Paixão é Tudo

Ano novo… Vida nova! A renovação está no ar. É tempo de promessas. Parar de fumar, emagrecer, poupar… Realizar pendências da vontade, quereres postergados.

Dizem que querer é poder. Será? Basta querer?

Não. Para fazer acontecer, querer não basta. Essa é mais uma balela criada pelos auto-ajudantes, provedores de muletas. Apenas suprem nossos fracassos com desculpas, tipo não quisemos o bastante. E cevam de empáfia os bem-sucedidos. Lembra Jânio, o Quadros, e seu célebre arroto : fi-lo porque qui-lo?

Prefiro embarcar na poesia de Fernando Pessoa: quem quer nunca há de poder, porque se perde em querer.

O que tudo pode é a PAIXÃO. Paixão é Fé. Cega. É acreditar sem titubeios. É ansiar pelas delícias do destino onde se quer chegar sem ainda ter estado lá. E encarar o percurso com destemor. Como o genovês que enfrentou o Atlântico desconhecido numa casca de noz que eram as caravelas para fazer redondo o mundo. Pense no que Colombo aguentou de bullying antes de convencer a rainha Izabel a arcar com os custos de sua PAIXÃO…

Voltando – sempre – a Fernando Pessoa; tudo vale a pena se a alma não é pequena. E grandes almas seguem a PAIXÃO.

Elis Regina foi uma das arquitetas que desenhou o meu ser. Durante a minha construção, lá atrás, enquanto eu adolescia, ela cantava a fogueira das paixões (de Serginho Natureza e Tunai): os corações pegam fogo e depois não há nada que os apague

É a esse incandescer que eu me refiro quando falo de PAIXÃO. Para alcançar o inatingível, dele há de se necessitar. Como do ar, para respirar.

O querer oferece alternativas e prêmios de consolação que à PAIXÃO não suprem. Para o querer, criou-se o “plano de cargos e salários”… O querer descarta a perfeição e diz coisas do tipo “o importante é colocar o web site no ar, depois vamos fazendo os ajustes”, ou “livro bom é livro publicado” (reconhecendo, com submissão, que perseguir o ótimo é condenar os originais à gaveta).

O que não falta, em Sampaulo, é gente que quer. Os recrutadores de RH, cautelosos que são, preferem-nos aos apaixonados. Ao longo da vida, cumprirão seus horários à risca, farão o que se espera deles, não decepcionarão. Tampouco surpreenderão. Conquistarão aposentadoria e descansarão em paz. O lugar comum esconjura os apaixonados.

Apesar disso, é PAIXÃO o que desejo aos meus leitores em 2016 e ahead.

Porque os que querem são necessários, mas só os apaixonados são imprescindíveis. São nossos faróis, inventam o futuro e fazem Sampaulo ser o que é. Surpreendente.

É gente da estirpe de Renato Ratier. Não é a toa que o cara afirma, do alto de seus dois metros, que gosta mesmo é de idealizar. Para mim, idealizar é não se contentar com menos do que o ideal. É encarar riscos como estorvos, não como ameaça. Com desdém. Com ímpeto criativo e realizador. Porque toda a energia está concentrada no chegar lá e que se danem os percalços do caminho.

Renato Ratier, o DJ idealizador da D-Edge, melhor balada das américas e uma das mais conceituadas do mundo

Renato Ratier, o DJ idealizador da melhor balada das Américas e uma das mais celebradas do mundo

Na virada do milênio, Renato saiu de seu Mato Grosso do Sul e se mandou, de mala e cuia, para conquistar Sampaulo. Deixou para trás o vasto rebanho de sua família pecuarista. Na bagagem, trouxe a PAIXÃO.

Já era DJ, experimentado em sua própria balada campo grandense.

