A coxa nossa de cada dia

Eu não sabia mais o nome do lugar, embora lembrasse, vagamente, que era um ambiente mais do tipo popular do que refinado. Mas a memória das coxinhas ali servidas me aguçava deleites. Acho até que chegaria lá sem titubeios. Ficava na Praça João Mendes, bem atrás da Catedral da Sé.
Eu ia até lá antes mesmo da chegada da primeira linha do metrô que tangencia o local. Apenas pela coxinha. Da estação Sé, é um pulo. Da estação Liberdade, alguns passos.
Não voltava há décadas. Imaginava já nem existirem, lanchonete e coxinha.
De repente, um artigo de Guta Chaves resgata época e sabores guardados no cofre de memórias apetitosas. A colunista revela que o lugar ainda existe. É uma padaria mais que centenária, a Santa Tereza – que se pretende a mais antiga em atividade na cidade. E, segundo a colunista, as coxinhas ainda seriam preparadas do mesmo jeito delicioso de minha recordação (recordar, do latim recordare, voltar ao coração).
Me toquei para a Praça João Mendes. Por elas, como antigamente.
O lugar é mais para vulgar, atulhado de produtos e gente, na fronteira entre higiene e descuido – embora ainda distante da patente insalubridade dos “churrascos gregos” de calçada, comuns por ali. Salvam-no as muitas e curiosas fotos antigas de Sampaulo (no que pese sua distribuição a esmo pelas paredes, sem qualquer critério estético ou cronológico).

Coxa-creme centenária Padaria Santa Teresa

Coxa-creme centenária Padaria Santa Teresa

Mas a coxinha continua campeã. Não é uma coxinha dessas mais comuns, recheada com frango desfiado. É a tal “coxa-creme”, cuja invenção é reivindicada por eles, logo após a inauguração da padaria, em 1872!

Uma coxa mesmo, inteira, com osso e tudo, que recebe uma leve camada de requeijão antes de ser recoberta por massa. Passam-na pela farinha e ganha a frigideira. A ponta do osso fica exposta e é nele que agarramos para cair de boca.
Se vale a viagem? Vale. Não mais como justificativa exclusiva para uma ida à região. Mas se estiver por lá, eu volto. Só que vou preferir me aboletar no salão do primeiro andar, bem mais agradável do que o bulício do térreo.
Já à coxinha da Doceira Ofner, outra campeã da cidade, volto sempre. A diferença é que tem Ofner pra todo lado. Difícil encontrar um shopping de bom padrão sem uma pra chamar de sua. Fora suas lojas de rua, algumas abertas 24 horas. Sou useiro e vezeiro madrugador da que fica na esquina da Nove de Julho com a João Cachoeira, no Itaim. Difícil é escolher entre a coxa-creme (como a da Santa Tereza), a desfiada simples e a desfiada com catupiry. O que decide, nessas horas, é o tamanho da larica. Diferente da coxinha centenária do Centro, esta é servida em ambiente mais sofisticado, também atulhado, mas de guloseimas requintadas. Paga-se mais, evidentemente.

Coxa-creme - encharcada com o bom molho de pimenta - da Ofner

Coxa-creme – encharcada com o bom molho de pimenta – da Ofner

Uma coxinha paulistana que ajuda a construir sucesso e fama do salgadinho mais popular do Brasil é a do Bar Veloso, na Vila Mariana. É acompanhamento perfeito para as extraordinárias caipirinhas do lugar. O Bar Veloso é onde o barman Souza, um dos mais premiados talentos das coqueteleiras do país, inventa moda com cachaças e outros alcoóis. Devo a ele – e a Rodrigo Oliveira, outro cachacier emérito – meu apego exigente à boa pinga. Foi Souza quem me apresentou à piauiense Mangueira, obra-prima dos alambiques da cidade de Castelo.

Caipirinhas do Souza, um patrimônio de Sampaulo

Caipirinhas do Souza, um patrimônio de Sampaulo

Antes de voltar à coxinha perfeita do Bar Veloso, deixe-me indicar-lhe duas de minhas caipirinhas do Souza prediletas – feitas com cachaça, claro: a de limão e gengibre e a de tangerina com pimenta.
Voltando à coxa nossa de cada dia, a do Bar Veloso é servida em porção de meia dúzia. São menores, mas avocam para si o ditado célebre atribuído aos perfumes, o de que os melhores vêm nos menores frascos.
Untuosas na medida, macias de perder a forma, pouco recheio evidente – mas de sabor eloqüente, graças, provavelmente, ao bom caldo que compõe a massa – e de casquinha doura-crocante. Merecem até uma camiseta, vendida no local, com a declaração impressa: “soy loco por ti, coxinha”.

