Prateleira de Cântaros III (o pão nosso de cada dia, nos dai hoje)

Trocar o turbilhão urbano pelo cheiro de mato dos arrabaldes da paulicéia, fugir da rotina por um dia, é um programa bem paulistano. Pelo terceiro post consecutivo, mergulhamos num domingão assim, desfrutando o arredor norte de Sampaulo, a Serra da Cantareira.

Durante séculos, o leva-e-traz de riquezas atravessou essas encostas no lombo das coitadas das mulas. Quando o fôlego pedia pausa, os tropeiros paravam em abrigos onde cântaros – daí, Cantareira – com água, dispostos em prateleiras, proviam higiene e refresco para recuperar energia.

Reabastecer. É isso que vamos fazer no post de hoje. À mesa! Chegou a hora de comer.

Depois da missa matinal na Abadia beneditina de Santa Maria e da caminhada pelas trilhas do Horto Florestal, chegamos ao meio do dia com a alma leve e o corpo cansado. Bateu a maior fome e, agora, é tratar de almoçar nas redondezas.

São duas as opções que proponho aos leitores. Uma gourmet, mais requintada, sob medida para os mais exigentes – e abonados. Outra, gourmande, farta, para os glutões. Vejamos esta, primeiro, já que os gulosos são também mais apressados.

Saindo do parque, se tomamos a Estrada de Santa Inês, poucos quilômetros depois da Estação de Tratamento de Água da Sabesp chega-se ao surpreendente O Velhão. No caminho, há um trecho bem fugaz de onde se pode apreciar o gigantismo da metrópole, à distância, já meio que do alto. Pena não haver um mirante onde se deter e observar com mais vagar. É uma espiadela só, de passagem. Quem viu, viu. Se não, é esperar pela volta.

#pitoresco é um hashtag que cai como uma luva para classificar o O Velhão: divertido, recreativo, graciosamente original, imaginoso…

O lugar foi criado por Moacyr Archanjo. Assim mesmo, Moacyr com y (para ser diferente). E Archanjo com ch arcaico de archipélago e architectura. Estava predestinado a mexer com velharia, no exercício da restauração.

Já na década de setenta, não havia demolição em que Moacyr não fosse o primeiro a chegar para arrematar os rescaldos. De telhas a portas, de pisos a atavios esculturais da arquitetura, passando por vitrais, madeirames nobres, tijolos singulares…

Em 1980, estabeleceu-se na Cantareira, à beira da Estrada de Santa Inês, na divisa entre os municípios de Sampaulo e Mairiporã. Montou oficina de recuperação desses materiais. E passou a atender ali a clientela de arquitetos que vendia rastros de tradição à elite paulistana.

O sucesso exigiu espaço cada vez maior e o crescimento ia obedecendo ao acaso. Moacyr buscava no próprio estoque o material usado nas ampliações. Um pátio central foi preservado para estacionamento da freguesia. Em seu entorno se edificavam salas, salões e galpões com matéria prima reciclada. Os prédios se espalharam como labirintos. O resultado remete a um vilarejo europeu, encarapitado numa encosta.

Os telhados do "complexo" de lazer gastronômico O Velhão

Os telhados do “complexo” de lazer gastronômico O Velhão

Na década de 90, alguns dessas extensões conjugadas foram adaptados para receber um restaurante, batizado de As Véia. A cozinha, até hoje sob o comando de Iracema, mulher de Moacyr, preparava comida caseira de raiz, com inspiração caipira. Panelas de ferro e fogões a lenha arremataram a ambientação do lugar.

Lojinhas de um tudo margeiam a entrada do restaurante As Véia

Lojinhas de um tudo margeiam a entrada do restaurante As Véia

Variedade de opções e fartura, servidos no sistema de bufê a preço fixo – e popular – fizeram o sucesso e a fama do Velhão.

