Prateleira de Cântaros I (venha a nós o Vosso reino)

Está mais para arredores do que para subúrbio – embora a periferia já vaze por aquela beirada da cidade, subindo as encostas da Serra da Cantareira. Mas ainda dá para experimentar a sensação de ter caído fora da incessantez (incessante insensatez) urbana quando tomamos o rumo norte de Sampaulo, para muito além do bairro de Santana, depois do Mandaqui, adiante da Vila Nova Cachoeirinha…

Serra da Cantareira - longe daqui, aqui mesmo

Serra da Cantareira – longe daqui, aqui mesmo

É uma escapada bem paulistana, particularmente dos que recorrem ao colo da mãe natureza para compensar nosso destino de crias de estufa.

O nome Cantareira remete aos ancestrais tropeiros que cruzavam a região através de trilhas, com paradas onde se refrescavam com a água armazenada em cântaros dispostos em prateleiras, as cantareiras.

Nosso roteiro, se dominical, começa na missa das nove e meia da Abadia de Santa Maria, no bairro Jardim Tremembé – um pé ainda na periferia urbana, outro na floresta se cerrando. Durante a semana, há de se madrugar; a missa é às sete.

Sou católico. Mas sou também ecumênico. Acredito no Deus do Bem, da Tolerância e do Amor. Meu catolicismo é fruto da minha criação. Da cultura em que se formou minha consciência. Por isso, minha fé no Criador está em casa na liturgia da Igreja Católica. Mas todas as religiões professam a divindade do bem, da irmandade com o próximo, da comunhão fraterna com toda a humanidade. Por isso, sinto-me em sintonia com Deus como visitante em qualquer templo de qualquer credo.

Com esse espírito aberto, portanto, não precisa ser católico praticante para se deixar levar pela magia da celebração gregoriana na abadia, en’cantada pelas monjas beneditinas que tocam a vivenda eclesial. Para os fiéis de qualquer religião, é a oportunidade da comunhão com o divino. Para agnósticos e ateus, vale como espetáculo de índole introspectiva, reflexiva, com direito a condizente trilha sonora.

Mas não vá esperando um templo clássico – seja dos coloniais despojados ou dos barrocamente paramentados. O monastério é arrojado de tão moderno. O contraste entre a exuberância da natureza que abarca a construção e as linhas rigorosamente angulares do concreto aparente não é corriqueiro. Por isso impacta.

O traço do arquiteto é virtuoso. Desenho do alemão Hans Broos. A obra tem quarenta anos, se muito. Antes disso, a abadia ocupava um belo casarão no terreno onde hoje se encontra o Hotel Maksoud, a alguns passos da Avenida Paulista.

O novo monastério da Cantareira exige que se entre na propriedade para perceber sua beleza. Não dá para vislumbrá-la a partir da gasta estradinha que a margeia, do lado de fora do proeminente gradil que a cerca. Não espanta que ninguém das redondezas saiba indicar onde fica, mesmo na vizinhança próxima. Nenhuma placa, nada. Nem tente chegar sem o endereço completo em mãos: Avenida Coronel Sezefredo Fagundes, 4650.

Transposto o portão, tem-se que galgar ladeira um tanto íngreme. Mas relaxe, o carro vai até lá. Recebe-nos uma imagem em mármore de Carrara, a um tempo singela e imponente, de Santa Maria Mestra. É o ornamento solitário da vasta lâmina de cimento cru do paredão frontal.

Abadia de Santa Maria - comunhão inusitada entre a natureza exuberante da Criação e a arquitetura arrojada em louvação ao Criador

Abadia de Santa Maria – comunhão inusitada entre a natureza exuberante da Criação e a arquitetura arrojada em louvação ao Criador

Em horário de missa, entra-se diretamente na capela, através de um átrio que concilia rampa de acesso ao convento e canteiro de espécies quase severas de tão monacais. Mas harmônicas, vivazes, intensas…

Fora do horário litúrgico, o acesso passa pela intimidade da abadia, o que permite conhecer um trecho de sua arquitetura interior. Além de apreciar, no percurso, duas belas imagens em tamanho natural de São Bento e de Santa Escolástica.

O templo não é grande, como se espera de uma abadia. Mas sugere monumentalidade que nos apequena; sem oprimir, pelo contrário, libertando-nos, só que para dentro.

O surpreendente interior do templo da Abadia de Santa Maria

O surpreendente interior do templo da Abadia de Santa Maria

Uma característica diferenciada é a disposição dos ambientes internos da igreja. O espaço inteiro é um cubo alto de vidro e concreto. Uma parede com coisa de uns três metros de altura corta o quadrado transversalmente ao meio, partindo de um dos cantos na direção do outro, percorrendo cerca de dois terços da distância total. Esse muro separador é todo em cimento aparente, estampado com relevos geométricos que remetem, aqui e ali, à simbologia religiosa. O altar ocupa o terço restante onde não há parede entre as duas metades do templo, sendo, portanto, acessível ao louvor e admiração de ambos os lados. Um grande mural de triângulos coloridos com uma plácida imagem tracejada do Cristo é o componente menos austero da ambientação.

De um lado da divisória ficam os bancos onde se acomoda a congregação laica para as celebrações. Do outro, protegidas do olhar forasteiro, ficam as estadelas das monjas, dispostas em fileiras frontais (como as que vemos em filmes que mostram as eleições dos papas, arranjadas na Capela Sistina para receber os cardeais).