Porção de coxinhas do Bar Veloso

Porção de coxinhas do Bar Veloso

Mas não dá para falar de coxinha em Sampaulo sem viajar até um lugar adoravelmente peculiar: o Santa Coxinha. É fora de mão, mas justifica a viagem.
Pelo petisco e pelo entorno, a bucólica Vila Zelina, enclave de descendentes de lituanos pros lados da Vila Prudente. Imigrantes que enriqueceram Sampaulo com o talento de Lasar Segal, de Celso Lafer, dos Klabin, da apresentadora Angélica…
O Santa Coxinha vale, também, pelo dono do lugar, Matusa, um figuraça que viajou no lance da coxinha e evoluiu desde um trailer na beira da Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello, há coisa de uma década, passando por uma dessas lojas de posto de gasolina até chegar de coxinha em punho à ampla e confortável esquina da Praça República Lituana. E até chegar aos sessenta sabores de coxinha preparados lá. Foi isso mesmo que você ouviu: sessenta sabores, digo, recheios diferentes. Todos no formato acoxalado. E com opções de massa de batata, de mandioca e, até, de arroz. Frita ou assada.
Tem coxinha de cordeiro (com molho de menta à parte), coxinha de couve com aliche, coxinha de bacalhau, coxinha de siri, coxinha mexicana (de carne apimentada), coxinha de rabada com pimentão… Tem até coxinha de feijoada, sem contar as vegetarianas (experimente a de berinjela com tomate seco). Na maior parte das vezes, Matusa acerta nas suas variações sobre o tema da coxinha.

Coxinha de Pato com molho de Laranja, do Santa Coxinha

Coxinha de Pato com molho de Laranja, do Santa Coxinha

Coxinha de Atum com massa de Arroz - Santa Coxinha

Coxinha de Atum com massa de Arroz – Santa Coxinha

Ahhh, claro, o Santa Coxinha tem coxinha tradicional de frango também. Com e sem catupiry.
A lanchonete tem ambientação que remete aos dinners americanos. Matusa é rockeiro e uma coleção de fotos do velho e bom rock and roll é um dos detalhes atraentes da decoração. Além de oferecer uma carta de bebidas que vai do guaraná Jesus – ícone cor-de-rosa do Maranhão, antes impossível de encontrar em Sampaulo, hoje arroz-de-festa até nas gôndolas de supermercados – à cajuína de Teresina.

Dona Alana, no balcão do Delícias Mil

Dona Alana, no balcão do Delícias Mil

E já que fomos tão longe, não deixe de atravessar a rua para fazer um farnel com os acepipes lituanos de Dona Alana, do Delícias Mil. As embalagens de alumínio são próprias para levar e esquentar em casa – mas evite o micro-ondas; são guloseimas muito especiais e merecem forno tradicional, à gás ou elétrico. O Kugelis (torta de batata) é ótimo. O Zukys (bolo de carne) é dos melhores que já comi. E a strudel – de maçã ou banana – envolto em massa folhada é surpreendente.

Coxinha e leste europeu. É… Sampaulo!
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9 ideias sobre “A coxa nossa de cada dia

  1. Fabão (Fábio Gomes), meu querido, me permita acrescentar mais uma casa no roteiro das coxinhas: o FRANGÓ. Fica lá na Freguesia do Ó, na Praça da Matriz. Vale muito a pena uma visita.

  2. Boa Fabão! Ainda bem que li depois do almoço, senão já ia querer sair correndo atrás de alguma dessas guloseimas… Também gosto de fuçar São Paulo atrás de “moscas brancas” e que tais. Quando eu lembrar de alguma dessas, dou um toque!

  3. Tenho certeza que ganhei uns quilos virtuais saboreando esse texto delicioso. E acabei de decidir meu almoço de hoje: coxinha! Super saudável (pra alma dos apreciadores das coisas boas da vida)! Beijo grande

  4. Meu querido, só mesmo você para apresentar com tamanho conhecimento esses mapas de tesouros. Não vejo a hora de estarmos juntos em Sampa, ou em qualquer outro lugar do mundo, e desfrutar de sua amizade e companhia, alimentando a alma, a mente e o corpo.Saudades.

  5. Fabão que delícia de matéria , estou satisfeita com tanta coxinha maravilhosa, me aguarde esse mês para irmos juntas fazer um tour de coxinhas, vou compartilhar para outras pessoas se satisfazerem , beijos.

  6. Fábio, como são deliciosas as suas coxinhas! Sim, tenho certeza de que dei uma prova em cada uma delas à medida que ia saboreando o seu texto!

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