Em 2003 abriu mais do que a melhor casa de música eletrônica de Sampaulo. Criou uma referência de excelência – logo reconhecida como uma das melhores do mundo. Fui um dos devotos pioneiros do fenômeno. A D-Edge virou meu vício. Meu e de uma legião de seduzidos pela qualidade incomparável do club. Do som, tão perfeito que não parecia entrar pelos ouvidos, mas vazar, da alma para fora, por todos os poros, onde quer que estivéssemos (até nos banheiros). E a luz!?!? Lisérgica… Sabe aqueles leds com listinhas de luz que dançam nos aparelhos de som, traduzindo em grafismo o ritmo do áudio? As paredes em nossa volta eram todas assim, cobertas de leds que obedeciam as pickups do DJ em ação. Delas, vinha praticamente toda a luz ambiente. A-lu-ci-nan-te.

D-Edge por fora e por dentro, referência de excelência em balada

D-Edge por fora e por dentro, referência de excelência em balada

É assim que se manifesta a PAIXÃO empreendedora do party animal – que é como Renato se define. Não lhe basta um som, mas o som. Se não existir, ele explica direitinho como deve ser e… Inventem-no. E a luz tem que pirar à altura.

A D’Edge catapultou a carreira de seu DJ proprietário. Ele e a casa viraram assunto e capa das grandes publicações do universo clubber, no mundo inteiro. Na mão inversa, os top DJs de todo o planeta cobiçavam as pick-ups da casa, ansiavam pelo convite para integrar o line up do club no bairro da Barra Funda, ao lado do Memorial da América Latina. Renato Ratier botou Sampaulo no mapa-mundi da música eletrônica.

De lá pra cá, o lugar passou por uma grande reforma, cresceu, sem perder um tiquinho sequer de seu extraordinário appeal. E gerou crias produtivas: uma agência de DJs (D-Edge Agency) e a label (D-Edge Records). Juntas, lançaram um disco – Brazilian Gigolo – que está impulsionando a carreira de DJs brasileiros pelo mundo.

DJ de agenda lotada, workaholic de trabalhar dezoito horas por dia, todo dia (sem abrir mão do convívio com os filhos), dono de balada de – muito – sucesso (sem contar os filhotes em Santa Catarina e Berlin), tipo vida ganha e… de repente, um burburinho começou a se propagar. Renato Ratier estava aprontando novidade. Novidades, no plural. Duas longas gestações, com parto quase concomitante. De uma tacada o moço virou restauranteur e baixou um estilista no cara.

Renato Ratier, quase dois metros de estilo a serviço da moda urbana e descolada

Renato Ratier, estilista idealizador de moda urbana e descolada

Até os vinte, vinte e tantos anos, eu não ligava para roupa. Vivia absolutamente à margem do universo fashion. A moda não me dirigia a palavra e eu não dava a menor bola para ela. Até um dia em que descobri o gênio criativo de um outro Renato, o Kherlakian. Sua marca, a Zoomp, foi a primeira a falar comigo, na língua da minha alma. Eu tinha o que? 25 ou 26 anos. Virei habitué e freguês da loja pioneira, no Shopping Eldorado (eu trabalhava do outro lado da Avenida Euzébio Matoso, na MM Propaganda, de Marcelo Magalhães). Dia sim e no outro também eu ia lá só para checar se havia novidade na vitrine.

A Zoomp, aquela Zoomp nascente (antes das muitas franquias cederem às pressões pasteurizantes do mercado), foi meu único caso de amor incondicional com a moda. Até hoje. É verdade que passei a reparar na pegada e apreciar o talento de outros estilistas. Dos franceses e italianos clássicos aos jovens emergentes, como Pedro Lourenço. Admiração à distância, platônica, sem envolvimento pessoal maior.

Até entrar na nova loja da Ratier, na Alameda Lorena. Descarto os objetos de decoração que remetem aos currais da infância de Renato e que não me fazem a cabeça. E os acessórios – que também não são a minha praia. Mas as roupas, uau, resgataram o encantamento que a Zoomp original me proporcionava. Para começar, embora muitos cabides exibam saias, não existe separação formal entre peças femininas e masculinas. À mulher e ao homem (que se exibem ou escondem em cada cliente), cabe decidir o que convém ao lay-out do seu ser. A alma é urbana e o astral é dark, só que light (encanta tanto na rua quanto na night). Muito preto, chumbo, marrom em diversa matizes, um ou outro off white e, aqui e alí, vermelhos. São roupas com personalidade forte (singeleza, florzinhas, rendas e babados? Na na ni na não!). Cortes inusitados, bom gosto, altivez descontraida de quem diz a que veio, só que sorrindo, bem humorado, se é que você me entende. A Ratier é roupa com cara de Sampaulo.