Hoje o lugar é administrado por Bira, filho do casal. E já incorporou um sem número de atrações. Lojas de arte e artesanato, café, floricultura, bar de sinuca, cachaçaria, antiquário, sebo especializado em vinil, capela, uma pizzaria que só funciona à noite, além do restaurante sempre lotado nos finais de semana, com capacidade para mais de 500 pessoas em diversos ambientes, sempre originais na ambientação – inclusive ao ar livre.

O olhar, aqui, não tem sossego

O olhar, aqui, não para quieto….

... diante de tanta informação diversiclada.

… diante de tanta informação diversiclada.

Os vários bufês frios e quentes são tentadores e exagerar é quase inevitável. Das muitas opções de saladas a dezenas de sobremesas (cobradas à parte, pelo “prato cheio”, como anunciam). Passando por peixes, aves e todo tipo de mamífero comestível guisado, assado e frito, além de massas e churrasqueira de grelhados (inclusive cebolas e abacaxis embrulhados em alumínio dos quais eu, particularmente, sou freguês). Fora os acompanhamentos! Uma exorbitância que faz a festa dos comilões mais insaciáveis.

Se o olhar não descansa, imagine a boca. Começando pelas saladas...

Se o olhar não descansa, imagine a boca. Começando pelas saladas…

... passando pelos pratos de resistência...

… passando pelos pratos de resistência…

... até chegar às sobremesa.

… até chegar às sobremesas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Você já entendeu que não se trata de alta gastronomia, mas a comida é honesta e o serviço é acolhedor e eficiente.

Já para um almoço mais, digamos, exclusivo, opção imbatível é o Quinta da Canta (Canta, no caso, é o apelido carinhoso com que os donos do lugar tratam a Cantareira).

Fica um pouco mais longe e, para chegar lá, a mesma Estrada de Santa Inês que leva ao Velhão pode ser o caminho. Mas eu prefiro seguir outra rota, com tráfego menor, mais rústica – embora também pavimentada, com trechos em que as copas do arvoredo se fecham em túnel sobre o caminho: a Avenida Senador Joé Ermírio de Moraes. Deixe a Estrada de Santa Inês – e uma eventual parada no Velhão, para fuçar as lojinhas e o antiquário (e, quem sabe, mais um cafezinho) – para a volta.

Antes de virar restaurante nos fins-de-semana, o gostoso chalé do Quinta da Canta era o refúgio na serra de Sérgio e Tereza, um casal de publicitários paulistanos. Ali refastelavam amigos com os dotes culinários do marido. Esses convivas privilegiados convenceram-nos a ampliar a prazerosa prerrogativa de poucos.

A entrada do Quinta da Canta, Sérgio & Tereza e sua aconchegante cozinha

A entrada do Quinta da Canta, Sérgio & Tereza e sua aconchegante cozinha

O Quinta da Canta segue à risca a “doutrina” gastronômica do slow food. Sabe as praças de alimentação de shopping, o fast food vapt-glupt, vulgo bandeco? É o oposto.

Prepare-se para uma tarde inteira de degustação de muitos pratos, todos preparados com esmero, servidos sem pressa. Entre uma atração e outra do menu, pratica-se o convívio, aprecia-se a beleza do vale sobre o qual se debruça a casa e até se estica a perna de vez em quando, em passeios pelos jardins bem cuidados, pela horta, pela capela, pelo entorno da piscina, pela biblioteca…

Almoço, aqui, é sempre muito bem acomodado

Almoço, aqui, é sempre muito bem acomodado

O menu varia, de acordo com a inspiração de Sérgio e a sua colheita semanal nas feiras e mercados. Não há cardápio de opções, mas uma sucessão de pratos no estilo degustação dos restaurantes de alta gastronomia.

Pmix zode começar com uma sopa fria, um gaspazzo acolhedor de boas-vindas. Mas um shot, na verdade, não mais que um gole.

