Paixão é Tudo

Ano novo… Vida nova! A renovação está no ar. É tempo de promessas. Parar de fumar, emagrecer, poupar… Realizar pendências da vontade, quereres postergados.

Dizem que querer é poder. Será? Basta querer?

Não. Para fazer acontecer, querer não basta. Essa é mais uma balela criada pelos auto-ajudantes, provedores de muletas. Apenas suprem nossos fracassos com desculpas, tipo não quisemos o bastante. E cevam de empáfia os bem-sucedidos. Lembra Jânio, o Quadros, e seu célebre arroto : fi-lo porque qui-lo?

Prefiro embarcar na poesia de Fernando Pessoa: quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer.

O que tudo pode é a PAIXÃO. Paixão é Fé. Cega. É acreditar sem titubeios. É ansiar pelas delícias do destino onde se quer chegar sem ainda ter estado lá. E encarar o percurso com destemor. Como o genovês que enfrentou o Atlântico desconhecido numa casca de noz que eram as caravelas para fazer redondo o mundo. Pense no que Colombo aguentou de bullying antes de convencer a rainha Izabel a arcar com os custos de sua PAIXÃO…

Voltando – sempre – a Fernando Pessoa; tudo vale a pena se a alma não é pequena. E grandes almas seguem a PAIXÃO.

Elis Regina foi uma das arquitetas que desenhou o meu ser. Durante a minha construção, lá atrás, enquanto eu adolescia, ela cantava a fogueira das paixões (de Serginho Natureza e Tunai): os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague

É a esse incandescer que eu me refiro quando falo de PAIXÃO. Para alcançar o inatingível, dele há de se necessitar. Como do ar, para respirar.

O querer oferece alternativas e prêmios de consolação que à PAIXÃO não suprem. Para o querer, criou-se o “plano de cargos e salários”… O querer descarta a perfeição e diz coisas do tipo “o importante é colocar o web site no ar, depois vamos fazendo os ajustes”, ou “livro bom é livro publicado” (reconhecendo, com submissão, que perseguir o ótimo é condenar os originais à gaveta).

O que não falta, em Sampaulo, é gente que quer. Os recrutadores de RH, cautelosos que são, preferem-nos aos apaixonados. Ao longo da vida, cumprirão seus horários à risca, farão o que se espera deles, não decepcionarão. Tampouco surpreenderão. Conquistarão aposentadoria e descansarão em paz. O lugar comum esconjura os apaixonados.

Apesar disso, é PAIXÃO o que desejo aos meus leitores em 2016 e ahead.

Porque os que querem são necessários, mas só os apaixonados são imprescindíveis. São nossos faróis, inventam o futuro e fazem Sampaulo ser o que é. Surpreendente.

É gente da estirpe de Renato Ratier. Não é a toa que o cara afirma, do alto de seus dois metros, que gosta mesmo é de idealizar. Para mim, idealizar é não se contentar com menos do que o ideal. É encarar riscos como estorvos, não como ameaça. Com desdém. Com ímpeto criativo e realizador. Porque toda a energia está concentrada no chegar lá e que se danem os percalços do caminho.

Renato Ratier, o DJ idealizador da D-Edge, melhor balada das américas e uma das mais conceituadas do mundo

Renato Ratier, o DJ idealizador da melhor balada das Américas e uma das mais celebradas do mundo

Na virada do milênio, Renato saiu de seu Mato Grosso do Sul e se mandou, de mala e cuia, para conquistar Sampaulo. Deixou para trás o vasto rebanho de sua família pecuarista. Na bagagem, trouxe a PAIXÃO.

Já era DJ, experimentado em sua própria balada campo grandense.