Loja Ratier na Alameda Lorena - Roupa com a cara de Sampaulo

Loja Ratier na Alameda Lorena – Roupa com a cara de Sampaulo

Ao lado da loja, vizinho colado, Renato inventou o restaurante Bossa. Restaurante e bar. E estúdio musical. Ergueu o surpreendente prédio literalmente do chão, a partir de um projeto de Muti Randolph elaborado sob medida para a alma apaixonada por surpreendências do DJ-dono-de-balada-estilista-restauranteur. Um caixote enorme de madeira que ameaça avançar sobre a calçada Só que as tábuas são tipo escamas, se movem. Brises, na linguagem arquitetônica. Simples que só. Mas impactante.

Renato Ratier, restauranteur idealizador do Bossa

Renato Ratier, restauranteur idealizador do Bossa

Lá dentro, descontração sofisticada. O bar – à direita – e o restaurante do outro lado. Em cima, o estúdio. Entre eles, uma cinematográfica escada em caracol, fincando um círculo espiralado em meio à geometria angular do espaço. Pra lá de bacana. Dois detalhes: Um móvel com fundo de espelho, anos 50 (?) na frente do bar e as cadeiras que remetem aos anos dourados do design brasileiro de móveis (Joaquim Tenreiro, Sérgio Rodrigues…).

A fachada do Bossa, o salão, o chef William Ribeiro e a vista para o interior a partir do estúdio musical

A fachada do Bossa, o salão, o chef William Ribeiro e a vista para o interior a partir do estúdio musical

Antes de matar a fome, deixe-se aguçar o apetite com as ótimas invenções do barman, sorry, mixologista Ricardo Basseto. O Garota de Ipanema é ótimo. O Spicy Tonic é chocante. O Dry Martini é perfeito.

Quanto à comida…

Conheci o talento culinário do chef William Ribeiro quando ele mandava – bem – na cozinha do seu Pote do Rei, vizinho do festejado Maní. Na época, 2009 ou 2010, ele foi reconhecido pela Vejinha como Chef Revelação de Sampaulo. Lá, seu cordeiro com polenta branca me encheu o paladar de prazer.

Renato Ratier o contratou em 2012, depois de jantares de degustação privativos. E o manteve com salários em dia durante mais de dois anos enquanto fazia, desfazia e refazia a obra até ficar do jeito perfeito que sua PAIXÃO exigia. Adiando e protelando e transferindo a abertura até inaugurar o Bossa, já neste 2015 que se esvai.

mixOs pasteizinhos de carne picada na faca, de entrada, têm massa surpreendente, crocante sem ser esfarelenta, e o recheio temperado com bem-vindo excesso para porções assim, pequenas. Ainda de entrada, os discos de tapioca são releitura dos já clássicos dadinhos do chef Rodrigo Oliveira, do Mocotó. E fazem jus ao original, embora falte um que de acidez ao mel apimentado que o acompanha. Os espetinhos de quiabo… o que é aquela farofinha extraordinária que acompanha? Diz o chef que é feita de uma castanha rara da qual não me recordo o nome. Vou perguntar-lhe quando voltar lá para poder catar um punhado delas no comércio, embora desconfie que não vai ser num pão de açúcar que as vou encontrar.

Boas, as entradas. Que venham os principais.

Começo pela massa, comme-il-faut.

O penne al limone flerta com a perfeição. Acertar a medida ideal de limão num molho cremoso é atestado de sabedoria culinária. Sendo assim, William é sábio. É pouso notável para os camarões e a maçã verde salteados, as ovas e o endro aromatizando tudo. Bravo!

A barriga de porco pururuca, enrolada para parecer um medalhão, com o couro crocante, a carne macia e a banha beira fusão, irrepreensível. Chega deitado em leito de rúcula, arrematado por alho assado, cebola confitada e limão cravo para espremer sobre o todo Dois a zero, chef!