Seguido de um tiquinho a mais de sustança: couvert de pãezinhos assados no fogão de lenha – acompanhados de pesto de manjericão com tomate seco, manteiga aromatizada com mostarda e azeite com alecrim e pimenta rosa. O apetite lapidado ao longo do caminho começa a se animar…

Depois, espaguete de palmito pupunha banhado em molho de beterraba (com acertada redução de aceto balsâmico) e pequenas fatias de abacaxi caramelado – num domingo recente, esse prato trazia o confeito granulado de flor de sal trufada. Bem gostoso. Cresce a animação pelo que há por vir.

E vêm raviolinhos de surubim servidos com manteiga de sálvia e alho negro. Outro gol de Sérgio.

Antes de um momento confort food, que é uma denominação americana para comida-de-avó: carne seca desfiada com viradinho de bananas e crocante de couve mineira. Crocante mesmo, delicioso.

As porções são pequenas. Mas isso já não inquieta. Entendemos o espírito da coisa. A longa sequência justifica a parcimônia de cada etapa.

O ambiente e a sucessão de acepipes pedem vinho para alinhavar o repasto. A carta do Quinta não é extensa. Caso se prefira levar a própria garrafa, o restaurante cobra a rolha para servi-la, segundo Sérgio, de acordo com as instruções do cliente.

A refeição passa por saborosa terrine de frango com damasco, acompanhada de salada de verduras, tomate cereja e queijo de cabra – ou figo caramelado, antes de chegar ao primeiro prato. Sim, Sérgio tem a petulância de chamar de primeiro o de fato quinto ou sexto.

No caso, um brandade de bacalhau com crisp de alho poro. Dessalgado além da conta, na minha opinião de subvertor das boas práticas vascular-coronárias.

E não. Ainda não acabou. Um cozido de cubos de cordeiro com molho espesso de especiarias indianas e iogurte, acompanhado de arroz com amêndoas, arremata o banquete memorável.

Que nada! Tem a sobremesa… Que pode ser uma  torta de chocolate, um strudel de maçã…. E um brinde digestivo com ótimo Calvados da Normandia.

O almoço artesanal preparado por Sérgio e os cuidados atenciosos de Tereza exigem reserva com antecedência. Quando ligar para agendar, peça-lhes que explique direitinho como chegar. É complicado como um esconderijo deve ser. Mas não desista no caminho. É confuso, a chegada é inacreditável, mas vale a pena. Ao entrar no Quinta da Canta a gente esquece as tribulações do percurso e relaxa completamente, entregue aos encantos do lugar e às gentilezas dos anfitriões.

E assim, bem nutrida, a tarde míngua relutando em tomar o caminho de volta.

Para quem vive o lufa-lufa de Sampaulo, um dia destes na Serra da Cantareira, em simbiose com a natureza, funciona como recreio. Tocou o sinal de volta à classe, fazer o que? Tem que largar a brincadeira, a merenda, respirar fundo e voltar ao batente.

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4 ideias sobre “Prateleira de Cântaros III (o pão nosso de cada dia, nos dai hoje)

  1. Meu caro Fábio.
    Ficamos emocionados com o que você disse sobre o nosso pequeno refúgio na Serra da Cantareira. Se nos permite, vamos tirar um cópia, enquadrar e colocá-la na parede para que nossos clientes também se deliciem, não com o que voce escreveu sobre o QdC, mas como escreveu : esse texto apetitoso que não dá vontade para de ter e emendar com outras matérias como a do convento das beneditnas, tão lindo, tão perto da gente.
    Obrigado pela colher de chá, Nelson, e agradecemos também a Deus por nos dar o prazer de conhecer você. Volte sempre. A casa é sua.
    Feliz Fim de Ano.
    Teresa e Sergio Lima

  2. Uau, Fábio, você consegue a façanha de aguçar todos os sentidos em seus textos! Senti gostos (também sou adepta fervorosa do abacaxi assado e/ou grelhado), cheiros – das cozinhas e das matas – ouvi pássaros , toquei texturas várias e vi paisagens se descortinarem à minha frente. Viva você, Fábio! E vivamos nós para curtir, apreciar, degustar ou apenas saber da existência de coisas tão boas e belas!

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