De um tudo

Adoro lojas que vendem de um tudo, batizadas universalmente pelos franceses de bric-à-bracs. Me encantam desde a infância. Eram mais comuns. Pelas mãos de mamãe, ainda lá na minha São Luís do Maranhão natal, eu não recusava um bater de pernas por estabelecimentos assim. Eu fugia de idas às compras de roupas, sapatos, mercearias, às Pernambucanas escolher tecidos… Mas loja de variedades era comigo mesmo. Eu viajava na descoberta de um mundo de possibilidades ao passear do olhar por suas prateleiras…

Estão na gênese dos grandes magazines como as Americanas e os afamados Harrod’s – de Londres, Galleries Lafayette – em Paris, Bloomingdale’s e Macy’s nova-iorquinos. Como essas lojas de departamentos foram precursores dos shopping centers, deduz-se que essas catedrais consagradas às compras, palácios de sedução consumista, cidadelas acuadas pelos rolezinhos em verão recente, também descendem dos bric-à-bracs.

No formato ancestral, aqui em Sampaulo, esse tipo de comércio sobrevive no entorno de mercados populares e na periferia, distante dos eixos de compra e à mão da vizinhança. Ou no comércio focado em miscelânea oriental, na Liberdade – e agora também, ainda timidamente, no Bom Retiro, habitat paulistano de novas levas de imigrantes coreanos.

Mas essas lojas que vendem de um tudo estão começando a dar sinal de vida também em bairros mais nobres. Neste caso, seus estoques não são amealhados por proprietários insensíveis, mas selecionados por verdadeiros curadores.

São meu destino predileto para as compras de presentes de Natal.

Como a deliciosa Coisas da Dóris, no início da subida da Alameda Ministro Rocha Azevedo, no hypado Jardins. O nome meio que traduz, bem humorado, a alma feminina que seleciona o estoque de boas surpresas. O site dá uma idéia do que se encontra por lá. Ainda que, pelo próprio conceito do lugar, não se compare a ficar zanzando pela loja, fuçando, descobrindo encantos. Que vão de objetos de decoração divertidos e diferenciados – como a atraente gama de puxadores para gavetas e portas ou a grande variedade de belos espelhos de parede – até brinquedos e gadgets de uso pessoal com pegada vintage.

Encantos com alma feminina na Casa da Doris

Encantos com alma feminina na Casa da Doris

Mais perto do centro, na Rua Avanhandava – adotada pelo chef Walter Mancini como endereço de seus vários restaurantes, bem no meio da curva, fica a escada da Calligraphia. A loja, aberta até altas horas, tem um pé no exótico com lampejos de fascinação. A intenção seria focar em material para artes com papel. Inclusive extraordinários acessórios japoneses para dar forma à imaginação do artista que se esconde dentro do cliente. Mas vai muito além disso. Viaja. Vende desde sinetes para timbres em lacre (daqueles que vemos em filmes, usados por nobres antigos para marcar e lacrar sua correspondência com seus brasões) – que hoje podem sofisticar envelopes de convites de casamento com as iniciais dos noivos, por exemplo – até bengalas de todos os estilos, das mais singelas às que arrotam requinte. Passando por bijuterias, chapéus, objetos de design sedutor… E até um lúdico cavalo de carrossel antigo – em tamanho original, com entalhes de adornos reluzentes.

Fantasia, sedução e magia nos objetos da Calligraphia

Fantasia, sedução e magia nos objetos da Calligraphia

Em Pinheiros, ao lado da mega livraria FNAC e seus muitos andares de tentações, meio que se espreme a 62 Graus. Na entrada, máxima provocante de Oscar Wilde: a única coisa necessária é o supérfluo. São coisinhas cativantes, muitas delas fruto de esmerada artesania, presentinhos de conquistar gratidão enternecida, além das boas guloseimas de sua lanchonete-café, no que pese seu cardápio já ter oferecido maior variedade de opções.

Na 62 Graus, originalidade com uma pegada mais artesanal

Na 62 Graus, originalidade com uma pegada mais artesanal

Ainda bem que essas três opções de bric-à-bracs de produtos transados sobreviveram a outras quatro das quais sinto muita saudade. A Benedixt, a Boris & Natasha, a Amor de Madre e a Loja do Bispo. Esta última era definida pelo brilhante Xico Sá como uma loja que transitava “na contramão da caretice”. Um slogan que cai como luva a qualquer desses três baús de tesouros remanescentes.

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Agora, se o shopping lhe for inevitável, passe ao menos diante da vitrine de uma Imaginarium. Poucos desses templos de consumo não têm uma loja da rede para chamar de sua. É a versão linha de montagem / tocentas franquias das visitadas acima.