Já a carne de sol de mignon prometia nordestes. Estava correta, vá lá… Mas o purê de mandioca era de fato uma mousseline e como tal deveria ser nomeada no cardápio. O vinagrete de feijão fradinho em volta… que dó do fradinho, tadinho, tolinho de tão sem graça.

Dois a um é vitória e leva três pontos no campeonato. Mas não é goleada. E, quer saber, depois daqueles dinques, instalado em ambiente tão encantador, ganhar por qualquer placar já está de bom tamanho.

Quanto às sobremesas, vá de cocada de forno com sorbet de limão e pedacinhos de manga. Se for fã de romeu e julieta, pode ir de cheesecake líquido que, no fundo no fundo, é um romeu e julieta em traje de gala.

Vale à pena? Só vale! Pela jovialidade do lugar que incita à alegria, pela boa comida (se não justifica fogos de artifício, longe está de merecer lamentações), pelos ótimos beberes, pelo encantamento… E pelo preço, bem razoável, mais em conta do que muitas casas do mesmo padrão na região. O Bossa é sofisticado, sim, mas não é pretencioso. E não desaponta.

Neste verão que mal começa, Renato Ratier vai juntar suas três crias – D-Edge, Ratier e Bossa – no que periga se transformar no hot point do engatinhar de 2016. No exíguo quintal comum à loja e ao restaurante, nas noites de fim-de-semana, vai rolar o Raw Room. A prévia que antecedeu o Natal reuniu um animado grupo de descolados sampaulistanos que ferveram sob o comando do dono e de DJs convidados. Tem tudo para bombar.

Que Renato Ratier e suas adoráveis conquistas sampaulistanas nos sirvam de inspiração para esta virada.

Viva 2016! E Feliz PAIXÃO para todos!

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É Natal?

O calor chegou a Sampaulo para passar o verão. Então, cadê o Natal que não dá o ar de sua adorável graça?

Detalhe da decoração de Natal do Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana

Detalhe da decoração de Natal do Colégio Arquidiocesano, na Vila Mariana

Tem gente que detesta Carnaval, que trata o próprio aniversário como se não lhe dissesse respeito e… Que não gosta de Natal. Pode?

Não é o meu caso. Acho que tem a ver com a memória, com as recordações que se tem destas datas. Na minha infância, esses três eventos concentrados no quarto estival do ano, foram sempre extraordinariamente felizes. E, portanto, muito bem-vindos.

De bailes a desfiles de escolas de samba, o reinado de Momo sempre foi um mergulho na gandaia com direito a muita fantasia. Só quando virei paulistano, percebi que a contagiante alegria carnavalesca não era unanimidade. Lembro de um argumento dessa aversão que me fez refletir: “felicidade com hora marcada é inconcebível”. Mas logo o descartei. Tanto faz, para mim, planejar o regozijo ou ser pego de surpresa por ele. Desde que me alvoroce os sentidos…

Já o meu aniversário era o dia de assumir o protagonismo, de ser festejado independente de feitos ou conquistas. E não tenho o menor pudor de reconhecer que isso me apraz, sobretudo pela constatação de ser querido, de que importo para os que me importam. Quando isso vem com direito a comida farta, profusão de doces, bolo com velinhas (como elas aumentam em número com o tempo!) e gente querida sorrindo em volta… Festa é festa e adoro ser o motivo da celebração.

Não concordo (não ainda, pelo menos), tampouco, com o sentimento contido numa resposta do extraordinário memorialista Pedro Nava (leiam-no!), à jornalista Leda Nagle, num ancestral Jornal Hoje, da Globo, quando o escritor completava oitenta anos. “Feliz de comemorar oito décadas, Pedro? ”, arguiu a entrevistadora. “Só se eu fosse idiota…”, retrucou o entrevistado. Leda não se deu por vencida: “mas… e a experiência acumulada”? “Experiência, minha filha, é um automóvel com os faróis virados para trás”, Pedro lastimou, lapidando com gênio uma dessas máximas definitivas. Mas essa aflição não me assola. O retrovisor me proporciona o conforto e a segurança de boas memórias e aprendizados. Minhas experiências compensam a “fadiga de material” e agregam motivos de celebração à alegria da data natalícia.

