Tributos à Memória

É recente, historicamente falando, a inquietação com os métodos de conquista que consumaram a ocupação de territórios ao longo do tempo.

Hoje, o movimento da história do Brasil conhecido como Entradas e Bandeiras é polemizado. Pela sanha com que impuseram a civilização ocidental aos indígenas. Mas os bandeirantes já foram heróis unânimes da brasilidade. Graças a eles, os europeus (nós – ou o que, no fim das contas e a grosso modo somos) se impuseram. Fincaram, mata adentro, as estacas da cerca que definiu as fronteiras do continente Brasil. Dizimar bugres era missão heroica. Borba Gato, Raposo Tavares, Fernão Dias e Bartolomeu Bueno – o Anhanguera (não por coincidência, as grandes rodovias que partem de Sampaulo, interior adentro, foram batizadas em seu tributo), entre muitos outros, foram e ainda são personagens maiores do panteão de fundadores da pátria.

Eu acho fora de propósito julgar o passado com valores contemporâneos. Considero que os bandeirantes mereceram esses louvores, se considerarmos a cultura do tempo em que viveram. Já imaginou se nos arvorarmos a enviar os césares, Alexandre da Macedônia, Gengis Khan ou Átila ao Tribunal de Haia?

O Brasil sempre associou os bandeirantes a Sampaulo. Até porque daqui saiu a quase totalidade das campanhas de desbravamento e conquista. E Sampaulo sempre se orgulhou muito desses antepassados que se embrenharam desconhecido adentro para nos garantir a unidade territorial do quinto maior país do mundo.

Nosso palácio do governo é Palácio dos Bandeirantes. O hino do estado canta “a terra sem fronteiras, o São Paulo das Bandeiras”!  E não lhes faltam tributos espalhados pela capital. Entre os quais, pelo menos dois monumentos notáveis: a extraordinária escultura às Bandeiras – na extremidade norte do Parque do Ibirapuera – e a, digamos, “inusitada” estátua de Borba Gato – no final da Avenida Santo Amaro.

victor brecheret, monumento às bandeiras-003

A primeira é obra de um dos grandes artistas paulistanos – naturais ou adotivos. Italiano emigrado ainda criança, Victor Brecheret tem muitas belíssimas obras espalhadas por Sampaulo.  Os túmulos emocionantes de Olívia Penteado (no Cemitério da Consolação) e da Família Scuracchio (no Cemitério São Paulo) estão entre elas. Além das duas Graças (I e II) na Galeria Prestes Maia e da Diana, no hall do Teatro Municipal, do lado oposto à bilheteria, na entrada do café decorado pelos irmãos Campana..

Túmulo de Olívia Penteado, da família Scuracchio, as duas Graças e Diana. Tesouros de Sampaulo

Túmulo de Olívia Penteado, da família Scuracchio, as duas Graças e Diana. Tesouros de Sampaulo

O Monumento às Bandeiras, mais conhecido por aqui como Empurra-Empurra – ou Vai Levando, é o mais vigoroso deles. Merece um lugar entre os monumentos mais expressivos do mundo. E vale a volta completa, para desfrute de todos os ângulos, em torno da praça elíptica que o abriga. Para adolescentes, é quase irresistível galgá-lo. Fiz isso mais de uma vez, até alcançar o interior do barco de pedra que compõe o conjunto. Não sei se é permitido ou mesmo recomendável em função da preservação de sua integridade. Mas que era um desafio sedutor, isso lá era. Ainda está por merecer iluminação decente (se bem que isso aumentava a excitação da sua escalada noturna, tirando proveito das sombras para “fazer o que não deve”…). De dia, entretanto – e se houver sol, então – o Empurra-Empurra exubera.

Detalhes do Monumento às Bandeiras

Detalhes do Monumento às Bandeiras

Já a estátua de Borba Gato…

Sem palavras...

Sem palavras…

zzzzzborba2Usa-se traduzir kitsch do inglês como brega em português. O Aurélio incorpora a palavra a nossa língua e a define como o que “apela para o gosto popular”. Pois pense numa imagem tosca, enorme, do bandeirante ilustre apoiado numa espingarda, recoberto por mosaico de pastilhas. Sem contar um cubo complementar que fica um pouco arredado, atrás do bandeirante. Um estupor! Em tamanho reduzido, num canto mais sombrio, ninguém estranharia encontrar essa estátua no mesmo jardim em que reinassem estatuetas coloridas de anões e cogumelos.

Volto a Victor Brecheret para louvar um segundo monumento de que gosto muito em Sampaulo. É a estátua equestre ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Isabel, no muito antigamente requintado bairro dos Campos Elísios, região central da cidade, hoje celebrizado pela deprimente Cracolândia.

O Duque de Caxias, cavalgando a uma altura de doze andares

O Duque de Caxias, cavalgando a uma altura de doze andares

No que pese as árvores serem sempre muito bem-vindas, não o são no entorno do altíssimo monumento a Caxias. Elas nos impedem de admirá-lo decentemente; as copas não deixam, principalmente se estivermos passando de carro no entorno da praça. Tem-se que estar a pé, chegar muito perto e, como o conjunto todo equivale

Almoço com o governador Ademar de Barros, na barriga do cavalo recém fundido

Almoço com o governador Ademar de Barros, na barriga do cavalo recém fundido

a um prédio de doze andares (!), o que se consegue ver é a barriga do cavalo.

É tão alto que perdemos a dimensão do tamanhão. Para se ter uma ideia, quando ficou pronto, usaram o interior do torso, a barriga do cavalão, para montar uma mesa de banquete onde cinquenta autoridades e artesãos confraternizaram. Tenho um amigo cujo avô participou da fundição da estátua, no Liceu de Artes e Ofícios.