Em 2003 abriu mais do que a melhor casa de música eletrônica de Sampaulo. Criou uma referência de excelência – logo reconhecida como uma das melhores do mundo. Fui um dos devotos pioneiros do fenômeno. A D-Edge virou meu vício. Meu e de uma legião de seduzidos pela qualidade incomparável do club. Do som, tão perfeito que não parecia entrar pelos ouvidos, mas vazar, da alma para fora, por todos os poros, onde quer que estivéssemos (até nos banheiros). E a luz!?!? Lisérgica… Sabe aqueles leds com listinhas de luz que dançam nos aparelhos de som, traduzindo em grafismo o ritmo do áudio? As paredes em nossa volta eram todas assim, cobertas de leds que obedeciam as pickups do DJ em ação. Delas, vinha praticamente toda a luz ambiente. A-lu-ci-nan-te.

D-Edge por fora e por dentro, referência de excelência em balada

D-Edge por fora e por dentro, referência de excelência em balada

É assim que se manifesta a PAIXÃO empreendedora do party animal – que é como Renato se define. Não lhe basta um som, mas o som. Se não existir, ele explica direitinho como deve ser e… Inventem-no. E a luz tem que pirar à altura.

A D’Edge catapultou a carreira de seu DJ proprietário. Ele e a casa viraram assunto e capa das grandes publicações do universo clubber, no mundo inteiro. Na mão inversa, os top DJs de todo o planeta cobiçavam as pick-ups da casa, ansiavam pelo convite para integrar o line up do club no bairro da Barra Funda, ao lado do Memorial da América Latina. Renato Ratier botou Sampaulo no mapa-mundi da música eletrônica.

De lá pra cá, o lugar passou por uma grande reforma, cresceu, sem perder um tiquinho sequer de seu extraordinário appeal. E gerou crias produtivas: uma agência de DJs (D-Edge Agency) e a label (D-Edge Records). Juntas, lançaram um disco – Brazilian Gigolo – que está impulsionando a carreira de DJs brasileiros pelo mundo.

DJ de agenda lotada, workaholic de trabalhar dezoito horas por dia, todo dia (sem abrir mão do convívio com os filhos), dono de balada de – muito – sucesso (sem contar os filhotes em Santa Catarina e Berlin), tipo vida ganha e… de repente, um burburinho começou a se propagar. Renato Ratier estava aprontando novidade. Novidades, no plural. Duas longas gestações, com parto quase concomitante. De uma tacada o moço virou restauranteur e baixou um estilista no cara.

Renato Ratier, quase dois metros de estilo a serviço da moda urbana e descolada

Renato Ratier, estilista idealizador de moda urbana e descolada

Até os vinte, vinte e tantos anos, eu não ligava para roupa. Vivia absolutamente à margem do universo fashion. A moda não me dirigia a palavra e eu não dava a menor bola para ela. Até um dia em que descobri o gênio criativo de um outro Renato, o Kherlakian. Sua marca, a Zoomp, foi a primeira a falar comigo, na língua da minha alma. Eu tinha o que? 25 ou 26 anos. Virei habitué e freguês da loja pioneira, no Shopping Eldorado (eu trabalhava do outro lado da Avenida Euzébio Matoso, na MM Propaganda, de Marcelo Magalhães). Dia sim e no outro também eu ia lá só para checar se havia novidade na vitrine.

A Zoomp, aquela Zoomp nascente (antes das muitas franquias cederem às pressões pasteurizantes do mercado), foi meu único caso de amor incondicional com a moda. Até hoje. É verdade que passei a reparar na pegada e apreciar o talento de outros estilistas. Dos franceses e italianos clássicos aos jovens emergentes, como Pedro Lourenço. Admiração à distância, platônica, sem envolvimento pessoal maior.

Até entrar na nova loja da Ratier, na Alameda Lorena. Descarto os objetos de decoração que remetem aos currais da infância de Renato e que não me fazem a cabeça. E os acessórios – que também não são a minha praia. Mas as roupas, uau, resgataram o encantamento que a Zoomp original me proporcionava. Para começar, embora muitos cabides exibam saias, não existe separação formal entre peças femininas e masculinas. À mulher e ao homem (que se exibem ou escondem em cada cliente), cabe decidir o que convém ao lay-out do seu ser. A alma é urbana e o astral é dark, só que light (encanta tanto na rua quanto na night). Muito preto, chumbo, marrom em diversa matizes, um ou outro off white e, aqui e alí, vermelhos. São roupas com personalidade forte (singeleza, florzinhas, rendas e babados? Na na ni na não!). Cortes inusitados, bom gosto, altivez descontraida de quem diz a que veio, só que sorrindo, bem humorado, se é que você me entende. A Ratier é roupa com cara de Sampaulo.

