecer o conforto e a segurança de uma quadra minimamente decente a seus componentes e fãs, à dignidade de sua história.
Os ensaios rolam na rua, chova ou faça lua. No caso de janeiro, sempre copioso, o risco é grande (se bem que eu estive lá no domingo passado e o tempo estava pra lá de perfeito; torneiras do céu fechadas e temperatura amena, amena…).
Sim, os ensaios acontecem aos domingos. E também às terças e às quintas.
O samba não chega nem perto do acerto do tributo a Elis Regina do ano passado que trilhou uma apresentação emocionante na avenida.  Antes de ir, aprenda o refrão pontuado de galicismos: “Mon Amour / A voz do povo é quem diz / Sou raça sou raiz / Há tantos carnavais / Je Suis Vai Vai”.

Cantando os encantos de Paris, a folia invade as ruas do entorno da Vai Vai

Cantando os encantos de Paris, a folia invade as ruas do entorno da Vai Vai

A penúltima escola de samba de Sampaulo a desfilar este ano é a Dragões da Real, representando a torcida organizada tricolor do São Paulo (a Mancha Verde, dos palmeirenses, foi rebaixada no ano passado).
Numa certa medida, o enredo retoma o tema de mistério da Império da Casa Verde. Só que o mistério, neste caso, é representado pelo ato de presentear. O que é que eu vou ganhar de presente. E olha que tem até presente de grego…!
É abstrato? É…
A quadra também fica na beira da Marginal do Tietê e, que alívio, tem valet.
Não é grande – como a da Águia de Ouro, um pouco adiante. Nem inexistente, como a da Vai Vai. Mas é confortável.
O samba enredo, na minha opinião de desafinado, é muito bom e a bateria está bem afiada.
Os ensaios rolam às quintas e sábados. E o refrão para levar decorado é: “Nossa história o amor revela / A surpresa chegou, é ela! / Um mesmo ideal, brilhar no carnaval / .Dragões da Real”.

Na quadra da Dragões da Real, a gandaia é descobrir o que eu truxe pra voce

Na quadra da Dragões da Real, a gandaia é descobrir o que eu truxe pra voce

X9 Paulistana. Taí uma escola com a qual simpatizo.
Pensando bem, tirando a Imperatriz Leopoldinense carioca – a da fase excessivamente técnica da carnavalesca Rosa Magalhães – e meu desgosto com as escolas futebolísticas – que se refere ao conceito em si, não aos sambistas, todas tem seu appeal particular.
A décima escola da Zona Norte de Sampaulo é a última a desfilar, ufa!
E traz um enredo exaltação ao Açaí. Bem adequado à reposição de energia depois de vinte horas de espetáculo, coincidindo com o amanhecer do domingo de carnaval.
O samba enredo cita – e não teria como ser diferente – os índios da Amazônia, passeia por Belém do Pará e participa do Círio de Nazaré (já vimos esta celebração na Tucuruvi).
O desfile é patrocinado por uma marca muito popular da bebida e, nos ensaios, costuma haver fartura do energético natural.
A ampla quadra – nenhuma Vila Maria, mas também confortável – fica num beco às margens da Avenida Luís Dumont Vilares.
E a folia acontece às quartas, sextas e domingos.
Vá de refrão em punho, digo, na língua para soltar o gogó: “X-9 é amor verdadeiro / Sempre em primeiro lugar / A “energia” do meu samba vem aí / Tá na boca o sabor do açaí.

No embalo do Açaí, o povp se joga na quadra da X9

No embalo do Açaí, o povo se joga na quadra da X9

Como eu disse láááá no início, o carnaval taí. Se jogue nessa gandaia porque depois disso tem um ano inteiro pela frente.

Um ano que promete emoções pouco festivas enquanto aguardamos o retorno de Momo e o que esses artistas maiores da brasilidade irão aprontar em 2017.

Bom carnaval para todos!

 

Resumo dos Ensaios:

z

post it

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *