Prateleira de Cântaros II (assim na terra como no céu)

Já houve tempo – faz tempo – em que o urbanivício se apoderou de mim qual patologia crônica. Nessa época, o Globo Repórter invariavelmente pautava mergulhos na natureza selvagem. Pantanal, Amazônia, Mata Atlântica, Parcel de Abrolhos… Eu ouvia a trilha sonora anunciando o programa e corria me lambuzar de Autan, por precaução. Só de olhar para o Ibirapuera, meu pulmão viciado em monóxido de carbono ameaçava síndrome de abstinência, pressagiando ar puro. E olha que eu tinha vinte e poucos anos…. Curou-me, na virada dos anos 70 para os 80, uma temporada de imersão radical na rusticidade paradisíaca da Ilha do Mel paranaense.

Minha paulistanice passou a exigir essas pausas. A fuga nem precisa ser radical, rumo ao deslumbrante parque gaúcho Aparados da Serra, ao delicioso refúgio sul-mato-grossense Caiman ou ao exuberante Ariaú amazonense. Aqui mesmo, nos arredores, dá para fazer as pazes com a natureza e receber suas maternas bênçãos.

Num passeio pela Serra da Cantareira, por exemplo, como o que começamos no último post. Nele, participamos da missa matinal das nove e meia da Abadia de Santa Maria, embalados pelo canto gregoriano das monjas beneditinas que tocam o convento. Saímos de lá abençoados, prontos para encarar uma jornada nessa fronteira norte de Sampaulo.

A parada seguinte não é distante. Em quinze minutos se chega ao portal de entrada do Horto Florestal.

Horto Florestal - uma floreta domesticada, sim...

Horto Florestal – uma floresta domesticada…

... mas ainda assim, floresta

… mas ainda assim, floresta!

Na entrada, repare nas quatro belas azulejarias do ceramista Antônio Paim Vieira que retratam espécies icônicas da flora brasileira (e me diga se o contorno dessas obras, com quase dois metros de altura cada uma, não tem o formato sutilmente – ou ostensivamente, de acordo com a cabecinha lasciva de cada um – fálico). Paim foi o criador da exuberante decoração, também em azulejos, da Igreja Nossa Senhora do Brasil, templo casamenteiro mór da cidade, com agenda sempre lotada e cerimônias se sucedendo incessantemente (não raro com convidados de celebrações diferentes se atropelando na entrada).

Azulejaria na entrada do Horto Florestal

Azulejaria na entrada do Horto

Ao chegar ao Horto, sugiro informar-se na portaria sobre como alcançar o estacionamento interno, com entrada pelo outro lado do parque, junto aos campos de futebol. Nas redondezas do portão principal o estacionamento é parco ou proibido e, não raro, fiscais de trânsito realizam “incertas” com talonário de multas em punho.

O movimento maior do Horto costuma se concentrar no entorno desses campos de futebol, sempre disputado pelos peladeiros da região.

Horto Florestal é o nome de guerra do Parque Estadual Alberto Löfgren, botânico sueco que criou o lugar em 1896.

Hoje, perdemos a noção de exótico. Muito pouco ainda consegue nos surpreender pela excentricidade. Naquela época, sem internet ou cinema – e fotografia mal e mal engatinhando de tão tosca, além de distâncias medidas em semanas de travessia oceânica – imagine-se o arrebatamento que uma palmeira ou uma arara eram capazes de incitar; o fascínio que a exuberância da flora e a extravagância da fauna tropical provocavam nos europeus do passado, particularmente nos nórdicos…

Muitas dessas espécies, animais e plantas, vivem preservadas no Horto.

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Por conta do grande movimento nos fins de semana, à exceção das capivaras que são exibidas e abusadas, bandos de tucanos, maritacas, jacus, garças, socós, mergulhões, jabutis, diversas espécies de macacos, felinos, pacas e esquilos ficam mais ariscos e se mostram menos, aos sábados e domingos. Até porque não lhes falta espaço onde se refugiar, já que apenas um quinto do parque é aberto à visitação. Ainda assim, a segurança de que não serão molestados não os afugenta por completo das trilhas acessíveis e das alamedas bem cuidadas que incitam mesmo os visitantes mais sedentários às caminhadas.

Sem querer derrapar na evangelização eco saudável, não tem quem não sinta os benefícios físicos e espirituais da comunhão com a natureza vigorosa. Um sem número de exemplares de pau-brasil, de pau-ferro, jatobá, coqueiro cerivá, pau-jacaré, papiá, pinheiros – inclusive das exóticas raízes esculturais que sustentam centenários pinheiros-do-brejo – emolduram o passeio. Essas raízes moldam as ilhotas do lago do Horto, como se bordadas pelos delírios arquitetônicos do catalão Gaudi.

Sempre Alerta!

Sempre Alerta!

Duas grandes e quase estilosas construções “civilizam” o ambiente florestal do parque: o Museu Octávio Vecchi e o Palácio de Verão do Governo do Estado. Ambas estão teoricamente abertas à visitação, mas seu acesso fica sujeito ao humor dos guardiões (já ouvi restrições do tipo “a chuva da madrugada deixou o parque muito molhado e sapatos húmidos podem danificar o madeirame do piso” ou, simplesmente, “estamos sem seguranças suficientes no interior do prédio”).

Octávio Vecchi - um museu para as madeiras brasileiras

Octávio Vecchi – um museu para as madeiras brasileiras

O museu tem um acervo pitoresco de trabalhos executados com madeiras brasileiras: mobiliário, machetaria, entalhes, xilografias e alrunas. Não, não foi erro de digitação. Alrunas são peças esculturais, decorativas ou utilitárias, feitas com troncos, galhos e, sobretudo, raízes, cujo formato natural permite aproveitamento com, no máximo, pequenos retoques. O que me leva a concluir que o fabuloso trabalho com madeira calcinada do artista polaco que adotou a cidade baiana de Nova Viçosa como lar, Franz Krajcberg, tem o nome técnico de alruna.

Palácio de Verão - com sorte, visita-se o interior

Palácio de Verão – com sorte, visita-se o interior

O Palácio – na verdade um chalezão garbosamente singelo – abriga uma pequena parcela do acervo artístico do governo de São Paulo. Nada com a relevância, por exemplo, dos Operários de Tarsila do Amaral que ilustra o Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, ou com a vasta e rica coleção do Palácio dos Bandeirantes.  Ainda assim, as litografias de estudos botânicos de João Barbosa Rodrigues vale a visita. Além das exposições transitórias, como uma recente, de ceramistas da cidade serrana de Cunha.

Natural Fit

Natural Fit

No entorno do grande lago central do Horto, os equipamentos rústicos de ginástica, em madeira bruta, atiçam a curiosidade. É irresistível deixar-se alongar nos troncos dispostos com essa finalidade.
Pós caminhada, os músculos como que agradecem.

Água potável

Água potável

Bicas de água fresca e potável brotam aqui e ali, garantindo refresco natural. E imaginar que o fétido Rio Tietê corre não tão distante assim desse oásis natural…

O trecho acessível mais mata fechada e vigorosa do Horto quase oculta um recanto religioso, com imagem em alvo mármore de Carrara (a segunda do dia, depois da Santa Maria Mestra da fachada da abadia), representando São João Gualberto – padroeiro das florestas, encarapitada no alto de uma coluna de madeira de capitel esculpido em arabescos, coberta por um singelo telhadinho de campanário, oferece a oportunidade de uma oração – com a mão em figa de torcida – pela preservação deste santuário urbano da natureza.

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Bateu fome, né?

Depois da missa na Abadia de Santa Maria e da caminhada pelo parque, já cansados e com os espíritos saciados, está na hora de alimentar o corpo. O Horto Florestal não dispõe de restaurantes, lanchonetes ou mesmo quiosques com comida em seu interior. E as opções do entorno da sua entrada situam-se entre o sofrível e o intragável – à exceção de um bem-vindo comércio de restauradora água de coco.

Mas a Cantareira oferece algumas opções tentadoras de almoço neste passeio pelos arredores de Sampaulo.

Assunto para o próximo post…

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Prateleira de Cântaros I (venha a nós o Vosso reino)

Está mais para arredores do que para subúrbio – embora a periferia já vaze por aquela beirada da cidade, subindo as encostas da Serra da Cantareira. Mas ainda dá para experimentar a sensação de ter caído fora da incessantez (incessante insensatez) urbana quando tomamos o rumo norte de Sampaulo, para muito além do bairro de Santana, depois do Mandaqui, adiante da Vila Nova Cachoeirinha…

Serra da Cantareira - longe daqui, aqui mesmo

Serra da Cantareira – longe daqui, aqui mesmo

É uma escapada bem paulistana, particularmente dos que recorrem ao colo da mãe natureza para compensar nosso destino de crias de estufa.

O nome Cantareira remete aos ancestrais tropeiros que cruzavam a região através de trilhas, com paradas onde se refrescavam com a água armazenada em cântaros dispostos em prateleiras, as cantareiras.

Nosso roteiro, se dominical, começa na missa das nove e meia da Abadia de Santa Maria, no bairro Jardim Tremembé – um pé ainda na periferia urbana, outro na floresta se cerrando. Durante a semana, há de se madrugar; a missa é às sete.

Sou católico. Mas sou também ecumênico. Acredito no Deus do Bem, da Tolerância e do Amor. Meu catolicismo é fruto da minha criação. Da cultura em que se formou minha consciência. Por isso, minha fé no Criador está em casa na liturgia da Igreja Católica. Mas todas as religiões professam a divindade do bem, da irmandade com o próximo, da comunhão fraterna com toda a humanidade. Por isso, sinto-me em sintonia com Deus como visitante em qualquer templo de qualquer credo.

Com esse espírito aberto, portanto, não precisa ser católico praticante para se deixar levar pela magia da celebração gregoriana na abadia, en’cantada pelas monjas beneditinas que tocam a vivenda eclesial. Para os fiéis de qualquer religião, é a oportunidade da comunhão com o divino. Para agnósticos e ateus, vale como espetáculo de índole introspectiva, reflexiva, com direito a condizente trilha sonora.

Mas não vá esperando um templo clássico – seja dos coloniais despojados ou dos barrocamente paramentados. O monastério é arrojado de tão moderno. O contraste entre a exuberância da natureza que abarca a construção e as linhas rigorosamente angulares do concreto aparente não é corriqueiro. Por isso impacta.

O traço do arquiteto é virtuoso. Desenho do alemão Hans Broos. A obra tem quarenta anos, se muito. Antes disso, a abadia ocupava um belo casarão no terreno onde hoje se encontra o Hotel Maksoud, a alguns passos da Avenida Paulista.

O novo monastério da Cantareira exige que se entre na propriedade para perceber sua beleza. Não dá para vislumbrá-la a partir da gasta estradinha que a margeia, do lado de fora do proeminente gradil que a cerca. Não espanta que ninguém das redondezas saiba indicar onde fica, mesmo na vizinhança próxima. Nenhuma placa, nada. Nem tente chegar sem o endereço completo em mãos: Avenida Coronel Sezefredo Fagundes, 4650.

Transposto o portão, tem-se que galgar ladeira um tanto íngreme. Mas relaxe, o carro vai até lá. Recebe-nos uma imagem em mármore de Carrara, a um tempo singela e imponente, de Santa Maria Mestra. É o ornamento solitário da vasta lâmina de cimento cru do paredão frontal.

Abadia de Santa Maria - comunhão inusitada entre a natureza exuberante da Criação e a arquitetura arrojada em louvação ao Criador

Abadia de Santa Maria – comunhão inusitada entre a natureza exuberante da Criação e a arquitetura arrojada em louvação ao Criador

Em horário de missa, entra-se diretamente na capela, através de um átrio que concilia rampa de acesso ao convento e canteiro de espécies quase severas de tão monacais. Mas harmônicas, vivazes, intensas…

Fora do horário litúrgico, o acesso passa pela intimidade da abadia, o que permite conhecer um trecho de sua arquitetura interior. Além de apreciar, no percurso, duas belas imagens em tamanho natural de São Bento e de Santa Escolástica.

O templo não é grande, como se espera de uma abadia. Mas sugere monumentalidade que nos apequena; sem oprimir, pelo contrário, libertando-nos, só que para dentro.

O surpreendente interior do templo da Abadia de Santa Maria

O surpreendente interior do templo da Abadia de Santa Maria

Uma característica diferenciada é a disposição dos ambientes internos da igreja. O espaço inteiro é um cubo alto de vidro e concreto. Uma parede com coisa de uns três metros de altura corta o quadrado transversalmente ao meio, partindo de um dos cantos na direção do outro, percorrendo cerca de dois terços da distância total. Esse muro separador é todo em cimento aparente, estampado com relevos geométricos que remetem, aqui e ali, à simbologia religiosa. O altar ocupa o terço restante onde não há parede entre as duas metades do templo, sendo, portanto, acessível ao louvor e admiração de ambos os lados. Um grande mural de triângulos coloridos com uma plácida imagem tracejada do Cristo é o componente menos austero da ambientação.

De um lado da divisória ficam os bancos onde se acomoda a congregação laica para as celebrações. Do outro, protegidas do olhar forasteiro, ficam as estadelas das monjas, dispostas em fileiras frontais (como as que vemos em filmes que mostram as eleições dos papas, arranjadas na Capela Sistina para receber os cardeais).

Outros detalhes, surpreendentes pela originalidade, acrescentam encantamento à visita: a mesa redonda do altar – com design contemporâneo, o confessionário integrado à estrutura, o Ostensório resguardado num cubículo próprio, no meio da divisória que aparta o ambiente público do monacal e, até, o recipiente de água benta em forma de meia coluna de pedra.

Só me causa estranheza o grande crucifixo pendente. Como a imagem fica voltada para o ambiente das monjas, sobra para os fiéis leigos adorar seu perfil.

Depois da missa, é obrigatória uma visita à lojinha da abadia.

Devo minha descoberta da Abadia de Santa Maria a um delicioso licor de pequi que me foi servido no Restaurante Brasil a Gosto, pela talentosíssima chef Ana Luiza Trajano. Ciosa de seus segredos, ela não me abriu o jogo. Disse apenas que o néctar era feito por monjas, nos arredores da cidade. Busca aqui, fuça acolá, a curiosidade me levou até lá.

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Ótimos licores são produzidos pelas monjas da Abadia de Santa Maria

A lojinha das monjas oferece mais do que os licores que, por si só, já justificam sacar-se o talão de cheques, pois cartões ainda não são aceitos. Sou devoto – com o perdão da eventual heresia – do tal licor de pequi, particularmente depois de um estágio no congelador, quando adquire consistência mais espessa, densa, cremosa. Mas elas produzem outros sabores. O de ervas finas se comporta muito bem como digestivo. E ainda tem de canela, de amêndoas, de café, limoncello…. Sem contar as lindas garrafas de cerâmica, arredondadas, acondicionadas em saquinhos artesanais de algodão. Um requinte!

Biscoitos da Abadia - entre eles, o ótimo Bricelet suiço e o extraordinário Spekulatius natalino

Biscoitos da Abadia – entre eles, o ótimo Bricelet suiço e o extraordinário Spekulatius natalino

Além disso, as monjas beneditinas de Santa Maria fazem biscoitos (meu predileto é um sazonal, o Spekulatius, que só é assado no período pré natalino do Advento).

E inventam peças em mosaico, inclusive mesinhas, bancos, caixinhas, capas de agendas… E cartões caligrafados em nanquim sobre pergaminho (alguns já estão disponíveis, prontos, com reprodução de versículos bíblicos e outras citações, como “a vida é curta demais para ser pequena” ou “Deus te guarde na palma de Sua mão”; mas elas topam manuscrever sob encomenda, inclusive convites).

Sem contar as exuberantes hortaliças orgânicas cultivadas por elas na propriedade… Nunca vi manjericão de folhas tão grandes. O aroma está lá, manjericoneamente intenso. Mas o tamanho sugere a composição de saladas, em pé de igualdade com rúculas e alfaces.

Não há como deixar de se sentir acarinhado pela acolhida sorridente das monjas, quando visitamos a abadia. Encanta-nos sua gentileza receptiva, sua piedosa disposição obreira e o fruto do seu esmerado trabalho artesanal que cumpre, à risca, o lema dos beneditinos: “Ora et Lavora” (Prega e Trabalha, em latim).

A Abadia de Santa Maria é só a largada de uma jornada pela Serra da Cantareira. Um start abençoado.

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No próximo post, continuaremos nossa jornada percorrendo esta verde fronteira serrana, ao norte de Sampaulo.