Loja Ratier na Alameda Lorena - Roupa com a cara de Sampaulo

Loja Ratier na Alameda Lorena – Roupa com a cara de Sampaulo

Ao lado da loja, vizinho colado, Renato inventou o restaurante Bossa. Restaurante e bar. E estúdio musical. Ergueu o surpreendente prédio literalmente do chão, a partir de um projeto de Muti Randolph elaborado sob medida para a alma apaixonada por surpreendências do DJ-dono-de-balada-estilista-restauranteur. Um caixote enorme de madeira que ameaça avançar sobre a calçada Só que as tábuas são tipo escamas, se movem. Brises, na linguagem arquitetônica. Simples que só. Mas impactante.

Renato Ratier, restauranteur idealizador do Bossa

Renato Ratier, restauranteur idealizador do Bossa

Lá dentro, descontração sofisticada. O bar – à direita – e o restaurante do outro lado. Em cima, o estúdio. Entre eles, uma cinematográfica escada em caracol, fincando um círculo espiralado em meio à geometria angular do espaço. Pra lá de bacana. Dois detalhes: Um móvel com fundo de espelho, anos 50 (?) na frente do bar e as cadeiras que remetem aos anos dourados do design brasileiro de móveis (Joaquim Tenreiro, Sérgio Rodrigues…).

A fachada do Bossa, o salão, o chef William Ribeiro e a vista para o interior a partir do estúdio musical

A fachada do Bossa, o salão, o chef William Ribeiro e a vista para o interior a partir do estúdio musical

Antes de matar a fome, deixe-se aguçar o apetite com as ótimas invenções do barman, sorry, mixologista Ricardo Basseto. O Garota de Ipanema é ótimo. O Spicy Tonic é chocante. O Dry Martini é perfeito.

Quanto à comida…

Conheci o talento culinário do chef William Ribeiro quando ele mandava – bem – na cozinha do seu Pote do Rei, vizinho do festejado Maní. Na época, 2009 ou 2010, ele foi reconhecido pela Vejinha como Chef Revelação de Sampaulo. Lá, seu cordeiro com polenta branca me encheu o paladar de prazer.

Renato Ratier o contratou em 2012, depois de jantares de degustação privativos. E o manteve com salários em dia durante mais de dois anos enquanto fazia, desfazia e refazia a obra até ficar do jeito perfeito que sua PAIXÃO exigia. Adiando e protelando e transferindo a abertura até inaugurar o Bossa, já neste 2015 que se esvai.

mixOs pasteizinhos de carne picada na faca, de entrada, têm massa surpreendente, crocante sem ser esfarelenta, e o recheio temperado com bem-vindo excesso para porções assim, pequenas. Ainda de entrada, os discos de tapioca são releitura dos já clássicos dadinhos do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. E fazem jus ao original, embora falte um que de acidez ao mel apimentado que o acompanha. Os espetinhos de quiabo… o que é aquela farofinha extraordinária que acompanha? Diz o chef que é feita de uma castanha rara da qual não me recordo o nome. Vou perguntar-lhe quando voltar lá para poder catar um punhado delas no comércio, embora desconfie que não vai ser num pão de açúcar que as vou encontrar.

Boas, as entradas. Que venham os principais.

Começo pela massa, comme-il-faut.

O penne al limone flerta com a perfeição. Acertar a medida ideal de limão num molho cremoso é atestado de sabedoria culinária. Sendo assim, William é sábio. É pouso notável para os camarões e a maçã verde salteados, as ovas e o endro aromatizando tudo. Bravo!