Fachada do Colégio Arquidiocesano, uma das mais tradicionais decorações de Natal de Sampaulo

Fachada do Colégio Arquidiocesano, uma das mais tradicionais decorações de Natal de Sampaulo

Quanto ao Natal, podem me chamar de tolo, ingênuo, exageradamente crédulo e otimista. Mas deixo-me de tal forma contaminar pelo tal do espírito natalino que – no matter what (nem Cunhas, nem Lava-Jatos) – aos primeiros acordes de jingle bells baixa um enternecimento em mim e me dano a sorrir diante do passante mais mal-encarado e a repetir votos de Boas Festas indiscriminadamente. Papais noéis, pinheiros decorados, guirlandas, renas & trenós, neve fake, guirlandas e profusão de lampadinhas faiscantes têm o condão de abduzir minha alma para um universo de magia onde os sentimentos determinantes são fraternidade, comunhão, generosidade…

Minha infância já é cinquentenária. Guardo, dela, o encanto do período natalino. Que começava na montagem do presépio e da árvore. Morávamos no Maranhão e, lá, pinheiros só existiam na imaginação e nas toscas imitações daquele tempo. Mamãe cobria os galhos de verde plástico esfiapado com neve de algodão. Em suas pontas, amarrávamos bolas coloridas e cintilantes. Não é por serem bolas que eram todas redondas. Haviam-nas de todos os formatos. Tinham, em comum, a fragilidade do vidro fininho e algumas quebras eram inevitáveis. Os cordões de lampadinhas piscantes vieram depois, junto com as latas de spray que aposentaram os flocos de algodão.

Árvore de Natal do Ibirapuera, ponto de encontro diário de multidões de paulistanos

Árvore de Natal do Ibirapuera, ponto de encontro diário de multidões de paulistanos

Mais adiante, já na segunda quinzena de dezembro, o bulício se transferia para a cozinha. O peru era decapitado no quintal, depois de ser cevado durante algumas semanas. Antes da faca e do escaldar para retirada das penas, era embebedado. Morria chapadaço, trocando as pernas, para que a carne se mantivesse relaxada e macia, antes de mergulhar no vinha d’alhos. Enquanto muita água dessalgava o bacalhau. Durante dois ou três dias, o aroma dos assados nos incendiava o olfato, enquanto mamãe se trancava para caprichar no embrulhar dos presentes e, assim, preservar a surpresa. A noite da véspera de Natal era só alegria e congraçamento familiar. Com direito a trilha sonora de “noite feliz”, “bate o sino”, “deixei meu sapatinho na janela do quintal”, “anoiteceu e o sino gemeu” e que tais.

Avenida Dom Pedro, no Ipiranga

Avenida Dom Pedro, no Ipiranga

O ritual continuou se repetindo em Sampaulo, até a infância de meus sobrinhos. Com pinheiros de verdade e algumas de minhas primeiras embriaguezes. Essas memórias regam o viço do meu deslumbramento com o Natal, até hoje.

Parque do Trianon. Iluminado, mas fechado à noite

Parque do Trianon

E eis que o Natal se avizinha com um jeitão esquisito. A razão desfia argumentos que vão da lama criminosa de Mariana ao Bataclan dantesco dos jihadistas que negam o Profeta ao invocá-lo. Tudo encharcado pela tormenta de corrupção explícita que não dá trégua, alaga a festa de desesperança e, como na canção de Ney Matogrosso, nos sentimos diante do dilema “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A realidade parece conspirar contra o encantamento natalino. Deixaram o Christmas, mas levaram o Merry embora.

No onjunto Nacional, Natal reciclado com sotaque árabe

No Conjunto Nacional, Natal reciclado com sotaque árabe

Minha Sampaulo, normalmente tão pródiga de cintilância natalina, se comporta com abatimento, às vésperas da grande véspera. A cidadania parece envergonhada até para celebrar o Natal. As ruas mal e mal se aprontaram para a celebração. Mesmo os shoppings parecem acuados. Brilham, ainda, o requinte importado do Iguatemi e a originalidade encantada dos balões, com sagaz aproveitamento do círculo central que atravessa todos os andares do Pátio Higienópolis.