Detalhes da base do pedestal

Detalhes da base do pedestal

Mas o que gosto mesmo nesse monumento é do pedestal, ou melhor, das quatro cenas escultóricas que cercam sua base – também mal e parcamente visíveis à distância. Reproduzem passagens da vida do general do Império: Pacificação (Caxias fala às mulheres do Rio Grande do Sul), Reconhecimento do Humaitá (Caxias e seus generais), Batalha de Itororó (Caxias declara: “que me sigam os que são brasileiros”) e Enterro de Caxias. Nessas cenas, brilha a arte genial de Victor Brecheret.

Que pena o monumento estar tão escondidamente mal localizado. Quando o artista venceu o concurso internacional para confecção da obra, a promessa era instalá-la no Vale do Anhangabaú. Tudo a ver. Se bem que eu soube que existe a intenção (do candidato a candidato a prefeito, Andrea Matarazzo) de transferi-lo para a Avenida Dom Pedro, no trecho descampado da extremidade oposta ao Museu do Ipiranga, iniciando larga alameda que se chamaria Esplanada da Pátria. Pelo menos no que diz respeito à visibilidade, seria um ganho e tanto para a obra.

Na outra extremidade dessa esplanada, ainda aqui em baixo, antes do Parque e do Museu da Independência, fica o exagerado “bolo de noiva” repleto de atavios do Monumento ao grito do Ipiranga, túmulo de Dom Pedro. Muita gente gosta de coisas assim, desencontradamente rebuscadas. Não eu. Mas, desaire por desaire, também não me aprazem alguns monumentos icônicos como a Torre Eiffel ou a Estátua da Liberdade. Embora reconheça que impuseram sua fealdade ao ponto de se fazerem imprescindíveis. A gente se acostuma com tudo, mesmo. Até a comer farofa (e chega a sentir falta de sua farinhice empirãozando um feijão caldento).

É natural que uma Sampaulo tenha centenas, milhares de marcos que intentem trazer à memória fatos ou personagens notáveis. Ou apenas espalhar beleza por aí. Em parques, praças, cantos e, até, n’alguns retornos da cidade. De bustos a desvarios arquitetônicos. As estações de metrô, por exemplo, são pródigas em presentear a cidade com obras de arte.. Isso, desde a Praça da Sé pioneira. A maioria é bem legal e louvável é o esforço – e a sensibilidade – dos que decidiram salpicar nossa vida com essas pitadas de emoção, em pleno corre-corre urbano. Nos ilustram e instigam as multidões de passantes.

Arremato minha seleção de prediletos com um terceiro monumento. Desta feita, uma obra desafetada, mas expressiva, de outra grande artista adotada pela cidade: o Monumento à Imigração Japonesa, de Tomie Ohtake.

O mar oceano de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.

O mar oceano de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.

Fica adequadamente localizado, no canteiro central da Avenida 23 de Maio, quase embaixo do Centro Cultural Vergueiro e do bairro oriental da Liberdade. É passagem e se presta para ser visto de passagem. Melhor ainda se for no sentido do centro para o bairro. O grande mar oceano, de Tomie Othake. Ode à imigração japonesa.Diferente dos outros já mencionados, este é abstrato. Mas lembra ondas que trazem de longe. Pena que esteja sempre tão maltratado, descuidado e com a pintura descascada, comprometendo a beleza. As formas são tão niponicamente elegantes, entretanto, que dá para perceber que não se trata de um monturo de concreto curvo. Só não vá conhecê-lo à noite, pois a iluminação elétrica ainda não chegou ali de maneira conveniente.

Tomie Ohtake tem outras obras em exposição pública na cidade. Uma singela homenagem a Pietro Maria Bardi, no Memorial da América Latina, lembra um trampolim com pirueta (tanto que caberia também como preito a atletas de saltos ornamentais). Na Cidade Universitária tem outro trabalho dela que também remete a esportistas olímpicos, os velejadores (ou a uma pequena capela; como não tem título…). E o boas vindas que nos acolhe, em vermelho dramático, no hall do Auditório Ibirapuera.

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Não longe do monumento à imigração japonesa, a meio caminho entre ele e o monumento às Bandeiras de Brecheret, o desgosto me instiga a falar da homenagem a Airton Sena, sobre a entrada do túnel batizado com o nome do corredor. O que é aquilo? Tá certo, eu sei que pretendia ser um carro de corrida. Depois do acidente, né?

Ahhh, é claro que aprecio o imponente Obelisco (quando visto do alto da Avenida 23 de Maio, então…) e a expressiva – embora discreta – homenagem aos Mortos da Ditadura, do filho de Tomie Othake, Ricardo, ambos também no Parque do Ibirapuera.

blog-da-alice-ferraz-exposicao-portinari-1De volta ao Memorial da América Latina, gosto da Mão, de Oscar Niemeyer, que sempre me traz à ideia o título de um livro do uruguaio Eduardo Galeano, “As Veias Abertas…”. Fica pertinho do trampolim em homenagem a Bardi, no meio das sempre impactantes e belas obras esculturais com que Niemeyer embelezou Sampaulo. Como o icônico edifício Copan e as construções espalhadas pelo parque do Ibirapuera (eita, virou um de lá pra cá entre o parque que exubera verde e o memorial descampado, estorricantemente despido de qualquer vestígio de vegetação…).

E tem um banco de bronze, OLYMPUS DIGITAL CAMERAbanco mesmo, destes de sentar, na frente do Centro Cultural Banco do Brasil, no lado Rua da Quitanda, que me lembra uma cama e faz de conta que está apoiado numa pilha de livros.
Não chega a ser um monumento no sentido monumental da palavra. Mas é de uma graça (e tão oportuno naquele emaranhado de ruas sem sequer uma beira de calçada onde tomar assento para descansar) …

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