A barriga de porco pururuca, enrolada para parecer um medalhão, com o couro crocante, a carne macia e a banha beira fusão, irrepreensível. Chega deitado em leito de rúcula, arrematado por alho assado, cebola confitada e limão cravo para espremer sobre o todo Dois a zero, chef!

Já a carne de sol de mignon prometia nordestes. Estava correta, vá lá… Mas o purê de mandioca era de fato uma mousseline e como tal deveria ser nomeada no cardápio. O vinagrete de feijão fradinho em volta… que dó do fradinho, tadinho, tolinho de tão sem graça.

Dois a um é vitória e leva três pontos no campeonato. Mas não é goleada. E, quer saber, depois daqueles dinques, instalado em ambiente tão encantador, ganhar por qualquer placar já está de bom tamanho.

Quanto às sobremesas, vá de cocada de forno com sorbet de limão e pedacinhos de manga. Se for fã de romeu e julieta, pode ir de cheesecake líquido que, no fundo no fundo, é um romeu e julieta em traje de gala.

Vale à pena? Só vale! Pela jovialidade do lugar que incita à alegria, pela boa comida (se não justifica fogos de artifício, longe está de merecer lamentações), pelos ótimos beberes, pelo encantamento… E pelo preço, bem razoável, mais em conta do que muitas casas do mesmo padrão na região. O Bossa é sofisticado, sim, mas não é pretencioso. E não desaponta.

Neste verão que mal começa, Renato Ratier vai juntar suas três crias – D-Edge, Ratier e Bossa – no que periga se transformar no hot point do engatinhar de 2016. No exíguo quintal comum à loja e ao restaurante, nas noites de fim-de-semana, vai rolar o Raw Room. A prévia que antecedeu o Natal reuniu um animado grupo de descolados sampaulistanos que ferveram sob o comando do dono e de DJs convidados. Tem tudo para bombar.

Que Renato Ratier e suas adoráveis conquistas sampaulistanas nos sirvam de inspiração para esta virada.

Viva 2016! E Feliz PAIXÃO para todos!

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7 ideias sobre “Paixão é Tudo

  1. Fabão, fico querendo estar mais vezes em Sampa, os textos são maravilhosos mas acho que tens que deixar alguma coisa para teus leitores descobrirem por si só.
    Bom era o tempo que não tínhamos GPS e nos era permitido “nos perder por aí” e sempre descobríamos alguma coisa nova inusitada.

    • Taí uma questão que também me coloco, Alexandre, se não seria melhor deixar detalhes a serem descobertas pelos leitores. Daí as métricas da internet me revelam que mais da metade dos que me acompanham, post após post, o fazem de fora de Sampaulo. Do Rio, de Curitiba, de Porto Alegre, de Recife… Até da Indonésia! E me escrevem dizendo que meus artigos lhes permitem percorrer Sampaulo à distância. Entendo que isso só é possível quando embarcam no meu observar detalhado. Não achas? Em dois meses, já tenho posts com mais de 1.500 curtidas! No blog, são 650! Muitos já demonstram fidelidade que me emociona. É trabalhoso esmiuçar assim os assuntos. Mas o retorno me anima. Obrigado, Alexandre, por tuas observações atentas. E Jussara?

  2. Paixão é TUDO!! Seu texto mexeu comigo to começo ao fim. Lembro-me como se fosse ontem quando tinha apenas 16 anos e consegui o meu primeiro emprego como vendedora da loja ZOOMP no Q!Bazar em Sampaulo! Nunca vou me esquecer do começo da minha jornada nessa vida que é, sem dúvida, movida a PAIXAO! Uns acham que somos loucos, outros acham que somos perdidos..é uma penam que não entendam que somos APAIXONADOS! Apaixonados pela vida, que é bonita, é bonita e é bonita!! Muito obrigada por seguir a sua paixão e inspirar-nos diariamente.

  3. Teus relatos mexem com a alma, fico inquieta, quero conhecer cada um dos cantos por ti visitados. Chega a ser provocador. Eita vontade de estar em São Paulo.

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