Até os shoppings deram uma maneirada na decoração de Natal. Lembro dos tempos áureos do Iguatemi, quando o grande hall de entrada, entre as rampas, recebia ambientação hollywoodiana (a estação de trens de papais e mamães noel marcou época...). Depois, vieram os anos de exuberância do Morumbi... Que este ano está mais tímido, com contos de fada em quadros cenografados na entrada e ambiente de biblioteca onde os miúdos escrevem cartas para Papai Noel. O ênfase, agora, são pegadas mais infantis e interativas. Como os personagens de Toy Story, no Mooca Plaza, ou as figurinhas de Peppa, em tons pastel no Jardim Sul. O Bourbon, além de um trenzinho, montou um disputado Trenó Simulator. O Metrô Itaquera viaja nos transportes do bom velhinho, com avião, barco, asa delta e o manjado trenó, além de um vagão-teatro de trupes mambembes em que se apresentam espetáculos. O Anália Franco mergulha na magia natalina. O Center Norte apostou num carrossel que é pura sedução. O novo Cidade de São Paulo, na Paulista, iluminou os troncos das ainda jovens árvores no exterior do lado Rua Pamplona e caprichou numa cintilante árvore de Natal azul. O conjunto cenográfico do Vila Olímpia, onde pontifica o pinheiro decorado, é... vai lá... correto. O Pátio Higienópolis mais uma vez surpreende. E encanta com balões natalinos. E o JK seduz com presentes e rosas rubras do designer californiano Jeff Leathan. Que também assina a ambientação do Iguatemi (nota 10 no quesito sofisticação).

Até os shoppings deram uma maneirada na decoração de Natal. Lembro dos tempos áureos do Iguatemi, quando o grande hall de entrada, entre as rampas, recebia ambientação hollywoodiana (a estação de trens de papais e mamães noel marcou época…). Depois, vieram os anos de exuberância do Morumbi… Que este ano está mais tímido, com contos de fada em quadros cenografados na entrada e ambiente de biblioteca onde os miúdos escrevem cartas para Papai Noel. O ênfase, agora, são pegadas mais infantis e interativas. Como os personagens de Toy Story, no Mooca Plaza, ou as figurinhas de Peppa, em tons pastel no Jardim Sul. O Bourbon, além de um trenzinho, montou um disputado Trenó Simulator. O Metrô Itaquera viaja nos transportes do bom velhinho, com avião, barco, asa delta e o manjado trenó, além de um vagão-teatro de trupes mambembes em que se apresentam espetáculos. O Anália Franco mergulha na magia natalina. O Center Norte apostou num carrossel que é pura sedução. O novo Cidade de São Paulo, na Paulista, iluminou os troncos das ainda jovens árvores no exterior do lado Rua Pamplona e caprichou numa cintilante árvore de Natal azul. O conjunto cenográfico do Vila Olímpia, onde pontifica o pinheiro decorado, é… vai lá… correto. O Pátio Higienópolis mais uma vez surpreende. E encanta com balões natalinos. E o JK seduz com presentes e rosas rubras do designer californiano Jeff Leathan. Que também assina a ambientação do Iguatemi (nota 10 no quesito sofisticação).

A Avenida Paulista não é nem sombra do fulgor dos últimos muitos anos. Aquele casarão branco, na esquina da Alameda Ministro Rocha Azevedo, que durante mais de uma década pareceu flutuar fulgurante de encantamento, está abandonado, apagadinho da silva (até tu, Itaú?) O Top Center, sempre esfuziante – mesmo que de gosto duvidoso – recolheu-se ao anonimato. O extinto Banco Real, que transformava o imenso hall da esquina da Rua Itapeva em parque noel-temático, embarcou num Santander de silêncio. E o Center 3? Você viu? Nem eu…. Sobraram a responsabilidade ambiental reciclada do Conjunto Nacional, mais para blue Sherazade discreta do que para Natal exuberante e uma canhestra iluminação de troncos de árvores aqui e ali,  inclusive no Parque Trianon, vulgo Siqueira Campos (se fecha quando escurece, que sentido faz iluminar-se?).

