Isenção? Nem pensar!

Ao falar de Sampaulo, vazo paixão.

A cidade me bota de quatro com sua infinita capacidade de me saciar todas as fomes, de encharcar minhas sedes, de me fartar as taras e estimular meus sonhos.

Adolescente, desembarquei na cidade. E, vapt vupt… Virei daqui.

Por mais de uma vez tomei distância. Vivi, ora por meses, ora por anos, em outros brasis e fora dele. Mas nunca deixei de ter uma cama para chamar de minha, arrumada na cidade. Vira e torna estava aqui, dormindo nela.

Hoje, não mais me imponho tais degredos. Até topo sair para dar uma volta por aí, passar uma chuva acolá, dar um mergulho em outras geografias. É excitante como pulada de cerca.

Mas só Sampaulo é lar doce lar. Aqui, não faço cerimônia, afrouxo a guarda (à exceção de quando circulo, cabreiro, sob o vão improvável do MASP).

Quando estou longe, falta alguma coisa da qual minh’alma é dependente. Aqui, o caldo fica no ponto, a quantidade na medida.

Sei, por senso comum, que lhe cabem sufixos de avantajada – mega, hiper, ultra… Mas, engraçado, não a sinto assim desmesurada. Talvez por percorrê-la sempre – e tanto – todos os quadrantes. Esquadrinho Sampaulo por vício. Me move a certeza de que surpresas sempre renovadas se ocultam para todo lado. E como me encanta desvendá-las!

Minha intenção, aqui, é denunciá-las. Tanto as que se escondem sem jactância, debaixo do nariz de todos, quanto as fora de mão, as periféricas que valem a viagem.

Enraizados no centro mais central, como a fieira de lojas especializadas em essências, na Rua Silveira Martins, atrás dos bombeiros, do lado colado da Praça da Sé.

Ou remotas, como o altar da gastronomia que me arrasta a enfrentar mais de duas horas de descidas e contornos da Serra do Mar, até a praia de Camburizinho, para cair de boca nos frutos do mar urdidos por Edinho Engel, no Restaurante Manacá.

Uma abadia de admirável arquitetura aqui, uma animada celebração acolá, um primoroso artesão de chapéus ali, um velho espanhol fritando espirais de churros em plena madrugada, um novo centro cultural do Sesc distribuindo arte com generosidade, uma loja de miniaturas – a Casinha Pequenina – tocada por irmãs anãs, restaurantes que só abrem com hora marcada, ruas inteiras de lojas especializadas em um só produto, bicas públicas de água pura não muito longe de rios fétidos, atletas praticando esportes inusitados, museus de um tudo – até de mágicas!

Casinha Pequenina - Mila e Adriana

Casinha Pequenina – Mila e Adriana

Paulistanos têm vocação para segredos e confidências. Somos tantos que, para não nos perdermos, nos apartamos em grupos, tribos, confrarias… E se há uma coisa que essas irmandades costumam guardar a sete chaves são suas capelas de culto à excelência.

Samba da Vela

Samba da Vela

Quer um exemplo? Os sambistas. Além das vinte duas escolas de samba (só as filiadas à Liga Independente) e suas quadras lotadas nos ensaios de janeiro – sem contar  as dezenas de baladas sambeiras (Ó do Borogodó, Traço de União, Bar Mangueira, Vai se Quiser, Samba da Laje…) e botecos que não perdem o ritmo – os amantes da batucada escondem pequenas jóias, na forma de preciosas rodas de samba, onde ecoam acordes inacessíveis ao comum dos mortais. Como o Samba da Vela. Numa pracinha do bairro de Santo Amaro, às segundas, oito e quarenta e cinco em ponto, uma vela é acesa no centro de uma mesa. Em volta dela, músicos talentosos e, em círculos, uma pequena multidão de aficionados fazem samba de responsa até a vela apagar. Apagou, acaba.

Para além das pequenas congregações, Sampaulo também é pública e notória em suas nações futebolísticas exaltadas pela eterna peleja. Semanalmente, suas multidões marcam encontro em arenas de combate – Pacaembu, Allianz Parque, Itaquerão ou Morumbi. Ali, a paixão exacerba, com alvinegros, tricolores e verdões atropelando lucidez e razão.

Prepare o apetite, pois Sampaulo é banquete.

O que não falta, no cardápio paulistano, é opção. Das emocionantes visitas noturnas ao zoológico à catedral da água na boca, o Mercadão Municipal. De uma rua inteirinha só de lojas de ferragens até a maior celebração gay do universo. De incursões ao extremo oriente – via Estação Liberdade do metrô – a visitas às oficinas dos excelentes artesãos da Vila Madalena e adjacências. Das baladas da hora aos clássicos concertos de uma das melhores orquestras sinfônicas do mundo, na Sala São Paulo. Das monjas licoreiras da Serra da Cantareira aos frades padeiros de São Bento. De um museu dedicado à língua portuguesa ao museu do esporte da Pátria. Das babéis do consumo popular até os exclusivos shopping centers freqüentados pelo crème de la crème social – onde a sessão de cinema tem até garçom que serve pipocas trufadas.

Como em qualquer lugar, aqui também se come mcdonaldemente mal. Mas quando se come bem em Sampaulo, sai de perto. É de excelente prá inesquecível. São centenas, talvez milhares de ótimos chefs, numa multiplicidade de deixar zonzo o michelin mais exigente.

Mercadão Municipal

Mercadão Municipal

Sala de Cinema - Shopping Cidade Jardim

Sala de Cinema – Shopping Cidade Jardim

É esse o cardápio de variadas opções que pretendo servir aqui.

Enquanto isso, dá licença que bateu uma fome… Vou atacar geladeira e despensa. Estou pensando em cortar uma boa fatia do bolo de azeitonas do padeiro Rafael Rosa, da padaria orgânica Pão; cubro com fatias fininhas do salame artesanal do linguiceiro Gijo, da Vila Mariana, besunto tudo com a mostarda extra forte do alemão Diethelm Maidlingev, chef do restaurante Bierquelle, de prá lá do autódromo de Interlagos. E mando ver, agradecendo a Baco poder estar em Sampaulo.

Servido?

Isenção