Outra boa opção de compra nessa época de exercitar o presentear são os bazares de natal. São dezenas, talvez centenas desses eventos de consumo pop-upando por toda a cidade. Alguns permitem aos artífices alternativos fechar as contas do ano; outros, filantrópicos, promovem doações a entidades de benemerência. Tudo a ver com o espírito natalino…

Entre os bazares que negociam a produção artesanal, destaco dois aos quais sempre recorro quando começo a ouvir o jingle bells:

O Panaceia, no meca-bairro dos artesãos, a Vila Madalena. São três andares atulhados com uma miríade de tentações. Destaco os terrariums, que são a nova febre decorativa entre os modernos e os alternativos sampaulistanos. Reproduzem, em recipientes de vidro, verdadeiros cenários cheios de ludicidade, onde se sobressaem fungos e pequenas plantas compondo arremedos florestais. Além de belas velas com estampa de animais capturados no universo da fantasia, roupas de pequenas confecções da região, brinquedos e uma grande variedade de objetos.

A criatividade dos artesãos da Vila Madalena se reune no Bazar Panaceia

A criatividade dos artesãos da Vila Madalena se reune no Bazar Panaceia

Não longe dali, na Rua Joaquim Antunes, em Pinheiros, o Bazar do Juju, é iniciativa semestral de Jujú Flores, criador de surpreendentes e sedutoras luminárias de papel pergaminho, e da tecelã de panos em lãs e linha – irresistíveis da gente querer se enrolar, Helena Watanabe. Além de seu próprio trabalho, reúnem a lavra de amigos. Entre os quais destaco o trabalho de um artista plástico de grande talento, o publicitário Maurício Barone. Mas atente para os horários. O bazar só funciona de quinta a domingo (até o dia 20), das duas da tarde às nove da noite.

O artesão de luminárias Juju Flores comanda o Bazar do Juju

O artesão de luminárias Juju Flores comanda o Bazar do Juju,

com obras do artista plástico e publicitário Maurício Barone

com obras do artista plástico e publicitário Maurício Barone.

Quanto aos bazares filantrópicos,

imagesSou habitué da Feira da Escandinávia, há anos…. Costumava acontecer no início de dezembro, sempre no Clube Pinheiros. Mas, este ano, rolou em novembro. Gosto tanto que decidi indicá-lo como alternativa para as compras natalinas de 2016. Durante dois dias, as dependências do clube, vizinho ao Shopping Iguatemi, se transforma num grande hipermercado de produtos nórdicos. Tudo com preços tentadores. E com direito a restaurante de culinária viking e barraca de comidinhas. Caviar, queijos, pescados do mar do norte, bebidas, artesanato, cristais e utilidades de belo design escandinavo são disputados por milhares de compradores nos pavilhões da Suécia, da Noruega, da Finlândia, da Dinamarca, dos Brinquedos…. Uma festa do consumo. Com renda em benefício da Associação Beneficente Escandinava Nordlyset que financia diversos projetos brasileiros de promoção social.

Feira da Escandinávia - Ponto de encontro anual com os melhores produtos do norte da Europa

Feira da Escandinávia – ponto de encontro anual com o norte da Europa

Já o InBazar rola no Natal e em outras datas promocionais do ano. Agora em dezembro, até o dia 23, acontece no espaço da antiga livraria, vizinha do A Varanda, na cabeceira do lado do Morumbi da Ponte Cidade Jardim. Reúne lojistas, muitos deles estabelecidos em shopping centers de prestígio de Sampaulo. Eles oferecem uma infinidade de produtos – principalmente roupas, acessórios, maquiagem e perfumaria. A vantagem é o preço, muito mais em conta. E o ingresso são doações em alimentos não perecíveis e roupas jeans usadas que nesta edição serão destinados às famílias vítimas da tragédia de Mariana e à Associação Florescer da favela de Paraisópolis.

Produtos de shopping a preço de bazar, no InBazar

Produtos de shopping a preço de bazar, no InBazar

Bazares e bric-à-bracs diferenciados como estes têm múltiplo condão. Primeiro, o de transformar as compras natalinas em obrigação prazerosa, diferenciada do consumo habitual. Segundo, a oportunidade de descobrir – e encantar a si e a seus presenteados – com novidades que fogem do lugar comum. Terceiro, a excitante garimpagem de preços surpreendentes, ótima relação custo/benefício, incluindo algumas verdadeiras pechinchas. E, quarto, cumprir o ritual de presentear com originalidade, revelando seu bom gosto descolado.

Boas compras de Natal!

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4 ideias sobre “De um tudo

  1. Ler sampaulodelapraca,tornou-se um habito para mim!Ler Fabio Gomes é algo muito especial.E’ viajar sem sair de casa,é sentir o gosto de suas comidinhas,o cheiro das flores,e de tudo o mais que ele descreve.Paulistana,me dei conta que estou conhecendo São Paulo,muito melhor agora!
    Fabio,escritor de mão cheia,merece todo o sucesso do mundo!

    Obrigada!!Sua coluna é um presente para mim!

    .

  2. Adorei as dicas, já to chegando aí .
    Tudo em São Paulo é surpreendente quando acha que já conhece tudo, a gente lê seus posts e descobre um mundo de coisas incríveis
    obrigada por me dar mais motivos pra eu ir a Sampa

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