Na Igreja São Luiz Gonzaga, espetáculo Natal Iluminado

Na Igreja São Luiz Gonzaga, espetáculo Natal Iluminado

Na Paulista, digno de nota, só um surpreendente espetáculo de projeções com conteúdo edificante que acontece no interior da Igreja São Luiz Gonzaga, na esquina com a Rua Bela Cintra. As últimas apresentações deste “Natal Iluminado” – que é um sucesso de público, até pela falta de opções – acontecem dia 20, às nove da noite, e dias 21 e 22, às oito e às nove da noite.

Ônibus iluminados circulam magia em Sampaulo

Ônibus iluminados circulam magia em Sampaulo

Fora isso, por lá, só sobra de encantamento a eventual passagem de um ou outro ônibus iluminado para as festas. Tem gente que não gosta dessa novidade natalina. Que a associa com Haddad e, por isso, é contra. Eu não estou nem aí para quem implantou uma boa medida. Seja ciclovia, corredor exclusivo de ônibus ou coletivos iluminados circulando magia pela cidade.

Caravana Coca-Cola, passeando encantamento natalino pela cidade (foto

Caravana Coca-Cola, passeando encantamento natalino pela cidade (foto do site Viagens Cinematográficas)

Se a Avenida Paulista está assim, apagadinha, coitada, imagina os bairros… Além da Árvore de Natal gigante do Ibirapuera que atrai surpreendente multidão e engarrafamento para a região todas as noites – e que cintila Coca-Cola por todos os poros, meio que exagerando na exibição do patrocinador (até a estrela que coroa o pinheirão é sustentada pelo contorno em neon de uma garrafa do refrigerante), destacam-se a caravana da própria marca que circula pela cidade com uma fileira de caminhões bem iluminados e ambientados com temas natalinos. E a surpreendente e encantadora decoração da fachada do Crefisa, na Rua Canadá (quase esquina com a Avenida Brasil). Além da aleia de troncos iluminados da Avenida Dom Pedro, diante do Museu do Ipiranga e… Só.

Diante do Crefisa, na Rua Canadá, um oásis de encantamento interativo para crianças e adultos. Escorregador que sai de pinheiro de Natal, xícaras dançantes, trenó para fotos, cenários nevados...

Diante do Crefisa, na Rua Canadá, um oásis de encantamento interativo para crianças e adultos. Escorregador que sai de pinheiro de Natal, xícaras dançantes, trenó para fotos, cenários nevados…

Até a Rua Normandia, em Moema, que em anos recentes fez até nevar em pleno verão tropical, este ano mal e mal sussurra Feliz Natal a seus transeuntes.

A Rua Normandia já foi assim... ... agora está assim

A Rua Normandia já foi assim…                                       … agora está assim

Há crise, é fato. Mas o sufoco financeiro não me parece ser o único responsável. Falta ânimo moral para nos engalanar. Estamos envergonhados. E o que é pior: não é desgosto pela falta de decoro alheia, deles, dos outros, particularmente dos que exercitam um indecoroso poder ainda que legítimo. Sentimo-nos intimamente desonrados porque fingimos que era exceção uma regra indecente que desde sempre nos tem moldado o caráter nacional. Parafraseando o Dr. Simão Bacamarte, personagem do conto célebre “O Alienista”, de Machado de Assis, “iludíamo-nos pensando que a corrupção era uma ilha num oceano de honestidade e somos acachapados pela constatação de que a honestidade é que, se houver, é a ilha, perdida num oceano de imoralidade”.

Será que finalmente acordamos para a septicemia ética que nos assola? Eita despertar ansietante…!

Quer saber? Acho que qualquer terapia eficiente depende de um diagnóstico assim, cabal. Se for isso, talvez estejamos, finalmente, trocando o remediar pela cura. Que essa esperança ilumine nosso Natal.

Sobretudo, não se deixe abater. Faça como Mário Quintana: “eles passarão, eu passarinho”…E que o jingle de fim de ano da Globo agora seja para valer: “Hoje, é um novo dia, de um novo tempo…”

Feliz Natal para todos!

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