Outros detalhes, surpreendentes pela originalidade, acrescentam encantamento à visita: a mesa redonda do altar – com design contemporâneo, o confessionário integrado à estrutura, o Ostensório resguardado num cubículo próprio, no meio da divisória que aparta o ambiente público do monacal e, até, o recipiente de água benta em forma de meia coluna de pedra.

Só me causa estranheza o grande crucifixo pendente. Como a imagem fica voltada para o ambiente das monjas, sobra para os fiéis leigos adorar seu perfil.

Depois da missa, é obrigatória uma visita à lojinha da abadia.

Devo minha descoberta da Abadia de Santa Maria a um delicioso licor de pequi que me foi servido no Restaurante Brasil a Gosto, pela talentosíssima chef Ana Luiza Trajano. Ciosa de seus segredos, ela não me abriu o jogo. Disse apenas que o néctar era feito por monjas, nos arredores da cidade. Busca aqui, fuça acolá, a curiosidade me levou até lá.

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Ótimos licores são produzidos pelas monjas da Abadia de Santa Maria

A lojinha das monjas oferece mais do que os licores que, por si só, já justificam sacar-se o talão de cheques, pois cartões ainda não são aceitos. Sou devoto – com o perdão da eventual heresia – do tal licor de pequi, particularmente depois de um estágio no congelador, quando adquire consistência mais espessa, densa, cremosa. Mas elas produzem outros sabores. O de ervas finas se comporta muito bem como digestivo. E ainda tem de canela, de amêndoas, de café, limoncello…. Sem contar as lindas garrafas de cerâmica, arredondadas, acondicionadas em saquinhos artesanais de algodão. Um requinte!

Biscoitos da Abadia - entre eles, o ótimo Bricelet suiço e o extraordinário Spekulatius natalino

Biscoitos da Abadia – entre eles, o ótimo Bricelet suiço e o extraordinário Spekulatius natalino

Além disso, as monjas beneditinas de Santa Maria fazem biscoitos (meu predileto é um sazonal, o Spekulatius, que só é assado no período pré natalino do Advento).

E inventam peças em mosaico, inclusive mesinhas, bancos, caixinhas, capas de agendas… E cartões caligrafados em nanquim sobre pergaminho (alguns já estão disponíveis, prontos, com reprodução de versículos bíblicos e outras citações, como “a vida é curta demais para ser pequena” ou “Deus te guarde na palma de Sua mão”; mas elas topam manuscrever sob encomenda, inclusive convites).

Sem contar as exuberantes hortaliças orgânicas cultivadas por elas na propriedade… Nunca vi manjericão de folhas tão grandes. O aroma está lá, manjericoneamente intenso. Mas o tamanho sugere a composição de saladas, em pé de igualdade com rúculas e alfaces.

Não há como deixar de se sentir acarinhado pela acolhida sorridente das monjas, quando visitamos a abadia. Encanta-nos sua gentileza receptiva, sua piedosa disposição obreira e o fruto do seu esmerado trabalho artesanal que cumpre, à risca, o lema dos beneditinos: “Ora et Lavora” (Prega e Trabalha, em latim).

A Abadia de Santa Maria é só a largada de uma jornada pela Serra da Cantareira. Um start abençoado.

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No próximo post, continuaremos nossa jornada percorrendo esta verde fronteira serrana, ao norte de Sampaulo.

8 ideias sobre “Prateleira de Cântaros I (venha a nós o Vosso reino)

  1. Amigo, seu texto é saboroso e elegante, artigos raros no dia de hoje. Mas me faça um favor: aquele “incensantez” lá na abertura doeu na minha glândula vernacular, rs.

    • Não é incensantez, Daniel. É “incessantez”. E é proposital. Imaginei, assim, referir-me ao incessante + insensato lufa-lufa urbano. Vc demonstra que não alcancei o objetivo. É no que dá me meter a inventar palavras sem talento pra Guimarães Rosa… Desculpe a agressão glandular. O que vc me recomenda? Corrigir para insensatez ou deixar como está e colocar, entre parênteses, explicando (a incessante insensatez)?

  2. Ah Fabão, arrebataste-me de novo! Minha próxima visita terá de ser mais longa, com tempo e tranquilidade suficientes para fazermos esse passeio lindo … o lugar é belíssimo, o canto gregoriano encantador, e as garrafas de licor … irresistíveis! Adorei …

  3. Não sei o que é mais bonito, o passeio à abadia que eu já fiz ou sua narrativa do lugar . Acho que eles se somam e agora acho esse passeio mais encantador ainda .
    I L❤️VE SAMPA

  4. Amei o blog, minha alma voltou para São Paulo com suas palavras e quis ficar lá, para conhecer as delícias desta maravilhosa cidade, dos sabores, recantos e encantos desconhecidos que só um olhar curioso como seu pode descobrir.
    desejo muito sucesso! que o blog chegue a milhões de brasileiros. E que saopaulo lhe dê sempre muita inspiração!!

  5. Muito bom, aprendi o que é Cantareira, visitei a Abadia, fiquei com vontade de experimentar os licores, os biscoitos e comprar verduras. Vamos lá ?

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